quarta-feira, 3 de junho de 2026

O MEU OLHAR – ALBERTO CAIEIRO

 
Nem só de amor vivem os homens, mas também de logros, roubos, assaltos, desfalques, trambiques, assassinatos, corrupção, feminicídio, fake news, interesses escusos, filhadaputagens diversas, e por aí vai, pois a capacidade da humanidade de fazer merda é muito grande. A poesia não tem força para mudar isso, mas funciona como aquele copo de água fresca em dias de fritar ovo no asfalto, alivia. E este é mais um post dedicado ao mês dos namorados, pois namorar não fere nenhum dos Dez Mandamentos. Lêaí:
 
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.  Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama

terça-feira, 2 de junho de 2026

MODERAÇÃO DE COMENTÁRIOS

 AVISO: Comentários estimulados por essa ou aquela publicação nunca o padrão do blog. na verdade, pouquíssimas pessoas deixaram ou ainda deixam algum comentáriosobre o que foi publicado. Mesmo assim, às vezes passo batido e nem descubro o que foi comentado. Por sso, já que eu gosto de responder a todos, resolvi voltar com a moderação de comentários só para ver se tem algum não descoberto. Mas TODOS serão publicados. É só isso, por enquanto.

LOS BESOS SE DAN EN LA BOCA


Digam o que quiserem, riam-se de mim se puderem, mas o melhor e maior antídoto ou alívio contra a miséria humana, contra o lodaçal em que os políticos se refestelam é o amor. Não estou brincando, estou falando sério, pois hoje, para mim, só o amor me permite respirar sem me intoxicar muito com a fumaça dos bombardeios que atingem prédios residenciais ou com o veneno diário que as redes sociais distribuem. E a melhor forma de buscar o amor é através da poesia lírica, porque de tragédias eu já estou farto. Por isso, sempre que puder, sempre que encontrar, sempre que conseguir escrever alguma coisa, publicarei aqui neste velho e inexpressivo blog um poema ou texto poético. E o primeiro é este (com direito a tradução)
 
LOS BESOS SE DAN EN LA BOCA
(Elsa Moreno Calabuig)

Creo que los besos se dan en la boca
porque es de donde brotan las palabras.
Si yo te besara la punta de los dedos
estaría buscando una caricia.
Si te besara la suela del zapato
estaría buscando un camino.
Si te besara en los párpados
cuando estás dormido
estaría pidiendo permiso
para entrar en tus sueños,
pero te estoy besando los labios
porque quiero escuchar mis palabras salir de ti.
(Otra vez…)
Si te besara la planta de los pies
buscaría un paso en falso.
Si te besara la parte interna del codo
buscaría tus cubículos.
Si te besara la sombra,
no sabría lo que busco
pero estaría tan cerca…
Si te buscara esta noche besaría a cada extraño
hasta encontrarte.
(Tampoco.. Otra vez…)
Si te besara,
sería escurridiza por un lienzo
carne que se desborda y que se expande
por las vigas de mi casa.
Treparía escurridiza por un muro fronterizo
entre la piel de la carne que se inyecta
en una estructura impersonal llamada nombre.
Estaría consumida antes siquiera de abrir los labios
si te besara y, no podemos hacer nada por esta muerte,
por esta muerte…
(demasiado…)
Si te besara,
sería escurridiza por un lienzo
carne que se desborda y que se expande
por las vigas de mi casa.
Treparía escurridiza por un muro fronterizo
entre la piel de la carne que se inyecta
en una estructura impersonal llamada nombre.
Estaría consumida antes siquiera de intentarlo
invocaría un cataclismo solo con pronunciarlo,
y por eso,
por eso,
me guardo quieta,
quieta,
atenta,
al tanto,
alerta,
alerta…
por si acaso…
por si acaso hubiese atisbo
de encontrar el punto medio entre los muros donde shhh…
no hacernos daño,
donde solo darnos cuenta
de hasta dónde llega el beso,
antes de que llegue la rabia.
 
