Noite passada acordei de madrugada com uma puta azia e com a canela da perna direita coçando e ardendo. Depois de tomar antiácido e passar um creme na perna, fiquei umas duas horas acordado, esperando passar a azia e o desconforto da perna. Mas ela e a azia foram poderosos estímulos para a nova maluquice jotabélica: resolvi juntar em um só volume os dois e-books de “deZénhos” (os desenhos do Zé) já publicados. “Passatempo” da madrugada...
Blogson Crusoe
O blog da solidão ampliada
domingo, 12 de abril de 2026
LIVRO NOVO NO PEDAÇO
Noite passada acordei de madrugada com uma puta azia e com a canela da perna direita coçando e ardendo. Depois de tomar antiácido e passar um creme na perna, fiquei umas duas horas acordado, esperando passar a azia e o desconforto da perna. Mas ela e a azia foram poderosos estímulos para a nova maluquice jotabélica: resolvi juntar em um só volume os dois e-books de “deZénhos” (os desenhos do Zé) já publicados. “Passatempo” da madrugada...
POR TODA ETERNIDADE - AUTOR DESCONHECIDO
Encontrei este texto na internet, tão comovente que não me importei de atropelar o Horácio. Os poetas que sentendam.
A miséria havia chegado absoluta ao universo do poeta.
Mário não se casou e não tinha filhos.
Estava só, falido, desesperançoso e sem ter para onde ir.
O porteiro do hotel, jogou na calçada um agasalho de Mário, que tinha ficado no quarto, e disse com frieza: - Toma, velho!
Derrotado, recitou ao porteiro: - A poesia não se entrega a quem a define.
Mário estava só.
Absolutamente só.
Onde estavam os passarinhos?
A sarjeta aguardava o ancião. Alguém como Mário Quintana jogado à própria sorte!
Paulo Roberto Falcão, que jogava na Roma, à época, estava de férias em sua cidade natal e soube do acontecido.
Imediatamente se dirigiu ao hotel e observou aquela cena absurda. Triste, Mário chorava.
O craque estacionou seu carro, caminhou até o poeta e indagou: - Sr. Quintana, o que está acontecendo?
Mário ergueu os olhos e enxugou as lágrimas - daquelas que insistem em povoar os olhos dos poetas - e, reconhecendo o craque, lhe disse: - Quisera não fossem lágrimas, quisera eu não fosse um poeta, quisera ouvisse os conselhos de minha mãe e fosse engenheiro, médico, professor. Ninguém vive de comer poesia.
Mário explicou a Falcão que todo seu dinheiro acabara, que tudo o que possuía não era suficiente para pagar sequer uma diária do hotel.
Seus bens se resumiam apenas às malas depositadas na calçada.
De súbito, Falcão colocou a bagagem em seu carro, no mais completo silêncio.
E, em silencio, abriu a porta para Mario e o convidou a sentar-se no banco do carona.
Manobrou e estacionou na garagem de um outro hotel, o pomposo Royal.
Desceu as malas.
Chamou o gerente e lhe disse: - O Sr. Quintana agora é meu hóspede!
Por quanto tempo, Sr. Falcão? - indagou o funcionário.
O jogador observou o olhar tímido e surpreso do poeta e, enquanto o abraçava, comovido, respondeu: - POR TODA ETERNIDADE.
O Hotel Royal pertencia ao jogador!
O poeta faleceu em 1994.
CONHECE O HORÁCIO?
"Foi um dos maiores poetas líricos e satíricos da Roma Antiga, influente na literatura ocidental, famoso por suas Odes e pela expressão "carpe diem". Também ficou conhecido por seus poemas reflexivos sobre o amor, amizade e filosofia, muitas vezes adotando uma postura equilibrada e moderada".
Muito bem, muito bom. Por causa do pão da Padoca, descobri que o romano mandava bem nas frases e aforismos. Que formam o material que as gentis leitoras e os garbosos leitores lerão a partir de agora:
A adversidade desperta em nós capacidades que, em circunstâncias favoráveis, teriam ficado adormecidas.
