Já publiquei aqui no blog coletâneas de frases, pensamentos e aforismos criados por muitas pessoas. E gosto de fazer isso pela beleza das palavras e pensamentos tão bem ordenados, por ser uma homenagem a quem as criou, por serem uma prova da inteligência e lucidez de seus criadores. E a nova contribuição são frases sintéticas ou trechos de textos maiores escritos pela Clarice Lispector. Tudo muito lindo, reflexivo e sempre emocionante. Lêaí.
- Sim, minha força está na solidão. Não
tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu
também sou o escuro da noite.
- Estou sendo alegre neste mesmo
instante porque me recuso a ser vencida: então eu amo. Como resposta.
- A trajetória somos nós mesmos. Em
matéria de viver, nunca se pode chegar antes.
- É difícil perder-se. É tão difícil
que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me
seja de novo a mentira de que vivo.
- A invenção do hoje é o meu único meio
de instaurar o futuro.
- Repito por pura alegria de viver: a
salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!
- Por que é que as coisas um instante
antes de acontecerem parecem já ter acontecido? É uma questão de simultaneidade
de tempo.
- Estou cansada. Meu cansaço vem muito
porque sou uma pessoa extremamente ocupada: tomo conta do mundo.
- Eu sou mansa, mas minha função de
viver é feroz.
- O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a
perfeição.
- Entender é sempre limitado. Mas não
entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não
entendo.
- Perder-se também é caminho.
- Eu amo a minha cruz, a que doloridamente
carrego. É o mínimo que posso fazer de minha vida: aceitar comiseravelmente o
sacrifício da noite.
- Liberdade é pouco. O que eu desejo
ainda não tem nome.
- Não quero ter a terrível limitação de
quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade
inventada.
- Porque eu fazia do amor um cálculo
matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia
que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente.
- Uma das coisas que aprendi é que se
deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar
de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos
empurra para a frente.
- Amar os outros é a única salvação
individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber
amor em troca.
- O que importa afinal, viver ou saber
que se está vivendo?
- E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço.
- Eu sou nostálgica demais, pareço ter
perdido alguma coisa não se sabe onde e quando.
- A alegria verdadeira não tem
explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida – e se parece
com o início de uma perdição irrecuperável.
- Gosto de um modo carinhoso do
inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai
sem graça no chão.
- Fique de vez em quando só, senão você
será submergido. Até o amor excessivo dos outros pode submergir uma pessoa.
- E o que o ser humano mais aspira é
tornar-se ser humano.
- Ter nascido me estragou a saúde.
- O amor é tão mais fatal do que eu
havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos
garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está,
está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão.
- O que me mata é o cotidiano. Eu
queria só exceções.
- Sou um ser concomitante: reúno em mim
o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos
relógios.
- Eu tenho que ser minha amiga, senão
não aguento a solidão.
- Abandone-se, tente tudo suavemente,
não se esforce por conseguir - esqueça completamente o que aconteceu e tudo
voltará com naturalidade
- A minha vida a mais verdadeira é
irreconhecível, extremamente interior, e não há uma palavra que a signifique.
- Até cortar os próprios defeitos pode
ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício
inteiro.
- Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe
no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver
ultrapassa qualquer entendimento.
- Às vezes, tudo que precisamos é de
uma frase certa, no momento certo.
- Que ninguém se engane, só se consegue
a simplicidade através de muito trabalho.
- A palavra é meu domínio sobre o
mundo.
- Liberdade é pouco. O que desejo ainda
não tem nome.
- Não quero ter a terrível limitação de
quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade
inventada.
- Saudade é um pouco como fome. Só
passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a
presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser
o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se
tem na vida.
- Suponho que me entender não é uma
questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...
- É curioso como não sei dizer quem
sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer,
porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que
sinto se transforma lentamente no que eu digo.
- Olhe, tenho uma alma muito prolixa e
uso poucas palavras.
- Passei a vida tentando corrigir os erros
que cometi na minha ânsia de acertar.
- Mas tenho medo do que é novo e tenho
medo de viver o que não entendo – quero sempre ter a garantia de pelo menos
estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação.
- Que minha solidão me sirva de
companhia, que eu tenha a coragem de me enfrentar. que eu saiba ficar com o
nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.
