sexta-feira, 16 de outubro de 2026

O TEMPO - MÁRIO QUINTANA

 

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são seis horas!

Quando se vê, já é sexta-feira!

Quando se vê, já é natal…

Quando se vê, já terminou o ano…

Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.

Quando se vê passaram 50 anos!

Agora é tarde demais para ser reprovado…

Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.

Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…

Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…

E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.

Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.

A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

ZEZÉ



Fiquei aturdido ao receber a notícia do falecimento da minha comadre Zezé, por complicações decorrentes de uma cirurgia de ponte de safena. Maria José (como eu a chamava) era minha amiga desde 1975, ano em que se casou com o Tinho e foi morar na casa ao lado da nossa. Nós também nos casamos naquele ano.
 
Engraçada, superdesbocada, adorava minha mulher, a quem chamava de amiga-irmã. Ficou devastada quando uma doença cruel interrompeu essa amizade, a mesma doença que abreviou a vida de seu amado Tinho, o médico Dr. Wilton.
 
Nossa relação era tão próxima que Zezé e Tinho foram padrinhos de batismo de nosso terceiro filho. Anos depois, já viúva, foi convidada para ser madrinha de uma das gêmeas de outro filho nosso. De vez em quando, ligava dizendo estar com saudade de nós, de mim. E conversava durante duas horas ou mais, sem se preocupar com o tempo ou o horário.
 
Agora, não haverá mais telefonemas, nem aquelas conversas intermináveis. É estranho pensar que alguém que fez parte de nossas vidas durante tantos anos simplesmente deixa de estar ao alcance. Sabemos que a pessoa morreu, mas há uma sensação de estranhamento por não poder mais ouvi-la, contar-lhe alguma coisa, saber das novidades. A vida continua, mas uma parte dela já não pode ser compartilhada com quem sempre esteve ali.
 
Conheço bem essa sensação. Desde a morte de minha amada Lily, ela me visita nos momentos mais banais: ao olhar uma fotografia antiga, procurar algum objeto ou tentar preparar algum alimento minimamente comestível. De repente, sinto a presença-ausência de quem compartilhou comigo uma história de 55 anos. É quando a realidade da perda se impõe, não como uma grande tragédia, mas como a impossibilidade miúda e definitiva de continuar vivendo certas coisas juntos.
 
Lembro-me, então, de um verso lindo escrito por Ronaldo Bastos e cantado por Beto Guedes, numa música feita em homenagem a Elis Regina, que havia morrido pouco antes:
 
“Dói de tanto medir a distância, saber que não vou te tocar além da lembrança”.
 
Talvez seja essa a maior estranheza da morte: a pessoa continua tão presente em nossa memória, tão misturada à nossa história, que custamos a aceitar que não esteja mais aqui. E, no entanto, não está. O que antes era convivência agora é só lembrança, e a lembrança, por mais viva que seja, não atende ao telefone.
 
Mesmo sem acreditar em vida depois da morte, gosto de imaginar que Zezé e minha mulher devem agora estar tomando uma cerveja e atualizando a conversa. E têm toda a eternidade para colocar a prosa em dia.
 
Escutaí a música.







quarta-feira, 14 de outubro de 2026

CAFÉ SOÇAITE – JORGE VEIGA

 Alguns pensamentos, provocados por frases que leio ou ouço, demoram a me abandonar. A mais recente é: “Existe vida mais barata, mas não presta não”.

Lembrei-me, então, de uma música gravada em 1954, cuja letra ironiza o esnobismo e a futilidade da elite social e econômica do Rio de Janeiro — uma sátira que combina com a frase que me ficou na cabeça.

Como a letra faz referências a personalidades daquela época, resolvi “traduzi-la” para os leitores de hoje.


