sábado, 10 de outubro de 2026

DA ESTUPIDEZ – DIETRICH BONHOEFFER


 
Assisti no Instagram a um vídeo interessantíssimo com a leitura de um texto do pastor luterano e teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer. Não sei se que acessa o blog conseguirá conectar-se com este link. Em todo caso, é este: 
https://www.instagram.com/reel/DeEbduPucQE/?xtok=MWFvaHoyeTJidWthYg==ão
 
Bonhoeffer era um ferrenho opositor do nazismo e chegou a participar de uma tentativa de assassinar Hitler. Por causa de sua resistência ao regime, acabou preso e enviado para um campo de concentração, onde foi executado apenas uma semana antes da libertação do campo pelas tropas soviéticas. Baita sacanagem, concordam?
 
O texto que foi transformado em vídeo é este. Tão lúcido e tão atual que não resisti a procurá-lo para publicá-lo no Blogson. Espero que gostem e, sobretudo, que reflitam sobre o que Bonhoeffer escreveu.
 
A estupidez é mais perigosa que a maldade. Contra o mal se pode protestar; o mal pode ser exposto, revelado; pode também ser evitado, se necessário, até pela força; o mal sempre carrega o germe da autodecomposição, deixando pelo menos um desconforto naquele que o pratica. Diversamente, não há como se defender da estupidez. Nada pode ser feito aqui com protestos ou com violência; razões não a convencem; simplesmente não se dá crédito a fatos que contradigam o próprio preconceito – em tais casos, o estúpido se torna ainda mais resistente – e se esses fatos são incontestáveis, podem com facilidade ser postos de lado como casos isolados e sem sentido.
 
O estúpido, ao contrário da pessoa má, sente-se completamente satisfeito consigo mesmo; sim, ele até se torna perigoso, enfurecendo-se facilmente quando é refutado. Portanto, a relação com o estúpido exige muito mais cautela do que com a pessoa má. Nunca se há de convencer o estúpido pela razão – é inútil e perigoso. Para saber lidar com a estupidez, é preciso antes procurar entender sua natureza. Não se trata essencialmente de um defeito intelectual, mas algo que atinge a humanidade do sujeito. Tanto é assim que existem pessoas de inteligência extraordinariamente ágil que são estúpidas e pessoas intelectualmente pesadas que podem ser tudo, menos estúpidas.
 
Para nossa surpresa, chegamos à seguinte conclusão: parece que a estupidez não é propriamente um defeito congênito, mas um processo em que as pessoas se tornam estúpidas sob certas circunstâncias, ou deixam-se fazer estúpidas de forma recíproca. Também observamos que a estupidez aparece mais em pessoas ou grupos propensos ou condenados a viver em comum do que em pessoas mais fechadas, reservadas e solitárias. Assim, parece que a estupidez é um problema mais sociológico do que psicológico. É uma forma especial de influência das circunstâncias históricas sobre o homem, isto é, uma consequência psicológica de certas circunstâncias externas. Em uma análise mais detalhada, verifica-se que toda forte expansão externa do poder, seja política ou religiosa, golpeia um grande número de pessoas com estupidez. Sim, parece que é uma lei psicológica e sociológica. O poder de alguém precisa da estupidez de outrem.
 
O processo não é que, de repente, algumas faculdades – como a intelectual – definhem ou fracassem, mas sim que a independência interna da pessoa vai sendo roubada pela impressão esmagadora do desenvolvimento do poder, até que - mais ou menos inconscientemente – essa pessoa renuncia a encontrar seu próprio comportamento em relação às situações que a vida lhe apresenta.
 
O fato de o estúpido ser muitas vezes teimoso não significa que ele seja independente. Conversando com ele, você quase pode sentir que seu discurso nem sequer tem a ver com ele mesmo, com aquilo que o constitui. Trata-se de frases de efeito, slogans e chavões que se apoderaram dele. Ele está enfeitiçado, cego, abusado e maltratado em sua própria natureza. Tornando-se assim um instrumento sem vontade própria, o estúpido será capaz de todo o mal e, ao mesmo tempo, incapaz de reconhecer-se mau ou de reconhecer maldade em seus atos. Aqui está o perigo de um abuso diabólico. Como resultado, as pessoas serão destruídas para sempre.
 
