terça-feira, 19 de novembro de 2019

LORPAS E SACRIPANTAS - LUIS FERNANDO VERISSIMO

No post anterior a este eu publiquei um texto muito engraçado, equivocadamente atribuído a Luis Fernando Verissimo. Desta vez, entretanto, a coisa muda de figura: minha mulher compartilhou no Facebook um texto do gaúcho originalmente publicado n'O Globo, com o selo de qualidade que toda a sua obra possui. Eu sempre digo que ele e o Millôr fazem parte da santíssima trindade do humor brasileiro. O filho do Érico é fera demais! Por isso, que me perdoem "O Globo" e o Veríssimo, mas não resisti. Copiei o texto compartilhado para guardá-lo no blog, lugar onde ninguém mexe (e quase ninguém vê). Isto sim é texto de qualidade! Olhaí.


Bolsonaro e Lula se xingaram de “canalha” mais de uma vez nos últimos dias. O que sugere que teremos um conflito verbal entre os dois no mínimo repetitivo. Para ajudá-los a fugir do lugar-comum e para poupar nossos ouvidos de insultos recíprocos e reincidentes, me senti na obrigação de tentar enriquecer o debate.

Para começar, fiz uma lista de termos que devem seguir “canalha” para a lata do lixo. São insultos comuns como “burro”, “idiota”, “babaca”, “imbecil”, “filho de uma égua”, “jumento”, “besta”, “besta quadrada”, “feioso”, “cretino”, “cagão”, “asno”, “asnático”, “débil mental”, “patife” e outros.

Existem insultos pouco usados que podem ser resgatados da obscuridade, com a vantagem adicional de revelarem para a população a beleza escondida da língua de Camões e Alexandre Frota. Imagine Bolsonaro e Lula se tratando não de “palerma”, mas de “cacóstomo” (pessoa com má articulação). Ou de “biltre” (vil, abjeto), em vez do corriqueiro “bobalhão”.

As alternativas são infinitas. E podem ser introduzidas em qualquer ponto do bate-boca. Por exemplo:
“Estafermo” (sem préstimo, em vez de inútil).
“Sacripanta” (pessoa desprezível).
“Energúmeno” (endoidado, possesso).
“Enxacoco” (pessoa com dificuldade para falar outra língua).
“Farola” (contador de vantagens).
“Obnóxio” (pessoa que aceita desaforo e, presumivelmente, o leva para casa).
“Dendroclasta” (destruidor de árvores, adjetivo que Lula poderia usar contra Bolsonaro se o assunto fosse o desmatamento na Amazônia).
“Bonifrate” (fantoche, boneco manipulável, servil).
 “Lorpa” (grosseiro, boçal).
“Alimária” (animal de carga).

Ouviríamos, em vez do batido “canalha”, Bolsonaro chamando Lula de um enxacoco estafermo e Lula chamando Bolsonaro de farola bonifrate, o que não resolveria nenhum problema nacional, mas pelo menos melhoraria o nível do discurso público no país. Sonhemos.



segunda-feira, 18 de novembro de 2019

DEPILAÇÃO - AUTOR DESCONHECIDO


Parece que os advogados (tudo bem, “J”?) consideram a prova testemunhal a “prostituta das provas”, justamente por estar sujeita a equívocos, erros e, até mesmo, má fé. Eu tenho a mesma impressão em relação à internet - que considero a “prostituta da literatura”, graças à frequente “colagem” de textos apócrifos a autores consagrados. Estou dizendo isso por ter recebido um texto engraçadíssimo de autoria do Luis Fernando Verissimo. Só que não! Ou melhor, não é ele o autor do texto, não pode ser ele.

Mesmo não sendo crítico literário nem especialista na obra do gaúcho, percebi que o texto não seria de sua autoria, por dois motivos: o Veríssimo é muito mais sutil e elegante no que escreve. Além disso, não consigo imaginar um dos três maiores autores de humor do Brasil usando expressões vulgares como “lava xereca” ou “cowboy cagado”. Sem contar pequenas agressões à língua portuguesa. Mesmo assim, resolvi postar o texto de autor desconhecido justamente por ter rido pra caramba. Mas fica a pergunta: é do Veríssimo? Não é do Veríssimo?. Cartas para a redação. Olhaí:


Estava eu assistindo TV numa tarde de Domingo, naquele horário em que não se pode inventar nada o que fazer, pois no outro dia é segunda-feira, quando minha mulher deitou-se do meu lado e ficou brincando com minhas 'partes'. Após alguns minutos ela veio com a 'brilhante' ideia: - Por que não depilamos seus ovinhos, assim eu poderia fazer 'outras coisas' com eles. Aquela frase foi igual um sino na minha cabeça. Por alguns segundos fiquei imaginando o que seriam 'outras coisas'. - Respondi que não, que doeria coisa e tal, mas ela veio com argumentos sobre as novas técnicas de depilação e eu, imaginando as 'outras coisas', não tive mais como negar. Concordei. Ela me pediu que ficasse pelado enquanto buscaria os equipamentos necessários para tal feito. Fiquei olhando para TV, porém minha mente estava vagando pelas novas sensações que só despertei quando ouvi o beep do micro-ondas. Ela voltou ao quarto com um pote de cera, uma espátula e alguns pedaços de plástico. Achei meio estranho aqueles equipamentos, mas ela estava com um ar de 'dona da situação' que deixaria qualquer médico urologista sentindo-se como residente. Fiquei tranquilo e autorizei o restante do processo. Pediu para que eu ficasse numa posição de quase frango-assado e liberasse o acesso à zona do agrião. Pegou meus ovinhos como quem pega duas bolinhas de porcelana e começou a passar cera morna. Achei aquela sensação maravilhosa!O Sr. Pinto já estava todo 'pimpão' como quem diz: 'sou o próximo da fila'! Pelo início, fiquei imaginando quais seriam as 'outras coisas' que viriam. Após estar completamente besuntados de cera, ela embrulhou ambos no plástico com tanto cuidado que eu achei que iria levá-los para viagem. Fiquei imaginando onde ela teria aprendido essa técnica de prazer: na Tailândia, na China ou pela Internet mesmo?Porém, alguns segundos depois ela esticou o saquinho para um lado e deu um puxão repentino. Todas as novas sensações foram trocadas por um sonoro PUUUUTA QUEEEE ME PARIUUUUUUU quase falado letra por letra. Olhei para o plástico para ver se o couro do meu saco não tinha ficado grudado. Ela disse que ainda restavam alguns pelinhos, e que precisava passar de novo. Respondi prontamente: - Se depender de mim eles vão ficar aí para a eternidade!! Segurei o Dr. Esquerdo e o Dr. Direito com as duas mãos, como quem segura os últimos ovos da mais bela ave amazônica em extinção, e fui para o banheiro. Sentia o coração bater nos ovos. Abri o chuveiro e foi a primeira vez que eu molhei o saco antes de molhar a cabeça. Passei alguns minutos só deixando a água gelada escorrer pelo meu corpo. Saí do banho, mas nesses momentos de dor qualquer homem vira um bebezinho novo: faz merda atrás de merda. Peguei meu gel pós-barba com camomila 'que acalma a pele', enchi as mãos e passei nos ovos. Foi como se estivesse passado molho de pimenta. Sentei no bidê na posição de 'lava xereca' e deixei o chuveirinho acalmar os Drs. Peguei a toalha de rosto e fiquei abanando os ovos como quem abana um boxeador no 10° rodada. Olhei para meu pinto. Ele, coitado, tão alegrinho minutos atrás, estava tão pequeno que mais parecia irmão gêmeo de meu umbigo. Nesse momento minha mulher bate à porta do banheiro e pergunta se estava passando bem. Aquela voz antes tão aveludada e sedutora ficou igual uma gralha. Saí do banheiro e voltei para o quarto. Ela estava argumentando que os pentelhos tinham saído pelas raízes, que demorariam voltar a nascer. 'Pela espessura da pele do meu saco, aqui não nasce nem penugem, meus ovos vão ficar que nem os das codornas', respondi. Ela pediu para olhar como estavam. Eu falei para olhar a meio metro de distância e sem tocar em nada e se ficar rindo vai entrar na PORRADA!! Vesti a camiseta e fui dormir (somente de camiseta). Naquele momento sexo para mim, nem para perpetuar a espécie humana. No outro dia pela manhã fui me arrumar para ir trabalhar. Os ovos estavam mais calmos, porém mais vermelhos que tomates maduros. Foi estranho sentir o vento bater em lugares nunca antes visitados. Tentei colocar a cueca, mas nada feito. Procurei alguma cueca de veludo e nada. Vesti a calça mais folgada que achei no armário e fui trabalhar sem cueca mesmo. Entrei na minha seção andando igual um cowboy cagado. Falei bom dia para todos, mas sem olhar nos olhos. E passei o dia inteiro trabalhando em pé com receio de encostar os tomates maduros em qualquer superfície. Resultado, certas coisas devem ser feitas somente pelas mulheres. Não adianta tentar misturar os universos masculino e feminino. Ainda dói.

