quarta-feira, 13 de maio de 2026

AS FILHAS DE JULIETA (E FRANCISCO) - A REVISTA

 
Preciso fazer uma confissão antes de começar: os textos com lembranças sobre a família de minha mãe foram sendo escritos meio sem vontade, "só para cumprir tabela". Talvez por isso a gramática tenha sido  mais atropelada que o normal, pois não estava com a obsessão tradicional de corrigir ou revisar muito (e, ainda assim, continuar trucidando a língua).
O motivo principal pode ser o receio de magoar algum parente ou escandalizar meus irmãos, pois os primeiros posts, talvez mais descontraídos, foram originalmente escritos para meus filhos. Só depois é que resolvi publicá-los no Blogson. Já a série que hoje se inicia foi escrita especificamente para o blog.
Uma das explicações para esse receio de magoar ou ofender pode ser o fato de não achar graça em textos "chapa branca", de louvação ou com a "poeira escondida atrás da porta". Para mim, a coisa funciona como um retrato sem retoque: "o nariz é grande? Sim, é. O comportamento é risível ou reprovável? Sim!” Nada disso é necessariamente verdade – ou pode ser e até mais ainda. E daí? Isso mudará alguma coisa? Claro que não. Mas que saiu meio sofrido, saiu. E a reunião dos cinco posts originais ficou longuérrima, dez vezes maior que meu padrão de publicação. Bom, chega de frescura, Quem quiser, que leia. Ou não.
 
 
Tia Ci (Araci)
A mais velha das filhas de meus avós maternos é a Tia Ci. Aliás, é a mais velha de todos os irmãos. Nasceu em 19/02/1919 e chama-se Araci, mas, para todos os parentes é Ci. Ou Tia Ci. 
Tia Ci casou-se com Tio Tristano, um italiano que chegou ao Brasil ainda criança, juntamente com os pais, a irmã mais velha e um irmão. Segundo ouvi dizer, seu pai não achou muita graça em permanecer no país e resolveu voltar para a Itália. Chiara (ou Dona Clara, como era chamada por todos), de temperamento forte, autêntica “fêmea alfa”, recusou-se a voltar, mas foi com ele até o Rio de Janeiro (talvez para ter certeza que iria mesmo entrar no navio que o levaria de volta).
No momento do embarque e separação definitiva, o italiano ainda exclamou para que ela voltasse com ele (até imagino a cena: –“Chiara, torna con me”!), mas o que recebeu de volta foi uma solene “banana”. Imagino que foi a partir daí que ela meteu a cara no trabalho e venceu na vida, a exemplo de outros imigrantes que ficaram ricos mesmo tendo aqui chegado com uma mão à frente e outra atrás. O nome dessa mágica é trabalho duro, dedicação, tino comercial, esperteza ou o que quer que seja. Só não combina com “dolce far niente”.
Morava em uma casa de dois andares construída em local super nobre, a menos de 50 metros da saída de serviço do Palácio da Liberdade. Possuía uma casa de campo também de dois andares em Lagoa Santa, construída na época em que ruas pavimentadas só existiam no centro do município. Essa casa, destino de boa parte das minhas férias escolares, ainda existe e fica no centro de um terreno que ocupa metade de uma quadra (ou quarteirão) à beira da lagoa.
A italiana Chiara devia ser foda nos negócios, pois, além das duas casas, era também dona de um hotel “meia estrela” no centro de BH, lotes bem situados (um deles vendido a ela por minha avó), um predinho comercial de três pavimentos e sei lá mais o que. O que sei é que quando a conheci, já era bem velha e rica, bem rica. E chata, bem chata.
E minha tia morava com ela. Aliás, com ela, com a “Nona” (mãe da sogra, já esclerosada), com a cunhada “solteirona” e com um cunhado ainda solteiro. Creio que o arranjo era assim: sogra e cunhados ocupavam os quartos do segundo andar. A “casa” propriamente dita, com sala (enorme), cozinha, saleta de estudos (ou escritório), banheiro e os quartos ocupados por minha tia, o marido e os dois filhos, “acontecia” mesmo no térreo.
Talvez pelo treino adquirido por conta da convivência forçada com a sogra jabiraca ou por uma ótima inteligência emocional, o fato é que Tia Ci sempre se mostrou a mais tranquila e bem humorada da família (escorada também na máxima de que “rico ri à toa”).
Graças à pindaíba em que vivíamos, minha mãe começou a costurar para a irmã, sogra e cunhada. Para facilitar esses lances de prova, ajuste, bainha e sei lá mais o que, tudo era feito nessa casa. Para onde eu ia, levado por minha mãe. Ali fazia meu dever de casa, lanchava, lia alguns livros e revistinhas dos primos, ouvia discos e coçava saco até anoitecer. Às vezes era obrigado a jantar com toda a família. E era obrigado mesmo, pois sempre rolava uma sopa de macarrão com legumes, que eu odiava. O macarrão era daqueles que parece um cano de pvc, de tão grosso. Creio que o nome do infeliz é rigatoni. 
Então, tomar aquela sopa onde batata era o único ingrediente de que eu gostava, era dureza. E vinha a velha autoritária encher meu saco por me recusar a tomar aquilo. Provavelmente deveria pensar que pobre não tem escolha.
Um parêntese: essa constatação me fez lembrar um cunhado que já foi "o" comedor. Quando alguém comenta sobre os muitos dragões que já pegou, ele diz, fazendo cara de filho da puta:
- "Como a gente era pobre, meu pai me ensinou a comer de tudo. E quem come qualquer coisa, está sempre mastigando". Figuraça.
Mas, voltando às lembranças de minha tia e familiares, uma coisa que sempre me deixava incomodado - mesmo sendo criança - é o fato de sua sogra falar em italiano com os filhos na nossa presença. Sempre tive a impressão que estaria criticando alguém. No caso, Tia Ci, minha mãe ou eu mesmo. Muito tempo depois descobri uma curiosidade interessantíssima: a língua que falavam era um dialeto da região onde nasceram. À exceção da filha mais velha que tinha voltado à Itália para estudar em internato, creio que nenhum deles sabia falar a língua oficial do país de origem.
Os dois filhos de Tia Ci regulam em idade comigo e com meu irmão. Por isso, eram as únicas crianças com quem brincávamos – quando podíamos nos encontrar. Isso podia ser bom ou ruim, dependendo da época do ano. Se não fosse Natal, Dia das Crianças, Páscoa, férias escolares ou o aniversário de um deles, era bem legal. As outras datas deixavam um travo meio amargo na boca, algo assim como um “gosto de fundo de gaiola”. Porque nesses momentos a distância quase abissal entre a nossa pobreza e sua riqueza ficava explícita. Os brinquedos que ganhavam e as viagens que faziam para a praia me deixavam babando.
Eu não tinha inveja ou raiva ou despeito pelo que possuíam, ganhavam ou faziam; o que eu sentia é tristeza pelo que eu não tinha nem jamais ganharia: bicicletas Monark, patinetes Gulliver, espingardas de chumbinho, patins, bolas de couro de futebol, vôlei e basquete, mesas de sinuca, pebolim e ping-pong, arco e flecha, jogo de dardos, brinquedos a pilha, molinetes e varas (nylon) de pesca, espingardas de raios (a pilha), ovos de chocolate maiores que um ovo de avestruz, brinquedos importados, brinquedos, brinquedos, brinquedos.
Como aconteceu quando Dona Clara foi à Itália para receber um valor correspondente à desapropriação de um terreno que sua família possuía, localizado no eixo de uma rodovia que seria construída. A velha preparou um “cinto de utilidades” a ser usado sob a roupa, para acomodar e trazer em dinheiro vivo a grana que recebeu. Além do dinheiro, trouxe também presentes para toda a família. Até eu e meu irmão fomos lembrados! Podem acreditar! Meus primos ganharam trocentos brinquedos italianos incríveis, eu ganhei uma bolinha de gude toda vermelha e meu irmão ganhou uma, toda verde. Muito bom!
Apesar dessa fartura de presentes e mimos, os filhos de Tia Ci provavelmente eram (também) muito ansiosos, pois destruíam lápis, borrachas e canetas no dente. Lápis de cor importados, inúmeras canetas-tinteiro Parker 51, nada disso resistia aos hábitos de roedor neurótico dos primos. Para evitar "problemas de saúde", diariamente minha tia lavava e acondicionava tudo nos estojos, substituindo os mais danificados. Verdadeiro castigo de Prometeu.
Tio Tristano, apesar de médico e ao contrário de seu irmão Jorge, era muito introvertido. Talvez por isso, creio que raramente olhava para as pessoas com quem conversava. Tinha o semblante sempre fechado e a mania de ficar olhando fixamente para algum ponto da parede, piscando muito. Às vezes exclamava seu bordão predileto: -“Amintas, a situação está preta"!
No final de 1973, no dia do baile de formatura de meu irmão, eu e minha então namorada fomos à casa do Tio Tristano para pegar carona com meu primo mais novo, que também estava se formando. Minha mulher é linda, sempre foi linda e estava particularmente linda nesse dia. Ao vê-la toda maquiada, vestido longo e cílios postiços, quase a matou de vergonha e constrangimento, pois ficou olhando para ela fixamente, mesmerizado, examinando-a de perto como quem vê um ET acorrentado. Tia Ci, rindo, comentou que ele a estava deixando sem graça, pois nem se conheciam antes desse dia. Foi quando ele “despertou do transe hipnótico” e disse que ela estava igualzinha à Jane Fonda.
Só agora me dei conta de me lembrar mais das pessoas e casos no entorno de Tia Ci do que dela, propriamente. Mas é real. A época em que tivemos mais contato foi quando minha irmã nasceu, pois ela foi vários dias à casa de minha avó só para preparar o almoço, enquanto minha mãe estava “de resguardo”. Foi um momento muito legal.
O tempo passou e hoje, no terreno da casa de Belo Horizonte, existe um prédio de apartamentos construído originalmente para os filhos e netos de Dona Clara. Creio que só Tia Ci continua a morar lá. A casa de Lagoa Santa pertence a apenas um ou dois dos quatro netos da italiana e o que era um hotel de verdade tornou-se um pardieiro decadente.
Mas minha Tia Ci está bem e sempre animada. Não faz muito tempo, tive notícias dela: teria quebrado algum osso da perna ao cair devido ao balanço do navio que a levaria em um cruzeiro pela Grécia com os filhos, netos e bisnetos.
Como é minha madrinha de batismo, já cobrou várias vezes minha visita, argumentando que não demora muito a morrer, pois está com 97 anos. Até hoje, nos últimos cinquenta anos, só fui visitá-la uma única vez. Que eu poderia agora dizer a ela?
-“Eu vou, Tia Ci, eu vou”.
 
