Por isso, talvez para torná-los “vivos” novamente, resolvi reunir em um único post os “causos” dos cinco irmãos da minha mãe, deixando claro que farei o mesmo com as cinco filhas de meus avós maternos. Alguns tios têm um perfil mais divertido ou curioso; por isso mesmo, foi mais fácil começar escrevendo sobre eles. Para contar os casos dos outros, tive de ralar um pouco mais.
É importante registrar que, embora tenham sido publicados em 2016, os perfis de meus tios maternos foram escritos em 2013. Paciência – e som na caixa!
Tio Cici (Moacir) nasceu em 25/04/1925. Era meu padrinho de batismo e foi o único tio a fazer faculdade (ao contrário da família de meu pai). Estudou odontologia em Uberaba, onde conheceu sua esposa, Teresinha (uma autêntica mala sem alça). Tiveram quatro filhos: Fernando, Marco Túlio, Cristina e Caio Lucio.
Quando foi estudar fora, meu tio deixou para trás uma coleção de revistas “Seleções do Reader’s Digest”, de que me apossei tempos depois. Havia revistas de 1942 a 1955, se não me engano. Os números publicados durante a guerra tinham propagandas com ilustrações incríveis relacionadas ao assunto. Ainda guardo dois números desse período, justamente por causa dessas propagandas.
Essa coleção fez minha cabeça na pré-adolescência. Como era muito tímido e inseguro, eu lia tudo o que encontrava que me ajudasse a superar essas limitações. E tome lições de vida, e tome dicas de autoajuda.
Eu só não consegui aprender – embora tenha lido tudo de todas as revistas – como beijar na boca. Na minha absoluta inexperiência e falta de senso, o que eu pretendia era o mesmo que aprender a andar de bicicleta apenas lendo um livro, só na teoria. Como disse o Djavan em uma de suas músicas: “Mais fácil aprender japonês em Braille”.
Mas voltemos ao tio Cici. Ele era baixinho, magro, nervosinho e tinha um jeito meio viadinho. Às vezes parecia mais feminino que a mulher (ou seria o contrário?), mas era só jeito. No início do casamento, lembro-me de ver a Teresinha dar um amasso nele e ele ali, satisfeito igual um sultão no harém. Sentava-se de pernas cruzadas como quem usa saia. O pé que ficava no ar tremia sem parar. Tremia, não, vibrava. Tinha um risinho nervoso e um senso de humor que se pudesse ser medido na escala Kelvin ficaria perto do zero absoluto.
Meu pai dizia que contar piadas para ele não valia a pena, pois ele não as entendia. No desfecho da piada, quando todo mundo normalmente ria, ele continuava com um sorrisinho meio apalermado na cara e perguntava: “E aí?”.
Depois de formado, montou consultório com um amigo ou colega de faculdade, de nome Januário. Esse sujeito era um católico radical, um carola da gema, coisa que eu só vim a saber quando já namorava minha mulher.
Provavelmente, por influência do amigo carola, Fernando, o filho mais velho do tio Cici, entrou para o movimento ultraconservador TFP – Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade. Esse movimento, entre outras coisas, defendia a volta da monarquia, repudiava veementemente o “comunismo ateu” e tinha alguma coisa de organização paramilitar, pois seus militantes, todos jovens, vestiam-se sempre da mesma maneira: cabelos cortados à escovinha, calça social escura, sapatos de amarrar (quando todo mundo usava mocassim), camisa branca e um blusão de cor cinza ou bege. Bastava ver alguém assim nas ruas para saber que era da TFP.
Esse pessoal era meio hostilizado por alguns jovens, justamente pelo excesso de caretice. Para se defender, alguns começaram até a aprender artes marciais. Estavam sempre nas ruas centrais para colher assinaturas e fazer campanhas contra o divórcio, contra o comunismo, contra a reforma agrária e sei lá mais o que. Usavam megafones e ficavam balançando estandartes vermelhos com letras douradas que pareciam ter sido retirados de algum castelo medieval.
