Preciso fazer uma
confissão antes de começar: os textos com lembranças sobre a família de
minha mãe foram sendo escritos meio sem vontade, "só para cumprir
tabela". Talvez por isso a gramática tenha sido mais atropelada que o normal, pois não estava
com a obsessão tradicional de corrigir ou revisar muito (e, ainda assim,
continuar trucidando a língua).
O motivo principal
pode ser o receio de magoar algum parente ou escandalizar meus irmãos,
pois os primeiros posts, talvez mais descontraídos, foram
originalmente escritos para meus filhos. Só depois é que resolvi publicá-los no
Blogson. Já a série que hoje se inicia foi escrita especificamente para o blog.
Uma das
explicações para esse receio de magoar ou ofender pode ser o fato de não
achar graça em textos "chapa branca", de louvação ou com a
"poeira escondida atrás da porta". Para mim, a coisa funciona
como um retrato sem retoque: "o
nariz é grande? Sim, é. O comportamento é risível ou reprovável? Sim!” Nada
disso é necessariamente verdade – ou pode ser e até mais ainda. E daí? Isso
mudará alguma coisa? Claro que não. Mas que saiu meio sofrido, saiu. E a
reunião dos cinco posts originais ficou longuérrima, dez vezes maior que meu
padrão de publicação. Bom, chega de frescura, Quem quiser, que leia. Ou não.
Tia Ci
(Araci)
A mais velha das
filhas de meus avós maternos é a Tia Ci. Aliás, é a mais velha de todos os
irmãos. Nasceu em 19/02/1919 e chama-se Araci, mas, para todos os parentes é
Ci. Ou Tia Ci.
Tia Ci casou-se
com Tio Tristano, um italiano que chegou ao Brasil ainda criança,
juntamente com os pais, a irmã mais velha e um irmão. Segundo ouvi dizer, seu
pai não achou muita graça em permanecer no país e resolveu voltar para a
Itália. Chiara (ou Dona Clara, como era chamada por todos), de
temperamento forte, autêntica “fêmea alfa”, recusou-se a voltar, mas foi com
ele até o Rio de Janeiro (talvez para ter certeza que iria mesmo entrar no
navio que o levaria de volta).
No momento do
embarque e separação definitiva, o italiano ainda exclamou para que ela
voltasse com ele (até imagino a cena: –“Chiara,
torna con me”!), mas o que recebeu de volta foi uma solene “banana”.
Imagino que foi a partir daí que ela meteu a cara no trabalho e venceu na vida,
a exemplo de outros imigrantes que ficaram ricos mesmo tendo aqui chegado com
uma mão à frente e outra atrás. O nome dessa mágica é trabalho duro, dedicação,
tino comercial, esperteza ou o que quer que seja. Só não combina com “dolce far niente”.
Morava em uma casa
de dois andares construída em local super nobre, a menos de 50 metros da saída
de serviço do Palácio da Liberdade. Possuía uma casa de campo também de dois
andares em Lagoa Santa, construída na época em que ruas pavimentadas só
existiam no centro do município. Essa casa, destino de boa parte das minhas
férias escolares, ainda existe e fica no centro de um terreno que ocupa metade
de uma quadra (ou quarteirão) à beira da lagoa.
A italiana Chiara
devia ser foda nos negócios, pois, além das duas casas, era também dona de um
hotel “meia estrela” no centro de BH, lotes bem situados (um deles vendido a
ela por minha avó), um predinho comercial de três pavimentos e sei lá mais o
que. O que sei é que quando a conheci, já era bem velha e rica, bem rica. E
chata, bem chata.
E minha tia morava
com ela. Aliás, com ela, com a “Nona” (mãe da sogra, já esclerosada), com a
cunhada “solteirona” e com um cunhado ainda solteiro. Creio que o arranjo era
assim: sogra e cunhados ocupavam os quartos do segundo andar. A “casa”
propriamente dita, com sala (enorme), cozinha, saleta de estudos (ou
escritório), banheiro e os quartos ocupados por minha tia, o marido e os dois
filhos, “acontecia” mesmo no térreo.
Talvez pelo treino
adquirido por conta da convivência forçada com a sogra jabiraca ou por uma
ótima inteligência emocional, o fato é que Tia Ci sempre se mostrou a mais
tranquila e bem humorada da família (escorada também na máxima de que “rico ri
à toa”).
Graças à pindaíba
em que vivíamos, minha mãe começou a costurar para a irmã, sogra e cunhada.
Para facilitar esses lances de prova, ajuste, bainha e sei lá mais o que, tudo
era feito nessa casa. Para onde eu ia, levado por minha mãe. Ali fazia meu
dever de casa, lanchava, lia alguns livros e revistinhas dos primos, ouvia
discos e coçava saco até anoitecer. Às vezes era obrigado a jantar com toda a
família. E era obrigado mesmo, pois sempre rolava uma sopa de macarrão com
legumes, que eu odiava. O macarrão era daqueles que parece um cano de pvc, de
tão grosso. Creio que o nome do infeliz é rigatoni.
Então, tomar
aquela sopa onde batata era o único ingrediente de que eu gostava, era dureza.
E vinha a velha autoritária encher meu saco por me recusar a tomar aquilo.
Provavelmente deveria pensar que pobre não tem escolha.
Um parêntese: essa
constatação me fez lembrar um cunhado que já foi "o" comedor. Quando
alguém comenta sobre os muitos dragões que já pegou, ele diz, fazendo
cara de filho da puta:
- "Como a gente era pobre, meu pai me
ensinou a comer de tudo. E quem come qualquer coisa, está sempre
mastigando". Figuraça.
Mas, voltando às
lembranças de minha tia e familiares, uma coisa que sempre me deixava
incomodado - mesmo sendo criança - é o fato de sua sogra falar em italiano com
os filhos na nossa presença. Sempre tive a impressão que estaria criticando
alguém. No caso, Tia Ci, minha mãe ou eu mesmo. Muito tempo depois descobri uma
curiosidade interessantíssima: a língua que falavam era um dialeto da região
onde nasceram. À exceção da filha mais velha que tinha voltado à Itália para
estudar em internato, creio que nenhum deles sabia falar a língua oficial do
país de origem.
Os dois filhos de
Tia Ci regulam em idade comigo e com meu irmão. Por isso, eram as únicas
crianças com quem brincávamos – quando podíamos nos encontrar. Isso podia ser
bom ou ruim, dependendo da época do ano. Se não fosse Natal, Dia das Crianças,
Páscoa, férias escolares ou o aniversário de um deles, era bem legal. As outras
datas deixavam um travo meio amargo na boca, algo assim como um “gosto de fundo
de gaiola”. Porque nesses momentos a distância quase abissal entre a nossa
pobreza e sua riqueza ficava explícita. Os brinquedos que ganhavam e as viagens
que faziam para a praia me deixavam babando.
