Depois de alfabetizado e já conhecedor de alguns palavrões, comecei a procurá-los às escondidas no “Dicionário Escolar da Língua Portuguesa”. Embora fossem palavras e expressões corriqueiras – cu, puta e seu respectivo filho, viado e outros de mesma elegância –, não encontrei nenhum, nem mesmo uma reles bunda. Parece que a incorporação de palavras chulas aos dicionários tipo Aurélio aconteceu de forma progressiva ao longo do século XX, como forma de se obter um registro completo da língua portuguesa falada no Brasil, o que acho sensacional. Obviamente, um “dicionário escolar” do início do século passado jamais exibiria em suas páginas essas putarias ditas nas ruas.
Blogson Crusoe
O blog da solidão ampliada
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
BOLA-GATO?
Depois de alfabetizado e já conhecedor de alguns palavrões, comecei a procurá-los às escondidas no “Dicionário Escolar da Língua Portuguesa”. Embora fossem palavras e expressões corriqueiras – cu, puta e seu respectivo filho, viado e outros de mesma elegância –, não encontrei nenhum, nem mesmo uma reles bunda. Parece que a incorporação de palavras chulas aos dicionários tipo Aurélio aconteceu de forma progressiva ao longo do século XX, como forma de se obter um registro completo da língua portuguesa falada no Brasil, o que acho sensacional. Obviamente, um “dicionário escolar” do início do século passado jamais exibiria em suas páginas essas putarias ditas nas ruas.
domingo, 18 de janeiro de 2026
sábado, 17 de janeiro de 2026
PREFERE SONHO OU REALIDADE?
Esta crônica foi escrita originalmente com palavras mais cruas, com linguagem mais explícita. Sugeriram que eu a tornasse "palatável" para leitoras de comportamento mais delicado e elegante. Até pedi ajuda ao moralista ChatGPT, mas a versão ficou muito suave, quase asséptica. Aí resolvi fazer uma suavizada jotabélica.
Ele precisava falar com alguém. Precisava de
companhia. Ligou para uma antiga amiga.
- Oi,
Ricardo, que surpresa! Como você está?
-
Vivendo.
-
Parece que não está bem…
- Que "nada" você tem para fazer hoje?
- Como
assim?
-
Reformulando: você tem alguma coisa para fazer hoje?
- Não. Só ver o BBB. Por quê?
-
Queria te convidar para comer uma pizza. Estou precisando de companhia.
-
Adorei! Amo pizza. Você me pega aqui?
- Eu te
pego em qualquer lugar, do jeito que você quiser, meu sonho sempre foi te pegar.
-
Engraçadinho!
- Oito
horas?
- Oito.
Às oito em ponto ele a pegou na porta do
prédio. Ela já o esperava na calçada. Estava envelhecida, mas continuava
alimentando suas fantasias.
Depois dos beijinhos automáticos, ela
perguntou como ele estava, enquanto escolhia o sabor da pizza.
- E
então, como está convivendo com a solidão?
-
Estranha. Casa vazia. Vida vazia.
- Você
gostava bem dela, não?
- Sim e
não. Talvez estivesse acostumado a uma rotina cheia de silêncios. Quando ela se
separou eu me assustei, mas entendi. Já não transávamos havia três anos.
- Três
anos? E como você administrava isso?
- Usava
o método adolescente, no banheiro.
- Credo!
-
Horrível está agora. Nunca tive tanta vontade de contato físico com uma mulher, com o corpo nu de uma mulher! Abraçar, beijar, cheirar, tocar, todas as possibilidades que um encontro íntimo propicia. E isso está me deixando maluco.
Ela desviou o olhar.
- E o
que você pretende fazer? Pagar uma garota de programa?
- Está louca? Eu sempre valorizei a afinidade, a intimidade com a parceira.
- Onde
você acha que vai encontrar isso hoje?
- Foi
por isso que te convidei para comer pizza.
Incrédula, ela reaspondeu:
- Você
enlouqueceu?
-
Talvez. Mas sempre tive a sensação de que você gostava de me provocar e seduzir com suas
histórias sensuais e picantes.
- Nunca
te contei histórias picantes!
-
Contou de homens. De sexo. E aquilo incendiava minha imaginação. O auge foi
quando me matou de desejo ao contar ter ido para o motel com um ex-colega de
colégio, só para realizar uma fantasia dele. Que inveja do filhadaputa! E a
minha fantasia sexual, como é que fica? Devia ter te contado, pois eu tenho frequentes sonhos eróticos com você. E são ótimos!
- Essa
conversa está me deixando constrangida.
- Calma, coma sua pizza! Quer mais cerveja?
- Não, obrigada.
