Podem
até me criticar por eu ser tão romântico assim mas não
consigo entender que me critiquem sem saber o que
há dentro de mim Dentro
de mim existe algo que falta a quem me critica, que só
pode ser encontrado quando se está apaixonado, Que só
as crianças possuem: A
inocência de um amor suave e explosivo, difícil de ser contido, mais
ainda de ser entendido. Que um
idoso pode dizer em sua própria defesa? Que a
paixão foi reacesa e é limpa, pura, ardente, Como a
de um garoto adolescente. Talvez
por isso os versos que escrevo lembrem
rascunhos em cadernos escolares, rimando
sem pudor infantil com pueril E é
isso que realmente são – infantis, pueris, pois
traduzem pensamentos imaturos – mas
encharcados de amor e desejo Desprezando
a idade que tenho Sem
vergonha, sem ter pejo De
dizer, de falar, de gritar seu
nome, mas me contenho Não
pensando em mim, mas em você Que
pode não querer se ver exposta assim Só por
isso eu digo: “Jota Bebê”, eu te amo! E
agora, se quiserem, podem me criticar
Com gosto, à vontade, pois
não me prendo à idade, só ao
que o coração mandar. E que o
fascínio sempre sentido Jamais vire
desfascínio E que
esse amor siga vivo Até
onde eu puder aguentar
Fiquei aturdido ao receber a notícia do
falecimento da minha comadre Zezé, por complicações decorrentes de uma cirurgia
de ponte de safena. Maria José (como eu a chamava) era minha amiga desde 1975,
ano em que se casou com o Tinho e foi morar na casa ao lado da nossa. Nós
também nos casamos naquele ano. Engraçada, superdesbocada, adorava minha
mulher, a quem chamava de amiga-irmã. Ficou devastada quando uma doença cruel
interrompeu essa amizade, a mesma doença que abreviou a vida de seu amado
Tinho, o médico Dr. Wilton. Nossa relação era tão próxima que Zezé e
Tinho foram padrinhos de batismo de nosso terceiro filho. Anos depois, já
viúva, foi convidada para ser madrinha de uma das gêmeas de outro filho nosso.
De vez em quando, ligava dizendo estar com saudade de nós, de mim. E conversava
durante duas horas ou mais, sem se preocupar com o tempo ou o horário. Agora, não haverá mais telefonemas, nem
aquelas conversas intermináveis. É estranho pensar que alguém que fez parte de
nossas vidas durante tantos anos simplesmente deixa de estar ao alcance.
Sabemos que a pessoa morreu, mas há uma sensação de estranhamento por não poder
mais ouvi-la, contar-lhe alguma coisa, saber das novidades. A vida continua,
mas uma parte dela já não pode ser compartilhada com quem sempre esteve ali. Conheço bem essa sensação. Desde a morte de
minha amada Lily, ela me visita nos momentos mais banais: ao olhar uma
fotografia antiga, procurar algum objeto ou tentar preparar algum alimento
minimamente comestível. De repente, sinto a presença-ausência de quem
compartilhou comigo uma história de 55 anos. É quando a realidade da perda se
impõe, não como uma grande tragédia, mas como a impossibilidade miúda e
definitiva de continuar vivendo certas coisas juntos. Lembro-me, então, de um verso lindo escrito
por Ronaldo Bastos e cantado por Beto Guedes, numa música feita em homenagem a
Elis Regina, que havia morrido pouco antes: “Dói de tanto medir a distância, saber
que não vou te tocar além da lembrança”. Talvez seja essa a maior estranheza da morte:
a pessoa continua tão presente em nossa memória, tão misturada à nossa
história, que custamos a aceitar que não esteja mais aqui. E, no entanto, não
está. O que antes era convivência agora é só lembrança, e a lembrança, por mais
viva que seja, não atende ao telefone. Mesmo sem acreditar em vida depois da morte,
gosto de imaginar que Zezé e minha mulher devem agora estar tomando uma cerveja
e atualizando a conversa. E têm toda a eternidade para colocar a prosa em dia. Escutaí a música.
Alguns pensamentos, provocados por frases que
leio ou ouço, demoram a me abandonar. A mais recente é: “Existe vida mais
barata, mas não presta não”.
Lembrei-me, então, de uma música gravada em
1954, cuja letra ironiza o esnobismo e a futilidade da elite social e econômica
do Rio de Janeiro — uma sátira que combina com a frase que me ficou na cabeça.
Como a letra faz referências a personalidades
daquela época, resolvi “traduzi-la” para os leitores de hoje.
Doutor
de anedota e de champanhota Estou
acontecendo no café soçaite Só digo
enchanté, muito merci, all right Troquei
a luz do dia pela luz da Light Agora
estou somente contra a Dama de Preto Nos dez
mais elegantes, eu estou também Adoro
Riverside, só pesco em Cabo Frio Decididamente,
eu sou gente bem Enquanto
a plebe rude na cidade dorme Eu ando
com o Jacinto, que é também de Thormes Terezas
e Dolores, falam bem de mim Eu sou até
citado na coluna do Ibrahim E
quando alguém pergunta: como é que pode? Papai
de Black-tie, jantando com o Didu Eu peço
mais um whisky embora esteja pronto Como é
que pode? Depois eu conto
Café Soçaite: corruptela de Café Society,
expressão que designava a alta sociedade, formada por milionários,
aristocratas, celebridades, artistas e boêmios.
