domingo, 29 de março de 2026

BILHETE

 
Talvez um dia se canse de mim
Ou eu poderei ter morrido –
Porque a Vida acaba sendo assim,
Após tantos anos vividos.
 
Mas guarde ser esta certeza:
Um sonho de juventude
Que não pude viver
Em sua total plenitude.
 
Estranha ironia a manter um
Magnetismo latente, guardado,
Que atraiu, cativou e seduziu,
Sempre que estive ao seu lado.
 
A atração desabrochou, decidida
A se mostrar, se impor, me abduzir
Colorindo momento cinzento, aflito,
Ao abrigar um desabrigado, ao relento,
 
Náufrago enfim socorrido
Oxigênio então fornecido
Reanimado e até revivido
Num boca a boca vital
 
Quando encerrado esse ciclo
Eu sei, terei na boca um sorriso
Por saber enfim ter vivido
O sonho sonhado, afinal.


sábado, 28 de março de 2026

PODE ME CHAMAR DE UALTERLAISSON

 
 
Hoje acordei incomodado como se estivesse com dor de dente. Mas não era dor física, era um desconforto que me acompanha desde quando era criança. A dor de me chamar José. Está achando graça ou duvidando? Pois eu te digo que é tão ruim quanto ter no registro civil o nome Ualterlaisson. Meu nome é José, o apelido é Zé.
 
Quer coisa mais sem graça que ser um desenxabido Zé? Às vezes acompanhado de complementos pejorativos tipo Zé Mané, Zé Ruela, Zé Ninguém. É foda ser apenas um zé na multidão. Fico pensando como devem se sentir os zés de outros países. Será que já pensaram em mudar o nome para “Ualterlaisson”?
 
Bom, eu nunca pensei, mas quis ser chamado de Ricardo na adolescência – ou Ronaldo. Hoje, já no ocaso da minha vida como Zé, pensei em aproveitar os apelidos para os zés de outras línguas. E aí fiz esta súplica ao ChatGPT:
 
Eu detesto meu nome, por ser apenas José. Se eu acrescentar os sobrenomes de minha mãe e meu pai (e meu nome oficial é assim) vira um jogo de palavras vulgar e pornográfico, pois "José Botelho Pinto" vira "José, botei-lhe o pinto". 
E Zé muitas vezes recebe complementos depreciativos ou insultuosos: Zé ninguém, zé ruela, zé mané, zé cai n'água, etc. Já que não posso alterar meu nome de batismo, qual apelido você sugeriria para mim? No blog eu utilizo Jotabê, mas no dia a dia eu não gosto. Pode me ajudar?”
 
E o ChatGPT ensinou que o hebraico Yosef fica assim em alguns países civilizados (por que “civilizados”? Porque sim, oras!):
 
Alemão: Josef – apelido: Sepp
Espanhol: José – apelidos: Pepe, Chepe
Finlandês: Joosef - apelido: Joose, Joosu, Jo
Francês: Joseph – apelido: Jo
Grego: Iosif – apelido: Sifis
Holandês: Jozef – apelido: Joop
Inglês: Joseph – apelidos: Joe, Joey
Italiano: Giuseppe – apelidos: Beppe, Peppino
Japonês: Josefu  (adaptação fonética) – Joe, inspirado no inglês
Polonês: Józef – apelido: Józek
Russo: Iosif – apelido: Osya
Sueco: Josef – apelido: Joppe
 
Mas a impertinente IA, sempre aflita e disposta a ajudar, ainda sugeriu adotar como apelido o brasileiríssimo “Zeca” – ou “Joca”, “Jota” ou “Josi”. Nesse ponto eu interrompi a conversa. 

Josi... Onde já se viu um marmanjo heterossexual, cisgênero e de austera barba branca aceitar ser chamado de “Josi”? Preciso explicar? E Zeca? Basta algum cretino acrescentar “Gay” ao apelido, que dá merda. Entendeu ou quer que desenhe?
 
Por isso, atendo-me apenas aos apelidos de outras línguas, percebo a dificuldade de escolher um apelido decente para o pobre Jotabê (“Zezinho” no seio da família). Se não, vejamos:
Alemão: Sepp
Espanhol: Pepe, Chepe
Finlandês: Joose, Joosu, Jo
Francês: Jo
Grego: Sifis
Holandês: Joop
Inglês: Joe, Joey
Italiano: Beppe, Peppino
Japonês: Joe
Polonês: Józek
Russo: Osya
Sueco: Joppe
Português: Zeca, Joca, Jota, Zé, Zezé...
 
