domingo, 16 de agosto de 2026

GUARDAR - ANTÔNIO CÍCERO

 
Antônio Cícero foi um grande poeta, filósofo, letrista e membro da Academia Brasileira de Letras. Era irmão da cantora e compositora Marina Lima, para quem escreveu várias letras das músicas por ela compostas.
 
Um dia, ao ver que estava em um processo sem volta, tomou a decisão durísssima de praticar eutanásia na Suiça, deixando uma carta endereçada aos amigos. Entendi que valia a pena transcrever trechos desta carta para apresentar um de seus poemas:
 

A CARTA:
O que ocorre é que minha vida se tornou insuportável. Estou sofrendo de Alzheimer. Assim, não me lembro sequer de algumas coisas que ocorreram não apenas no passado remoto, mas mesmo de coisas que ocorreram ontem. (...)
Não consigo mais escrever bons poemas nem bons ensaios de filosofia. Não consigo me concentrar nem mesmo para ler, que era a coisa de que eu mais gostava no mundo. Apesar de tudo isso, ainda estou lúcido bastante para reconhecer minha terrível situação. (...)
Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade.


O POEMA:
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre não
  se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto
                 é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é,
velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela
                                    ou ser por ela.
          Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
                         Do que pássaros sem vôos.
  Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se
                          declara e declama um poema:
                                     Para guardá-lo:
            Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
                  Guarde o que quer que guarda um poema:
                              Por isso o lance do poema:
                       Por guardar-se o que se quer guardar.

sábado, 15 de agosto de 2026

VOCÊ É BRASILEIRO? JURA?

 

Recebi este texto de um amigo de facebook e não resisti à tentação de divulgá-lo no blog, por pensar exatamente com seu autor.

O brasileiro que comprou um pedaço do Liverpool
A notícia me chamou a atenção: Eduardo Saverin, um dos fundadores do Facebook, está entre os investidores de um consórcio que acaba de adquirir uma participação de mais de 30% no Liverpool Football Club. O negócio avalia o tradicional clube inglês em mais de cinco bilhões de libras.
Eduardo Saverin é brasileiro.
Nasceu em São Paulo, em 1982. Mudou-se para os Estados Unidos aos dez anos, tornou-se cidadão americano em 1998 e, em 2011, renunciou à cidadania americana. Desde então, vive em Singapura.
Ainda assim, quando a notícia apareceu, lá estava ele: o brasileiro Eduardo Saverin.
E isso me fez pensar no nosso velho complexo de vira-latas.
A expressão foi criada por Nelson Rodrigues para falar da nossa inferioridade psicológica diante do estrangeiro. Temos, muitas vezes, a necessidade de acreditar que aquilo que vem de fora é melhor — mais sofisticado, mais competente, mais importante. Mas existe também o movimento contrário, talvez igualmente revelador: quando um brasileiro faz sucesso lá fora, imediatamente o reivindicamos.
O sujeito nasce no Brasil, vai embora ainda criança, estuda em Harvard, participa da criação do Facebook, constrói sua fortuna nos Estados Unidos, muda-se para Singapura, renuncia à cidadania americana e passa a investir pelo mundo.
E nós dizemos: "Vejam o brasileiro!"
É curioso.
Não estou dizendo que Saverin não seja brasileiro. Juridicamente, nasceu brasileiro e continua sendo brasileiro. Mas talvez haja uma diferença entre nacionalidade e pertencimento.
A nacionalidade pode estar registrada num documento. O pertencimento é uma coisa muito mais complicada.
O que me parece interessante é perceber como nós, brasileiros, gostamos de incorporar ao nosso currículo nacional aqueles que venceram no exterior. É como se o sucesso obtido longe daqui funcionasse como uma espécie de certificado de qualidade que pudéssemos exibir.
"É brasileiro!"
Como se disséssemos: vejam, nós também produzimos gente capaz de chegar lá.
Mas há uma ironia ainda maior.
Saverin não está comprando o Liverpool sozinho. Está participando de um consórcio que reúne alguns dos maiores capitais do mundo, entre eles Jeff Bezos. O Brasil não está comprando o Liverpool. Um homem nascido no Brasil está investindo no futebol inglês com dinheiro construído numa trajetória essencialmente internacional.
Talvez seja justamente aí que a história fique interessante.
O mundo mudou. O dinheiro atravessa fronteiras com uma facilidade que nossos sentimentos de pertencimento ainda não conseguem acompanhar.
Um homem pode nascer brasileiro, tornar-se americano, viver em Singapura e comprar parte de um clube inglês.
E nós ainda precisamos perguntar:
"Mas ele é brasileiro?"
Talvez o nosso complexo de vira-latas tenha mudado de forma.
Antes, olhávamos para o estrangeiro e dizíamos: eles são melhores que nós.
Agora, quando um dos nossos vence lá fora, corremos para dizer:
"Ele é nosso."
No fundo, talvez ainda estejamos procurando, no sucesso dos outros, uma maneira de acreditar um pouco mais em nós mesmos.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

