terça-feira, 12 de maio de 2026

OS FILHOS DE FRANCISCO (E JULIETA) – A REVISTA

 
Bem lá na infância do blog, fiz várias postagens contando casos das famílias de meu pai e de minha mãe. Em uma delas, o titular do blog A Marreta do Azarão disse que essa era a minha “verdadeira veia literária”. Pode ser, pois realmente gosto de contar e ouvir histórias antigas ligadas a familiares e a pessoas simples que o tempo vai apagando, desbotando imagens e lembranças.
Por isso, talvez para torná-los “vivos” novamente, resolvi reunir em um único post os “causos” dos cinco irmãos da minha mãe, deixando claro que farei o mesmo com as cinco filhas de meus avós maternos. Alguns tios têm um perfil mais divertido ou curioso; por isso mesmo, foi mais fácil começar escrevendo sobre eles. Para contar os casos dos outros, tive de ralar um pouco mais.
É importante registrar que, embora tenham sido publicados em 2016, os perfis de meus tios maternos foram escritos em 2013. Paciência – e som na caixa!
 
 
Tio Cici (Moacir)
Tio Cici (Moacir) nasceu em 25/04/1925. Era meu padrinho de batismo e foi o único tio a fazer faculdade (ao contrário da família de meu pai). Estudou odontologia em Uberaba, onde conheceu sua esposa, Teresinha (uma autêntica mala sem alça). Tiveram quatro filhos: Fernando, Marco Túlio, Cristina e Caio Lucio.
Quando foi estudar fora, meu tio deixou para trás uma coleção de revistas “Seleções do Reader’s Digest”, de que me apossei tempos depois. Havia revistas de 1942 a 1955, se não me engano. Os números publicados durante a guerra tinham propagandas com ilustrações incríveis relacionadas ao assunto. Ainda guardo dois números desse período, justamente por causa dessas propagandas.
Essa coleção fez minha cabeça na pré-adolescência. Como era muito tímido e inseguro, eu lia tudo o que encontrava que me ajudasse a superar essas limitações. E tome lições de vida, e tome dicas de autoajuda.
Eu só não consegui aprender – embora tenha lido tudo de todas as revistas – como beijar na boca. Na minha absoluta inexperiência e falta de senso, o que eu pretendia era o mesmo que aprender a andar de bicicleta apenas lendo um livro, só na teoria. Como disse o Djavan em uma de suas músicas: “Mais fácil aprender japonês em Braille”.
Mas voltemos ao tio Cici. Ele era baixinho, magro, nervosinho e tinha um jeito meio viadinho. Às vezes parecia mais feminino que a mulher (ou seria o contrário?), mas era só jeito. No início do casamento, lembro-me de ver a Teresinha dar um amasso nele e ele ali, satisfeito igual um sultão no harém. Sentava-se de pernas cruzadas como quem usa saia. O pé que ficava no ar tremia sem parar. Tremia, não, vibrava. Tinha um risinho nervoso e um senso de humor que se pudesse ser medido na escala Kelvin ficaria perto do zero absoluto.
Meu pai dizia que contar piadas para ele não valia a pena, pois ele não as entendia. No desfecho da piada, quando todo mundo normalmente ria, ele continuava com um sorrisinho meio apalermado na cara e perguntava: “E aí?”.
Depois de formado, montou consultório com um amigo ou colega de faculdade, de nome Januário. Esse sujeito era um católico radical, um carola da gema, coisa que eu só vim a saber quando já namorava minha mulher.
Provavelmente, por influência do amigo carola, Fernando, o filho mais velho do tio Cici, entrou para o movimento ultraconservador TFP – Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade. Esse movimento, entre outras coisas, defendia a volta da monarquia, repudiava veementemente o “comunismo ateu” e tinha alguma coisa de organização paramilitar, pois seus militantes, todos jovens, vestiam-se sempre da mesma maneira: cabelos cortados à escovinha, calça social escura, sapatos de amarrar (quando todo mundo usava mocassim), camisa branca e um blusão de cor cinza ou bege. Bastava ver alguém assim nas ruas para saber que era da TFP.
Esse pessoal era meio hostilizado por alguns jovens, justamente pelo excesso de caretice. Para se defender, alguns começaram até a aprender artes marciais. Estavam sempre nas ruas centrais para colher assinaturas e fazer campanhas contra o divórcio, contra o comunismo, contra a reforma agrária e sei lá mais o que. Usavam megafones e ficavam balançando estandartes vermelhos com letras douradas que pareciam ter sido retirados de algum castelo medieval.
Pois bem, um dia eu estava indo de taxi para a casa da minha namorada, quando vi uma dessas manifestações em plena Avenida Afonso Pena com Espírito Santo. Aqueles jovens com o rosto cheio de espinhas estavam perfilados no canteiro central, um de frente para o outro, cada um com seu estandarte. Devia ter de trinta a quarenta pessoas. Com o taxi parado no sinal, olhando para aquela babaquice, enxergo o Fernando no meio daquela gangue. Morri de vergonha por ele e quase me encolhi no banco para não ser reconhecido. E tome falatório no megafone. De repente, obedecendo a algum comando, esse pessoal começa a gritar:
- BRASIL! BRASIL! BRASIL!
O Brasil tinha acabado de ganhar a copa do México. Pensando nisso, comecei a rir e, mesmo não gostando de futebol, me deu uma vontade danada de botar a cabeça para fora da janela e gritar de volta, só de sacanagem:
- TRICAMPEÃO! (Devia ter feito isso!).
Quando soube que tio Cici havia sido operado para retirada de algum tipo de câncer, fui visitá-lo no hospital. Visivelmente com dor, mostrou-me um corte imenso no tórax, cujas bordas, além da sutura normal, estavam unidas entre si por meio de enormes grampos metálicos. Morreu em 06/08/1988, com 63 anos.
 