Lia (Maria)
Minha mãe nasceu em 19 de dezembro de 1920 e morreu em 28 de outubro de 2009 (dia de São Judas Tadeu, segundo minha irmã). Nesse intervalo de tempo teve sonhos, casou-se, sofreu humilhações, teve três filhos e seis netos. Acabou? Não, claro. O problema, a dificuldade de falar sobre ela está no fato de ser minha mãe.
Não que eu tenha grilo em detonar Dona Lia (mesmo que isso seja deselegante). Até porque não há mãe perfeita, inatingível, intocável, no pedestal (nem pai). Como cantaram os tropicalistas, "ser mãe é desdobrar fibra por fibra o coração dos filhos", uma releitura sacana de um verso do Coelho Neto ("ser mãe é desdobrar fibra por fibra o coração!").
Mas vamos tentar avançar. Minha mãe chamava-se Maria (só Maria, assim como eu sou apenas José), mas Lia era a forma como todos a chamavam. Para ser sincero, nem todos. Duas sobrinhas de meu pai, gêmeas univitelinas, talvez por só terem começado a falar com quatro anos (já contei esse caso), quando falavam com ou de minha mãe diziam "Liarr", produzindo um som rouco, afrancesado, como se estivessem pigarreando. A mesma "rouquidão" acontecia ao pronunciarem o nome de meu irmão - "Eduarrrdo" Quando falavam meu nome diziam "Cecinho", querendo dizer "Zezinho".
Era dócil de trato e se dava bem com todas as cunhadas (esse não era exatamente um padrão familiar). Talvez essa docilidade fosse uma tática de defesa, pois, já casada, viu-se obrigada a continuar morando na casa de sua mãe. Como já foi contado antes, meu pai e seus irmãos quebraram na época da Segunda Guerra. Essa dureza, essa falta de dinheiro, a provável incapacidade de meu pai reagir a isso, a conseguir soerguer-se fez com que ela só conseguisse ter sua casinha já com quase sessenta anos. Lembro-me de algumas vezes tê-la ouvido dizer em tom ligeiramente queixoso do sonho ainda não alcançado de ter sua própria casa. Imagino que nessas horas já tinha engolido doses adicionais de humilhações e aborrecimento.
Mas, preciso admitir, não acredito que ela fosse a perfeitinha, "prendada e do lar" apenas. Imagino que tinha as garras retráteis como os felinos. Não fosse assim, meu psiquiatra não teria feito referência a seu comportamento de "mãe castradora". Mas não era barraqueira. Nem meu pai.
Quando eventualmente discutiam, não havia bate-boca nem se ouvia nada com volume acima do normal. Meu pai era particularmente bom na esgrima de sarcasmo e ironia ferina. Minha mãe era perita em silêncios e chantagem emocional. Assim, quando ouvia palavras mais cortantes (ele era muito bom nisso), emburrava e ficava uma semana sem dar uma palavra com ele, que ficava no maior "porco", com cara de cachorro que peidou na igreja. É importante destacar que esses espasmos ocorriam muito esporadicamente, pois, no geral, viviam e conviviam muito bem.
A demência de minha avó começou a dar sinais quando eu tinha uns quinze, dezesseis anos. Isso significa que durante uns vinte anos minha mãe deve ter-se aborrecido e sentido a humilhação de ouvir comentários pouco elogiosos à indolência de meu pai e sua incapacidade de arranjar um emprego, qualquer que fosse ele. Essas minhas suspeitas são mais que suposições, pois ouvi de uma antiga amiga de minha mãe que essa era a avaliação da "família". Infelizmente, meu pai esmerava-se em fornecer lenha para essa fogueira, pois acordava muito tarde (provavelmente em consequência de depressão e sensação de impotência – ou preguiça mesmo), saindo após o almoço sabe Deus para onde. 
Às vezes chegava esperançoso e comentava com minha mãe que tinha conversado outra vez com o deputado Aécio Cunha (pai do Aécio Neves) e que teria recebido dele a "milésima" promessa de uma sinecura ou boquinha em algum órgão público. Imagino que se os dois ainda estivessem vivos, meu pai estaria esperando o cumprimento dessa promessa de candidato que já está eleito. 
Nunca tive coragem nem interesse em conversar sobre isso com meus pais, mas fico meio perplexo por meu pai nunca ter exercido a medicina (pois parecia ser um bom médico), preferindo tentar ganhar a vida como farmacêutico – mesmo aparentando não ter o menor tino comercial para isso – e, depois, como químico. Talvez a medicina da época fosse exercida em consultórios (que meu pai não tinha condição financeira de montar), talvez a inexistência de planos de saúde fosse outro limitador, não sei. O que sei é que meu pai e seu irmão Nhô, em virtude das dívidas provocadas pela quebra dos negócios da família, passaram todo o período da minha infância envolvidos com o pagamento de agiotas, pegando aqui, pagando ali, etc.
O que isso tinha a ver com minha mãe? Tudo, claro, pois quem aparava os raios de mau humor atirados por meu pai, quem ouvia calada os comentários ácidos de familiares, quem era obrigada a cozinhar, lavar, passar e fazer faxina em uma casa onde moravam dez adultos e duas crianças era ela, que ainda dava um jeito de costurar para a irmã rica só para ganhar alguns trocados.
Essa situação mudou com o tempo? Claro que mudou, pois os irmãos foram casando, minha avó começou a catar coquinho no asfalto e meu pai finalmente arranjou um emprego fixo em empresa particular, com carteira assinada (eu tinha uns treze anos quando isso aconteceu). Óbvio que a vida ficou menos opressiva, mas até chegar a esse ponto, nem consigo imaginar os sapos que minha mãe foi obrigada a engolir. Se vacilar, pode ter sido até a responsável pela extinção de alguma espécie.
Minha avó morreu em 1972. Com a morte de meu avô em 1976, ficaram morando na casa onde vivi toda minha vida de solteiro apenas meus pais, minha irmã e minha tia Aidê (que tinha uma carta na manga). Depois da morte de minha avó, aos poucos, minha tia foi comprando dos irmãos interessados em vender, a parte que lhes cabia da casa de sua mãe. Assim, pouco tempo depois de perder o pai, tia Aidê resolveu vender a casa, pois já era dona de 50% do imóvel. 
Para encurtar a conversa, vendeu para minha mãe uma casinha que possuía em Lagoa Santa (mas ficou com metade do lote), um processo tão intrincado, complexo e obscuro que motivou o fato de – logo depois da morte de Dona Lia – eu ter sido também declarado "morto" por meu irmão, tudo por causa de um mal-entendido gigantesco (ele entendeu mal). Depois disso, mesmo que continue a amá-lo, mesmo que continue rezando (orando) por ele, mesmo que continue gostando dele como sempre gostei, sempre digo de sacanagem que só voltaremos a nos falar no Centro Espírita Grande Oriente.
Mas antes que esse caldo entornasse e antes que o "alemão" invadisse sua mente, minha mãe viveu nessa casinha e nessa cidade talvez os melhores e mais tranquilos anos de sua vida, ao lado de meu pai, de minha irmã e, no tempo certo, de meu cunhado e meu sobrinho. É importante dizer que esse cunhado tornou-se quase um filho para meus pais, tal a paciência e atenção que dedicou a eles.
É quase impossível falar de minha mãe dissociada de meu pai. Mesmo sendo tão diferentes em sua essência, eram extremamente unidos, fazendo uma versão "casal" do Gordo e o Magro, pois minha mãe era extremamente magra e meu pai, depois de conseguir abandonar definitivamente o cigarro, obeso mórbido, graças a um apetite filhadaputa. No final de suas vidas, dormiam em quartos separados (- "seu pai ronca demais!"), mas lembro-me do dia em que minha mãe ainda lúcida comentou que "sentia muita falta" de meu pai, falecido alguns anos antes.
Resumindo, Dona Lia e Seu Amintas eram pessoas cheias de defeitos e qualidades (como aliás, todo mundo é), mas deixaram para os filhos a melhor herança que alguém poderia receber: o exemplo de um amor extremado por nós. E eu os amava por isso.
Minha mãe morreu com quase 89 anos, vítima de Alzheimer. Talvez tivesse uma propensão genética para sofrer de algum tipo de demência, pois sua mãe morreu com 74 anos, do que na época chamou-se de "arteriosclerose" (ou aterosclerose), quase como um bebê.
Creio que o "start" da doença de Dona Lia aconteceu depois de ter sofrido derrame nos dois olhos, fruto provável de um pico de pressão intraocular em quem nunca sofreu de hipertensão. Aplicações de laser foram feitas para corrigir ou amenizar esse problema, mas nunca mais ela conseguiu enxergar direito. A partir daí, só conseguia ver alguma coisa com a lateral do olho (essa explicação é minha!), pois quando eu chegava perto dela, percebia que estava olhando na direção de uma de minhas orelhas (fáceis de localizar!), em vez de me fitar olho no olho.
Com essa deficiência, ficou impedida de sair sozinha para fazer algum compra pelas redondezas, o que talvez tenha mudado o padrão de circulação sanguínea (minha suposição!). Para mim, essa explicação faz sentido se comparada ao comportamento de minha avó, que disse uma vez já ter trabalhado muito e que "agora queria descansar", o que fazia ao ler os jornais e sei lá mais o que, sentada ou reclinada na cama. Seis anos depois estava morta. A imagem que faço disso é o ato de andar de bicicleta: parou de pedalar, caiu.
Parêntese irresistível: com a Dilma aconteceu justamente o contrário, pois caiu de tanto pedalar (duh!). Fim do parêntese.
Apesar da limitação que a impedia de sair à rua, continuou a cuidar da casa: limpava, cozinhava, lavava roupa e ... pregava botões! Lembrando-me do Djavan, "mais fácil aprender japonês em Braille".
Essa inatividade parcial foi enormemente aumentada quando minha tia Aidê aposentou e mudou-se para a casa que possui ao lado da de minha mãe. Por pena, solidariedade ou falta do que fazer, começou a ajudar Dona Lia nos afazeres domésticos. Olha a bicicleta aí de novo!
O que sei é que a demência instala-se devagar e, no início, provoca surpresa e espanto em quem convive com o doente. Foi o que aconteceu com minha avó, foi o que aconteceu com minha mãe. Como sempre fui um filho displicente e ausente, ia vê-la no máximo uma vez por mês. Minha irmã morava com ela e meu irmão ia toda semana visitá-la. Então, para eles a barra foi muito mais pesada, principalmente para minha irmã.
Quando ainda estava conversando razoavelmente bem, mostrava algum vaso de flor que sempre enfeitava a sala simples e saía esse diálogo:
- "Você viu que bonita aquela flor ali?"
- "Vi, mãe. Muito bonita mesmo!"
- "Sabe onde eu peguei? Na porteira da fazenda do Orlando!"
Orlando era seu primo e já tinha morrido uns duzentos anos antes. E a cada vez que o diálogo se repetia, havia outra flor qualquer, mas a porteira era sempre a mesma.
Às vezes me perguntava se eu já tinha visto a "Dindinha" (sua avó, morta antes de eu nascer). 
-"Não, mãe. Creio que ela saiu ou foi comprar pão". Eu aproveitava para fazer graça para minha irmã: 
-"Espero não vê-la tão cedo!"
Pode parecer insensibilidade de minha parte, mas eu já era escolado desde a demência de minha avó (já contei esse caso aqui no Blogson). Ao concordar com qualquer sandice que dizia – em vez de tentar corrigi-la – eu estava apenas evitando constrangê-la (e pensar que eu saquei isso quando tinha apenas uns dezesseis anos...). Um dia, entretanto, senti uma pena imensa, quando me disse colocando a mão em minha perna:
- "Sabe, Zé, eu fiquei tão triste outro dia! Eu tentei lembrar meu nome e não consegui!"
- "Preocupa não, Dona Lia, eu também tenho andado muito esquecido, às vezes até esqueço se já almocei ou não!" 
E fazia algum comentário idiota sobre velhice, deste tipo:
-"É, Dona Lia, a senhora está perdida! Seus filhos estão velhos demais!"
Ela ria e respondia que não, que eu estava muito bonito (preciso lembrar que as mães não tem desconfiômetro e que a minha, além de não enxergar direito, já estava caducando).
E a doença foi evoluindo e a confusão mental ficando cada vez maior. Um dia, depois de abraçá-la, ela comentou que "os meninos estavam na escola e não demorariam a chegar". Mas os "meninos" éramos nós! Em outra visita, estando já de saída, dei nela um beijo e um abraço estilo Jotabê (dava nela uma chacoalhada, sempre a tratando por "Dona Lia". Parece que ela achava aquilo o máximo, pois se fingia de zangada, mas ria feliz). Em seguida, fui despedindo-me das demais pessoas que ali estavam – irmã, sobrinho, tia Aidê e cunhado. Só que minha mulher continuou a conversar com minha irmã. Quando ela finalmente despediu-se de todos, voltei a abraçar minha mãe e a reação foi típica do Alzheimer: 
- "Ô, meu filho, você chegou?"
Nem todo mundo consegue entender ou aceitar essa falta irreversível de lógica. Meu irmão, teoricamente tão escolado como eu pelo convívio na adolescência com nossa avó, teve um dia a reação mais estúpida que eu jamais poderia esperar dele. Creio que exasperado pelas constantes referências à "presença" de minha avó (falecida em 1972) e da "Dindinha" (morta antes de 1950), colocou minha mãe dentro do carro, veio até Belo Horizonte (minha mãe morava em Lagoa Santa, município da região metropolitana), levou-a ao cemitério do Bonfim e, mostrando o túmulo (onde hoje ela também está) e disse-lhe: 
-"Sua mãe está enterrada aqui!" 
Preciso fazer algum comentário?
Em uma das últimas vezes que visitei Dona Lia, talvez a penúltima, e antes que eu a visse, Tia Aidê comentou que minha mãe apresentava novo comportamento: ficava sentada na beira da cama, virada para a parede, em silêncio e de cabeça baixa. Quando cheguei à porta do quarto, lá estava ela quietinha, olhando para o nada, passando a impressão de que estava muito triste ou deprimida. Chamei por ela, fui logo brincando como antes, mas sua reação foi de apatia e, talvez, indiferença, como se não estivesse me reconhecendo direito.
Ao contrário de sua mãe, que morreu apresentando reações de um bebê, Dona Lia ainda falava e andava na última vez em que estive com ela. Quando cheguei, minha tia avisou que estava deitada. Ao entrar no quarto pude ver que estava acordada e de olhos abertos. Sentei-me a seu lado, falei seu nome (-"E aí, Dona Lia?") e tentei lhe dar a "chacoalhada Jotabê", que tanto a fizera rir satisfeita em outros tempos. A reação que teve foi a que eu menos esperava. Com raiva, exclamou: 
-"Para! Você quer me quebrar?"
E eu fiquei ali, constrangido e sem saber o que dizer, mas com a certeza de que não mais conseguiria fazê-la rir ou sorrir a me ver chegar.
 