OLHA A LEI ROUANET AÍ, GENTE! (É O SHOW DA FÉ)

Depois que o deputado Vavá Martins (cujo partido é ligado à Igreja Universal do Reino de Deus) apresentou no Congresso uma proposta que permite usar a Lei Rouanet para financiar eventos promovidos por igrejas, eu comecei a ter pesadelos sem precisar dormir.  Catso, o país é laico! Pensei em escrever alguma coisa sobre isso, mas meu amigo virtual Marreta foi mais rápido no gatilho e produziu um ótimo post sobre o mesmo assunto. 

Por isso, como eu ainda  estava cheio da "mais santa ira", resolvi comentar sobre uma notícia que um amigo de facebook compartilhou. É daquelas notícias que lembram cometas, pois às vezes ressurgem depois de longo tempo. Eu já tinha ouvido falar sobre isso, mas resolvi dar uma pesquisada na internet e descobri que foi a revista americana Forbes (prestígio internacional!) a autora de um ranking da grana dos mais importantes telepastores do Brasil. E a (des)classificação é a seguinte:

- Edir Mais Cedo, da Igreja Universal do Reino de Deus: R$ 2 bilhões (isso prova que Deus ajuda a quem cedo madruga);
Valdemiro Santiago, antigo brother (auxiliar) do Edir e fundador da Igreja Mundial do Poder de Deus: R$ 400 milhões;
- Silas Mala Fala, da Assembleia de Deus: R$ 300 milhões (imagino que essa grana foi doada para ele ficar um pouco em silêncio);
- R. R. Soares, da Igreja Internacional da Graça de Deus: R$ 250 milhões (o cara também trabalhou com o Mais Cedo e é seu cunhado!);
- Estevan Hernandes Filho e a bispa Sônia criadores da Igreja Apostólica Renascer em Cristo: modestíssimos R$ 120 milhões.

Segundo li na internet, ser pastor no Brasil é o desejo de muitas pessoas. "Algumas igrejas neopentecostais oferecem cursos intensivos para formar pastores com um custo de R$ 700, para poucos dias de aula". Diante de fatos tão, tão... "canônicos”  tenho três considerações a fazer:

1- Os valores levantados pela Forbes provam que a fé não só move montanhas como faz também transferência de montanhas (de dinheiro, obviamente);
2- Os postulantes a pastor, especialmente os mais empreendedores, precisam saber que há denominações ainda não utilizadas na criação de novas igrejas. As opções "Igreja Estadual da Devoção ao Senhor", "Igreja Regional da Graça Divina" e "Igreja Municipal da Cura pela Fé" estão disponíveis;
3- Só uma coisa me deixa puto nessa história toda: é esse papo de "bispo" e "bispa" auto-intitulados. Isso me deixa realmente abispinhado, ou melhor, abespinhado. E viva o show da fé!






domingo, 17 de novembro de 2019

ALIANCO POR BRAZILO

Quando entrei na adolescência, a única coisa interessante que tinha para fazer era ler as coleções de livros que minha tia comprava - creio que para dar a ela um status de pessoa culta (ou para decorar estantes, já que tinham capas vermelhas ou verdes ou azuis, todos com letras douradas na lombada). Não importa. O fato é que eu lia bastante. E uma das lembranças dessa época é um conto de Monteiro Lobato muito divertido (já tentei encontrar na internet, mas, até agora, o insucesso é total).

Esse conto narra uma conversa do arcanjo Gabriel com Deus. Em determinado momento, olhando para a Terra "lá embaixo", Gabriel pergunta ao Criador o que é aquela "fila de formigas" andando de forma meio desorientada. E Deus responde que "aquela" é a humanidade, etc.

O anjo estranha a algaravia toda que está escutando, com todo mundo falando em milhares de línguas diferentes e Deus comenta que surgirá um dia um homem que tentará acabar com esse problema. E Gabriel inocentemente pergunta: - "Vai acabar com todas as línguas?". - "Não", responde o Criador, "criará mais uma". Essa ironia com a criação do esperanto é que me fez lembrar do conto mesmo passados mais de cinquenta anos. 

E por que entrei nessa estrada esburacada da memória? Bem, talvez seja pelo fato de às vezes fazer analogias entre o que vejo em determinado momento com casos e lembranças antigas, bem ao estilo de Miss Marple, simpaticíssima personagem de Agatha Christie (a velhice, pelo menos, é semelhante). E a analogia que me ocorreu foi comparar a criação do esperanto satirizada por Monteiro Lobato com a anunciada criação de novo partido político pelo presidente Bolsonaro.

Pensem na ironia da notícia: atualmente, o Brasil tem 32 (!!!) partidos legalizados. Aí, sem me preocupar com a motivação por trás de tudo, chega o capitão e racha em dois o partido ao qual é filiado. E divulga que o nome escolhido para a nova agremiação política é "Aliança pelo Brasil".

Espere um pouco, "aliança" feita a partir de um racha? Nada mais contraditório! Em um país que já possui 32 partidos? Só mesmo parafraseando o diálogo divino:
- Ah, a "Aliança pelo Brasil" vai reduzir ou acabar com todos os partidos?
- Não, vai só criar mais um!