 
Doutor de anedota e de champanhota
Estou acontecendo no café soçaite
Só digo enchanté, muito merci, all right
Troquei a luz do dia pela luz da Light
 
Agora estou somente contra a Dama de Preto
Nos dez mais elegantes, eu estou também
Adoro Riverside, só pesco em Cabo Frio
Decididamente, eu sou gente bem
 
Enquanto a plebe rude na cidade dorme
Eu ando com o Jacinto, que é também de Thormes
Terezas e Dolores, falam bem de mim
Eu sou até citado na coluna do Ibrahim
 
E quando alguém pergunta: como é que pode?
Papai de Black-tie, jantando com o Didu
Eu peço mais um whisky embora esteja pronto
Como é que pode? Depois eu conto

Café Soçaite: corruptela de Café Society, expressão que designava a alta sociedade, formada por milionários, aristocratas, celebridades, artistas e boêmios.

Ibrahim: Ibrahim Sued, jornalista e colunista social, um dos principais nomes do colunismo social brasileiro. Ficou conhecido também pelas gafes, muitas vezes aparentemente propositais, no rádio e na televisão.

Dama de Preto: personagem criada por Ibrahim Sued para fazer críticas anônimas e mordazes à sociedade carioca.

Jacinto de Thormes: pseudônimo de Maneco Müller, jornalista, cronista esportivo e pioneiro do colunismo social no Brasil.

Thereza e Dolores: Thereza de Souza Campos e Dolores Guinle, duas figuras conhecidas da alta sociedade carioca.

Didu: apelido de Carlos Eduardo de Souza Campos, banqueiro e personagem destacado da sociedade carioca. Foi casado com Thereza de Souza Campos.

Pronto: gíria antiga para designar quem estava sem dinheiro.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

SAUDADE DE MIM

 
Ontem, ouvindo meu filho tocar Beatles no trompete
 Revivi emoções já sentidas antes,
Talvez modificadas pela passagem do tempo.
 
Senti saudade de um tempo há muito vivido.
Pensando bem, senti saudade de mim,
De quando não sentia saudade de nada nem de ninguém.
E tudo o que eu queria era cantar músicas dos Beatles.
 
E tudo o que acontecia era estar apaixonado por alguém.
E tudo o que eu desejava era que alguém se apaixonasse por mim
Ao me ouvir cantar “If I Fell in Love with You”
Ou outra balada romântica da banda.
 
Hoje, meu violão não soa bem e eu
Esqueci as letras que gostava de cantar.

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

ESCALA DE VALORES

 
A mensagem “Tem vida mais barata, mas não presta, não!” teria sido enviada por um dono de cartório a um amigo. Mas caiu na rede, viralizou e até virou letra de música. Eu não a conhecia – até uma mulher muito rica tê-la dito para mim com um sorriso malicioso no rosto lindo.
 
Claro que era uma ironia, embora revelasse uma maneira de pensar que não é exclusiva de quem a enunciou. Minha reação foi de perplexidade, pois por trás da ironia, enxerguei um sarcasmo cruel, revelador de uma visão elitista e deslumbrada da vida. Incomodado, pedi a uma IA uma análise sociológica da frase. Eis o resultado:
 
“A expressão popular ‘tem vida mais barata, mas não presta, não’ reflete um cruzamento entre a cultura da ostentação, o hedonismo e a mercantilização do status social na sociedade contemporânea. Do ponto de vista sociológico, a frase sintetiza a ideia de que a dignidade, a felicidade e o bem-estar são equiparados ao poder de consumo
.
Em contraposição, a qualidade de vida deixa de ser medida pelo tempo livre, pela paz de espírito ou pelas relações afetivas, e passa a ser validada por gastos materiais — camarotes open bar, iates, carros importados e festas.
 
Ao afirmar que a vida mais barata ‘não presta’, o discurso descarta as formas de existência que escapam ao ciclo de acumulação e exibição de riquezas, estigmatizando a simplicidade como sinônimo de fracasso ou tédio.
 