Tio Nem (Manoel)
Para quem curte, mais um post da série "memórias de família". Os textos em itálico referem-se a casos lembrados e escritos por minha irmã, a meu pedido. Bora lá.
Tio Nem (Manoel) nasceu em 02/07/1926. Convivi pouco com ele, pois viajava muito, sempre para os lados de Pirapora, Curvelo e Várzea da Palma – esses eram os nomes que ouvia. Trabalhava como representante de laboratório farmacêutico. Embora todos os tios fossem bem mais expansivos que os irmãos de meu pai, tio Nem (a pronúncia familiar é "Néim") se destacava pelo jeito amolecado (pelo menos é assim que eu o via). Com um sorriso meio irônico e olhar maroto, ele e o Mon sempre foram os mais alegres e brincalhões da família.
Minha mãe contava muitos casos sobre ele, dizendo que era muito levado ("danado") desde pequeno. Uma vez, minha avó sentiu falta dele, que deveria ter uns dois anos de idade. Depois de muito procurar, encontrou meu tio no cocho de melado, sem roupa e todo lambuzado. Segundo ele, essa seria a explicação “das moças gostarem tanto dele - ele ficou doce”
Quando criança, mamãe contava que ele brigava até com a sombra. Ele pegava uma varinha e batia na sombra pra ela ficar parada. Venhamos e convenhamos, isso não é coisa de gente brava, mas de gente retardada.
Como brigava muito com os irmãos e irmãs, meu avô colocava todo mundo de castigo, um encostadinho no outro. Tio Ném se aproveitava para beliscar a perna dos que estivessem do lado dele. Lembrando esses casos, minha mãe acrescentava -"Ô Nem que era impossível"!
Parece que sempre gostou de bichos e chegou a levar para casa alguns bem estranhos – uma cobra, um porco-espinho – o que deixava sua mãe e as irmãs apavoradas. Esses casos foram enviados por minha irmã. Lendo-os, lembrei-me da tal cobra, que chegou dentro de uma caixa de madeira, se não me engano. E o conjunto caixa-cobra tinha um cheiro enjoativo, o mesmo que se sente na área de animais do Mercado Central de BH.
Já adulto, sem a menor cerimônia, pegava escondido as roupas (ternos e tudo o mais), calçava os sapatos super engraxados do tio Cici e ia para os bailes nas gafieiras. Quando o irmão ia vestir as roupas, elas estavam naquele estado deplorável. Mamãe dizia que tio Cici quase tinha um ataque, porque os ternos eram de linho branco e ele mesmo fazia questão de passar. Papai contava que os sapatos pareciam até de verniz de tanto que brilhavam. Tio Nem saía todo perfumado, fazia o maior sucesso com as barangas, voltava ainda mais “cheiroso” e simplesmente colocava de volta as roupas pro lugar de onde as tinha tirado.
Mamãe contava que ele vivia colocando minha avó em apuros, porque volta e meia levava uma namorada diferente para apresentar ("cada qual mais feia que a outra"). Nas palavras de minha irmã, “tinha uma tal de Lota e uma que eu adorava o nome – Bartolozita), a maioria do norte de Minas. Até hoje, quando eu pergunto pra ele ‘tio, a Bartolozita era bonita?’, ele responde com aquela cara dele: - ‘feia demais!’. Ele continua uma peça”.
Depois dessa "intensa vida afetivo-social", Tio Nem se casou com Helena, uma moça gente finíssima e dona de um riso muito alegre; é a mesma que vovó, no início de sua demência, tentou expulsar, batendo com a vassoura no muro que separava a casa principal da edícula (ou barracão) ocupada por Tio Nem e esposa. Pensando bem, isso até que funcionou, pois logo se mudaram para outro lugar.
Tiveram quatro filhos – Aidezinha, Sandra, Junior e Ione. Aqui cabe um parêntese: o nome correto da filha mais velha é Haidée, em homenagem à avó materna. Pensando bem, até que é um nome bem bacana (falo sério!). Dureza é quando os pais batizam seus pimpolhos com nomes como “Alciedes”, “Helenete”, “Bekenbaer” ou “Cleuzimery” (falou o Botelho Pinto!).
A nota triste é que seu filho Junior morreu com 36 anos, de insuficiência respiratória, se não me engano. Ele sofria de asma (assim como minha avó e tio Cici) e usava um medicamento em spray conhecido popularmente como “bombinha”. Parece que o uso continuado desse aparelhinho leva (ou levava) à morte muitos asmáticos que dele necessitam. O fato é que essa é uma dor indizível para os pais.
Apesar dessa perda absoluta, meu tio conseguiu manter o espírito brincalhão e jovial. Alguns anos atrás, foi a um médico acompanhado por sua filha Ione (que nos contou o caso). No final da consulta, pediu para falar reservadamente com a médica que o atendeu. Só que a médica entregou a conversa "reservada" para sua filha. Com quase oitenta anos, queria uma receita para comprar Viagra!
Hoje, prestes a fazer noventa anos e com uma surdez muito acentuada, Tio Nem luta contra um câncer de próstata. Há tempos não o vejo, mas imagino que continua brincalhão como sempre e torcendo para o América mineiro.

