Outro dia fiquei chocado com a cara de pau, a desfaçatez, com o ego gigantesco exibido pelo presidente de um país por aí, que resolveu imprimir sua cara de idiota em passaportes, em papel moeda e até, aparentemente, em moedas de ouro. Essa atitude me fez pensar no culto à personalidade que outros líderes de maior ou menor relevância mundial incentivaram e até impuseram – Stalin, Hitler, Sadam Hussein, Mussolini e por aí vai. O problema é que todos os citados eram execráveis, péssimas companhias para o maluco da vez.
Blogson Crusoe
O blog da solidão ampliada
quinta-feira, 7 de maio de 2026
OCULTO
Outro dia fiquei chocado com a cara de pau, a desfaçatez, com o ego gigantesco exibido pelo presidente de um país por aí, que resolveu imprimir sua cara de idiota em passaportes, em papel moeda e até, aparentemente, em moedas de ouro. Essa atitude me fez pensar no culto à personalidade que outros líderes de maior ou menor relevância mundial incentivaram e até impuseram – Stalin, Hitler, Sadam Hussein, Mussolini e por aí vai. O problema é que todos os citados eram execráveis, péssimas companhias para o maluco da vez.
terça-feira, 5 de maio de 2026
KAFKA E A BONECA VIAJANTE - ANÔNIMO
Um ano antes de sua morte, Franz Kafka viveu uma experiência singular. Passeando pelo parque de Steglitz, em Berlim, encontrou uma menina chorando porque havia perdido sua boneca. Para acalmar a garotinha, inventou uma história – a boneca não estava perdida, mas viajara, e ele, um "carteiro de bonecas", tinha uma carta em seu poder que lhe entregaria no dia seguinte. Naquela noite, ele escreveu a primeira de muitas cartas que, durante três semanas, entregou pontualmente à menina, narrando as peripécias da boneca vividas em todos os cantos do mundo.
Durante
anos, Klaus Wagenbach, um estudioso de Kafka, procurou a menina pela região
próxima ao parque, investigou com os vizinhos, colocou anúncio nos jornais, mas
nunca conseguiu encontrar a pista da menina ou dos originais das cartas.
Segundo Dora Dymant, sua última companheira, Kafka se envolveu com tanta
seriedade na tarefa de consolar a pequena Elsi como se escrevesse mais um de
seus romances ou contos que nunca foram publicados em vida. Toda essa inusitada
situação, verdadeira ou não, acabou inspirando Jordi Sierra a escrever um livro onde inventa as supostas cartas, criando desta forma um final imaginário
para esta estranha e bela história.
O
livro é dividido em quatro partes: primeira ilusão: a boneca perdida – quando
Kafka encontra a menina chorando no parque; segunda fantasia: as cartas de
Brígida – quando se torna o carteiro de bonecas, e passa a escrever as cartas
da então boneca perdida que se tornou viajante; terceira ilusão: o longo
percurso da boneca viajante – quando começam as cartas de despedida da boneca;
quarto sorriso: o presente – quando há a aceitação e superação da perda.
“Quanto a mim, permiti-me a transgressão:
inventar essas cartas, terminar a história, dar-lhe um final imaginário. Pode
ter sido este ou outro qualquer, não acho que seja muito importante. O que
aconteceu é tão belo em si mesmo que o resto carece de importância. A única
coisa evidente é que aquelas cartas devem ter sido mais lúcidas que as
recriadas por mim.” – Jordi Sierra i Fabra, declara no final do livro “Kafka e
a Boneca Viajante”.
segunda-feira, 4 de maio de 2026
CLARICE LISPECTOR
Já publiquei aqui no blog coletâneas de frases, pensamentos e aforismos criados por muitas pessoas. E gosto de fazer isso pela beleza das palavras e pensamentos tão bem ordenados, por ser uma homenagem a quem as criou, por serem uma prova da inteligência e lucidez de seus criadores. E a nova contribuição são frases sintéticas ou trechos de textos maiores escritos pela Clarice Lispector. Tudo muito lindo, reflexivo e sempre emocionante. Lêaí.
- Sim, minha força está na solidão. Não
tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu
também sou o escuro da noite.
