quarta-feira, 26 de agosto de 2026

BABY, IT’S COLD OUTSIDE

 
Morreu a cantora Dolly Parton. Praticamente nada sei dela, à exceção de ser, digamos, muito “volumosa” e ter gravado com Rod Stewart (um conquistador na vida real)  a música Baby, It’s Cold Outside. A música é uma delícia de ouvir e a letra é pura sedução e recusa – uma recusa não tão firme assim. E esta é minha homenagem a essa cantora, morta aos 80 anos.
Ouça a música e leia a tradução feita pelo ChatGPT


 
[Dolly — relutante] Eu realmente não posso ficar
[Rod — sedutor] Querida, está frio lá fora
 
[Dolly] Tenho que ir embora
[Rod] Querida, está frio lá fora
 
[Dolly] Esta noite foi...
[Rod] Eu estava torcendo para que você aparecesse
 
[Dolly] Tão agradável
[Rod] Vou segurar suas mãos, estão geladas como gelo
 
[Dolly] Minha mãe vai começar a se preocupar
[Rod] Linda, por que tanta pressa?
 
[Dolly] E meu pai vai ficar andando de um lado para outro
[Rod] Escute só o fogo crepitando na lareira
 
[Dolly] Agora, de verdade, é melhor eu ir depressa
[Rod] Meu bem, por que tanta pressa?
 
[Dolly] Bem, talvez só mais meio drinque
[Rod] Coloque um disco para tocar enquanto eu sirvo
 
[Dolly] Todos os vizinhos podem pensar...
[Rod] Mas, querida, lá fora está horrível
 
[Dolly] Diga, o que tem nesta bebida?
[Rod] Não há táxis disponíveis lá fora
 
[Dolly] Ah, quem me dera saber como
[Rod] Seus olhos estão brilhando como estrelas agora
 
[Dolly] Romper este encantamento
[Rod] Vou pegar seu chapéu; seu cabelo está lindo
 
[Dolly] Eu deveria dizer não, não, não, senhor
[Rod] Importa-se se eu chegar um pouquinho mais perto?
 
[Dolly] Pelo menos vou dizer que tentei
[Rod] De que adianta ferir meu orgulho?
 
[Dolly] Eu realmente não posso ficar
[Rod] Querida, não resista
[Dolly] Ah, mas está frio lá fora
 
 [Dolly] Eu simplesmente tenho que ir
[Rod] Querida, está frio lá fora
 
[Dolly] A resposta é não
[Rod] Mas, querida, lá fora está frio
 
[Dolly] Ah, esta recepção foi...
[Rod] Que sorte você ter aparecido
 
[Dolly] Tão agradável e aconchegante
[Rod] Olhe pela janela para aquela tempestade
 
[Dolly] Minha irmã vai desconfiar
[Rod] Deus, seus lábios parecem deliciosos
 
[Dolly] Meu irmão estará lá na porta
[Rod] Ondas numa praia tropical
 
[Dolly] Ah, minha tia solteirona tem uma mente perversa
[Rod] Ah, querida, você é deliciosa
 
[Dolly] Bem, talvez só mais um beijinho
[Rod] Nunca vi uma nevasca assim antes
 
[Dolly] Ah, tenho que ir para casa
[Rod] Você vai congelar lá fora
 
[Dolly] Diga, me empresta um pente?
[Rod] A neve está chegando aos seus joelhos lá fora
 
[Dolly] Você foi realmente maravilhoso
[Rod] Eu fico arrepiado quando você toca minha mão
 
[Dolly] Mas você não percebe?
[Rod] Como você pode fazer isso comigo?
 
[Dolly] Amanhã certamente vão falar de nós
[Rod] Transformando isso na minha eterna tristeza
 
[Dolly] Bem, pelo menos haverá muita coisa para insinuar
[Rod] Se você pegasse uma pneumonia e morresse
 
[Dolly] Mas eu realmente não posso ficar
[Rod] Esqueça essa história de ir embora
 
[Ambos] Querida, está frio lá fora
 
 
 
[Dolly] Ei, eu tenho que sair daqui.
[Rod] Vamos, querida.
 
[Dolly] Vamos, o quê?
[Rod] Me dê só mais cinco minutos.
 
[Dolly] Você sabe mesmo como cansar uma mulher até ela ceder, não é?
[Dolly] Está bem, está bem, está bem, está bem...

terça-feira, 25 de agosto de 2026

SAMBA!

 
Tenho andado meio sumido da blogosfera pelo simples motivo de não ter nada a dizer. Nenhum caso para contar, nenhuma história, nenhuma bobagem que me pareça digna de ser publicada. E o mais estranho é não sentir aquele antigo desejo paranoico de postar qualquer coisa quase todos os dias.
 