 
Tio Tôto (Walter)
Tio Tôto (Walter) nasceu em 28/05/1928. De todos, é o tio mais arredio, mais isolado. Creio que foi o primeiro dos homens a se casar. Aliás, foi ele que inaugurou a prática de, recém-casado, morar no barracão de três cômodos construído na lateral direita da casa de minha avó.
Não sei de nenhum caso de sua infância ou adolescência, exceto o fato de ter recebido de seu irmão Omir o apelido de "Lemão" (Alemão), pois tinha o cabelo alourado quando criança. Para mim, que sempre o vi de cabelo muito preto e muito liso, isso é uma coisa difícil de imaginar. Casou-se com a Deia, filha de português (Sr. Dâmaso) com espanhola. Tiveram três filhos: Ronaldo José, Sérgio José e Vânia.
Meus primos - embora sempre sorridentes - eram tímidos e meio introvertidos. Por eu ser pelo menos seis anos mais velho que eles, acabamos nos relacionando de forma mais "protocolar", ainda que afetuosamente. E só os vejo em algum velório de parente. Creio que a última vez em que me encontrei com um deles foi no enterro de minha mãe, em 2009 (afinal, é para isso – rever parentes – que também servem os enterros!). 
A Deia era super gente boa, sempre sorridente e bem humorada. Pelo menos na aparência. Fico pensando que as visitas super-rápidas que tio Tôto e ela faziam aos meus avós podem ter sido assim por influência, determinação ou pedido dela. Eu era bem novo, mas logo percebi a existência de um padrão familiar: para minha avó e suas filhas todos os genros eram “muito bons”, “ótimas pessoas” e coisa e tal. Já as noras... 
Creio que a Deia deve ter sacado logo esse estilo ou foi alvo de algum comentário meio torto. Não sei. Como era muito afável, talvez nunca tenha dito nada, mas deve ter pensado algo assim:
- Quanto menos tempo ficar nesse ninho de cobra, melhor.
Segundo tia Aidê, ela “tinha um gênio dificílimo, principalmente no início do casamento, e era extremamente ciumenta e possessiva”. Teria chegado a fazer “algumas grosserias” com Dona Leta (minha avó). Nesse caso, lembrando-me de minha avó quando ainda estava mentalmente saudável, diria que “chumbo trocado não dói”.
Segundo minha irmã, “ela era bem possessiva com os filhos (...) e brigou feio com as namoradas deles que ela chegou a conhecer”. Minha irmã lembra também que ela se dava super bem com nossa mãe: “acredito que mamãe era a cunhada preferida dela, pois a única casa que eles visitavam era a nossa (com a mesma rapidez de sempre, é claro) e Tio Tôto chegou a falar com Alfredo que a irmã que ele mais gostava era a mamãe e o cunhado era o papai. Achei legal ouvir isso”.
Eu gostava muito dela e, creio, ela também de mim. O que posso dizer de seu temperamento é o que observava e ouvia sobre seu comportamento sentada no carro, ao lado do marido: lembrando-me de sua aflição e recomendações constantes dirigidas a meu tio, diria que ela agia como um navegador de rally:
- Walter, cuidado! Olha aquele carro, diminua, você está correndo muito, cuidado com o cachorro, cuidado com o ET, você está no meio da pista, olha o Bozo... E meu tio lá, caladão. 
Voltando ao meu tio, pode-se dizer que ele era “o” ligeirinho. Aos domingos, dia dos parentes visitar minha avó, rolava na casa um carteado na parte da tarde. Genros e filhos que iam visitá-la ferviam no baralho, jogando truco e escopa. Menos tio Tôto, o único dos tios que nunca se sentou para participar do baralho domingueiro. Suas visitas eram tão rápidas que quase pareciam um pit-stop de Fórmula 1 ou ejaculação precoce. O curioso é que na loja onde trabalhava era super calmo e atencioso.
Tio Tôto trabalhava como vendedor de tecidos no “Rei das Casimiras”, uma loja que existia na Av. Afonso Pena. O dono da loja era um descendente de libaneses, chamado Ralim (?). Esse sujeito era uma figuraça. Alinhadíssimo, estava sempre de terno, sempre impecável.
Logo no início do nosso namoro, minha mulher foi com uma colega de serviço para comprar um tecido para me dar de presente. O sobrenome dessa colega era Nacif e, claro, também era descendente de libaneses. Escolheram o tecido e o pedido com os dados da compra foi preenchido. Quando já iam pagar, o Ralim interveio, dizendo algo assim:
- Você não pode ir pagando assim, sem nem pechinchar, sem pedir desconto!
Minha mulher e a colega devem ter ficado meio roxas de sem graça. Não sei se ele já conhecia essa moça ou se ficou sabendo de sua ascendência ali na hora. O fato é que achou um absurdo que ela não tivesse orientado a colega na arte da pechincha. As duas estavam no horário de almoço, super corrido, e estavam loucas para voltar ao trabalho. E ele lá, discutindo qual o preço que ela queria pagar, essas coisas.
Quando meu irmão se formou (1973), eu mandei fazer um terno sob medida para ir ao baile. Comprei o tecido com tio Tôto e um alfaiate muito bom, seu conhecido, fez o terno. Em 1974 foi minha formatura. Não tive dúvida, mandei fazer outro. Os dois ternos ficaram excelentes, embora o estilo hoje seja ridículo, pois as calças eram tipo pantalona e com cintura bem alta (toureiro light). No ano seguinte (1975), eu me casei. Como o casamento civil era de manhã e o religioso à noite, resolvi fazer outro terno. Usaria o de minha formatura no casamento civil e o novo, no religioso.
O procedimento seria o mesmo, mas fui atropelado pelo Ralim. Não sei por que, ele resolveu me atender e ajudar a escolher o tecido.
- Você vai fazer a calça e o colete com este tecido cinza claro. A camisa você fará com este outro aqui, um cinza ainda mais claro. Agora, para o paletó você usará este aqui, quadriculado de cinza e branco.
Devo ter protestado meio sem jeito que gostava de cores lisas, sóbrias. Não adiantou.
- Rapaz, isso é a última moda, você vai ficar elegantíssimo!
E o mané aqui acabou concordando. Todas as vezes que vejo as fotos de nosso casamento, fico meio puto de ter aceitado aquela sugestão. O terno ficou uma bosta de feio! Mas o turco era boa gente.
A Déia morreu de câncer há muitos anos e o tio Tôto vive hoje na companhia da Vânia, sua filha. O Sérgio casou-se e foi pai (ou "pai-avô") com mais de cinquenta anos e o Ronaldo mora (ou morava) com a família nos fundos da casa de meu tio.
 