Tia Dalva
Em 30/07/1929 nasceu tia Dalva. Era genuinamente simpática e risonha. Dito isso, percebo que os irmãos e irmãs de minha mãe sempre foram bem humorados. Levavam uma vida dura, mas tinham uma "pobreza abençoada", conforme disse meu tio mais novo. Não eram necessariamente engraçados ou piadistas, apenas bem humorados, risonhos, solares.
Tia Dalva trabalhou a vida toda em um cartório de registro de notas. Não sei em qual função, só sei que escrevia à mão em livrões de capa dura, que às vezes levava para casa, talvez para dar conta do trabalho. Não sei como é hoje, mas o que ela fazia era uma coisa meio pré-histórica. Nem imagino quantas canetas tinteiro deve ter sucateado nessa atividade. Supondo trinta anos de serviço, onze meses por ano, vinte dias por mês, cinco horas por dia (já dei um refresco para os pit-stop), terão sido mais de trinta mil horas escrevinhando! Se não teve tendinite, só por milagre!
Quando eu tinha uns sete anos, Tia Dalva começou a namorar o Osíris, o amor de sua vida. Esse "tio" era irmão de uma colega de trabalho, que o apresentou. Boa aparência, cabelos muito crespos já sinalizando a futura calvície, olhos azuis, voz de locutor, elegante e cara de comedor, o que realmente era. Tinha um QE (quociente emocional) altíssimo, pois qualquer pessoa que se aproximasse dele não demorava a virar seu amigo e fã – ou presa. Com essas características, é óbvio que Tia Dalva logo se derreteria por ele.
E ele tinha a manha do envolvimento e da empatia, pois bem no início do namoro levou para mim e para meu irmão dois álbuns da "Dama e o Vagabundo" e uma porrada de pacotes de figurinha. De cara, já ganhou nossa simpatia e de minha mãe. Todos os dias em que ia à casa de minha avó trazia mais figurinhas. E os álbuns foram sendo preenchidos até chegar ao maior impasse, insolúvel até hoje: a única figurinha que faltou para meu irmão completar a coleção está colada no meu álbum e a que falta para mim está colada no dele. O motivo de usar o presente dos verbos é o fato de ter guardado até hoje esse presente recebido em 1958 (sua data de lançamento, segundo a internet).
O casamento de Tia Dalva foi um dos dois em que houve uma "recepção" em casa. O outro foi o de minha tia mais nova. Não sei qual foi a primeira a se casar, só sei que a casa ficava cheia de gente e com algumas primas de minha mãe particularmente inconvenientes. Lembro-me também da confecção de docinhos em um dos casamentos, alguns deles delicadamente colocados em uma conchinha. O detalhe suburbano dessa decoração é que as conchas foram confeccionadas com as tampinhas de alumínio que vinham nas garrafas de leite. Depois de limpas e higienizadas, foram laboriosamente moldadas com uma colher de sopa e frisadas com algum coisa pontuda para dar aquele aspecto ranhurado que algumas conchas verdadeiras apresentam. Muito "chique"!
Quando meus tios se casaram, estavam completamente sem dinheiro. Por isso, a lua de mel foi passada em Lagoa Santa, na casa de campo da sogra de minha Tia Ci, um casarão às margens da lagoa. Aí já viu, né? Lagoa tem peixe, peixe se pesca com vara, etc. O Osíris comentou comigo que nunca esteve tão duro como na época do casamento. Por isso, sem dinheiro para passear nem nada, eles “pescavam” de manhã, à tarde e à noite. Tenho quase certeza de que minha tia nunca foi tão feliz como nessa época (eu sei que fiz um comentário meio acanalhado, mas o objetivo era esse mesmo).
Já casada, Tia Dalva foi morar em um barracão (edícula) providencialmente construído na lateral da casa de minha avó. Não demorou muito para comprarem uma televisão – preto e branco, seletor de canais com quatro opções de canal (em BH só existia a TV Itacolomi, dos Diários Associados) e, se não me engano, móvel com pés palito. Show!
Naquela época, por volta de 1960, só pessoas mais abonadas ou que pretendiam parecer ser é que possuíam televisor. Essa situação criou a figura do televizinho, ironia com o pessoal que ia às casas de moradores próximos, só para ver aquela maravilha. Como esse luxo não existia ainda na casa de minha avó, virei freguês de meus tios, televizinho, telesobrinho. 
Meu tio "torto" aparentava gostar muito de mim. Aliás, não sei o motivo disso, pois meus tios sempre demonstraram gostar muito de mim. Quando seu filho mais novo nasceu eu tinha uns onze anos e fui chamado para ser "padrinho de consagração". Quando esse primo já era adolescente, fui convidado a ser seu padrinho de crisma, Quando se casou, olha lá o Jotabê de padrinho, um caso explícito de "tri-padrinhagem". Além disso, fui também chamado para dançar a valsa de quinze anos com sua irmã, mais velha que ele. Nada mais natural, portanto que Tia Dalva e Osíris tenham sido nossos padrinhos de casamento. 
Acho essa predileção bacana e estranha, pois os irmãos de minha mãe "produziram" mais de vinte primos e só eu fui lembrado para atividades "apadrinhatórias", pois fui também chamado para ser padrinho de batismo de uma das filhas de meu tio Omir (nesse caso, tive a companhia de outra prima).
Talvez por sempre tratá-lo com simplicidade e descontração, o Osíris gostava de conversar e contar alguns casos para mim. Eu ouvia e achava graça (um puxa-saco profissional!). Um dia, já adulto, ao elogiar sua capacidade absurda de cativar todo tipo de pessoas, disse que ele tinha uma qualidade especial: bastava meia-hora de papo com um desconhecido qualquer que logo essa pessoa já ficava querendo dar pra ele. Cagou de rir, mas adorou a frase, vaidoso que era. E era muito.
Talvez por essa descontração, me contava vários casos, inclusive os mais picantes. Foi representante comercial durante muitos anos. Quando começou o namoro com Tia Dalva, uma de suas representações era de uma fábrica de lingerie. Já adolescente, ouvi a história da venda de sutiãs para uma butique. Aparentando estar em dúvida a respeito dos modelos provavelmente exibidos por ele, a proprietária disse que iria experimentar alguns, com a condição de que meu tio a ajudasse. Nunca soube o estado civil dessa senhora, mas é tranquilo que rolou uma venda casada! Ele só não me disse quantas vezes ficou de olho na butique dela, nem se já era casado na época. Há outros casos, tão ou mais apimentados, mas preferi deixá-los onde estão, já quase esquecidos.
Um dia me contou de como comprou a casa que depois transformou em escritório. O proprietário estava puto com o inquilino e ofereceu o imóvel para meu tio. Imagino que deve ter argumentado não ter dinheiro, que estava caro, esse tipo de coisa, mas o proprietário insistiu e facilitou o pagamento, a ser feito mediante a emissão de três notas promissórias que seriam descontadas em banco, Alguma coisa assim. O que sei é que no resgate da última parcela, meu tio não tinha dinheiro suficiente e comunicou isso ao antigo dono. A solução encontrada pelo ex-proprietário foi emprestar o dinheiro para que o Osíris pagasse a promissória, e depois desse um jeito de pagar a ele. Pelo que entendi, era uma coisa meio de louco, pois ele emprestou para meu tio o dinheiro que deveria receber dele através do banco.
Outro exemplo dessa "sedução" aconteceu com o inquilino, que se recusava a sair do imóvel. Meu tio apenas o avisou que iria conseguir tirá-lo (não sei o que fez), o que realmente aconteceu. Esse inquilino era dono de uma mercearia e ficou tão impressionado com as artes e manhas de meu tio que passou a lhe pedir conselhos de todo tipo.
Tia Dalva parecia ter adoração pelo marido e provavelmente fazia tudo para agradá-lo. Lembro-me de uma "cadeira do papai" que comprou para ele no Dia dos Pais. No Dia das Mães ele retribuiu o carinho, comprando para ela um fogão novo...
Esse tio era extremamente competitivo e odiava perder, em qualquer situação. Quando os pais brincam com os filhos e usam jogos de tabuleiro, é normal deixar que as crianças ganhem, para não desapontá-las. Com o Osíris não tinha essa sopinha: jogando com o filho, ganhava todas, sem se preocupar se o filho ficaria triste. Era inteligentíssimo e espertíssimo, mas se ressentia de "não ter canudo", como me disse uma vez, referindo-se ao fato de não ter instrução universitária. Para ele, isso teria permitido que ele atingisse um sucesso muito maior do que alcançou. Mesmo pensando assim, não conseguiu sensibilizar meu "tri-afilhado", que também não fez faculdade. A diferença entre os dois é o que acontece em uma prova de revezamento: o filho pegou o embalo a partir das conquistas do pai. Com isso, ficou rico.
Até quando teve um infarto esse espírito de competição do Osíris se manifestou. Quando eu e minha mulher fomos visitá-lo, disse-nos que "sessenta por cento ou mais das pessoas que tiveram um infarto de tão grande extensão como fora o seu, morreram". Só faltou querer uma medalha por ter sobrevivido!
Antes de mudar-se para Lagoa Santa, durante muitos anos meus tios moraram a cinco ou seis quadras de nossa casa. Sempre que nos encontrávamos o Osíris insistia para que eu fosse tomar um café com ele, para conversar. Nunca fui, sempre arranjando alguma desculpa para isso. Um dia, já morando em Lagoa Santa, teve um segundo infarto (se não me engano) e não resistiu. Tive a mesma reação de quando meu avô morreu, pois lamentei não ter convivido mais com ele, meu tio, padrinho e compadre
Tia Dalva ainda viveu um bom tempo até começar a sofrer de Parkinson. Também não fui visitá-la. Morreu, se não me engano, em 2014. No fim da vida era alimentada através de sonda gástrica, não falava nem dava sinais de estar lúcida. Segundo minha irmã, apenas olhava para as pessoas – quando olhava – de modo indiferente, sem reação, como se já estivesse junto de seu rei, ídolo e amado Osíris. 
 