Pois bem, um dia eu estava indo de taxi para a casa da minha namorada, quando vi uma dessas manifestações em plena Avenida Afonso Pena com Espírito Santo. Aqueles jovens com o rosto cheio de espinhas estavam perfilados no canteiro central, um de frente para o outro, cada um com seu estandarte. Devia ter de trinta a quarenta pessoas. Com o taxi parado no sinal, olhando para aquela babaquice, enxergo o Fernando no meio daquela gangue. Morri de vergonha por ele e quase me encolhi no banco para não ser reconhecido. E tome falatório no megafone. De repente, obedecendo a algum comando, esse pessoal começa a gritar:
- BRASIL! BRASIL! BRASIL!
O Brasil tinha acabado de ganhar a copa do México. Pensando nisso, comecei a rir e, mesmo não gostando de futebol, me deu uma vontade danada de botar a cabeça para fora da janela e gritar de volta, só de sacanagem:
- TRICAMPEÃO! (Devia ter feito isso!).
Para quem curte, mais um post da série "memórias de família". Os textos em itálico referem-se a casos lembrados e escritos por minha irmã, a meu pedido. Bora lá.
Tio Nem (Manoel) nasceu em 02/07/1926. Convivi pouco com ele, pois viajava muito, sempre para os lados de Pirapora, Curvelo e Várzea da Palma – esses eram os nomes que ouvia. Trabalhava como representante de laboratório farmacêutico. Embora todos os tios fossem bem mais expansivos que os irmãos de meu pai, tio Nem (a pronúncia familiar é "Néim") se destacava pelo jeito amolecado (pelo menos é assim que eu o via). Com um sorriso meio irônico e olhar maroto, ele e o Mon sempre foram os mais alegres e brincalhões da família.
Minha mãe contava muitos casos sobre ele, dizendo que era muito levado ("danado") desde pequeno. Uma vez, minha avó sentiu falta dele, que deveria ter uns dois anos de idade. Depois de muito procurar, encontrou meu tio no cocho de melado, sem roupa e todo lambuzado. Segundo ele, essa seria a explicação “das moças gostarem tanto dele - ele ficou doce”.
Quando criança, mamãe contava que ele brigava até com a sombra. Ele pegava uma varinha e batia na sombra pra ela ficar parada. Venhamos e convenhamos, isso não é coisa de gente brava, mas de gente retardada.
Parece que sempre gostou de bichos e chegou a levar para casa alguns bem estranhos – uma cobra, um porco-espinho – o que deixava sua mãe e as irmãs apavoradas. Esses casos foram enviados por minha irmã. Lendo-os, lembrei-me da tal cobra, que chegou dentro de uma caixa de madeira, se não me engano. E o conjunto caixa-cobra tinha um cheiro enjoativo, o mesmo que se sente na área de animais do Mercado Central de BH.
Já adulto, sem a menor cerimônia, pegava escondido as roupas (ternos e tudo o mais), calçava os sapatos super engraxados do tio Cici e ia para os bailes nas gafieiras. Quando o irmão ia vestir as roupas, elas estavam naquele estado deplorável. Mamãe dizia que tio Cici quase tinha um ataque, porque os ternos eram de linho branco e ele mesmo fazia questão de passar. Papai contava que os sapatos pareciam até de verniz de tanto que brilhavam. Tio Nem saía todo perfumado, fazia o maior sucesso com as barangas, voltava ainda mais “cheiroso” e simplesmente colocava de volta as roupas pro lugar de onde as tinha tirado.
Mamãe contava que ele vivia colocando minha avó em apuros, porque volta e meia levava uma namorada diferente para apresentar ("cada qual mais feia que a outra"). Nas palavras de minha irmã, “tinha uma tal de Lota e uma que eu adorava o nome – Bartolozita), a maioria do norte de Minas. Até hoje, quando eu pergunto pra ele ‘tio, a Bartolozita era bonita?’, ele responde com aquela cara dele: - ‘feia demais!’. Ele continua uma peça”.
Tiveram quatro filhos – Aidezinha, Sandra, Junior e Ione. Aqui cabe um parêntese: o nome correto da filha mais velha é Haidée, em homenagem à avó materna. Pensando bem, até que é um nome bem bacana (falo sério!). Dureza é quando os pais batizam seus pimpolhos com nomes como “Alciedes”, “Helenete”, “Bekenbaer” ou “Cleuzimery” (falou o Botelho Pinto!).