Seu Nome era Omir
Este post saiu originalmente em 28/04/2015, com o título "Seu Nome era Omir", como homenagem póstuma ao tio materno de personalidade mais "literária" da família e falecido pouco tempo antes. Como estou contando casos dos irmãos de minha mãe, achei que seria injusto deixá-lo separado dos demais, (segregado tal como foi um pouco quando era vivo). Por isso, resolvi republicar o post com o título da série que está rolando agora. Bora lá.
A família de meus avós maternos era daquelas numerosas, à moda antiga. Tiveram onze filhos, mas um morreu ainda na primeira infância. Dos outros dez, Omir era o mais alternativo, o mais tosco e o mais folclórico. Ou, se preferirem, o mais outsider, mais hardcore. O mais livre, enfim. Antes dos hippies, antes da Tropicália, ele foi verdadeiramente livre. 
Nenhuma convenção o inibia, nada o aprisionava. Talvez por tudo isso, a maioria dos sobrinhos nunca o chamou de tio. Era quase um personagem felliniano. Desde pequeno revelou-se uma pessoa avessa a qualquer tipo de controle, um verdadeiro rebelde sem causa, ou melhor, um rebelde sem calça.
Segundo minha mãe, levá-lo ao grupo escolar era uma luta que se repetia diariamente. Não sei se ele tirava toda a roupa antes de ser levado à escola ou depois de fugir de lá. O que sei é que bastava minha avó, minha mãe ou quem quer que o acompanhasse ir embora, para ele escapar da sala de aula e voltar igual uma bala para casa, chegando antes de todo mundo. Com isso, provavelmente não concluiu nem o ensino básico. Minha mãe tinha uma foto dele nessa época, em que aparece peladão. Prova material do delito recorrente.
Na época de servir exército foi ainda melhor. Quando era designado para ficar de guarda à noite, lá pelas tantas, largava o fuzil e ia dormir em casa. Na volta, claro, cadeia. Isso se repetiu algumas vezes, até o dia em que resolveu não voltar mais. Resultado: ficou sem o Certificado de Reservista, necessário para uma penca de coisas, tais como título de eleitor, carteira profissional e por aí. Muitos anos depois, recebeu uma carta do Exército convidando-o a regularizar sua situação. Simplesmente ignorou.
Com esses ótimos “pré-requisitos”, acabou virando mecânico de automóveis. Pelas amizades nesse meio, o próximo passo foi o alcoolismo.
Não sei se era ou não um bom mecânico. Só sei que um dia ele e os amigos resolveram construir um carro. Não sei direito como fizeram, mas ficou muito legal. Pelo menos para mim, que era criança. Um dia chega o Omir e mais um ou dois amigos dentro de um carrinho sem capota, prateado, pois estava na lata, literalmente. Tinham construído uma carroceria de linhas curvas e esportivas com chapas de aço galvanizado, montada sobre o chassi de algum carro destruído. Depois, para minha decepção, pintaram o carro todo. Um dia perguntei que fim tinha levado o tal carro. Fiquei sabendo que uma manobra desastrada em uma curva tinha feito o carro cair em uma vala ou córrego. Uma parte da nascente indústria automobilística nacional foi pro saco nesse dia.
Meu pai contava que um dia chegou em casa e escutou o Omir "fazendo uns barulhos muito feios dentro do quarto e com a porta fechada". Ficou preocupado e perguntou:
- Omir, você está sentindo alguma coisa?
Abrindo a porta, meu tio respondeu que estava ensaiando, porque ia fazer um teste no conservatório, pois pretendia virar cantor de ópera. E papai acrescentava que nunca ouviu nada mais horrível. 
Ainda segundo minha irmã, nossa mãe contava – fazendo cara de contrariada – que seu irmão uma vez cismou que queria ser padre e todo mundo foi na onda dele. Minha mãe chegou a ir a um seminário e conversou com os responsáveis de lá, mas, "felizmente ele desistiu". Certamente, ainda não havia sido enfeitiçado pela futura companheira de infortúnios.
Bom, eu sou católico, mas o Omir, com suas maluquices, até que ficaria bem em uma “sessão de descarrego” de alguma igreja evangélica. Certamente o “pedido” de casamento seria um bom motivo para isso. Esse caso também foi lembrado por minha irmã e é muito engraçado. Para não perder o sabor, transcrevo como recebi:
Ele jogou uma bomba dentro da casa da Tia Elba e papai dizia que foi assim que ele a despertou e conquistou. Como ele mesmo repetia, “eu sou eu e volto troco”!
Com um jogo de sedução e conquista tão sofisticado, um presente para sua futura e sofredora esposa não poderia ser qualquer um, desses que as pessoas normais compram em lojas. Tinha de ser diferente. Bem diferente.
Um dia eu o vi pegar um pedaço de tampa de privada (eram feitas de madeira, na época. E grossas, para ficar anatômicas) e começar a esculpir alguma coisa. Desse material de origem tão “nobre” fez um coqueirinho estilizado. O tronco foi perfurado (provavelmente com a pua de meu avô) até ficar todo oco. Depois de pronta a escultura, a peça foi devidamente lixada e um vidrinho com perfume foi alojado na parte oca.
Nessa época, alguns medicamentos ministrados através de injeção vinham dentro de vidrinhos cilíndricos tampados com uma tampinha de borracha, por sua vez lacrada com um anel de metal. Creio que o medicamento podia ser retirado introduzindo-se a agulha da seringa diretamente na borracha macia da tampa (quando me lembro desses detalhes, dá vontade de dizer: “gente, eu sou velho pra caramba!!!”). Isso não vem ao caso. O que conta é que o tal vidrinho de perfume, um presente para a namorada, foi anteriormente a embalagem de algum medicamento. Muito chique!
Depois de tanta “originalidade”, acabaram casando-se. Minha tia era uma mulata de cabelo “ruim”, de pele clara e olhar meio aéreo, que deve ter sofrido demais com a inconstância, irresponsabilidade e alcoolismo do marido. Tiveram cinco filhos. Além da filharada, criaram ainda o filho de uma irmã falecida.
Um dia, provavelmente alcoolizado, chegou à casa de minha avó dirigindo um carro que tinha pegado para consertar. Além do primeiro filho, então com uns três anos de idade, alguns passageiros ilustres o acompanhavam: um amigo (provavelmente encachaçado como ele) e duas ou três putas (a oficina onde trabalhava ficava bem no meio da zona boêmia). Ao ver o irmão em tão distinta companhia, minha tia Aidê deu-lhe um esporro fenomenal e ele se mandou, visivelmente contrariado.
O que me deixa às vezes perplexo é pensar que os irmãos e cunhadas de minha mãe sempre demonstraram de forma explícita gostar muito de mim, mesmo que eu nunca tenha feito nada de significativo para que isso acontecesse. Sei lá, deviam ter alguma simpatia (ou pena) pelo meu jeito meio avacalhado e sem frescura de tratá-los. Com o Omir e esposa aconteceu exatamente assim.
Ela, talvez pela vida difícil que levava, talvez pelas muitas humilhações que sofreu de forma velada ou escancarada, não olhava muito nos olhos da pessoa com quem conversava. Talvez daí a expressão meio aérea que citei. Quando eu já estava adulto, me procurou meio sem graça, quase pedindo desculpa, e perguntou se eu aceitava ser o padrinho de batismo da quarta filha. A madrinha seria uma de minhas primas. Claro que aceitei. Mas, como nunca liguei muito para essa afilhada, posso dizer que sou um padrinho de merda, mesmo tendo sempre muita simpatia por seus pais.
A filha caçula tem idade próxima à de nosso filho mais velho. Até pela imensa diferença de idade, tive muito pouco contato com ela. As únicas coisas que sei é que teve uns dois ou três filhos, entregou-os para a sogra e se mandou pelo mundo. Parece que às vezes vai à casa da irmã mais velha, e depois some de novo. O fato é que, pela semelhança de comportamento, quase que o Omir poderia sentir orgulho dela. Vidão!
Minha tia morreu de câncer há uns vinte anos e meu tio e compadre, no final da vida, quase cego, morava com o filho mais velho no interior do estado. 
Omir, cujo nome sempre me fez pensar em personagens bíblicos ou do antigo Egito, morreu no mesmo dia em que eu e minha mulher comemoramos quarenta anos de casamento, mas só ficamos sabendo quando já tinha sido enterrado. Figuraça!
 