Eu não tinha
inveja ou raiva ou despeito pelo que possuíam, ganhavam ou faziam; o que eu
sentia é tristeza pelo que eu não tinha nem jamais ganharia:
bicicletas Monark, patinetes Gulliver, espingardas de chumbinho,
patins, bolas de couro de futebol, vôlei e basquete, mesas de sinuca, pebolim e
ping-pong, arco e flecha, jogo de dardos, brinquedos a pilha, molinetes e varas
(nylon) de pesca, espingardas de raios (a pilha), ovos de chocolate maiores que
um ovo de avestruz, brinquedos importados, brinquedos, brinquedos, brinquedos.
Como aconteceu
quando Dona Clara foi à Itália para receber um valor correspondente à
desapropriação de um terreno que sua família possuía, localizado no eixo de uma
rodovia que seria construída. A velha preparou um “cinto de utilidades” a ser
usado sob a roupa, para acomodar e trazer em dinheiro vivo a grana que recebeu.
Além do dinheiro, trouxe também presentes para toda a família. Até eu e meu
irmão fomos lembrados! Podem acreditar! Meus primos
ganharam trocentos brinquedos italianos incríveis, eu ganhei uma
bolinha de gude toda vermelha e meu irmão ganhou uma, toda verde. Muito
bom!
Apesar dessa
fartura de presentes e mimos, os filhos de Tia Ci provavelmente eram (também)
muito ansiosos, pois destruíam lápis, borrachas e canetas no dente. Lápis de
cor importados, inúmeras canetas-tinteiro Parker 51, nada disso resistia
aos hábitos de roedor neurótico dos primos. Para evitar "problemas de
saúde", diariamente minha tia lavava e acondicionava tudo nos estojos,
substituindo os mais danificados. Verdadeiro castigo de Prometeu.
Tio Tristano,
apesar de médico e ao contrário de seu irmão Jorge, era muito introvertido.
Talvez por isso, creio que raramente olhava para as pessoas com quem conversava.
Tinha o semblante sempre fechado e a mania de ficar olhando fixamente para
algum ponto da parede, piscando muito. Às vezes exclamava seu bordão predileto:
-“Amintas, a situação está preta"!
No final de
1973, no dia do baile de formatura de meu irmão, eu e minha então namorada
fomos à casa do Tio Tristano para pegar carona com meu primo mais novo, que
também estava se formando. Minha mulher é linda, sempre foi linda e estava
particularmente linda nesse dia. Ao vê-la toda maquiada, vestido longo e cílios
postiços, quase a matou de vergonha e constrangimento, pois ficou olhando para
ela fixamente, mesmerizado, examinando-a de perto como quem vê um ET
acorrentado. Tia Ci, rindo, comentou que ele a estava deixando sem graça, pois
nem se conheciam antes desse dia. Foi quando ele “despertou do transe
hipnótico” e disse que ela estava igualzinha à Jane Fonda.
Só agora me dei
conta de me lembrar mais das pessoas e casos no entorno de Tia Ci do que dela,
propriamente. Mas é real. A época em que tivemos mais contato foi quando minha
irmã nasceu, pois ela foi vários dias à casa de minha avó só para preparar o
almoço, enquanto minha mãe estava “de resguardo”. Foi um momento muito legal.
O tempo passou e
hoje, no terreno da casa de Belo Horizonte, existe um prédio de apartamentos
construído originalmente para os filhos e netos de Dona Clara. Creio que só Tia
Ci continua a morar lá. A casa de Lagoa Santa pertence a apenas um ou dois dos
quatro netos da italiana e o que era um hotel de verdade tornou-se um pardieiro
decadente.
Mas minha Tia Ci
está bem e sempre animada. Não faz muito tempo, tive notícias dela: teria
quebrado algum osso da perna ao cair devido ao balanço do navio que a levaria
em um cruzeiro pela Grécia com os filhos, netos e bisnetos.
Como é minha
madrinha de batismo, já cobrou várias vezes minha visita, argumentando que não
demora muito a morrer, pois está com 97 anos. Até hoje, nos últimos cinquenta
anos, só fui visitá-la uma única vez. Que eu poderia agora dizer a ela?
-“Eu vou, Tia Ci, eu vou”.
Lia (Maria)
Minha mãe nasceu
em 19 de dezembro de 1920 e morreu em 28 de outubro de 2009 (dia de São Judas
Tadeu, segundo minha irmã). Nesse intervalo de tempo teve sonhos, casou-se,
sofreu humilhações, teve três filhos e seis netos. Acabou? Não, claro. O problema,
a dificuldade de falar sobre ela está no fato de ser minha mãe.
Não que eu tenha
grilo em detonar Dona Lia (mesmo que isso seja deselegante). Até
porque não há mãe perfeita, inatingível, intocável, no pedestal (nem pai).
Como cantaram os tropicalistas, "ser
mãe é desdobrar fibra por fibra o coração dos filhos", uma
releitura sacana de um verso do Coelho Neto ("ser mãe é desdobrar fibra por fibra o coração!").
Mas vamos tentar
avançar. Minha mãe chamava-se Maria (só Maria, assim como eu sou apenas José),
mas Lia era a forma como todos a chamavam. Para ser sincero, nem todos. Duas
sobrinhas de meu pai, gêmeas univitelinas, talvez por só terem começado a falar
com quatro anos (já contei esse caso), quando falavam com ou de minha mãe
diziam "Liarr", produzindo
um som rouco, afrancesado, como se estivessem pigarreando. A mesma
"rouquidão" acontecia ao pronunciarem o nome de meu irmão - "Eduarrrdo" Quando falavam meu
nome diziam "Cecinho",
querendo dizer "Zezinho".
Era dócil de trato
e se dava bem com todas as cunhadas (esse não era exatamente um padrão
familiar). Talvez essa docilidade fosse uma tática de defesa, pois, já casada,
viu-se obrigada a continuar morando na casa de sua mãe. Como já foi contado
antes, meu pai e seus irmãos quebraram na época da Segunda Guerra. Essa dureza,
essa falta de dinheiro, a provável incapacidade de meu pai reagir a isso, a
conseguir soerguer-se fez com que ela só conseguisse ter sua casinha já com
quase sessenta anos. Lembro-me de algumas vezes tê-la ouvido dizer em tom ligeiramente
queixoso do sonho ainda não alcançado de ter sua própria casa. Imagino que
nessas horas já tinha engolido doses adicionais de humilhações e aborrecimento.
