Talvez eu já tenha contado aqui no blog que o Dado (Eduardo), meu irmão mais velho, está com Alzheimer. Fiquei muito triste quando soube disso,
principalmente por conhecer os efeitos da progressão dessa doença.
Outro dia, refletindo sobre isso, me ocorreu
que a genética da família Alvarenga talvez tenha contribuído para tantos casos
de demência na família “Alvarenga Botelho”, à qual pertenço. Vejam só: minha
avó materna, sua irmã, minha mãe, meu irmão, um primo e uma prima seis anos
mais jovens que eu e o caso mais bizarro atualmente: uma das irmãs de minha mãe
de repente tira a roupa toda e fica nua dentro de casa. E esses são os casos
que conheço!
Por outro lado, a família Botelho, de meu avô
materno, parece ter recebido o oposto: uma genética arretada de boa para a
longevidade. Um dos irmãos do meu avô morreu com 103 anos; a irmã mais velha de
minha mãe viveu lúcida até os 104; fora tantos outros acima dos 90. Imagino que
meu avô também viveria muito, se não tivesse sido atropelado a caminho da casa
de sua segunda família (ele teve duas). Curioso, não?
Torço para que sejam premonitórias as
palavras que ele disse um dia sobre mim – “aquele
ali me puxou!”. Sobre meu irmão, infelizmente, não se poderia dizer o
mesmo. Só sei que por enquanto, estou como o sujeito que despenca de um prédio muito
alto e, antes de se esborrachar no chão, pensa: “até aqui está tudo bem”.
Mas estou divagando. O que eu queria
registrar mesmo é o encontro que tive ontem com meu irmão, depois de dezesseis
anos sem nos falarmos. “Por conta de umas
questões paralelas”, paramos de conversar desde o dia em que disse que se
lembraria que no ano em que nossa mãe faleceu, eu também morri para ele.
Fiquei meio puto com isso, mas meu espírito
meio avacalhado me impediu de sofrer ou me preocupar mais do que devia. Cheguei
a brincar que, nesse caso, só voltaríamos a nos falar no Centro Espírita Oriente
– apesar de meus filhos e meu cunhado sempre insistirem para que eu mudasse de
ideia. O problema é que eu sou doce no trato, mas um ogro nas decisões. E nem
acredito em espiritismo
E assim ficou – até eu saber da doença. Acreditando
que não haveria sentido em visitar quem nem se lembrava de ter um irmão, resolvi
gravar uma mensagem de voz para que minha cunhada mostrasse para ele. Gravei
mais ou menos isto:
Oi,
Dado, aqui é seu irmão Zé – um irmão de quem você talvez nem se lembre mais,
depois de tanto tempo sem nos falarmos. Mas hoje me deu uma vontade danada de
te mandar uma mensagem, só para dizer que te amo, que sempre te amei e que
nunca deixei de te amar.
Ao
longo da minha vida, você foi meu ídolo, exemplo, mentor, incentivador,
companheiro de brincadeiras na infância, meu melhor amigo, parceiro de baladas
e roubadas quando já éramos jovens adultos. E isso eu nunca esquecerei.
O
tempo, os equívocos, as palavras ditas de forma passional nos afastaram como se
fôssemos inimigos. Mas nós não somos inimigos. Eu, pelo menos, nunca fui seu
inimigo. Quando ainda ia à missa, eu rezava por você e para você.
Hoje
estou velho, com 75 anos, cabelos brancos, barba branca. Às vezes me bate a
sensação de que não vou viver muito mais. Por isso eu pensei em te mandar esta
mensagem antes que eu me vá definitivamente, uma mensagem de amor fraternal.
Então é
isso, cara: eu te amo muito. A vida inteira te amei.
Minha cunhada disse ter perguntado a ele se
tinha gostado da mensagem. Ele apenas respondeu: “Não sei”. Achei graça da resposta e não fiquei mais triste do que
já estou com as notícias que recebi sobre ele. Por isso, resolvi visitá-lo.
Depois de dezesseis anos sem vê-lo, encontrei
um homem naturalmente envelhecido: um pouco encurvado, cabelos ralos, rugas, mas o mesmo olhar
sério, a mesma expressão de impaciência que sempre exibiu. A diferença apareceu
quando comecei a conversar e a fazer perguntas sobre nosso passado, sobre pessoas especiais. Mostrei a foto atual de meu filho mais novo, de quem é padrinho. "Não sei quem é". Falei da gata que estou namorando e a quem deu o endereço da casa onde morávamos: "Não conheço, não sei quem é".
As
respostas eram sempre as mesmas: “não
sei”, “não conheço”, “nunca vi”. Disse também que está “com a cabeça vazia” e que está "muito velho", pois tem "94 anos" (ele tem 78). E que viverá "só mais três anos". Isso me fez pensar que o irmão que eu conheci
está bem, mas já se foi para algum lugar distante, deixando em seu lugar apenas um clone,
um sósia idêntico fisicamente, mas de quem pouco se espera. E isso é perturbador.
Ao me despedir, disse que o tinha ido
visitar apenas para abraçá-lo. E foi o que eu fiz com todo carinho, beijando
também suas bochechas caídas. Voltei feliz para minha casa, mais feliz do que
ao sair para visitá-lo. E esta é a mensagem final:
Não seja sovina quando o assunto é demonstração de afeto, amor ou
amizade. Jamais deixe um abraço, um afago para depois. Tente ser um gastador
compulsivo, um esbanjador de sentimentos positivos, pois ninguém consegue
fazer estoque de emoções, de carinho, afeto ou amor que não demonstrou por
alguém. Por isso, lamento que muita gente não se dê conta do absurdo prazer de
escancarar o coração, da imensurável alegria de receber ou dar um abraço a quem
se ama. Sem motivo, sem data especial, apenas porque isso é bom, simplesmente
porque é ótimo. Para quem dá e para quem ganha.