quinta-feira, 28 de maio de 2026

TAGORE

 
Talvez, por ter ficado viúvo em dezembro (momento tristíssimo, devastador), deve ter sido em janeiro passado que ganhei de uma amiga o livro A morte é um dia que vale a pena viver, escrito por uma médica especialista em cuidados paliativos, prestados a doentes em estágio terminal e a seus familiares.
 
Comecei a lê-lo, mas a leitura não progredia. Só agora, durante a semana em que me afastei do blog e de toda a internet, consegui, recomeçando do zero, chegar ao final.
 
Em uma de suas páginas encontrei um poema de Rabindranath Tagore, prêmio Nobel de Literatura em 1913. Tagore foi um polímata indiano – poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta, compositor, pintor, filósofo, reformador social, educador, linguista e gramático – e o primeiro asiático a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura.
 
O resto, para quem se interessar em conhecer um pouco mais, já sabe: Wikipédia, internet etc. Porque minha intenção é apenas postar aqui, neste blog desclassificado, o poema que li. Bora lá.
 
Não me deixe rezar por proteção contra os
perigos, mas pelo destemor em enfrentá-los.
 
Não me deixe implorar pelo alívio da dor, mas
pela coragem de vencê-la.
 
Não me deixe procurar aliados na batalha
da vida, mas a minha própria força.
 
Não me deixe suplicar com temor aflito
para ser salvo, mas esperar paciência para merecer a liberdade.
 
Não me permita ser covarde, sentindo sua
clemência apenas no meu êxito, mas me deixe
sentir a força da sua mão quando eu cair.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

SALIVA

 
Talvez seja bobo eu repetir palavras
Reexibindo sentimentos antes represados
Mas às vezes eu me sinto afogando em um mar
De emoções que não me deixam respirar
 
Adolescente diante da menina que olha para ele
Com olhos de promessa e sorrisos de sedução
E tudo o que esse jovem deseja é aspirar
Sorver o ar que sai da boca da menina
 
Pois tudo o que ele quer é estar com ela
Todo o tempo, o tempo todo, abraçá-la sem parar
Passar a língua em seus lábios, beijar sua boca,
Provar da sua saliva, sentir seu perfume,
 
Mexer em seus cabelos,
Fazer carinhos em seu rosto
Beijar e morder sua nuca.
E, como num passe de mágica, perceber
 
Que estão deitados nus, abraçando-se
A dançar um bolero horizontal
Uma música que só os dois escutam
Sem hora para acabar, sensual.
 
E aí eu saio desse transe e descubro
Estar sozinho.  Mas não me conformo e digo
Para o espelho que é isso que eu quero
É ela que eu desejo, é tudo o que preciso.

terça-feira, 26 de maio de 2026

FORUGH FARROKHZAD? MUITO PRAZER!

 
Você consegue imaginar que no teocrático Irã atual já existiu uma autora de poemas transgressores e sensuais? Pois é, eu não sabia. Segundo a Wikipédia, “Forugh Farrokhzad, foi uma influente poeta e diretora de cinema iraniana. Ela foi uma controversa poeta modernista e uma autora iconoclasta e feminista. Farrokhzad morreu em um acidente de carro aos 32 anos”, em 1967, antes, portanto da chegada do aiatolá Khomeini. Mesmo assim, fica a pergunta: teria sido mesmo acidente? Se quiser saber mais, por favor, peça ao Google, ao ChatGPT, ao Donald Trump ou em quem você pensar. Meu negócio é publicar, divulgar um de seus poemas. Lê aí.

 
O PECADO
Cometi um pecado cheio de prazer,
num abraço quente e ardente.
Pequei rodeada por braços
quentes, vingadores e de ferro.
 
Naquele recanto escuro e silencioso,
olhei em seus olhos cheios de segredos.
Meu coração impacientemente palpitava em meu peito,
em resposta ao anseio de seus olhos.
 
Naquele recanto escuro e silencioso,
sentei-me desgrenhada ao seu lado.
Seus lábios derramaram paixão sobre os meus,
e escapei da dor do meu coração enlouquecido.
 