Mas, preciso
admitir, não acredito que ela fosse a perfeitinha, "prendada e do
lar" apenas. Imagino que tinha as garras retráteis como os felinos. Não
fosse assim, meu psiquiatra não teria feito referência a seu comportamento
de "mãe castradora". Mas não era barraqueira. Nem meu pai.
Quando
eventualmente discutiam, não havia bate-boca nem se ouvia nada com volume acima
do normal. Meu pai era particularmente bom na esgrima de sarcasmo e ironia
ferina. Minha mãe era perita em silêncios e chantagem emocional. Assim, quando
ouvia palavras mais cortantes (ele era muito bom nisso), emburrava e ficava uma
semana sem dar uma palavra com ele, que ficava no maior "porco", com
cara de cachorro que peidou na igreja. É importante destacar que esses
espasmos ocorriam muito esporadicamente, pois, no geral, viviam e conviviam
muito bem.
A demência de
minha avó começou a dar sinais quando eu tinha uns quinze, dezesseis anos. Isso
significa que durante uns vinte anos minha mãe deve ter-se aborrecido e sentido
a humilhação de ouvir comentários pouco elogiosos à indolência de meu pai e sua
incapacidade de arranjar um emprego, qualquer que fosse ele. Essas minhas
suspeitas são mais que suposições, pois ouvi de uma antiga amiga de minha mãe
que essa era a avaliação da "família". Infelizmente, meu pai
esmerava-se em fornecer lenha para essa fogueira, pois acordava muito tarde
(provavelmente em consequência de depressão e sensação de impotência – ou
preguiça mesmo), saindo após o almoço sabe Deus para onde.
Às vezes chegava
esperançoso e comentava com minha mãe que tinha conversado outra vez com o
deputado Aécio Cunha (pai do Aécio Neves) e que teria recebido dele a
"milésima" promessa de uma sinecura ou boquinha em algum órgão
público. Imagino que se os dois ainda estivessem vivos, meu pai estaria
esperando o cumprimento dessa promessa de candidato que já está eleito.
Nunca tive coragem
nem interesse em conversar sobre isso com meus pais, mas fico meio perplexo por
meu pai nunca ter exercido a medicina (pois parecia ser um bom médico),
preferindo tentar ganhar a vida como farmacêutico – mesmo aparentando não ter o
menor tino comercial para isso – e, depois, como químico. Talvez a medicina da
época fosse exercida em consultórios (que meu pai não tinha condição financeira
de montar), talvez a inexistência de planos de saúde fosse outro limitador, não
sei. O que sei é que meu pai e seu irmão Nhô, em virtude das dívidas provocadas
pela quebra dos negócios da família, passaram todo o período da minha infância
envolvidos com o pagamento de agiotas, pegando aqui, pagando ali, etc.
O que isso tinha a
ver com minha mãe? Tudo, claro, pois quem aparava os raios de mau humor atirados
por meu pai, quem ouvia calada os comentários ácidos de familiares, quem era
obrigada a cozinhar, lavar, passar e fazer faxina em uma casa onde moravam dez
adultos e duas crianças era ela, que ainda dava um jeito de costurar para a
irmã rica só para ganhar alguns trocados.
Essa situação
mudou com o tempo? Claro que mudou, pois os irmãos foram casando, minha avó
começou a catar coquinho no asfalto e meu pai finalmente arranjou um emprego
fixo em empresa particular, com carteira assinada (eu tinha uns treze anos
quando isso aconteceu). Óbvio que a vida ficou menos opressiva, mas até chegar
a esse ponto, nem consigo imaginar os sapos que minha mãe foi obrigada a
engolir. Se vacilar, pode ter sido até a responsável pela extinção de alguma
espécie.
Minha avó morreu
em 1972. Com a morte de meu avô em 1976, ficaram morando na casa onde vivi toda
minha vida de solteiro apenas meus pais, minha irmã e minha tia Aidê (que tinha
uma carta na manga). Depois da morte de minha avó, aos poucos, minha tia
foi comprando dos irmãos interessados em vender, a parte que lhes cabia da casa
de sua mãe. Assim, pouco tempo depois de perder o pai, tia Aidê resolveu vender
a casa, pois já era dona de 50% do imóvel.
Para encurtar a
conversa, vendeu para minha mãe uma casinha que possuía em Lagoa Santa (mas
ficou com metade do lote), um processo tão intrincado, complexo e obscuro que
motivou o fato de – logo depois da morte de Dona Lia – eu ter sido também
declarado "morto" por meu irmão, tudo por causa de um mal-entendido
gigantesco (ele entendeu mal). Depois disso, mesmo que continue a amá-lo, mesmo
que continue rezando (orando) por ele, mesmo que continue gostando dele como
sempre gostei, sempre digo de sacanagem que só voltaremos a nos falar
no Centro Espírita Grande Oriente.
Mas antes que esse
caldo entornasse e antes que o "alemão" invadisse sua mente, minha
mãe viveu nessa casinha e nessa cidade talvez os melhores e mais tranquilos anos
de sua vida, ao lado de meu pai, de minha irmã e, no tempo certo, de meu
cunhado e meu sobrinho. É importante dizer que esse cunhado tornou-se quase um
filho para meus pais, tal a paciência e atenção que dedicou a eles.
É quase impossível
falar de minha mãe dissociada de meu pai. Mesmo sendo tão diferentes em sua
essência, eram extremamente unidos, fazendo uma versão "casal"
do Gordo e o Magro, pois minha mãe era extremamente magra e meu pai,
depois de conseguir abandonar definitivamente o cigarro, obeso mórbido, graças
a um apetite filhadaputa. No final de suas vidas, dormiam em quartos
separados (- "seu pai ronca demais!"),
mas lembro-me do dia em que minha mãe ainda lúcida comentou que "sentia
muita falta" de meu pai, falecido alguns anos antes.
Resumindo, Dona
Lia e Seu Amintas eram pessoas cheias de defeitos e qualidades (como aliás,
todo mundo é), mas deixaram para os filhos a melhor herança que alguém poderia
receber: o exemplo de um amor extremado por nós. E eu os amava por isso.
Minha mãe morreu
com quase 89 anos, vítima de Alzheimer. Talvez tivesse uma propensão genética
para sofrer de algum tipo de demência, pois sua mãe morreu com 74 anos, do que
na época chamou-se de "arteriosclerose" (ou
aterosclerose), quase como um bebê.
Creio que o
"start" da doença de Dona Lia aconteceu depois de ter sofrido derrame
nos dois olhos, fruto provável de um pico de pressão intraocular em quem nunca
sofreu de hipertensão. Aplicações de laser foram feitas para corrigir ou
amenizar esse problema, mas nunca mais ela conseguiu enxergar direito. A partir
daí, só conseguia ver alguma coisa com a lateral do olho (essa explicação é
minha!), pois quando eu chegava perto dela, percebia que estava olhando na
direção de uma de minhas orelhas (fáceis de localizar!), em vez de me
fitar olho no olho.
