segunda-feira, 26 de outubro de 2026

DA ESTUPIDEZ – DIETRICH BONHOEFFER


 
Em "homenagem" às divergências ideológicas expostas na eleição do próximo presidente, resolvi mover para hoje, dia 26 de novembro, um texto originalmente publicado em 10 de novembro, não pelo resultado final, mas por uma frase dita por alguém do lado perdedor ainda durante a apuração (recuso-me a dar publicidade para um idiota): 

"Nós ganhamos ou ganhamos. Está dado o recado". A vontade é de respoder com toda finesse: "Envia esse recado no seu cu!"

Assisti no Instagram a um vídeo interessantíssimo com a leitura de um texto do pastor luterano e teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer. Não sei se que acessa o blog conseguirá conectar-se com este link. Em todo caso, é este: 
https://www.instagram.com/reel/DeEbduPucQE/?xtok=MWFvaHoyeTJidWthYg==ão
 
Bonhoeffer era um ferrenho opositor do nazismo e chegou a participar de uma tentativa de assassinar Hitler. Por causa de sua resistência ao regime, acabou preso e enviado para um campo de concentração, onde foi executado apenas uma semana antes da libertação do campo pelas tropas soviéticas. Baita sacanagem, concordam?
 
O texto que foi transformado em vídeo é este. Tão lúcido e tão atual que não resisti a procurá-lo para publicá-lo no Blogson. Espero que gostem e, sobretudo, que reflitam sobre o que Bonhoeffer escreveu.
 
A estupidez é mais perigosa que a maldade. Contra o mal se pode protestar; o mal pode ser exposto, revelado; pode também ser evitado, se necessário, até pela força; o mal sempre carrega o germe da autodecomposição, deixando pelo menos um desconforto naquele que o pratica. Diversamente, não há como se defender da estupidez. Nada pode ser feito aqui com protestos ou com violência; razões não a convencem; simplesmente não se dá crédito a fatos que contradigam o próprio preconceito – em tais casos, o estúpido se torna ainda mais resistente – e se esses fatos são incontestáveis, podem com facilidade ser postos de lado como casos isolados e sem sentido.
 
O estúpido, ao contrário da pessoa má, sente-se completamente satisfeito consigo mesmo; sim, ele até se torna perigoso, enfurecendo-se facilmente quando é refutado. Portanto, a relação com o estúpido exige muito mais cautela do que com a pessoa má. Nunca se há de convencer o estúpido pela razão – é inútil e perigoso. Para saber lidar com a estupidez, é preciso antes procurar entender sua natureza. Não se trata essencialmente de um defeito intelectual, mas algo que atinge a humanidade do sujeito. Tanto é assim que existem pessoas de inteligência extraordinariamente ágil que são estúpidas e pessoas intelectualmente pesadas que podem ser tudo, menos estúpidas.
 
Para nossa surpresa, chegamos à seguinte conclusão: parece que a estupidez não é propriamente um defeito congênito, mas um processo em que as pessoas se tornam estúpidas sob certas circunstâncias, ou deixam-se fazer estúpidas de forma recíproca. Também observamos que a estupidez aparece mais em pessoas ou grupos propensos ou condenados a viver em comum do que em pessoas mais fechadas, reservadas e solitárias. Assim, parece que a estupidez é um problema mais sociológico do que psicológico. É uma forma especial de influência das circunstâncias históricas sobre o homem, isto é, uma consequência psicológica de certas circunstâncias externas. Em uma análise mais detalhada, verifica-se que toda forte expansão externa do poder, seja política ou religiosa, golpeia um grande número de pessoas com estupidez. Sim, parece que é uma lei psicológica e sociológica. O poder de alguém precisa da estupidez de outrem.
 
O processo não é que, de repente, algumas faculdades – como a intelectual – definhem ou fracassem, mas sim que a independência interna da pessoa vai sendo roubada pela impressão esmagadora do desenvolvimento do poder, até que - mais ou menos inconscientemente – essa pessoa renuncia a encontrar seu próprio comportamento em relação às situações que a vida lhe apresenta.
 
O fato de o estúpido ser muitas vezes teimoso não significa que ele seja independente. Conversando com ele, você quase pode sentir que seu discurso nem sequer tem a ver com ele mesmo, com aquilo que o constitui. Trata-se de frases de efeito, slogans e chavões que se apoderaram dele. Ele está enfeitiçado, cego, abusado e maltratado em sua própria natureza. Tornando-se assim um instrumento sem vontade própria, o estúpido será capaz de todo o mal e, ao mesmo tempo, incapaz de reconhecer-se mau ou de reconhecer maldade em seus atos. Aqui está o perigo de um abuso diabólico. Como resultado, as pessoas serão destruídas para sempre.
 