A nota triste é que seu filho Junior morreu com 36 anos, de insuficiência respiratória, se não me engano. Ele sofria de asma (assim como minha avó e tio Cici) e usava um medicamento em spray conhecido popularmente como “bombinha”. Parece que o uso continuado desse aparelhinho leva (ou levava) à morte muitos asmáticos que dele necessitam. O fato é que essa é uma dor indizível para os pais.
Apesar dessa perda absoluta, meu tio conseguiu manter o espírito brincalhão e jovial. Alguns anos atrás, foi a um médico acompanhado por sua filha Ione (que nos contou o caso). No final da consulta, pediu para falar reservadamente com a médica que o atendeu. Só que a médica entregou a conversa "reservada" para sua filha. Com quase oitenta anos, queria uma receita para comprar Viagra!
Hoje, prestes a fazer noventa anos e com uma surdez muito acentuada, Tio Nem luta contra um câncer de próstata. Há tempos não o vejo, mas imagino que continua brincalhão como sempre e torcendo para o América mineiro.
Tio Tôto (Walter) nasceu em 28/05/1928. De todos, é o tio mais arredio, mais isolado. Creio que foi o primeiro dos homens a se casar. Aliás, foi ele que inaugurou a prática de, recém-casado, morar no barracão de três cômodos construído na lateral direita da casa de minha avó.
Não sei de nenhum caso de sua infância ou adolescência, exceto o fato de ter recebido de seu irmão Omir o apelido de "Lemão" (Alemão), pois tinha o cabelo alourado quando criança. Para mim, que sempre o vi de cabelo muito preto e muito liso, isso é uma coisa difícil de imaginar. Casou-se com a Deia, filha de português (Sr. Dâmaso) com espanhola. Tiveram três filhos: Ronaldo José, Sérgio José e Vânia.
Meus primos - embora sempre sorridentes - eram tímidos e meio introvertidos. Por eu ser pelo menos seis anos mais velho que eles, acabamos nos relacionando de forma mais "protocolar", ainda que afetuosamente. E só os vejo em algum velório de parente. Creio que a última vez em que me encontrei com um deles foi no enterro de minha mãe, em 2009 (afinal, é para isso – rever parentes – que também servem os enterros!).
A Deia era super gente boa, sempre sorridente e bem humorada. Pelo menos na aparência. Fico pensando que as visitas super-rápidas que tio Tôto e ela faziam aos meus avós podem ter sido assim por influência, determinação ou pedido dela. Eu era bem novo, mas logo percebi a existência de um padrão familiar: para minha avó e suas filhas todos os genros eram “muito bons”, “ótimas pessoas” e coisa e tal. Já as noras...
Creio que a Deia deve ter sacado logo esse estilo ou foi alvo de algum comentário meio torto. Não sei. Como era muito afável, talvez nunca tenha dito nada, mas deve ter pensado algo assim:
- Quanto menos tempo ficar nesse ninho de cobra, melhor.
Segundo tia Aidê, ela “tinha um gênio dificílimo, principalmente no início do casamento, e era extremamente ciumenta e possessiva”. Teria chegado a fazer “algumas grosserias” com Dona Leta (minha avó). Nesse caso, lembrando-me de minha avó quando ainda estava mentalmente saudável, diria que “chumbo trocado não dói”.
Segundo minha irmã, “ela era bem possessiva com os filhos (...) e brigou feio com as namoradas deles que ela chegou a conhecer”. Minha irmã lembra também que ela se dava super bem com nossa mãe: “acredito que mamãe era a cunhada preferida dela, pois a única casa que eles visitavam era a nossa (com a mesma rapidez de sempre, é claro) e Tio Tôto chegou a falar com Alfredo que a irmã que ele mais gostava era a mamãe e o cunhado era o papai. Achei legal ouvir isso”.
- Walter, cuidado! Olha aquele carro, diminua, você está correndo muito, cuidado com o cachorro, cuidado com o ET, você está no meio da pista, olha o Bozo... E meu tio lá, caladão.
Tio Tôto trabalhava como vendedor de tecidos no “Rei das Casimiras”, uma loja que existia na Av. Afonso Pena. O dono da loja era um descendente de libaneses, chamado Ralim (?). Esse sujeito era uma figuraça. Alinhadíssimo, estava sempre de terno, sempre impecável.
