Em BH, cidade onde
moro, existe uma rua do chamado “baixo centro”, bem na periferia da área
central, que é “rua de zona”. Sempre foi, embora mais bem frequentada na
década de 1920, por aí. Nessa rua, além do sofisticado Montanhês Dancing,
ficava o bordel onde Ana Furacão “batalhadava”.
Hoje, além de
alguns hotéis de altíssima rotatividade, há lojas de atacado, papelarias, lojas
de produtos populares e até uma igreja evangélica. Uma vez, para comprar algum
tipo de embalagem em maior quantidade, estacionei o carro quase em frente a um
desses “hotéis”. Meu amigo, o entra e sai de homens de todas as faixas etárias
era impressionante! Isso me fez pensar que um produto tipo hipoglós deve vender
bem por ali.
Mas estou muito longe
do tema de hoje. O que mais chamou minha atenção foi a quantidade de idosos
subindo e descendo as escadas desse e de outros puteiros da região. E aí surgiu
em minha mente uma teoria miojo (aquela que é formulada em três minutos e o
resultado é sempre uma merda), sobre que tipo de comportamento mais incomoda
nossa sociedade hipócrita e preconceituosa. Sem paciência para detalhar meu
pensamento, pedi ao ChatGPT para criar um conto ou crônica, depois de municiado
com o que pensei. Este foi o prompt imaginado, a “munição” a utilizar:
“Imaginei um país
distópico, talvez ditadura ao estilo de 1984, que define e promulga um decreto
estabelecendo os direitos, deveres, proibições e punições dos idosos. Algo
assim:
'Fica decretado que idosos não podem namorar, assim
definidos atos e comportamentos que envolvam carícias próprias de adolescentes,
tais como troca de beijinhos em público ou andar nas ruas de mãos dadas,
abraçados. Tal comportamento é considerado atentado violento ao pudor, passível
de internação em asilos.
Não é permitido aos idosos se apaixonar. Aos idosos
só cabe o direito de ter amantes, usar os serviços de garotas e garotos de
programa com a finalidade única de fazer sexo, vulgarmente conhecido como
transar, trepar em ou sobre, excluídas e proibidas todas as manifestações de
carinho explícito em locais públicos'.
Pensei nessa ideia
por perceber os olhares espantados ou de inveja de outros idosos quando ando de
mãos dadas com minha namorada, quando a beijo carinhosamente na boca, quando
sorrio para ela e faço confidências ao pé do ouvido. Quer me ajudar a
desenvolver esta ideia”?
Depois dos
comentários de praxe tão ao gosto do ChatGPT, surgiu esta crônica distópica. Eu
assinaria em baixo, mas foi a IA que escreveu.
Ninguém soube
dizer ao certo quando começou.
Alguns afirmavam
que foi depois da Reforma Sanitária Afetiva. Outros juravam que tudo nascera
antes, quando os especialistas passaram a aparecer diariamente na televisão
para explicar os perigos emocionais da velhice apaixonada.
“Paixão tardia
provoca desequilíbrio social”, diziam.
“Apego senil
sobrecarrega o sistema público.”
“O idoso
apaixonado perde discernimento.”
No começo parecia apenas
uma campanha educativa. Como aquelas recomendações para reduzir o sal ou
caminhar trinta minutos por dia. Depois vieram os decretos. Então as multas.
Finalmente os agentes.
Hoje já ninguém
estranha.
Na Praça Central,
por exemplo, os bancos são divididos por barras metálicas no meio, justamente
para impedir excessiva aproximação afetiva entre cidadãos da terceira idade. A
medida foi muito elogiada pelo Ministério da Compostura Pública.
“Conforto sem
promiscuidade”, dizia o slogan.
Os jovens
continuam se beijando nas esquinas, nos ônibus, nos corredores do metrô. O
Estado considera isso aceitável. Hormonal. Transitório. Saudável até.
Mas velhos não.
Velhos apaixonados
constrangem a sociedade.
Dois idosos
caminhando de mãos dadas produzem nas pessoas um desconforto difícil de
explicar, mistura de vergonha, irritação e uma espécie obscura de inveja.
Foi exatamente
isso que aconteceu quando um idoso segurou a mão de sua namorada enquanto
andavam despreocupadamente pela rua.
Nada teatral.
Nada indecente.
Apenas a mão.
Uma moça que vinha
na direção oposta imediatamente desviou os olhos.
Dois rapazes
riram.
Uma senhora parou
diante da vitrine de uma farmácia apenas para continuar observando.
O idoso percebeu
tudo.
Percebeu também
quando sua namorada tentou discretamente soltar a mão.
Não soltou.
Continuaram
andando.
Lentos.
Escandalosos.
Ao passarem diante
do edifício dos Correios, ouviram o aviso eletrônico:
- Demonstrações
afetivas senis em espaços públicos constituem infração ao Estatuto da Dignidade
Etária. Preserve o decoro. Denuncie.
A namorada sorriu.
Foi pior.
Sorrisos cúmplices
entre idosos haviam sido classificados no ano anterior como “indução visual de
intimidade”.
O idoso achou
graça da expressão jurídica. Sempre achava graça.
Setenta e cinco anos
de vida para descobrir que amar alguém podia receber nome de doença
administrativa!
Pararam diante de
uma banca de flores clandestina.
As flores haviam
praticamente desaparecido da cidade depois da regulamentação sentimental. Rosas
eram consideradas itens de estímulo emocional. Sua venda exigia autorização
especial para funerais e cerimônias patrióticas.
A mulher da banca
olhou rapidamente para os lados antes de mostrar uma pequena margarida
escondida sob jornais velhos.
- É importada –
cochichou.
A namorada quase
chorou.
O que também era
proibido.
O Decreto nº 88
classificava lágrimas de natureza romântica como “descontrole afetivo
regressivo”.
O idoso comprou a
flor mesmo assim.
Pagou caro.
Pagou sorrindo.
Mais adiante, um
painel luminoso exibia a frase do governo:
O DESEJO É
FISIOLÓGICO. O AMOR É ANTISSOCIAL.
Abaixo da
propaganda, dois agentes conduziam um homem algemado.
Seu crime: beijar
a esposa na testa enquanto esperavam atendimento numa clínica geriátrica.
Algumas pessoas
assistiam à cena com indignação moral.
Outras com alívio.
Porque o amor nos
velhos produzia um efeito insuportável nos demais: lembrava a todos que o
coração envelhece menos do que o corpo.
E isso o Estado
jamais conseguiu perdoar.
Naquela noite, já
em casa, a namorada perguntou:
- Você tem medo?
O idoso pensou um
pouco.
Depois respondeu:
- Tenho.
Ela abaixou os
olhos.
- Eu também.
Ficaram em
silêncio.
Então ele segurou
novamente a mão dela sobre a mesa.
Devagar.
Como quem pratica
um crime.