- Estou sendo alegre neste mesmo
instante porque me recuso a ser vencida: então eu amo. Como resposta.
- A trajetória somos nós mesmos. Em
matéria de viver, nunca se pode chegar antes.
- É difícil perder-se. É tão difícil
que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me
seja de novo a mentira de que vivo.
- A invenção do hoje é o meu único meio
de instaurar o futuro.
- Repito por pura alegria de viver: a
salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!
- Por que é que as coisas um instante
antes de acontecerem parecem já ter acontecido? É uma questão de simultaneidade
de tempo.
- Estou cansada. Meu cansaço vem muito
porque sou uma pessoa extremamente ocupada: tomo conta do mundo.
- Eu sou mansa, mas minha função de
viver é feroz.
- O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a
perfeição.
- Entender é sempre limitado. Mas não
entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não
entendo.
- Perder-se também é caminho.
- Eu amo a minha cruz, a que doloridamente
carrego. É o mínimo que posso fazer de minha vida: aceitar comiseravelmente o
sacrifício da noite.
- Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.
- Porque eu fazia do amor um cálculo
matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia
que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente.
- Uma das coisas que aprendi é que se
deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar
de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos
empurra para a frente.
- Amar os outros é a única salvação
individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber
amor em troca.
- O que importa afinal, viver ou saber
que se está vivendo?
- E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço.
- Eu sou nostálgica demais, pareço ter
perdido alguma coisa não se sabe onde e quando.
- A alegria verdadeira não tem
explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida – e se parece
com o início de uma perdição irrecuperável.
- Gosto de um modo carinhoso do
inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai
sem graça no chão.
- Fique de vez em quando só, senão você
será submergido. Até o amor excessivo dos outros pode submergir uma pessoa.
- E o que o ser humano mais aspira é
tornar-se ser humano.
- Ter nascido me estragou a saúde.
- O amor é tão mais fatal do que eu
havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos
garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está,
está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão.
- O que me mata é o cotidiano. Eu
queria só exceções.
- Sou um ser concomitante: reúno em mim
o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos
relógios.
- Eu tenho que ser minha amiga, senão
não aguento a solidão.
- Abandone-se, tente tudo suavemente,
não se esforce por conseguir - esqueça completamente o que aconteceu e tudo
voltará com naturalidade
- A minha vida a mais verdadeira é
irreconhecível, extremamente interior, e não há uma palavra que a signifique.
- Até cortar os próprios defeitos pode
ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício
inteiro.
- Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe
no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver
ultrapassa qualquer entendimento.
- Às vezes, tudo que precisamos é de
uma frase certa, no momento certo.
- Que ninguém se engane, só se consegue
a simplicidade através de muito trabalho.
- A palavra é meu domínio sobre o
mundo.
- Liberdade é pouco. O que desejo ainda
não tem nome.
- Não quero ter a terrível limitação de
quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade
inventada.
- Saudade é um pouco como fome. Só
passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a
presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser
o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se
tem na vida.
- Suponho que me entender não é uma
questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...
- É curioso como não sei dizer quem
sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer,
porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que
sinto se transforma lentamente no que eu digo.
- Olhe, tenho uma alma muito prolixa e
uso poucas palavras.
- Passei a vida tentando corrigir os erros
que cometi na minha ânsia de acertar.
- Mas tenho medo do que é novo e tenho
medo de viver o que não entendo – quero sempre ter a garantia de pelo menos
estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação.
- Que minha solidão me sirva de
companhia, que eu tenha a coragem de me enfrentar. que eu saiba ficar com o
nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.
- Eu não sou tão triste assim, é que
hoje eu estou cansada.
- Enquanto eu tiver perguntas e não
houver resposta continuarei a escrever.
- Com perdão da palavra, sou um
mistério para mim.
- O que verdadeiramente somos é aquilo
que o impossível cria em nós.
- Terei toda a aparência de quem
falhou, e só eu saberei se foi a falha necessária.
- A única verdade é que vivo.
Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais.
- Nunca sei se quero descansar porque
estou realmente cansada, ou se quero descansar para desistir.