Disso decorre que somente um ato de liberação – e não um ato de instrução – poderá superar a estupidez. Na grande maioria dos casos, para superar a estupidez, a pessoa terá de aceitar que uma genuína libertação interior só se tornará possível após a libertação externa; até então, sem essa condição, teremos que desistir de todas as tentativas de convencer os estúpidos. A propósito, nesse estado de coisas, fica bem claro que em tais circunstâncias é vão tentar saber o que "o povo" realmente pensa, mesmo porque, ao mesmo tempo - nessas dadas circunstâncias – qualquer resposta seria supérflua para o pensador e realizador responsável.
 
A Palavra da Bíblia que diz que o temor de Deus é o começo da sabedoria (Salmos 111: 1); diz que a liberação interior dos humanos, para uma vida responsável diante de Deus, é a única verdadeira superação da estupidez.
 
De resto, esses pensamentos sobre a estupidez são reconfortantes, pois não permitem tratar a maioria das pessoas como estúpidas a todo custo. Realmente, isso dependerá da tendência dos Poderes Instituídos, vale dizer, se querem tornar seu povo estúpido ou se buscam a independência interior e sabedoria de seus governados.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

AH, É? VIDA BARATA NÃO PRESTA? SEI...

Às vezes eu penso em uma charge e peço para o ChatGPT criar o desenho imaginado. Duro é ser atendido! Depois de ouvir uma frase tristemente sarcástica e socialmente incorreta, resolvi pedir ajuda ao ChatGPT para criar uma charge com ela, só para criticar essa visão tristemente elitista. E o prompt inicial foi este:
 
“Criar uma charge satírica em estilo cartoon de jornal, em preto e branco com hachuras e traço de nanquim marcante. A cena se passa durante o dia, sob a luz do sol em uma calçada urbana movimentada. Dois homens pobres, vestidos com roupas velhas, estão de pé conversando. Eles olham com expressões irônicas para um morador de rua deitado sobre uma grande folha de papelão estendida no chão. Um balão de fala clássico de quadrinhos sai da boca de um dos homens de pé, contendo o texto: Tem vida mais barata, mas não presta não".
 
Mas a merdinha da IA simplesmente ignorou o prompt e criou o desenho que quis. Aliás, acabou fazendo três. No primeiro parecia ser o mendigo quem estava falando, todo feliz da vida. Pedi para gerar outro desenho e saiu mais um aquém das expectativas. Já irritado, explicitei mais um pouco o prompt, pedi para deixar o mendigo sem sapatos e saiu uma terceira imagem. Aí resolvi mostrar os três desenhos, mesmo sabendo que explicar uma piada é uma das piores coisas que existem.

Eu sei que existe muita gente que não entende uma piada, mas uma inteligência artificial precisaria entender, para não sair invadindo sites e fazendo merda.

Primeira versão:


Segunda versão:


Última tentativa:






quinta-feira, 8 de outubro de 2026

A TAL DA DEMOCRACIA – JEAN GARFUNKEL

 
Assisti no Instagram a um vídeo em que o poeta, cantor e compositor Jean Garfunkel declama seu excelente poema “A tal da democracia”. Copiei o link e espero que os leitores do blog consigam assisti-lo também – e, sobretudo, que curtam sua mensagem bem-humorada.

Por via das dúvidas, segue abaixo o texto escrito.

https://www.instagram.com/reel/Dc_ePzIReP2/?utm_source=ig_web_copy_link&stkn=NTc4MTIwNjQ2YQ
 
A TAL DA DEMOCRACIA
 
A tal da democracia, a despeito de seus custos,
ainda é o modo mais certo, ainda é o jeito mais justo.
 
Quanto ao resto não discuto, não defendo o indefensável,
todo o sistema é corrupto, toda economia é frágil –
os argumentos contábeis, os álibis da tirania
são sempre desfavoráveis  à tal da democracia.
 
Ditadura dá mais lucro, isso é fato consumado:
“Vamos calar os escrúpulos e ouvir a voz do mercado”.
 
Os ricos ficam mais ricos e os pobres espoliados,
e o país paga esse mico de regressar ao passado.
 
A tal da democracia, por mais frágil e combalida,
é a voz da maioria decidindo a própria vida.
 