Sussurrei em seu ouvido a história do amor:
Eu te quero, ó minha vida,
eu te quero, ó abraço que dá vida,
ó meu amante enlouquecido, você.
 
O desejo acendeu uma chama em seus olhos;
o vinho tinto dançava na taça.
Na cama macia, meu corpo
embriagado tremia sobre seu peito.
 
Cometi um pecado cheio de prazer,
ao lado de uma forma trêmula e estupefata.
Ó Deus, quem sabe o que fiz
naquele recanto escuro e silencioso.

domingo, 24 de maio de 2026

BACK HOME

 
No ônibus, voltando da casa de meus filhos – sim, porque minha nora é uma queridíssima filha do coração – lembrei-me da música Back in Bahia, composta e gravada em 1972 pelo Gilberto Gil em sua volta do exílio a que foi submetido. Alguns versos têm tudo a ver com o que estou sentindo agora. E a música é muito boa!
 
Hoje eu me sinto
Como se ter ido fosse necessário para voltar
Tanto mais vivo
De vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá



segunda-feira, 18 de maio de 2026

AVISO AOS NAVEGANTES

 A partir de hoje e até o dia 23 ou 24 não acessarei blogs amigos, não publicarei nem comentarei nada. Só na volta, se tiver assunto, publicarei alguma coisa. Até lá o blog ficará sem novidades, mas respirando sem auxílio de ventilação mecânica. See you later alligator!

https://www.youtube.com/watch?v=1Hb66FH9AzIhttps://www.youtube.com/watch?v=1Hb66FH9AzI


domingo, 17 de maio de 2026

DE MÃOS DADAS

 
Em BH, cidade onde moro, existe uma rua do chamado “baixo centro”, bem na periferia da área central, que é “rua de zona”. Sempre foi, embora mais bem frequentada na década de 1920, por aí. Nessa rua, além do sofisticado Montanhês Dancing, ficava o bordel onde Ana Furacão “batalhadava”.
 
Hoje, além de alguns hotéis de altíssima rotatividade, há lojas de atacado, papelarias, lojas de produtos populares e até uma igreja evangélica. Uma vez, para comprar algum tipo de embalagem em maior quantidade, estacionei o carro quase em frente a um desses “hotéis”. Meu amigo, o entra e sai de homens de todas as faixas etárias era impressionante! Isso me fez pensar que um produto tipo hipoglós deve vender bem por ali.
 
Mas estou muito longe do tema de hoje. O que mais chamou minha atenção foi a quantidade de idosos subindo e descendo as escadas desse e de outros puteiros da região. E aí surgiu em minha mente uma teoria miojo (aquela que é formulada em três minutos e o resultado é sempre uma merda), sobre que tipo de comportamento mais incomoda nossa sociedade hipócrita e preconceituosa. Sem paciência para detalhar meu pensamento, pedi ao ChatGPT para criar um conto ou crônica, depois de municiado com o que pensei. Este foi o prompt imaginado, a “munição” a utilizar:
 
“Imaginei um país distópico, talvez ditadura ao estilo de 1984, que define e promulga um decreto estabelecendo os direitos, deveres, proibições e punições dos idosos. Algo assim:
'Fica decretado que idosos não podem namorar, assim definidos atos e comportamentos que envolvam carícias próprias de adolescentes, tais como troca de beijinhos em público ou andar nas ruas de mãos dadas, abraçados. Tal comportamento é considerado atentado violento ao pudor, passível de internação em asilos.
Não é permitido aos idosos se apaixonar. Aos idosos só cabe o direito de ter amantes, usar os serviços de garotas e garotos de programa com a finalidade única de fazer sexo, vulgarmente conhecido como transar, trepar em ou sobre, excluídas e proibidas todas as manifestações de carinho explícito em locais públicos'.
Pensei nessa ideia por perceber os olhares espantados ou de inveja de outros idosos quando ando de mãos dadas com minha namorada, quando a beijo carinhosamente na boca, quando sorrio para ela e faço confidências ao pé do ouvido. Quer me ajudar a desenvolver esta ideia”?
 