Mon (Almon)
O irmão mais novo de minha mãe, Mon (Almon), nasceu em 05/04/1940, o que significa que é apenas dez anos mais velho do que eu. Essa diferença de idade, semelhante à que existe entre nossos filhos mais velho e mais novo, fez com que ele ficasse meio híbrido para mim, metade tio, metade irmão. Não me lembro de muita coisa dele na infância, apenas que às vezes torcia meu braço, de sacanagem.
Na adolescência, foi o responsável involuntário por eu me recusar a chamar nosso segundo filho de “Binho”, como fazem seus irmãos. A história é simples, sem sacanagem: não sei se foram colegas de colégio ou se, por morarem perto, a um quarteirão de distância, o Mon ficou amigo do Weber, um sujeito muito educado e muito, muito delicado. Ninguém lá em casa o chamava de Weber, só de “Binho”. Era engenheiro (!) e, em determinado momento, teria sido expulso de casa pelo pai, sargento do exército, talvez depois de descobrir que o filho era gay. Esse sujeito gostava de conversar com minha mãe e falava de forma meio sibilante. Por conta dessas lembranças, só chamo nosso filho de “Bil”, jamais de “Binho”. Isola!!!
O Mon estudou na Escola Técnica, na av. Amazonas. Para chegar lá, comprou uma bicicleta do tipo que se conhecia como “camelo” ou “camelão”, sem marcha nenhuma, e descia desembestado a Rua Itambacuri, que tem até hoje calçamento poliédrico (ruim para andar de bicicleta) e uma ladeira “legal”. Depois, comprou uma “magrela” própria para corrida, com quatro marchas, selim estreito e guidon recurvado e paralelo ao eixo da bicicleta. Achei bacana pra caramba. Não me lembro o que aconteceu com essa bicicleta depois da queda, só sei que um dia derrapou e caiu em cima da linha férrea, se arregaçando todo.
Pouco tempo depois comprou seu primeiro automóvel, um Fiat da década de 30, estranhamente pequeno. O carro funcionava muito bem nas descidas. Subir já era outra história. Um dia, entrei no carro com Tia Aidê e mais alguém, talvez o Omir. Não sei aonde iríamos. A descida da rua Padre Eustáquio foi uma beleza. Ao tentar voltar, não houve meio do bosta do carro subir a rua. Aquilo me causou certo pânico (como vou voltar para casa?), que depois mudou para vergonha: amarraram um cabo de aço no Fiat, que subiu a rua rebocado. Nunca mais cheguei perto dele, mas não deu nem tempo. Logo depois o Mon comprou um Ford conversível 1936, branco e vermelho, muito legal. Esse andava.
Desde novo, o Mon parecia sentir coceira ao ficar com um carro por muito tempo. Para minha tristeza, vendeu o Ford bonitão e comprou um Chevrolet 1934, preto, muito feio, que foi logo trocado por roupas e malas(!)
A explicação é simples: depois que se formou na Escola Técnica, um de seus professores o convidou para ir trabalhar em Brasília, recém-inaugurada. Convite feito, convite aceito, para grande desespero da mãe e das irmãs. As roupas e malas serviram para isso.
Mesmo não tendo formação universitária, começou dando aula e acabou diretor do MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização, criado na época dos governos militares. Não sei muita coisa sobre sua vida em Brasília, só sei que ficou bem de vida, fez um ou dois loteamentos em Taguatinga, onde morava. Atualmente (2013), mora em Sobradinho ou sei lá onde.
Para fazer a terraplenagem de um desses loteamentos e bem ao seu estilo aventureiro e entusiasmado, comprou um trator que ele mesmo operava. Ainda tem o tal trator e até faz uns bicos com ele (“porque a despesa é muito grande”). Figuraça.
Muito antes disso, quando ainda havia passado pouco tempo de sua mudança para Brasília, uma noite, a campainha da casa de minha avó tocou. Alguém foi ver quem era e foi aquele alvoroço: era o Mon e, com ele, um senhor de 40 anos, aproximadamente, de nome Otto. Era alemão e padrasto de sua namorada. Trabalhava como mecânico de aviões.
Perguntado como tinham vindo, a resposta surpreendeu a todos: de moto, na garupa do “sogro”. Agora, imagina, 700 km na garupa de uma moto. Para voltar, mais 700 km. Haja cu!
Acabou se casando com essa namorada, uma baiana chamada Helena. Tiveram quatro filhos,Mônica, Valéria , Patrícia, e Almonzinho.
Quando meus avós ainda eram vivos, ele vinha pelo menos duas vezes por ano visitar a família. E, a cada vez que vinha, era utilizado um carro diferente. Quando minha mãe ainda estava viva, perguntei quantos carros já tivera. A resposta: “eu tinha tudo anotado em uma caderneta, que perdi. Até onde eu me lembro, já tive mais de duzentos”.
As características mais marcantes do Mon sempre foram um bom humor e uma disposição impressionantes. Parece que ele sempre teve fogo no rabo, como demonstrou no caso das “mudanças”.
Valéria, uma de suas filhas, casou-se com um oficial da Aeronáutica, piloto de jato e foi morar na base de Anápolis. Um dia, o genro foi transferido para o Rio Grande do Norte. A filha perguntou ao Mon se ele não queria levar sua mudança (na época, ele tinha um caminhão, mas não me perguntem por que). Meu tio nem pestanejou. Colocou a tralha no caminhão e se mandou para Natal, distante mais de 2.000 quilômetros de Brasília. Nem bem descarregou a mudança, virou a bunda para trás e voltou.
Passa mais um tempo e olha outra transferência do genro. Destino? Rio Grande do Sul, se não me engano. Outro pedido da filha e olha o louco de novo na estrada. Roteiro: Brasília – Natal, Natal – Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul – Brasília. Distância total percorrida: uns 9.000 km. Por conta dessa disposição maluca e um permanente bom humor (mais o auxílio luxuoso de algum produto tipo “grecin 2000”, lógico), quem olha para ele não imagina que já tem 73 anos (estamos em 2013).
Minha mãe e seus irmãos sempre disseram que eu me parecia com ele, coisa que me deixava meio irritado, pois eu olhava, olhava e não via nenhuma semelhança. Depois de ficar mais velho, entretanto, comecei a achar que, sim, até que nos parecemos um pouco. O problema todo é que atualmente o filho da puta aparenta ser mais novo que eu!

 
Adendo: Hoje, no ano da graça de 2026, com exceção do Mon (hoje com 86 anos), “estão todos dormindo, estão todos deitados, dormindo profundamente” como escreveu lindamente o Manuel Bandeira.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

NASCIDOS NA FAZENDA - A REVISTA

 “Qualquer vida, se tem o narrador certo, merece um livro ou, pelo menos, um capítulo”. O autor desta frase magnífica é o jornalista Diogo Schelp, que a construiu para comentar na revista Veja um livro recém-lançado.
 
Tomo a liberdade de usá-la para apresentar um livreto, uma revista contendo em uma só postagem o resultado da junção de seis textos publicados anteriormente. O assunto, claro, são lembranças de pessoas com quem convivi. No caso particular, meus avós maternos. Não creio ser o “narrador certo”, talvez seja apenas o único – e mais errado que certo.
 
Tal como os posts já divulgados sobre a família de meu pai, este é parte de um texto maior, ainda inacabado, que comecei a escrever em 2013 para deixar para meus filhos (caso eles queiram saber). O tema são as lembranças que tenho sobre a família de minha mãe. Deixo claro que meus comentários e lembranças descritas não se enquadram na cartilha politicamente correta nem na linha chapa branca.
 
Apesar disso tudo, resolvi divulgar um pouco dessa memória no Blogson. E o culpado é o meu amigo virtual Marreta do Azarão, que disse ser minha "verdadeira veia literária" as memórias. Assim, antes que minha memória acabe de vez, vamos falar um pouco da véia, ou melhor, vamos exercitar a veia. E o assunto começa justamente com a família de minha avó materna. Vamos lá.
 