BEIJOS SÃO DADOS NA BOCA
Elsa Moreno Calabuig
Acho que beijos são dados na boca
porque é de lá que as palavras brotam.
Se eu beijasse a ponta dos seus dedos,
estaria buscando um carinho.
Se eu beijasse a sola do seu sapato,
estaria buscando um caminho.
Se eu beijasse suas pálpebras
enquanto você dorme,
estaria pedindo permissão
para entrar nos seus sonhos,
mas estou beijando seus lábios
porque quero ouvir minhas palavras saírem de você.
(De novo…)
Se eu beijasse a sola dos seus pés,
estaria buscando um passo em falso.
Se eu beijasse a parte interna do seu cotovelo,
estaria buscando suas cavidades.
Se eu beijasse sua sombra,
eu não saberia o que estou procurando,
mas estaria tão perto…
 
Se eu estivesse procurando por você esta noite, beijaria todos os estranhos
até te encontrar. (Nem… De novo…)
Se eu te beijasse,
eu seria escorregadia sobre uma tela,
carne transbordando e se expandindo
ao longo das vigas da minha casa.
Eu subiria escorregadia por um muro divisório
entre a pele da carne que é injetada
em uma estrutura impessoal chamada nome.
Eu seria consumida antes mesmo de abrir meus lábios
se eu te beijasse, e não podemos fazer nada sobre esta morte,
sobre esta morte…
(demais…)
Se eu te beijasse,
eu seria escorregadia sobre uma tela,
carne transbordando e se expandindo
ao longo das vigas da minha casa.
Eu subiria escorregadia por um muro divisório
entre a pele da carne que é injetada
em uma estrutura impessoal chamada nome.
Eu seria consumida antes mesmo de tentar,
eu invocaria um cataclismo só de pronunciá-lo,
e é por isso,
é por isso,
eu me mantenho imóvel,
imóvel,
atenta,
consciente,
alerta,
alerta…
só por precaução…
só por precaução, caso haja um vislumbre
de encontrar o ponto médio entre as paredes onde shhh…
não nos machucamos,
onde só percebemos
o quão longe o beijo alcança,
antes que a fúria chegue.
 

domingo, 31 de maio de 2026

DIALÉTICA – VINÍCIUS DE MORAES

 
Mesmo que não haja fundamentação psicanalítica e nem eu tenha (ainda) formação nessa área, criei “para uso pessoal” uma divisão de personalidades e comportamentos, assim definidos: pessoas solares, de temperamento solar e pessoas lunares, de temperamento lunar.
 
Eu vejo a pessoa solar como alegre, bem resolvida, de bem com a vida. A lunar seria alguém com tendência à depressão, melancólica e triste, mesmo que sem motivo aparente.
 
Se quiser saber, eu me considero uma pessoa “lunar”, que brinca o tempo todo, faz piadas de quinta série, mas, quando está sozinho, murcha e mergulha para dentro de si mesmo.
 
Esta abordagem surgiu depois de ler o poema “Dialética”, do Vinicius de Moraes. Bom vivant, boêmio, casado com “n” mulheres, dizia que era "um homem triste, com uma grande vocação para a alegria". Imagino que essa dualidade foi a inspiração para estes versos:
 
É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção.
É claro que te acho linda
E em ti bendigo o amor das coisas simples.
É claro que te amo.
E tenho tudo para ser feliz.
Mas acontece que eu sou triste.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

CURRAL DEL REI

 
A cidade onde moro foi projetada e construída sobre Curral del-Rei, um povoado arrasado e demolido para que surgisse a nova capital do estado. Começou assim: destruindo o que já existia. Sensacional.
 
O projeto foi feito por engenheiros, mas engenheiro calcula e executa, não projeta nem deveria. Ainda mais uma cidade!
 
Previu-se uma avenida-anel contornando a área central, confinando e destacando os maiorais: funcionários públicos, empresários, gente abonada, bacana, em casas mais simples ou palacetes, mas cada um no seu quadrado – ou retângulo, pois as ruas e avenidas cruzam-se em desenho ortogonal, pouco importando se aquilo eram ladeiras vertiginosas. As curvas de nível foram solenemente ignoradas.
 
Aliás, talvez o único nível realmente respeitado fosse o social.
 