- Só
mais uma lembrança: lembra de um natal passado na casa da sua mãe, em que você
sentou ao meu lado? Como o sofá estava cheio de crianças barulhentas, você
ficou tão próxima de mim que nossas coxas se encostaram. Você estava linda. Depois, as crianças
saíram e ficamos só nós dois no sofá em uma sala vazia, a sua coxa deliciosa espremida na minha. Você não se arredou! Fiquei tão inseguro com a possibilidade de alguém nos ver assim que também me levantei, Mas fiquei com a sensação de que
você tinha vontade de dar para mim. E você era a garota mais gostosa do bairro!
Falando sério, você alguma vez teve vontade de dar para mim? Ainda está em tempo!
Ela ia responder quando alguém tocou seu
ombro.
- Pai,
acorda! A pizza chegou.
Estava em uma pizzaria e tinha cochilado. O
filho o olhava com impaciência. Olhou sem vontade para a fatia de marguerita colocada em seu prato. Não queria comer pizza, o que queria mesmo era ter escutado a resposta.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
SOMEBODY TO LOVE – ANNE HATHAWAY
Este é um blog que perdeu a
vergonha na cara, ou melhor, em que o blogueiro perdeu toda a compostura. Por
isso, para alegrar ouvidos, corações e mentes, um vídeo – na verdade o trecho
de um filme estrelado pela linda Anne Hathaway (que boca, meu Deus!), cantando
a música “Somebody to Love”, do Queen (lindíssima).
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
O ÚLTIMO PROJETO
Mesmo que possa estar equivocado, tenho
sentido não ter mais muito tempo de vida. Por isso, talvez seja o momento de dar início a
meu último projeto. Primeiro comprarei um caderno brochura pequeno, pautado e
de capa mole, desses que o governo dava para os alunos do ensino fundamental.
Munido de caneta esferográfica, começarei a escrever sobre minha vida, mas não uma biografia para auto-endeusamento. Ao contrário, escreverei tudo de ruim, ridículo,
vergonhoso ou imoral que cometi ao longo da vida e que tentei esquecer e manter às
escondidas até de mim mesmo, por ser muito doloroso ou condenável.
Começarei recordando as pequenas trapaças e os pequenos furtos cometidos na infância e adolescência. Passarei depois a anotar os pensamentos pecaminosos, libidinosos, inconfessáveis e doentios que tive durante toda a minha vida, fantasias sexuais com tias, primas, cunhadas e amigas, mulheres próximas demais, proibidas demais, que molharam meus sonhos ou me acompanharam no banho solitário debaixo do chuveiro.
Em seguida virão as pequenas e grandes mentiras, as fraquezas, as traições que cometi ou quando não fui capaz de reagir nas muitas vezes em que fui ultrajado. Sem querer esconder nada, confessarei como fui pervertido, indecente ou desonesto.
Nada será omitido. Quero escrever em detalhes as vezes em que fui depravado e sórdido. Começarei a registrar os pesadelos que às vezes me atormentam desde a primeira infância, as lembranças que trazem arrependimento e vergonha por sempre ter-me comportado de forma tão covarde, abjeta e degradante, de ter-me humilhado de forma tão pusilânime, de ter sido tão medroso e mesquinho ao longo da vida. Porque por trás do meu comportamento sorridente e educado sempre houve alguém frágil e inseguro, mas também falso, odioso, sádico e cruel.
Começarei recordando as pequenas trapaças e os pequenos furtos cometidos na infância e adolescência. Passarei depois a anotar os pensamentos pecaminosos, libidinosos, inconfessáveis e doentios que tive durante toda a minha vida, fantasias sexuais com tias, primas, cunhadas e amigas, mulheres próximas demais, proibidas demais, que molharam meus sonhos ou me acompanharam no banho solitário debaixo do chuveiro.
Em seguida virão as pequenas e grandes mentiras, as fraquezas, as traições que cometi ou quando não fui capaz de reagir nas muitas vezes em que fui ultrajado. Sem querer esconder nada, confessarei como fui pervertido, indecente ou desonesto.
Nada será omitido. Quero escrever em detalhes as vezes em que fui depravado e sórdido. Começarei a registrar os pesadelos que às vezes me atormentam desde a primeira infância, as lembranças que trazem arrependimento e vergonha por sempre ter-me comportado de forma tão covarde, abjeta e degradante, de ter-me humilhado de forma tão pusilânime, de ter sido tão medroso e mesquinho ao longo da vida. Porque por trás do meu comportamento sorridente e educado sempre houve alguém frágil e inseguro, mas também falso, odioso, sádico e cruel.
E, no entanto, ninguém nunca lerá uma linha sequer sobre isso, sobre minhas baixezas e falta de caráter. Quando eu terminar, o caderno será posto dentro de uma lata com álcool e queimado até virar cinza. Assim, serei sempre lembrado como alguém amistoso, gentil e cordial (mesmo que um pouco arredio) pelas pessoas que pensavam me conhecer.
setembro/2025
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
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