Nascidos Na Fazenda – Parte 1
Quando eu nasci, em 1950, meus pais e meu irmão já moravam na casa de minha avó materna. Minha avó teve onze filhos, mas um deles morreu ainda pequeno. Minha mãe era a segunda mais velha e foi também a segunda a se casar. Todos os filhos, com exceção de tia Ci, casada com tio Tristano, moravam nessa casa. Como a casa era pequena, barracões (edículas) foram sendo construídos para abrigar esse povo todo e mais meu avô, que, embora separado de minha avó, morava lá também, em um quarto de um dos barracões existentes no fundo do imóvel.
 
Comparados com meus tios paternos, metade deles nascida antes de 1900, os irmãos de minha mãe eram verdadeiras crianças, pois a tia materna mais velha (tia Ci) é mais jovem que a caçula da família de meu pai (tia Zinha). Por isso, apenas para registro e ordenação, transcrevo os dados fornecidos por minha irmã, tal como fiz com os irmãos de meu pai:
 
Tia Ci (Araci), minha madrinha de batismo, nasceu em 19/02/1919. Em 19/12/1920 nasceu minha mãe. Meu tio e padrinho Moacir (Cici) nasceu em 25/04/1925. Tio Nem (Manoel) nasceu em 02/07/1926.
 
Tio Tôto (Walter) nasceu em 28/05/1928. Em 30/07/1929 nasceu tia Dalva. O próximo foi Omir (não “tio Omir”, apenas e tão somente, Omir), nascido em 14/07/1931. Depois dele, veio tia Aidê, nascida em 24/08/1933. A mais nova das mulheres, tia Marisa, nasceu em 15/12/1935. O último tio - Almon (Mon), apenas dez anos mais velho que eu, nasceu em 05/04/1940.
 
Meu tio José (epa!, de novo) foi o terceiro filho a nascer, ficando entre minha mãe e tio Cici. Segundo tia Aidê, morreu com onze meses, vítima de uma variante mais branda da famosa gripe espanhola. Parece que nessa mesma época suas tias Anita e Domila também perderam bebês, vitimados pela mesma doença. Uma coincidência não muito simpática (para mim, pelo menos) é o fato de os dois tios “José”, um por parte de pai e outro por parte de mãe, terem morrido na infância.
 
Uma coisa que eu nunca entendi é o bailado dos sobrenomes de minha avó e de meu avô, que se alternavam na composição dos nomes dos filhos. Meu avô chamava-se Francisco José Botelho. Minha avó, Julieta Alvarenga Costa. E os filhos ficaram assim:
Tia Ci (Alvarenga Botelho); minha mãe, Lia (Alvarenga Botelho); tio Cici (Botelho Alvarenga); tio Ném (Botelho Alvarenga); tio Tôto (Botelho Alvarenga); tia Aidê (Botelho Alvarenga); tia Dalva (Alvarenga Botelho); Omir (Botelho Alvarenga); tia Marisa (Alvarenga Botelho) e Mon (Botelho Alvarenga). Parece que essa ideia maluca teria sido de meu avô. Sei não, mas ele deve ter fumado algum tipo de cipó ou fumo de rolo jamaicano, na época. Também nunca entendi porque foi usado o “Alvarenga” de minha avó em vez do sobrenome “Costa”.
 
Como vivi nessa casa durante 24 anos, até me casar, as lembranças vão se justapondo e se embaralhando muito. Por isso, recorri algumas vezes à minha irmã, que me forneceu datas, nomes e casos que eu já tinha esquecido ou, mesmo, que desconhecia. As transcrições literais do que ela me enviou estão entre aspas e em itálico. E, para tentar ordenar um pouco essa bagunça, preciso falar de cada uma dessas pessoas isoladamente. E vou começar por minha avó.
 
 
Seu apelido era Lêta. Não sei onde nasceu, mas tinha uma penca de irmãos, como era costume naquele tempo (e depois tem gente que critica a televisão!). Esses irmãos iam visitá-la de vez em quando. Colocados na ordem de idade, lembro-me do tio Juquinha (José), tia Chana (Emerenciana) e tia Anita (Ana), uma senhora gorda e metida, por quem nunca tive simpatia. Era casada com tio Olímpio.
 
Depois, vinha tia Domila (Laldomila), casada com tio Custódio ou Custodinho, para diferenciar de outro irmão de minha avó, ele também Custódio. Além do nome alucinógeno, tia Domila seria fácil, fácil uma personagem de história em quadrinhos, mais precisamente irmã da bruxa Alcéia, das histórias da Luluzinha. Sinceramente, ela era feia pra caramba, com seu nariz mega adunco e aqueles olhos... bem, os olhos eram parecidos com os meus, arregalados e com bolsa e tudo. Uma bosta.
 
O mais engraçado é que o marido, tio Custódio (Custodinho) morria de ciúmes dela. Uma de suas filhas, Alda, sempre honrou com muito mérito a feiura da mãe. De tão magra, usava duas calças compridas, “para engrossar a perna”. Separada do marido (porque será?) e aparentemente meio ninfomaníaca, quando era mais jovem ia à Avenida Paraná (coisa muito fina!) para descolar algum motorista ou trocador. Não é invenção minha! Quando eu namorava a minha mulher e o ponto final do meu ônibus era na Paraná, cansei de vê-la por ali, nos sábados à noite. Morria de vergonha.
 
Continuando com os tios-avós, vinham o Oscar e o Neca (Manoel). Minha avó era a segunda mais nova. Esse pessoal todo morava no bairro Floresta.
 
Alguns anos atrás, minha tia Aidê mostrou-me uma fotografia sensacional, que, contada de hoje (estamos em 2013), deve ter de noventa a cem anos. Nesse retrato, com aquelas caras de foto posada de antigamente, estão meu bisavô, minha bisavó – que era sua segunda esposa – e todos os filhos do primeiro e do segundo casamento. Minha avó aparece como uma jovem de, no máximo, vinte anos. Essa fotografia e a informação de que meu bisavô foi casado duas vezes esclareceram uma das coisas que mais me intrigavam, relacionadas à Tia Chana.
 
 
Nascidos Na Fazenda – Parte 2
Os pais de minha avó chamavam-se (olha o tempo se movendo!) Joaquim Carlos Pereira de Alvarenga e Alda Augusta da Costa (Dindinha). Quando o Joaquim casou-se com minha bisavó ele era viúvo e pai de cinco filhos, que ela acabou de criar: duas moças de nome ignorado ("não lembrado"), tio Quinca, tio Chiquinho e tio Custódio. Uma das filhas, talvez a mais velha, teve um filho apelidado de Juca, que protagonizou um dos casos bizarros da família.
 
Segundo ouvi algumas vezes de minha mãe, tia Chana era casada com seu sobrinho (!). Tinha o apelido de Juca Barão e já era bem velho quando íamos visitá-los na Rua Floresta, onde moravam. Essa consanguinidade maluca atingiu os quatro ou cinco filhos do casal, mas não me lembro como. Pois bem, minha mente infantil, de criança, não conseguia assimilar essa história:
- “Como é que pode, casada com o sobrinho? Mas eles parecem ter a mesma idade!”
 