Dá para imaginar o velho e alquebrado Jotabê de repente pedindo para ser chamado de Joosu, Pepe ou Sifis? Ou, pior ainda, Peppino, Jósek, Osya, Zeca ou Zezé? Definitivamente me recuso a pensar nessas sandices. Porque, se vier a pensar assim, eu mesmo pedirei minha interdição. E ainda entrego a senha do banco (Master)!
 
Acho que não tenho escapatória – nem mesmo enfrentatória (o contrário de escapatória, entendeu?): a solução é continuar usando o surrado, espancado, criticado Jotabê. Ou então passar a assinar Ualterlaisson. Fui (ou ainda parti, saí).

 



 

quinta-feira, 26 de março de 2026

MIXARIA

 Deu no G1: STF limita 'penduricalhos', mas cria novo teto salarial e pode pressionar gastos públicos


O BEIJA-FLOR ARTILHEIRO

 
Estimulado pela postagem lida no blog “As Crônicas do Edu”, resolvi fazer um comentário sobre o post dedicado ao simpaticíssimo Dadá Maravilha. Meu comentário lembraria outro apelido desse jogador: Dario Peito de Aço. Por não entender nada e nem me sentir atraído por futebol, recorri ao pai dos muito burros, ou melhor, a mãe dos mesmos. E achei uma porrada de frases ditas pelo helicóptero Dadá Maravilha. Aí não deu outra: claro que essas frases seriam a matéria prima de novo post.
 
Esta a explicação dada por seu autor: “Eu não era um Pelé, não driblava como o Zico. Eu parei e pensei: nem preciso sonhar que por aí não vai dar. Eu tenho que ser diferente, criar alguma coisa. Eu vou ser romântico, vou ser um poeta. Foi assim que eu comecei a inventar frases”. E que frases!

Não venham com a problemática, que eu tenho a solucionática.

Me diz o nome de três coisas que param no ar: beija-flor, helicóptero e Dadá Maravilha.

Pra pegar Dadá na corrida, só se for de táxi.

Não existe gol feio. Feio é não fazer gol.

Um rei tem que ser sempre recebido por bandas de música.

Pra fazer gol de cabeça era queixo no peito ou queixo no ombro.

Com Dadá em campo, não há placar em branco.

Pelé, Garrincha e Dadá tinham que ser currículo escolar.

Faço tudo com amor, inclusive o amor.

Nunca aprendi a jogar futebol pois perdi muito tempo fazendo gols.

Só existem três poderes no universo: Deus no Céu, o Papa no Vaticano e Dadá na grande área.

A área é o habitat natural do goleador; nela, ele está protegido pela constituição, se for derrubado é pênalti.

Num time de futebol há nove posições e duas profissões: goleiro e centroavante.

Bola, flor e mulher, só com carinho.

Fiz mais de 500 gols, só correndo e pulando.

Quando eu saltava, o zagueiro conseguia ver o número da minha chuteira.

São duas coisas que eu não aprendi: Jogar futebol e perder gol!

Melhor do que Dadá, só Jesus Cristo!

Futebol não pode ficar acima da educação, não!

Chuto tão mal que no dia em que eu fizer um gol de fora da área, o goleiro tem que ser eliminado do futebol.

Se minha estrela não brilhar, vou lá e passo lustrador nela.

Deixando a modéstia de lado, falando de futebol, eu falo o que eu sei, sou um expert, com doutorado nessa matéria. No futebol, eu sou o máximo, conheço tudo e sou atleticano.

Se o gol é a maior alegria do futebol, foi Deus quem inventou Dadá, porque Dadá é a alegria do povo.

Dadá não é eterno. Sua história será eterna.

 

quarta-feira, 25 de março de 2026

MAIS UM NA MULTIDÃO - ERASMO CARLOS E MARISA MONTE

Hoje, enquanto estava dirigindo, vi um backbus da Unimed, uma frase estampada no vidro traseiro do ônibus que estava à minha frente. Esta era a frase: “A vida é grande demais para se viver sozinho”, extremamente apropriada para meu atual momento. E aí me lembrei de uma música do Erasmo Carlos (a melhor parte da dupla Roberto & Erasmo), que ele gravou com a Marisa Monte.
 