Tia Aidê
Tia Aidê nasceu em 24/08/1933. Assim como Tia Dalva, trabalhou muitos anos em um cartório de registro de notas. A diferença entre elas é que Tia Dalva era "escriturária" (não sei se esse é o termo correto), escrevia à mão (não faço a menor ideia do por que disso), enquanto Tia Aidê era datilógrafa. Muito foda, diga-se. Parecia uma metralhadora, de tão veloz. Um dia perguntei quantos toques ela dava por minuto e me contou ter feito um concurso para secretária da Assembleia Legislativa de Minas. Segundo ela, seu resultado foi 350(!) toques certos por minuto. Foi aprovada, mas não conseguiu a vaga, pois o concurso havia sido feito só para legitimar quem já estava lá dentro. Coisas do Brasil.
Por ter permanecido solteira, foi a única tia com quem convivi diariamente até me casar. Talvez por isso, sempre diz que gosta demais de mim. Esse sentimento é recíproco, ainda mais agora, que é minha fonte de consulta para casos da época da minha infância. Mas, como ficava fora o dia todo, não tenho quase nenhuma lembrança sua dessa época, a não ser o fato de ser totalmente impaciente com a eventual zona que os outros sobrinhos aprontavam nas tardes de sábado e domingo, quando os filhos de Dona Leta e Seu Chico iam visitá-los. Nesses dias, ela bancava o sargentão e enquadrava a molecada mais saidinha. Pelo que já percebi, esse é um comportamento padrão das tias solteiras.
Na minha adolescência, uma coisa que eu gostava bastante é o fato de ela comprar várias coleções de literatura, todos os livros com capa dura, lombada com letras douradas (na maioria das vezes) e fantásticos autores. Graças a meu isolamento nessa época, li muita coisa boa, clássicos mundiais, mas deixei de ler outro tanto, ou por não ter tempo ou pela estranheza que alguns me causaram. Dickens, por exemplo, comecei a ler, mas a linguagem antiga me fez desistir. 
Como Tia Aidê trabalhava muito, fico sem saber se tinha tempo para ler ou se essas coleções tinham mais uma função decorativa e de status, O que sei é que, pensando em uma possível futura herança, recentemente perguntei a ela sobre esses livros e a resposta foi arrasadora: a maior parte foi jogada fora depois de ser parcialmente devorada por um tipo de cupim que infestou sua casa em Lagoa Santa. No barato, mais de cem livros viraram cocô de inseto. Foda!
Só há pouco tempo fiquei sabendo que a casa de minha avó foi comprada pelos três ou quatro tios solteiros que trabalhavam na época: Tio Cici, Tia Aidê, Tio Nem e Tia Dalva. Segundo Tia Aidê, todo mês, parte do dinheirinho suado dos irmãos era juntado para resgatar cada uma das promissórias relativas ao parcelamento do valor pago pelo imóvel. O bacana dessa história é que o registro da compra foi feito em nome de minha avó. Assim, quando a casa foi vendida, todos os irmãos receberam sua parte nessa herança. Na prática, um presente para os que não ajudaram a comprar, dado pelos que ralaram para pagar.
Um dia, depois de anos trabalhando no cartório, Tia Aidê arranjou um emprego em uma empresa de mineração, lugar onde sua vida melhorou em todos os sentidos. Virou secretária-executiva da diretoria, começou a estudar direito (que logo abandonou), comprou um carro (que logo vendeu), fez curso de estenografia (ou taquigrafia, sei lá), conseguiu comprar um apartamento em BH, o imóvel de Lagoa Santa e encontrou o amor de sua vida, um amor outonal (ou invernal, talvez).
Depois de anos trabalhando com um dos diretores da empresa, bingo! Aconteceu aquele momento mágico, quando se apaixonou por ele e, creio, foi correspondida. Não faço a menor ideia de quando isso aconteceu, nem como. Apenas sei que o "Dr. Fulano" (o nome está omitido, lógico), como ela falava, era ou tinha sido casado. Parece que isso foi uma coisa tranquila, pois ela relacionava-se com o(s) filho(s) do cara.
O engraçado da história é que ela "não entregava a rapadura", mas era visível que havia um romance "no ar". Eu já estava casado quando fiquei sabendo disso. Quem me contou foi minha mãe, que às vezes dizia com ironia (e satisfação) coisas como "a Aidê foi lá, com o 'véio' dela".
Quando peguei pneumonia e fiquei internado no CTI, lá foi Tia Aidê com "o 'véio' dela" me visitar. Mas não pude conhecê-lo, pois só ficaram do lado de fora, conversando com minha mulher. E o tratamento "Dr. Fulano" continuava a ser usado por minha tia nas conversas com as irmãs e sobrinhos. Muito legal.
Mais ou menos na mesma época que minha mãe, o "Dr. Fulano" começou também a apresentar os sintomas de Alzheimer. Minha tia ia todos os dias à sua casa, para ficar com ele, caminhar com ele, cuidar dele, seu amor da "terceira idade". E foi assim até ele morrer. Mesmo que nunca tenha me falado explicitamente desse relacionamento, nunca conseguiu esconder o quanto ficou arrasada com essa perda.
Algum tempo depois, perguntou-me se eu queria ganhar uma cadeira que tinha comprado em um leilão da empresa onde trabalhara. Disse-me que era uma cadeira executiva, giratória, toda de madeira, bacanaça e que tinha sido usada pelo "Dr. Fulano". Disse-me também que gostaria muito que eu ficasse com ela. Aceitei, claro, não sem pensar no simbolismo e, talvez, “utilidade” que ela carregava. 
Talvez ela tenha imaginado que um objeto tão especial, relacionado a uma pessoa tão amada, estaria em boas mãos sendo dada a mim. Talvez, quem sabe, a presença desse móvel em sua casa provocasse lembranças muito dolorosas que pretendeu evitar.
Hoje, Tia Aidê é minha "consultora" para os casos da minha infância e da família de minha mãe. Às vezes eu penso que mesmo não tendo se casado – ou talvez por isso mesmo – teve um relacionamento muito mais intenso e feliz que o de sua irmã mais nova viveu em seu casamento, objeto de um post que encerrará minhas lembranças das filhas de Julieta (e Francisco).
 
