segunda-feira, 15 de junho de 2026

FRASES E AFORISMOS DE ALBERT CAMUS

 
Outro dia, chamou minha atenção um vídeo em que um casal lia trechos de duas das centenas de cartas trocadas entre o prêmio Nobel de literatura Albert Camus e a atriz Maria Casarès, talvez a mais famosa de suas muitas amantes (ela era bom nisso). A título de curiosidade, a publicação dessas cartas resultou em um livro de 1.300 páginas. Talvez por isso, por conta de um “voyeurismo literário”, resolvi pesquisar frases que teria dito ou escrito. E este é o resultado da pesquisa. Para não tornar a leitura cansativa, as frases encontradas serão divididas em duas postagens. Bora lá.
 

Antes, a questão era descobrir se a vida precisava de ter algum significado para ser vivida. Agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado.

Não ser amado é falta de sorte, mas não amar é a própria infelicidade.

Às vezes, tudo que precisamos é de uma frase certa, no momento certo.

Vou-lhe dizer um grande segredo, meu caro. Não espere o juízo final. Ele realiza-se todos os dias.

Toda a infelicidade dos homens provém da esperança.

Não quero ser um gênio... Já tenho problemas suficientes ao tentar ser um homem.

Não se pode criar experiência. É preciso passar por ela.

O homem tem duas faces: não pode amar ninguém, se não se amar a si próprio.

Não há que ter vergonha de preferir a felicidade.

A imaginação oferece às pessoas consolação por aquilo que não podem ser e humor por aquilo que efetivamente são.

Sem a cultura, e a liberdade relativa que ela pressupõe, a sociedade, por mais perfeita que seja, não passa de uma selva. É por isso que toda a criação autêntica é um dom para o futuro.

Quando procuro o que há de fundamental em mim, é o gosto da felicidade que eu encontro.

A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente.

Se o homem falhar em conciliar a justiça e a liberdade, então falha em tudo.

O homem não é nada em si mesmo. Não passa de uma probabilidade infinita. Mas ele é o responsável infinito dessa probabilidade.

A grandeza do homem consiste na sua decisão de ser mais forte que a condição humana.

Sem dúvida, uma guerra é uma tolice, o que não a impede de durar. A tolice insiste sempre, e nós a compreenderíamos se não pensássemos só em nós.

O mundo romanesco não é mais que a correção deste nosso mundo, segundo o destino profundo do homem. Pois trata-se efetivamente do mesmo mundo.

É preciso tempo para viver. Como toda obra de arte, a vida exige que se pense nela.

O fascismo, na verdade, é o desprezo. Inversamente, qualquer forma de desprezo, se intervém na política, prepara ou instaura o fascismo.

A certeza de um Deus, que desse o seu sentido à vida, supera muito em atração o poder impune de fazer o mal.

Um mundo sem amor é um mundo morto e sempre chega uma hora em que se está cansado das prisões, do próprio trabalho e da devoção ao dever e tudo o que se deseja é um rosto amado, o calor e a maravilha de um coração amoroso.

Carregamos todos, dentro de nós, as nossas masmorras, os nossos crimes e as nossas devastações. Mas nossa tarefa não é soltá-los pelo mundo, e sim combatê-los em nós mesmos e nos outros.

O que se denomina razão de viver é ao mesmo tempo uma excelente razão de morrer

Buscar o que é verdadeiro não é buscar o que é desejável.

É necessário viver com o tempo e morrer com ele ou se subtrair a ele para uma vida maior.

A ociosidade só é fatal aos medíocres.

Quando todos são militares, o crime é não matar se a ordem assim o exigir.

Os homens só se convencem de nossas razões, de nossa sinceridade e da gravidade de nossos sofrimentos com a nossa morte.

Os homens são mais bons que maus, e, na verdade, a questão não está aí. Mas ignoram mais ou menos, e é a isso que se chama virtude ou vício, sendo o vício mais desesperado.