- Eu não sou tão triste assim, é que
hoje eu estou cansada.
- Enquanto eu tiver perguntas e não
houver resposta continuarei a escrever.
- Com perdão da palavra, sou um
mistério para mim.
- O que verdadeiramente somos é aquilo
que o impossível cria em nós.
- Terei toda a aparência de quem
falhou, e só eu saberei se foi a falha necessária.
- A única verdade é que vivo.
Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais.
- Nunca sei se quero descansar porque
estou realmente cansada, ou se quero descansar para desistir.
- Tenho várias caras. Uma delas é quase
bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo.
- O que eu sinto eu não ajo. O que ajo
não penso. O que penso não sinto. Do que sei sou ignorante. Do que sinto não
ignoro. Não me entendo e ajo como se me entendesse.
- Mas já que se há de escrever, que ao
menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas.
- Eu não sou promíscua. Mas sou
caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui
caleidoscopicamente registro.
- Sou um ser. E deixo que você seja.
Isso lhe assusta? Creio que sim. Mas vale a pena. Mesmo que doa. Dói só no
começo.
- Sou uma filha da natureza: quero
pegar, sentir, tocar, ser. E tudo isso já faz parte de um todo, de um mistério.
- Sou um coração batendo no mundo.
- Faça com que eu saiba ficar com o
nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.
- Por te falar eu te assustarei e te
perderei? mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia
- Que medo alegre, o de te esperar.
- Ando de um lado para outro, dentro de
mim.
- Estou bastante acostumada a estar só,
mesmo junto dos outros.
- Mas há a vida que é para ser
intensamente vivida. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem
nenhum medo. Não mata.
- Minhas desequilibradas palavras são o
luxo de meu silêncio.
- Divertir os outros é um dos modos
mais emocionantes de existir.
- Acordei hoje com tal nostalgia de ser
feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui.
Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu
tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim.
- Farei o possível para não amar demais
as pessoas, sobretudo por causa das pessoas. Às vezes o amor que se dá pesa,
quase como uma responsabilidade na pessoa que o recebe. Eu tenho essa tendência
geral para exagerar, e resolvi tentar não exigir dos outros senão o mínimo. É
uma forma de paz...
- Mas tantos defeitos tenho. Sou
inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim eu tenha.
Só que não sei usar amor: às vezes parecem farpas.
- Onde aprender a odiar para não morrer
de amor?
- Amor será dar de presente ao outro a
própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si. Amor é
quando é concedido participar um pouco mais. Amor é a grande desilusão de tudo
mais. Amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão
do que se pensava que era amor. E não é prêmio, por isso não envaidece.
- Amar não acaba. É como se o mundo
estivesse à minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.
- Sou só e tenho que viver uma certa
glória íntima que na solidão pode se tornar dor.
- Eu medito sem palavras e sobre o
nada.
- Estou cansada de tanta gente me achar
simpática. Quero os que me acham antipática porque com esses eu tenho
afinidade: tenho profunda antipatia por mim.
- Nada posso fazer: parece que há em
mim um lado infantil que não cresce jamais.
- A verdade não me faz sentido! É por
isso que eu a temia e a temo. Desamparada, eu te entrego tudo – para que faças
disso uma coisa alegre.
- O horrível dever é ir até o fim. E
sem contar com ninguém. Viver a própria realidade. Descobrir a verdade. Pois
não posso mais carregar as dores do mundo.
- Engulo a loucura porque ela me
alucina calmamente.
- Preciso aprender a não precisar de
ninguém. É difícil, porque preciso repartir com alguém o que sinto.
- A vida, meu amor, é uma grande
sedução onde tudo o que existe se seduz.
- Não se compreende música: ouve-se.
Ouve-me então com teu corpo inteiro.
- Por dentro eu sempre me persegui. Eu
me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho
uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim.
- Cada pessoa é um mundo, cada pessoa
tem sua própria chave e a dos outros nada resolve; só se olha para o mundo
alheio por distração, por interesse, por qualquer outro sentimento que
sobrenada e que não é o vital; o ‘mal de muitos’ é consolo, mas não é solução.
- Que eu não esqueça que a subida mais
escarpada, e mais à mercê dos ventos, é sorrir de alegria.