A cólera é
uma loucura momentânea.
A duração
breve da nossa vida proíbe-nos de alimentar uma esperança longa.
A força
bruta, quando não é governada pela razão, desmorona sob o seu próprio peso.
A pálida
morte bate com pé igual nos casebres dos pobres e nos palácios dos ricos.
A riqueza
pode servir ou governar o seu possuidor.
A vida
nunca deu nada aos mortais sem grandes fadigas.
Ainda que
a expulses com um forcado, a natureza voltará a aparecer.
Aqueles que cruzam depressa o mar, mudam
seus ares, mas não suas mentes.
As
palavras... Muitas que hoje desapareceram irão renascer, muitas, agora cheias
de prestígio, cairão, se assim o quiser o uso.
Carpe
diem, quam minimum credula postero – aproveite o dia de hoje e confie o mínimo
possível no amanhã.
Considera
bem a medida da tua força e aquilo que excede a tua aptidão.
Desconfiai
daquele que detrai no amigo ausente, e o não defende quando o deprimem.
Despreza
os prazeres: é prejudicial o prazer comprado ao preço da dor.
É doce deixar a mente relaxar de vez em
quando.
É feliz e
senhor de si mesmo quem ao fim do dia pode dizer: eu vivi
Em todos
os teus atos, lê e pergunta aos doutos, procurando assim conduzir serenamente a
tua vida; que não sejas atormentado pela cobiça sempre insaciável, nem pelo
temor e pela esperança de bens de pouca utilidade.
Ganha
dinheiro primeiro, a virtude vem depois.
Há uma
medida nas coisas; existem enfim limites precisos, além dos quais e antes dos
quais o bem não pode subsistir.
Musa,
dize-me o que é o homem.
Na
realidade, ninguém nasce sem vícios: o melhor é quem cai nos mais leves.
Não é
pobre aquele que se contenta com o que possui.
Não existe
felicidade perfeita.
Não há ninguém
sem defeitos: o melhor é o que menos tem.
Não sou obrigado a jurar sobre as palavras de nenhum mestre.
Não terás
razão em chamar feliz àquele que muito possui.
Ninguém é
feliz sob todos os aspectos.
O avarento
vive sempre na pobreza.
O destino
tem a mesma lei para todos: tira à sorte entre o humilde e o grande; a sua urna
é vasta e contém todos os nomes.
O dinheiro
não possui a faculdade de mudar a natureza íntima.
O dinheiro
ordena ou obedece a quem o acumulou.
O dinheiro
será sempre ou escravo ou patrão.
O fracasso
descobre o gênio; o sucesso esconde-o.
O invejoso
emagrece com a gordura dos outros.
O pinheiro
mais alto é aquele que o vento agita mais vezes.
O que
impede de dizer a verdade rindo?
Os nossos
pais, piores do que os seus, geraram-nos ainda mais celerados do que eles; nós,
por nossa vez, geraremos filhos ainda mais perversos do que nós.
Os
pintores e os poetas sempre gozaram da mesma forma do poder de ousarem o que
quisessem.
Os poetas
têm de ser pessoas médias, nem deuses, nem vendedores de livros.
Podes
atirar longe a natureza com o forcado: ela sempre retornará.
Quando a
casa do vizinho está pegando fogo, a minha casa está em perigo.
Quem ama a
áurea moderação, seguramente não sente falta da desolação do vil abrigo, nem do
esplendor frugal do palácio invejado.
Quem
começou, tem metade da obra executada.
Quem tem
confiança em si próprio comanda os outros.
Raramente
podemos descobrir um homem que diga que viveu feliz e que quando termina o seu
tempo deixa a vida como um conviva satisfeito.
Seja qual
for o conselho que vai dar, seja breve.
Todos nós
somos levados ao mesmo lugar; na urna agita-se a sorte de cada um: mais cedo ou
mais tarde, a sorte terá de ser lançada, e nos fará entrar no barquinho em direção
ao exílio eterno.