Com essa
deficiência, ficou impedida de sair sozinha para fazer algum compra pelas
redondezas, o que talvez tenha mudado o padrão de circulação sanguínea (minha
suposição!). Para mim, essa explicação faz sentido se comparada ao comportamento
de minha avó, que disse uma vez já ter trabalhado muito e que "agora
queria descansar", o que fazia ao ler os jornais e sei lá mais o que,
sentada ou reclinada na cama. Seis anos depois estava morta. A imagem que faço
disso é o ato de andar de bicicleta: parou de pedalar, caiu.
Parêntese
irresistível: com a Dilma aconteceu justamente o contrário, pois caiu de tanto
pedalar (duh!). Fim do parêntese.
Apesar da
limitação que a impedia de sair à rua, continuou a cuidar da casa: limpava,
cozinhava, lavava roupa e ... pregava botões! Lembrando-me do Djavan, "mais fácil aprender japonês em Braille".
Essa inatividade
parcial foi enormemente aumentada quando minha tia Aidê aposentou e mudou-se
para a casa que possui ao lado da de minha mãe. Por pena, solidariedade ou
falta do que fazer, começou a ajudar Dona Lia nos afazeres domésticos. Olha a
bicicleta aí de novo!
O que sei é que a
demência instala-se devagar e, no início, provoca surpresa e espanto em quem
convive com o doente. Foi o que aconteceu com minha avó, foi o que aconteceu
com minha mãe. Como sempre fui um filho displicente e ausente, ia vê-la no
máximo uma vez por mês. Minha irmã morava com ela e meu irmão ia toda semana
visitá-la. Então, para eles a barra foi muito mais pesada, principalmente para
minha irmã.
Quando ainda
estava conversando razoavelmente bem, mostrava algum vaso de flor que sempre
enfeitava a sala simples e saía esse diálogo:
- "Você viu que bonita aquela flor ali?"
- "Vi, mãe. Muito bonita mesmo!"
- "Sabe onde eu peguei? Na porteira da fazenda
do Orlando!"
Orlando era seu
primo e já tinha morrido uns duzentos anos antes. E a cada vez que o diálogo se
repetia, havia outra flor qualquer, mas a porteira era sempre a mesma.
Às vezes me
perguntava se eu já tinha visto a "Dindinha" (sua avó, morta antes de
eu nascer).
-"Não, mãe. Creio que ela saiu ou foi comprar
pão". Eu aproveitava para fazer graça para minha irmã:
-"Espero não vê-la tão cedo!"
Pode parecer
insensibilidade de minha parte, mas eu já era escolado desde a demência de
minha avó (já contei esse caso aqui no Blogson). Ao concordar com qualquer
sandice que dizia – em vez de tentar corrigi-la – eu estava apenas evitando
constrangê-la (e pensar que eu saquei isso quando tinha apenas uns dezesseis
anos...). Um dia, entretanto, senti uma pena imensa, quando me disse colocando
a mão em minha perna:
- "Sabe, Zé, eu fiquei tão triste outro dia!
Eu tentei lembrar meu nome e não consegui!"
- "Preocupa não, Dona Lia, eu também tenho
andado muito esquecido, às vezes até esqueço se já almocei ou não!"
E fazia algum
comentário idiota sobre velhice, deste tipo:
-"É, Dona Lia, a senhora está perdida! Seus
filhos estão velhos demais!"
Ela ria e respondia
que não, que eu estava muito bonito (preciso lembrar que as mães não tem
desconfiômetro e que a minha, além de não enxergar direito, já estava
caducando).
E a doença foi
evoluindo e a confusão mental ficando cada vez maior. Um dia, depois de
abraçá-la, ela comentou que "os
meninos estavam na escola e não demorariam a chegar". Mas os
"meninos" éramos nós! Em outra visita, estando já de saída, dei nela
um beijo e um abraço estilo Jotabê (dava nela uma chacoalhada, sempre a
tratando por "Dona Lia". Parece que ela achava aquilo o máximo, pois
se fingia de zangada, mas ria feliz). Em seguida, fui despedindo-me das demais
pessoas que ali estavam – irmã, sobrinho, tia Aidê e cunhado. Só que minha
mulher continuou a conversar com minha irmã. Quando ela finalmente despediu-se
de todos, voltei a abraçar minha mãe e a reação foi típica do Alzheimer:
- "Ô, meu filho, você chegou?"
Nem todo mundo
consegue entender ou aceitar essa falta irreversível de lógica. Meu irmão,
teoricamente tão escolado como eu pelo convívio na adolescência com nossa avó,
teve um dia a reação mais estúpida que eu jamais poderia esperar dele. Creio
que exasperado pelas constantes referências à "presença" de minha avó
(falecida em 1972) e da "Dindinha" (morta antes de 1950), colocou
minha mãe dentro do carro, veio até Belo Horizonte (minha mãe morava em Lagoa
Santa, município da região metropolitana), levou-a ao cemitério do Bonfim e,
mostrando o túmulo (onde hoje ela também está) e disse-lhe:
-"Sua mãe está enterrada aqui!"
Preciso fazer
algum comentário?
Em uma das últimas
vezes que visitei Dona Lia, talvez a penúltima, e antes que eu a visse, Tia
Aidê comentou que minha mãe apresentava novo comportamento: ficava sentada na
beira da cama, virada para a parede, em silêncio e de cabeça baixa. Quando
cheguei à porta do quarto, lá estava ela quietinha, olhando para o nada,
passando a impressão de que estava muito triste ou deprimida. Chamei por ela,
fui logo brincando como antes, mas sua reação foi de apatia e, talvez,
indiferença, como se não estivesse me reconhecendo direito.
Ao contrário de
sua mãe, que morreu apresentando reações de um bebê, Dona Lia ainda falava e
andava na última vez em que estive com ela. Quando cheguei, minha tia avisou
que estava deitada. Ao entrar no quarto pude ver que estava acordada e de olhos
abertos. Sentei-me a seu lado, falei seu nome (-"E aí, Dona Lia?") e tentei lhe dar a "chacoalhada
Jotabê", que tanto a fizera rir satisfeita em outros tempos. A reação que
teve foi a que eu menos esperava. Com raiva, exclamou:
-"Para! Você quer me quebrar?"
E eu fiquei ali,
constrangido e sem saber o que dizer, mas com a certeza de que não mais conseguiria
fazê-la rir ou sorrir a me ver chegar.
