segunda-feira, 8 de junho de 2026

UM POETA PORTUGUÊS

 

Fiquei sabendo da existência do psiquiatra e escritor português António Lobo Antunes (atenção para o acento agudo!), graças a uma entrevista em que falava de sua motivação para escrever. Nesse vídeo antigo ele lembrou um episódio que o marcou muito e que me comoveu. Por isso, saí buscando pela internet e encontrei este texto, em que fala do mesmo assunto:
 
Às vezes sentia-me indignado. No estágio de pediatria, em que me puseram ao serviço de crianças com doenças terminais: porque é que crianças de três, quatro anos, iam morrer e sofriam tanto? Qual o sentido disto? A pessoa zanga-se com Deus. Eu zangava-me. Contei isto numa crónica: um miúdo de que gostava muito morreu. O empregado embrulhou-o num lençol. Eu estava na porta das enfermarias e vi o homem afastar-se com o miúdo morto ao colo e um dos pés saía do lençol. Isto continua dentro de mim. Às vezes penso que escrevo para este pé.
 
Pelo que descobri, foi um escritor mega laureado. Descobri também no site “O Pensador” algumas de suas frases e observações, sempre ótima matéria prima para postar no Blogson. Lêaí:
 

Não sou uma pessoa muito alegre. Sou introvertido. Fechado. Cheio de dúvidas. Não me é fácil viver comigo. Parece que estou sempre em guerra civil.

Sempre gostei de estar com o que chamam "pessoas humildes". Foi com essas que aprendi mais.

Não estou à procura de nada. A gente não procura, encontra. Uma das coisas que me agrada na vida é a imprevisibilidade do futuro. Claro que é aborrecido se o futuro for desagradável. Mas enquanto houver futuro, a nossa vida tem um sentido, e uma razão.

Tive sempre a sensação que um livro é um organismo vivo que nos escapa.

Cada palavra conseguida é como uma pedra que retiro de um poço. Quanto maior é a experiência e a maturidade literária, tanto maior se compreende o caminho que ainda falta percorrer.

Quem me assassinou para que eu seja tão doce?

Quando um coração se fecha, faz muito mais barulho do que uma porta.

Só há grupos onde existem fraquezas individuais.

A cultura é uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo escravo

Nunca falamos muito, acho que nunca falamos nada. E não sinto necessidade de começar agora. O que poderia dizer? Existem séculos e séculos de silêncio entre nós e, debaixo dos séculos do silêncio, ocultas lá no fundo, se calhar esquecidas, se calhar presentes, se calhar apagadas, se calhar vivas e a doerem-me, coisas que prefiro não transformar em palavras, coisas anteriores às palavras...

Não digas nada, dá-me só a mão. Palavra de honra que não é preciso dizer nada, a mão chega. Parece-te estranho que a mão chegue, não é, mas chega. (...) Se calhar sou uma pessoa carente. Se calhar nem sequer sou carente, sou só parvo.

Há momentos e situações em que o olhar comunica mais que as palavras, isso também é intimidade. Creio que sou capaz de dizer muitas coisas sem falar, é o outro que também tem de compreender e de saber interpretar. Quando se estabelece essa relação de intimidade e de amizade, não é necessário falar. (...) Frequentemente é melhor não o fazer porque as palavras estão muito gastas.

Não há ninguém que eu odeie, acho que dá muito trabalho odiar. Há é pessoas que me são indiferentes.

Muitas vezes as coisas que nos tocam mais são aquelas que na altura em que estão a acontecer nem nos apercebemos.

Os romances maus contam histórias, os bons romances mostram-nos a nós mesmos.

Quanto mais silêncio houver num livro, melhor ele é. Porque nos permite escrever o livro melhor, como leitor.

Quando se critica, estamos a julgar. Se julgarmos já não compreendemos, porque julgar implica condenar ou absolver.

Não sou um senhor de idade que conservou o coração menino. Sou um menino cujo envelope se gastou.

Nós somos casas muito grandes, muito compridas. É como se morássemos apenas num quarto ou dois. Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas.

Os livros que escrevi trazem o meu nome mas tenho dificuldade em encontrar os seus autores. Só aquele que estou a escrever é feito por mim, os restantes parece-me sempre terem sido outros homens que os compuseram.

Em todo o caso hoje não estou para ninguém. Não quero piedade. Não quero consolo. Não quero sorrisos de esperança. Quero imaginar o futuro sabendo que existe uma parede a interromper-me os dias. Os outros caminham para lá da parede. Eu fico deste lado.

Temos tendência para transformar as nossas opiniões pessoais em verdades universais e rejeitar tudo o que não encaixe na nossa grelha de valores.

O ato de ler é criativo e implica humildade.

São precisas três coisas para escrever: paciência, solidão e orgulho.

Um livro não está na cabeça, está na mão. Um livro não se faz com ideias. É o livro que tem de ter as ideias, não é o autor. O livro tem que ser mais inteligente que o autor.

A democracia implicava um constante referendar pelo povo das decisões do poder. Não existe.

É claro que me zango com Deus porque permite o sofrimento, mas talvez os seus desígnios tenham tais profundezas que não atinjo.

O sofrimento sempre me foi incompreensível porque nascemos para a alegria.

Eu continuo a aprender. Tenho muito que aprender, ainda. Acho que tenho uma noção parcial daquilo que estou a fazer.

Um parvo em pé vai mais longe que um intelectual sentado.

