Dizem que há muito, muito tempo (técnica para tornar imprecisa a data), viveu uma princesa bela como Branca de Neve – a quem a escumalha maledicente dizia sentir uma atração secreta e doentia por sete homenzinhos verticalmente prejudicados (anões, entendeu?). Mas beleza era o único ponto a unir essa personagem de história da carochinha com a outra, de crônica da carochinha (crônica sim, porque este narrador é preguiçoso e não gosta de escrever muito. E nem me perguntem o significado de “carochinha”!).
Blogson Crusoe
O blog da solidão ampliada
quarta-feira, 11 de março de 2026
VAZEZINHO!
Dizem que há muito, muito tempo (técnica para tornar imprecisa a data), viveu uma princesa bela como Branca de Neve – a quem a escumalha maledicente dizia sentir uma atração secreta e doentia por sete homenzinhos verticalmente prejudicados (anões, entendeu?). Mas beleza era o único ponto a unir essa personagem de história da carochinha com a outra, de crônica da carochinha (crônica sim, porque este narrador é preguiçoso e não gosta de escrever muito. E nem me perguntem o significado de “carochinha”!).
segunda-feira, 9 de março de 2026
VÔ, ME CONTA SUA HISTÓRIA?
Sentados nos sofás da sala, um de frente para o outro, um homem idoso absorto na leitura de um dos livros de memória de Pedro Nava. Do outro lado, uma jovem teclando seu inseparável smartphone. De repente, ela para, olha para o homem e pergunta:
- Que livro é esse?
- Ahn? É um dos sete livros que o médico e memorialista Pedro Nava escreveu contando suas lembranças.
- Sete livros? Pô, esse tinha caso pra contar!
- Ele tinha uma memória poderosa, mas também utilizava cartas, retratos antigos e lembranças diversas que guardava.
- Legal!
- É sempre bom ouvir casos de épocas passadas. Os franceses chamam isso de “petite histoire”: a história de objetos e pessoas comuns, anônimas, mas nem por isso menos interessantes.
- Eu? Não tenho história para contar.
- Aposto que tem! Conta aí a história de uma paixão secreta do passado. Pode ser do presente também, se tiver.
- Revolver o passado nem sempre é bom.
- Besteira! Agora que vovó morreu, você pode contar o que quiser para mim. Eu juro que fica só entre nós. Conta aí, vai!
- Tá bom. Vou contar de uma paixão que se misturou com o relacionamento que eu e sua avó tivemos, como se fosse um bordado, um trançado de linhas que volta e meia se cruzavam e que eu tentava manter em segredo.
- Eba! Já tô curiosa!
- Eu a conheci muito antes de sua avó...
- Pera aí: como ela se chama?
- Você quer uma história ou uma biografia?
- Tá, desculpe. Não vou mais te interromper.
- Vamos chamá-la de Jô, está bem?
- OK.
- Foi em uma hora-dançante. Eu a chamei para dançar e ela aceitou. Eu dançava horrivelmente mal, era tímido, bobo e inexperiente. Deus, como eu era inexperiente! Talvez eu tenha tentado dançar de rosto colado, mas creio que ela travou e logo disse que iria parar. Não me lembro mais o que aconteceu depois disso, só sei que ela disse onde morava, o que talvez eu tenha interpretado como um convite.
- E você foi lá?
- Claro, eu queria arranjar uma namorada! Mas foi uma ducha fria, pois uma amiga dela não nos deixou a sós nem por um segundo. Agora imagine a situação: um jovem tímido, bobo e inexperiente, sem saber como agir. Não havia nada a fazer e eu tive de ir embora. Está gostando da história?
- Estou, mas esperando mais ação, romance, surpresa.
-Só depois que trouxer um café para mim. E traga água também, para molhar a garganta.
- Beleza.
- Continua!