Bela "aliança" essa aí, não é, Miss Marple?





sábado, 16 de novembro de 2019

NOS BRAÇOS DOS RADICAIS - CARLOS JOSÉ MARQUES


Acabei agora de ler no portal da “Isto É” o texto transcrito a seguir. Fiquei tão entusiasmado por ver que alguém pensa como eu (mesmo que meu estilo tosco esteja a quilômetros de distância da elegância do autor), que resolvi postar alguns trechos (a transcrição integral não pegaria bem!) neste anêmico blog, não para que “milhares” de pessoas o leiam, mas para tê-lo à mão para uma sempre bem vinda releitura. É tudo o que eu adoraria ter escrito se tivesse capacidade e clareza de raciocínio para tanto. Olhaí:

A polarização assume ares de guerra de rua. Ressurgiu afinal a cara da oposição ao governo e, por mais surpreendente que possa parecer, isso é bom para o irascível Bolsonaro e sua tática de manter o País em constante conflito. Ele sabe disso. No fundo gostou da notícia. Tanto que não mexeu uma palha, não se pronunciou contra, fez ares de paisagem, apesar do incômodo e da revolta que o evento “Lula solto” criou inclusive entre seus apoiadores. Bolsonaro, na prática, também não vai se indispor com a tropa do Supremo que tem sido tão receptiva a seus interesses. (...)
Menos de onze meses depois de assumir sob a bandeira do combate implacável à corrupção, o capitão de convicções claudicantes logo se postou do outro lado do muro. Também pudera! O mesmo mito que se dizia veementemente contra o mecanismo da reeleição, e que prometia cumprir um único mandato para depois cair fora, em poucos meses de mandato já estava falando em reeleição. Nem bem esquentou a cadeira, se encantou pelo poder, pelos rapapés e vantagens do cargo. É típico. O arquirrival Lula seguiu roteiro semelhante e deu no que deu. Criou a sua teia de influência, aparelhou o Estado e acabou no Mensalão. Bolsonaro vai a sua maneira aparelhando a estrutura do poder com os seus cupinchas. Aqueles que o contrariam, que falam a favor da democracia e de práticas republicanas, por exemplo, são postos para fora aos pontapés. Mesmo os que cumprem estritamente seu trabalho, caso dos presidentes de instituições como o Inpe, Coaf e IBGE, foram banidos, despachados apenas por informar números e dados verdadeiros que contrariavam o intento ideológico do capitão.
É a isso que o País parece condenado nessa polarização extremada de ideias. Dois vértices de um mesmo jogo que muito se parecem estão no tabuleiro dando as cartas. Bolsonaro, no poder, vai também fazer o diabo — como já disse Lula no passado — para se manter, talvez até se perpetuar, lá. Esquematiza estratagemas via difamação de adversários, cria rede ilegal de produção de desinformações dentro do próprio Planalto e sai ameaçando empresários que não embarcam no seu projeto de dominação da Nação. Agora lançou até o próprio partido, o “Aliança pelo Brasil”, que lembra, na essência, sem nenhuma vontade de disfarçar, a antiga Aliança Renovadora Nacional (Arena), com seus pendores reacionários, montada para dar sustentação à ditadura militar. Personalista, populista e integrada por familiares e mais chegados do capitão, a legenda não esconde a vertente autoritária, defendendo a ditadura e mesmo a torturadores – general Brilhante Ustra à frente. Bolsonaro queria um partido para chamar de seu e fazer com ele as vontades, tal qual Lula, que reconfigurou o PT à sua imagem e semelhança. Vivemos tempos sombrios, com ânimos exaltados e com duas figuras que seguem destruindo a índole naturalmente pacífica do povo. No cabo de forças do atraso o risco de saídas antidemocráticas para tolher a ideologia adversária aumenta. Interessa aos dois, ao projeto de poder de cada um e aos respectivos exércitos que os acompanham, a escalada retórica da existência do inimigo a ser abatido. Um como espantalho do outro. Não dá liga nesse ambiente o amálgama da boa convivência. Nas trincheiras, seguidores se alvoroçam. Movem-se ao bate-boca. Em certos casos, às vias de fato. Atiçar, tripudiar, desqualificar quem pensa diferente virou patologia em ascensão. O sobranceiro atrevimento com o qual Lula e Bolsonaro se lançaram a campo, de posse da habitual verborragia – na base de um “patife” aqui, um safado acolá- no esforço de angariar simpatizantes, antecipando indevidamente a campanha eleitoral, só demonstra o absoluto descompromisso de ambos com as soluções do País, mais preocupados que estão em se aboletar indefinidamente e aos seus apaniguados no poder. Os dois pensam a mesma coisa. Sonham com o mesmo objetivo. Se locupletam. Se retroalimentam. Verso e reverso da mesma moeda. E o Brasil que fique relegado ao radicalismo extremo e perverso.(...) A rinha incessante do bolsonarismo versus o lulismo tende a acentuar nossas angústias. Os dois, quase ao mesmo tempo, se lançaram a agendas populistas, numa espécie de road show pelo Nordeste, para ver quem domina parte maior daquela que consideram uma estratégica massa de manobra. (...) Se apresentam e se vendem como salvadores da pátria e são assim dignificados. Tratados como ídolos pelos adoradores.
De um lado, o “mito” Messias, que veio para varrer do mapa as práticas imorais, os desvios endêmicos, a politicagem de paróquia, restabelecendo os valores morais da família e da dignidade. Fez isso? O golden shower, o laranjal dos filhos e o combate à operação Lava Jato que o digam. Do outro, aquele que era, nas suas palavras, tão inocente como Jesus, alguém que acreditava piamente ter se convertido numa ideia, o próprio Deus do Povo. Que falem por ele as suas seguidas condenações de formação de quadrilha, propina em série, processos de toda ordem, numa folha corrida extensa. Nas mãos e no balanço de manipulações retóricas de Messias e do demiurgo de Garanhuns parece estar lançado o destino do Brasil. (...)

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

NADA MAIS DEMOCRÁTICO!

Segundo Yuval Noah Harari, autor do Best seller Sapiens, “para a maioria de nós é impossível conhecer de fato mais de 150 indivíduos”. Baseado na minha própria experiência eu creio que ele está certo. Se não, vejamos: meu perfil do facebook tem 147 “amigos”, mas confesso que não conheço realmente a todos. Já tive a cabalística quantidade de 150, mas um morreu, outro saiu dessa rede e um (bolsonarista intransigente, adepto da divulgação de fake-news e... parente!) me excluiu. Imagino que se cansou de ser contestado e desmentido.

