Outro dia, refletindo sobre isso, me ocorreu que a genética da família Alvarenga talvez tenha contribuído para tantos casos de demência na família “Alvarenga Botelho”, à qual pertenço. Vejam só: minha avó materna, sua irmã, minha mãe, meu irmão, um primo e uma prima seis anos mais jovens que eu e o caso mais bizarro atualmente: uma das irmãs de minha mãe de repente tira a roupa toda e fica nua dentro de casa. E esses são os casos que conheço!
Por outro lado, a família Botelho, de meu avô materno, parece ter recebido o oposto: uma genética arretada de boa para a longevidade. Um dos irmãos do meu avô morreu com 103 anos; a irmã mais velha de minha mãe viveu lúcida até os 104; fora tantos outros acima dos 90. Imagino que meu avô também viveria muito, se não tivesse sido atropelado a caminho da casa de sua segunda família (ele teve duas). Curioso, não?
Torço para que sejam premonitórias as palavras que ele disse um dia sobre mim – “aquele ali me puxou!”. Sobre meu irmão, infelizmente, não se poderia dizer o mesmo. Só sei que por enquanto, estou como o sujeito que despenca de um prédio muito alto e, antes de se esborrachar no chão, pensa: “até aqui está tudo bem”.
Mas estou divagando. O que eu queria registrar mesmo é o encontro que tive ontem com meu irmão, depois de dezesseis anos sem nos falarmos. “Por conta de umas questões paralelas”, paramos de conversar desde o dia em que disse que se lembraria que no ano em que nossa mãe faleceu, eu também morri para ele.
Fiquei meio puto com isso, mas meu espírito meio avacalhado me impediu de sofrer ou me preocupar mais do que devia. Cheguei a brincar que, nesse caso, só voltaríamos a nos falar no Centro Espírita Oriente – apesar de meus filhos e meu cunhado sempre insistirem para que eu mudasse de ideia. O problema é que eu sou doce no trato, mas um ogro nas decisões. E nem acredito em espiritismo
E assim ficou – até eu saber da doença. Acreditando que não haveria sentido em visitar quem nem se lembrava de ter um irmão, resolvi gravar uma mensagem de voz para que minha cunhada mostrasse para ele. Gravei mais ou menos isto:
Oi, Dado, aqui é seu irmão Zé – um irmão de quem você talvez nem se lembre mais, depois de tanto tempo sem nos falarmos. Mas hoje me deu uma vontade danada de te mandar uma mensagem, só para dizer que te amo, que sempre te amei e que nunca deixei de te amar.
Ao longo da minha vida, você foi meu ídolo, exemplo, mentor, incentivador, companheiro de brincadeiras na infância, meu melhor amigo, parceiro de baladas e roubadas quando já éramos jovens adultos. E isso eu nunca esquecerei.
O tempo, os equívocos, as palavras ditas de forma passional nos afastaram como se fôssemos inimigos. Mas nós não somos inimigos. Eu, pelo menos, nunca fui seu inimigo. Quando ainda ia à missa, eu rezava por você e para você.
Hoje estou velho, com 75 anos, cabelos brancos, barba branca. Às vezes me bate a sensação de que não vou viver muito mais. Por isso eu pensei em te mandar esta mensagem antes que eu me vá definitivamente, uma mensagem de amor fraternal.
Então é isso, cara: eu te amo muito. A vida inteira te amei.
Minha cunhada disse ter perguntado a ele se tinha gostado da mensagem. Ele apenas respondeu: “Não sei”. Achei graça da resposta e não fiquei mais triste do que já estou com as notícias que recebo sobre ele. Por isso, resolvi visitá-lo.
Depois de dezesseis anos sem vê-lo, encontrei um homem naturalmente envelhecido: um pouco encurvado, cabelos ralos, rugas, mas o mesmo olhar sério, a mesma expressão de impaciência que sempre exibiu. A diferença apareceu quando comecei a conversar e a fazer perguntas sobre nosso passado. As respostas eram sempre as mesmas: “não sei”, “não conheço”, “nunca vi”. Disse também que está “com a cabeça vazia”, que está "muito velho", pois tem "94 anos" (ele tem 78). E que viverá "só mais três anos".
Isso me fez pensar que o irmão que eu conheci está bem, mas já se foi para algum lugar distante daqui, deixando apenas um clone, um sósia idêntico fisicamente, mas de quem pouco se espera.
Ao me despedir, disse que o tinha ido visitar apenas para abraçá-lo. E foi o que eu fiz com todo carinho, beijando também suas bochechas caídas. Voltei feliz para minha casa, mais feliz do que ao sair para visitá-lo. E esta é a mensagem final:
Só lamento que muita gente não se dê conta do absurdo prazer de escancarar o coração, da imensurável alegria de dar ou receber um abraço de quem se ama, sem motivo, sem data especial, simplesmente porque isso é bom, simplesmente porque isso é ótimo.