Fiquei aturdido ao receber a notícia do
falecimento da minha comadre Zezé, por complicações decorrentes de uma cirurgia
de ponte de safena. Maria José (como eu a chamava) era minha amiga desde 1975,
ano em que se casou com o Tinho e foi morar na casa ao lado da nossa. Nós
também nos casamos naquele ano. Engraçada, superdesbocada, adorava minha
mulher, a quem chamava de amiga-irmã. Ficou devastada quando uma doença cruel
interrompeu essa amizade, a mesma doença que abreviou a vida de seu amado
Tinho, o médico Dr. Wilton. Nossa relação era tão próxima que Zezé e
Tinho foram padrinhos de batismo de nosso terceiro filho. Anos depois, já
viúva, foi convidada para ser madrinha de uma das gêmeas de outro filho nosso.
De vez em quando, ligava dizendo estar com saudade de nós, de mim. E conversava
durante duas horas ou mais, sem se preocupar com o tempo ou o horário. Agora, não haverá mais telefonemas, nem
aquelas conversas intermináveis. É estranho pensar que alguém que fez parte de
nossas vidas durante tantos anos simplesmente deixa de estar ao alcance.
Sabemos que a pessoa morreu, mas há uma sensação de estranhamento por não poder
mais ouvi-la, contar-lhe alguma coisa, saber das novidades. A vida continua,
mas uma parte dela já não pode ser compartilhada com quem sempre esteve ali. Conheço bem essa sensação. Desde a morte de
minha amada Lily, ela me visita nos momentos mais banais: ao olhar uma
fotografia antiga, procurar algum objeto ou tentar preparar algum alimento
minimamente comestível. De repente, sinto a presença-ausência de quem
compartilhou comigo uma história de 55 anos. É quando a realidade da perda se
impõe, não como uma grande tragédia, mas como a impossibilidade miúda e
definitiva de continuar vivendo certas coisas juntos. Lembro-me, então, de um verso lindo escrito
por Ronaldo Bastos e cantado por Beto Guedes, numa música feita em homenagem a
Elis Regina, que havia morrido pouco antes: “Dói de tanto medir a distância, saber
que não vou te tocar além da lembrança”. Talvez seja essa a maior estranheza da morte:
a pessoa continua tão presente em nossa memória, tão misturada à nossa
história, que custamos a aceitar que não esteja mais aqui. E, no entanto, não
está. O que antes era convivência agora é só lembrança, e a lembrança, por mais
viva que seja, não atende ao telefone. Mesmo sem acreditar em vida depois da morte,
gosto de imaginar que Zezé e minha mulher devem agora estar tomando uma cerveja
e atualizando a conversa. E têm toda a eternidade para colocar a prosa em dia. Escutaí a música.
Alguns pensamentos, provocados por frases que
leio ou ouço, demoram a me abandonar. A mais recente é: “Existe vida mais
barata, mas não presta não”.
Lembrei-me, então, de uma música gravada em
1954, cuja letra ironiza o esnobismo e a futilidade da elite social e econômica
do Rio de Janeiro — uma sátira que combina com a frase que me ficou na cabeça.
Como a letra faz referências a personalidades
daquela época, resolvi “traduzi-la” para os leitores de hoje.
Doutor
de anedota e de champanhota Estou
acontecendo no café soçaite Só digo
enchanté, muito merci, all right Troquei
a luz do dia pela luz da Light Agora
estou somente contra a Dama de Preto Nos dez
mais elegantes, eu estou também Adoro
Riverside, só pesco em Cabo Frio Decididamente,
eu sou gente bem Enquanto
a plebe rude na cidade dorme Eu ando
com o Jacinto, que é também de Thormes Terezas
e Dolores, falam bem de mim Eu sou até
citado na coluna do Ibrahim E
quando alguém pergunta: como é que pode? Papai
de Black-tie, jantando com o Didu Eu peço
mais um whisky embora esteja pronto Como é
que pode? Depois eu conto
Café Soçaite: corruptela de Café Society,
expressão que designava a alta sociedade, formada por milionários,
aristocratas, celebridades, artistas e boêmios.
Ibrahim: Ibrahim Sued, jornalista e colunista
social, um dos principais nomes do colunismo social brasileiro. Ficou conhecido
também pelas gafes, muitas vezes aparentemente propositais, no rádio e na
televisão.
Dama de Preto: personagem criada por Ibrahim
Sued para fazer críticas anônimas e mordazes à sociedade carioca.
Jacinto de Thormes: pseudônimo de Maneco
Müller, jornalista, cronista esportivo e pioneiro do colunismo social no
Brasil.
Thereza e Dolores: Thereza de Souza Campos e
Dolores Guinle, duas figuras conhecidas da alta sociedade carioca.
Didu: apelido de Carlos Eduardo de Souza
Campos, banqueiro e personagem destacado da sociedade carioca. Foi casado com
Thereza de Souza Campos.
Pronto: gíria antiga
para designar quem estava sem dinheiro.
