Vamos começar pelo
básico: Carlos Drummond de Andrade(1902–1987) foi um dos maiores poetas, cronistas e
escritores do Brasil, sendo figura central da segunda geração do Modernismo
brasileiro. Era também
profundamente tímido e, por fora, aparentava ser um homem muito sério. A
timidez e a introversão eram marcas registradas da sua personalidade; ele
próprio se definia como um "urso polar" e usava o seu jeito reservado
para se proteger dos holofotes e do assédio da imprensa. Estamos indo bem,
por enquanto. A
esposa de Carlos Drummond de Andrade, Dolores Dutra de Morais, faleceu no dia 2
de julho de 1994, na cidade do Rio de Janeiro. Ela sobreviveu ao marido por
quase sete anos, já que o poeta faleceu em agosto de 1987, pouco tempo depois
da trágica perda da única filha do casal, Maria Julieta. Dolores e Drummond
foram casados por 62 anos, tendo oficializado a união em 30 de maio de 1925. OK. Estas informações foram copiadas da
internet, mesmo que eu não me lembre de onde as encontrei. Agora o caldo entorna um pouco. Carlos Drummond de Andrade teve uma relação extraconjugal
de longa data com Lygia Fernandes, bibliotecária do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional. Tempo de relação: Eles se conheceram em 1951 e mantiveram
um relacionamento secreto por cerca de 36 anos. Muito bom! Drummond tinha 49 anos quando
conheceu Lygia Fernandes, que era 25 anos mais jovem que ele. Ela começou a
trabalhar com o poeta no Ministério da Educação e Cultura, e os dois engataram
um romance que se estendeu até os últimos dias de vida do escritor. Segundo relatos e crônicas biográficas,
Drummond faleceu em 17 de agosto de 1987, segurando a mão da amante. Para ela,
em 1951, ele escreveu e publicou o poema “Campo
das Flores”, que traz esta estrofe inicial: Deus me
deu um amor no tempo de madureza, quando
os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme. Deus –
ou foi talvez o Diabo – deu-me este amor maduro, e a um
e outro agradeço, pois que tenho um amor. Sinceramente acho comovente ele ter vivido
esse amor clandestino por tanto tempo, sinal de que viveu feliz e apaixonado
até os 85 anos. Mas há uma particularidade nessa love story da terceira idade
que talvez muita gente desconheça: movido por esse relacionamento, o poeta
itabirano escreveu 40 poemas eróticos, só reunidos no livro “O Amor Natural” após sua morte. O motivo dessa decisão pode ter sido o medo
de julgamentos e escândalo: O poeta temia
que os versos fossem mal interpretados pelo público ou que manchasse sua imagem
pública consolidada. Pouco importa. O que importa para mim é que a maioria não me
agradou. E nem se trata de moralismo. Erotismo por erotismo, o poema satírico
“O Elixir do Pajé” do Bernardo Guimarães é bem mais interessante. Mas transcrevo três dos que me agradaram
mais, uma seleção mais bem comportada, digamos assim. Lêaí:
OH MINHA SENHORA
MINHA SENHORA
Oh minha senhora ó
minha senhora oh não se
incomode senhora
minha
não faça isso eu lhe
peço eu lhe suplico por Deus
nosso redentor minha
senhora não dê
importância a um simples mortal
vagabundo como eu que
nem mereço a glória
de quanto mais de... não não não
minha senhora não
me desabotoe a
braguilha não precisa também se
despir o que é isso é
verdadeiramente fora
de normas
e eu não estou
absolutamente preparado
para semelhante
emoção ou comoção sei lá minha
senhora nem sei mais
o
que digo eu disse
alguma coisa? sinto-me sem
palavras sem fôlego
sem
saliva para molhar a
língua e ensaiar um discurso
coerente na linha do
desejo sinto-me
desamparado do Divino Espírito Santo
minha senhora eu
eu eu ó minha senh...
esses seios são seus ou é uma
aparição e esses
pelos essas nád...
tanta nudez me deixa naufragado
me mata me pulveriza
louvado bendito seja
Deus é o fim do mundo
desabando no meu fim
eu eu
NÃO QUERO SER O
ÚLTIMO A COMER-TE
Não quero ser o
último a comer-te.
Se em tempo não
ousei, agora é tarde.