Bem, minha mente não é mais de criança, mas permanece ainda meio infantil. E olha que meus pais nem eram parentes!... (piada muito ruim!)
 
A explicação é simples: tia Chana, que era filha do segundo casamento de meu bisavô, casou-se com um “meio sobrinho”, pois o tio Juca, seu marido, era justamente o filho de uma de suas duas irmãs do primeiro casamento. Convenhamos, não deixa de ser uma situação meio bizarra, meio incestuosa.
 
No post anterior eu mencionei a existência de uma foto antiquíssima da família de minha avó materna. Recentemente, recebi de minha irmã uma cópia escaneada da tal foto. Uma das tias avós estava ausente e foi inserida depois, usando-se o photoshop da época (tesoura e grude ou goma arábica). Esse retrato deve ter sido tirado entre 1915 e 1920(!). A título de curiosidade, fiz um "Onde está Wally", um "Who's Who" da foto. Olhaí.
 
Antes de prosseguir com as lembranças, preciso esclarecer uma coisa: como não sou espírita (espiritualista), para mim as pessoas permanecem “vivas” apenas enquanto alguém conseguir lembrar-se delas, enquanto puderem ser identificadas por fotos, casos de família ou documentos. E há casos de família que, mesmo sendo um pouco constrangedores para algum de meus tios, iluminam a personalidade de quem os protagonizou. Por isso, mesmo que não queira magoar ou ofender ninguém (pelo contrário!), este texto pode ter algum deboche, alguma “falta de modos”. Mas assim é a vida, é assim que eu a vejo. E, afinal, nunca é demais lembrar que parte do que sou, das influências que recebi, vêm dessa família, com quem convivi diariamente por 24 anos.
 
Minha avó nasceu em 05/01/1898 e era dois anos mais velha que meu avô. Certamente por vaidade, mentia o ano de nascimento. Para mim, tinha nascido em 1900. Só quando ela morreu fiquei sabendo a data certa, gravada na lápide da sepultura. Era muito, muito magra. Se tivesse sido calculado, certamente seu IMC seria inferior a 18. E “feinha”, na opinião de uma senhora que a conheceu.
 
Fiquei conhecendo essa senhora (D. Zizinha) por puro acaso, pois ela era a proprietária de uma casa semi-abandonada na rua onde moramos. Chegamos a pensar em comprar esse imóvel e, por isso, às vezes telefonava para ela. Essa senhora tinha uma visão desencantada e sarcástica da vida, com comentários ácidos e cortantes. Talvez por isso, eu gostava de conversar com ela. Nessas conversas que mantivemos, por mais incrível que pareça, descobri que ela conhecia minha família, que era sobrinha ou prima do tio Juca Barão e que tinha sido muito amiga de minha mãe na adolescência, a quem definiu como “muito bonitinha”, em contraponto à minha avó, “muito feinha”. Segundo essa senhora, meu avô era “bonitão”. Eu nunca soube se houve casos (no plural) de infidelidade de meu avô, apenas transcrevo a frase que ouvi de Dona Zizinha: “o Chiquinho não era fácil”.
 
Outra lembrança de minha avó, quando ainda estava lúcida. Um dia, alguém chegou à nossa casa para entregar a parte da herança paterna ou materna que lhe coube – um conjunto de louça sanitária decorada, muito bonito, composto de bacia, jarro, saboneteira e penico, esses dois com tampa; um cesto de palha com fundo quadrado, tão usado que tinha um furo em um dos cantos, e mais alguma tranqueira de que não me lembro. Essa “maravilha” de herança provocou um colapso nervoso. Também, pudera: imóveis, fazendas, gado e sei lá o que teriam sido repartidos entre os irmãos (creio que só entre os homens).
 
Pra finalizar este post, outra lembrança: minha avó comprou de seu sobrinho Orlando, filho de tia Anita, um terreno em Lagoa Santa. Conforme apalavrado, o terreno teria determinada área, definida em alqueires. Ao ser passada a escritura, o terreno tinha minguado para 30.000 m² ou coisa parecida. O certo é que a área entregue equivalia a um terço do oferecido. Consequência? Um bate-boca gigantesco com o sobrinho filho da puta e novo colapso nervoso. Esse terreno foi depois comprado por meu pai e colocado em nosso nome (maldita ideia!).
 
Antes de passar para meu avô, preciso registrar que minha avó foi, sem que eu me desse conta disso até agora, uma figura central nas primeiras décadas de minha vida, com todas as suas dores e decepções, a verdadeira fêmea alfa da família (obrigado, Nat Geo).
 
 
Nascidos Na Fazenda – Parte 3
E aí vai mais um capítulo das "Memórias Sentimentais de Jotabê" (isso é só enrolação, só uma piadinha, entendeu?). Vamos lá:
 
Vovô Chiquinho nasceu em 15 de março de 1900. Vovô, não, que esse tratamento era dado por meu irmão e primos (minha irmã o chamava simplesmente de “Vô”). Eu o chamava, sem nenhuma cerimônia, de “Sô Chico” (da mesma forma que falava “Seu Amintas” e “Dona Lia”, quando conversava com meus pais). E o engraçado é que ele gostava disso, dessa falta de modos (meus pais também). Uma vez minha mãe comentou o que vovô tinha dito a meu respeito: -“Esse aí me puxou!” Que eu posso dizer disso? Que o discernimento dele era péssimo.
 
Chamava-se Francisco José Botelho e era filho de Lino José Martins e Januária Antônia de Oliveira Botelho. Perguntada o porquê de o sobrenome de seu pai ser “Botelho” e não “Martins”, tia Aidê não soube explicar. Fico pensando que, na virada do século XIX para o XX, os cartórios de registro civil deviam ser uma zona, a verdadeira casa da mãe Joana.
 
Outra “reflexão”: se vovô tivesse se chamado “Francisco José Martins”, eu não teria uma insinuação de ato sexual no nome (“Botelho Pinto”), para me acompanhar o resto da vida. Não à toa, alguns colegas me tratavam respeitosamente por “Botei-vos” “Censurado” e mais uma penca de variantes e sinônimos, na mais pura sacanagem. E, numa boa, eu sempre me diverti com isso. Mas isso já é outra história.
 
É possível ver meus bisavós, já velhinhos, em duas fotografias espetaculares ainda existentes na casa de minha irmã. O casal teve esses filhos, não necessariamente na ordem em que estão relacionados:
 
Olinta, Onésio, Odila, João, Francisco (meu avô), Waldemar, Odorêncio (esse nome só empata em feiura com Laldomila, que era irmã de minha avó) e Humberto.
 
Creio que com exceção de tio João, todos os outros moravam em Lavras. Alguns nunca cheguei a conhecer. Lembro-me que tio Waldemar e – em datas distintas – tio Dorenço (Odorêncio) foram uma vez à nossa casa. Creio que foi um deles que trouxe um litro de um molho saborosíssimo, feito com “trezentos” ingredientes diferentes.
 