A área contornada era cercada de colônias agrícolas onde a ralé e os imigrantes – espanhóis, italianos, portugueses – compunham a turma do agro, necessária para alimentar os parasitas públicos e os grandes negociantes da cidade, sempre dispostos às grandes negociatas.
 
Com o tempo, essas colônias foram loteadas, fazendo surgir os bairros mais antigos da cidade: periféricos, de urbanização desleixada, casas simples, ruas, becos e calçadas sem padrão, como se a própria arquitetura denunciasse sua origem desimportante.
 
A população desses bairros também carregava essa marca. Afinal, como conviver com a elite sócio-econômica da cidade? Só mesmo na zona, em um dos muitos puteiros discretamente afastados do olhar das famílias de bem. E sabe por que estou dizendo tudo isso?
 
Porque quis o destino – ou um anjo safado, ou talvez um chato de um querubim – que eu nascesse num desses bairros periféricos, depois que meu pai viu a quebra das empresas familiares das quais um dia fora sócio. O resultado foi sair da área nobre para morar na casa da sogra, ela própria uma deserdada do destino, depois de assistir ao patrimônio deixado pelo pai ser embolsado pelos irmãos filhos da puta.
 
Éramos pobres, sem nos dar conta disso, exceto quando confrontados com nossos dois únicos primos por parte de mãe. Eles, as únicas crianças com quem podíamos brincar, eram ricos de nascença, tinham brinquedos incríveis, bicicletas, passavam as férias na praia ou em estâncias hidrominerais. E nós lá, só olhando – e babando.
 
Que tal ir à Praça da Estação para nos despedir deles em uma de suas viagens para o Rio? Bom, não é? Que tal ser convidado a entrar no Vera Cruz, que era o melhor trem de passageiros da época (com ar condicionado e tudo mais), só para conhecer a cabine onde os primos viajariam (deitados, claro, em camas beliche)? Excelente, não? Pois é, eu já fui levado a um ou dois desses bota-fora, à noite. A volta para casa sempre tinha um gostinho de fundo de gaiola.
 
Talvez venha daí essa insegurança atávica que trago hoje comigo: a percepção de que ter cultura é muito bom, mas melhor mesmo é viajar para a Europa.
 
Esta talvez seja a verdadeira explicação “histórico-geográfico-sociológica” do meu complexo de vira-latas.
 
Porque, no fundo, a questão que fica é esta: como tratar com naturalidade despreocupada, como conviver naturalmente com a elite econômica da cidade se eu nunca fiz parte dela?

quinta-feira, 28 de maio de 2026

TAGORE

 
Talvez, por ter ficado viúvo em dezembro (momento tristíssimo, devastador), deve ter sido em janeiro passado que ganhei de uma amiga o livro A morte é um dia que vale a pena viver, escrito por uma médica especialista em cuidados paliativos, prestados a doentes em estágio terminal e a seus familiares.
 
Comecei a lê-lo, mas a leitura não progredia. Só agora, durante a semana em que me afastei do blog e de toda a internet, consegui, recomeçando do zero, chegar ao final.
 
Em uma de suas páginas encontrei um poema de Rabindranath Tagore, prêmio Nobel de Literatura em 1913. Tagore foi um polímata indiano – poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta, compositor, pintor, filósofo, reformador social, educador, linguista e gramático – e o primeiro asiático a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura.
 
O resto, para quem se interessar em conhecer um pouco mais, já sabe: Wikipédia, internet etc. Porque minha intenção é apenas postar aqui, neste blog desclassificado, o poema que li. Bora lá.
 
Não me deixe rezar por proteção contra os
perigos, mas pelo destemor em enfrentá-los.
 
Não me deixe implorar pelo alívio da dor, mas
pela coragem de vencê-la.
 
Não me deixe procurar aliados na batalha
da vida, mas a minha própria força.
 
Não me deixe suplicar com temor aflito
para ser salvo, mas esperar paciência para merecer a liberdade.
 
Não me permita ser covarde, sentindo sua
clemência apenas no meu êxito, mas me deixe
sentir a força da sua mão quando eu cair.

O MEU OLHAR – ALBERTO CAIEIRO

  Nem só de amor vivem os homens, mas também de logros, roubos, assaltos, desfalques, trambiques, assassinatos, corrupção, feminicídio, fake...