Tia Dalva
Em 30/07/1929
nasceu tia Dalva. Era genuinamente simpática e risonha. Dito isso, percebo que
os irmãos e irmãs de minha mãe sempre foram bem humorados. Levavam uma vida
dura, mas tinham uma "pobreza abençoada", conforme disse meu tio mais
novo. Não eram necessariamente engraçados ou piadistas, apenas bem humorados,
risonhos, solares.
Tia Dalva
trabalhou a vida toda em um cartório de registro de notas. Não sei em qual
função, só sei que escrevia à mão em livrões de capa dura, que às vezes levava
para casa, talvez para dar conta do trabalho. Não sei como é hoje, mas o que
ela fazia era uma coisa meio pré-histórica. Nem imagino quantas canetas
tinteiro deve ter sucateado nessa atividade. Supondo trinta anos de serviço,
onze meses por ano, vinte dias por mês, cinco horas por dia (já dei um refresco
para os pit-stop), terão sido mais de trinta mil horas escrevinhando! Se
não teve tendinite, só por milagre!
Quando eu tinha
uns sete anos, Tia Dalva começou a namorar o Osíris, o amor de sua vida. Esse
"tio" era irmão de uma colega de trabalho, que o apresentou. Boa
aparência, cabelos muito crespos já sinalizando a futura calvície, olhos azuis,
voz de locutor, elegante e cara de comedor, o que realmente era. Tinha
um QE (quociente emocional) altíssimo, pois qualquer pessoa que se
aproximasse dele não demorava a virar seu amigo e fã – ou presa. Com essas
características, é óbvio que Tia Dalva logo se derreteria por ele.
E ele tinha a
manha do envolvimento e da empatia, pois bem no início do namoro levou para mim
e para meu irmão dois álbuns da "Dama e o Vagabundo" e uma porrada de
pacotes de figurinha. De cara, já ganhou nossa simpatia e de minha mãe. Todos
os dias em que ia à casa de minha avó trazia mais figurinhas. E os álbuns foram
sendo preenchidos até chegar ao maior impasse, insolúvel até hoje: a única
figurinha que faltou para meu irmão completar a coleção está colada no meu
álbum e a que falta para mim está colada no dele. O motivo de usar o presente
dos verbos é o fato de ter guardado até hoje esse presente recebido em 1958
(sua data de lançamento, segundo a internet).
O casamento de Tia
Dalva foi um dos dois em que houve uma "recepção" em casa. O outro
foi o de minha tia mais nova. Não sei qual foi a primeira a se casar, só sei
que a casa ficava cheia de gente e com algumas primas de minha mãe
particularmente inconvenientes. Lembro-me também da confecção de docinhos em um
dos casamentos, alguns deles delicadamente colocados em uma conchinha.
O detalhe suburbano dessa decoração é que as conchas foram confeccionadas com
as tampinhas de alumínio que vinham nas garrafas de leite. Depois de limpas e
higienizadas, foram laboriosamente moldadas com uma colher de sopa e frisadas
com algum coisa pontuda para dar aquele aspecto ranhurado que algumas conchas
verdadeiras apresentam. Muito "chique"!
Quando meus tios
se casaram, estavam completamente sem dinheiro. Por isso, a lua de mel foi
passada em Lagoa Santa, na casa de campo da sogra de minha Tia Ci, um casarão
às margens da lagoa. Aí já viu, né? Lagoa tem peixe, peixe se pesca com vara,
etc. O Osíris comentou comigo que nunca esteve tão duro como na época
do casamento. Por isso, sem dinheiro para passear nem nada, eles “pescavam” de manhã, à tarde e à
noite. Tenho quase certeza de que minha tia nunca foi tão feliz como nessa
época (eu sei que fiz um comentário meio acanalhado, mas o objetivo era esse
mesmo).
Já casada, Tia
Dalva foi morar em um barracão (edícula) providencialmente construído na
lateral da casa de minha avó. Não demorou muito para comprarem uma televisão –
preto e branco, seletor de canais com quatro opções de canal (em BH só existia
a TV Itacolomi, dos Diários Associados) e, se não me engano, móvel com pés
palito. Show!
Naquela época, por
volta de 1960, só pessoas mais abonadas ou que pretendiam parecer ser é que
possuíam televisor. Essa situação criou a figura do televizinho, ironia
com o pessoal que ia às casas de moradores próximos, só para ver aquela
maravilha. Como esse luxo não existia ainda na casa de minha avó, virei freguês
de meus tios, televizinho, telesobrinho.
Meu tio
"torto" aparentava gostar muito de mim. Aliás, não sei o motivo
disso, pois meus tios sempre demonstraram gostar muito de mim. Quando seu filho
mais novo nasceu eu tinha uns onze anos e fui chamado para ser "padrinho
de consagração". Quando esse primo já era adolescente, fui convidado a ser
seu padrinho de crisma, Quando se casou, olha lá o Jotabê de padrinho, um caso
explícito de "tri-padrinhagem". Além disso, fui também chamado para
dançar a valsa de quinze anos com sua irmã, mais velha que ele. Nada mais
natural, portanto que Tia Dalva e Osíris tenham sido nossos padrinhos de
casamento.
Acho essa
predileção bacana e estranha, pois os irmãos de minha mãe
"produziram" mais de vinte primos e só eu fui lembrado para
atividades "apadrinhatórias", pois fui também chamado para ser
padrinho de batismo de uma das filhas de meu tio Omir (nesse caso, tive a
companhia de outra prima).
Talvez por sempre
tratá-lo com simplicidade e descontração, o Osíris gostava de conversar e
contar alguns casos para mim. Eu ouvia e achava graça (um puxa-saco
profissional!). Um dia, já adulto, ao elogiar sua capacidade absurda de cativar
todo tipo de pessoas, disse que ele tinha uma qualidade especial: bastava
meia-hora de papo com um desconhecido qualquer que logo essa pessoa já ficava
querendo dar pra ele. Cagou de rir, mas adorou a frase, vaidoso que era. E era
muito.
Talvez por essa
descontração, me contava vários casos, inclusive os mais picantes. Foi
representante comercial durante muitos anos. Quando começou o namoro com
Tia Dalva, uma de suas representações era de uma fábrica de lingerie. Já
adolescente, ouvi a história da venda de sutiãs para uma butique. Aparentando
estar em dúvida a respeito dos modelos provavelmente exibidos por ele, a
proprietária disse que iria experimentar alguns, com a condição de que meu tio
a ajudasse. Nunca soube o estado civil dessa senhora, mas é tranquilo que rolou
uma venda casada! Ele só não me
disse quantas vezes ficou de olho na butique dela, nem se já era casado na
época. Há outros casos, tão ou mais apimentados, mas preferi deixá-los onde
estão, já quase esquecidos.