Ibrahim: Ibrahim Sued, jornalista e colunista
social, um dos principais nomes do colunismo social brasileiro. Ficou conhecido
também pelas gafes, muitas vezes aparentemente propositais, no rádio e na
televisão.
Dama de Preto: personagem criada por Ibrahim
Sued para fazer críticas anônimas e mordazes à sociedade carioca.
Jacinto de Thormes: pseudônimo de Maneco
Müller, jornalista, cronista esportivo e pioneiro do colunismo social no
Brasil.
Thereza e Dolores: Thereza de Souza Campos e
Dolores Guinle, duas figuras conhecidas da alta sociedade carioca.
Didu: apelido de Carlos Eduardo de Souza
Campos, banqueiro e personagem destacado da sociedade carioca. Foi casado com
Thereza de Souza Campos.
Pronto: gíria antiga
para designar quem estava sem dinheiro.
Ontem, ouvindo meu filho tocar Beatles no
trompete Revivi
emoções já sentidas antes, Talvez modificadas pela passagem do tempo. Senti saudade de um tempo há muito vivido. Pensando bem, senti saudade de mim, De quando não sentia saudade de nada nem de
ninguém. E tudo o que eu queria era cantar músicas dos
Beatles. E tudo o que acontecia era estar apaixonado
por alguém. E tudo o que eu desejava era que alguém se
apaixonasse por mim Ao me ouvir cantar “If I Fell in Love with
You” Ou outra balada romântica da banda. Hoje, meu violão não soa bem e eu Esqueci as letras que gostava de cantar.
A mensagem “Tem vida mais barata, mas não presta, não!” teria sido enviada por
um dono de cartório a um amigo. Mas caiu na rede, viralizou e até virou letra
de música. Eu não a conhecia – até uma mulher muito rica tê-la dito para mim
com um sorriso malicioso no rosto lindo. Claro que era uma ironia, embora revelasse
uma maneira de pensar que não é exclusiva de quem a enunciou. Minha reação foi de
perplexidade, pois por trás da ironia, enxerguei um sarcasmo cruel, revelador
de uma visão elitista e deslumbrada da vida. Incomodado, pedi a uma IA uma
análise sociológica da frase. Eis o resultado: “A
expressão popular ‘tem vida mais barata, mas não presta, não’ reflete um
cruzamento entre a cultura da ostentação, o hedonismo e a mercantilização do
status social na sociedade contemporânea. Do ponto de vista sociológico, a
frase sintetiza a ideia de que a dignidade, a felicidade e o bem-estar são
equiparados ao poder de consumo . Em
contraposição, a qualidade de vida deixa de ser medida pelo tempo livre, pela
paz de espírito ou pelas relações afetivas, e passa a ser validada por gastos
materiais — camarotes open bar, iates, carros importados e festas. Ao
afirmar que a vida mais barata ‘não presta’, o discurso descarta as formas de
existência que escapam ao ciclo de acumulação e exibição de riquezas,
estigmatizando a simplicidade como sinônimo de fracasso ou tédio. O
estilo de vida defendido nessa máxima aposta no prazer imediato e efêmero.
Frases como essa também são apropriadas ironicamente por elites ou grupos
privilegiados para naturalizar desigualdades, como quem diz que manter um
padrão excludente e caro é a única forma ‘civilizada’ de existir, ignorando que
a ‘vida barata’ é a realidade compulsória da maioria da população”. E é aí que entra outra ironia: afinal, o que
é uma vida barata? Para Elon Musk, trilionário, talvez seja a de quem dispõe de
apenas alguns bilhões e nem aparece nas listas da Forbes. Para o
assalariado que chega ao fim do mês sem dinheiro, talvez seja a de quem depende
do Bolsa-Família. Foi o que me ocorreu ao ouvir aquela frase,
dita com um sorriso por uma mulher linda. Porque, feitas as contas e comparada
com a sua, a minha vida talvez seja uma dessas vidas baratas que, segundo ela,
não prestam.
Se ela realmente enxerga a vida dessa
maneira, onde eu me encaixo na sua escala de valores?
Por questões de "foro íntimo", resolvi mover esta postagem de 2024 para hoje. Tanta coisa aconteceu desde então! E a música é linda, atemporal.
Para quem não conhece, Ryk@rdo é um poeta
português de gosto sofisticado e mestre em escrever belos poemas com rima e
métrica impecáveis. Hoje, ao acessar seu blog “Pensamentos e Devaneios Poéticos”
(recomendo!) o primeiro verso de sua publicação mais recente – “Sorri quando não há sol ao amanhecer" – me fez
lembrar da versão brasileira da música “Smile” composta por Charlie Chaplin. E
este presente é que deixo para os leitores nesta sexta-feira. Letra de
Braguinha e música de Charlie Chaplin na voz de Djavan.. https://www.youtube.com/watch?v=LnKJKCZT5Jw Sorri Quando
a dor te torturar E a
saudade atormentar Os teus
dias tristonhos, vazios Sorri Quanto
tudo terminar Quando
nada mais restar Do teu
sonho encantador Sorri Quando
o Sol perder a luz E
sentires uma cruz Nos
teus ombros cansados, doridos Sorri Vai
mentindo a tua dor E ao
notar que tu sorries Todo
mundo irá supor Que és
feliz... Sorri Vai
mentindo a tua dor E ao
notar que tu sorries Todo
mundo irá supor Que és
feliz