sábado, 17 de outubro de 2026

CADERNO DE RASCUNHO

 

Podem até me criticar por eu ser tão romântico assim
mas não consigo entender que me critiquem sem saber
o que há dentro de mim
 
Dentro de mim existe algo que falta a quem me critica,
que só pode ser encontrado quando se está apaixonado,
Que só as crianças possuem:
 
A inocência de um amor suave e explosivo, difícil de ser contido,
mais ainda de ser entendido.
 
Que um idoso pode dizer em sua própria defesa?
Que a paixão foi reacesa e é limpa, pura, ardente,
Como a de um garoto adolescente.
 
Talvez por isso os versos que escrevo
lembrem rascunhos em cadernos escolares,
rimando sem pudor infantil com pueril
 
E é isso que realmente são – infantis, pueris,
pois traduzem pensamentos imaturos –
mas encharcados de amor e desejo
 
Desprezando a idade que tenho
Sem vergonha, sem ter pejo
De dizer, de falar, de gritar
seu nome, mas me contenho
 
Não pensando em mim, mas em você
Que pode não querer se ver exposta assim
Só por isso eu digo: “Jota Bebê”, eu te amo!
 
E agora, se quiserem, podem me criticar
Com gosto, à vontade,
pois não me prendo à idade,
só ao que o coração mandar.
 
E que o fascínio sempre sentido
Jamais vire desfascínio
E que esse amor siga vivo
Até onde eu puder aguentar
 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

O TEMPO - MÁRIO QUINTANA

 

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são seis horas!

Quando se vê, já é sexta-feira!

Quando se vê, já é natal…

Quando se vê, já terminou o ano…

Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.

Quando se vê passaram 50 anos!

Agora é tarde demais para ser reprovado…

Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.

Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…

Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…

E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.

Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.

A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

ZEZÉ



Fiquei aturdido ao receber a notícia do falecimento da minha comadre Zezé, por complicações decorrentes de uma cirurgia de ponte de safena. Maria José (como eu a chamava) era minha amiga desde 1975, ano em que se casou com o Tinho e foi morar na casa ao lado da nossa. Nós também nos casamos naquele ano.
 
Engraçada, superdesbocada, adorava minha mulher, a quem chamava de amiga-irmã. Ficou devastada quando uma doença cruel interrompeu essa amizade, a mesma doença que abreviou a vida de seu amado Tinho, o médico Dr. Wilton.
 
Nossa relação era tão próxima que Zezé e Tinho foram padrinhos de batismo de nosso terceiro filho. Anos depois, já viúva, foi convidada para ser madrinha de uma das gêmeas de outro filho nosso. De vez em quando, ligava dizendo estar com saudade de nós, de mim. E conversava durante duas horas ou mais, sem se preocupar com o tempo ou o horário.
 
Agora, não haverá mais telefonemas, nem aquelas conversas intermináveis. É estranho pensar que alguém que fez parte de nossas vidas durante tantos anos simplesmente deixa de estar ao alcance. Sabemos que a pessoa morreu, mas há uma sensação de estranhamento por não poder mais ouvi-la, contar-lhe alguma coisa, saber das novidades. A vida continua, mas uma parte dela já não pode ser compartilhada com quem sempre esteve ali.
 
Conheço bem essa sensação. Desde a morte de minha amada Lily, ela me visita nos momentos mais banais: ao olhar uma fotografia antiga, procurar algum objeto ou tentar preparar algum alimento minimamente comestível. De repente, sinto a presença-ausência de quem compartilhou comigo uma história de 55 anos. É quando a realidade da perda se impõe, não como uma grande tragédia, mas como a impossibilidade miúda e definitiva de continuar vivendo certas coisas juntos.
 
Lembro-me, então, de um verso lindo escrito por Ronaldo Bastos e cantado por Beto Guedes, numa música feita em homenagem a Elis Regina, que havia morrido pouco antes:
 
“Dói de tanto medir a distância, saber que não vou te tocar além da lembrança”.
 
Talvez seja essa a maior estranheza da morte: a pessoa continua tão presente em nossa memória, tão misturada à nossa história, que custamos a aceitar que não esteja mais aqui. E, no entanto, não está. O que antes era convivência agora é só lembrança, e a lembrança, por mais viva que seja, não atende ao telefone.
 
Mesmo sem acreditar em vida depois da morte, gosto de imaginar que Zezé e minha mulher devem agora estar tomando uma cerveja e atualizando a conversa. E têm toda a eternidade para colocar a prosa em dia.
 
Escutaí a música.







quarta-feira, 14 de outubro de 2026

CAFÉ SOÇAITE – JORGE VEIGA

 Alguns pensamentos, provocados por frases que leio ou ouço, demoram a me abandonar. A mais recente é: “Existe vida mais barata, mas não presta não”.

Lembrei-me, então, de uma música gravada em 1954, cuja letra ironiza o esnobismo e a futilidade da elite social e econômica do Rio de Janeiro — uma sátira que combina com a frase que me ficou na cabeça.

Como a letra faz referências a personalidades daquela época, resolvi “traduzi-la” para os leitores de hoje.


 
Doutor de anedota e de champanhota
Estou acontecendo no café soçaite
Só digo enchanté, muito merci, all right
Troquei a luz do dia pela luz da Light
 
Agora estou somente contra a Dama de Preto
Nos dez mais elegantes, eu estou também
Adoro Riverside, só pesco em Cabo Frio
Decididamente, eu sou gente bem
 
Enquanto a plebe rude na cidade dorme
Eu ando com o Jacinto, que é também de Thormes
Terezas e Dolores, falam bem de mim
Eu sou até citado na coluna do Ibrahim
 
E quando alguém pergunta: como é que pode?
Papai de Black-tie, jantando com o Didu
Eu peço mais um whisky embora esteja pronto
Como é que pode? Depois eu conto

Café Soçaite: corruptela de Café Society, expressão que designava a alta sociedade, formada por milionários, aristocratas, celebridades, artistas e boêmios.