Mas, voltando aos 147, preciso dizer que depois da “alimentação inicial” feita com amigos e parentes de minha mulher (uns 100, mais ou menos), esse número foi crescendo devagarinho graças às “solicitações de amizade” de alguns conhecidos ou conhecidos de conhecidos. Alguns malucos também solicitaram minha amizade, mas, por serem totalmente desconhecidos, recusei a solicitação e ainda os marquei como spam (comigo é na porrada!). Desta forma, meus “amigos” podem ser assim identificados:

- mulher, filhos e noras: 6
- cunhados e concunhados: 9
- sobrinhos (meus e de minha mulher): 7
- primos e parentes (de minha mulher): 33
- primos e parentes (meus): 9
- vizinhos: 6
- amigos de minha mulher: 21
- amigos de meus filhos: 10
- amigos de meus cunhados: 17
- parentes de minhas noras: 11
- ex-colegas de serviço: 2
- conhecidos (amigos de amigos): 13
- desconhecidos (amigos de “amigos”): 3

Essa é a explicação de colocar entre aspas a expressão “amigos de facebook”, pois tenho pouca ou nenhuma afinidade com a maioria dessas pessoas. Talvez por isso, eu sinta prazer em cutucar os carolas, os piegas, os crédulos, os idiotas, os presunçosos, os ignorantes, os petistas, os bolsonaristas e os fundamentalistas de qualquer tipo.

Ultimamente, entretanto, tenho ficado particularmente incomodado e irritado com a quantidade de idiotices e notícias falsas que alguns “amigos” têm postado ou compartilhado. Enquanto isso acontecia no plano nacional com os embates entre lulistas e bolsonaristas ainda dava para suportar, mas quando a coisa saiu para o plano internacional, com direito a fake news contra e a favor do Evo Morales, eu achei que já era demais.

Por isso, em vez de seguir o exemplo recente do Carlucho - que excluiu seu perfil das redes sociais, – resolvi parar de seguir a maioria de meus “amigos”. Assim, nossa “amizade” continua, e, mesmo que eu não veja as maravilhas que cada um divulga diariamente, todos conseguem ver o que produzo, todas as “piadinhas de facebook” que publico (nada mais democrático!).

As provocações mais recentes são estas:



segunda-feira, 11 de novembro de 2019

DEZ CONTROLES DE GASTOS

Este post é uma expansão de resposta dada a meu recente amigo virtual Scant. Resolvi postá-la aqui no blog, na linha da “blogoteca”.

Creio que foi em 1980 que passei a dividir uma sala com mais dois colegas de serviço. Um deles era o Pintão, amigo mais que citado aqui no blog. O outro era um engenheiro um pouco mais velho que eu, super competente e organizado. Tão competente e organizado que acabou merecidamente chefiando a seção onde trabalhávamos. Seu senso de organização - como era fácil prever - extravazava para sua vida pessoal. Naquela época de zero microcomputadores mantinha uma caderneta tipo "Deve-Haver" onde anotava meticulosamente as despesas realizadas, indexando cada uma à sua conta correspondente. No final de cada mês, provavelmente para ter uma referência mais estável, convertia os gastos para valores em dólar.

Como eu sempre tive tendência a ser um "Maria-vai-com-as-outras", não demorou muito para que comprasse uma caderneta igual, onde passei a lançar minhas despesas. E, claro, criei também algumas contas para indexar o que gastava. No final do mês, o jumento aqui, em vez de dólar, utilizava a ORTN - Obrigação Reajustável do Tesouro Nacional, algum tempo depois substituída pela OTN - Obrigação do Tesouro Nacional, que deu lugar ao BTN - Bônus do Tesouro Nacional, etc. Resumindo, minha brilhante escolha serviu para que acabasse não tendo uma série histórica de gastos minimamente confiável. Acabei chamando o cabo corneteiro para executar o toque de foda-se, ou melhor, joguei no lixo a porra da caderneta e nunca mais me preocupei com isso.

Tudo mudou depois de minha aposentadoria, graças à minha mulher. Quando nos casamos, ela tinha tudo para seguir uma brilhante carreira, mas decidiu abrir mão de seus sonhos profissionais para cuidar de nossos filhos. Como ela sempre foi no limite de sua capacidade em tudo o que fazia e ainda faz, tornou-se "a" supermãe. Por isso, ao me aposentar e para compensar o sacrifício que ela mesma se impôs, disse que era dela todo o dinheiro liberado pelo FGTS e que poderia fazer com a grana o que bem entendesse. A resposta imediata foi "então vou reformar a casa!"

Dois anos depois e a um custo três vezes superior ao valor do fundo de garantia, a reforma foi concluída (ou melhor, paralisada, pois não havia mais de onde tirar dinheiro para a "cereja do bolo"). Durante esse tempo, para me planejar e não ser surpreendido, fui obrigado a bolar um sistema de controle de gastos que alimentasse um cronograma de despesas diárias e mensais previstas. Como meu conhecimento de informática é muito limitado, acabei criando algumas planilhas em Excel que se alimentavam com as informações sobre gastos reais e, a partir daí, gerando projeções diárias sobre o desembolso da grana

Antes de continuar, preciso fazer uma pausa para contar sobre meu primeiro contato com uma planilha Excel. Na prática, foi também meu primeiro contato com um microcomputador, pois, embora tivesse comprado um para meus filhos, não chegava nem perto. E na empresa eu era do tipo "usuário" ("faz aí"). Até 1994, quando fiquei sem emprego (eu tinha 44 anos). De repente, estava desempregado, na super merda e sem nenhuma perspectiva detectável. Na época, o mar não estava para peixe nem para  engenheiros mais velhos. Apareceu um serviço que exigia a apresentação em Excel. Quem me atirou a boia foi meu filho mais velho, à época com 18 anos. Entrou no tutorial do Excel e fez brotar uma planilha (cheia de defeitos, mas capaz de atender meu contratante). A partir daí, bem devagarinho, mas prestando atenção em tudo o que via e ouvia, acabei ficando razoável em Excel. Aliás, só conheço Word e Excel, mais nada.

Voltemos agora ao tema deste post. Depois de me aposentar em 2009 e graças à mega reforma que fizemos, passei a anotar cada centavo (literalmente) que é gasto em nossa casa. Para isso, utilizo uma planilha com três abas principais: "gastos diários" (efetivamente realizados), “mensal” (previsão de gastos no dia a dia, feita a partir dos dados coletados mês a mês na planilha "gastos diários") e uma previsão anual, alimentada com os gastos realmente ocorridos em cada mês Essa planilha anual gera projeções na base da média dos últimos meses. Para concluir, preciso dizer que as três planilhas acompanham 55 itens específicos, agrupados em 20 contas diferentes.  A título de exemplo, eu separo o lazer cotidiano do eventual, etc. Coisa de louco, não?