A tal da democracia, que não pode se abater,
é o peso do contrapeso na balança do poder.
 
Viva a tal da democracia, a democracia é a tal.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

AGRADECIMENTO

Não vou fazer segredo nem suspense. Este é um post para agradecer publicamente as palavras preocupadas e carinhosas que amigos e amigas virtuais deixaram nos comentários do poema "Limite" que publiquei recentemente.
 
Ler um comentário – qualquer comentário – sobre alguma publicação que faço é sempre um prazer, ainda mais quando ele demonstra carinho e preocupação comigo. E foi isso que aconteceu. Por isso, resolvi tranquilizar a todos, deixando claro o seguinte:
 
Não escrevo poemas quando estou alegre. Todos os “poemas” que publico são fruto da tristeza, da melancolia, da raiva ou da depressão que estiver sentindo no momento. Também servem para registrar alguma reflexão ou, simplesmente, para fazer declarações de amor a alguém (idoso também se apaixona).
 
Como meu humor é um tanto bipolar, alterno facilmente de estado de espírito. Mas nem sempre publico o que escrevi logo depois de tê-lo criado. Ontem, por exemplo, estava tranquilão, pensando em pedir ao ChatGPT que criasse um cartoon a partir de uma frase que ouvi recentemente.
 
Há ainda a questão da prioridade. Assisti, no Instagram, a dois vídeos tão impactantes que corri a procurar suas versões escritas, só para publicá-las no blog. Quando isso acontece, sinto-me obrigado – ou tentado – a deixar para depois aquilo que é de minha autoria.
 
Por isso, pessoal, hoje estou bem e agradecido pelo carinho recebido. Sintam-se abraçados e beijados carinhosamente – claro, beijados de forma seletiva, por favor, tal como cantou Gilberto Gil: “Eu passei muito tempo aprendendo a beijar...”
 

terça-feira, 6 de outubro de 2026

LIMITE

 
O passado não está cabendo mais
dentro de mim.
 
O passado vivido
somou-se ao que não foi vivido
e ao que foi só desejado.
 
Sinto minha mente
querendo explodir
 
numa tristeza constante,
onipresente,
impossível de ser debelada,
 
como se alimentada
por um fogo eterno
que teima em queimar
e me queimar,
destruir.
 
Não precisarei ser cremado
quando morrer,
 
pois hoje já sou as cinzas
do que fui.
Ou quis um dia ser.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

ARIDEZ

 
Alguém já disse que
não há romantismo na vida real,
 
que romantismo só existe
na vida que acreditamos ser real.
 
Não sei se concordo com isso.
 
Durante toda a minha vida,
tentei viver
o romantismo escancarado,
 
dando mais valor
ao que me pedia o coração
do que aos argumentos da razão.
 
Porque a vida, para mim, não tem sentido.
 
E, se não tem mesmo nenhum,
por que aceitar
a aridez do dia a dia?
 
Tudo o que quero
é sonhar,
 
sonhar com o amor,
viver a paixão,
 
e que essa paixão,
 
mesmo no indesejado,
no temido momento binário,
 
seja tão intensa
e alucinada
quanto as que vivi
na minha juventude.

 

domingo, 4 de outubro de 2026

CONTRASTES - LUIS MELODIA


 
Hoje é dia de eleição em todo o Brasil. Por ser idoso, sinto-me desobrigado de votar. E não votarei, pois meu desencanto pelos políticos e demais autoridades chegou ao nível máximo. Deixo apenas o pensamento que me ocorreu: O povo brasileiro elegerá o candidato que merece ter como próximo governante. Por isso, lembrei-me uma música antiga para ser tema do dia de hoje.
 
Existe muita tristeza
Na Rua da Alegria
Existe muita desordem
Na Rua da Harmonia
 
Analisando essa história
Cada vez mais me embaraço
Quanto mais longe do circo
Mais eu encontro palhaço
 
Cada vez mais me embaraço
Analisando essa história
Existe muito fracasso
Dentro do Largo da Glória

DA ESTUPIDEZ – DIETRICH BONHOEFFER

  Assisti no Instagram a um vídeo interessantíssimo com a leitura de um texto do pastor luterano e teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer. Não s...