Os dias passam-se sem dificuldades desde que se tenham criado hábitos. Sob este aspecto, sem dúvida, a vida não é muito emocionante. Mas, ao menos, não se conhece entre nós a desordem.

A miséria é uma fortaleza sem ponte levadiça.

Amar uma pessoa é estar disposto a envelhecer com ela.

A percepção de que a vida é absurda não pode ser um fim, mas apenas um começo.

O pensamento de um homem é antes de mais nada sua nostalgia.

A paz é a única batalha que vale a pena travar.

Às vezes, continuar, apenas continuar, é a conquista sobre-humana.

A ausência de Deus, deixando o homem responsável por si mesmo, o condena a se revoltar. Do absurdo à revolta.

O homem não é inteiramente culpado, não foi ele que começou a história; nem

completamente inocente, já que ele a continua.

Se eu tivesse que escrever um livro sobre moral, ele teria cem páginas e noventa e nove seriam brancas. Na última eu escreveria: “Eu só conheço uma obrigação: a de amar”.

Às vezes, é preciso mais coragem para viver do que para se matar.

Não é necessário existir Deus para criar a culpabilidade, nem para castigar. Para isso, bastam os nossos semelhantes, ajudados por nós mesmos.

Agir, amar, sofrer, tudo isso é, na verdade, viver, mas é viver na medida em que se é lúcido e se aceita o destino, como o reflexo único de um arco-íris de alegrias e de paixões, que é igual para todos.

Cristo morreu sem saber… Deixou-nos sós para continuar… mesmo quando estamos na masmorra, sabendo o que Ele sabia, mas incapazes de fazer o que Ele fez, incapazes de morrer como Ele.

A revolta é uma ascese, se bem que cega. Porque o revoltado blasfema na esperança de um novo Deus.

A política e os destinos da humanidade são forjados por homens sem ideais nem grandeza. Aqueles que têm grandeza interior não se encaminham para a política.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

CARTA REGISTRADA

O amor é brega? Sim, pode ser. Mas é melhor ser do que não ter, concordam? Por ser hoje o Dia dos Namorados, o “Valentine’s Day” brasileiro, resolvi publicar um poema escrito apenas para ela, originalmente para ser lido apenas por ela.
 
Que os leitores me perdoem por não ser um Drummond, Vinícius, Bandeira, Cecília, Florbela, Quintana, Pessoa ou alguém dessa turma que faz literatura de altíssima qualidade. Eu só faço literatices, como estes versos simples, mas que refletem exatamente o meu momento, o que tenho sentido, a minha alegria, o meu astral. Tá ruim?
 
Você me disse um dia
Que sou muito romântico.
Talvez eu seja mesmo
Mas não do tipo genérico
Sempre teve CEP, endereço
Jamais atirado a esmo
Pois é destinado a você
Que me fez renascer, travesso
Alegre, feliz, remoçado.
 
Sonhos que mesmo acordado
Sempre serão sonhados,
Com você, para você, o tempo todo
Todo o tempo, enquanto eu viver.
 
Não quero me repetir, dizer clichês
Que alguém já disse antes,
Só quero contar, cantar, declarar
Para que todos possam me ouvir
Falar do amor real, intenso, incontido
Sentido acordado ou dormindo
Sonhando de olhos abertos
Pensando em você comigo 

quarta-feira, 10 de junho de 2026

QUANDO VIER A PRIMAVERA- ALBERTO CAIEIRO

 
Meu Deus, como era bom o Alberto Caieiro, ou melhor, o multifacetado Fernando Pessoa(s)! Queria ser capaz de escrever com um décimo, um vigésimo da beleza de suas palavras!
 
Quando vier a primavera, 
Se eu já estiver morto, 
As flores florirão da mesma maneira 
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada. 
A realidade não precisa de mim.
 
Sinto uma alegria enorme 
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
 
Se soubesse que amanhã morria 
E a primavera era depois de amanhã, 
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. 
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? 
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; 
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. 
Por isso, se morrer agora, morro contente, 
Porque tudo é real e tudo está certo.
 