Tia Marisa
A caçula das mulheres, tia Marisa, nasceu em 15/12/1935. Provavelmente casou-se com uns vinte e poucos anos, talvez antes de Tia Dalva. Essa pode ser uma das explicações de nunca ter trabalhado fora, ao contrário de Tia Dalva e Tia Aidê. Essa é apenas uma suposição, pelas pouquíssimas lembranças que tenho dessa época,
O que sei é que antes de eu entrar para o grupo escolar, me obrigava a deitar após o almoço, coisa que sempre me deixava puto. Para me manter na cama, deitava também e eu acabava pegando no sono. Era brava, independente e, creio, bem geniosa. Esse temperamento de gato do mato talvez tenha influenciado sua vida de casada, que imagino não ter sido "aquela brastemp".
Casou-se com o Jorge (Giorgio), quinze anos mais velho que ela e irmão mais novo de Tio Tristano, marido de Tia Ci. Essa diferença de idade e o fato de Tia Marisa já ser sua conhecida há muito tempo me faz pensar que o Jorge era extremamente tímido, apesar do bom humor e do riso alto. Era engenheiro-arquiteto e foi o responsável remoto por eu ter cursado engenharia civil.
Aliás, esse é quase um conto do vigário, pois, até onde sei, a única obra que fez ou projetou foi a ampliação do hotel que a mãe possuía no centro de BH. Mas eu achava que o papel do engenheiro é projetar casas, o que é um equívoco total. Mesmo assim, sempre disse que iria virar engenheiro como ele. E na hora da escolha, deixei-me levar pelo desejo de infância. "Ocevê" (sotaque mineiro) que merda! 
Quando ainda namorava minha tia, às vezes chamava minha mãe ou Tia Aidê para ir junto com eles dar um passeio de carro (o controle de Dona Leta devia ser brabo). Nessas ocasiões, eu e meu irmão íamos também. Para mim esses passeios noturnos eram tudo de bom, pois sempre nos levava para ver a fonte luminosa da Praça Raul Soares. Eu ficava embevecido olhando a constante mudança de cores e ele dizia que cada hora jorrava um suco diferente: groselha, morango, etc. E o coitado do Zezim acreditava em tudo e até pedia para descer do carro e beber um pouco (menino pobre e idiota é uma tristeza!). 
Após a contemplação da fonte, levava-nos a uma sorveteria próxima e nos comprava um eskibon. Nessa época o sorvete vinha embrulhado em papel manteiga ou coisa parecida e acondicionado em uma caixinha de papelão ou cartolina. Invariavelmente eu deixava cair na roupa, mas nem ligava. Na volta para casa depois dessas "emoções", o sono batia e eu chegava dormindo. Entendeu agora por que eu sempre disse que seria engenheiro? Tudo por conta do filho da puta de um sorvete e de uma fonte de onde jorrava quissuco!
Depois do casamento, Tia Marisa dividiu com a sogra e a cunhada o segundo andar do casarão onde já vivia a família de Tia Ci (sua irmã mais velha, que ocupava o primeiro andar). Provavelmente ficaram no antigo quarto de solteiro do Jorge, agora equipado com cama de casal. Esse arranjo não durou muito tempo, pois deve ter prevalecido a máxima de que "boi preto reconhece boi preto", ou seja, a autoritária Dona Clara encontrou uma pedreira igual à sua na pessoa da nora.
Para mim, isso ficou definitivamente claro quando minha tia ganhou da sogra uma geladeira vermelha. Só fiquei sabendo que Tia Marisa deve ter dado um piti ou feito “o” barraco e se recusou a receber e abrir o presente, pois não queria nem gostava de geladeira vermelha. E tinha raiva de quem gostava.
E o Jorge ali, coitado, marisco entre a rocha e o mar. Não demorou muito para que se mudassem para um apartamento amplo em uma parte boa da área central de BH, bem em frente à faculdade de direito da UFMG. Talvez os dois filhos tenham nascido já no novo endereço. Só sei que moraram muito tempo lá, uns dez anos talvez. Essa estimativa está relacionada às minhas idas frequentes a esse apartamento, para ler histórias em quadrinhos.
Meu primo mais velho, na época com uns onze, doze anos, tinha carta branca dos pais para comprar quantas revistas quisesse, o que realmente fazia. Depois de lê-las, trocava imediatamente por outras na mesma banca, na proporção de duas lidas por uma nova. Com isso, não tenho dúvida de que era o melhor cliente do proprietário. Por conta dessa fartura, da minha infantilidade congênita e da minha falta absoluta de responsabilidade (eu tinha acabado de entrar na faculdade!), eu ia para lá e ficávamos lendo os gibis a tarde toda. 
Que ninguém pense que só existiam revistinhas infantis. Claro que existiam, pois ele colecionava várias. Uma delas era a revista da Mônica que havia sido lançada há pouco tempo (as primeiras histórias tinham um enredo menos repetitivo e menos óbvio que hoje). Mas meu primo era quase um connoisseur de quadrinhos e comprava álbuns fantásticos de capa dura, com reedições primorosas de HQ das décadas de 1930 e 1940, desenhadas pelos autores originais: O Fantasma (Ray Moore), O Príncipe Valente (Hal Foster), Flash Gordon (Alex Raymond) e outros menos votados. Lia também tudo dos personagens do Stan Lee, as reedições das primeiras histórias do Popeye feitas pelo Segar, etc.. Era um mundo revistas a encarar e não me lembro do motivo de ter acabado essa mamata. Só sei que fui me afastando aos poucos daquela quadrinhoteca.
Quando esse primo atingiu a maioridade, comprou um ultraleve e saiu voando por aí. Segundo me contou, muitas vezes decolava da beira da lagoa, em frente à casa da família, em Lagoa Santa. Dito assim parece tranquilo, mas a distância é mínima, qualquer vacilada faria com que enfiasse o chifre na água. Depois, apaixonou-se sucessivamente por paraquedismo, paraglinder (ou parapente) e asa delta. Com essa, quase morreu.
Estávamos nos arrumando para ir à missa de sétimo dia do Osíris, marido de Tia Dalva, quando uma notícia extraordinária na TV informou a queda de duas asas delta na serra de Moeda e deu o nome dos pilotos. Um tinha morrido na hora. Quem ouviu a notícia foi minha mulher, que repetiu para mim o nome do sobrevivente, perguntando se não seria meu primo. Eu nem sabia ainda que ele voava com asa delta. Por isso, ligamos para a emissora e confirmamos o nome. Era mesmo meu primo. 
Fomos para a igreja e encontramos Tia Marisa, que acenou para nós toda alegrinha. Minha mulher falou para eu lhe perguntar se estava sabendo do acidente. Truquei na hora, pois não sou nada solidário com ninguém, ao contrário de minha mulher. Sem problema. Levantou-se, chamou Tia Marisa para fora da igreja e deu-lhe a notícia. Minha tia não sabia de nada e pediu para que minha mulher fosse com ela ao hospital.
Chegaram lá e encontraram um bando de amigos e colegas de meu primo, dentre eles sua esposa (a segunda), que nem tinham se tocado da necessidade de informar os parentes próximos. Quando meu primo saiu do hospital, minha tia deu uma festa para comemorar. Da família, só eu e minha mulher fomos convidados. Todo o resto era a gangue que tinha estado com ele no hospital.
Quando Tio Tristano morreu e estava sendo velado, sentei-me ao lado do Jorge, que me cumprimentou meio sem jeito, pois havia anos que não nos falávamos. Comentei que o tinha visto na televisão, falando de moedas antigas. Sabia que era filatelista, mas numismata era novidade. Riu meio sem jeito e contou-me que tinha como hobby uma lojinha com um amigo, e que tinha dado ao filho mais novo uma moeda da Roma antiga, mas tinha quase certeza que era falsa, apesar de muito bonita. E ficamos ali conversando sobre esse assunto um bom tempo, praticamente esquecidos do caixão que estava à nossa frente.
Um dia fiquei sabendo que Tia Marisa e ele tinham se separado, apesar de continuarem morando no mesmo apartamento, em um prédio construído por um sobrinho no terreno do casarão onde tinham começado a vida e os desencontros de casados (prova de que o inferno pode ser aqui mesmo). Os dois filhos seguiram o padrão dos pais, pois casaram-se, tiveram filhos, desentenderam-se e se separaram.
Depois da morte do Jorge, minha mãe ou uma de minhas tias comentou escandalizada que o filho mais novo de Tia Marisa tirou-a do apartamento em que vivia e colocou-a em um quarto no pardieiro em que conseguiu transformar o hotel fundado por Dona Clara, sua avó. Creio que isso fez parte da negociação entre os dois filhos de Tia Ci e os dois de Tia Marisa, quatro primos-irmãos, durante ou após a partilha de bens deixados pela italiana. O filho mais novo de Tia Marisa teria comprado do irmão e primos o hotel (ou o que restou dele) e a casa de Lagoa Santa, onde mora atualmente.
Todos os anos, no dia do meu aniversário, Tia Marisa me liga para dar parabéns, não falha nunca. Eu sempre finjo surpresa e ela sempre pergunta quantos anos estou fazendo. Diz também que não se esquece de ligar porque gosta muito de mim. Este ano não foi diferente. Apenas pediu-me para ir visitá-la no hotel, "pois fica lá o dia todo". Fique tranquila, Tia Marisa, eu irei, pode acreditar nisso.
 
Atualização para maio de 2026:
- Tia Ci faleceu com 104 anos, sem saber que o filho mais novo tinha morrido de Covid por se recusar a tomar vacina;
- Minha mãe Lia morreu com Alzheimer aos 88 anos;
- Tia Dalva morreu de Parkinson aos 85 anos;
- Tia Aidê tem 92 anos e está em estágio avançado de Alzheimer;
- Tia Marisa está com 90 anos e lúcida.
 
E fim.

terça-feira, 12 de maio de 2026

OS FILHOS DE FRANCISCO (E JULIETA) – A REVISTA

 
Bem lá na infância do blog, fiz várias postagens contando casos das famílias de meu pai e de minha mãe. Em uma delas, o titular do blog A Marreta do Azarão disse que essa era a minha “verdadeira veia literária”. Pode ser, pois realmente gosto de contar e ouvir histórias antigas ligadas a familiares e a pessoas simples que o tempo vai apagando, desbotando imagens e lembranças.
Por isso, talvez para torná-los “vivos” novamente, resolvi reunir em um único post os “causos” dos cinco irmãos da minha mãe, deixando claro que farei o mesmo com as cinco filhas de meus avós maternos. Alguns tios têm um perfil mais divertido ou curioso; por isso mesmo, foi mais fácil começar escrevendo sobre eles. Para contar os casos dos outros, tive de ralar um pouco mais.
É importante registrar que, embora tenham sido publicados em 2016, os perfis de meus tios maternos foram escritos em 2013. Paciência – e som na caixa!
 