Meu recente amigo virtual Scant pediu que eu detalhasse essas contas. E esse é o motivo do post atual. Por isso, aí vai:

CRÉDITOS MÊS
 Saldo mês anterior
 INSS
 Previdência complementar
 Poupança
 Empréstimos
 Outros
 DESPESAS ROTINEIRAS
 Concessionárias
 Água
 Luz
 Telefone / Internet
 Recarga celular
 Supermercado, Padaria, Açougue
 Padaria
 Supermercado, Sacolão, Açougue
 Refeições, Lanches, Sorvetes
 Restaurantes
 Salgados, Sorvetes, etc.
 Saúde
 Farmácia
 Pilates
 Transporte
 Gasolina
 Estacionamento
 Passagens ônibus, taxi
 Manut. Carro
 IPVA, taxas Detran
 Seguro carro
 Lazer
 TV a cabo
 Academia
 Impostos e Taxas
 Taxas / Juros / IOF / Tributos
 IPTU
 Imposto Renda
 Despesas Diversas
 Salão
 Lojas 1,99/ Utilidades
 Xerox, etc.
 Presentes
 Festas
 Roupas Família
 Conserto eletro./ manut casa
 Despesas diversas
 DESPESAS EVENTUAIS
 Saúde
 Plano de saúde
 Médicos e dentistas fora do plano
 Transporte
 Pneus
 Financiamento de carro novo
 Lazer
 Viagens e passeios
 Compra de Eletroeletrônicos // Móveis
 Cartão de Crédito // Cheque Pré-datado
 Boleto Bancário
 Amortização de Empréstimos
 Amortização Empréstimo
 DESPESAS COM OBRAS E REFORMA
 Manutenção, Reparos e Conservação
 Mão de Obra
 Materiais/ Equipamentos


domingo, 10 de novembro de 2019

TRETAS E MUTRETAS - ÚLTIMA PARTE

Mesmo que ninguém esteja muito interessado nisso, aí vai a segunda parte:

Entre 1976 e 1980 trabalhei em uma construtora pequena (tinha só uns dezesseis engenheiros). Foi um período extremamente feliz da minha vida, pois essa empresa era quase uma "casa de vó", de tão acolhedora. O presidente era sócio de dois irmãos e patrão de mais seis (mais um cunhado). O ambiente era extremamente familiar e cortês, pois, além dos irmãos e cunhado a quem empregava, o Zé (o fundador) era extremamente carola. Saca só o currículo: sobrinho de bispo, irmão de freira e pai de padre. Além disso, o vigário da paróquia do bairro onde morava foi seu hóspede por um tempo, talvez enquanto a igreja estava sendo erguida. Igreja que sua empresa construiu, doando toda a mão de obra utilizada, de engenheiro a ajudante.

Durante os anos em que trabalhei com ele, eu nunca disse um palavrão no serviço, prática inaceitável na empresa. Segundo seu motorista, depois de tomar uma fechada no trânsito, soltou um “filho da puta!”. O Zé, que estava ao lado, ficou horrorizado e falou para ele não falar mais daquele jeito.

Apesar desse pedigree todo, essa pequena construtora pagava propina. Por volta de 1977, praticamente recém-formado, durante uma reunião interna para revisão da proposta que seria apresentada em uma licitação de obra a ser construída em município da região metropolitana de BH, ouvi do sócio a quem era diretamente subordinado a recomendação de aumentar o preço a que tinha chegado em 2%. Perguntei o motivo e ele, visivelmente constrangido, me contou a seguinte história:

Sua empresa tinha ganhado na maior lisura e pelo menor preço uma pequena obra no mesmo município. Embora rigorosamente dentro do cronograma, não havia meio de receber em dia os pagamentos pelos serviços já executados. Queixando-se disso com um amigo, dono de outra pequena construtora, foi por ele foi instruído a procurar alguém muito graduado na Administração Municipal. O assunto a tratar seria a concordância em pagar uma propina de 2% de cada fatura recebida, uma espécie de "corretagem", para que sua empresa pudesse receber em dia. Depois de fazer isso, nunca mais recebeu atrasado. Detalhe: metade da extorsão era destinada ao prefeito. A outra parte era distribuída entre alguns secretários. O prefeito estava ainda em seu primeiro mandato, mas hoje é riquíssimo. Engraçado é o percentual de 2%. Isso foi depois levado à estratosfera pelo Paulo Cesar Farias, amigo do Collor. Segundo boatos que ouvi na época, a taxa era algo em torno de 40%. Mesmo que o "pedágio" não tenha sido tão absurdo assim, não sei se alguém conseguiu superá-lo nesse quesito

Os mais moralistas e aqueles que acreditam na humanidade poderão estar chocados, mas este texto não é uma fábula e não tem moral nenhuma. O que importa saber é que todas essas empresas foram para o brejo em algum momento. E a razão disso é simples. Como já abordei esse assunto em um post dedicado às grandes empreiteiras, vou transcrever um trecho que é válido também para as pequenas empreiteiras:

Acredito que as pequenas construtoras estão expostas a um risco muitíssimo maior que, por exemplo, uma pizzaria recém-inaugurada ou uma pequena loja de autopeças ou sei lá o que. E esse risco está relacionado à formulação do preço da obra que se pretende executar. Embora se utilize a expressão "indústria da construção", não há nada mais despadronizado que a construção de qualquer obra. A começar pela localização (que pode afetar o preço de frete dos materiais básicos utilizados. Além disso, o subsolo existente define essa ou aquela fundação. Pesam ainda a quantidade absurda de materiais diferentes necessários, sejam eles incorporados à obra ou apenas como auxiliares durante os processos construtivos. Fora atrasos de pagamentos, ações trabalhistas, mudança de projetos, etc. etc. etc. etc.

Porque a questão básica que se impõe aos empresários frescos (é bom deixar claro que todos os engenheiros são machões. Até mesmo algumas engenheiras) é: como ganhar dinheiro (ou lucrar) fazendo obras por empreitada? Repetindo: qual deve ser o preço que bem atenda contratado e contratante?

Na minha opinião (repetindo), quando se elabora uma proposta para executar determinada obra, assume-se um risco muito alto, maior que o normalmente existente em outros setores da economia. Ao longo de minha vida profissional deparei-me com uma ou mais das seguintes situações:

- na fase da licitação, o projeto apresentado pode estar incompleto, mal detalhado ou com erros - ou é de responsabilidade da empresa que for contratada;
- salvo casos muito especiais e pouco frequentes, nenhuma obra é igual a outra. Assim, as experiências e dificuldades vividas na primeira obra de quase nada valerão para a realização da segunda;
- atrasos no recebimento das faturas correspondentes às parcelas já executadas podem, em alguns casos, até quebrar uma construtora de pequeno ou médio porte;
- no caso de obras públicas, embora "raro"(?), não chega a surpreender que haja pagamento de propinas feito a achacadores ligados à fiscalização da obra (alguém se lembrou do Petrolão? Pois é).

O que uma pequena construtora pode fazer para que seu barquinho continue a navegar nesse oceano tempestuoso até ser substituído por um belo e luxuoso iate ou até mesmo  por um imenso transatlântico? Bem, algumas descobriram.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

LULA NOS BRAÇOS DO POLVO

Como se já não bastasse  ler e ouvir as pérolas da famiglia Bolsonaro, agora ainda vou ter de aturar o mais honesto cascateando suas maravilhas a toda hora. Só repetindo o bordão de um apresentador de telejornal de BH: "eu não vou aguentar!"




ESSA PIADA É DO CA(*)!


Imagino que existam vários motivos para erros de português que vejo no Facebook. Erros de digitação, distração, falta de tempo ou paciência para revisar ou até mesmo analfabetismo funcional podem ser alguns desses motivos. Estou dizendo isso, pois hoje, enquanto dirigia, tomei o maior susto com uma palavra escrita em uma ambulância que passou ao lado. Olhando com mais atenção, percebi que a palavra era o nome de um município de que nunca tinha ouvido falar. E o nome da cidade é Caraí, palavra oxítona terminada em “i” com acento agudo.