IN DUBIO PRO REO

 
Nada sabemos do futuro
Pouco sabemos do passado
Mesmo o presente – tão claro! –
Pode se apresentar escuro
Confuso, estranho, nublado
 
Fazendo-nos crer que o dito
Em tempo distante, esquecido
Possa ainda ser veredito
Para hoje nos condenar

Sem pensar que o que foi dito
Pode hoje ser desdito
Pois o que hoje é feio
Já foi um dia bonito
 
Que a eternidade por uns pretendida
Não teve nem tem garantia
De permanecer imutável
Em mente para sempre mutante
Mutável, fluida – enguia
 
Disse um amigo uma vez
Que não podemos julgar o passado
Com nossos olhos de presente

Que condenar, rejeitar o pretérito
Ainda que seja imperfeito
É esquecer que seremos julgados
Por quem estiver no futuro
E que essa é a única, eterna certeza
 
Quem fica propenso a julgar
Ignora ou não quer aceitar
Que o passado é apenas pretérito
Não adianta tentar alterar

E que só é possível mudar
O presente, só o presente,
Somente.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O QUERERES – CAETANO VELOSO

Minha reverência de hoje, extremamente respeitosa, é para Caetano Veloso. Embora já tenha pisado em algumas bolas (não é o que vocês estão pensando!) ao longo da vida – como no caso da associação “Procure Saber”, que tentou impedir a divulgação não autorizada de biografias –, é um sujeito indiscutivelmente genial.
 
Nem tudo o que ele já fez me agrada, pois sua obra é complexa, culta e sofisticada. Seu domínio vocabular é absoluto! Não tenho ferramental adequado para entender tudo o que ele faz (aliás, mesmo que tivesse, nem sei se teria interesse nisso). Algumas coisas eu gosto; outras, não. Simples assim.
 
Mas a letra desta música é absurdamente bonita e sofisticada. E o motivo de eu querer publicar esta maravilha é a enorme semelhança entre o que ele canta e o que rola – ou deixa de rolar – nos relacionamentos afetivos da terceira idade, quando a paixão já não reina soberana e precisa disputar espaço com todo o resto que a vida acumulou. 

Que pena, não?

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim




quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O PRESENTE

 
Pai é uma palavra tão pequena, mas que você me mostrou que pode ser gigante, carregada de significados e sentimentos.
 
Você já me disse várias vezes que não foi um bom pai, que foi um pai ausente. Eu só tenho que discordar, pois você me ensinou a ser pai: um pai carinhoso e sem medo de expressar seus sentimentos.
 
Um pai que me mostrou várias coisas, algumas das quais me interessam hoje. Você me ensinou a curiosidade pelo mundo.
 
Eu sei que você vai discordar de tudo escrito até agora, mas as várias conversas sobre os assuntos mais variados que já tivemos dizem o contrário.
 