 
Tio Cici (Moacir)
Tio Cici (Moacir) nasceu em 25/04/1925. Era meu padrinho de batismo e foi o único tio a fazer faculdade (ao contrário da família de meu pai). Estudou odontologia em Uberaba, onde conheceu sua esposa, Teresinha (uma autêntica mala sem alça). Tiveram quatro filhos: Fernando, Marco Túlio, Cristina e Caio Lucio.
Quando foi estudar fora, meu tio deixou para trás uma coleção de revistas “Seleções do Reader’s Digest”, de que me apossei tempos depois. Havia revistas de 1942 a 1955, se não me engano. Os números publicados durante a guerra tinham propagandas com ilustrações incríveis relacionadas ao assunto. Ainda guardo dois números desse período, justamente por causa dessas propagandas.
Essa coleção fez minha cabeça na pré-adolescência. Como era muito tímido e inseguro, eu lia tudo o que encontrava que me ajudasse a superar essas limitações. E tome lições de vida, e tome dicas de autoajuda.
Eu só não consegui aprender – embora tenha lido tudo de todas as revistas – como beijar na boca. Na minha absoluta inexperiência e falta de senso, o que eu pretendia era o mesmo que aprender a andar de bicicleta apenas lendo um livro, só na teoria. Como disse o Djavan em uma de suas músicas: “Mais fácil aprender japonês em Braille”.
Mas voltemos ao tio Cici. Ele era baixinho, magro, nervosinho e tinha um jeito meio viadinho. Às vezes parecia mais feminino que a mulher (ou seria o contrário?), mas era só jeito. No início do casamento, lembro-me de ver a Teresinha dar um amasso nele e ele ali, satisfeito igual um sultão no harém. Sentava-se de pernas cruzadas como quem usa saia. O pé que ficava no ar tremia sem parar. Tremia, não, vibrava. Tinha um risinho nervoso e um senso de humor que se pudesse ser medido na escala Kelvin ficaria perto do zero absoluto.
Meu pai dizia que contar piadas para ele não valia a pena, pois ele não as entendia. No desfecho da piada, quando todo mundo normalmente ria, ele continuava com um sorrisinho meio apalermado na cara e perguntava: “E aí?”.
Depois de formado, montou consultório com um amigo ou colega de faculdade, de nome Januário. Esse sujeito era um católico radical, um carola da gema, coisa que eu só vim a saber quando já namorava minha mulher.
Provavelmente, por influência do amigo carola, Fernando, o filho mais velho do tio Cici, entrou para o movimento ultraconservador TFP – Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade. Esse movimento, entre outras coisas, defendia a volta da monarquia, repudiava veementemente o “comunismo ateu” e tinha alguma coisa de organização paramilitar, pois seus militantes, todos jovens, vestiam-se sempre da mesma maneira: cabelos cortados à escovinha, calça social escura, sapatos de amarrar (quando todo mundo usava mocassim), camisa branca e um blusão de cor cinza ou bege. Bastava ver alguém assim nas ruas para saber que era da TFP.
Esse pessoal era meio hostilizado por alguns jovens, justamente pelo excesso de caretice. Para se defender, alguns começaram até a aprender artes marciais. Estavam sempre nas ruas centrais para colher assinaturas e fazer campanhas contra o divórcio, contra o comunismo, contra a reforma agrária e sei lá mais o que. Usavam megafones e ficavam balançando estandartes vermelhos com letras douradas que pareciam ter sido retirados de algum castelo medieval.
Pois bem, um dia eu estava indo de taxi para a casa da minha namorada, quando vi uma dessas manifestações em plena Avenida Afonso Pena com Espírito Santo. Aqueles jovens com o rosto cheio de espinhas estavam perfilados no canteiro central, um de frente para o outro, cada um com seu estandarte. Devia ter de trinta a quarenta pessoas. Com o taxi parado no sinal, olhando para aquela babaquice, enxergo o Fernando no meio daquela gangue. Morri de vergonha por ele e quase me encolhi no banco para não ser reconhecido. E tome falatório no megafone. De repente, obedecendo a algum comando, esse pessoal começa a gritar:
- BRASIL! BRASIL! BRASIL!
O Brasil tinha acabado de ganhar a copa do México. Pensando nisso, comecei a rir e, mesmo não gostando de futebol, me deu uma vontade danada de botar a cabeça para fora da janela e gritar de volta, só de sacanagem:
- TRICAMPEÃO! (Devia ter feito isso!).
Quando soube que tio Cici havia sido operado para retirada de algum tipo de câncer, fui visitá-lo no hospital. Visivelmente com dor, mostrou-me um corte imenso no tórax, cujas bordas, além da sutura normal, estavam unidas entre si por meio de enormes grampos metálicos. Morreu em 06/08/1988, com 63 anos.
 
Tio Nem (Manoel)
Para quem curte, mais um post da série "memórias de família". Os textos em itálico referem-se a casos lembrados e escritos por minha irmã, a meu pedido. Bora lá.
Tio Nem (Manoel) nasceu em 02/07/1926. Convivi pouco com ele, pois viajava muito, sempre para os lados de Pirapora, Curvelo e Várzea da Palma – esses eram os nomes que ouvia. Trabalhava como representante de laboratório farmacêutico. Embora todos os tios fossem bem mais expansivos que os irmãos de meu pai, tio Nem (a pronúncia familiar é "Néim") se destacava pelo jeito amolecado (pelo menos é assim que eu o via). Com um sorriso meio irônico e olhar maroto, ele e o Mon sempre foram os mais alegres e brincalhões da família.
Minha mãe contava muitos casos sobre ele, dizendo que era muito levado ("danado") desde pequeno. Uma vez, minha avó sentiu falta dele, que deveria ter uns dois anos de idade. Depois de muito procurar, encontrou meu tio no cocho de melado, sem roupa e todo lambuzado. Segundo ele, essa seria a explicação “das moças gostarem tanto dele - ele ficou doce”
Quando criança, mamãe contava que ele brigava até com a sombra. Ele pegava uma varinha e batia na sombra pra ela ficar parada. Venhamos e convenhamos, isso não é coisa de gente brava, mas de gente retardada.
Como brigava muito com os irmãos e irmãs, meu avô colocava todo mundo de castigo, um encostadinho no outro. Tio Ném se aproveitava para beliscar a perna dos que estivessem do lado dele. Lembrando esses casos, minha mãe acrescentava -"Ô Nem que era impossível"!
Parece que sempre gostou de bichos e chegou a levar para casa alguns bem estranhos – uma cobra, um porco-espinho – o que deixava sua mãe e as irmãs apavoradas. Esses casos foram enviados por minha irmã. Lendo-os, lembrei-me da tal cobra, que chegou dentro de uma caixa de madeira, se não me engano. E o conjunto caixa-cobra tinha um cheiro enjoativo, o mesmo que se sente na área de animais do Mercado Central de BH.
Já adulto, sem a menor cerimônia, pegava escondido as roupas (ternos e tudo o mais), calçava os sapatos super engraxados do tio Cici e ia para os bailes nas gafieiras. Quando o irmão ia vestir as roupas, elas estavam naquele estado deplorável. Mamãe dizia que tio Cici quase tinha um ataque, porque os ternos eram de linho branco e ele mesmo fazia questão de passar. Papai contava que os sapatos pareciam até de verniz de tanto que brilhavam. Tio Nem saía todo perfumado, fazia o maior sucesso com as barangas, voltava ainda mais “cheiroso” e simplesmente colocava de volta as roupas pro lugar de onde as tinha tirado.
Mamãe contava que ele vivia colocando minha avó em apuros, porque volta e meia levava uma namorada diferente para apresentar ("cada qual mais feia que a outra"). Nas palavras de minha irmã, “tinha uma tal de Lota e uma que eu adorava o nome – Bartolozita), a maioria do norte de Minas. Até hoje, quando eu pergunto pra ele ‘tio, a Bartolozita era bonita?’, ele responde com aquela cara dele: - ‘feia demais!’. Ele continua uma peça”.
Depois dessa "intensa vida afetivo-social", Tio Nem se casou com Helena, uma moça gente finíssima e dona de um riso muito alegre; é a mesma que vovó, no início de sua demência, tentou expulsar, batendo com a vassoura no muro que separava a casa principal da edícula (ou barracão) ocupada por Tio Nem e esposa. Pensando bem, isso até que funcionou, pois logo se mudaram para outro lugar.
Tiveram quatro filhos – Aidezinha, Sandra, Junior e Ione. Aqui cabe um parêntese: o nome correto da filha mais velha é Haidée, em homenagem à avó materna. Pensando bem, até que é um nome bem bacana (falo sério!). Dureza é quando os pais batizam seus pimpolhos com nomes como “Alciedes”, “Helenete”, “Bekenbaer” ou “Cleuzimery” (falou o Botelho Pinto!).
A nota triste é que seu filho Junior morreu com 36 anos, de insuficiência respiratória, se não me engano. Ele sofria de asma (assim como minha avó e tio Cici) e usava um medicamento em spray conhecido popularmente como “bombinha”. Parece que o uso continuado desse aparelhinho leva (ou levava) à morte muitos asmáticos que dele necessitam. O fato é que essa é uma dor indizível para os pais.
Apesar dessa perda absoluta, meu tio conseguiu manter o espírito brincalhão e jovial. Alguns anos atrás, foi a um médico acompanhado por sua filha Ione (que nos contou o caso). No final da consulta, pediu para falar reservadamente com a médica que o atendeu. Só que a médica entregou a conversa "reservada" para sua filha. Com quase oitenta anos, queria uma receita para comprar Viagra!
Hoje, prestes a fazer noventa anos e com uma surdez muito acentuada, Tio Nem luta contra um câncer de próstata. Há tempos não o vejo, mas imagino que continua brincalhão como sempre e torcendo para o América mineiro.