- Tenho várias caras. Uma delas é quase
bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo.
- O que eu sinto eu não ajo. O que ajo
não penso. O que penso não sinto. Do que sei sou ignorante. Do que sinto não
ignoro. Não me entendo e ajo como se me entendesse.
- Mas já que se há de escrever, que ao
menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas.
- Eu não sou promíscua. Mas sou
caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui
caleidoscopicamente registro.
- Sou um ser. E deixo que você seja.
Isso lhe assusta? Creio que sim. Mas vale a pena. Mesmo que doa. Dói só no
começo.
- Sou uma filha da natureza: quero
pegar, sentir, tocar, ser. E tudo isso já faz parte de um todo, de um mistério.
- Sou um coração batendo no mundo.
- Faça com que eu saiba ficar com o
nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.
- Por te falar eu te assustarei e te
perderei? mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia
- Que medo alegre, o de te esperar.
- Ando de um lado para outro, dentro de
mim.
- Estou bastante acostumada a estar só,
mesmo junto dos outros.
- Mas há a vida que é para ser
intensamente vivida. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem
nenhum medo. Não mata.
- Minhas desequilibradas palavras são o
luxo de meu silêncio.
- Divertir os outros é um dos modos
mais emocionantes de existir.
- Acordei hoje com tal nostalgia de ser
feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui.
Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu
tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim.
- Farei o possível para não amar demais
as pessoas, sobretudo por causa das pessoas. Às vezes o amor que se dá pesa,
quase como uma responsabilidade na pessoa que o recebe. Eu tenho essa tendência
geral para exagerar, e resolvi tentar não exigir dos outros senão o mínimo. É
uma forma de paz...
- Mas tantos defeitos tenho. Sou
inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim eu tenha.
Só que não sei usar amor: às vezes parecem farpas.
- Onde aprender a odiar para não morrer
de amor?
- Amor será dar de presente ao outro a
própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si. Amor é
quando é concedido participar um pouco mais. Amor é a grande desilusão de tudo
mais. Amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão
do que se pensava que era amor. E não é prêmio, por isso não envaidece.
- Amar não acaba. É como se o mundo
estivesse à minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.
- Sou só e tenho que viver uma certa
glória íntima que na solidão pode se tornar dor.
- Eu medito sem palavras e sobre o
nada.
- Estou cansada de tanta gente me achar
simpática. Quero os que me acham antipática porque com esses eu tenho
afinidade: tenho profunda antipatia por mim.
- Nada posso fazer: parece que há em
mim um lado infantil que não cresce jamais.
- A verdade não me faz sentido! É por
isso que eu a temia e a temo. Desamparada, eu te entrego tudo – para que faças
disso uma coisa alegre.
- O horrível dever é ir até o fim. E
sem contar com ninguém. Viver a própria realidade. Descobrir a verdade. Pois
não posso mais carregar as dores do mundo.
- Engulo a loucura porque ela me
alucina calmamente.
- Preciso aprender a não precisar de
ninguém. É difícil, porque preciso repartir com alguém o que sinto.
- A vida, meu amor, é uma grande
sedução onde tudo o que existe se seduz.
- Não se compreende música: ouve-se.
Ouve-me então com teu corpo inteiro.
- Por dentro eu sempre me persegui. Eu
me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho
uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim.
- Cada pessoa é um mundo, cada pessoa
tem sua própria chave e a dos outros nada resolve; só se olha para o mundo
alheio por distração, por interesse, por qualquer outro sentimento que
sobrenada e que não é o vital; o ‘mal de muitos’ é consolo, mas não é solução.
- Que eu não esqueça que a subida mais
escarpada, e mais à mercê dos ventos, é sorrir de alegria.
sábado, 2 de maio de 2026
UM NOME À PROCURA DE UM APELIDO
As pessoas normais, aquelas que eu assim considero por terem nomes que dispensam complemento, ou mesmo as que possuem nomes compostos, não conseguem imaginar o desconforto de quem tem apenas o prenome José. Pior ainda se o sobrenome remete a uma expressão vulgar, chula.
