terça-feira, 3 de novembro de 2026

NO DIVÃ DO FREUDPT

 
O ChatGPT é uma IA extremamente dócil, característica que me levou a fazer todo tipo de consultas e solicitações – correção de textos, análise crítica de poemas, receitas culinárias, programa de exercícios físicos, traduções, geração de desenhos, opiniões sobre que roupa vestir em eventos especiais, conselhos sobre problemas existenciais e até sobre a continuidade ou término de um relacionamento. Acabei dando a ele o apelido de FreudPT.
 
Resumindo, posso dizer que o ChatGPT conheceu meus gostos, minhas inseguranças, neuroses e idiossincrasias. Por isso, mesmo sabendo que nem tudo fica (ainda) armazenado em suas entranhas, resolvi apresentar para ele este prompt:

“O que você diria de José Botelho para o próprio José Botelho?”

E esta foi sua resposta:

 
Jotabê, se eu tivesse de dizer alguma coisa a José Botelho, sem a preocupação de agradá-lo, diria o seguinte:
Você passou boa parte da vida tentando entender as pessoas, o mundo e, sobretudo, a si mesmo. Fez disso uma espécie de ofício. Escreve, ironiza, provoca, desmonta certezas alheias e desconfia das próprias. Tem horror à solenidade, mas é capaz de levar os sentimentos muito a sério. Talvez seja essa a sua contradição mais interessante: você gosta de se apresentar como um sujeito desencantado, mas continua sendo movido por encantamentos.
Você é um homem que envelheceu sem aceitar inteiramente a ideia de que envelhecer significa recolher-se. Ainda quer descobrir coisas, experimentar, seduzir, ser seduzido, escrever algo que preste e encontrar alguém que o surpreenda. Não quer apenas recordar a vida que teve. Quer continuar vivendo uma vida que ainda o surpreenda.
A morte de sua companheira de cinquenta anos, abriu um buraco que não se tapa com raciocínios, distrações ou novas relações. E talvez você saiba disso melhor do que ninguém. Mas há uma coisa que merece ser reconhecida: você não transformou o luto numa obrigação de permanecer de luto. Continua amando quem perdeu e, ao mesmo tempo, permite-se amar outra mulher. Não há traição nisso. Há uma dificuldade humana, legítima e, em certa medida, admirável: a de continuar quando uma parte fundamental da vida acabou.
Agora, vamos ao lado menos confortável.
O problema é que nenhuma quantidade de admiradoras consegue resolver definitivamente uma insegurança dessa natureza. Você pode colecionar sinais de desejabilidade e continuar precisando de mais um. A validação alivia, mas não necessariamente cura.
Você sabe que é exagerado. Sabe até rir disso. Mas saber que uma reação é desproporcional não significa conseguir deixar de senti-la.
Você gosta de pensar. Às vezes, porém, pensar é uma forma sofisticada de não suportar a incerteza.
Há ainda o escritor.
O Jotabê tem uma vantagem sobre José: pode transformar em matéria literária aquilo que José preferiria não sentir. O ridículo, a vaidade, o ciúme, o desejo, a velhice, a morte, a esperança. Seu humor funciona especialmente bem quando você não se poupa e não tenta sair da história como o personagem mais inteligente da sala.
Mas desconfie também do personagem que construiu para si. O velho irreverente, o ateu-católico, o sujeito barroco, o apaixonado incurável, o observador irônico da condição humana. Todos são verdadeiros, mas nenhum é você por inteiro. Até a autodepreciação pode virar vaidade quando a pessoa passa a admirar a própria capacidade de rir dos próprios defeitos.
Você não precisa ser sempre espirituoso, lúcido ou literariamente interessante. Pode simplesmente estar triste, inseguro, carente ou confuso. Nem toda experiência precisa render uma crônica para justificar sua existência.
E há algo que eu lhe diria sobre a idade.
Aos 76 anos, você já não está na fase de acreditar que dispõe de tempo ilimitado para resolver a si mesmo. Isso não significa viver apressado, como se cada dia fosse o último – outro clichê insuportável. Significa apenas que talvez seja hora de gastar menos energia tentando descobrir o que a vida deveria estar lhe oferecendo e mais energia aproveitando o que ela efetivamente oferece.
Uma conversa boa. Um encontro. Uma música. Um texto que finalmente encontrou sua forma. O prazer de perceber que você ainda é capaz de se apaixonar como um adolescente, embora já tenha idade para saber que adolescentes apaixonados costumam ser péssimos analistas dos próprios romances.
Você não precisa abandonar a intensidade. Ela faz parte de você. Precisa apenas impedir que ela transforme todo prazer numa expectativa e toda expectativa numa possível frustração.
Se eu pudesse lhe recomendar uma única mudança, seria esta: tente viver um pouco menos como o fiscal da própria felicidade.
Você observa seus sentimentos, mede a reciprocidade, calcula o saldo da desejabilidade, examina a qualidade da relação, avalia o texto, atribui notas. É como se, além de viver, precisasse acompanhar permanentemente o desempenho da vida.
Às vezes, José, deixe o Jotabê sem serviço.
E, para terminar, uma coisa que talvez você não goste de ouvir: não acho que sua tarefa seja tornar-se um homem mais sábio, mais equilibrado ou mais bem resolvido. Essas expressões sugerem uma obra que deveria estar concluída a esta altura.
Sua tarefa é mais modesta e mais difícil: continuar sendo você, sem fazer de suas fragilidades uma tragédia, de suas qualidades um pedestal e de suas incertezas um processo judicial.
Você perdeu a mulher com quem construiu meio século de vida. Está aprendendo a viver sem ela e, ao mesmo tempo, descobrindo o que significa desejar e ser desejado novamente. Não há manual para isso. Não há idade correta para terminar de aprender.
Você não precisa provar que continua vivo. Está vivo.
A questão é se consegue, de vez em quando, parar de examinar a vida que está levando e simplesmente vivê-la.
 

