sexta-feira, 6 de março de 2026

SEM TRADUÇÃO

Minha cama está vazia
Minha casa está vazia
Minha vida está vazia
Têm sido assim os meus dias
 
Pode ser que isso mude
E que alguém talvez me ajude
Fazendo algum sortilégio
Que possa matar o meu tédio
Ou me dê esperança
 
Algo que se espera tanto
Impossível de alcançar
Imagem fugidia do passado
Que pretendo reencontrar
 
Isso sim um privilégio
Um desejo, uma lembrança
Que dê sentido à vida
Que cure uma ferida
Que não quer cicatrizar
 
Não quero apagar o que fiz
Remover a cicatriz
Lembrança de um tempo
Em que fui feliz e infeliz
 
Mas era isso que eu queria
Sabendo que não podia ter
O passado e o presente
Os dois num mesmo dia
 
Agora que estou sozinho
Posso buscar o passado
Trazê-lo para novos dias
Sem culpa e sem pecado
 
Curiosa, estranha ironia:
Um passado se fez presente
O presente se fez passado
Só deixando a nostalgia
 
Mais que isso não direi
Pois dois presentes vivi
E precisei escolher
com qual dos dois eu ficaria
 
Escolha difícil, sofrida
triste escolha de Sofia
Mandar pro passado um presente
Que me alegrava e aquecia
 
E se ninguém me entender
Nada mais posso fazer
Não pretendo traduzir
Aquilo que eu quis dizer
 

quinta-feira, 5 de março de 2026

QUE DUPLA!

 
Segundo o dicionário, “sicário” é um assassino contratado para matar alguém. Deve haver algum erro aí, pois “Sicário” parece ser apenas o capacho do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master – um sujeito mais enrolado que bobina de motor elétrico.
 
Confesso que me espantou a notícia de que esse “Sicário” tentou se matar na Superintendência Regional da Polícia Federal em Minas Gerais, poucas horas depois de ser preso.
 
Sou obrigado a recorrer a uma interjeição bem mineira: Uai, tão rápido assim? Por quê? Tem tanta coisa assim a esconder?
 
Para ser sincero, não sei e nem quero saber. Mas me ocorreu que, se ele conseguisse se enforcar na prisão, talvez surgisse uma manchete curiosa:
 
“Vorcaro e Enforcaro: que dupla!”
 
Brasil, meu Brasil brasileiro…
 

SÁBIAS PALAVRAS!

 


quarta-feira, 4 de março de 2026

AR CONDICIONADO

 




ENCICLOPÉDIA DO ROCK

 
Descobri um perfil no facebook inteiramente dedicado ao velho e bom rock and roll. O dono publica os “line-ups” de várias bandas, tanto as mega conhecidas como as que lembram o caviar do Zeca Pagodinho – “nunca vi, não ouvi, só ouço falar”. Algumas formações são originais, outras já mostram uma das às vezes muitas trocas de integrantes. Várias delas já nem existem mais, com os músicos em carreiras solo ou migrando para outras bandas.

Há um caso bizarro de picaretagem musical: a banda Herman's Hermits da minha juventude hoje tem duas versões, cada uma liderada por dois dos antigos integrantes. E nenhum se chama Herman (aliás, nunca existiu um Herman na banda original). 

Por trazerem as fotos e a data de nascimento de cada um dos músicos, é divertido perceber um traço comum entre a elite e a periferia do rock, que é a aparência ou a idade atual dos músicos, muitos inclusive já falecidos.
 
Sinceramente, fico chocado ou, no mínimo, assustado. Ver essas imagens me fez pensar que não é o rock que está morrendo, são os roqueiros, pois o que tem de gente velha se apresentando ainda, não está escrito. E o bizarro é ver esse povo com cara de “vô”, mas com cabeleiras (aqueles que ainda não ficaram calvos) que matariam de inveja um sansão da vida – não fosse a cor de neve suja que exibem.
 
Um dia o Cazuza cantou “meus heróis morreram de overdose”. Não discuto essa avaliação, pois alguns músicos podem ter abusado um pouquinho, embora haja aqueles que morreram por doença, suicídio ou acidente. Mas o Facebook tem-me feito pensar muito em rock, esse estilo de música que influenciou a moda, a diversão e o comportamento desde que surgiu no início da década de 1950. Talvez por isso alguns digam que o rock morreu ou está agonizante, mas também não discuto essa afirmação.
 
Isso pode até ser verdade no país do agro em que se transformou o Brasil – sim, porque nunca vi tanta fissura por cantores e música sertaneja, aquele estilo em que homens e mulheres usam chapéu de caubói americano, e se comportam como se fazendeiros fossem.
 
E aí, sem precisar olhar para o espelho, eu percebo que apresento a mesma cara de uva passa ou “maracujá de gaveta” que vejo nas imagens dessas bandas. Que merda!
 
Para divertir ou horrorizar quem acessa este blog sem rumo e sem assunto, alguns exemplos das bandas mais “bandaladas” (esta piada foi horrível!):



Ficou alguma dúvida?










terça-feira, 3 de março de 2026

FUI ASSEDIADO!

 
Estou pensando em raspar minha barba, ficar novamente “desbarbado”. Não porque esteja achando ruim ou muito branca (sou velho, tá lembrado?). Na verdade, estou me achando bem melhor até mais atraente, pois a barba disfarçou meu “queixinho esquisito”, na definição de um conhecido. O problema real é crer ter sido ela a causa do assédio que sofri recentemente.
 