- “Grower” ou pênis “de sangue”: embora de aparência humilde quando flácidos, podem aumentar até 56% do tamanho original;
- E os mezzo a mezzo que representam a maioria, nem tanto ao céu nem tanto ao mar.
quarta-feira, 29 de abril de 2026
MÃE...
Meu filho parece ser um médico à moda antiga, que se importa mais com o atendimento do que com a duração da consulta. Por isso, sempre tem algum caso pitoresco para contar, como quando recebeu de um paciente uma bandeja com um pato já limpo e esquartejado, providencialmente doado depois para a sogra.
Hoje ou ontem, atendeu a uma paciente que lhe contou um comovente episódio ocorrido há algum tempo. Segundo essa senhora, o dedinho do pé de sua mãecomeçou a ficar roxo, escuro, sinal de necrose. Levada a um especialista, constatou-se que o problema avançava pela perna, o que levou o médico a recomendar sua amputação. A idosa, totalmente lúcida apesar de seus 96 anos, recusou-se a concordar com a cirurgia. Coube à filha mais nova ficar cuidando dela, enquanto suas irmãs se encarregavam das tarefas da casa.
Um dia, a filha surpreendeu-se ao ser chamada de “mãe”. Pensando tratar-se de um sinal de demência, corrigiu-a, dizendo que era filha, não mãe. A senhora concordou, afirmando que sabia disso, que sua cuidadora era a filha mais nova, mas explicou (explicação que nos fez emocionar e chorar abraçados):
- Eu perdi minha mãe quando eu tinha dois anos; quando meu pai faleceu eu tinha seis anos de idade. Por isso, nunca tive ninguém a quem chamar de mãe. E você me trata com tanto carinho, que me faz pensar que seria essa forma com que eu teria sido tratada pela mãe que perdi tão cedo.
Seis meses depois a idosa faleceu.
terça-feira, 28 de abril de 2026
COLOU!
Hoje nosso filho mais novo comemora seu aniversário, mas quem ganhou presente fui eu. Porque ele é um dos melhores presentes que ganhei em toda a vida. Difícil para um pai coruja e babão ter isenção para falar dos filhos a quem ama tanto sem se derramar em elogios. Mas ele e seus irmãos merecem isso, tal o carinho e preocupação que sempre demonstraram por nós, seus pais. É por isso que eu os chamo de "Fab Four” - uma referência aos Beatles – porque nossos quatro filhos são absolutamente geniais. E o “Tio Dani” (como é chamado pelas sobrinhas) é nosso George Harrison, o mais novo dos quatro.
sábado, 25 de abril de 2026
DADO
Outro dia, refletindo sobre isso, me ocorreu que a genética da família Alvarenga talvez tenha contribuído para tantos casos de demência na família “Alvarenga Botelho”, à qual pertenço. Vejam só: minha avó materna, sua irmã, minha mãe, meu irmão, um primo e uma prima seis anos mais jovens que eu e o caso mais bizarro atualmente: uma das irmãs de minha mãe de repente tira a roupa toda e fica nua dentro de casa. E esses são os casos que conheço!
Por outro lado, a família Botelho, de meu avô materno, parece ter recebido o oposto: uma genética arretada de boa para a longevidade. Um dos irmãos do meu avô morreu com 103 anos; a irmã mais velha de minha mãe viveu lúcida até os 104; fora tantos outros acima dos 90. Imagino que meu avô também viveria muito, se não tivesse sido atropelado a caminho da casa de sua segunda família (ele teve duas). Curioso, não?
Torço para que sejam premonitórias as palavras que ele disse um dia sobre mim – “aquele ali me puxou!”. Sobre meu irmão, infelizmente, não se poderia dizer o mesmo. Só sei que por enquanto, estou como o sujeito que despenca de um prédio muito alto e, antes de se esborrachar no chão, pensa: “até aqui está tudo bem”.
Mas estou divagando. O que eu queria registrar mesmo é o encontro que tive ontem com meu irmão, depois de dezesseis anos sem nos falarmos. “Por conta de umas questões paralelas”, paramos de conversar desde o dia em que disse que se lembraria que no ano em que nossa mãe faleceu, eu também morri para ele.