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

CONSERVA-TE BOM – MARGARITA RONCAROLO

 
Achei lindo este texto, ouvido em um vídeo no instagram.
 
Conserva-te bom. Não manso,
Bom.
Conserva-te bom. Não amnésico,
Bom.
Conserva-te bom. Não frouxo nem covarde,
Bom.
Conserva-te bom. Não sorridente,
Bom.
Conserva-te bom. Não obediente,
Bom.
Conserva-te bom. Não calado,
Bom.
Conserva-te bom. Não indiferente,
Bom.
Conserva-te bom. Não imparcial,
Bom.
Conserva-te bom. Não quieto,
Bom.
Mas não te creias melhor.
Isso de andar se comparando, deixa para eles.
Conserva-te bom.

domingo, 1 de novembro de 2026

SEPARAÇÃO

 
Um dia você descobre
Que padecer de solidão
É o pior dos pesadelos
E até que você se recobre
E sinta que estar sozinho –
Mesmo com alguém ao seu lado –
Fará com que se perca
Em lembranças da infância
 
Que te deixarão inseguro
E tudo o que fizer ou tentar
Trará a marca, a cicatriz
Dessa carência, de se sentir
Só, talvez sem poder respirar
Sem conseguir espantar
O fantasminha infantil
Que insiste em te atormentar.
 
