domingo, 8 de fevereiro de 2015

DEUSES, TÚMULOS E SÁBIOS

Um dia - mais precisamente em 25/12/1967 - eu e meu irmão demos de presente a nosso pai o livro "Deuses, Túmulos e Sábios", pois ele gostava muito de ler sobre arqueologia. Nessa mesma época, eu "tracei" esse livro e fiquei fascinado. Depois, já casado, pedi a meu pai que o emprestasse e li outra vez. Nesse livro, além das marcas em várias páginas (como ele costumava fazer), tem também anotada a data em que o ganhou de presente.

Talvez eu devesse incluí-lo na seção "Reverência" – e não seria má ideia, pois é ótima leitura. Mas a transcrição que vou fazer certamente o direciona para a seção "Religare". e o motivo é muito simples. No capítulo que trata das civilizações mesopotâmicas, há referência a um texto também encontrado na Bíblia, mais precisamente sobre o dilúvio, que me deixou chapado quando o li pela primeira vez.

Parece que hoje há várias explicações sobre essa história ou lenda. Não importa. O texto fala de um herói ou semideus sumério, de nome Gilgamesh ou Gilgamés (como está no livro) que sai pelo mundo em busca da imortalidade. E aí entra o texto do livro. 
Espero que os 3,4 leitores do Blogson curtam também essa descrição (e, quem sabe, animem-se a ler o livro todo).


(...) Decifrando penosamente, Smith continuou lendo como Enkidu morreu de terrível doença e foi chorado por Gilgamés, o qual, para não sofrer igual sorte, partiu em busca da imortalidade. Em suas viagens encontrou Ut-napisti, o antepassado da humanidade, o qual, depois de grande castigo que os deuses haviam infligido a toda a raça humana, se salvara sozinho com a sua família, e os deuses então o fizeram imortal.
E Ut-napisti, o antepassado, contou a Gilgamés a história do seu maravilhoso salvamento. Smith lia cheio de excitação... Mas o que decifrara até esse ponto da epopeia de Gilgamés encheu-o de impaciência. Não podia silenciar, e revelá-Ia equivaleria a provocar uma verdadeira revolução na puritana Inglaterra, inteiramente regida pela Bíblia.

(...) E essa história era a narrativa do dilúvio! Não uma daquelas tremendas inundações que lembravam as mitologias de quase todos os povos, mas a história daquele mesmo dilúvio que a Bíblia viria a contar muito mais tarde. Ut-napisti era Noé! E este é o texto que narra esse dilúvio. (O deus Ea, amigo dos homens, revelou em sonho ao seu protegido Ut-napisti a intenção dos deuses, e Ut-napisti construiu um navio.)

"Tomei comigo tudo o que eu tinha, toda a colheita da minha vida...
carreguei no navio; a família e todos os parentes,
os animais do campo, o gado dos prados e gente de ofício,
tudo embarquei.
Entrei no navio e fechei a porta...

Quando raiou a aurora,
uma nuvem negra se formou ao longo no horizonte...
De súbito, a luz do dia se transformou em noite,
O irmão não vê mais o irmão,
a população do céu não pôde mais reconhecer-se.
Os deuses encheram-se de pavor ante a enchente,
e fugiram e ascenderam ao céu de Anu,
os deuses agacharam-se como cães contra a parede e ficaram imóveis...

Durante sete dias e sete noites
a tempestade e a enchente subiram e o furacão reinou sobre a terra.
Quando rompeu o sétimo dia, a tempestade amainou,
a enchente, antes raivosa como exército em luta,
aplanou, as ondas baixaram, o vento cessou e a enchente não subiu mais.

Espreitei para a água, estava mudo o seu fragor
toda a humanidade fora transformada em lama!
O lodaçal chegava até à altura dos tetos!
Olhei para a terra, para o horizonte do mar,
longe, muito longe, surgia uma ilha.
O navio vogou até ao monte Nissir,
no monte Nissir ele parou e ficou imóvel como ancorado...

Quando despontou o sétimo dia,
enviei uma pomba, soltei-a,
ela voou e voltou, a minha pomba,
porque não encontrou lugar onde pousar, ela voltou.
Enviei uma andorinha, soltei-a,
ela voou e voltou, a minha andorinha,
porque não encontrou lugar para pousar, ela voltou.
Mandei um corvo, soltei-o,
ele voou, o corvo, viu que o espelho da água baixava;
ele come, ele voa em roda, crocita e não volta mais."

Poderia haver ainda alguma dúvida de que fora encontrada a primitiva forma da lenda do dilúvio? Não só era impressionante a semelhança do grande acontecimento, mas a lenda de Ut-napisti apresentava detalhes particulares que ressurgiam na Bíblia, inclusive o da pomba e do corvo, que também Noé soltara.
O texto cuneiforme da epopeia de Gilgamés levantou esta questão perturbadora para a época de George Smith: a verdade da Bíblia teria deixado de ser a mais antiga verdade?
De novo a escavação arqueológica permitira dar um tremendo salto através do passado. Desta vez, porém, abriam-se novas perspectivas: a história de Ut-napisti seria apenas a confirmação da lenda bíblica por outra lenda ainda mais antiga? Não fora tomado por lenda quase tudo o que a Bíblia contava sobre aquela riquíssima terra entre os rios? E não se havia demonstrado finalmente que todas aquelas lendas tinham um fundo de verdade?
Talvez a história do grande dilúvio fosse algo mais do que pura lenda!
E, se assim fosse, até que tempos recuados não remontaria então a história da Mesopotâmia?(...)


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