Disso decorre que somente um ato de liberação – e não um ato de instrução – poderá superar a estupidez. Na grande maioria dos casos, para superar a estupidez, a pessoa terá de aceitar que uma genuína libertação interior só se tornará possível após a libertação externa; até então, sem essa condição, teremos que desistir de todas as tentativas de convencer os estúpidos. A propósito, nesse estado de coisas, fica bem claro que em tais circunstâncias é vão tentar saber o que "o povo" realmente pensa, mesmo porque, ao mesmo tempo - nessas dadas circunstâncias – qualquer resposta seria supérflua para o pensador e realizador responsável.
 
A Palavra da Bíblia que diz que o temor de Deus é o começo da sabedoria (Salmos 111: 1); diz que a liberação interior dos humanos, para uma vida responsável diante de Deus, é a única verdadeira superação da estupidez.
 
De resto, esses pensamentos sobre a estupidez são reconfortantes, pois não permitem tratar a maioria das pessoas como estúpidas a todo custo. Realmente, isso dependerá da tendência dos Poderes Instituídos, vale dizer, se querem tornar seu povo estúpido ou se buscam a independência interior e sabedoria de seus governados.

CORRE!

 


domingo, 25 de outubro de 2026

FRASES A AFORISMOS DE ARIANO SUASSUNA

O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso.

Arte pra mim não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte pra mim é missão, vocação e festa.

A massificação procura baixar a qualidade artística para a altura do gosto médio. Em arte, o gosto médio é mais prejudicial do que o mau gosto... Nunca vi um gênio com gosto médio.

Às vezes, tudo que precisamos é de uma frase certa, no momento certo.

A tarefa de viver é dura, mas fascinante.

Eu digo sempre que das três virtudes teologais chamadas, eu sou fraco na fé e fraco na qualidade, só me resta a esperança. Eu sou o homem da esperança.

Que eu não perca a vontade de ter grandes amigos, mesmo sabendo que, com as voltas do mundo, eles acabam indo embora de nossas vidas.

Tenho duas armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho. É com isso que enfrento essa dura e fascinante tarefa de viver.

Não troco o meu "oxente" pelo "ok" de ninguém!

Não sou nem otimista, nem pessimista. Os otimistas são ingênuos, e os pessimistas amargos. Sou um realista esperançoso. Sou um homem da esperança. Sei que é para um futuro muito longínquo. Sonho com o dia em que o sol de Deus vai espalhar justiça pelo mundo todo.

Dizem que tudo passa e o tempo duro tudo esfarela.

O sonho é que leva a gente para a frente. Se a gente for seguir a razão, fica aquietado, acomodado.

A humanidade se divide em dois grupos, os que concordam comigo e os equivocados.

Quem gosta de ler não morre só.

Jesus às vezes se disfarça de mendigo pra testar a bondade dos homens.

sábado, 24 de outubro de 2026

CUSTO-BENEFÍCIO

 
Nos últimos tempos, especialmente nos últimos dias, aconteceu um frenesi danado, um movimento frenético para tentar convencer eleitores indecisos a votar nesse ou naquele candidato. E, se possível, até mesmo a mudar o voto.
 
Observando essa suruba eleitoral, fiquei pensando que as táticas de convencimento poderiam ser tratadas como operações financeiras, onde os eleitores avaliam o custo-benefício de sua escolha.
 
Gostou da ideia? Ótimo, eu também gostei (humildade não é um defeito que eu tenho). Não entendeu bem essa conversa de custo-benefício? OK, vamos tentar destrinchar.
 
Segundo o dicionário, “custo-benefício é o que define as melhores escolhas que os agentes econômicos fazem. Através deste conceito é que as pessoas ou empresas compram ou realizam aquilo em que os benefícios são maiores que os custos de comprar ou produzir”.
 
Dito de outra forma, “benefício” é o que até os mais bobos esperam ganhar com a escolha de beltrano ou sicrano. “Custos”, por outro lado corresponderiam ao “pacote de malvadezas” que o candidato eleito se proporia a fazer depois de (bem) instalado no trono da presidência. Eu disse “trono”, porque qualquer dos dois que ganhar sentir-se-há o rei da cocada.
 
A irredutibilidade do voto acontece quando o eleitor pertence ao “bloco dos convictos” – aquele pessoal mais radical, que atribui um valor tão alto aos “benefícios” que enxerga na manutenção de seu voto, que considera irrelevantes os custos que já conhece.
 