Fiquei meio puto com isso, mas meu espírito meio avacalhado me impediu de sofrer ou me preocupar mais do que devia. Cheguei a brincar que, nesse caso, só voltaríamos a nos falar no Centro Espírita Oriente – apesar de meus filhos e meu cunhado sempre insistirem para que eu mudasse de ideia. O problema é que eu sou doce no trato, mas um ogro nas decisões. E nem acredito em espiritismo
E assim ficou – até eu saber da doença. Acreditando que não haveria sentido em visitar quem nem se lembrava de ter um irmão, resolvi gravar uma mensagem de voz para que minha cunhada mostrasse para ele. Gravei mais ou menos isto:
Oi, Dado, aqui é seu irmão Zé – um irmão de quem você talvez nem se lembre mais, depois de tanto tempo sem nos falarmos. Mas hoje me deu uma vontade danada de te mandar uma mensagem, só para dizer que te amo, que sempre te amei e que nunca deixei de te amar.
Ao longo da minha vida, você foi meu ídolo, exemplo, mentor, incentivador, companheiro de brincadeiras na infância, meu melhor amigo, parceiro de baladas e roubadas quando já éramos jovens adultos. E isso eu nunca esquecerei.
O tempo, os equívocos, as palavras ditas de forma passional nos afastaram como se fôssemos inimigos. Mas nós não somos inimigos. Eu, pelo menos, nunca fui seu inimigo. Quando ainda ia à missa, eu rezava por você e para você.
Hoje estou velho, com 75 anos, cabelos brancos, barba branca. Às vezes me bate a sensação de que não vou viver muito mais. Por isso eu pensei em te mandar esta mensagem antes que eu me vá definitivamente, uma mensagem de amor fraternal.
Então é isso, cara: eu te amo muito. A vida inteira te amei.
Minha cunhada disse ter perguntado a ele se tinha gostado da mensagem. Ele apenas respondeu: “Não sei”. Achei graça da resposta e não fiquei mais triste do que já estou com as notícias que recebi sobre ele. Por isso, resolvi visitá-lo.
Depois de dezesseis anos sem vê-lo, encontrei um homem naturalmente envelhecido: um pouco encurvado, cabelos ralos, rugas, mas o mesmo olhar sério, a mesma expressão de impaciência que sempre exibiu. A diferença apareceu quando comecei a conversar e a fazer perguntas sobre nosso passado, sobre pessoas especiais. Mostrei a foto atual de meu filho mais novo, de quem é padrinho. "Não sei quem é". Falei da gata que estou namorando e a quem deu o endereço da casa onde morávamos: "Não conheço, não sei quem é".
Ao me despedir, disse que o tinha ido visitar apenas para abraçá-lo. E foi o que eu fiz com todo carinho, beijando também suas bochechas caídas. Voltei feliz para minha casa, mais feliz do que ao sair para visitá-lo. E esta é a mensagem final:
Não seja sovina quando o assunto é demonstração de afeto, amor ou amizade. Jamais deixe um abraço, um afago para depois. Tente ser um gastador compulsivo, um esbanjador de sentimentos positivos, pois ninguém consegue fazer estoque de emoções, de carinho, afeto ou amor que não demonstrou por alguém. Por isso, lamento que muita gente não se dê conta do absurdo prazer de escancarar o coração, da imensurável alegria de receber ou dar um abraço a quem se ama. Sem motivo, sem data especial, apenas porque isso é bom, simplesmente porque é ótimo. Para quem dá e para quem ganha.
OCULTO
Outro dia fiquei chocado com a cara de pau, a desfaçatez, com o ego gigantesco exibido pelo presidente de um país por aí, que resolveu imp...
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No meio da pandemia, assistindo televisão com minha mulher, ouvi um ator inglês dizer as palavras mágicas “Soneto 116 de Shakespeare”. Creio...
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A reverência hoje é para Millôr Fernandes, que faz parte da Santíssima Trindade do Humor no Brasil. Os outros dois podem ser qualque...
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Como sabem as pessoas que acessam este blog, minha mulher morreu em consequência de um câncer no fígado, descoberto quando já tinha surgid...