Depois dos comentários de praxe tão ao gosto do ChatGPT, surgiu esta crônica distópica. Eu assinaria em baixo, mas foi a IA que escreveu.
 
 
Ninguém soube dizer ao certo quando começou.
Alguns afirmavam que foi depois da Reforma Sanitária Afetiva. Outros juravam que tudo nascera antes, quando os especialistas passaram a aparecer diariamente na televisão para explicar os perigos emocionais da velhice apaixonada.
“Paixão tardia provoca desequilíbrio social”, diziam.
“Apego senil sobrecarrega o sistema público.”
“O idoso apaixonado perde discernimento.”
No começo parecia apenas uma campanha educativa. Como aquelas recomendações para reduzir o sal ou caminhar trinta minutos por dia. Depois vieram os decretos. Então as multas. Finalmente os agentes.
Hoje já ninguém estranha.
Na Praça Central, por exemplo, os bancos são divididos por barras metálicas no meio, justamente para impedir excessiva aproximação afetiva entre cidadãos da terceira idade. A medida foi muito elogiada pelo Ministério da Compostura Pública.
“Conforto sem promiscuidade”, dizia o slogan.
Os jovens continuam se beijando nas esquinas, nos ônibus, nos corredores do metrô. O Estado considera isso aceitável. Hormonal. Transitório. Saudável até.
Mas velhos não.
Velhos apaixonados constrangem a sociedade.
Dois idosos caminhando de mãos dadas produzem nas pessoas um desconforto difícil de explicar, mistura de vergonha, irritação e uma espécie obscura de inveja.
Foi exatamente isso que aconteceu quando um idoso segurou a mão de sua namorada enquanto andavam despreocupadamente pela rua.
Nada teatral.
Nada indecente.
Apenas a mão.
Uma moça que vinha na direção oposta imediatamente desviou os olhos.
Dois rapazes riram.
Uma senhora parou diante da vitrine de uma farmácia apenas para continuar observando.
O idoso percebeu tudo.
Percebeu também quando sua namorada tentou discretamente soltar a mão.
Não soltou.
Continuaram andando.
Lentos.
Escandalosos.
 
Ao passarem diante do edifício dos Correios, ouviram o aviso eletrônico:
- Demonstrações afetivas senis em espaços públicos constituem infração ao Estatuto da Dignidade Etária. Preserve o decoro. Denuncie.
A namorada sorriu.
Foi pior.
Sorrisos cúmplices entre idosos haviam sido classificados no ano anterior como “indução visual de intimidade”.
O idoso achou graça da expressão jurídica. Sempre achava graça.
Setenta e cinco anos de vida para descobrir que amar alguém podia receber nome de doença administrativa!
 
Pararam diante de uma banca de flores clandestina.
As flores haviam praticamente desaparecido da cidade depois da regulamentação sentimental. Rosas eram consideradas itens de estímulo emocional. Sua venda exigia autorização especial para funerais e cerimônias patrióticas.
A mulher da banca olhou rapidamente para os lados antes de mostrar uma pequena margarida escondida sob jornais velhos.
- É importada – cochichou.
A namorada quase chorou.
O que também era proibido.
O Decreto nº 88 classificava lágrimas de natureza romântica como “descontrole afetivo regressivo”.
O idoso comprou a flor mesmo assim.
Pagou caro.
Pagou sorrindo.
 
Mais adiante, um painel luminoso exibia a frase do governo:
O DESEJO É FISIOLÓGICO. O AMOR É ANTISSOCIAL.
Abaixo da propaganda, dois agentes conduziam um homem algemado.
Seu crime: beijar a esposa na testa enquanto esperavam atendimento numa clínica geriátrica.
Algumas pessoas assistiam à cena com indignação moral.
Outras com alívio.
Porque o amor nos velhos produzia um efeito insuportável nos demais: lembrava a todos que o coração envelhece menos do que o corpo.
E isso o Estado jamais conseguiu perdoar.
Naquela noite, já em casa, a namorada perguntou:
- Você tem medo?
O idoso pensou um pouco.
Depois respondeu:
- Tenho.
Ela abaixou os olhos.
- Eu também.
Ficaram em silêncio.
Então ele segurou novamente a mão dela sobre a mesa.
Devagar.
Como quem pratica um crime.