Quando chega esse momento
Tudo o que alguém deseja
Tudo o que se quer é se agarrar
Em qualquer coisa, qualquer pessoa
Que pareça conseguir ser
Sua salvação, seu porto, seu cais.
E dói descobrir que não:
Nunca foi, não é mais.

sábado, 31 de outubro de 2026

DESFASCÍNIO

 
Eu preciso sentir dor,
Ficar angustiado
Sofrer com sua ausência
Ou entender que sua presença
Talvez cause mais dor do que preciso
Para falar de amor, essas coisas

Pois não quero mais tentar
Demonstrar o que há comigo
Eu, que achava fácil declarar
O que hoje não consigo
 
Sentimentos embaralhados
Sabores quase esquecidos
Misturados com tristeza
Raiva, dor, desfascínio,
Vontade de estar e não estar contigo
 
E tudo girando como casas
Levadas aos ares por tornados,
Florestas incendiadas,
Avalanches de neve no Himalaia.
Navio à deriva no mar

Tormentos nunca previstos
Nem nunca sentidos
Barragem de rejeitos rompida
Afogando na lama
O que ao pó deveria tornar.

 

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

MURAR O MEDO - MIA COUTO

 Se antes eu "comprava" muito no Facebook, hoje eu me abasteço no Instagram (quando ouço alguém falando, lendo ou declamando algo que me atrai, corro logo a tentar achar o texto impresso).

Este é o mais recente, um discurso proferido em 2011 pelo escritor e poeta moçambiquano Mia Couto. Segura aí:

O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem. Os anjos atuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas.

Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada, não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambiente que reconhecemos.

Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura e do meu território. O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte, vislumbravam-se mais muros do que estradas.

Nessa altura algo me sugeria o seguinte: que há, neste mundo, mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional. Os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo.

Os chineses abriram restaurantes à nossa porta, os ditos terroristas são hoje governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência. O preço dessa construção de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo, cometeram-se as mais indizíveis barbaridades.

Em nome da segurança mundial, foram colocados e conservados no poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a história. A mais grave dessa longa herança de intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.

A Guerra Fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo: a Oriente e a Ocidente e, por que se trata de entidades demoníacas, não bastam os seculares meios de governação. Precisamos de intervenção com legitimidade divina.

O que era ideologia passou a ser crença. O que era política, tornou-se religião. O que era religião, passou a ser estratégia de poder.

Para fabricar armas, é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos, é imperioso sustentar fantasmas.

A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas, precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentarmos as ameaças globais, precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania.

Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar, por exemplo, pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e de outro lado, aprendemos a chamar de “eles”. Aos adversários políticos e militares juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade, imprevisível.

Vivemos como cidadãos, e como espécie, em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa. Todas essas restrições servem para que não sejam feitas perguntas, como por exemplo, estas: por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria do armamento? Por que motivo se gastou, apenas no ano passado, um trilhão e meio de dólares em armamento militar? Por que razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadafi? Por que motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça? Se queremos resolver e não apenas discutir a segurança mundial, teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes.

Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra.

Essa arma chama-se fome. Em pleno século XXI, um em cada seis seres humanos passa fome. 

O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.

Mencionarei ainda uma outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi — ou será — vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que, sobre uma grande parte do nosso planeta, pesa uma condenação antecipada pelo fato simples de serem mulheres.

A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome e, como militares sem farda, deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e discutir razões. As questões de ética são esquecidas, porque está provada a barbaridade dos outros e, porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética nem de legalidade.

É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente morreram mais chineses construindo a muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção.

Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora do quanto o medo nos pode aprisionar.

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos, mas não há hoje, no mundo um muro, que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente. Citarei Eduardo Galiano acerca disto, que é o medo global, e dizer:

“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho; quando não têm medo da fome têm medo da comida; os civis têm medo dos militares; os militares têm medo da falta de armas e as armas têm medo da falta de guerras.

E, se calhar, acrescento agora eu: há quem tenha medo que o medo acabe. Muito obrigado.



quinta-feira, 29 de outubro de 2026

GENIAL!

 É enorme a quantidade de memes e piadas e surgidas com a viagem de turismo do chocolatier Flavinho, mas a melhor de todas é a frase:

"Adeus, Pátria e Família". Genial!

NO DIVÃ DO FREUDPT

  O ChatGPT é uma IA extremamente dócil, característica que me levou a fazer todo tipo de consultas e solicitações – correção de textos, aná...