Um dia me contou
de como comprou a casa que depois transformou em escritório. O proprietário
estava puto com o inquilino e ofereceu o imóvel para meu tio. Imagino que deve
ter argumentado não ter dinheiro, que estava caro, esse tipo de coisa, mas o
proprietário insistiu e facilitou o pagamento, a ser feito mediante a emissão
de três notas promissórias que seriam descontadas em banco, Alguma coisa assim.
O que sei é que no resgate da última parcela, meu tio não tinha dinheiro
suficiente e comunicou isso ao antigo dono. A solução encontrada pelo
ex-proprietário foi emprestar o dinheiro para que o Osíris pagasse a
promissória, e depois desse um jeito de pagar a ele. Pelo que entendi, era uma
coisa meio de louco, pois ele emprestou para meu tio o dinheiro que deveria
receber dele através do banco.
Outro exemplo
dessa "sedução" aconteceu com o inquilino, que se recusava a sair do
imóvel. Meu tio apenas o avisou que iria conseguir tirá-lo (não sei o que fez),
o que realmente aconteceu. Esse inquilino era dono de uma mercearia e ficou tão
impressionado com as artes e manhas de meu tio que passou a lhe pedir conselhos
de todo tipo.
Tia Dalva parecia
ter adoração pelo marido e provavelmente fazia tudo para agradá-lo. Lembro-me
de uma "cadeira do papai" que comprou para ele no Dia dos Pais. No
Dia das Mães ele retribuiu o carinho, comprando para ela um fogão novo...
Esse tio era
extremamente competitivo e odiava perder, em qualquer situação. Quando os pais
brincam com os filhos e usam jogos de tabuleiro, é normal deixar que as
crianças ganhem, para não desapontá-las. Com o Osíris não tinha essa sopinha:
jogando com o filho, ganhava todas, sem se preocupar se o filho ficaria triste.
Era inteligentíssimo e espertíssimo, mas se ressentia de "não ter
canudo", como me disse uma vez, referindo-se ao fato de não ter instrução
universitária. Para ele, isso teria permitido que ele atingisse um sucesso
muito maior do que alcançou. Mesmo pensando assim, não conseguiu sensibilizar
meu "tri-afilhado", que também não fez faculdade. A diferença entre
os dois é o que acontece em uma prova de revezamento: o filho pegou o embalo a
partir das conquistas do pai. Com isso, ficou rico.
Até quando teve um
infarto esse espírito de competição do Osíris se manifestou. Quando eu e minha
mulher fomos visitá-lo, disse-nos que "sessenta por cento ou mais das pessoas que tiveram um infarto de tão
grande extensão como fora o seu, morreram". Só faltou querer uma
medalha por ter sobrevivido!
Antes de mudar-se
para Lagoa Santa, durante muitos anos meus tios moraram a cinco ou seis quadras
de nossa casa. Sempre que nos encontrávamos o Osíris insistia para que eu fosse
tomar um café com ele, para conversar. Nunca fui, sempre arranjando alguma
desculpa para isso. Um dia, já morando em Lagoa Santa, teve um segundo infarto
(se não me engano) e não resistiu. Tive a mesma reação de quando meu avô
morreu, pois lamentei não ter convivido mais com ele, meu tio, padrinho e
compadre
Tia Dalva ainda
viveu um bom tempo até começar a sofrer de Parkinson. Também não fui
visitá-la. Morreu, se não me engano, em 2014. No fim da vida era
alimentada através de sonda gástrica, não falava nem dava sinais de estar
lúcida. Segundo minha irmã, apenas olhava para as pessoas – quando olhava – de
modo indiferente, sem reação, como se já estivesse junto de seu rei, ídolo e
amado Osíris.
Tia Aidê
Tia Aidê nasceu em
24/08/1933. Assim como Tia Dalva, trabalhou muitos anos em um cartório de
registro de notas. A diferença entre elas é que Tia Dalva era
"escriturária" (não sei se esse é o termo correto), escrevia à mão
(não faço a menor ideia do por que disso), enquanto Tia Aidê era datilógrafa.
Muito foda, diga-se. Parecia uma metralhadora, de tão veloz. Um dia perguntei
quantos toques ela dava por minuto e me contou ter feito um concurso para
secretária da Assembleia Legislativa de Minas. Segundo ela, seu resultado foi
350(!) toques certos por minuto. Foi aprovada, mas não conseguiu a
vaga, pois o concurso havia sido feito só para legitimar quem já estava lá
dentro. Coisas do Brasil.
Por ter
permanecido solteira, foi a única tia com quem convivi diariamente até me
casar. Talvez por isso, sempre diz que gosta demais de mim. Esse sentimento é
recíproco, ainda mais agora, que é minha fonte de consulta para casos da época
da minha infância. Mas, como ficava fora o dia todo, não tenho quase nenhuma
lembrança sua dessa época, a não ser o fato de ser totalmente impaciente com a
eventual zona que os outros sobrinhos aprontavam nas tardes de sábado e
domingo, quando os filhos de Dona Leta e Seu Chico iam visitá-los. Nesses dias,
ela bancava o sargentão e enquadrava a molecada mais saidinha. Pelo que já
percebi, esse é um comportamento padrão das tias solteiras.
Na minha
adolescência, uma coisa que eu gostava bastante é o fato de ela comprar várias
coleções de literatura, todos os livros com capa dura, lombada com letras
douradas (na maioria das vezes) e fantásticos autores. Graças a meu isolamento
nessa época, li muita coisa boa, clássicos mundiais, mas deixei de ler outro
tanto, ou por não ter tempo ou pela estranheza que alguns me causaram. Dickens,
por exemplo, comecei a ler, mas a linguagem antiga me fez desistir.
Como Tia Aidê
trabalhava muito, fico sem saber se tinha tempo para ler ou se essas coleções
tinham mais uma função decorativa e de status, O que sei é que, pensando em uma
possível futura herança, recentemente perguntei a ela sobre esses livros e a
resposta foi arrasadora: a maior parte foi jogada fora depois de ser
parcialmente devorada por um tipo de cupim que infestou sua casa em Lagoa
Santa. No barato, mais de cem livros viraram cocô de inseto. Foda!
Só há pouco tempo
fiquei sabendo que a casa de minha avó foi comprada pelos três ou quatro tios
solteiros que trabalhavam na época: Tio Cici, Tia Aidê, Tio Nem e Tia Dalva.
Segundo Tia Aidê, todo mês, parte do dinheirinho suado dos irmãos era juntado
para resgatar cada uma das promissórias relativas ao parcelamento do valor pago
pelo imóvel. O bacana dessa história é que o registro da compra foi feito em
nome de minha avó. Assim, quando a casa foi vendida, todos os irmãos receberam
sua parte nessa herança. Na prática, um presente para os que não ajudaram a
comprar, dado pelos que ralaram para pagar.
Um dia, depois de
anos trabalhando no cartório, Tia Aidê arranjou um emprego em uma empresa de
mineração, lugar onde sua vida melhorou em todos os sentidos. Virou
secretária-executiva da diretoria, começou a estudar direito (que logo
abandonou), comprou um carro (que logo vendeu), fez curso de estenografia (ou
taquigrafia, sei lá), conseguiu comprar um apartamento em BH, o imóvel de Lagoa
Santa e encontrou o amor de sua vida, um amor outonal (ou invernal, talvez).
Depois de anos
trabalhando com um dos diretores da empresa, bingo! Aconteceu aquele
momento mágico, quando se apaixonou por ele e, creio, foi correspondida.
Não faço a menor ideia de quando isso aconteceu, nem como. Apenas sei que o
"Dr. Fulano" (o nome está omitido, lógico), como ela falava, era ou
tinha sido casado. Parece que isso foi uma coisa tranquila, pois ela
relacionava-se com o(s) filho(s) do cara.
O engraçado da
história é que ela "não entregava a rapadura", mas era visível que
havia um romance "no ar". Eu já estava casado quando fiquei sabendo
disso. Quem me contou foi minha mãe, que às vezes dizia com ironia (e
satisfação) coisas como "a Aidê foi
lá, com o 'véio' dela".
Quando peguei
pneumonia e fiquei internado no CTI, lá foi Tia Aidê com "o 'véio' dela" me visitar. Mas não
pude conhecê-lo, pois só ficaram do lado de fora, conversando com minha mulher.
E o tratamento "Dr. Fulano"
continuava a ser usado por minha tia nas conversas com as irmãs e sobrinhos.
Muito legal.
Mais ou menos na
mesma época que minha mãe, o "Dr. Fulano" começou também a apresentar
os sintomas de Alzheimer. Minha tia ia todos os dias à sua casa, para ficar com
ele, caminhar com ele, cuidar dele, seu amor da "terceira idade". E
foi assim até ele morrer. Mesmo que nunca tenha me falado explicitamente desse
relacionamento, nunca conseguiu esconder o quanto ficou arrasada com essa
perda.
Algum tempo
depois, perguntou-me se eu queria ganhar uma cadeira que tinha comprado em um leilão
da empresa onde trabalhara. Disse-me que era uma cadeira executiva,
giratória, toda de madeira, bacanaça e que tinha sido usada pelo "Dr.
Fulano". Disse-me também que gostaria muito que eu ficasse com ela.
Aceitei, claro, não sem pensar no simbolismo e, talvez, “utilidade” que ela carregava.
Talvez ela tenha
imaginado que um objeto tão especial, relacionado a uma pessoa tão amada,
estaria em boas mãos sendo dada a mim. Talvez, quem sabe, a presença desse
móvel em sua casa provocasse lembranças muito dolorosas que pretendeu evitar.
Hoje, Tia Aidê é
minha "consultora" para os casos da minha infância e da família de
minha mãe. Às vezes eu penso que mesmo não tendo se casado – ou talvez por isso
mesmo – teve um relacionamento muito mais intenso e feliz que o de sua irmã
mais nova em seu casamento, objeto de um post que encerrará minhas
lembranças das filhas de Julieta (e Francisco).
Tia Marisa
A caçula das
mulheres, tia Marisa, nasceu em 15/12/1935. Provavelmente casou-se com uns
vinte e poucos anos, talvez antes de Tia Dalva. Essa pode ser uma das
explicações de nunca ter trabalhado fora, ao contrário de Tia Dalva e Tia
Aidê. Essa é apenas uma suposição, pelas pouquíssimas lembranças que tenho dessa
época,
O que sei é que
antes de eu entrar para o grupo escolar, me obrigava a deitar após o almoço,
coisa que sempre me deixava puto. Para me manter na cama, deitava também e eu
acabava pegando no sono. Era brava, independente e, creio, bem geniosa. Esse
temperamento de gato do mato talvez tenha influenciado sua vida de casada, que
imagino não ter sido "aquela brastemp".
Casou-se com o
Jorge (Giorgio), quinze anos mais velho que ela e irmão mais novo de Tio
Tristano, marido de Tia Ci. Essa diferença de idade e o fato de Tia Marisa já
ser sua conhecida há muito tempo me faz pensar que o Jorge era extremamente
tímido, apesar do bom humor e do riso alto. Era engenheiro-arquiteto e foi o
responsável remoto por eu ter cursado engenharia civil.
Aliás, esse é quase
um conto do vigário, pois, até onde sei, a única obra que fez ou projetou foi a
ampliação do hotel que a mãe possuía no centro de BH. Mas eu achava que o papel
do engenheiro é projetar casas, o que é um equívoco total. Mesmo assim, sempre
disse que iria virar engenheiro como ele. E na hora da escolha, deixei-me levar
pelo desejo de infância. "Ocevê" (sotaque mineiro) que
merda!
Quando ainda
namorava minha tia, às vezes chamava minha mãe ou Tia Aidê para ir junto com
eles dar um passeio de carro (o controle de Dona Leta devia ser brabo). Nessas
ocasiões, eu e meu irmão íamos também. Para mim esses passeios noturnos eram
tudo de bom, pois sempre nos levava para ver a fonte luminosa da Praça Raul
Soares. Eu ficava embevecido olhando a constante mudança de cores e ele dizia
que cada hora jorrava um suco diferente: groselha, morango, etc. E o coitado
do Zezim acreditava em tudo e até pedia para descer do carro e beber
um pouco (menino pobre e idiota é uma tristeza!).
Após a
contemplação da fonte, levava-nos a uma sorveteria próxima e nos comprava
um eskibon. Nessa época o sorvete vinha embrulhado em papel manteiga ou
coisa parecida e acondicionado em uma caixinha de papelão ou cartolina.
Invariavelmente eu deixava cair na roupa, mas nem ligava. Na volta para casa
depois dessas "emoções", o sono batia e eu chegava dormindo. Entendeu
agora por que eu sempre disse que seria engenheiro? Tudo por conta do filho da
puta de um sorvete e de uma fonte de onde jorrava quissuco!
Depois do
casamento, Tia Marisa dividiu com a sogra e a cunhada o segundo andar do
casarão onde já vivia a família de Tia Ci (sua irmã mais velha, que ocupava o
primeiro andar). Provavelmente ficaram no antigo quarto de solteiro do Jorge,
agora equipado com cama de casal. Esse arranjo não durou muito tempo, pois deve
ter prevalecido a máxima de que "boi preto
reconhece boi preto", ou seja, a autoritária Dona Clara encontrou uma
pedreira igual à sua na pessoa da nora.