Temos tendência para transformar as nossas opiniões pessoais em verdades universais e rejeitar tudo o que não encaixe na nossa grelha de valores.

 

 

domingo, 7 de junho de 2026

SETENTA E SEIS

 

Já tive sonhos, juventude e alegria

Também saúde, dentes e amizades

Mas invejava quem mostrava e exibia

Tudo ter daquilo que não possuía

Hoje tenho o oposto disso: muita idade,

Que trouxe depressão, melancolia

Também tristeza, solidão, fragilidade

Que esperava que eu sentisse? Euforia?

PARABÉNS PRA VOCÊ

 
Mais uma vez o anjo negro da madrugada me fez acordar às três da manhã. Sua pontualidade me irrita, por me colocar em contato e sintonia com o dia que ainda não amanheceu. Nada tenho a fazer de útil, nada quero fazer de útil, só quero voltar a dormir, mas ele não deixa. Entra em minha mente e expulsa de lá todos os pensamentos felizes, deixando apenas aqueles que provocam um gosto amargo na boca. Cretino!
 
Agora, ao acordar, me lembro de estar completando 76 anos de vida. Não tenho dúvida de que serei cumprimentado por isso, que me desejarão muitos anos de vida e saúde. Isso me constrange, pois preciso sorrir, agradecido. Quem faz 76 anos sabe que não existirão mais muitos anos de vida nem saúde. E, pior é pensar, sentir, saber que não há mudanças reais a acontecer. Os dias remanescentes se sucederão sem novidades, sem esperança, sem alegria, tal como aconteceu com seus antecessores. Porque não há na maioria das vezes uma ruptura real da forma como se tem vivido, não há edição ou substituição do algoritmo mental que controla a sua vida.
 
Como cantou/ensinou o Belchior, “não se preocupe com os horrores que eu lhe digo, a vida realmente é diferente, quer dizer, ao vivo é muito pior”. Ou, como disse o poeta António Lobo Antunes, “Em todo o caso, hoje não estou para ninguém. Não quero piedade. Não quero consolo. Não quero sorrisos de esperança. Quero imaginar o futuro sabendo que existe uma parede a interromper-me os dias. Os outros caminham para lá da parede. Eu fico deste lado”. Bom dia!

 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

FULLGÁS - MARINA LIMA

 
Uma das letras mais apropriadas para o mês dos namorados foi escrita para a música “Fullgás”, pelo imortal Antônio Cícero, poeta de mão cheíssima e irmão da Marina Lima. Escutaí.





NÃO É MESMO?

 




quinta-feira, 4 de junho de 2026

SI TÚ ME OLVIDAS - PABLO NERUDA

 
O romantismo está no ar! E agora na pena de Pablo Neruda. Afinal, estamos em junho, mês dos namorados e das festas juninas. Nada como lembrar os versos do músico e compositor mineiro Fernando Bocca (falecido): “Bota lenha, alimenta essa fogueira, deixa queimar noite inteira o fogo dos corações”.
 
SI TÚ ME OLVIDAS
Pablo Neruda
Quiero que sepas
una cosa.
Tú sabes cómo es esto:
si miro
la luna de cristal, la rama roja
del lento otoño en mi ventana,
si toco
junto al fuego
la impalpable ceniza
o el arrugado cuerpo de la leña,
todo me lleva a ti,
como si todo lo que existe,
aromas, luz, metales,
fueran pequeños barcos que navegan
hacia las islas tuyas que me aguardan.
Ahora bien,
si poco a poco dejas de quererme
dejaré de quererte poco a poco.
Si de pronto
me olvidas
no me busques,
que ya te habré olvidado.
Si consideras largo y loco
el viento de banderas
que pasa por mi vida
y te decides
a dejarme a la orilla
del corazón en que tengo raíces,
piensa
que en ese día,
a esa hora
levantaré los brazos
y saldrán mis raíces
a buscar otra tierra.
Pero
si cada día,
cada hora
sientes que a mí estás destinada
con dulzura implacable.
Si cada día sube
una flor a tus labios a buscarme,
ay amor mío, ay mía,
en mí todo ese fuego se repite,
en mí nada se apaga ni se olvida,
mi amor se nutre de tu amor, amada,
y mientras vivas estará en tus brazos
sin salir de los mios
 
SE TU ME ESQUECES
Pablo Neruda
 
Quero que saibas
uma coisa.
 
Tu sabes como é isto:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono em minha janela,
se toco
junto ao fogo
a impalpável cinza
ou o corpo enrugado da lenha,
tudo me leva a ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
em direção às tuas ilhas que me aguardam.
 
Agora, bem,
se pouco a pouco deixares de me amar,
deixarei de te amar pouco a pouco.
 
Se de repente
me esqueceres,
não me procures,
pois eu já te terei esquecido.
 
Se considerares longo e selvagem
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e decidires
abandonar-me à margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
nessa hora,
erguerei meus braços
e minhas raízes partirão
a buscar outra terra.
 
Mas
se a cada dia,
a cada hora,
sentes que estás destinada a mim
com doçura implacável;
se a cada dia sobe
uma flor aos teus lábios para me procurar,
ah, meu amor, ah, minha,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
meu amor alimenta-se do teu amor, amada,
e enquanto viveres estará em teus braços
sem sair dos meus.
 
 
 

 

UM POETA PORTUGUÊS

  Fiquei sabendo da existência do  psiquiatra e escritor português  António Lobo Antunes (atenção para o acento agudo!), graças a uma entrev...