Ontem, ouvindo meu filho tocar Beatles no
trompete Revivi
emoções já sentidas antes, Talvez modificadas pela passagem do tempo. Senti saudade de um tempo há muito vivido. Pensando bem, senti saudade de mim, De quando não sentia saudade de nada nem de
ninguém. E tudo o que eu queria era cantar músicas dos
Beatles. E tudo o que acontecia era estar apaixonado
por alguém. E tudo o que eu desejava era que alguém se
apaixonasse por mim Ao me ouvir cantar “If I Fell in Love with
You” Ou outra balada romântica da banda. Hoje, meu violão não soa bem e eu Esqueci as letras que gostava de cantar.
A mensagem “Tem vida mais barata, mas não presta, não!” teria sido enviada por
um dono de cartório a um amigo. Mas caiu na rede, viralizou e até virou letra
de música. Eu não a conhecia – até uma mulher muito rica tê-la dito para mim
com um sorriso malicioso no rosto lindo. Claro que era uma ironia, embora revelasse
uma maneira de pensar que não é exclusiva de quem a enunciou. Minha reação foi de
perplexidade, pois por trás da ironia, enxerguei um sarcasmo cruel, revelador
de uma visão elitista e deslumbrada da vida. Incomodado, pedi a uma IA uma
análise sociológica da frase. Eis o resultado: “A
expressão popular ‘tem vida mais barata, mas não presta, não’ reflete um
cruzamento entre a cultura da ostentação, o hedonismo e a mercantilização do
status social na sociedade contemporânea. Do ponto de vista sociológico, a
frase sintetiza a ideia de que a dignidade, a felicidade e o bem-estar são
equiparados ao poder de consumo . Em
contraposição, a qualidade de vida deixa de ser medida pelo tempo livre, pela
paz de espírito ou pelas relações afetivas, e passa a ser validada por gastos
materiais — camarotes open bar, iates, carros importados e festas. Ao
afirmar que a vida mais barata ‘não presta’, o discurso descarta as formas de
existência que escapam ao ciclo de acumulação e exibição de riquezas,
estigmatizando a simplicidade como sinônimo de fracasso ou tédio. O
estilo de vida defendido nessa máxima aposta no prazer imediato e efêmero.
Frases como essa também são apropriadas ironicamente por elites ou grupos
privilegiados para naturalizar desigualdades, como quem diz que manter um
padrão excludente e caro é a única forma ‘civilizada’ de existir, ignorando que
a ‘vida barata’ é a realidade compulsória da maioria da população”. E é aí que entra outra ironia: afinal, o que
é uma vida barata? Para Elon Musk, trilionário, talvez seja a de quem dispõe de
apenas alguns bilhões e nem aparece nas listas da Forbes. Para o
assalariado que chega ao fim do mês sem dinheiro, talvez seja a de quem depende
do Bolsa-Família. Foi o que me ocorreu ao ouvir aquela frase,
dita com um sorriso por uma mulher linda. Porque, feitas as contas e comparada
com a sua, a minha vida talvez seja uma dessas vidas baratas que, segundo ela,
não prestam.
Se ela realmente enxerga a vida dessa
maneira, onde eu me encaixo na sua escala de valores?
Por questões de "foro íntimo", resolvi mover esta postagem de 2024 para hoje. Tanta coisa aconteceu desde então! E a música é linda, atemporal.
Para quem não conhece, Ryk@rdo é um poeta
português de gosto sofisticado e mestre em escrever belos poemas com rima e
métrica impecáveis. Hoje, ao acessar seu blog “Pensamentos e Devaneios Poéticos”
(recomendo!) o primeiro verso de sua publicação mais recente – “Sorri quando não há sol ao amanhecer" – me fez
lembrar da versão brasileira da música “Smile” composta por Charlie Chaplin. E
este presente é que deixo para os leitores nesta sexta-feira. Letra de
Braguinha e música de Charlie Chaplin na voz de Djavan.. https://www.youtube.com/watch?v=LnKJKCZT5Jw Sorri Quando
a dor te torturar E a
saudade atormentar Os teus
dias tristonhos, vazios Sorri Quanto
tudo terminar Quando
nada mais restar Do teu
sonho encantador Sorri Quando
o Sol perder a luz E
sentires uma cruz Nos
teus ombros cansados, doridos Sorri Vai
mentindo a tua dor E ao
notar que tu sorries Todo
mundo irá supor Que és
feliz... Sorri Vai
mentindo a tua dor E ao
notar que tu sorries Todo
mundo irá supor Que és
feliz
Assisti no Instagram a um vídeo interessantíssimo com a leitura
de um texto do pastor luterano e teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer. Não sei se que acessa o blog conseguirá conectar-se com este link. Em todo caso, é este:
https://www.instagram.com/reel/DeEbduPucQE/?xtok=MWFvaHoyeTJidWthYg==ão Bonhoeffer era um ferrenho opositor do
nazismo e chegou a participar de uma tentativa de assassinar Hitler. Por causa
de sua resistência ao regime, acabou preso e enviado para um campo de
concentração, onde foi executado apenas uma semana antes da libertação do campo
pelas tropas soviéticas. Baita sacanagem, concordam? O texto que foi transformado em vídeo é este.
