sábado, 25 de abril de 2026

DADO

 
Talvez eu já tenha contado aqui no blog que o Dado (Eduardo), meu irmão mais velho, está com Alzheimer. Fiquei muito triste quando soube disso, principalmente por conhecer os efeitos da progressão dessa doença.
 
Outro dia, refletindo sobre isso, me ocorreu que a genética da família Alvarenga talvez tenha contribuído para tantos casos de demência na família “Alvarenga Botelho”, à qual pertenço. Vejam só: minha avó materna, sua irmã, minha mãe, meu irmão, um primo e uma prima seis anos mais jovens que eu e o caso mais bizarro atualmente: uma das irmãs de minha mãe de repente tira a roupa toda e fica nua dentro de casa. E esses são os casos que conheço!
 
Por outro lado, a família Botelho, de meu avô materno, parece ter recebido o oposto: uma genética arretada de boa para a longevidade. Um dos irmãos do meu avô morreu com 103 anos; a irmã mais velha de minha mãe viveu lúcida até os 104; fora tantos outros acima dos 90. Imagino que meu avô também viveria muito, se não tivesse sido atropelado a caminho da casa de sua segunda família (ele teve duas). Curioso, não?
 
Torço para que sejam premonitórias as palavras que ele disse um dia sobre mim – “aquele ali me puxou!”. Sobre meu irmão, infelizmente, não se poderia dizer o mesmo. Só sei que por enquanto, estou como o sujeito que despenca de um prédio muito alto e, antes de se esborrachar no chão, pensa: “até aqui está tudo bem”.
 
Mas estou divagando. O que eu queria registrar mesmo é o encontro que tive ontem com meu irmão, depois de dezesseis anos sem nos falarmos. “Por conta de umas questões paralelas”, paramos de conversar desde o dia em que disse que se lembraria que no ano em que nossa mãe faleceu, eu também morri para ele.
 
Fiquei meio puto com isso, mas meu espírito meio avacalhado me impediu de sofrer ou me preocupar mais do que devia. Cheguei a brincar que, nesse caso, só voltaríamos a nos falar no Centro Espírita Oriente – apesar de meus filhos e meu cunhado sempre insistirem para que eu mudasse de ideia. O problema é que eu sou doce no trato, mas um ogro nas decisões. E nem acredito em espiritismo
 
E assim ficou – até eu saber da doença. Acreditando que não haveria sentido em visitar quem nem se lembrava de ter um irmão, resolvi gravar uma mensagem de voz para que minha cunhada mostrasse para ele. Gravei mais ou menos isto:
 
Oi, Dado, aqui é seu irmão Zé – um irmão de quem você talvez nem se lembre mais, depois de tanto tempo sem nos falarmos. Mas hoje me deu uma vontade danada de te mandar uma mensagem, só para dizer que te amo, que sempre te amei e que nunca deixei de te amar.
Ao longo da minha vida, você foi meu ídolo, exemplo, mentor, incentivador, companheiro de brincadeiras na infância, meu melhor amigo, parceiro de baladas e roubadas quando já éramos jovens adultos. E isso eu nunca esquecerei.
O tempo, os equívocos, as palavras ditas de forma passional nos afastaram como se fôssemos inimigos. Mas nós não somos inimigos. Eu, pelo menos, nunca fui seu inimigo. Quando ainda ia à missa, eu rezava por você e para você.
Hoje estou velho, com 75 anos, cabelos brancos, barba branca. Às vezes me bate a sensação de que não vou viver muito mais. Por isso eu pensei em te mandar esta mensagem antes que eu me vá definitivamente, uma mensagem de amor fraternal.
Então é isso, cara: eu te amo muito. A vida inteira te amei.
 
Minha cunhada disse ter perguntado a ele se tinha gostado da mensagem. Ele apenas respondeu: “Não sei”. Achei graça da resposta e não fiquei mais triste do que já estou com as notícias que recebo sobre ele. Por isso, resolvi visitá-lo.
 
Depois de dezesseis anos sem vê-lo, encontrei um homem naturalmente envelhecido: um pouco encurvado, cabelos ralos, rugas, mas o mesmo olhar sério, a mesma expressão de impaciência que sempre exibiu. A diferença apareceu quando comecei a conversar e a fazer perguntas sobre nosso passado. As respostas eram sempre as mesmas: “não sei”, “não conheço”, “nunca vi”. Disse também que está “com a cabeça vazia”, que está "muito velho", pois tem "94 anos" (ele tem 78). E que viverá "só mais três anos".
 
Isso me fez pensar que o irmão que eu conheci está bem, mas já se foi para algum lugar distante daqui, deixando apenas um clone, um sósia idêntico fisicamente, mas de quem pouco se espera.
 
Ao me despedir, disse que o tinha ido visitar apenas para abraçá-lo. E foi o que eu fiz com todo carinho, beijando também suas bochechas caídas. Voltei feliz para minha casa, mais feliz do que ao sair para visitá-lo. E esta é a mensagem final:
 
Só lamento que muita gente não se dê conta do absurdo prazer de escancarar o coração, da imensurável alegria de dar ou receber um abraço de quem se ama, sem motivo, sem data especial, simplesmente porque isso é bom, simplesmente porque isso é ótimo.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

SONHO DE CONSUMO

 Recebi esta mensagem hilária de meu filho:

A Lelê e a irmã estavam voltando da escola, quando a Lulu disse:

- Eu queria ter escravos!
 