Uma vez
lançada, a palavra voa irrevogável.
Vós que
escreveis, escolhei um assunto correspondente às vossas forças.
sexta-feira, 10 de abril de 2026
"ZERO, NOTA ZERO!"
Você já tentou ler algum livro e se assustou com a aridez do texto ou com o vocabulário muito sofisticado ou erudito? Já tive algumas experiências com isso, mas a culpa geralmente não era minha. E os livros não eram literatura mesmo, eram mais um amontoado de dados analisados e comentados pelo autor. Mas há livros que são para mim como o caviar do Zeca Pagodinho: nunca vi, nunca li, só ouço falar. E o motivo é simples: como nunca compro livros (sou mão de vaca), só leio os que ganho. Para ser sincero, gostaria muito de ganhar e ler o “Grande Sertão: Veredas”, do Guimarães Rosa, e o mais badalado de todos, que é o “Ulysses”, de James Joyce.
Agora, pense comigo (“sigam-me os bons”): se um Zé Mané anônimo resolvesse exibir seu vocabulário super erudito e pernóstico em um documento a ser divulgado na empresa onde trabalhei, qual seria a reação previsível? No meu caso, se fosse seu chefe, antes de devolver os hieróglifos para o autor traduzir, teria que me segurar para não mandar o cara à puta que pariu. Porque ninguém precisa escrever em linguagem periférica, das quebradas, para ser entendido. Basta escrever com clareza em linguagem coloquial ou levemente formal, e tudo bem.
Mas vamos imaginar que a nota de uma redação faça parte da classificação geral de um vestibular. E foi isso que aconteceu no vestibular para o curso de Direito de uma faculdade paulista. Essa redação tirou nota zero pelo simples motivo de ser apenas um emaranhado, um cipoal de palavras eruditas que ninguém de bom senso tem saco para tentar entender. O autor disputava uma vaga no curso de Direito e foi desclassificado. Que se pode dizer a um jovem de 18 anos que parece ter saído de dentro de um dicionário do Aurélio e que provavelmente não tem amigos nem namorada?
- “Filho, vá viver a sua vida com alegria e descontração, pratique algum esporte, areje sua mente, arranje uma namorada – ou namorado. Você será um péssimo advogado se insistir nessa linguagem empoeirada e cheia de teias de aranha com que escreve”.
A autora Djaimilia de Almeida, no livro A Visão das Plantas, mistura narrativa e reflexão histórica pra discutir ideias sobre o mundo de hoje.
Nessa linha, o linguista Ferdinand de Saussure entra com a ideia de que o sentido das coisas depende da relação entre palavra e significado.
Só que, como tudo muda o tempo todo, essas “verdades fixas” acabam ficando meio frágeis e discutíveis.
No fundo, o texto sugere que a identidade se fragmenta e que o perdão ganha vários sentidos, muitas vezes marcado por limites, pressões sociais e até violência simbólica.
Que achou desta reflexão? Boa? Tudo a ver? Como diriam os astronautas da Estação Espacial, I don’t care! Mas a coisa fica boa mesmo quando se lê um trecho do texto original da – repetindo – redação nota zero:
Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforismática revela a tétrica languidez do sofrer recôndito. Djaimilia de Almeida concebe, em A Visão das Plantas, valer-se a epísteme lírico-narrativa de concepções hermenêutico-historiográficas, as quais decorrem da dialética antagônica e maquiavélica ao postularem a teleologia hodierna. Sob essa perspectiva, Ferdinand de Saussure preconiza a relação simbiótica entre significado e significante a partir da coesão engendrada pelo domínio tradicional concomitante ao coercitivo. Entretanto, à medida em que impera a dinamicidade, fragilizam-se axiomas em difusas postulações. Nesse ínterim, ressoa o sofrer recôndito na fragmentação identitária ao se concernir ao perdão - significado - múltiplos significantes: o condicionamento e a limitação, seja em razão da violência simbólica ou da tecnocracia.