O estilo de vida defendido nessa máxima aposta no prazer imediato e efêmero. Frases como essa também são apropriadas ironicamente por elites ou grupos privilegiados para naturalizar desigualdades, como quem diz que manter um padrão excludente e caro é a única forma ‘civilizada’ de existir, ignorando que a ‘vida barata’ é a realidade compulsória da maioria da população”.
 
E é aí que entra outra ironia: afinal, o que é uma vida barata? Para Elon Musk, trilionário, talvez seja a de quem dispõe de apenas alguns bilhões e nem aparece nas listas da Forbes. Para o assalariado que chega ao fim do mês sem dinheiro, talvez seja a de quem depende do Bolsa-Família.
 
Foi o que me ocorreu ao ouvir aquela frase, dita com um sorriso por uma mulher linda. Porque, feitas as contas e comparada com a sua, a minha vida talvez seja uma dessas vidas baratas que, segundo ela, não prestam.

Se ela realmente enxerga a vida dessa maneira, onde eu me encaixo na sua escala de valores?

domingo, 11 de outubro de 2026

SORRI – DJAVAN

 
Por questões de "foro íntimo", resolvi mover esta postagem de 2024 para hoje. Tanta coisa aconteceu desde então! E a música é linda, atemporal.

Para quem não conhece, Ryk@rdo é um poeta português de gosto sofisticado e mestre em escrever belos poemas com rima e métrica impecáveis. Hoje, ao acessar seu blog “Pensamentos e Devaneios Poéticos” (recomendo!) o primeiro verso de sua publicação mais recente – “Sorri quando não há sol ao amanhecer"  – me fez lembrar da versão brasileira da música “Smile” composta por Charlie Chaplin. E este presente é que deixo para os leitores nesta sexta-feira. Letra de Braguinha e música de Charlie Chaplin na voz de Djavan..
 
https://www.youtube.com/watch?v=LnKJKCZT5Jw
 
Sorri
Quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos, vazios
 
Sorri
Quanto tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
 
Sorri
Quando o Sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados, doridos
 
Sorri
Vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorries
Todo mundo irá supor
Que és feliz...
 
Sorri
Vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorries
Todo mundo irá supor
Que és feliz

 

 

sábado, 10 de outubro de 2026

DA ESTUPIDEZ – DIETRICH BONHOEFFER


 
Assisti no Instagram a um vídeo interessantíssimo com a leitura de um texto do pastor luterano e teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer. Não sei se que acessa o blog conseguirá conectar-se com este link. Em todo caso, é este: 
https://www.instagram.com/reel/DeEbduPucQE/?xtok=MWFvaHoyeTJidWthYg==ão
 
Bonhoeffer era um ferrenho opositor do nazismo e chegou a participar de uma tentativa de assassinar Hitler. Por causa de sua resistência ao regime, acabou preso e enviado para um campo de concentração, onde foi executado apenas uma semana antes da libertação do campo pelas tropas soviéticas. Baita sacanagem, concordam?
 
O texto que foi transformado em vídeo é este. Tão lúcido e tão atual que não resisti a procurá-lo para publicá-lo no Blogson. Espero que gostem e, sobretudo, que reflitam sobre o que Bonhoeffer escreveu.
 
A estupidez é mais perigosa que a maldade. Contra o mal se pode protestar; o mal pode ser exposto, revelado; pode também ser evitado, se necessário, até pela força; o mal sempre carrega o germe da autodecomposição, deixando pelo menos um desconforto naquele que o pratica. Diversamente, não há como se defender da estupidez. Nada pode ser feito aqui com protestos ou com violência; razões não a convencem; simplesmente não se dá crédito a fatos que contradigam o próprio preconceito – em tais casos, o estúpido se torna ainda mais resistente – e se esses fatos são incontestáveis, podem com facilidade ser postos de lado como casos isolados e sem sentido.
 