Como bem sabem os leitores desta bagaça (só gente culta!), as palavras oxítonas terminadas em i são acentuadas se estiverem precedidas de outras vogais (como no caso presente). Já em casa, pesquisando na internet, descobri que Caraí é um município com 22.000 habitantes, localizado no norte de Minas.

Como meu sobrenome é uma tristeza só, uma afirmação obscena e vulgar, já viu que eu tenho problema com nomes próprios (e até impróprios), não é mesmo? Por isso, fiquei pensando que os carros oficiais e as placas indicativas do município devem, precisam estar sempre bem conservados e com pintura nova. Porque, se acontecer de o acento agudo do “i” ficar danificado, algum mal entendido sempre poderá ocorrer. Por exemplo, se comentarem alguma coisa sobre a tal ambulância ou até mesmo sobre pessoa nascida no município, algum gaiato sempre poderá dizer: “Ela é do Carai”. Ou então, no caso de alguém comentar com um amigo o motivo de não estar mais frequentando o Mercado Central de BH para comer fígado com jiló. O sumido poderia responder "Comprei um imóvel no interior e mudei para lá. Estou morando lá na casa do Carai". Não soaria bem, não mesmo.


P.S. Lamentavelmente, essa cidade de cuja existência eu nem sonhava foi notícia nos jornais de BH depois que dois adolescentes entraram na escola local e atiraram em três alunos. Ninguém morreu, mas foi uma triste coincidência, Fico pensando que a tal ambulância que vi talvez estivesse trazendo os adolescentes para internação em hospital da capital. Como a piada surgiu antes da notícia, resolvi manter o post.


quarta-feira, 6 de novembro de 2019

TRETAS E MUTRETAS - PARTE 01

As notícias que li há algum tempo sobre a situação de duas grandes, duas imensas construtoras brasileiras mexeram com lembranças de minha vida passada (profissional, lógico). Aí resolvi contar alguns casos engraçados que ouvi sobre pequenas construtoras e suas práticas nada edificantes. Antes, vamos às notícias que chamaram minha atenção:

"A Caixa Econômica Federal, um dos principais credores da Odebrecht, pediu à Justiça que decrete a falência da construtora, que desde junho protagoniza a maior recuperação judicial já realizada no país. O grupo, abalado desde o seu envolvimento na Operação Lava-Jato, tenta renegociar R$ 98,5 bilhões em dívidas". (O Globo, 03/10/2019)

"A Camargo Corrêa S.A., holding do grupo Camargo Corrêa que controla e tem participação em diversas empresas, anunciou nesta quinta-feira (14) a mudança de nome para Mover. A mudança acontece quase 3 anos depois da empreiteira Camargo Corrêa ter fechado acordo de leniência com Ministério Público Federal (MPF) e a Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) em meio às investigações da operação Lava Jato".

"Empresas mudam de nome após a Lava Jato

A Camargo Correia não é a primeira a mudar o nome ou a logomarca após a Lava Jato. A Engevix mudou o nome para Nova Engevix. A Odebrecht manteve o nome para a holding, mas decidiu retirar o nome "Odebrecht" de diversas unidades de negócio. A Odebrecht Óleo e Gás mudou para Ocyan, a Odebrecht Realizações Imobiliárias passou a se chamar OR e a Odebrecht Agroindustrial virou Atvos. Já a Braskem, controlada pela Odebrecht, retirou o vermelho do logotipo.(Portal G1, 14/06/2018)


Quando ouvi pela primeira vez alguém falar sobre irregularidades em licitações eu era recém-formado. Trabalhava em uma construtora de pequeno a médio porte (creio que tinha uns trinta engenheiros). Era uma empresa excelente, moderna e que utilizava técnicas administrativas de empresas bem maiores que ela. Tão boa que serviu de modelo para o surgimento de pelo menos cinco outras empresas, criadas por alguns de seus ex-engenheiros.

Um desses foi meu gerente. Segundo ele, em nenhuma hipótese essa empresa entrava em acordos com outras empreiteiras para fraudar resultados de licitações. Talvez seja esse o motivo de ela não ter crescido como merecia. Imagino também que era muito mal vista pelas concorrentes.

“Acordo” é uma prática que é (ou foi) muito comum entre empresas de engenharia de pequeno e médio porte. Consistia no seguinte: uma indústria particular ou órgão público decide licitar alguma obra. Segue-se o procedimento normal para isso: o edital é publicado ou são expedidos convites para os participantes. Se a obra for pública, participa da licitação quem cumpre os pré-requisitos estabelecidos no edital (capacidade técnica, idoneidade financeira, etc.). Quando faltam poucos dias para a entrega das propostas, a relação de participantes já é de conhecimento de uma ou mais construtoras. Essa lista normalmente é obtida por meio de contatos que essas construtoras mais espertas têm no dono da obra. Pode ser uma secretária, um gerente, um fiscal, etc.

De posse da relação das empresas concorrentes, a empresa que a conseguiu convoca as participantes para uma reunião de acordo, normalmente realizada na sede de quem fez o convite. Só graudão, de gerente para cima participa dessas reuniões. Se o preço previsto pelo órgão já é conhecido, ótimo. Se não, discute-se qual seria o preço razoável para a obra e decide-se qual será o preço do ganhador - sempre maior que o preço razoável. Ganha quem oferece o maior valor para ratear entre os “perdedores”. Outra modalidade pode ser a troca de favores: “eu ganho essa e te dou cobertura naquela”. Talvez até sorteio possa acontecer, não sei bem, pois nunca fui a nenhuma dessas reuniões. O diretor de outra empresa onde trabalhei dizia que reunião de acordo só é viável se for pequeno o número de participantes (uns cinco, talvez). Duas são as explicações para isso: se tiver muita gente, o rateio leva a valores inexpressivos. Outro motivo é a dificuldade de harmonizar dez, quinze machos alfa, conciliar os predadores. Quando há muitos participantes a concorrência “vai pro pau” e ganha quem realmente apresenta o menor preço (e às vezes se fode por causa disso).

Quando o acordo é selado, podem acontecer fatos imprevistos e muito engraçados. Na licitação para construção da sede de um órgão público em BH, várias empresas reuniram-se, fecharam o acordo - e dançaram. Tinham deixado de convidar uma empresa que era do Rio de Janeiro, por imaginar que ela não apresentaria proposta! Como essa empresa não sabia do acordo, entrou pra brigar e achou um bando de manés, todos com preços mais altos, "preços de acordo". Ganhou a licitação e fez a obra.