Ibrahim: Ibrahim Sued, jornalista e colunista social, um dos principais nomes do colunismo social brasileiro. Ficou conhecido também pelas gafes, muitas vezes aparentemente propositais, no rádio e na televisão.

Dama de Preto: personagem criada por Ibrahim Sued para fazer críticas anônimas e mordazes à sociedade carioca.

Jacinto de Thormes: pseudônimo de Maneco Müller, jornalista, cronista esportivo e pioneiro do colunismo social no Brasil.

Thereza e Dolores: Thereza de Souza Campos e Dolores Guinle, duas figuras conhecidas da alta sociedade carioca.

Didu: apelido de Carlos Eduardo de Souza Campos, banqueiro e personagem destacado da sociedade carioca. Foi casado com Thereza de Souza Campos.

Pronto: gíria antiga para designar quem estava sem dinheiro.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

SAUDADE DE MIM

 
Ontem, ouvindo meu filho tocar Beatles no trompete
 Revivi emoções já sentidas antes,
Talvez modificadas pela passagem do tempo.
 
Senti saudade de um tempo há muito vivido.
Pensando bem, senti saudade de mim,
De quando não sentia saudade de nada nem de ninguém.
E tudo o que eu queria era cantar músicas dos Beatles.
 
E tudo o que acontecia era estar apaixonado por alguém.
E tudo o que eu desejava era que alguém se apaixonasse por mim
Ao me ouvir cantar “If I Fell in Love with You”
Ou outra balada romântica da banda.
 
Hoje, meu violão não soa bem e eu
Esqueci as letras que gostava de cantar.

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

ESCALA DE VALORES

 
A mensagem “Tem vida mais barata, mas não presta, não!” teria sido enviada por um dono de cartório a um amigo. Mas caiu na rede, viralizou e até virou letra de música. Eu não a conhecia – até uma mulher muito rica tê-la dito para mim com um sorriso malicioso no rosto lindo.
 
Claro que era uma ironia, embora revelasse uma maneira de pensar que não é exclusiva de quem a enunciou. Minha reação foi de perplexidade, pois por trás da ironia, enxerguei um sarcasmo cruel, revelador de uma visão elitista e deslumbrada da vida. Incomodado, pedi a uma IA uma análise sociológica da frase. Eis o resultado:
 
“A expressão popular ‘tem vida mais barata, mas não presta, não’ reflete um cruzamento entre a cultura da ostentação, o hedonismo e a mercantilização do status social na sociedade contemporânea. Do ponto de vista sociológico, a frase sintetiza a ideia de que a dignidade, a felicidade e o bem-estar são equiparados ao poder de consumo
.
Em contraposição, a qualidade de vida deixa de ser medida pelo tempo livre, pela paz de espírito ou pelas relações afetivas, e passa a ser validada por gastos materiais — camarotes open bar, iates, carros importados e festas.
 
Ao afirmar que a vida mais barata ‘não presta’, o discurso descarta as formas de existência que escapam ao ciclo de acumulação e exibição de riquezas, estigmatizando a simplicidade como sinônimo de fracasso ou tédio.
 
O estilo de vida defendido nessa máxima aposta no prazer imediato e efêmero. Frases como essa também são apropriadas ironicamente por elites ou grupos privilegiados para naturalizar desigualdades, como quem diz que manter um padrão excludente e caro é a única forma ‘civilizada’ de existir, ignorando que a ‘vida barata’ é a realidade compulsória da maioria da população”.
 
E é aí que entra outra ironia: afinal, o que é uma vida barata? Para Elon Musk, trilionário, talvez seja a de quem dispõe de apenas alguns bilhões e nem aparece nas listas da Forbes. Para o assalariado que chega ao fim do mês sem dinheiro, talvez seja a de quem depende do Bolsa-Família.
 
Foi o que me ocorreu ao ouvir aquela frase, dita com um sorriso por uma mulher linda. Porque, feitas as contas e comparada com a sua, a minha vida talvez seja uma dessas vidas baratas que, segundo ela, não prestam.

Se ela realmente enxerga a vida dessa maneira, onde eu me encaixo na sua escala de valores?

domingo, 11 de outubro de 2026

SORRI – DJAVAN

 
Por questões de "foro íntimo", resolvi mover esta postagem de 2024 para hoje. Tanta coisa aconteceu desde então! E a música é linda, atemporal.

Para quem não conhece, Ryk@rdo é um poeta português de gosto sofisticado e mestre em escrever belos poemas com rima e métrica impecáveis. Hoje, ao acessar seu blog “Pensamentos e Devaneios Poéticos” (recomendo!) o primeiro verso de sua publicação mais recente – “Sorri quando não há sol ao amanhecer"  – me fez lembrar da versão brasileira da música “Smile” composta por Charlie Chaplin. E este presente é que deixo para os leitores nesta sexta-feira. Letra de Braguinha e música de Charlie Chaplin na voz de Djavan..
 
https://www.youtube.com/watch?v=LnKJKCZT5Jw
 
Sorri
Quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos, vazios
 
Sorri
Quanto tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
 
Sorri
Quando o Sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados, doridos
 
Sorri
Vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorries
Todo mundo irá supor
Que és feliz...
 
Sorri
Vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorries
Todo mundo irá supor
Que és feliz

 

 

CADERNO DE RASCUNHO

  Podem até me criticar por eu ser tão romântico assim mas não consigo entender que me critiquem sem saber o que há dentro de mim   Dentro d...