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. 
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. 
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. 
O que for, quando for, é que será o que é.
 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

UM POETA PORTUGUÊS

 

Fiquei sabendo da existência do psiquiatra e escritor português António Lobo Antunes (atenção para o acento agudo!), graças a uma entrevista em que falava de sua motivação para escrever. Nesse vídeo antigo ele lembrou um episódio que o marcou muito e que me comoveu. Por isso, saí buscando pela internet e encontrei este texto, em que fala do mesmo assunto:
 
Às vezes sentia-me indignado. No estágio de pediatria, em que me puseram ao serviço de crianças com doenças terminais: porque é que crianças de três, quatro anos, iam morrer e sofriam tanto? Qual o sentido disto? A pessoa zanga-se com Deus. Eu zangava-me. Contei isto numa crónica: um miúdo de que gostava muito morreu. O empregado embrulhou-o num lençol. Eu estava na porta das enfermarias e vi o homem afastar-se com o miúdo morto ao colo e um dos pés saía do lençol. Isto continua dentro de mim. Às vezes penso que escrevo para este pé.
 
Pelo que descobri, foi um escritor mega laureado. Descobri também no site “O Pensador” algumas de suas frases e observações, sempre ótima matéria prima para postar no Blogson. Lêaí:
 

Não sou uma pessoa muito alegre. Sou introvertido. Fechado. Cheio de dúvidas. Não me é fácil viver comigo. Parece que estou sempre em guerra civil.

Sempre gostei de estar com o que chamam "pessoas humildes". Foi com essas que aprendi mais.

Não estou à procura de nada. A gente não procura, encontra. Uma das coisas que me agrada na vida é a imprevisibilidade do futuro. Claro que é aborrecido se o futuro for desagradável. Mas enquanto houver futuro, a nossa vida tem um sentido, e uma razão.

Tive sempre a sensação que um livro é um organismo vivo que nos escapa.

Cada palavra conseguida é como uma pedra que retiro de um poço. Quanto maior é a experiência e a maturidade literária, tanto maior se compreende o caminho que ainda falta percorrer.

Quem me assassinou para que eu seja tão doce?

Quando um coração se fecha, faz muito mais barulho do que uma porta.

Só há grupos onde existem fraquezas individuais.

A cultura é uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo escravo

Nunca falamos muito, acho que nunca falamos nada. E não sinto necessidade de começar agora. O que poderia dizer? Existem séculos e séculos de silêncio entre nós e, debaixo dos séculos do silêncio, ocultas lá no fundo, se calhar esquecidas, se calhar presentes, se calhar apagadas, se calhar vivas e a doerem-me, coisas que prefiro não transformar em palavras, coisas anteriores às palavras...

Não digas nada, dá-me só a mão. Palavra de honra que não é preciso dizer nada, a mão chega. Parece-te estranho que a mão chegue, não é, mas chega. (...) Se calhar sou uma pessoa carente. Se calhar nem sequer sou carente, sou só parvo.

Há momentos e situações em que o olhar comunica mais que as palavras, isso também é intimidade. Creio que sou capaz de dizer muitas coisas sem falar, é o outro que também tem de compreender e de saber interpretar. Quando se estabelece essa relação de intimidade e de amizade, não é necessário falar. (...) Frequentemente é melhor não o fazer porque as palavras estão muito gastas.

Não há ninguém que eu odeie, acho que dá muito trabalho odiar. Há é pessoas que me são indiferentes.

Muitas vezes as coisas que nos tocam mais são aquelas que na altura em que estão a acontecer nem nos apercebemos.

Os romances maus contam histórias, os bons romances mostram-nos a nós mesmos.

Quanto mais silêncio houver num livro, melhor ele é. Porque nos permite escrever o livro melhor, como leitor.

Quando se critica, estamos a julgar. Se julgarmos já não compreendemos, porque julgar implica condenar ou absolver.

Não sou um senhor de idade que conservou o coração menino. Sou um menino cujo envelope se gastou.