Outro caso idiota aconteceu com a licitação de uma trincheira em BH. Pelo edital, o preço do ganhador seria o que mais se aproximasse da média das propostas apresentadas. Não me lembro mais se teve também uma reunião de acordo feita às pressas ou se houve um “comportamento de manada” com todo mundo subindo os preços para influir na média. Todo mundo subiu os preços, menos a empresa onde eu trabalhava. O engraçado nessa história é que essa empreiteira (que também não foi convidada) nunca foi barateira e entrou com seus preços normais. Se não tivesse acontecido a tal reunião, teria perdido feio, pois seu preço sempre era alto. Mas foi a ganhadora pois o preço por ela proposto era inferior e o mais próximo de um valor médio artificialmente mais alto. Creio que houve até tentativas de algumas concorrentes para anular a licitação.


(mais uma historinha, só amanhã)


PEIXE VOADOR

Sabe aquele dia em que você tem uma ideia idiota e não sabe o que fazer para torná-la ainda ,ais idiota? Pois é, hoje é um desses dias. Talvez por causa das manchas de petróleo que estão arregaçando as prais do nordeste, imaginei um cartum com um peixe voador. Mas o sentido da piada não vinha de forma minimamente engraçada. Depois de quatro tentativas, resolvi juntar tudo em um único post. Aí sim, o que já era idiota conseguiu ficar ainda mais. Aliás, este é o primeiro cartum interativo que conheço, pois podem escolher à vontade. Olhaí.







sábado, 2 de novembro de 2019

CASCATEANDO NO FACEBOOK

Como talvez já tenham notado os que acessaram este blog algumas vezes, uma das minhas diversões é criar frases curtas que caibam em um modo específico de visualização do Facebook (não sei o nome) . Nesse modo há várias padronagens e temas, que funcionam como um papel de parede para essas frases curtas, que ganham com isso muito destaque. Não há nada de excepcional nesses posts, que servem só para passar o tempo. Como eu sou menos bobo do que pareço (não muito, não muito!), às vezes junto tudo e jogo no velho Blogson. Como neste caso: 


AUTO-DEFESA

Nenhuma descrição de foto disponível.




quarta-feira, 30 de outubro de 2019

COLISEU ROMANO


Este texto foi originalmente publicado no Facebook, provocado pela reação sempre apática, desfibrada, asséptica, desidratada ou robótica de um de meus "amigos de facebook".


Como todo mundo está careca de saber, o Facebook possui seis emojis para comentar as postagens que são publicadas. Os títulos são “Curtir”, “Amei”, “Haha”, “Uau”, “Triste” e “Grr”. São comentários sintéticos, ideais para quem tem preguiça de escrever ou não está disposto a perder tempo com isso. Fico pensando que poderiam ser criados mais alguns, para permitir um melhor detalhamento da emoção provocada por algum post. Por exemplo, em oposição ao “Curtir”, poderia existir o ”Não curtir” (ou “Babaquice!”), com o polegar virado para baixo, bem no estilo “Coliseu romano”. Ou então: se existe o “Amei”, poderia existir também o “Odiei”, mais específico que “Grr”. E, claro, um exclusivo para denunciar “fake news”. Até imagino um emoji para essa opção: a cara de uma vaquinha (nesse caso, seria mais um “emugido”).

Mas o que realmente me incomoda é ver o uso indiscriminado do pasteurizado “Curtir”, pois, aparentemente, algumas pessoas sofrem de paralisia emocional ou medo de mostrar que são de carne e osso. Se alguém posta uma notícia preocupante, impactante, daquelas de horrorizar ou escandalizar até robôs, o normal seria fazer algum comentário ou usar os emojis “Uau”, “Triste” ou “Grr”. Que nada! O “poste” (ou “pedra”) simplesmente aciona o “Curtir” e estamos conversados. Nunca compartilha ou replica nada. Da mesma forma, se alguém publica ou compartilha um post engraçadíssimo, daqueles de rolar de rir, olha o “poste” lá de novo, clicando na mãozinha símbolo do Facebook. Caramba, é proibido, pecaminoso ou ofensivo achar graça de alguém ou de alguma coisa?

Eu entendo ou imagino que alguns desejem ficar na sombra, não se comprometer, não chamar atenção para si, mas isso é bobagem. Melhor então seria deixar a mãozinha em paz. Afinal, a Bíblia já ensinava (Ap 3,15-16): “Oxalá fosses frio ou quente! Mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te." Olhaí, “pedra”, tá na Bíblia!

terça-feira, 29 de outubro de 2019

ENTREVISTA COM FERREIRA GULLAR - PEDRO DIAS LEITE (PARA A REVISTA VEJA)


Fui assinante da revista VEJA durante alguns anos. Sempre esperava ansioso sua entrega aos sábados. Aos poucos, fui percebendo que a situação do grupo Abril não era muito boa, pois a entrega ficou meio zoneada. Além disso, venderam vários títulos de revistas e, para piorar, a VEJA começou a emagrecer muito. Acredito que essa situação foi provocada (parcialmente, pelo menos) pelo governo Dilma, alvo de frequentes e pertinentes críticas. Com isso, a propaganda governamental secou. Fico tentado a pensar que pode também ter havido pressões sobre agências de publicidade com contratos com o governo, pois a quantidade de publicidade de empresas particulares (o oxigênio da imprensa) caiu barbaramente. Além disso, vários colaboradores craquérrimos foram saindo, etc. Diante desse quadro, agravado por uma falta crescente de grana, resolvi não renovar minha assinatura da revista. Mas, enquanto ainda era assinante, copiei vários textos e entrevistas bacanérrimas que enviava por e-mail para filhos e alguns amigos. Uma delas é uma entrevista com o poeta Ferreira Gullar. Graças a um comentário de meu amigo Marreta, resolvi transcrevê-la quase na íntegra, não só como homenagem ao poeta maranhense, como também à sempre excelente revista VEJA. Olhaí.


UMA VISÃO CRÍTICA DAS COISAS
O poeta diz que o socialismo não faz mais sentido, recusa o rótulo de direitista e ataca: “Quando ser de esquerda dava cadeia, ninguém era. Agora que dá prêmio, todo mundo é”
Um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos, Ferreira Gullar, 82 anos, foi militante do Partido Comunista Brasileiro e, exilado pela ditadura militar, viveu na União Soviética, no Chile e na Argentina.
Desiludiu-se do socialismo em todas as suas formas e hoje acha o capitalismo “invencível”.
É autor de versos clássicos — “À vida falta uma parte / — seria o lado de fora — / para que se visse passar / ao mesmo tempo que passa / e no final fosse apenas / um tempo de que se acorda / não um sono sem resposta. / À vida falta uma porta”.
Gullar teve dois filhos afligidos pela esquizofrenia. Um deles morreu. O poeta narra o drama familiar e faz a defesa da internação em hospitais psiquiátricos dos doentes em fase aguda. Sobre seu ofício, diz: “Tem de haver espanto, não se faz poesia a frio”. 