Fiquei tão incomodado com essa notícia, que deu vontade de dizer a esse jovem (com todo carinho):
quinta-feira, 9 de abril de 2026
O TEMPO NÃO NEGOCIA
Outro dia uma pessoa muito querida manifestou sentir saudade do tempo em que era jovem. Tentei consolar dizendo platitudes e os clichês de praxe, mas entendo e compartilho um pouco desses sentimentos. Por não ter nada de interessante para fazer e por não estar com vontade de fazer o que não é interessante, comecei a escrever frases soltas cheias dos clichês mais surrados. Já estava até parecendo um poema de pé quebrado – que eu não sabia como terminar.
Foi aí, confesso, que pedi ao ChatGPT para dar uma arrumação no que já estava escrito e arranjar um final para o texto. Depois de algumas brigas e rejeições ao que essa IA sugeriu, acabou ficando como pode ser lido abaixo. Uma parceria entre uma inteligência artificial e uma inteligência natural (eu me amo!) em cima de um texto rascunhado por mim (eu me amo muito!). A novidade é que, depois de muito tempo, pedi à SunoAI para criar uma canção com essa letra. E ficou até um pouco simpática, graças a alguns tons menores utizados (tons menores trazem um pouco de nostalgia à melodia). Se quiser, escutaí:
Não queira voltar ao passado
Guarde com carinho, afeição
Aquele abraço apertado
Aquele selinho roubado
Pois eles não mais voltarão
Lembre-se e tenha saudade
Dos lugares que visitou
Das ruas onde caminhou
Mas mesmo que doa pensar
O tempo não retornará
Lugares, ruas, paisagens
Ainda podem lá estar
E você poderá retornar
Mas mesmo que o peito doa,
E a memória insista em chamar
Os sonhos que ali viveu, entenda:
A saudade não é erro
É prova de que aconteceu
Mas não se deixe enganar
Não é você que está ali de novo
Porque você já não é mais o mesmo
E é aí que dói, porque voltar
E tudo bem, porque o tempo não volta
Ele não desacelera, não pára, não negocia
Que viver não é olhar pra trás
É caminhar pra frente
Mesmo se não é suficiente
terça-feira, 7 de abril de 2026
"THAT’S THE WAY IT GOES"
Uma das coisas que eu mais curto na fotografia, mais que a captura do instante fugaz e sem volta, é permitir enxergar a passagem do tempo. Olhaí.
segunda-feira, 6 de abril de 2026
FORCA
Os radicais de qualquer matiz, de qualquer natureza, parecem pessoas normais – mas não são. Podem ser afáveis, simpáticos e de convívio agradável, mas basta um pequeno estímulo para que suas crenças, suas convicções mais profundas sejam exibidas da forma mais assustadora e até deplorável, totalmente fora do que se poderia chamar de “senso comum” ou apenas “bom senso”.
Esse gesto do ministro, condenável por si só, apenas acentua a existência de uma mentalidade que acha normal celebrar a aprovação de uma lei duríssima – e injusta, por ser parcial, por se aplicar apenas a uma etnia específica.
Ou seja, institucionalizaram o racismo do Estado, normalizaram a exclusão social e criaram o ambiente legal e cultural que permitiu a barbárie que veio depois, o genocídio. Essas leis são reconhecidas como um passo fundamental que preparou o caminho para o Holocausto
LIVRO NOVO NO PEDAÇO
Noite passada acordei de madrugada com uma puta azia e com a canela da perna direita coçando e ardendo. Depois de tomar antiácido e passar...
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No meio da pandemia, assistindo televisão com minha mulher, ouvi um ator inglês dizer as palavras mágicas “Soneto 116 de Shakespeare”. Creio...
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A reverência hoje é para Millôr Fernandes, que faz parte da Santíssima Trindade do Humor no Brasil. Os outros dois podem ser qualque...
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Como sabem as pessoas que acessam este blog, minha mulher morreu em consequência de um câncer no fígado, descoberto quando já tinha surgid...