Nem sopra a flama
antiga nem beber-te
aplacaria sede que
não arde
em minha boca seca de
querer-te,
de desejar-te tanto e
sem alarde,
fome que não sofria
padecer-te
assim pasto de
tantos, e eu covarde
a esperar que
limpasse toda a gala
que por teu corpo e
alma ainda resvala,
e chegasses, intata,
renascida,
para travar comigo a
luta extrema
que fizesse de toda a
nossa vida
um chamejante,
universal poema
A MOÇA MOSTRAVA A
COXA
A moça mostrava a
coxa
a moça mostrava a
nádega,
só não me mostrava
aquilo
— concha, berilo,
esmeralda —
que se entreabre,
quatrifólio,
e encerra o gozo mais
lauto,
aquela zona
hiperbórea,
misto de mel e de
asfalto,
porta hermética nos
gonzos
de zonzos sentidos
presos,
ara sem sangue de
ofícios,
a moça não me
mostrava.
E torturando-me,
e virgem no
desvairado recato
que sucedia de chofre
à visão dos seios
claros,
sua pulcra rosa preta
como que se
enovelava,
crespa, intata,
inacessível,
abre-que-fecha-que-foge,
e a fêmea, rindo,
negava
o que eu tanto lhe
pedia,
o que devia ser dado
e mais que dado,
comido.
Ai, que a moça me
matava
tornando-me assim a
vida
esperança consumida.
no que, sombrio,
faiscava.
Roçava-lhe a perna.
Os dedos
descobriam-lhe
segredos
lentos, curvos,
animais,
porém o máximo
arcano,
o todo esquivo,
noturno,
a tríplice chave de
urna,
essa a louca
sonegava,
não me daria nem
nada.
Antes nunca me
acenasse.
Viver não tinha
propósito,
andar perdera o
sentido,
o tempo não desatava
nem vinha a morte
render-me
ao luzir da
estrela-d'alva,
que nessa hora já
primeira,
violento, subia o
enjoo
de fera presa no Zoo.
Como lhe sabia a
pele,
em seu côncavo e
convexo,
em seu poro, em seu dourado
pelo de ventre mas
sexo
era segredo de
Estado.
Como a carne lhe
sabia
a campo frio,
orvalhado,
onde uma cobra
desperta
vai traçando seu
desenho
num frêmito, lado a
lado!
mas que perfume teria
a gruta invisa? Que
visgo,
que estreitura, que doçume,
que linha prítina,
pura,
me chamava, me
fugia??
Tudo a bela me
ofertava,
e que eu beijasse ou
mordesse,
fizesse sangue:
fazia.
Mas seu púbis
recusava.
Na noite acesa, no
dia,
sua coxa se cerrava.
Na praia, na
ventania,
quanto mais eu insistia,
sua coxa se apertava.
Na mais erma
hospedaria
fechada por dentro a
aldrava,
sua coxa se selava,
se encerrava, se
salvava,
e quem disse que eu
podia
fazer dela minha
escrava?
De tanto esperar,
porfia
sem vislumbre de
vitória,
já seu corpo se
delia,
já se empana sua
glória,
já sou diverso
daquele
que por dentro se
rasgava,
e não sei agora ao
certo
se minha sede mais
brava
era nela que pousava.
Outras fontes, outras
fomes,
outros flancos: vasto
mundo,
e o esquecimento no
fundo.
Talvez que a moça
hoje em dia...
Talvez. O certo é que
nunca.
E se tanto se furtara
com tais fugas e
arabescos
e tão surda teimosia,
por que hoje se
abriria?
Por que viria
ofertar-me
quando a noite já vai
fria,
sua nívea rosa preta
nunca por mim visitada,
inacessível naveta?
Ou nem teria
naveta...
E se alguém quiser conhecer os demais, é possível baixar o livro na internet no formato pdf. Só não me lembro onde consegui. Mas deixo esta frase do Drummond, para fechar este post:
"A última coisa que desaparece no homem é o erótico".