Logo no início do nosso namoro, minha mulher foi com uma colega de serviço para comprar um tecido para me dar de presente. O sobrenome dessa colega era Nacif e, claro, também era descendente de libaneses. Escolheram o tecido e o pedido com os dados da compra foi preenchido. Quando já iam pagar, o Ralim interveio, dizendo algo assim:
- Você não pode ir pagando assim, sem nem pechinchar, sem pedir desconto!
Minha mulher e a colega devem ter ficado meio roxas de sem graça. Não sei se ele já conhecia essa moça ou se ficou sabendo de sua ascendência ali na hora. O fato é que achou um absurdo que ela não tivesse orientado a colega na arte da pechincha. As duas estavam no horário de almoço, super corrido, e estavam loucas para voltar ao trabalho. E ele lá, discutindo qual o preço que ela queria pagar, essas coisas.
Quando meu irmão se formou (1973), eu mandei fazer um terno sob medida para ir ao baile. Comprei o tecido com tio Tôto e um alfaiate muito bom, seu conhecido, fez o terno. Em 1974 foi minha formatura. Não tive dúvida, mandei fazer outro. Os dois ternos ficaram excelentes, embora o estilo hoje seja ridículo, pois as calças eram tipo pantalona e com cintura bem alta (toureiro light). No ano seguinte (1975), eu me casei. Como o casamento civil era de manhã e o religioso à noite, resolvi fazer outro terno. Usaria o de minha formatura no casamento civil e o novo, no religioso.
O procedimento seria o mesmo, mas fui atropelado pelo Ralim. Não sei por que, ele resolveu me atender e ajudar a escolher o tecido.
- Você vai fazer a calça e o colete com este tecido cinza claro. A camisa você fará com este outro aqui, um cinza ainda mais claro. Agora, para o paletó você usará este aqui, quadriculado de cinza e branco.
Devo ter protestado meio sem jeito que gostava de cores lisas, sóbrias. Não adiantou.
E o mané aqui acabou concordando. Todas as vezes que vejo as fotos de nosso casamento, fico meio puto de ter aceitado aquela sugestão. O terno ficou uma bosta de feio! Mas o turco era boa gente.
A Déia morreu de câncer há muitos anos e o tio Tôto vive hoje na companhia da Vânia, sua filha. O Sérgio casou-se e foi pai (ou "pai-avô") com mais de cinquenta anos e o Ronaldo mora (ou morava) com a família nos fundos da casa de meu tio.
Este post saiu originalmente em 28/04/2015, com o título "Seu Nome era Omir", como homenagem póstuma ao tio materno de personalidade mais "literária" da família e falecido pouco tempo antes. Como estou contando casos dos irmãos de minha mãe, achei que seria injusto deixá-lo separado dos demais, (segregado tal como foi um pouco quando era vivo). Por isso, resolvi republicar o post com o título da série que está rolando agora. Bora lá.
A família de meus avós maternos era daquelas numerosas, à moda antiga. Tiveram onze filhos, mas um morreu ainda na primeira infância. Dos outros dez, Omir era o mais alternativo, o mais tosco e o mais folclórico. Ou, se preferirem, o mais outsider, mais hardcore. O mais livre, enfim. Antes dos hippies, antes da Tropicália, ele foi verdadeiramente livre.
Nenhuma convenção o inibia, nada o aprisionava. Talvez por tudo isso, a maioria dos sobrinhos nunca o chamou de tio. Era quase um personagem felliniano. Desde pequeno revelou-se uma pessoa avessa a qualquer tipo de controle, um verdadeiro rebelde sem causa, ou melhor, um rebelde sem calça.
Segundo minha mãe, levá-lo ao grupo escolar era uma luta que se repetia diariamente. Não sei se ele tirava toda a roupa antes de ser levado à escola ou depois de fugir de lá. O que sei é que bastava minha avó, minha mãe ou quem quer que o acompanhasse ir embora, para ele escapar da sala de aula e voltar igual uma bala para casa, chegando antes de todo mundo. Com isso, provavelmente não concluiu nem o ensino básico. Minha mãe tinha uma foto dele nessa época, em que aparece peladão. Prova material do delito recorrente.
Na época de servir exército foi ainda melhor. Quando era designado para ficar de guarda à noite, lá pelas tantas, largava o fuzil e ia dormir em casa. Na volta, claro, cadeia. Isso se repetiu algumas vezes, até o dia em que resolveu não voltar mais. Resultado: ficou sem o Certificado de Reservista, necessário para uma penca de coisas, tais como título de eleitor, carteira profissional e por aí. Muitos anos depois, recebeu uma carta do Exército convidando-o a regularizar sua situação. Simplesmente ignorou.