 
Tio Tôto (Walter)
Tio Tôto (Walter) nasceu em 28/05/1928. De todos, é o tio mais arredio, mais isolado. Creio que foi o primeiro dos homens a se casar. Aliás, foi ele que inaugurou a prática de, recém-casado, morar no barracão de três cômodos construído na lateral direita da casa de minha avó.
Não sei de nenhum caso de sua infância ou adolescência, exceto o fato de ter recebido de seu irmão Omir o apelido de "Lemão" (Alemão), pois tinha o cabelo alourado quando criança. Para mim, que sempre o vi de cabelo muito preto e muito liso, isso é uma coisa difícil de imaginar. Casou-se com a Deia, filha de português (Sr. Dâmaso) com espanhola. Tiveram três filhos: Ronaldo José, Sérgio José e Vânia.
Meus primos - embora sempre sorridentes - eram tímidos e meio introvertidos. Por eu ser pelo menos seis anos mais velho que eles, acabamos nos relacionando de forma mais "protocolar", ainda que afetuosamente. E só os vejo em algum velório de parente. Creio que a última vez em que me encontrei com um deles foi no enterro de minha mãe, em 2009 (afinal, é para isso – rever parentes – que também servem os enterros!). 
A Deia era super gente boa, sempre sorridente e bem humorada. Pelo menos na aparência. Fico pensando que as visitas super-rápidas que tio Tôto e ela faziam aos meus avós podem ter sido assim por influência, determinação ou pedido dela. Eu era bem novo, mas logo percebi a existência de um padrão familiar: para minha avó e suas filhas todos os genros eram “muito bons”, “ótimas pessoas” e coisa e tal. Já as noras... 
Creio que a Deia deve ter sacado logo esse estilo ou foi alvo de algum comentário meio torto. Não sei. Como era muito afável, talvez nunca tenha dito nada, mas deve ter pensado algo assim:
- Quanto menos tempo ficar nesse ninho de cobra, melhor.
Segundo tia Aidê, ela “tinha um gênio dificílimo, principalmente no início do casamento, e era extremamente ciumenta e possessiva”. Teria chegado a fazer “algumas grosserias” com Dona Leta (minha avó). Nesse caso, lembrando-me de minha avó quando ainda estava mentalmente saudável, diria que “chumbo trocado não dói”.
Segundo minha irmã, “ela era bem possessiva com os filhos (...) e brigou feio com as namoradas deles que ela chegou a conhecer”. Minha irmã lembra também que ela se dava super bem com nossa mãe: “acredito que mamãe era a cunhada preferida dela, pois a única casa que eles visitavam era a nossa (com a mesma rapidez de sempre, é claro) e Tio Tôto chegou a falar com Alfredo que a irmã que ele mais gostava era a mamãe e o cunhado era o papai. Achei legal ouvir isso”.
Eu gostava muito dela e, creio, ela também de mim. O que posso dizer de seu temperamento é o que observava e ouvia sobre seu comportamento sentada no carro, ao lado do marido: lembrando-me de sua aflição e recomendações constantes dirigidas a meu tio, diria que ela agia como um navegador de rally:
- Walter, cuidado! Olha aquele carro, diminua, você está correndo muito, cuidado com o cachorro, cuidado com o ET, você está no meio da pista, olha o Bozo... E meu tio lá, caladão. 
Voltando ao meu tio, pode-se dizer que ele era “o” ligeirinho. Aos domingos, dia dos parentes visitar minha avó, rolava na casa um carteado na parte da tarde. Genros e filhos que iam visitá-la ferviam no baralho, jogando truco e escopa. Menos tio Tôto, o único dos tios que nunca se sentou para participar do baralho domingueiro. Suas visitas eram tão rápidas que quase pareciam um pit-stop de Fórmula 1 ou ejaculação precoce. O curioso é que na loja onde trabalhava era super calmo e atencioso.
Tio Tôto trabalhava como vendedor de tecidos no “Rei das Casimiras”, uma loja que existia na Av. Afonso Pena. O dono da loja era um descendente de libaneses, chamado Ralim (?). Esse sujeito era uma figuraça. Alinhadíssimo, estava sempre de terno, sempre impecável.
Logo no início do nosso namoro, minha mulher foi com uma colega de serviço para comprar um tecido para me dar de presente. O sobrenome dessa colega era Nacif e, claro, também era descendente de libaneses. Escolheram o tecido e o pedido com os dados da compra foi preenchido. Quando já iam pagar, o Ralim interveio, dizendo algo assim:
- Você não pode ir pagando assim, sem nem pechinchar, sem pedir desconto!
Minha mulher e a colega devem ter ficado meio roxas de sem graça. Não sei se ele já conhecia essa moça ou se ficou sabendo de sua ascendência ali na hora. O fato é que achou um absurdo que ela não tivesse orientado a colega na arte da pechincha. As duas estavam no horário de almoço, super corrido, e estavam loucas para voltar ao trabalho. E ele lá, discutindo qual o preço que ela queria pagar, essas coisas.
Quando meu irmão se formou (1973), eu mandei fazer um terno sob medida para ir ao baile. Comprei o tecido com tio Tôto e um alfaiate muito bom, seu conhecido, fez o terno. Em 1974 foi minha formatura. Não tive dúvida, mandei fazer outro. Os dois ternos ficaram excelentes, embora o estilo hoje seja ridículo, pois as calças eram tipo pantalona e com cintura bem alta (toureiro light). No ano seguinte (1975), eu me casei. Como o casamento civil era de manhã e o religioso à noite, resolvi fazer outro terno. Usaria o de minha formatura no casamento civil e o novo, no religioso.
O procedimento seria o mesmo, mas fui atropelado pelo Ralim. Não sei por que, ele resolveu me atender e ajudar a escolher o tecido.
- Você vai fazer a calça e o colete com este tecido cinza claro. A camisa você fará com este outro aqui, um cinza ainda mais claro. Agora, para o paletó você usará este aqui, quadriculado de cinza e branco.
Devo ter protestado meio sem jeito que gostava de cores lisas, sóbrias. Não adiantou.
- Rapaz, isso é a última moda, você vai ficar elegantíssimo!
E o mané aqui acabou concordando. Todas as vezes que vejo as fotos de nosso casamento, fico meio puto de ter aceitado aquela sugestão. O terno ficou uma bosta de feio! Mas o turco era boa gente.
A Déia morreu de câncer há muitos anos e o tio Tôto vive hoje na companhia da Vânia, sua filha. O Sérgio casou-se e foi pai (ou "pai-avô") com mais de cinquenta anos e o Ronaldo mora (ou morava) com a família nos fundos da casa de meu tio.
 
Seu Nome era Omir
Este post saiu originalmente em 28/04/2015, com o título "Seu Nome era Omir", como homenagem póstuma ao tio materno de personalidade mais "literária" da família e falecido pouco tempo antes. Como estou contando casos dos irmãos de minha mãe, achei que seria injusto deixá-lo separado dos demais, (segregado tal como foi um pouco quando era vivo). Por isso, resolvi republicar o post com o título da série que está rolando agora. Bora lá.
A família de meus avós maternos era daquelas numerosas, à moda antiga. Tiveram onze filhos, mas um morreu ainda na primeira infância. Dos outros dez, Omir era o mais alternativo, o mais tosco e o mais folclórico. Ou, se preferirem, o mais outsider, mais hardcore. O mais livre, enfim. Antes dos hippies, antes da Tropicália, ele foi verdadeiramente livre. 
Nenhuma convenção o inibia, nada o aprisionava. Talvez por tudo isso, a maioria dos sobrinhos nunca o chamou de tio. Era quase um personagem felliniano. Desde pequeno revelou-se uma pessoa avessa a qualquer tipo de controle, um verdadeiro rebelde sem causa, ou melhor, um rebelde sem calça.
Segundo minha mãe, levá-lo ao grupo escolar era uma luta que se repetia diariamente. Não sei se ele tirava toda a roupa antes de ser levado à escola ou depois de fugir de lá. O que sei é que bastava minha avó, minha mãe ou quem quer que o acompanhasse ir embora, para ele escapar da sala de aula e voltar igual uma bala para casa, chegando antes de todo mundo. Com isso, provavelmente não concluiu nem o ensino básico. Minha mãe tinha uma foto dele nessa época, em que aparece peladão. Prova material do delito recorrente.
Na época de servir exército foi ainda melhor. Quando era designado para ficar de guarda à noite, lá pelas tantas, largava o fuzil e ia dormir em casa. Na volta, claro, cadeia. Isso se repetiu algumas vezes, até o dia em que resolveu não voltar mais. Resultado: ficou sem o Certificado de Reservista, necessário para uma penca de coisas, tais como título de eleitor, carteira profissional e por aí. Muitos anos depois, recebeu uma carta do Exército convidando-o a regularizar sua situação. Simplesmente ignorou.
Com esses ótimos “pré-requisitos”, acabou virando mecânico de automóveis. Pelas amizades nesse meio, o próximo passo foi o alcoolismo.
Não sei se era ou não um bom mecânico. Só sei que um dia ele e os amigos resolveram construir um carro. Não sei direito como fizeram, mas ficou muito legal. Pelo menos para mim, que era criança. Um dia chega o Omir e mais um ou dois amigos dentro de um carrinho sem capota, prateado, pois estava na lata, literalmente. Tinham construído uma carroceria de linhas curvas e esportivas com chapas de aço galvanizado, montada sobre o chassi de algum carro destruído. Depois, para minha decepção, pintaram o carro todo. Um dia perguntei que fim tinha levado o tal carro. Fiquei sabendo que uma manobra desastrada em uma curva tinha feito o carro cair em uma vala ou córrego. Uma parte da nascente indústria automobilística nacional foi pro saco nesse dia.
Meu pai contava que um dia chegou em casa e escutou o Omir "fazendo uns barulhos muito feios dentro do quarto e com a porta fechada". Ficou preocupado e perguntou:
- Omir, você está sentindo alguma coisa?
Abrindo a porta, meu tio respondeu que estava ensaiando, porque ia fazer um teste no conservatório, pois pretendia virar cantor de ópera. E papai acrescentava que nunca ouviu nada mais horrível. 
Ainda segundo minha irmã, nossa mãe contava – fazendo cara de contrariada – que seu irmão uma vez cismou que queria ser padre e todo mundo foi na onda dele. Minha mãe chegou a ir a um seminário e conversou com os responsáveis de lá, mas, "felizmente ele desistiu". Certamente, ainda não havia sido enfeitiçado pela futura companheira de infortúnios.
Bom, eu sou católico, mas o Omir, com suas maluquices, até que ficaria bem em uma “sessão de descarrego” de alguma igreja evangélica. Certamente o “pedido” de casamento seria um bom motivo para isso. Esse caso também foi lembrado por minha irmã e é muito engraçado. Para não perder o sabor, transcrevo como recebi:
Ele jogou uma bomba dentro da casa da Tia Elba e papai dizia que foi assim que ele a despertou e conquistou. Como ele mesmo repetia, “eu sou eu e volto troco”!
Com um jogo de sedução e conquista tão sofisticado, um presente para sua futura e sofredora esposa não poderia ser qualquer um, desses que as pessoas normais compram em lojas. Tinha de ser diferente. Bem diferente.
Um dia eu o vi pegar um pedaço de tampa de privada (eram feitas de madeira, na época. E grossas, para ficar anatômicas) e começar a esculpir alguma coisa. Desse material de origem tão “nobre” fez um coqueirinho estilizado. O tronco foi perfurado (provavelmente com a pua de meu avô) até ficar todo oco. Depois de pronta a escultura, a peça foi devidamente lixada e um vidrinho com perfume foi alojado na parte oca.
Nessa época, alguns medicamentos ministrados através de injeção vinham dentro de vidrinhos cilíndricos tampados com uma tampinha de borracha, por sua vez lacrada com um anel de metal. Creio que o medicamento podia ser retirado introduzindo-se a agulha da seringa diretamente na borracha macia da tampa (quando me lembro desses detalhes, dá vontade de dizer: “gente, eu sou velho pra caramba!!!”). Isso não vem ao caso. O que conta é que o tal vidrinho de perfume, um presente para a namorada, foi anteriormente a embalagem de algum medicamento. Muito chique!
Depois de tanta “originalidade”, acabaram casando-se. Minha tia era uma mulata de cabelo “ruim”, de pele clara e olhar meio aéreo, que deve ter sofrido demais com a inconstância, irresponsabilidade e alcoolismo do marido. Tiveram cinco filhos. Além da filharada, criaram ainda o filho de uma irmã falecida.
Um dia, provavelmente alcoolizado, chegou à casa de minha avó dirigindo um carro que tinha pegado para consertar. Além do primeiro filho, então com uns três anos de idade, alguns passageiros ilustres o acompanhavam: um amigo (provavelmente encachaçado como ele) e duas ou três putas (a oficina onde trabalhava ficava bem no meio da zona boêmia). Ao ver o irmão em tão distinta companhia, minha tia Aidê deu-lhe um esporro fenomenal e ele se mandou, visivelmente contrariado.
O que me deixa às vezes perplexo é pensar que os irmãos e cunhadas de minha mãe sempre demonstraram de forma explícita gostar muito de mim, mesmo que eu nunca tenha feito nada de significativo para que isso acontecesse. Sei lá, deviam ter alguma simpatia (ou pena) pelo meu jeito meio avacalhado e sem frescura de tratá-los. Com o Omir e esposa aconteceu exatamente assim.
Ela, talvez pela vida difícil que levava, talvez pelas muitas humilhações que sofreu de forma velada ou escancarada, não olhava muito nos olhos da pessoa com quem conversava. Talvez daí a expressão meio aérea que citei. Quando eu já estava adulto, me procurou meio sem graça, quase pedindo desculpa, e perguntou se eu aceitava ser o padrinho de batismo da quarta filha. A madrinha seria uma de minhas primas. Claro que aceitei. Mas, como nunca liguei muito para essa afilhada, posso dizer que sou um padrinho de merda, mesmo tendo sempre muita simpatia por seus pais.
A filha caçula tem idade próxima à de nosso filho mais velho. Até pela imensa diferença de idade, tive muito pouco contato com ela. As únicas coisas que sei é que teve uns dois ou três filhos, entregou-os para a sogra e se mandou pelo mundo. Parece que às vezes vai à casa da irmã mais velha, e depois some de novo. O fato é que, pela semelhança de comportamento, quase que o Omir poderia sentir orgulho dela. Vidão!
Minha tia morreu de câncer há uns vinte anos e meu tio e compadre, no final da vida, quase cego, morava com o filho mais velho no interior do estado. 
Omir, cujo nome sempre me fez pensar em personagens bíblicos ou do antigo Egito, morreu no mesmo dia em que eu e minha mulher comemoramos quarenta anos de casamento, mas só ficamos sabendo quando já tinha sido enterrado. Figuraça!
 
