terça-feira, 6 de outubro de 2026

LIMITE

 
O passado não está cabendo mais
dentro de mim.
 
O passado vivido
somou-se ao que não foi vivido
e ao que foi só desejado.
 
Sinto minha mente
querendo explodir
 
numa tristeza constante,
onipresente,
impossível de ser debelada,
 
como se alimentada
por um fogo eterno
que teima em queimar
e me queimar,
destruir.
 
Não precisarei ser cremado
quando morrer,
 
pois hoje já sou as cinzas
do que fui.
Ou quis um dia ser.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

ARIDEZ

 
Alguém já disse que
não há romantismo na vida real,
 
que romantismo só existe
na vida que acreditamos ser real.
 
Não sei se concordo com isso.
 
Durante toda a minha vida,
tentei viver
o romantismo escancarado,
 
dando mais valor
ao que me pedia o coração
do que aos argumentos da razão.
 
Porque a vida, para mim, não tem sentido.
 
E, se não tem mesmo nenhum,
por que aceitar
a aridez do dia a dia?
 
Tudo o que quero
é sonhar,
 
sonhar com o amor,
viver a paixão,
 
e que essa paixão,
 
mesmo no indesejado,
no temido momento binário,
 
seja tão intensa
e alucinada
quanto as que vivi
na minha juventude.

 

domingo, 4 de outubro de 2026

CONTRASTES - LUIS MELODIA


 
Hoje é dia de eleição em todo o Brasil. Por ser idoso, sinto-me desobrigado de votar. E não votarei, pois meu desencanto pelos políticos e demais autoridades chegou ao nível máximo. Deixo apenas o pensamento que me ocorreu: O povo brasileiro elegerá o candidato que merece ter como próximo governante. Por isso, lembrei-me uma música antiga para ser tema do dia de hoje.
 
Existe muita tristeza
Na Rua da Alegria
Existe muita desordem
Na Rua da Harmonia
 
Analisando essa história
Cada vez mais me embaraço
Quanto mais longe do circo
Mais eu encontro palhaço
 
Cada vez mais me embaraço
Analisando essa história
Existe muito fracasso
Dentro do Largo da Glória

sábado, 3 de outubro de 2026

QUERIA TANTO TE VER!

Tudo o que eu queria dizer já foi dito.
Tudo o que pensei escrever está escrito.
E mesmo que pareça ter trocado
O dito pelo não dito,
nada tenho a acrescentar.
 
Com um coração apertado, aflito,
jamais poderei negar 
o prazer quase inaudito –
mesmo que sempre desejado –
sentido em reencontro inesperado.
 
Mas preciso aceitar esta verdade:
que o amor da juventude, 
mesmo que não interdito,
não é igual na maturidade.
 
Que a vontade de estar junto 
ou, pelo menos, perto
não é o principal requisito
para que isso aconteça, 
pois disputa com outros desejos, 
outras prioridades.
 
Que esse desejo está circunscrito
a um pequeno nicho da mente,
nunca seu principal pensamento.
 
E que, por ser assim, pode ser
adiado, ignorado
ou até mesmo abandonado.

 

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

É PRECISO SABER VIVER - TITÃS

 E como isso pode ser difícil!


Quem espera que a vida
Seja feita de ilusão
Pode até ficar maluco
Ou morrer na solidão
É preciso ter cuidado
Pra mais tarde não sofrer
É preciso saber viver

Toda pedra no caminho
Você pode retirar
Numa flor que tem espinhos
Você pode se arranhar
Se o bem e o mal existem
Você pode escolher
É preciso saber viver

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

A CAMA DE PROCUSTO

 
Pode ser que eu esteja errado, mas acredito que a mitologia grega é uma das mais ricas que existem. Muitos de seus personagens serviram de metáfora ou inspiração para explicar ou nomear comportamentos, atitudes ou situações.
 
Sem falar da contribuição de filósofos, escultores, poetas e dramaturgos na construção da cultura ocidental. Mas paro por aqui, pois não tenho conhecimento suficiente para me aprofundar nesse assunto.
 
O que motivou o desejo – a cada dia menor – de escrever um texto para o blog foi ter descoberto um novo personagem mitológico, excelente para associação com os dias atuais. Seu nome era Procusto.
 
Diz a lenda que Procusto era um bandido sádico que morava perto de Atenas. Tinha uma cama de ferro que oferecia aos viajantes que passavam, para que pudessem descansar um pouco. O problema é que Procusto achava que o viajante tinha a obrigação de ter exatamente o comprimento do móvel. Se o sujeito fosse maior que a cama, Procusto cortava-lhe as pernas. Se fosse menor, esticava-o. Acabou provando da própria hospitalidade quando Teseu o prendeu lateralmente (gênio!) em sua própria cama e cortou-lhe a cabeça e os pés.
 
E aí é que surge mais uma viagem na maionese para os dias atuais ou, talvez, desde sempre: Procusto e sua cama representam a intolerância do ser humano em relação ao seu semelhante. Em qualquer época e, particularmente, na atual, pode-se usá-lo como metáfora da visão ideológica que alguns acreditam ser a correta: primeiro estabelece-se a medida; depois trata-se de fazer o mundo caber nela.
 
Qualquer semelhança desse mito com a polarização que envenena e emperra este país de gente honesta (todo mundo aqui é honesto!) não é só mera coincidência, mas sua melhor definição. Porque, praticamente às vésperas de uma nova eleição para presidente, cada grupo político aparece com sua cama.
E lá vão eles munidos de serras metafóricas e elásticos ideológicos, tentando cortar uns, esticar outros e encaixar todo mundo na cama que construíram.
 

LIMITE

  O passado não está cabendo mais dentro de mim.   O passado vivido somou-se ao que não foi vivido e ao que foi só desejado.   Sinto minha m...