Tão lúcido e tão atual que não resisti a procurá-lo para publicá-lo no Blogson.
Espero que gostem e, sobretudo, que reflitam sobre o que Bonhoeffer escreveu. A
estupidez é mais perigosa que a maldade. Contra o mal se pode protestar; o
mal pode ser exposto, revelado; pode também ser evitado, se necessário, até
pela força; o mal sempre carrega o germe da autodecomposição, deixando pelo
menos um desconforto naquele que o pratica. Diversamente, não há como se
defender da estupidez. Nada pode ser feito aqui com protestos ou com violência;
razões não a convencem; simplesmente não se dá crédito a fatos que contradigam
o próprio preconceito – em tais casos, o estúpido se torna ainda mais
resistente – e se esses fatos são incontestáveis, podem com facilidade ser
postos de lado como casos isolados e sem sentido. O
estúpido, ao contrário da pessoa má, sente-se completamente satisfeito consigo
mesmo; sim, ele até se torna perigoso, enfurecendo-se facilmente quando é
refutado. Portanto, a relação com o estúpido exige muito mais cautela do que
com a pessoa má. Nunca se há de convencer o estúpido pela razão – é inútil e
perigoso. Para saber lidar com a estupidez, é preciso antes procurar entender
sua natureza. Não se trata essencialmente de um defeito intelectual, mas algo
que atinge a humanidade do sujeito. Tanto é assim que existem pessoas de
inteligência extraordinariamente ágil que são estúpidas e pessoas
intelectualmente pesadas que podem ser tudo, menos estúpidas. Para
nossa surpresa, chegamos à seguinte conclusão: parece que a estupidez não é
propriamente um defeito congênito, mas um processo em que as pessoas se tornam
estúpidas sob certas circunstâncias, ou deixam-se fazer estúpidas de forma
recíproca. Também observamos que a estupidez aparece mais em pessoas ou grupos
propensos ou condenados a viver em comum do que em pessoas mais fechadas,
reservadas e solitárias. Assim, parece que a estupidez é um problema mais
sociológico do que psicológico. É uma forma especial de influência das
circunstâncias históricas sobre o homem, isto é, uma consequência psicológica
de certas circunstâncias externas. Em uma análise mais detalhada, verifica-se
que toda forte expansão externa do poder, seja política ou religiosa, golpeia
um grande número de pessoas com estupidez. Sim, parece que é uma lei
psicológica e sociológica. O poder de alguém precisa da estupidez de outrem. O
processo não é que, de repente, algumas faculdades – como a intelectual –
definhem ou fracassem, mas sim que a independência interna da pessoa vai sendo
roubada pela impressão esmagadora do desenvolvimento do poder, até que - mais
ou menos inconscientemente – essa pessoa renuncia a encontrar seu próprio
comportamento em relação às situações que a vida lhe apresenta. O fato
de o estúpido ser muitas vezes teimoso não significa que ele seja
independente. Conversando com ele, você quase pode sentir que seu discurso nem
sequer tem a ver com ele mesmo, com aquilo que o constitui. Trata-se de frases
de efeito, slogans e chavões que se apoderaram dele. Ele está enfeitiçado,
cego, abusado e maltratado em sua própria natureza. Tornando-se assim um
instrumento sem vontade própria, o estúpido será capaz de todo o mal e, ao
mesmo tempo, incapaz de reconhecer-se mau ou de reconhecer maldade em seus
atos. Aqui está o perigo de um abuso diabólico. Como resultado, as pessoas
serão destruídas para sempre. Disso
decorre que somente um ato de liberação – e não um ato de instrução – poderá
superar a estupidez. Na grande maioria dos casos, para superar a estupidez, a
pessoa terá de aceitar que uma genuína libertação interior só se tornará
possível após a libertação externa; até então, sem essa condição, teremos que
desistir de todas as tentativas de convencer os estúpidos. A propósito, nesse
estado de coisas, fica bem claro que em tais circunstâncias é vão tentar saber
o que "o povo" realmente pensa, mesmo porque, ao mesmo tempo - nessas
dadas circunstâncias – qualquer resposta seria supérflua para o pensador e
realizador responsável. A
Palavra da Bíblia que diz que o temor de Deus é o começo da
sabedoria (Salmos 111: 1); diz que a liberação interior dos humanos, para
uma vida responsável diante de Deus, é a única verdadeira superação da
estupidez. De
resto, esses pensamentos sobre a estupidez são reconfortantes, pois não
permitem tratar a maioria das pessoas como estúpidas a todo custo. Realmente,
isso dependerá da tendência dos Poderes Instituídos, vale dizer, se querem
tornar seu povo estúpido ou se buscam a independência interior e sabedoria
de seus governados.