- Logo no início do namoro com sua avó, eu ainda tinha “passe livre” para ir a horas dançantes depois de sair de sua casa. E era isso que eu fazia. Em uma dessas vezes, quem eu encontro?
- Já sei, a Jô!
- Claro! Eu não sei o que acontece comigo, o que sempre aconteceu comigo, parece que eu fui enfeitiçado, magnetizado pela Jô. Aí a chamei para dançar. Ela concordou, sem demonstrar muito entusiasmo. Mas aí aconteceu um “milagre”: a música que passou a ser tocada era daquelas que se dança separado.
- Ahahah, nem imagino você dançando assim!
- Naquele tempo, as danças já surgiam com passos coreografados e eu estava “up to date”, como dizem. Eu sabia a coreografia da nova dança. Quando me viu dançando assim, ela chamou uma amiga para me ver.
- Eita!!!!
- Pois é, eu me senti o rei da cocada. Quando a música lenta recomeçou, ela se aconchegou, e se aninhou em meu peito, a gata se transformando em gatinha. Mas era tarde, pois eu já namorava sua avó.
- E ficou por isso mesmo?
- Bom, teve ainda uma festa junina que era o que havia de mais top na época. Também fui sozinho – e lá estava ela. Ficamos a noite toda juntos, aos abraços e beijos.
- Acho engraçado ver você contar esses casos, seus olhos brilham ao falar dessa mulher. Ela era bonita?
- Era... e ainda é.
- E aí, que rolou depois?
- Aconteceu um fato curioso. Como eu estava com a cabeça super confusa, comecei a fazer terapia perto da Praça Sete. Não sei como, mas meu irmão encontrou com ela e contou que eu não andava muito bem. Acredita que ela apareceu na casa da minha avó? Eu estava saindo para a terapia e ela me ofereceu carona. Tinha acabado de ganhar um carro do pai e estava toda feliz.
- Me deixou no centro
e foi embora. Depois disso, foi de novo lá em casa, me pegou e acabamos parando
em rodovia , debaixo de um viaduto. Estávamos nos beijando quando chegou a
polícia rodoviária e nos mandou vazar dali.
- Sacanagem, nem uma mão no peitinho?
- Minha filha, você está falando com seu avô!
- E daí? Isso é tão normal!
- Pode ser hoje, mas naquele tempo não. Além disso, eu era muito, muito bobo e inexperiente.
- Nem imagino você assim!
- Deixa eu continuar mais um pouco, pois já estou cansado.
- Manda!
- Teve também o lance do vestibular. Como eu já tinha entrado na faculdade, consegui uma boquinha para trabalhar de fiscal no próximo vestibular. Estou lá tranquilão, quando quem vejo chegar?
- A Jô, claro. Tô achando que essa mulher tem super poderes ou GPS para te localizar!
- Pois é... Ela estava estonteantemente linda, toda de branco. Naquele momento o Mineirão era utilizado para as provas. Por isso perguntei qual era o setor onde ela ficaria. Peguei emprestado um binóculo do exército e comecei a procurá-la do outro lado do estádio, pois não podia sair do meu posto. E achei.
- Que mais, só isso?
- Eu preferia não entrar em mais detalhes, pois o caso fica meio constrangedor.
- Cê tá querendo escapulir, né? Mas vamos fazer assim: você para agora, mas continua amanhã, fechou?
- Combinado.
Mas a neta nunca ficou sabendo o resto daquela história banal do avô, pois pela
manhã, estranhando a demora dele para o café, foram até o
quarto onde dormia. Encontraram-no morto,
com os olhos abertos e um sorriso congelado em sua boca.
- Sacanagem, nem uma mão no peitinho?
- Minha filha, você está falando com seu avô!
- Pode ser hoje, mas naquele tempo não. Além disso, eu era muito, muito bobo e inexperiente.
- Nem imagino você assim!
- Deixa eu continuar mais um pouco, pois já estou cansado.
- Manda!