O estúpido, ao contrário da pessoa má, sente-se completamente satisfeito consigo mesmo; sim, ele até se torna perigoso, enfurecendo-se facilmente quando é refutado. Portanto, a relação com o estúpido exige muito mais cautela do que com a pessoa má. Nunca se há de convencer o estúpido pela razão – é inútil e perigoso. Para saber lidar com a estupidez, é preciso antes procurar entender sua natureza. Não se trata essencialmente de um defeito intelectual, mas algo que atinge a humanidade do sujeito. Tanto é assim que existem pessoas de inteligência extraordinariamente ágil que são estúpidas e pessoas intelectualmente pesadas que podem ser tudo, menos estúpidas.
 
Para nossa surpresa, chegamos à seguinte conclusão: parece que a estupidez não é propriamente um defeito congênito, mas um processo em que as pessoas se tornam estúpidas sob certas circunstâncias, ou deixam-se fazer estúpidas de forma recíproca. Também observamos que a estupidez aparece mais em pessoas ou grupos propensos ou condenados a viver em comum do que em pessoas mais fechadas, reservadas e solitárias. Assim, parece que a estupidez é um problema mais sociológico do que psicológico. É uma forma especial de influência das circunstâncias históricas sobre o homem, isto é, uma consequência psicológica de certas circunstâncias externas. Em uma análise mais detalhada, verifica-se que toda forte expansão externa do poder, seja política ou religiosa, golpeia um grande número de pessoas com estupidez. Sim, parece que é uma lei psicológica e sociológica. O poder de alguém precisa da estupidez de outrem.
 
O processo não é que, de repente, algumas faculdades – como a intelectual – definhem ou fracassem, mas sim que a independência interna da pessoa vai sendo roubada pela impressão esmagadora do desenvolvimento do poder, até que - mais ou menos inconscientemente – essa pessoa renuncia a encontrar seu próprio comportamento em relação às situações que a vida lhe apresenta.
 
O fato de o estúpido ser muitas vezes teimoso não significa que ele seja independente. Conversando com ele, você quase pode sentir que seu discurso nem sequer tem a ver com ele mesmo, com aquilo que o constitui. Trata-se de frases de efeito, slogans e chavões que se apoderaram dele. Ele está enfeitiçado, cego, abusado e maltratado em sua própria natureza. Tornando-se assim um instrumento sem vontade própria, o estúpido será capaz de todo o mal e, ao mesmo tempo, incapaz de reconhecer-se mau ou de reconhecer maldade em seus atos. Aqui está o perigo de um abuso diabólico. Como resultado, as pessoas serão destruídas para sempre.
 
Disso decorre que somente um ato de liberação – e não um ato de instrução – poderá superar a estupidez. Na grande maioria dos casos, para superar a estupidez, a pessoa terá de aceitar que uma genuína libertação interior só se tornará possível após a libertação externa; até então, sem essa condição, teremos que desistir de todas as tentativas de convencer os estúpidos. A propósito, nesse estado de coisas, fica bem claro que em tais circunstâncias é vão tentar saber o que "o povo" realmente pensa, mesmo porque, ao mesmo tempo - nessas dadas circunstâncias – qualquer resposta seria supérflua para o pensador e realizador responsável.
 
A Palavra da Bíblia que diz que o temor de Deus é o começo da sabedoria (Salmos 111: 1); diz que a liberação interior dos humanos, para uma vida responsável diante de Deus, é a única verdadeira superação da estupidez.
 
De resto, esses pensamentos sobre a estupidez são reconfortantes, pois não permitem tratar a maioria das pessoas como estúpidas a todo custo. Realmente, isso dependerá da tendência dos Poderes Instituídos, vale dizer, se querem tornar seu povo estúpido ou se buscam a independência interior e sabedoria de seus governados.

O TEMPO - MÁRIO QUINTANA

  A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são seis horas! Quando se vê, já é sexta-feira! Quando se vê...