Podem
até me criticar por eu ser tão romântico assim mas não
consigo entender que me critiquem sem saber o que
há dentro de mim Dentro
de mim existe algo que falta a quem me critica, que só
pode ser encontrado quando se está apaixonado, Que só
as crianças possuem: A
inocência de um amor suave e explosivo, difícil de ser contido, mais
ainda de ser entendido. Que um
idoso pode dizer em sua própria defesa? Que a
paixão foi reacesa e é limpa, pura, ardente, Como a
de um garoto adolescente. Talvez
por isso os versos que escrevo lembrem
rascunhos em cadernos escolares, rimando
sem pudor infantil com pueril E é
isso que realmente são – infantis, pueris, pois
traduzem pensamentos imaturos – mas
encharcados de amor e desejo Desprezando
a idade que tenho Sem
vergonha, sem ter pejo De
dizer, de falar, de gritar seu
nome, mas me contenho Não
pensando em mim, mas em você Que
pode não querer se ver exposta assim Só por
isso eu digo: “Jota Bebê”, eu te amo! E
agora, se quiserem, podem me criticar
Com gosto, à vontade, pois
não me prendo à idade, só ao
que o coração mandar. E que o
fascínio sempre sentido Jamais vire
desfascínio E que
esse amor siga vivo Até
onde eu puder aguentar
Fiquei aturdido ao receber a notícia do
falecimento da minha comadre Zezé, por complicações decorrentes de uma cirurgia
de ponte de safena. Maria José (como eu a chamava) era minha amiga desde 1975,
ano em que se casou com o Tinho e foi morar na casa ao lado da nossa. Nós
também nos casamos naquele ano. Engraçada, superdesbocada, adorava minha
mulher, a quem chamava de amiga-irmã. Ficou devastada quando uma doença cruel
interrompeu essa amizade, a mesma doença que abreviou a vida de seu amado
Tinho, o médico Dr. Wilton. Nossa relação era tão próxima que Zezé e
Tinho foram padrinhos de batismo de nosso terceiro filho. Anos depois, já
viúva, foi convidada para ser madrinha de uma das gêmeas de outro filho nosso.
De vez em quando, ligava dizendo estar com saudade de nós, de mim. E conversava
durante duas horas ou mais, sem se preocupar com o tempo ou o horário. Agora, não haverá mais telefonemas, nem
aquelas conversas intermináveis. É estranho pensar que alguém que fez parte de
nossas vidas durante tantos anos simplesmente deixa de estar ao alcance.
Sabemos que a pessoa morreu, mas há uma sensação de estranhamento por não poder
mais ouvi-la, contar-lhe alguma coisa, saber das novidades. A vida continua,
mas uma parte dela já não pode ser compartilhada com quem sempre esteve ali. Conheço bem essa sensação. Desde a morte de
minha amada Lily, ela me visita nos momentos mais banais: ao olhar uma
fotografia antiga, procurar algum objeto ou tentar preparar algum alimento
minimamente comestível. De repente, sinto a presença-ausência de quem
compartilhou comigo uma história de 55 anos. É quando a realidade da perda se
impõe, não como uma grande tragédia, mas como a impossibilidade miúda e
definitiva de continuar vivendo certas coisas juntos. Lembro-me, então, de um verso lindo escrito
por Ronaldo Bastos e cantado por Beto Guedes, numa música feita em homenagem a
Elis Regina, que havia morrido pouco antes: “Dói de tanto medir a distância, saber
que não vou te tocar além da lembrança”. Talvez seja essa a maior estranheza da morte:
a pessoa continua tão presente em nossa memória, tão misturada à nossa
história, que custamos a aceitar que não esteja mais aqui. E, no entanto, não
está. O que antes era convivência agora é só lembrança, e a lembrança, por mais
viva que seja, não atende ao telefone. Mesmo sem acreditar em vida depois da morte,
gosto de imaginar que Zezé e minha mulher devem agora estar tomando uma cerveja
e atualizando a conversa. E têm toda a eternidade para colocar a prosa em dia. Escutaí a música.
Alguns pensamentos, provocados por frases que
leio ou ouço, demoram a me abandonar. A mais recente é: “Existe vida mais
barata, mas não presta não”.
Lembrei-me, então, de uma música gravada em
1954, cuja letra ironiza o esnobismo e a futilidade da elite social e econômica
do Rio de Janeiro — uma sátira que combina com a frase que me ficou na cabeça.
Como a letra faz referências a personalidades
daquela época, resolvi “traduzi-la” para os leitores de hoje.
Doutor
de anedota e de champanhota Estou
acontecendo no café soçaite Só digo
enchanté, muito merci, all right Troquei
a luz do dia pela luz da Light Agora
estou somente contra a Dama de Preto Nos dez
mais elegantes, eu estou também Adoro
Riverside, só pesco em Cabo Frio Decididamente,
eu sou gente bem Enquanto
a plebe rude na cidade dorme Eu ando
com o Jacinto, que é também de Thormes Terezas
e Dolores, falam bem de mim Eu sou até
citado na coluna do Ibrahim E
quando alguém pergunta: como é que pode? Papai
de Black-tie, jantando com o Didu Eu peço
mais um whisky embora esteja pronto Como é
que pode? Depois eu conto
Café Soçaite: corruptela de Café Society,
expressão que designava a alta sociedade, formada por milionários,
aristocratas, celebridades, artistas e boêmios.