Não tendo jamais a beleza de um George Clooney ou Reynaldo Gianecchini e estando mais próximo da aparência de um Didi Mocó, não tenho costume de ver olhares sedutores a mim dirigidos. Mas aconteceu. E isso me assustou, por partir de alguém que nunca imaginaria ser ainda capaz de saliências desse tipo.
 
Deixando o mistério de lado, o caso é o seguinte: fui ontem a um médico angiologista e estava tranquilamente sentado esperando ser atendido. A porta do consultório se abriu e de lá saíram duas mulheres, uma senhora andando com visível dificuldade para andar, amparada por quem imaginei ser sua filha.
 
A velha (spoiler!) acomodou-se na cadeira de rodas e eu gentilmente sorri para ela. Preciso dizer que sou um homem simpático, gentil, educado e atencioso – principalmente com mulheres. Talvez por ser feio de nascença tenha a veleidade de tentar seduzi-las com meu comportamento de hetero afeminado. E descobri que mulher gosta disso!
 
Pois bem, enquanto a filha acertava qualquer coisa com a recepcionista e o médico não me chamava, comecei a conversar com ela. Perguntei se estava tudo bem e, não sei por que ela ou a filha falou alguma coisa sobre idade. E o gentil aqui comentou:
 
- Eu jamais perguntaria a idade de uma mulher!
- Quantos anos o senhor acha que eu tenho?
 
O sedutor assumiu seu posto:
 
- Creio que a senhora deve ter uns sessenta e cinco anos.
 
Isso a faria mais nova que a filha, mas a sina do sedutor é seduzir. E ela respondeu:
 
- Sessenta e cinco? Eu tenho 88 anos – mas não gosto de revelar minha idade, pois olha como tenho a pele lisa.
-Uau! A senhora está de parabéns! Está com aparência de 65!
 
Percebi um sorrisinho de satisfação, mas diria que usei de “liberdade poética” ao afirmar isso.
 
- Quantos anos o senhor tem?
- 75 anos.
 
Aí o olhar da senhora (para não ser grosseiro e dizer "velha") mudou, ficou tipo "farol baixo". E a conversa foi ficando estranha...
 
- O Senhor é casado?
- Infelizmente, fiquei viúvo agora em dezembro.
- O senhor tem telefone?
- Heim? Tenho, quero dizer, tinha, pois pedi para desligar. Agora que moro sozinho...
- Minha filha me levou para morar com ela.
 
Aí o médico me chamou, mas ainda tive tempo de elogiar sua “aparência de 65 anos”. Creio que aquilo deixou a velha meio desestabilizada, pois estendeu a mão para mim, segurando-a um pouco mais longamente que um cumprimento pede. A filha precisou insistir para que fossem para o hall dos elevadores.
 
Ao sair do consultório, a secretária com um sorrisinho maroto no rosto, comentou:
 
- Acho que ela queria te caçar, pois precisou que a filha dissesse a ela para irem embora. E ela reclamou:
- Eu só quero me despedir dele!
 
Sei lá, pelo sim, pelo não, acho que vou raspar minha barba, pois assédio de octogenária é muito para minha cabeça!

domingo, 1 de março de 2026

INSÔNIA

 O homem acorda, olha o relógio e reclama:
- Merda, são três horas ainda!
 
O sono inquieto e curto provocado pelas lembranças de um antigo amor. Vira de lado, cobre, descobre, ajeita o travesseiro e nada de o sono voltar. Levanta-se, liga o computador e começa a digitar.
 
Eu estava pensando que tive a sorte de ter tido dois amores definitivos e definidores na minha vida. Creio que deve ser isso, pois aquela paixão que faz o coração palpitar na iminência do próximo encontro passa com o tempo, mas o amor parece ficar. E não me pergunte como consegui isso, pois eu nunca, nunca mesmo consegui deixar completamente de pensar em você.
 
Estava quieto no meu canto e de repente te via nos lugares mais improváveis: no jardim de infância onde nossos filhos estudavam (você estava absurdamente linda de blusa laranja sem manga e calça preta); grávida na missa de sétimo dia da irmã de sua colega; atravessando o viaduto em sentido contrário ao meu; descendo a escada rolante das Lojas Americanas, coincidências que sempre assopravam as cinzas sobre brasas que nunca se extinguiram.
 
Essas situações sempre me fizeram desejar estar com você, mas não necessariamente para transar, mais para namorar, beijar na boca, coisas assim. Sentimentos estranhos, difíceis de administrar.
 
Outro dia me veio à cabeça um verso do Márcio Borges (irmão do Lô), na canção Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor: “quem sabe isso quer dizer amor, estrada de fazer o sonho acontecer”. Fiquei pensando se nossa história não é exatamente isso – uma estrada que permaneceu ali, silenciosa, à espera de que descubramos se ainda vale a pena ser percorrida.
 
Não sei. Talvez eu esteja apenas compartilhando um pensamento que me visitou. Mas achei que você deveria saber. A vida no campo do “Se”.
 
Relê o texto, passa o corretor de ortografia, lê mais uma vez e se dá por satisfeito. Salva o arquivo, pensando se o enviará para ela, mas agora só quer dormir. E dorme.

SEM TRADUÇÃO

Minha cama está vazia Minha casa está vazia Minha vida está vazia Têm sido assim os meus dias   Pode ser que isso mude E que alguém talvez m...