Mon (Almon)
O irmão mais novo de minha mãe, Mon (Almon), nasceu em 05/04/1940, o que significa que é apenas dez anos mais velho do que eu. Essa diferença de idade, semelhante à que existe entre nossos filhos mais velho e mais novo, fez com que ele ficasse meio híbrido para mim, metade tio, metade irmão. Não me lembro de muita coisa dele na infância, apenas que às vezes torcia meu braço, de sacanagem.
Na adolescência, foi o responsável involuntário por eu me recusar a chamar nosso segundo filho de “Binho”, como fazem seus irmãos. A história é simples, sem sacanagem: não sei se foram colegas de colégio ou se, por morarem perto, a um quarteirão de distância, o Mon ficou amigo do Weber, um sujeito muito educado e muito, muito delicado. Ninguém lá em casa o chamava de Weber, só de “Binho”. Era engenheiro (!) e, em determinado momento, teria sido expulso de casa pelo pai, sargento do exército, talvez depois de descobrir que o filho era gay. Esse sujeito gostava de conversar com minha mãe e falava de forma meio sibilante. Por conta dessas lembranças, só chamo nosso filho de “Bil”, jamais de “Binho”. Isola!!!
O Mon estudou na Escola Técnica, na av. Amazonas. Para chegar lá, comprou uma bicicleta do tipo que se conhecia como “camelo” ou “camelão”, sem marcha nenhuma, e descia desembestado a Rua Itambacuri, que tem até hoje calçamento poliédrico (ruim para andar de bicicleta) e uma ladeira “legal”. Depois, comprou uma “magrela” própria para corrida, com quatro marchas, selim estreito e guidon recurvado e paralelo ao eixo da bicicleta. Achei bacana pra caramba. Não me lembro o que aconteceu com essa bicicleta depois da queda, só sei que um dia derrapou e caiu em cima da linha férrea, se arregaçando todo.
Pouco tempo depois comprou seu primeiro automóvel, um Fiat da década de 30, estranhamente pequeno. O carro funcionava muito bem nas descidas. Subir já era outra história. Um dia, entrei no carro com Tia Aidê e mais alguém, talvez o Omir. Não sei aonde iríamos. A descida da rua Padre Eustáquio foi uma beleza. Ao tentar voltar, não houve meio do bosta do carro subir a rua. Aquilo me causou certo pânico (como vou voltar para casa?), que depois mudou para vergonha: amarraram um cabo de aço no Fiat, que subiu a rua rebocado. Nunca mais cheguei perto dele, mas não deu nem tempo. Logo depois o Mon comprou um Ford conversível 1936, branco e vermelho, muito legal. Esse andava.
Desde novo, o Mon parecia sentir coceira ao ficar com um carro por muito tempo. Para minha tristeza, vendeu o Ford bonitão e comprou um Chevrolet 1934, preto, muito feio, que foi logo trocado por roupas e malas(!)
A explicação é simples: depois que se formou na Escola Técnica, um de seus professores o convidou para ir trabalhar em Brasília, recém-inaugurada. Convite feito, convite aceito, para grande desespero da mãe e das irmãs. As roupas e malas serviram para isso.
Mesmo não tendo formação universitária, começou dando aula e acabou diretor do MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização, criado na época dos governos militares. Não sei muita coisa sobre sua vida em Brasília, só sei que ficou bem de vida, fez um ou dois loteamentos em Taguatinga, onde morava. Atualmente (2013), mora em Sobradinho ou sei lá onde.
Para fazer a terraplenagem de um desses loteamentos e bem ao seu estilo aventureiro e entusiasmado, comprou um trator que ele mesmo operava. Ainda tem o tal trator e até faz uns bicos com ele (“porque a despesa é muito grande”). Figuraça.
Muito antes disso, quando ainda havia passado pouco tempo de sua mudança para Brasília, uma noite, a campainha da casa de minha avó tocou. Alguém foi ver quem era e foi aquele alvoroço: era o Mon e, com ele, um senhor de 40 anos, aproximadamente, de nome Otto. Era alemão e padrasto de sua namorada. Trabalhava como mecânico de aviões.
Perguntado como tinham vindo, a resposta surpreendeu a todos: de moto, na garupa do “sogro”. Agora, imagina, 700 km na garupa de uma moto. Para voltar, mais 700 km. Haja cu!
Acabou se casando com essa namorada, uma baiana chamada Helena. Tiveram quatro filhos,Mônica, Valéria , Patrícia, e Almonzinho.
Quando meus avós ainda eram vivos, ele vinha pelo menos duas vezes por ano visitar a família. E, a cada vez que vinha, era utilizado um carro diferente. Quando minha mãe ainda estava viva, perguntei quantos carros já tivera. A resposta: “eu tinha tudo anotado em uma caderneta, que perdi. Até onde eu me lembro, já tive mais de duzentos”.
As características mais marcantes do Mon sempre foram um bom humor e uma disposição impressionantes. Parece que ele sempre teve fogo no rabo, como demonstrou no caso das “mudanças”.
Valéria, uma de suas filhas, casou-se com um oficial da Aeronáutica, piloto de jato e foi morar na base de Anápolis. Um dia, o genro foi transferido para o Rio Grande do Norte. A filha perguntou ao Mon se ele não queria levar sua mudança (na época, ele tinha um caminhão, mas não me perguntem por que). Meu tio nem pestanejou. Colocou a tralha no caminhão e se mandou para Natal, distante mais de 2.000 quilômetros de Brasília. Nem bem descarregou a mudança, virou a bunda para trás e voltou.
Passa mais um tempo e olha outra transferência do genro. Destino? Rio Grande do Sul, se não me engano. Outro pedido da filha e olha o louco de novo na estrada. Roteiro: Brasília – Natal, Natal – Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul – Brasília. Distância total percorrida: uns 9.000 km. Por conta dessa disposição maluca e um permanente bom humor (mais o auxílio luxuoso de algum produto tipo “grecin 2000”, lógico), quem olha para ele não imagina que já tem 73 anos (estamos em 2013).
Minha mãe e seus irmãos sempre disseram que eu me parecia com ele, coisa que me deixava meio irritado, pois eu olhava, olhava e não via nenhuma semelhança. Depois de ficar mais velho, entretanto, comecei a achar que, sim, até que nos parecemos um pouco. O problema todo é que atualmente o filho da puta aparenta ser mais novo que eu!

 
Adendo: Hoje, no ano da graça de 2026, com exceção do Mon (hoje com 86 anos), “estão todos dormindo, estão todos deitados, dormindo profundamente” como escreveu lindamente o Manuel Bandeira.

AS FILHAS DE JULIETA (E FRANCISCO) - A REVISTA

  Preciso fazer uma confissão antes de começar: os textos com lembranças sobre a família de minha mãe foram sendo escritos meio sem vontade,...