Surpreso, o pai perguntou para que, e ela respondeu:
- Para fazer meu dever de casa.
 
Aí a Lelê entra na conversa e fala:
- E se eles não soubessem desenhar direito?
 
A Lulu completa:
- Eu teria artistas, artistas escravos!
 
E pensar que essas maluquinhas têm apenas oito anos!

quinta-feira, 23 de abril de 2026

ÍCONE

 
O assunto hoje é o Pi, ou melhor, o número Pi – ou π, sua representação oficial. Na verdade, ele serviu apenas para mais uma definição jotabélica.
 
Antes, “vamos voltar à pilantragem”, como diria o finado Wilson Simonal: lembrando do que foi ensinado na escola, o número Pi é igual ao comprimento de uma circunferência dividido pelo diâmetro dessa mesma circunferência. Simples assim. Só que nem tanto, porque o número resultante dessa divisão tem infinitas casas decimais depois da vírgula.
 
Descobri na internet que o maior número já calculado até hoje tem (pasmem!) 100 trilhões de dígitos, um “pouquinho” a mais do que o 3,1416 que eventualmente era utilizado nas aulinhas de matemática do curso médio. Em outras palavras, sendo um número irracional, o número π é infinito.
 
Mas não é proposta desta postagem fazer revisão de matéria para o ENEM, o papo aqui é outro. E muito mais bonito. Tenho quatro filhos a quem não me canso de dizer, de demonstrar sentir um amor infinito por cada um deles. E foi aí que entrou o conceito do número Pi: o amor que sinto por meus filhos é um amor Pi, um amor infinito.
 
Isso também pode ser aplicado ao novo relacionamento que estou vivendo, que me entontece e perturba a cabeça. Como cantou o Silvio Cesar. “Pra você eu guardei um amor infinito”.
 
Para sintetizar este pensamento, pedi ao ChatGPT para criar um ícone do amor infinito. E ele criou. Olha só que bacana:


E este é o comentário final: se você sente um amor infinito por alguém, mande para ele ou ela o coração π.


terça-feira, 21 de abril de 2026

CONTO DE FADAS

 
Como todo mundo deve se lembrar, os contos de fadas lidos na infância são cheios de reis, princesas, magos e feitiços, não é mesmo?
 
Mas, quando alguém, inspirado nessas leituras, resolve escrever um conto de fadas com conteúdo adulto, acaba produzindo um conto de fodas.
 
(Jotabê, com seus trocadilhinhos de azedar o fígado)

segunda-feira, 20 de abril de 2026

DESMISTIFICANDO MITOS

Foram difíceis momentos
O tempo todo em conflito
Tentando entender sentimentos
Desmistificar o mito
De que se ama só uma vez
 Que bobagem”, pensei comigo
Não é isso que o coração me diz
Não é só atração, desejo, paixão
É mais, muito mais que isso
Abandonei o medo e aflição
Tentando, sonhando acalmar
Um coração assustado, aflito
E definitivamente proclamar
O amor que tenho sentido
Um amor antigo, bonito
Que julgava desaparecido.

Se gostou, ainda tem o auxílio luxuoso da SunoAI, que musicou o poema. Escutaí

https://suno.com/song/63cc8925-d02b-4c77-861b-e05d2760471f


sábado, 18 de abril de 2026

PROPAROXÍTONO

Hoje me ocorreu estar vivendo um relacionamento proparoxítono, pois há nele algo de místico, de mágico, de cósmico – tantas são as coincidências que aconteceram ao longo dos anos e que serviram para nos reaproximar. Ela diz que eu sou seu “número”; isso me diverte e torna lúdico o momento atual e, por isso mesmo, único. Mais proparoxítono, impossível!


sexta-feira, 17 de abril de 2026

MIL PERDÕES - GAL COSTA

 
Recentemente fiquei todo feliz porque alguém disse que “eu conheço a alma feminina”. Para um hetero cisgênero, isso é um baita elogio. Mas não chego nem aos pés do Chico Buarque nesse quesito (em outros também), pois o cara não só conhece a alma feminina, como se inspira nesse conhecimento para compor músicas lindíssimas.
 
E uma das mais bonitas é “Mil perdões”, na voz da Gal Costa. Não estou mentindo quando digo conseguir perceber o momento em que ela ironicamente exibe seu sorriso do "gato de Alice" ao cantar o verso: “Te perdoo por te trair”.
 
Em tempos de tantos feminicídios e de violência cometida por homens contra suas companheiras, só o primeiro verso dessa música já soa quase como um alerta do que não deveria caber em uma relação. Olha que maravilha:
 
Te perdoo por fazeres mil perguntas que em vidas que andam juntas ninguém faz
Te perdoo por pedires perdão, por me amares demais, te perdoo
Te perdoo por ligares pra todos os lugares de onde eu vim
Te perdoo por ergueres a mão, por bateres em mim, te perdoo
Quando anseio pelo instante de sair e rodar exuberante e me perder de ti
Te perdoo por quereres me ver aprendendo a mentir, te perdoo
Por contares minhas horas nas minhas demoras por aí
Te perdoo, te perdoo porque choras quando eu choro de rir
Te perdoo por te trair



 
 

DADO

  Talvez eu já tenha contado aqui no blog que o Dado (Eduardo), meu irmão mais velho, está com Alzheimer. Fiquei muito triste quando soube d...