Com esses ótimos “pré-requisitos”, acabou virando mecânico de automóveis. Pelas amizades nesse meio, o próximo passo foi o alcoolismo.
Não sei se era ou não um bom mecânico. Só sei que um dia ele e os amigos resolveram construir um carro. Não sei direito como fizeram, mas ficou muito legal. Pelo menos para mim, que era criança. Um dia chega o Omir e mais um ou dois amigos dentro de um carrinho sem capota, prateado, pois estava na lata, literalmente. Tinham construído uma carroceria de linhas curvas e esportivas com chapas de aço galvanizado, montada sobre o chassi de algum carro destruído. Depois, para minha decepção, pintaram o carro todo. Um dia perguntei que fim tinha levado o tal carro. Fiquei sabendo que uma manobra desastrada em uma curva tinha feito o carro cair em uma vala ou córrego. Uma parte da nascente indústria automobilística nacional foi pro saco nesse dia.
Meu pai contava que um dia chegou em casa e escutou o Omir "fazendo uns barulhos muito feios dentro do quarto e com a porta fechada". Ficou preocupado e perguntou:
- Omir, você está sentindo alguma coisa?
Abrindo a porta, meu tio respondeu que estava ensaiando, porque ia fazer um teste no conservatório, pois pretendia virar cantor de ópera. E papai acrescentava que nunca ouviu nada mais horrível.
Ainda segundo minha irmã, nossa mãe contava – fazendo cara de contrariada – que seu irmão uma vez cismou que queria ser padre e todo mundo foi na onda dele. Minha mãe chegou a ir a um seminário e conversou com os responsáveis de lá, mas, "felizmente ele desistiu". Certamente, ainda não havia sido enfeitiçado pela futura companheira de infortúnios.
Bom, eu sou católico, mas o Omir, com suas maluquices, até que ficaria bem em uma “sessão de descarrego” de alguma igreja evangélica. Certamente o “pedido” de casamento seria um bom motivo para isso. Esse caso também foi lembrado por minha irmã e é muito engraçado. Para não perder o sabor, transcrevo como recebi:
Ele jogou uma bomba dentro da casa da Tia Elba e papai dizia que foi assim que ele a despertou e conquistou. Como ele mesmo repetia, “eu sou eu e volto troco”!
Com um jogo de sedução e conquista tão sofisticado, um presente para sua futura e sofredora esposa não poderia ser qualquer um, desses que as pessoas normais compram em lojas. Tinha de ser diferente. Bem diferente.
Um dia eu o vi pegar um pedaço de tampa de privada (eram feitas de madeira, na época. E grossas, para ficar anatômicas) e começar a esculpir alguma coisa. Desse material de origem tão “nobre” fez um coqueirinho estilizado. O tronco foi perfurado (provavelmente com a pua de meu avô) até ficar todo oco. Depois de pronta a escultura, a peça foi devidamente lixada e um vidrinho com perfume foi alojado na parte oca.
Nessa época, alguns medicamentos ministrados através de injeção vinham dentro de vidrinhos cilíndricos tampados com uma tampinha de borracha, por sua vez lacrada com um anel de metal. Creio que o medicamento podia ser retirado introduzindo-se a agulha da seringa diretamente na borracha macia da tampa (quando me lembro desses detalhes, dá vontade de dizer: “gente, eu sou velho pra caramba!!!”). Isso não vem ao caso. O que conta é que o tal vidrinho de perfume, um presente para a namorada, foi anteriormente a embalagem de algum medicamento. Muito chique!
Depois de tanta “originalidade”, acabaram casando-se. Minha tia era uma mulata de cabelo “ruim”, de pele clara e olhar meio aéreo, que deve ter sofrido demais com a inconstância, irresponsabilidade e alcoolismo do marido. Tiveram cinco filhos. Além da filharada, criaram ainda o filho de uma irmã falecida.
