quinta-feira, 4 de junho de 2026

SI TÚ ME OLVIDAS - PABLO NERUDA

 
O romantismo está no ar! E agora na pena de Pablo Neruda. Afinal, estamos em junho, mês dos namorados e das festas juninas. Nada como lembrar os versos do músico e compositor mineiro Fernando Bocca (falecido): “Bota lenha, alimenta essa fogueira, deixa queimar noite inteira o fogo dos corações”.
 
SI TÚ ME OLVIDAS
Pablo Neruda
Quiero que sepas
una cosa.
Tú sabes cómo es esto:
si miro
la luna de cristal, la rama roja
del lento otoño en mi ventana,
si toco
junto al fuego
la impalpable ceniza
o el arrugado cuerpo de la leña,
todo me lleva a ti,
como si todo lo que existe,
aromas, luz, metales,
fueran pequeños barcos que navegan
hacia las islas tuyas que me aguardan.
Ahora bien,
si poco a poco dejas de quererme
dejaré de quererte poco a poco.
Si de pronto
me olvidas
no me busques,
que ya te habré olvidado.
Si consideras largo y loco
el viento de banderas
que pasa por mi vida
y te decides
a dejarme a la orilla
del corazón en que tengo raíces,
piensa
que en ese día,
a esa hora
levantaré los brazos
y saldrán mis raíces
a buscar otra tierra.
Pero
si cada día,
cada hora
sientes que a mí estás destinada
con dulzura implacable.
Si cada día sube
una flor a tus labios a buscarme,
ay amor mío, ay mía,
en mí todo ese fuego se repite,
en mí nada se apaga ni se olvida,
mi amor se nutre de tu amor, amada,
y mientras vivas estará en tus brazos
sin salir de los mios
 
SE TU ME ESQUECES
Pablo Neruda
 
Quero que saibas
uma coisa.
 
Tu sabes como é isto:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono em minha janela,
se toco
junto ao fogo
a impalpável cinza
ou o corpo enrugado da lenha,
tudo me leva a ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
em direção às tuas ilhas que me aguardam.
 
Agora, bem,
se pouco a pouco deixares de me amar,
deixarei de te amar pouco a pouco.
 
Se de repente
me esqueceres,
não me procures,
pois eu já te terei esquecido.
 
Se considerares longo e selvagem
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e decidires
abandonar-me à margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
nessa hora,
erguerei meus braços
e minhas raízes partirão
a buscar outra terra.
 
Mas
se a cada dia,
a cada hora,
sentes que estás destinada a mim
com doçura implacável;
se a cada dia sobe
uma flor aos teus lábios para me procurar,
ah, meu amor, ah, minha,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
meu amor alimenta-se do teu amor, amada,
e enquanto viveres estará em teus braços
sem sair dos meus.
 
 
 

 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

O MEU OLHAR – ALBERTO CAIEIRO

 
Nem só de amor vivem os homens, mas também de logros, roubos, assaltos, desfalques, trambiques, assassinatos, corrupção, feminicídio, fake news, interesses escusos, filhadaputagens diversas, e por aí vai, pois a capacidade da humanidade de fazer merda é muito grande. A poesia não tem força para mudar isso, mas funciona como aquele copo de água fresca em dias de fritar ovo no asfalto, alivia. E este é mais um post dedicado ao mês dos namorados, pois namorar não fere nenhum dos Dez Mandamentos. Lêaí:
 
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.  Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama

terça-feira, 2 de junho de 2026

MODERAÇÃO DE COMENTÁRIOS

 AVISO: Comentários estimulados por essa ou aquela publicação nunca o padrão do blog. na verdade, pouquíssimas pessoas deixaram ou ainda deixam algum comentáriosobre o que foi publicado. Mesmo assim, às vezes passo batido e nem descubro o que foi comentado. Por sso, já que eu gosto de responder a todos, resolvi voltar com a moderação de comentários só para ver se tem algum não descoberto. Mas TODOS serão publicados. É só isso, por enquanto.

LOS BESOS SE DAN EN LA BOCA


Digam o que quiserem, riam-se de mim se puderem, mas o melhor e maior antídoto ou alívio contra a miséria humana, contra o lodaçal em que os políticos se refestelam é o amor. Não estou brincando, estou falando sério, pois hoje, para mim, só o amor me permite respirar sem me intoxicar muito com a fumaça dos bombardeios que atingem prédios residenciais ou com o veneno diário que as redes sociais distribuem. E a melhor forma de buscar o amor é através da poesia lírica, porque de tragédias eu já estou farto. Por isso, sempre que puder, sempre que encontrar, sempre que conseguir escrever alguma coisa, publicarei aqui neste velho e inexpressivo blog um poema ou texto poético. E o primeiro é este (com direito a tradução)
 
LOS BESOS SE DAN EN LA BOCA
(Elsa Moreno Calabuig)