Ibrahim: Ibrahim Sued, jornalista e colunista
social, um dos principais nomes do colunismo social brasileiro. Ficou conhecido
também pelas gafes, muitas vezes aparentemente propositais, no rádio e na
televisão.
Dama de Preto: personagem criada por Ibrahim
Sued para fazer críticas anônimas e mordazes à sociedade carioca.
Jacinto de Thormes: pseudônimo de Maneco
Müller, jornalista, cronista esportivo e pioneiro do colunismo social no
Brasil.
Thereza e Dolores: Thereza de Souza Campos e
Dolores Guinle, duas figuras conhecidas da alta sociedade carioca.
Didu: apelido de Carlos Eduardo de Souza
Campos, banqueiro e personagem destacado da sociedade carioca. Foi casado com
Thereza de Souza Campos.
Pronto: gíria antiga
para designar quem estava sem dinheiro.
Ontem, ouvindo meu filho tocar Beatles no
trompete Revivi
emoções já sentidas antes, Talvez modificadas pela passagem do tempo. Senti saudade de um tempo há muito vivido. Pensando bem, senti saudade de mim, De quando não sentia saudade de nada nem de
ninguém. E tudo o que eu queria era cantar músicas dos
Beatles. E tudo o que acontecia era estar apaixonado
por alguém. E tudo o que eu desejava era que alguém se
apaixonasse por mim Ao me ouvir cantar “If I Fell in Love with
You” Ou outra balada romântica da banda. Hoje, meu violão não soa bem e eu Esqueci as letras que gostava de cantar.
A mensagem “Tem vida mais barata, mas não presta, não!” teria sido enviada por
um dono de cartório a um amigo. Mas caiu na rede, viralizou e até virou letra
de música. Eu não a conhecia – até uma mulher muito rica tê-la dito para mim
com um sorriso malicioso no rosto lindo. Claro que era uma ironia, embora revelasse
uma maneira de pensar que não é exclusiva de quem a enunciou. Minha reação foi de
perplexidade, pois por trás da ironia, enxerguei um sarcasmo cruel, revelador
de uma visão elitista e deslumbrada da vida. Incomodado, pedi a uma IA uma
análise sociológica da frase. Eis o resultado: “A
expressão popular ‘tem vida mais barata, mas não presta, não’ reflete um
cruzamento entre a cultura da ostentação, o hedonismo e a mercantilização do
status social na sociedade contemporânea. Do ponto de vista sociológico, a
frase sintetiza a ideia de que a dignidade, a felicidade e o bem-estar são
equiparados ao poder de consumo . Em
contraposição, a qualidade de vida deixa de ser medida pelo tempo livre, pela
paz de espírito ou pelas relações afetivas, e passa a ser validada por gastos
materiais — camarotes open bar, iates, carros importados e festas. Ao
afirmar que a vida mais barata ‘não presta’, o discurso descarta as formas de
existência que escapam ao ciclo de acumulação e exibição de riquezas,
estigmatizando a simplicidade como sinônimo de fracasso ou tédio. O
estilo de vida defendido nessa máxima aposta no prazer imediato e efêmero.
Frases como essa também são apropriadas ironicamente por elites ou grupos
privilegiados para naturalizar desigualdades, como quem diz que manter um
padrão excludente e caro é a única forma ‘civilizada’ de existir, ignorando que
a ‘vida barata’ é a realidade compulsória da maioria da população”. E é aí que entra outra ironia: afinal, o que
é uma vida barata? Para Elon Musk, trilionário, talvez seja a de quem dispõe de
apenas alguns bilhões e nem aparece nas listas da Forbes. Para o
assalariado que chega ao fim do mês sem dinheiro, talvez seja a de quem depende
do Bolsa-Família. Foi o que me ocorreu ao ouvir aquela frase,
dita com um sorriso por uma mulher linda. Porque, feitas as contas e comparada
com a sua, a minha vida talvez seja uma dessas vidas baratas que, segundo ela,
não prestam.
Se ela realmente enxerga a vida dessa
maneira, onde eu me encaixo na sua escala de valores?