Nós somos casas muito grandes, muito compridas. É como se morássemos apenas num quarto ou dois. Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas.

Os livros que escrevi trazem o meu nome mas tenho dificuldade em encontrar os seus autores. Só aquele que estou a escrever é feito por mim, os restantes parece-me sempre terem sido outros homens que os compuseram.

Em todo o caso hoje não estou para ninguém. Não quero piedade. Não quero consolo. Não quero sorrisos de esperança. Quero imaginar o futuro sabendo que existe uma parede a interromper-me os dias. Os outros caminham para lá da parede. Eu fico deste lado.

Temos tendência para transformar as nossas opiniões pessoais em verdades universais e rejeitar tudo o que não encaixe na nossa grelha de valores.

O ato de ler é criativo e implica humildade.

São precisas três coisas para escrever: paciência, solidão e orgulho.

Um livro não está na cabeça, está na mão. Um livro não se faz com ideias. É o livro que tem de ter as ideias, não é o autor. O livro tem que ser mais inteligente que o autor.

A democracia implicava um constante referendar pelo povo das decisões do poder. Não existe.

É claro que me zango com Deus porque permite o sofrimento, mas talvez os seus desígnios tenham tais profundezas que não atinjo.

O sofrimento sempre me foi incompreensível porque nascemos para a alegria.

Eu continuo a aprender. Tenho muito que aprender, ainda. Acho que tenho uma noção parcial daquilo que estou a fazer.

Um parvo em pé vai mais longe que um intelectual sentado.

Temos tendência para transformar as nossas opiniões pessoais em verdades universais e rejeitar tudo o que não encaixe na nossa grelha de valores.

 

 

domingo, 7 de junho de 2026

SETENTA E SEIS

 

Já tive sonhos, juventude e alegria

Também saúde, dentes e amizades

Mas invejava quem mostrava e exibia

Tudo ter daquilo que não possuía

Hoje tenho o oposto disso: muita idade,

Que trouxe depressão, melancolia

Também tristeza, solidão, fragilidade

Que esperava que eu sentisse? Euforia?

PARABÉNS PRA VOCÊ

 
Mais uma vez o anjo negro da madrugada me fez acordar às três da manhã. Sua pontualidade me irrita, por me colocar em contato e sintonia com o dia que ainda não amanheceu. Nada tenho a fazer de útil, nada quero fazer de útil, só quero voltar a dormir, mas ele não deixa. Entra em minha mente e expulsa de lá todos os pensamentos felizes, deixando apenas aqueles que provocam um gosto amargo na boca. Cretino!
 
Agora, ao acordar, me lembro de estar completando 76 anos de vida. Não tenho dúvida de que serei cumprimentado por isso, que me desejarão muitos anos de vida e saúde. Isso me constrange, pois preciso sorrir, agradecido. Quem faz 76 anos sabe que não existirão mais muitos anos de vida nem saúde. E, pior é pensar, sentir, saber que não há mudanças reais a acontecer. Os dias remanescentes se sucederão sem novidades, sem esperança, sem alegria, tal como aconteceu com seus antecessores. Porque não há na maioria das vezes uma ruptura real da forma como se tem vivido, não há edição ou substituição do algoritmo mental que controla a sua vida.
 
Como cantou/ensinou o Belchior, “não se preocupe com os horrores que eu lhe digo, a vida realmente é diferente, quer dizer, ao vivo é muito pior”. Ou, como disse o poeta António Lobo Antunes, “Em todo o caso, hoje não estou para ninguém. Não quero piedade. Não quero consolo. Não quero sorrisos de esperança. Quero imaginar o futuro sabendo que existe uma parede a interromper-me os dias. Os outros caminham para lá da parede. Eu fico deste lado”. Bom dia!

 

FRASES E AFORISMOS DE ALBERT CAMUS

  Outro dia, chamou minha atenção um vídeo em que um casal lia trechos de duas das centenas de cartas trocadas entre o prêmio Nobel de liter...