Creo que los besos se dan en la boca
porque es de donde brotan las palabras.
Si yo te besara la punta de los dedos
estaría buscando una caricia.
Si te besara la suela del zapato
estaría buscando un camino.
Si te besara en los párpados
cuando estás dormido
estaría pidiendo permiso
para entrar en tus sueños,
pero te estoy besando los labios
porque quiero escuchar mis palabras salir de ti.
(Otra vez…)
Si te besara la planta de los pies
buscaría un paso en falso.
Si te besara la parte interna del codo
buscaría tus cubículos.
Si te besara la sombra,
no sabría lo que busco
pero estaría tan cerca…
Si te buscara esta noche besaría a cada extraño
hasta encontrarte.
(Tampoco.. Otra vez…)
Si te besara,
sería escurridiza por un lienzo
carne que se desborda y que se expande
por las vigas de mi casa.
Treparía escurridiza por un muro fronterizo
entre la piel de la carne que se inyecta
en una estructura impersonal llamada nombre.
Estaría consumida antes siquiera de abrir los labios
si te besara y, no podemos hacer nada por esta muerte,
por esta muerte…
(demasiado…)
Si te besara,
sería escurridiza por un lienzo
carne que se desborda y que se expande
por las vigas de mi casa.
Treparía escurridiza por un muro fronterizo
entre la piel de la carne que se inyecta
en una estructura impersonal llamada nombre.
Estaría consumida antes siquiera de intentarlo
invocaría un cataclismo solo con pronunciarlo,
y por eso,
por eso,
me guardo quieta,
quieta,
atenta,
al tanto,
alerta,
alerta…
por si acaso…
por si acaso hubiese atisbo
de encontrar el punto medio entre los muros donde shhh…
no hacernos daño,
donde solo darnos cuenta
de hasta dónde llega el beso,
antes de que llegue la rabia.
 
BEIJOS SÃO DADOS NA BOCA
Elsa Moreno Calabuig
Acho que beijos são dados na boca
porque é de lá que as palavras brotam.
Se eu beijasse a ponta dos seus dedos,
estaria buscando um carinho.
Se eu beijasse a sola do seu sapato,
estaria buscando um caminho.
Se eu beijasse suas pálpebras
enquanto você dorme,
estaria pedindo permissão
para entrar nos seus sonhos,
mas estou beijando seus lábios
porque quero ouvir minhas palavras saírem de você.
(De novo…)
Se eu beijasse a sola dos seus pés,
estaria buscando um passo em falso.
Se eu beijasse a parte interna do seu cotovelo,
estaria buscando suas cavidades.
Se eu beijasse sua sombra,
eu não saberia o que estou procurando,
mas estaria tão perto…
 
Se eu estivesse procurando por você esta noite, beijaria todos os estranhos
até te encontrar. (Nem… De novo…)
Se eu te beijasse,
eu seria escorregadia sobre uma tela,
carne transbordando e se expandindo
ao longo das vigas da minha casa.
Eu subiria escorregadia por um muro divisório
entre a pele da carne que é injetada
em uma estrutura impessoal chamada nome.
Eu seria consumida antes mesmo de abrir meus lábios
se eu te beijasse, e não podemos fazer nada sobre esta morte,
sobre esta morte…
(demais…)
Se eu te beijasse,
eu seria escorregadia sobre uma tela,
carne transbordando e se expandindo
ao longo das vigas da minha casa.
Eu subiria escorregadia por um muro divisório
entre a pele da carne que é injetada
em uma estrutura impessoal chamada nome.
Eu seria consumida antes mesmo de tentar,
eu invocaria um cataclismo só de pronunciá-lo,
e é por isso,
é por isso,
eu me mantenho imóvel,
imóvel,
atenta,
consciente,
alerta,
alerta…
só por precaução…
só por precaução, caso haja um vislumbre
de encontrar o ponto médio entre as paredes onde shhh…
não nos machucamos,
onde só percebemos
o quão longe o beijo alcança,
antes que a fúria chegue.
 

domingo, 31 de maio de 2026

DIALÉTICA – VINÍCIUS DE MORAES

 
Mesmo que não haja fundamentação psicanalítica e nem eu tenha (ainda) formação nessa área, criei “para uso pessoal” uma divisão de personalidades e comportamentos, assim definidos: pessoas solares, de temperamento solar e pessoas lunares, de temperamento lunar.
 
Eu vejo a pessoa solar como alegre, bem resolvida, de bem com a vida. A lunar seria alguém com tendência à depressão, melancólica e triste, mesmo que sem motivo aparente.
 
Se quiser saber, eu me considero uma pessoa “lunar”, que brinca o tempo todo, faz piadas de quinta série, mas, quando está sozinho, murcha e mergulha para dentro de si mesmo.
 
Esta abordagem surgiu depois de ler o poema “Dialética”, do Vinicius de Moraes. Bom vivant, boêmio, casado com “n” mulheres, dizia que era "um homem triste, com uma grande vocação para a alegria". Imagino que essa dualidade foi a inspiração para estes versos:
 
É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção.
É claro que te acho linda
E em ti bendigo o amor das coisas simples.
É claro que te amo.
E tenho tudo para ser feliz.
Mas acontece que eu sou triste.

NÃO É MESMO?