- Teve também o lance do vestibular. Como eu já tinha entrado na faculdade, consegui uma boquinha para trabalhar de fiscal no próximo vestibular. Estou lá tranquilão, quando quem vejo chegar?
- A Jô, claro. Tô achando que essa mulher tem super poderes ou GPS para te localizar!
- Pois é... Ela estava estonteantemente linda, toda de branco. Naquele momento o Mineirão era utilizado para as provas. Por isso perguntei qual era o setor onde ela ficaria. Peguei emprestado um binóculo do exército e comecei a procurá-la do outro lado do estádio, pois não podia sair do meu posto. E achei.
- Que mais, só isso?
- Eu preferia não entrar em mais detalhes, pois o caso fica meio constrangedor.
- Cê tá querendo escapulir, né? Mas vamos fazer assim: você para agora, mas continua amanhã, fechou?
- Combinado.
domingo, 8 de março de 2026
QUE DIA!
Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Parabéns! Mas os outros 364 também deveriam ser dias internacionais da mulher. Só assim, quem sabe, acabaria essa explosão de feminicídios que a mídia divulga.
Procuro evitar comparações
A minha vida continua
Mas é certo que eu seria sempre seu
sábado, 7 de março de 2026
sexta-feira, 6 de março de 2026
SEM TRADUÇÃO
Minha
cama está vazia
Minha casa está vazia
Minha vida está vazia
Têm sido assim os meus dias
Pode
ser que isso mude
E que alguém talvez me ajude
Fazendo algum sortilégio
Que possa matar o meu tédio
Minha casa está vazia
Minha vida está vazia
Têm sido assim os meus dias
E que alguém talvez me ajude
Fazendo algum sortilégio
Que possa matar o meu tédio
Ou me dê esperança
Algo
que se espera tanto
Impossível de alcançar
Imagem fugidia do passado
Que pretendo reencontrar
Isso
sim um privilégio
Um desejo, uma lembrança
Que dê sentido à vida
Que cure uma ferida
Que não quer cicatrizar
Não
quero apagar o que fiz
Remover a cicatriz
Lembrança de um tempo
Em que fui feliz e infeliz
Mas
era isso que eu queria
Sabendo que não podia ter
O passado e o presente
Os dois num mesmo dia
Agora que estou sozinho
Posso buscar o passado
Trazê-lo para novos dias
Sem culpa e sem pecado
Curiosa,
estranha ironia:
Um passado se fez presente
O presente se fez passado
Só deixando a nostalgia
Mais
que isso não direi
Pois dois presentes vivi
E precisei escolher
com qual dos dois eu ficaria
Escolha
difícil, sofrida
triste escolha de Sofia
Mandar pro passado um presente
Que me alegrava e aquecia
E
se ninguém me entender
Nada mais posso fazer
Não pretendo traduzir
Aquilo que eu quis dizer
Impossível de alcançar
Imagem fugidia do passado
Que pretendo reencontrar
Um desejo, uma lembrança
Que dê sentido à vida
Que cure uma ferida
Que não quer cicatrizar
Remover a cicatriz
Lembrança de um tempo
Em que fui feliz e infeliz
Sabendo que não podia ter
O passado e o presente
Os dois num mesmo dia
Posso buscar o passado
Trazê-lo para novos dias
Sem culpa e sem pecado
Um passado se fez presente
O presente se fez passado
Só deixando a nostalgia
Pois dois presentes vivi
E precisei escolher
com qual dos dois eu ficaria
triste escolha de Sofia
Mandar pro passado um presente
Que me alegrava e aquecia
Nada mais posso fazer
Não pretendo traduzir
Aquilo que eu quis dizer
quinta-feira, 5 de março de 2026
QUE DUPLA!
Segundo o dicionário, “sicário” é um assassino contratado para matar alguém. Deve haver algum erro aí, pois “Sicário” parece ser apenas o capacho do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master – um sujeito mais enrolado que bobina de motor elétrico.
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