Só para se ter uma ideia: desde a criação do blog, há doze anos – ou 4.460 dias –, foram feitas 3.600 postagens. Trocando em miúdos, um novo post a cada 1,3 dia.
 
Desnecessário dizer que essa chama quase se apagou. Para soprar as cinzas que escondiam o braseiro, resolvi pedir à Suno que musicasse um poema bola-murcha que rascunhei alguns dias atrás. Depois de quatro tentativas, descobri que a simplicidade dos versos combinava com o samba.
 
E é este o resultado que compartilho agora com vocês. Se gostarem, ótimo. Se não gostarem, liguem para o 0800 foda-se.




sexta-feira, 21 de agosto de 2026

AFRODITE

 
Se eu soubesse como seria ter novo amor,
O risco que eu correria de amar sem medida,
Maré alta, sujeita a ressaca – que invade a praia
E coloca em perigo o banhista,
Eu não teria tentado, eu não teria querido
Reviver um passado distante, praticamente esquecido.
Teria disso fugido, não teria desejado tanto
Redescobrir esse amor escondido.
 
Melhor seria não deixar esse amor florescer
E pegar uma baranga qualquer,
Que fosse apenas bonita e gostosa, mulher
Para deitar na minha cama, fazer cafuné,
Andar de mãos dadas e até,
Talvez – namorar todo dia.
 
Mas jamais faria a besteira de me deixar apaixonar,
De sentir saudade de alguém todo dia, querer com ela estar,
Sonhando com isso acordado, desejo absurdo, impossível,
Pois não há no amor simetria.
Então, melhor seria não dar a esse amor o poder
De tomar de assalto corpo, mente, tudo,
O coração, tudo, tudo, integralmente.
 
Estava nessa divagação, lamentando não ter pensado assim antes,
Sabendo que agora é tarde, pois não mais consigo
Libertar-me do amor que deixei renascer.
 
Sem entender se delirava ou sonhava enquanto dormia,
Pensei uma deusa do amor consultar,
Querendo saber o que diria, sorver sua sabedoria.
Contar-lhe tudo o que sentia. Que conselhos me daria?
 
Pois Afrodite, a deusa do amor consultada,
Aquela desgraçada, riu de mim!
E disse não haver solução pra velhice,
Que amor não tem idade, quem tem idade é quem ama,
Que amores maduros são frutas desidratadas,
Por mais que se deseje o contrário, que fossem
Sumarentas, carnudas.
Já foram, não são mais.
 
E que o máximo que posso fazer
É aceitar este fato, entender
Que o amor que desperto em alguém –
Se realmente desperto – nunca será como antes,
No tempo da juventude. E é pegar ou largar,
Sem reclamar, pois isso não mais mudará.
 
Ah, Afrodite, sua sacana!
 Deusa do amor? Pois sim...
E ainda há quem nela acredite! Ah, Afrodite...

 

domingo, 16 de agosto de 2026

GUARDAR - ANTÔNIO CÍCERO

 
Antônio Cícero foi um grande poeta, filósofo, letrista e membro da Academia Brasileira de Letras. Era irmão da cantora e compositora Marina Lima, para quem escreveu várias letras das músicas por ela compostas.
 
Um dia, ao ver que estava em um processo sem volta, tomou a decisão durísssima de praticar eutanásia na Suiça, deixando uma carta endereçada aos amigos. Entendi que valia a pena transcrever trechos desta carta para apresentar um de seus poemas:
 

A CARTA:
O que ocorre é que minha vida se tornou insuportável. Estou sofrendo de Alzheimer. Assim, não me lembro sequer de algumas coisas que ocorreram não apenas no passado remoto, mas mesmo de coisas que ocorreram ontem. (...)
Não consigo mais escrever bons poemas nem bons ensaios de filosofia. Não consigo me concentrar nem mesmo para ler, que era a coisa de que eu mais gostava no mundo. Apesar de tudo isso, ainda estou lúcido bastante para reconhecer minha terrível situação. (...)
Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade.


O POEMA:
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre não
  se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto
                 é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é,
velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela
                                    ou ser por ela.
          Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
                         Do que pássaros sem vôos.
  Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se
                          declara e declama um poema:
                                     Para guardá-lo:
            Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
                  Guarde o que quer que guarda um poema:
                              Por isso o lance do poema:
                       Por guardar-se o que se quer guardar.

sábado, 15 de agosto de 2026

VOCÊ É BRASILEIRO? JURA?

 

Recebi este texto de um amigo de facebook e não resisti à tentação de divulgá-lo no blog, por pensar exatamente com seu autor.