Mas quando alguém resolve mudar seu voto é porque acreditou ou convenceu-se de que a “qualidade da comida” faz valer a pena o preço a ser pago pela “refeição”, porque, como todo mundo sabe, não há almoço grátis.
 
Uma coisa eu sei: ódio ao Nove-Dedos ou ao Bolsonarinho, medo da cor vermelha e outras paranoias continuam sendo exemplos de avaliação de custo-benefício eleitoral e, principalmente, pessoal. Como diz o ditado nordestino, “pra farinha pouca, meu pirão primeiro”. Bon appétit!

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

CERTEZAS - ADRIANA BRITTO

 

Este texto foi erroneamente atribuído a Mario Quintana, mas a verdadeira autora é (ou seria) Adriana Britto. Quem é Adriana Britto? Não faço a menor ideia, mas sempre penso em prostituição literária em casos como este. Que ganham as pessoas com isso? Certamente, nem a autora nem o Quintana. Mesmo assim, estou quase pegando uns poemas do Fernando Pessoa e publicando como se fossem de minha autoria. E muita gente acreditará nisso. Maluquice!!!

Não quero alguém que morra de amor por mim...

Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando.

Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.

Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim...

Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível...

E que esse momento será inesquecível...

Só quero que meu sentimento seja valorizado.

Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre...

E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.

Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém...e poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.

Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho...

Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é meu sentimento...e não brinque com ele.

E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.

Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe...

Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz.

Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia, e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos, talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.

Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas...

Que a esperança nunca me pareça um NÃO que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como SIM.

Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto ele é especial e importante pra mim, sem ter de me preocupar com terceiros... Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.

Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão...

Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades a às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim... e que valeu a pena.

 

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

GÊMEOS EM CONFLITO

 
Difícil é a vida de um idoso! Talvez mais estranha que difícil, talvez mais frágil que estranha. Hoje eu percebo me debater – talvez sem tanto drama assim – entre duas expectativas ou visões de futuro, dois gêmeos convivendo dentro de mim, um sisudo e meio depressivo, o outro alegre e esperançoso. Um com vontade de ficar só deitado diante de uma televisão, o outro o chamando para sair, para viver. Gêmeos em conflito.
 
De um lado, há um homem fragmentado, uma espécie de frankenstein feito de partes com idades distintas. A mente e os olhos continuam tendo vinte ou trinta anos; o coração é o de um adolescente apaixonado, mas os joelhos são os de alguém que já viveu 102 anos. Esse homem faz planos e alimenta desejos que talvez nem devesse mais ter: cursar uma segunda faculdade, de Psicologia ou Filosofia; aprender a dançar forró; submeter-se a uma cirurgia corretiva das pálpebras (já agendada).
 
Do outro lado, um homem de 76 anos que pressente, que sabe não ter mais muito tempo de vida. Um homem que aceita e se resigna com a fragilidade que essa idade traz consigo, tantas são as notícias de falecimento que recebe, não só de artistas famosos como de parentes, amigos e conhecidos de sua mesma faixa etária.
 
E é com essa duplicidade que convivo diariamente: um idoso que ainda sonha e tem desejos que não conseguiu realizar quando era mais jovem e um senhor desencantado da vida, que se pergunta para que fazer cirurgias rejuvenescedoras ou aprender a dançar nesta fase da vida, já tão perto do momento binário em que o “um” vira “zero”, em que o disjuntor biológico desarma. Esta é a realidade da minha vida atual. Complicado, não?

terça-feira, 20 de outubro de 2026

EMBRIAGUEM-SE – CHARLES BAUDELAIRE

O instagram tem me permitido encontrar belos textos e poemas que desconhecia. A mais nova descoberta é este texto poético do Charles Baudelaire:

EMBRIAGUEM-SE
 
É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. 
Para não sentir o fardo horrível do Tempo, que esmaga seus ombros e os curva em direção à terra, é preciso embriagar-se sem trégua
.
Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.
E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio responderão:
"É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso". Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.
Charles Baudelaire Petits poémes en prose (1869).
 
 
ENIVREZ-VOUS
Il faut être toujours ivre. Tout est là : c’est l’unique question. Pour ne pas sentir l’horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.
Mais de quoi ? De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous.
Et si quelquefois, sur les marches d’un palais, sur l’herbe verte d’un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l’ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l’étoile, à l’oiseau, à l’horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est ; et le vent, la vague, l’étoile, l’oiseau, l’horloge, vous répondront :
« Il est l’heure de s’enivrer ! Pour n’être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous ; enivrez-vous sans cesse ! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise.


DA ESTUPIDEZ – DIETRICH BONHOEFFER

  Em "homenagem" às divergências ideológicas expostas na eleição do próximo presidente, resolvi mover para hoje, dia 26 de novembr...