Tio Humberto ou “tio Beto”, como todos falavam, era dentista e teve três filhas com nomes que me encantavam: Ábia, Hebe e Íbia (ou coisa parecida). Lembro-me da Ábia, uma moça com bochechas bem acentuadas, que se casou por procuração com um português. Chique!
 
Tio João sempre ia lá em casa, assim como algumas de suas filhas. Depois que comecei a namorar minha mulher, uma de minhas cunhadas, um dia, perguntou se eu tinha um tio, talvez tio-avô, conhecido como João Botelho. Era o próprio. Meu tio era o avô de seu namorado na época, o Roberto Bocão. O engraçado é que graças a esse namoro eu conheci e fiquei amigo de um primo distante (de terceiro grau). Ele e seus irmãos são os únicos que conheço e com quem converso esporadicamente, pois os pais moram em frente à casa de minha sogra (o mais conhecido é o Serginho, que, em uma noite de Natal, depois de tirar meleca do nariz veio me estender a mão despreocupadamente, fazendo uma de minhas noras quase desmaiar de rir).
 
Tempos depois de terminado o namoro com minha cunhada, fomos convidados para o casamento do Bocão. Nessa época meu avô já tinha morrido. Quando vi meu tio-avô sentado na igreja, fiquei com uma vontade danada de ir abraçá-lo, mas desisti. Afinal, ele me conheceu criança e talvez não fosse se lembrar de mim. Se eu o tivesse abraçado, de certa forma estaria também abraçando meu avô. Hoje penso que devia ter feito isso. Tio João permaneceu lúcido até os 102 anos e morreu um ano depois.
 
Nunca entendi por que só os irmãos de meu avô e de minha avó eram bem de vida (quase todos, pelo menos). Em suas visitas dominicais, eram casos de fazenda pra cá, boiada prá lá, por aí. Meus avós, coitados, estiveram sempre na merda – ou perto disso. Consultando minha irmã sobre datas e fatos para escrever estas lembranças, surgiu a explicação para essa ostentação domingueira (pelo menos, no que se refere aos irmãos de minha avó).
 
Minha mãe e seus quatro irmãos mais velhos nasceram em uma fazenda localizada em Ijaci, distrito de Lavras na época. Depois, mudaram-se para outra fazenda em Pedro Leopoldo, onde nasceu Tio Tôto. Nova mudança de fazenda e de cidade e mais um nascimento: tia Dalva nasceu na Fazenda da Pedra Branca, em Capim Branco.
 
Segundo tia Aidê, seus pais iam se mudando junto com a Dindinha, mãe de minha avó. As fazendas teoricamente eram dela, mas quem fazia os negócios eram seus filhos homens e, à medida que vendiam as propriedades da mãe, “compravam outras menores e embolsavam uma parte, até restar só a casa da Floresta”. Puta sacanagem. E meu avô trabalhava para ela, Dindinha. Tia Aidê disse que “de genro ele virou o ‘faz-tudo’ enquanto os cunhados ficavam só no ‘bem bom’”.
 
Talvez por esse motivo, meu avô começou a trabalhar como “construtor”, um termo que se usava ainda na época de minha formatura. No duro, no duro, essa função é exercida hoje pelos “mestres de obras” ou “encarregados gerais”. Em uma época de poucos engenheiros, o prático tinha mercado de trabalho garantido.
 
Sei de poucas obras que meu avô administrou (ou construiu, como dizia). Uma delas é uma chaminé tronco-cônica, feita com tijolos, provavelmente necessária para algum forno, caldeira ou coisa parecida. Essa chaminé ainda deve existir e fica ou ficava quase na beira da lagoa, próximo à vila residencial da Aeronáutica, em Lagoa Santa.
 
Outra obra, onde fui ainda pequeno com ele, é um conjunto de casas construído em frente ao Clube dos Oficiais, no Prado. Essas casas eram de propriedade do Antônio Luciano, um sujeito riquíssimo e com um apetite sexual extraterrestre.
 
Vale a pena falar um pouco desse sujeito: décadas atrás, a prefeitura de Belo Horizonte resolveu criar oito novos parques na cidade. Seis deles seriam construídos em terrenos do tal Luciano. O procedimento era simples: as áreas seriam desapropriadas, a PBH pagaria uma mixaria para os proprietários e fim.
 
Ao saber dessa intenção, imediatamente mandou fazer projetos de urbanização e loteamento dessas áreas e deu entrada na prefeitura. Com isso, os imóveis adquiriram novo status e novo valor. Resultado: essa manobra inviabilizou as desapropriações e a ideia foi enterrada. Creio que uma dessas áreas é hoje o bairro Camargos, em frente ao Minas Shopping, do outro lado da Cristiano Machado.
 
O Luciano (Dr. Luciano, como vovô se referia a ele) era dono de quase todos os cinemas de Belo Horizonte, aliás, os melhores. Dizia-se que tinha uns oitenta mil imóveis só em Beagá (!). Mas sexo é o assunto em que esse médico (era médico, o sacana) era um craque, pois deixou dois filhos legítimos de seu casamento, uns quarenta outros foram reconhecidos como filhos naturais, com direito a herança, e existem ainda mais de cem que brigam ou brigaram na justiça para ser também reconhecidos como descendentes desse super-coelho.
 
Para ele, vale uma frase que ouvi quando fizemos curso de noivos. Ao escutar um dos noivos dizer que tinha 26 irmãos, o orientador perguntou: -“Seu pai teve tempo de vestir as calças?” Cagamos de rir.
 
 
Nascidos Na Fazenda – Parte 4
Eu terminei a terceira parte desta série de lembranças falando de um sujeito que tinha um apetite sexual do tamanho da Muralha da China.
 
Pois bem, Sô Chico trabalhou durante anos para esse sátiro. Se comparada à performance desse médico, a “escapadinha” de meu avô nem seria digna de nota. Exceto para minha avó e seus filhos. Vovô teria conhecido sua segunda mulher, Amélia, durante a construção do aeroporto do Carlos Prates. Segundo minha irmã, tia Ci, mamãe e tio Nem contaram a ela a mesma versão.
 
Esse assunto era quase tabu na família. E, claro, quanto mais o tempo passa, mais tende a ficar providencialmente esquecido. Afinal, os “vértices” desse “triângulo das Bermudas” já morreram há muito tempo. Mas ainda me permito especular como tudo começou. “Sô Chico” era um sujeito “sacudido”. (termo antigo que pode ser entendido como saudável, forte, por aí). Talvez, em um fim de semana qualquer, talvez não tivesse nada para fazer... Já disseram que “mente vazia é a morada do capeta”. Aí,... Bingo! Ou Bang.
 
Alguns filhos levavam isso numa boa, pelo menos os mais moleques (tio Nem, