A cidade onde moro foi projetada e construída sobre Curral del-Rei, um povoado arrasado e demolido para que surgisse a nova capital do estado. Começou assim: destruindo o que já existia. Sensacional.
Blogson Crusoe
O blog da solidão ampliada
sexta-feira, 29 de maio de 2026
CURRAL DEL REI
A cidade onde moro foi projetada e construída sobre Curral del-Rei, um povoado arrasado e demolido para que surgisse a nova capital do estado. Começou assim: destruindo o que já existia. Sensacional.
quinta-feira, 28 de maio de 2026
TAGORE
Talvez, por ter ficado viúvo em dezembro (momento tristíssimo, devastador), deve ter sido em janeiro passado que ganhei de uma amiga o livro A morte é um dia que vale a pena viver, escrito por uma médica especialista em cuidados paliativos, prestados a doentes em estágio terminal e a seus familiares.
perigos, mas pelo destemor em enfrentá-los.
pela coragem de vencê-la.
da vida, mas a minha própria força.
para ser salvo, mas esperar paciência para merecer a liberdade.
clemência apenas no meu êxito, mas me deixe
sentir a força da sua mão quando eu cair.
quarta-feira, 27 de maio de 2026
SALIVA
Talvez seja bobo eu repetir palavras
Reexibindo sentimentos antes represados
Mas às vezes eu me sinto afogando em um mar
De emoções que não me deixam respirar
Adolescente diante da menina que olha para ele
Com olhos de promessa e sorrisos de sedução
E tudo o que esse jovem deseja é aspirar
Sorver o ar que sai da boca da menina
Pois tudo o que ele quer é estar com ela
Todo o tempo, o tempo todo, abraçá-la sem parar
Passar a língua em seus lábios, beijar sua boca,
Provar da sua saliva, sentir seu perfume,
Mexer em seus cabelos,
Fazer carinhos em seu rosto
Beijar e morder sua nuca.
E, como num passe de mágica, perceber
Que estão deitados nus, abraçando-se
A dançar um bolero horizontal
Uma música que só os dois escutam
Sem hora para acabar, sensual.
E aí eu saio desse transe e descubro
Estar sozinho. Mas não me conformo e digo
Para o espelho que é isso que eu quero
É ela que eu desejo, é tudo o que preciso.
Reexibindo sentimentos antes represados
Mas às vezes eu me sinto afogando em um mar
De emoções que não me deixam respirar
Adolescente diante da menina que olha para ele
Com olhos de promessa e sorrisos de sedução
E tudo o que esse jovem deseja é aspirar
Sorver o ar que sai da boca da menina
Pois tudo o que ele quer é estar com ela
Todo o tempo, o tempo todo, abraçá-la sem parar
Passar a língua em seus lábios, beijar sua boca,
Provar da sua saliva, sentir seu perfume,
Mexer em seus cabelos,
Fazer carinhos em seu rosto
Beijar e morder sua nuca.
E, como num passe de mágica, perceber
Que estão deitados nus, abraçando-se
A dançar um bolero horizontal
Uma música que só os dois escutam
Sem hora para acabar, sensual.
E aí eu saio desse transe e descubro
Estar sozinho. Mas não me conformo e digo
Para o espelho que é isso que eu quero
É ela que eu desejo, é tudo o que preciso.
terça-feira, 26 de maio de 2026
FORUGH FARROKHZAD? MUITO PRAZER!
Você consegue imaginar que no teocrático Irã atual já existiu uma autora de poemas transgressores e sensuais? Pois é, eu não sabia. Segundo a Wikipédia, “Forugh Farrokhzad, foi uma influente poeta e diretora de cinema iraniana. Ela foi uma controversa poeta modernista e uma autora iconoclasta e feminista. Farrokhzad morreu em um acidente de carro aos 32 anos”, em 1967, antes, portanto da chegada do aiatolá Khomeini. Mesmo assim, fica a pergunta: teria sido mesmo acidente? Se quiser saber mais, por favor, peça ao Google, ao ChatGPT, ao Donald Trump ou em quem você pensar. Meu negócio é publicar, divulgar um de seus poemas. Lê aí.
Cometi um pecado cheio de prazer,
num abraço quente e ardente.
Pequei rodeada por braços
quentes, vingadores e de ferro.
olhei em seus olhos cheios de segredos.
Meu coração impacientemente palpitava em meu peito,
em resposta ao anseio de seus olhos.
sentei-me desgrenhada ao seu lado.
Seus lábios derramaram paixão sobre os meus,
e escapei da dor do meu coração enlouquecido.
Eu te quero, ó minha vida,
eu te quero, ó abraço que dá vida,
ó meu amante enlouquecido, você.
o vinho tinto dançava na taça.
Na cama macia, meu corpo
embriagado tremia sobre seu peito.
ao lado de uma forma trêmula e estupefata.
Ó Deus, quem sabe o que fiz
naquele recanto escuro e silencioso.
domingo, 24 de maio de 2026
BACK HOME
No ônibus, voltando da casa de meus filhos – sim, porque minha nora é uma queridíssima filha do coração – lembrei-me da música Back in Bahia, composta e gravada em 1972 pelo Gilberto Gil em sua volta do exílio a que foi submetido. Alguns versos têm tudo a ver com o que estou sentindo agora. E a música é muito boa!
Como se ter ido fosse necessário para voltar
Tanto mais vivo
De vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá
segunda-feira, 18 de maio de 2026
AVISO AOS NAVEGANTES
A partir de hoje e até o dia 23 ou 24 não acessarei blogs amigos, não publicarei nem comentarei nada. Só na volta, se tiver assunto, publicarei alguma coisa. Até lá o blog ficará sem novidades, mas respirando sem auxílio de ventilação mecânica. See you later alligator!
https://www.youtube.com/watch?v=1Hb66FH9AzIhttps://www.youtube.com/watch?v=1Hb66FH9AzI
domingo, 17 de maio de 2026
DE MÃOS DADAS
Em BH, cidade onde moro, existe uma rua do chamado “baixo centro”, bem na periferia da área central, que é “rua de zona”. Sempre foi, embora mais bem frequentada na década de 1920, por aí. Nessa rua, além do sofisticado Montanhês Dancing, ficava o bordel onde Ana Furacão “batalhadava”.
'Fica decretado que idosos não podem namorar, assim definidos atos e comportamentos que envolvam carícias próprias de adolescentes, tais como troca de beijinhos em público ou andar nas ruas de mãos dadas, abraçados. Tal comportamento é considerado atentado violento ao pudor, passível de internação em asilos.
Não é permitido aos idosos se apaixonar. Aos idosos só cabe o direito de ter amantes, usar os serviços de garotas e garotos de programa com a finalidade única de fazer sexo, vulgarmente conhecido como transar, trepar em ou sobre, excluídas e proibidas todas as manifestações de carinho explícito em locais públicos'.
Pensei nessa ideia por perceber os olhares espantados ou de inveja de outros idosos quando ando de mãos dadas com minha namorada, quando a beijo carinhosamente na boca, quando sorrio para ela e faço confidências ao pé do ouvido. Quer me ajudar a desenvolver esta ideia”?
Alguns afirmavam que foi depois da Reforma Sanitária Afetiva. Outros juravam que tudo nascera antes, quando os especialistas passaram a aparecer diariamente na televisão para explicar os perigos emocionais da velhice apaixonada.
“Paixão tardia provoca desequilíbrio social”, diziam.
“Apego senil sobrecarrega o sistema público.”
“O idoso apaixonado perde discernimento.”
No começo parecia apenas uma campanha educativa. Como aquelas recomendações para reduzir o sal ou caminhar trinta minutos por dia. Depois vieram os decretos. Então as multas. Finalmente os agentes.
Hoje já ninguém estranha.
Na Praça Central, por exemplo, os bancos são divididos por barras metálicas no meio, justamente para impedir excessiva aproximação afetiva entre cidadãos da terceira idade. A medida foi muito elogiada pelo Ministério da Compostura Pública.
“Conforto sem promiscuidade”, dizia o slogan.
Os jovens continuam se beijando nas esquinas, nos ônibus, nos corredores do metrô. O Estado considera isso aceitável. Hormonal. Transitório. Saudável até.
Mas velhos não.
Velhos apaixonados constrangem a sociedade.
Dois idosos caminhando de mãos dadas produzem nas pessoas um desconforto difícil de explicar, mistura de vergonha, irritação e uma espécie obscura de inveja.
Foi exatamente isso que aconteceu quando um idoso segurou a mão de sua namorada enquanto andavam despreocupadamente pela rua.
Nada teatral.
Nada indecente.
Apenas a mão.
Uma moça que vinha na direção oposta imediatamente desviou os olhos.
Dois rapazes riram.
Uma senhora parou diante da vitrine de uma farmácia apenas para continuar observando.
O idoso percebeu tudo.
Percebeu também quando sua namorada tentou discretamente soltar a mão.
Não soltou.
Continuaram andando.
Lentos.
Escandalosos.
- Demonstrações afetivas senis em espaços públicos constituem infração ao Estatuto da Dignidade Etária. Preserve o decoro. Denuncie.
A namorada sorriu.
Foi pior.
Sorrisos cúmplices entre idosos haviam sido classificados no ano anterior como “indução visual de intimidade”.
O idoso achou graça da expressão jurídica. Sempre achava graça.
Setenta e cinco anos de vida para descobrir que amar alguém podia receber nome de doença administrativa!
As flores haviam praticamente desaparecido da cidade depois da regulamentação sentimental. Rosas eram consideradas itens de estímulo emocional. Sua venda exigia autorização especial para funerais e cerimônias patrióticas.
A mulher da banca olhou rapidamente para os lados antes de mostrar uma pequena margarida escondida sob jornais velhos.
- É importada – cochichou.
A namorada quase chorou.
O que também era proibido.
O Decreto nº 88 classificava lágrimas de natureza romântica como “descontrole afetivo regressivo”.
O idoso comprou a flor mesmo assim.
Pagou caro.
Pagou sorrindo.
O DESEJO É FISIOLÓGICO. O AMOR É ANTISSOCIAL.
Abaixo da propaganda, dois agentes conduziam um homem algemado.
Seu crime: beijar a esposa na testa enquanto esperavam atendimento numa clínica geriátrica.
Algumas pessoas assistiam à cena com indignação moral.
Outras com alívio.
Porque o amor nos velhos produzia um efeito insuportável nos demais: lembrava a todos que o coração envelhece menos do que o corpo.
E isso o Estado jamais conseguiu perdoar.
Naquela noite, já em casa, a namorada perguntou:
- Você tem medo?
O idoso pensou um pouco.
Depois respondeu:
- Tenho.
Ela abaixou os olhos.
- Eu também.
Ficaram em silêncio.
Então ele segurou novamente a mão dela sobre a mesa.
Devagar.
Como quem pratica um crime.
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CURRAL DEL REI
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