 

 

sábado, 16 de maio de 2026

AINDA PROCURANDO UM APELIDO

 
Cada vez mais eu me convenço de que raramente ou nunca terá a segunda chance de causar uma primeira boa impressão na gata de seus sonhos o infeliz que se chama José. Podem rir os insensíveis, mas é verdade.
 
Pensem bem, qual a chance do sujeito ser chamado de “Jósé” ou “Jusé” de forma carinhosa pela mulher que deseja e ama? Impossível! Basta um segundo para já ser chamado de Zezinho, Zezito ou o genérico Zé. Esse cara sou eu!
 
Na adolescência morando em uma casa que não tinha telefone, eu me martirizava imaginando atender o inexistente aparelho, ouvir a pergunta clássica: "Quem está falando?” e ser obrigado a responder: “É o Zé”. E quando a neurose estava mais descontrolada, ainda imaginava a voz do outro lado perguntando “qual Zé?”, como houvesse mais de um morando ali. Pensando bem, o nome de meu avô era Francisco José, mas só era conhecido como Chico ou Chiquinho, jamais o insípido José.
 
Tá rindo? Esse medo neurótico era real. Fico até pensando que se tivesse sido paciente do Sigmund Freud ele teria ampliado seus estudos ao descobrir em mim uma telefonofobia, ou mesmo a existência de uma nova síndrome, provocada pela necessidade de dizer “alô”. Pegaria até bem chamá-la de “alôndrome”. Talvez assim eu ficasse famoso, com nome em publicações científicas - mesmo que associado a distúrbios psiquiátricos
 
Continua rindo, né, palhaço? Pois eu continuo minha pesquisa para encontrar um apelido digno e carinhoso, diferente dos clássicos “Mozão” e “Xuxu” (o amor tem uma tendência a resvalar para a breguice). Por ter um blog muito bem frequentado, cheguei a pensar no eletrônico “e-Zé”, mas soou caipira demais, confundido que seria com "Izé" (“- Izé, vem cá!”). Aí eu pensei em criar um nicname (isto é só para irritar os puristas) associando as duas primeiras letras do meu nome completo, que é como todos sabem, José Botelho Pinto Coelho (“ah, como era grande!”).
 
E é este cuidadoso estudo que submeto aos leitores que quiserem me ajudar. A coisa fica assim:
José com Botelho: JoBo; José com Pinto: JoPi ou Jopin; José com Coelho: JoCo ou JoCó.
Segunda opção: Botelho com José: BoJo; Botelho com Pinto: Bopi ou Bopin; Botelho com Coelho: BoCó ou BoCo.
Terceira opção: Pinto com José: PiJó ou PinJo; Pinto com Botelho: PiBo; Pinto com Coelho: PiCo.
E finalmente, a última versão: Coelho com José: CoJo; Coelho com Botelho: CoBo, Coelho com Pinto: Copi ou Copin.

Ou seja, vai ser ruim de nome assim lá na PQP! E o prenome de traz para a frente também fica uma merda (Esoj). Mas desgraça mesmo seria dobrar as duas primeiras letras: BoBo, PiPi ou PinPin e CoCo, CoCó ou Cocô. Aí já dá até ameaça de enfarte.
 
A última chance seria JoJo, nome de um personagem da música Get Back, dos Beatles: JoJo (Jojo was a man who thought he was a loner...). Mas JoeJoe não pode, pois um sobrinho (que nem se chama José!) teve essa ideia antes. Por direito de primogenitura onomástica, JoeJoe fica com ele.
 
Sem sacanagem, apesar de estar no ocaso da minha vida, estou pensando em encarar a burocracia e mudar meu nome para Alain Brad, referência explícita aos ícones da beleza masculina Alain Delon e Brad Pitt. Foda seria se algum filhadaputa começasse a me chamar de Alambrado.
 
Em resumo, dura é a vida de um José puro, on the rocks!

TAGORE

  Talvez, por ter ficado viúvo em dezembro (momento tristíssimo, devastador), deve ter sido em janeiro passado que ganhei de uma amiga o liv...