Eu sempre gostei dessa música, que, pela delicadeza de letra e melodia, lembra aqueles namoros da adolescência. Por isso resolvi compartilhar o vídeo de sua apresentação ao vivo. Antes, porém, só um causo da época em que eu era adolescente.  Eu sempre achei a Jovem Guarda uma coisa brega, pois apesar de pobre, muito pobre, eu era um pobre elitista. E beatlemaníaco. Estava sem grana e fiquei na porta da sede social do Cruzeiro Esporte Clube, onde estava acontecendo uma daquelas "horas dançantes" tradicionais. 
 
Foi quando chegou o Erasmo Carlos, para fazer um show dublado, na base do playback. Um conhecido, de sacanagem, gritou para ele: "Oi, primo!" O Erasmo olhou de relance e entrou no clube. E nós continuamos do lado de fora.
 
Depois disso, eu, beatlemaníaco fundamentalista, passei a gostar de algumas músicas compostas só por ele ou em dupla com o caretíssimo Roberto Carlos. Esta é uma delas. E já não sou um beatlemaníaco fundamentalista (mesmo que continue a ser elitista).  Escutaí.

 




terça-feira, 24 de março de 2026

PESCARIA

 
 
Nunca li nada do Guimarães Rosa e a explicação é simples e patética: não tenho o costume de comprar livros, lendo apenas os que ganho. Mesmo assim, imagino que deve ser uma boa leitura, sofisticada, inesperada, como imagino que seja o conto “A terceira margem do rio”.
 
Então, é presunção querer utilizar o título desse conto do Guimarães só para fazer uma metáfora política. Mesmo assim, vou fazer, por já estar cansado, de saco cheio dos disse-me-disse entre Esquerda e Direita, das ofensas e desabafos contidos em expressões como intelectualoide, petralha, direitalha e assemelhados.
 
Por exemplo, se alguém me chamar de “comunista” eu ficarei extremamente ofendido, puto mesmo. Por outro, lado se algum petista me chamar de “bolsonarista” eu ficarei tentado a mandá-lo à puta que o pariu. Eu quero é distância dos extremos!
 
Por isso, utilizo agora a metáfora que imaginei para deixar clara minha posição ideológica (saco cheio desta palavra também!): eu não pesco nem na margem direita nem na margem esquerda de um rio; eu pesco apenas na terceira margem, que é onde tem peixe grande.
Gostaram da analogia?

segunda-feira, 23 de março de 2026

HUMANISMO É IDEOLOGIA?

 
Algumas pessoas se orgulham em afirmar que “pensam fora da caixa”. Cara, eu nem quero saber se existe uma caixa! O que eu quero é liberdade de pensamento, sem me prender a dogmas, ideologias, regras ou decretos. O genial Millôr Fernandes assim definiu ideologia: “Bitola estreita para orientar o pensamento” e completou: “A ideologia leva à idolatria, à feitura e adoração de mitos. E, finalmente, ao boquete ideológico”.
 
Acho que essa é a receita. Assim, estou pouco me lixando para os anjos e assombrações da Esquerda e da Direita. Fui educado para ser bem-mandado, do bem – um fiel e obediente cidadão. Com essa educação reconheço e obedeço às leis existentes e às normas mais rígidas em vigor. Dura lex, sed lex, como dizia um vizinho.
 
Nasci no Brasil, mais precisamente na capital de Minas Gerais, e moro no bairro mais boêmio da cidade. Paradoxalmente, não bebo uma gota sequer de álcool nem esquento a bunda nas cadeiras das dezenas de bares, restaurantes e muquifos espalhados pelo lugar.
 
Talvez por isso eu sempre tenha achado estranhas as regras, modelos, modismos e valores cultuados e defendidos por esta ou aquela tribo, partido ou ideologia. Esse estranhamento me leva a pensar que minha única ideologia é o humanismo. Que, para falar a verdade, nem quero saber se é ideologia ou não.
 
Para ser sincero, outra coisa que também desprezo e abomino – mesmo que as respeite e entenda , são as bandeiras, limites e fronteiras. A única fronteira que faz sentido para mim é a estabelecida pela camada de ozônio que protege a Terra. O resto é detalhe. Fui.

BILHETE

  Talvez um dia se canse de mim Ou eu poderei ter morrido – Porque a Vida acaba sendo assim, Após tantos anos vividos.   Mas guarde ser esta...