Este texto introdutório poderia ser dispensável, mas obedece ao meu desejo de sempre registrar a memória das pequenas coisas.
Morávamos na casa de minha avó materna, junto
com oito tios e tias, além de minha avó e meu avô. Éramos duas crianças e doze
adultos. Naquela época, ainda não havia televisão em Belo Horizonte. Depois da "janta", ficávamos perambulando por ali, importunando um pouco, enquanto os
adultos conversavam, até que nossa mãe nos mandava dormir. Como não tínhamos
alternativa, obedecíamos.
Eu, meu irmão e nossos pais dormíamos no
mesmo quarto, em um barracão (edícula) nos fundos da casa. A cama de casal
ficava entre a minha e a de meu irmão. Para nos manter deitados – ou por
qualquer outro motivo (saco cheio dos cunhados, por exemplo) – nosso pai nos
contava histórias. Falava de sua infância em São José dos Oratórios e dos “doidos mansos”
que perambulavam por lá. Entre eles, havia uma mulher meio desaforada, talvez
já um pouco idosa, conhecida como “Sá-Maria-me-Atende”,
que às vezes ia à casa de minha avó pedir esmola ou comida, se não me engano.
Por fim, contou sobre uma carrocinha ou
charretinha que tivera, puxada por um bode branco ao qual dera o nome de
Cabritito. Para nós, meninos criados na cidade grande e sem quase nenhuma liberdade para brincar,
aquelas histórias eram magníficas, melhores que qualquer conto das Mil e Uma
Noites ou algo parecido. Assim, contrariando seu provável desejo de que
adormecêssemos logo, sempre pedíamos mais. Até que as lembranças se esgotaram:
ele já nos havia contado tudo o que podia.
Foi então que teve início a fase ficcional.
Passou a inventar histórias no estilo bangue-bangue ou de filmes de caratê,
lembrando os filmes mudos de Carlitos, sempre com algumas pancadas, chutes na
bunda e bandidos sendo arremessados longe depois de girarem sobre as próprias
cabeças, seguros – pela agora heroína Sá-Maria-me-Atende – apenas por uma perna
ou um braço.
A partir daí, o delírio tomou conta das
histórias (e ele nem bebia!). Logo, o Cabritito casou-se com
Sá-Maria-me-Atende. E o mais curioso é que ela se tornava, ali, a primeira
super-heroína brasileira! Uma super-heroína desconhecida, caipira, meio louca,
casada com um bode e que, além de força física descomunal, voava! E somente eu
e meu irmão sabíamos de sua existência.
Pois é, a primeira super-heroína brasileira
voava graças a um artifício bastante peculiar – batata-doce. Na iminência de
capturar algum criminoso em fuga (que inevitavelmente seria lançado longe após
orbitar ao seu redor, preso por um braço ou perna), a heroína comia batata-doce
e logo começava a soltar flatos, puns, funfas ou peidos – conforme pedirem a
pudicícia e a finesse do leitor. Primeiro, um “po, po, po” contido; depois, ganhava impulso (“Pruuum!”) e, “Fium!”,
saía voando a jato. Era quase impossível dormir depois de tantas emoções!
Contei essas histórias às minhas netas, que
morreram de rir. Então prometi fazer uma historinha em quadrinhos sobre isso.
Sem inspiração para criar o roteiro e sem o talento para desenho do blogueiro
Fabiano Caldeira, recorri ao ChatGPT para cumprir a missão.
E a danada da IA
respondeu assim:
“Que delícia de memória! Dá para transformar isso numa HQ maravilhosa,
misturando nostalgia, humor escatológico infantil e um toque poético de
‘super-heroína rural secreta’. Vou sugerir duas páginas, seis quadros cada, já
com descrição visual, falas e ritmo de humor.”
As descrições e falas sugeridas ficaram bem
interessantes. Por isso, corrigi apenas algumas coisas, descartei outras e pedi
que a IA gerasse as imagens. Aí o bicho pegou: não houve meio de o ChatGPT
produzir imagens sem erros. Isso consumia o limite ou “verba” de geração, obrigando-me a esperar até
doze horas para tentar novamente, após receber a seguinte mensagem:
“You've hit the free plan limit for image generation
requests. You can create more images when the limit resets in 9 hours and 59
minutes.”
A brincadeira para agradar minhas netas
começou a ficar estressante, pois algumas imagens simplesmente nunca saíam como
eu reiteradas vezes solicitava. Surgiam coisas absurdas: a heroína com três
braços, um bandido com corpo de bode e o bode com cabeça de bandido etc. Essa
cena foi gerada nove vezes, sempre com resultados estapafúrdios, até que desisti
de utilizá-la.
Para chegar a um resultado minimamente
aceitável que pudesse mostrar às netinhas, abri mão de oito ou mais quadros,
que acrescentariam mais de uma página à história e que poderiam ter deixado a
HQ com um aspecto mais completo.
Além disso, precisei retalhar e remontar toda
a narrativa com os quadros remanescentes, alguns inexplicavelmente em padrão
diferente dos demais. Foi uma luta!
No fim das contas, o resultado – embora menor
do que poderia ter sido – ficou “bonzinho”. Apenas para as netinhas,
obviamente. E sempre lembrando que tudo foi feito pelo ChatGPT, tendo eu apenas
intervindo (muitas vezes sem sucesso) para melhorar ou corrigir o que essa IA tresloucada e geniosa produziu. Se eu fosse o talentoso Fabiano Caldeira,
certamente teria saído uma historinha melhor e com traços mais homogêneos, o
que não aconteceu. Enfim…
A seguir, a
HQ frankenstein (espero que pelo menos as netinhas gostem):