Um dia, provavelmente alcoolizado, chegou à casa de minha avó dirigindo um carro que tinha pegado para consertar. Além do primeiro filho, então com uns três anos de idade, alguns passageiros ilustres o acompanhavam: um amigo (provavelmente encachaçado como ele) e duas ou três putas (a oficina onde trabalhava ficava bem no meio da zona boêmia). Ao ver o irmão em tão distinta companhia, minha tia Aidê deu-lhe um esporro fenomenal e ele se mandou, visivelmente contrariado.
O que me deixa às vezes perplexo é pensar que os irmãos e cunhadas de minha mãe sempre demonstraram de forma explícita gostar muito de mim, mesmo que eu nunca tenha feito nada de significativo para que isso acontecesse. Sei lá, deviam ter alguma simpatia (ou pena) pelo meu jeito meio avacalhado e sem frescura de tratá-los. Com o Omir e esposa aconteceu exatamente assim.
Ela, talvez pela vida difícil que levava, talvez pelas muitas humilhações que sofreu de forma velada ou escancarada, não olhava muito nos olhos da pessoa com quem conversava. Talvez daí a expressão meio aérea que citei. Quando eu já estava adulto, me procurou meio sem graça, quase pedindo desculpa, e perguntou se eu aceitava ser o padrinho de batismo da quarta filha. A madrinha seria uma de minhas primas. Claro que aceitei. Mas, como nunca liguei muito para essa afilhada, posso dizer que sou um padrinho de merda, mesmo tendo sempre muita simpatia por seus pais.
A filha caçula tem idade próxima à de nosso filho mais velho. Até pela imensa diferença de idade, tive muito pouco contato com ela. As únicas coisas que sei é que teve uns dois ou três filhos, entregou-os para a sogra e se mandou pelo mundo. Parece que às vezes vai à casa da irmã mais velha, e depois some de novo. O fato é que, pela semelhança de comportamento, quase que o Omir poderia sentir orgulho dela. Vidão!
Minha tia morreu de câncer há uns vinte anos e meu tio e compadre, no final da vida, quase cego, morava com o filho mais velho no interior do estado.
Omir, cujo nome sempre me fez pensar em personagens bíblicos ou do antigo Egito, morreu no mesmo dia em que eu e minha mulher comemoramos quarenta anos de casamento, mas só ficamos sabendo quando já tinha sido enterrado. Figuraça!
O irmão mais novo de minha mãe, Mon (Almon), nasceu em 05/04/1940, o que significa que é apenas dez anos mais velho do que eu. Essa diferença de idade, semelhante à que existe entre nossos filhos mais velho e mais novo, fez com que ele ficasse meio híbrido para mim, metade tio, metade irmão. Não me lembro de muita coisa dele na infância, apenas que às vezes torcia meu braço, de sacanagem.
Na adolescência, foi o responsável involuntário por eu me recusar a chamar nosso segundo filho de “Binho”, como fazem seus irmãos. A história é simples, sem sacanagem: não sei se foram colegas de colégio ou se, por morarem perto, a um quarteirão de distância, o Mon ficou amigo do Weber, um sujeito muito educado e muito, muito delicado. Ninguém lá em casa o chamava de Weber, só de “Binho”. Era engenheiro (!) e, em determinado momento, teria sido expulso de casa pelo pai, sargento do exército, talvez depois de descobrir que o filho era gay. Esse sujeito gostava de conversar com minha mãe e falava de forma meio sibilante. Por conta dessas lembranças, só chamo nosso filho de “Bil”, jamais de “Binho”. Isola!!!
O Mon estudou na Escola Técnica, na av. Amazonas. Para chegar lá, comprou uma bicicleta do tipo que se conhecia como “camelo” ou “camelão”, sem marcha nenhuma, e descia desembestado a Rua Itambacuri, que tem até hoje calçamento poliédrico (ruim para andar de bicicleta) e uma ladeira “legal”. Depois, comprou uma “magrela” própria para corrida, com quatro marchas, selim estreito e guidon recurvado e paralelo ao eixo da bicicleta. Achei bacana pra caramba. Não me lembro o que aconteceu com essa bicicleta depois da queda, só sei que um dia derrapou e caiu em cima da linha férrea, se arregaçando todo.