Você falou (escreveu) que, neste Dia dos Pais, você não me daria presentes — você sempre diz isso — e que, dessa vez, você daria o presente.
 
O presente que eu quero é você presente (o máximo de tempo possível) e ser mais presente também na sua vida.
 
Posso não saber, mas imagino como você está nesses últimos oito meses, imagino como se sente, em luto e em luta.
 
Hoje entendi a questão do luto da mamãe pelo vovô, quando, um dia, em vez de ir ao cemitério, vocês foram tomar sorvete (se não me engano).
 
O luto não é apenas tristeza e dor. É conseguir entender, sentir que é possível seguir em frente apesar da ausência física.
 
Eu te falei que meu luto seria trabalhado em poesias. Segue a última, que eu não te mandei, pois ainda não estava no papel:
 
"Quando a ausência se torna presente,
a presença se ausencia".
 
Como escrevi antes, espero que sua presença como meu pai ainda dure muitos anos.
 
E espero, e me esforço, para que a Felicidade não se ausente de sua vida.
 
Obrigado por tudo.
 
E, como você diz, te contar um segredo:
 
eu te amo!
 
Bê 11/08/26

terça-feira, 11 de agosto de 2026

EXIBIDO!

 
Olhaí, pessoal. Os cento e trinta e poucos poemas que eu publiquei ao longo do tempo neste blog desconjuntado acabaram sendo reunidos, selecionados e lançados na Amazon sob a forma de e-book, graças à mentoria inicial e apoio do Fabiano Caldeira, imperador absoluto do blog Fabiano Café Gay.
 
Mas o que deveria ser apenas uma publicação, acabou se transformando em dois, três, quatro e sei lá mais quantos e-books. O material era o mesmo, apenas a finalidade mudava.
 
Recentemente, ao ver minha vida e coração revirados por uma pessoa especialíssima, comecei a escrever poemas de amor e de inquietação, bem no estilo neurótico-apaixonado e instável que caracteriza e define meu estado mental.
 
Pois bem, nada mais natural que surgisse também o desejo de que ela lesse os poemas jotabélicos anteriores à sua ressurreição e também aqueles que inspirou. Mas ler a versão e-book é mais chato (para mim, pelo menos).
 
 Por isso, resolvi fazer um livro impresso para dar a ela, a musa inspiradora desse desejo (de outros também). Depois de uma seleção rigorosíssima da tralha toda, selecionei 111 poemas. Mas deu trabalho, como deu trabalho!  Aliás, trabalho e briga com a Amazon, motivada por eu querer utilizar uma capa criada pelo ChatGPT. Para encurtar a conversa, perdi a briga e fui obrigado a usar o criador de capa do KDP.
 
Computados mortos e feridos, medicados e suturado os ferimentos, o livro impresso foi  finalmente aprovado pela Amazon. E é essa belezura que exibo para vocês (sou muito exibido, quase um exibicionista). O título adotado é "OLHOS DE SOL NASCENTE: Seleção Afetiva de Poemas". Por que "olhos de sol nascente"? A explicação para esse título está no corpo do livro. Mas ninguém precisa comprar, pois sai caro pra burro (frete dos EUA para cá, etc.).


segunda-feira, 10 de agosto de 2026

DOCA SECA

 
Não sou nem quero ser porto seguro
Para ninguém, nunca fui.
Porto seguro pede mar, rio, lagoa
E por mais que isso me doa
Preciso dizer que sou, sempre fui
Inseguro, cais flutuante para quem
Quis, quer ou quiser em mim se atracar.
Cais que flutua no seco, não na água
Que não sabe dizer o que é mar
Pois a única coisa que sabe fazer
Que lembra um pouco a palavra
É amar. Sem medida, freio ou receio
E isso pode fazer muito mal.
Para mim, para alguém ou ninguém...

GUARDAR - ANTÔNIO CÍCERO

  Antônio Cícero foi um grande poeta, filósofo, letrista e membro da Academia Brasileira de Letras. Era irmão da cantora e compositora Marin...