O brasileiro que comprou um pedaço do Liverpool
A notícia me chamou a atenção: Eduardo Saverin, um dos fundadores do Facebook, está entre os investidores de um consórcio que acaba de adquirir uma participação de mais de 30% no Liverpool Football Club. O negócio avalia o tradicional clube inglês em mais de cinco bilhões de libras.
Eduardo Saverin é brasileiro.
Nasceu em São Paulo, em 1982. Mudou-se para os Estados Unidos aos dez anos, tornou-se cidadão americano em 1998 e, em 2011, renunciou à cidadania americana. Desde então, vive em Singapura.
Ainda assim, quando a notícia apareceu, lá estava ele: o brasileiro Eduardo Saverin.
E isso me fez pensar no nosso velho complexo de vira-latas.
A expressão foi criada por Nelson Rodrigues para falar da nossa inferioridade psicológica diante do estrangeiro. Temos, muitas vezes, a necessidade de acreditar que aquilo que vem de fora é melhor — mais sofisticado, mais competente, mais importante. Mas existe também o movimento contrário, talvez igualmente revelador: quando um brasileiro faz sucesso lá fora, imediatamente o reivindicamos.
O sujeito nasce no Brasil, vai embora ainda criança, estuda em Harvard, participa da criação do Facebook, constrói sua fortuna nos Estados Unidos, muda-se para Singapura, renuncia à cidadania americana e passa a investir pelo mundo.
E nós dizemos: "Vejam o brasileiro!"
É curioso.
Não estou dizendo que Saverin não seja brasileiro. Juridicamente, nasceu brasileiro e continua sendo brasileiro. Mas talvez haja uma diferença entre nacionalidade e pertencimento.
A nacionalidade pode estar registrada num documento. O pertencimento é uma coisa muito mais complicada.
O que me parece interessante é perceber como nós, brasileiros, gostamos de incorporar ao nosso currículo nacional aqueles que venceram no exterior. É como se o sucesso obtido longe daqui funcionasse como uma espécie de certificado de qualidade que pudéssemos exibir.
"É brasileiro!"
Como se disséssemos: vejam, nós também produzimos gente capaz de chegar lá.
Mas há uma ironia ainda maior.
Saverin não está comprando o Liverpool sozinho. Está participando de um consórcio que reúne alguns dos maiores capitais do mundo, entre eles Jeff Bezos. O Brasil não está comprando o Liverpool. Um homem nascido no Brasil está investindo no futebol inglês com dinheiro construído numa trajetória essencialmente internacional.
Talvez seja justamente aí que a história fique interessante.
O mundo mudou. O dinheiro atravessa fronteiras com uma facilidade que nossos sentimentos de pertencimento ainda não conseguem acompanhar.
Um homem pode nascer brasileiro, tornar-se americano, viver em Singapura e comprar parte de um clube inglês.
E nós ainda precisamos perguntar:
"Mas ele é brasileiro?"
Talvez o nosso complexo de vira-latas tenha mudado de forma.
Antes, olhávamos para o estrangeiro e dizíamos: eles são melhores que nós.
Agora, quando um dos nossos vence lá fora, corremos para dizer:
"Ele é nosso."
No fundo, talvez ainda estejamos procurando, no sucesso dos outros, uma maneira de acreditar um pouco mais em nós mesmos.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

IN DUBIO PRO REO

 
Nada sabemos do futuro
Pouco sabemos do passado
Mesmo o presente – tão claro! –
Pode se apresentar escuro
Confuso, estranho, nublado
 
Fazendo-nos crer que o dito
Em tempo distante, esquecido
Possa ainda ser veredito
Para hoje nos condenar

Sem pensar que o que foi dito
Pode hoje ser desdito
Pois o que hoje é feio
Já foi um dia bonito
 
Que a eternidade por uns pretendida
Não teve nem tem garantia
De permanecer imutável
Em mente para sempre mutante
Mutável, fluida – enguia
 
Disse um amigo uma vez
Que não podemos julgar o passado
Com nossos olhos de presente

Que condenar, rejeitar o pretérito
Ainda que seja imperfeito
É esquecer que seremos julgados
Por quem estiver no futuro
E que essa é a única, eterna certeza
 
Quem fica propenso a julgar
Ignora ou não quer aceitar
Que o passado é apenas pretérito
Não adianta tentar alterar

E que só é possível mudar
O presente, só o presente,
Somente.

BABY, IT’S COLD OUTSIDE

  Morreu a cantora Dolly Parton. Praticamente nada sei dela, à exceção de ser, digamos, muito “volumosa” e ter gravado com Rod Stewart (um c...