O senhor já disse que “se bacharelou em subversão” em Moscou e escreveu um poema em que a moça era “quase tão bonita quanto a revolução cubana”. Como se deu sua desilusão com a utopia comunista?
Não houve nenhum fato determinado. Nenhuma decepção específica. Foi uma questão de reflexão, de experiência de vida, de as coisas irem acontecendo, não só comigo, mas no contexto internacional. É fato que as coisas mudaram. O socialismo fracassou. Quando o Muro de Berlim caiu, minha visão já era bastante crítica.
A derrocada do socialismo não se deu ao cabo de alguma grande guerra. O fracasso do sistema foi interno. Voltei a Moscou há alguns anos. O túmulo do Lenin está ali na Praça Vermelha, mas pelo resto da cidade só se veem anúncios da Coca-Cola. Não tenho dúvida nenhuma de que o socialismo acabou, só alguns malucos insistem no contrário. Se o socialismo entrou em colapso quando ainda tinha a União Soviética como segunda força econômica e militar do mundo, não vai ser agora que esse sistema vai vencer. 

Por que o capitalismo venceu?
O capitalismo do século XIX era realmente uma coisa abominável, com um nível de exploração inaceitável. As pessoas com espírito de solidariedade e com sentimento de justiça se revoltaram contra aquilo. O Manifesto Comunista, de Marx, em 1848, e o movimento que se seguiu tiveram um papel importante para mudar a sociedade.
A luta dos trabalhadores, o movimento sindical, a tomada de consciência dos direitos, tudo isso fez melhorar a relação capital-trabalho. O que está errado é achar, como Marx diz, que quem produza riqueza é o trabalhador e o capitalista só o explora. É bobagem. Sem a empresa, não existe riqueza. Um depende do outro. O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas. É um criador, um indivíduo que faz coisas novas.
A visão de que só um lado produz riqueza e o outro só explora é radical, sectária, primária. A partir dessa miopia, tudo o mais deu errado para o campo socialista. Mas é um equívoco concluir que a derrocada do socialismo seja a prova de que o capitalismo é inteiramente bom. O capitalismo é a expressão do egoísmo, da voracidade humana, da ganância. O ser humano é isso, com raras exceções.
O capitalismo é forte porque é instintivo. O socialismo foi um sonho maravilhoso, uma realidade inventada que tinha como objetivo criar uma sociedade melhor. O capitalismo não é uma teoria. Ele nasceu da necessidade real da sociedade e dos instintos do ser humano. Por isso ele é invencível.
A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível. Agora mesmo, enquanto falamos, há milhões de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro. É óbvio que um governo central com seis burocratas dirigindo um país não vai ter a capacidade de ditar rumos a esses milhões de pessoas. Não tem cabimento.

O senhor se considera um direitista?
Eu, de direita? Era só o que faltava. A questão é muito clara. Quando ser de esquerda dava cadeia, ninguém era. Agora que dá prêmio, todo mundo é. Pensar isso a meu respeito não é honesto. Porque o que estou dizendo é que o socialismo acabou, estabeleceu ditaduras, não criou democracia em lugar algum e matou gente em quantidade. Isso tudo é verdade. Não estou inventando.

E Cuba?
Não posso defender um regime sob o qual eu não gostaria de viver. Não posso admirar um país do qual eu não possa sair na hora que quiser. Não dá para defender um regime em que não se possa publicar um livro sem pedir permissão ao governo. Apesar disso, há uma porção de intelectuais brasileiros que defendem Cuba, mas, obviamente, não querem viver lá de jeito nenhum. É difícil para as pessoas reconhecer que estavam erradas, que passaram a vida toda pregando uma coisa que nunca deu certo.

Como o senhor define sua visão política?
Não acho que o capitalismo seja justo. O capitalismo é uma fatalidade, não tem saída. Ele produz desigualdade e exploração. A natureza é injusta. A justiça é uma invenção humana. Um nasce inteligente e o outro burro. Um nasce inteligente, o outro aleijado. Quem quer corrigir essa injustiça somos nós. A capacidade criativa do capitalismo é fundamental para a sociedade se desenvolver, para a solução da desigualdade, porque é só a produção da riqueza que resolve isso. A função do estado é impedir que o capitalismo leve a exploração ao nível que ele quer levar.

Qual a sua visão do governo Dilma Rousseff?
Dilma é uma mulher honesta, não rouba, não tem a característica da demagogia. Mas ela foi posta no poder pelo Lula. Assim, não tem autoridade moral para dizer não a ele. Nesse aspecto, é prisioneira dele.

Como o senhor avalia a perspectiva de condenação dos réus do mensalão?
O julgamento não vai alterar o curso da história brasileira de uma hora para a outra. Mas o que o Supremo está fazendo é muito importante. É uma coisa altamente positiva para a sociedade. Punir corruptos, pessoas que se aproveitaram de posições dentro do governo, é uma chama de esperança.

O senhor se identifica com algum partido político atual?
Eu fui do Partido Comunista, mas era moderado. Nunca defendi a luta armada. A luta armada só ajudou mesmo a justificar a ação da linha dura militar, que queria aniquilar seus oponentes. Quando fui preso, em 1968, fui classificado como prisioneiro de guerra. O argumento dos militares era, e é, irrespondível: quem pega em armas quer matar, então deve estar preparado para morrer.

O senhor condena quem pegou em armas para lutar contra o regime militar?
Quem aderiu à luta armada foram pessoas generosas, íntegras, tanto que algumas sacrificaram sua vida. Mas por um equívoco. Você tem de ter uma visão critica das coisas, não pode ficar eternamente se deixando levar por revolta, por ressentimentos. A melhor coisa para o inimigo é o outro perder a cabeça. Lutar contra quem está lúcido é mais difícil do que lutar contra um desvairado.
(...)
Como é seu método para fazer poesia?
Já fiquei doze anos sem publicar um livro. Meu último saiu há onze anos. Poesia não nasce pela vontade da gente, ela nasce do espanto, alguma coisa da vida que eu vejo e que não sabia. Só escrevo assim. Estou na praia, lembro do meu filho que morreu. Ele via aquele mar, aquela paisagem. Hoje estou vendo por ele. Aí começo um poema… Os mortos veem o mundo pelos olhos dos vivos. Não dá para escrever um poema sobre qualquer coisa.
O mundo aparentemente está explicado, mas não está. Viver em um mundo sem explicação alguma ia deixar todo mundo louco. Mas nenhuma explicação explica tudo, nem poderia. Então de vez em quando o não explicado se revela, e é isso que faz nascer a poesia. Só aquilo que não se sabe pode ser poesia.

A idade é uma aliada ou uma inimiga do poeta?
Com o avanço da idade, diminuem a vontade e a inspiração. A gente passa a se espantar menos. Tem poeta que não se espanta mais, mas insiste em continuar escrevendo, não quer se dar por vencido. Então ele começa a escrever bobagens ou coisas sem a mesma qualidade das que produzia antes. Saber fazer ele sabe, mas é só técnica, falta alguma coisa. Não se faz poesia a frio. Isso não vai acontecer comigo. Sem o espanto, eu não faço.
Escrever só para fazer de conta, não faço. Eu vou morrer. O poeta que tem dentro de mim também. Tudo acaba um dia. Quando o poeta dentro de mim morrer, não escrevo mais. Não vou forçar a barra. Isso não vai acontecer. Toda vez que publico um livro, a sensação que tenho é de que aquele é o definitivo. Escrever um poema para mim é uma grande felicidade. Se não acontecer, não aconteceu.