Para mim, isso
ficou definitivamente claro quando minha tia ganhou da sogra uma geladeira
vermelha. Só fiquei sabendo que Tia Marisa deve ter dado um piti ou feito “o”
barraco e se recusou a receber e abrir o presente, pois não queria nem gostava
de geladeira vermelha. E tinha raiva de quem gostava.
E o Jorge ali,
coitado, marisco entre a rocha e o mar. Não demorou muito para que se mudassem
para um apartamento amplo em uma parte boa da área central de BH, bem em frente
à faculdade de direito da UFMG. Talvez os dois filhos tenham nascido já no novo
endereço. Só sei que moraram muito tempo lá, uns dez anos talvez. Essa
estimativa está relacionada às minhas idas frequentes a esse apartamento,
para ler histórias em quadrinhos.
Meu primo mais
velho, na época com uns onze, doze anos, tinha carta branca dos pais para
comprar quantas revistas quisesse, o que realmente fazia. Depois de lê-las,
trocava imediatamente por outras na mesma banca, na proporção de duas lidas por
uma nova. Com isso, não tenho dúvida de que era o melhor cliente do
proprietário. Por conta dessa fartura, da minha infantilidade congênita e da
minha falta absoluta de responsabilidade (eu tinha acabado de entrar na
faculdade!), eu ia para lá e ficávamos lendo os gibis a tarde toda.
Que ninguém pense
que só existiam revistinhas infantis. Claro que existiam, pois ele colecionava
várias. Uma delas era a revista da Mônica que havia sido lançada há
pouco tempo (as primeiras histórias tinham um enredo menos repetitivo e menos
óbvio que hoje). Mas meu primo era quase um connoisseur de quadrinhos e comprava álbuns fantásticos de
capa dura, com reedições primorosas de HQ das décadas de 1930 e 1940,
desenhadas pelos autores originais: O
Fantasma (Ray Moore), O Príncipe Valente (Hal
Foster), Flash Gordon (Alex Raymond) e outros menos votados. Lia
também tudo dos personagens do Stan Lee, as reedições das primeiras histórias
do Popeye feitas pelo Segar, etc.. Era um mundo revistas a encarar e
não me lembro do motivo de ter acabado essa mamata. Só sei que fui me afastando
aos poucos daquela quadrinhoteca.
Quando esse primo
atingiu a maioridade, comprou um ultraleve e saiu voando por aí. Segundo me
contou, muitas vezes decolava da beira da lagoa, em frente à casa da família,
em Lagoa Santa. Dito assim parece tranquilo, mas a distância é mínima, qualquer
vacilada faria com que enfiasse o chifre na água. Depois, apaixonou-se
sucessivamente por paraquedismo, paraglinder (ou parapente) e asa delta. Com
essa, quase morreu.
Estávamos nos
arrumando para ir à missa de sétimo dia do Osíris, marido de Tia Dalva, quando
uma notícia extraordinária na TV informou a queda de duas asas delta na serra
de Moeda e deu o nome dos pilotos. Um tinha morrido na hora. Quem ouviu a
notícia foi minha mulher, que repetiu para mim o nome do sobrevivente,
perguntando se não seria meu primo. Eu nem sabia ainda que ele voava com asa
delta. Por isso, ligamos para a emissora e confirmamos o nome. Era mesmo meu
primo.
Fomos para a
igreja e encontramos Tia Marisa, que acenou para nós toda alegrinha. Minha
mulher falou para eu lhe perguntar se estava sabendo do acidente. Truquei na
hora, pois não sou nada solidário com ninguém, ao contrário de minha mulher.
Sem problema. Levantou-se, chamou Tia Marisa para fora da igreja e deu-lhe a
notícia. Minha tia não sabia de nada e pediu para que minha mulher fosse com
ela ao hospital.
Chegaram lá e
encontraram um bando de amigos e colegas de meu primo, dentre eles sua esposa
(a segunda), que nem tinham se tocado da necessidade de informar os parentes
próximos. Quando meu primo saiu do hospital, minha tia deu uma festa para
comemorar. Da família, só eu e minha mulher fomos convidados. Todo o resto era
a gangue que tinha estado com ele no hospital.
Quando Tio
Tristano morreu e estava sendo velado, sentei-me ao lado do Jorge, que me
cumprimentou meio sem jeito, pois havia anos que não nos falávamos. Comentei
que o tinha visto na televisão, falando de moedas antigas. Sabia que era
filatelista, mas numismata era novidade. Riu meio sem jeito e contou-me que
tinha como hobby uma lojinha com um amigo, e que tinha dado ao filho mais novo
uma moeda da Roma antiga, mas tinha quase certeza que era falsa, apesar de
muito bonita. E ficamos ali conversando sobre esse assunto um bom tempo,
praticamente esquecidos do caixão que estava à nossa frente.
Um dia fiquei
sabendo que Tia Marisa e ele tinham se separado, apesar de continuarem morando
no mesmo apartamento, em um prédio construído por um sobrinho no terreno do
casarão onde tinham começado a vida e os desencontros de casados (prova de
que o inferno pode ser aqui mesmo). Os dois filhos seguiram o padrão dos pais,
pois casaram-se, tiveram filhos, desentenderam-se e se separaram.
Depois da morte do
Jorge, minha mãe ou uma de minhas tias comentou escandalizada que o filho mais
novo de Tia Marisa tirou-a do apartamento em que vivia e colocou-a em um quarto
no pardieiro em que conseguiu transformar o hotel fundado por Dona Clara, sua
avó. Creio que isso fez parte da negociação entre os dois filhos de Tia Ci e os
dois de Tia Marisa, quatro primos-irmãos, durante ou após a partilha de bens
deixados pela italiana. O filho mais novo de Tia Marisa teria comprado do irmão
e primos o hotel (ou o que restou dele) e a casa de Lagoa Santa, onde mora
atualmente.
Todos os anos, no
dia do meu aniversário, Tia Marisa me liga para dar parabéns, não falha nunca.
Eu sempre finjo surpresa e ela sempre pergunta quantos anos estou fazendo. Diz
também que não se esquece de ligar porque gosta muito de mim. Este ano não foi
diferente. Apenas pediu-me para ir visitá-la no hotel, "pois fica lá o dia
todo". Fique tranquila, Tia Marisa, eu irei, pode acreditar nisso.
Atualização para maio de 2026:
- Tia Ci faleceu com 104 anos, sem saber que
o filho mais novo tinha morrido de Covid por se recusar a tomar vacina;
- Minha mãe Lia morreu com Alzheimer aos 88
anos;
- Tia Dalva morreu de Parkinson aos 85 anos;
- Tia Aidê tem 92 anos e está em estágio
avançado de Alzheimer;
- Tia Marisa está com 90 anos e lúcida.
E fim.