Pouco tempo depois comprou seu primeiro automóvel, um Fiat da década de 30, estranhamente pequeno. O carro funcionava muito bem nas descidas. Subir já era outra história. Um dia, entrei no carro com Tia Aidê e mais alguém, talvez o Omir. Não sei aonde iríamos. A descida da rua Padre Eustáquio foi uma beleza. Ao tentar voltar, não houve meio do bosta do carro subir a rua. Aquilo me causou certo pânico (como vou voltar para casa?), que depois mudou para vergonha: amarraram um cabo de aço no Fiat, que subiu a rua rebocado. Nunca mais cheguei perto dele, mas não deu nem tempo. Logo depois o Mon comprou um Ford conversível 1936, branco e vermelho, muito legal. Esse andava.
Desde novo, o Mon parecia sentir coceira ao ficar com um carro por muito tempo. Para minha tristeza, vendeu o Ford bonitão e comprou um Chevrolet 1934, preto, muito feio, que foi logo trocado por roupas e malas(!)
A explicação é simples: depois que se formou na Escola Técnica, um de seus professores o convidou para ir trabalhar em Brasília, recém-inaugurada. Convite feito, convite aceito, para grande desespero da mãe e das irmãs. As roupas e malas serviram para isso.
Mesmo não tendo formação universitária, começou dando aula e acabou diretor do MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização, criado na época dos governos militares. Não sei muita coisa sobre sua vida em Brasília, só sei que ficou bem de vida, fez um ou dois loteamentos em Taguatinga, onde morava. Atualmente (2013), mora em Sobradinho ou sei lá onde.
Para fazer a terraplenagem de um desses loteamentos e bem ao seu estilo aventureiro e entusiasmado, comprou um trator que ele mesmo operava. Ainda tem o tal trator e até faz uns bicos com ele (“porque a despesa é muito grande”). Figuraça.
Muito antes disso, quando ainda havia passado pouco tempo de sua mudança para Brasília, uma noite, a campainha da casa de minha avó tocou. Alguém foi ver quem era e foi aquele alvoroço: era o Mon e, com ele, um senhor de 40 anos, aproximadamente, de nome Otto. Era alemão e padrasto de sua namorada. Trabalhava como mecânico de aviões.
Perguntado como tinham vindo, a resposta surpreendeu a todos: de moto, na garupa do “sogro”. Agora, imagina, 700 km na garupa de uma moto. Para voltar, mais 700 km. Haja cu!
Acabou se casando com essa namorada, uma baiana chamada Helena. Tiveram quatro filhos,Mônica, Valéria , Patrícia, e Almonzinho.
Quando meus avós ainda eram vivos, ele vinha pelo menos duas vezes por ano visitar a família. E, a cada vez que vinha, era utilizado um carro diferente. Quando minha mãe ainda estava viva, perguntei quantos carros já tivera. A resposta: “eu tinha tudo anotado em uma caderneta, que perdi. Até onde eu me lembro, já tive mais de duzentos”.
As características mais marcantes do Mon sempre foram um bom humor e uma disposição impressionantes. Parece que ele sempre teve fogo no rabo, como demonstrou no caso das “mudanças”.
Valéria, uma de suas filhas, casou-se com um oficial da Aeronáutica, piloto de jato e foi morar na base de Anápolis. Um dia, o genro foi transferido para o Rio Grande do Norte. A filha perguntou ao Mon se ele não queria levar sua mudança (na época, ele tinha um caminhão, mas não me perguntem por que). Meu tio nem pestanejou. Colocou a tralha no caminhão e se mandou para Natal, distante mais de 2.000 quilômetros de Brasília. Nem bem descarregou a mudança, virou a bunda para trás e voltou.
Passa mais um tempo e olha outra transferência do genro. Destino? Rio Grande do Sul, se não me engano. Outro pedido da filha e olha o louco de novo na estrada. Roteiro: Brasília – Natal, Natal – Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul – Brasília. Distância total percorrida: uns 9.000 km. Por conta dessa disposição maluca e um permanente bom humor (mais o auxílio luxuoso de algum produto tipo “grecin 2000”, lógico), quem olha para ele não imagina que já tem 73 anos (estamos em 2013).
Minha mãe e seus irmãos sempre disseram que eu me parecia com ele, coisa que me deixava meio irritado, pois eu olhava, olhava e não via nenhuma semelhança. Depois de ficar mais velho, entretanto, comecei a achar que, sim, até que nos parecemos um pouco. O problema todo é que atualmente o filho da puta aparenta ser mais novo que eu!
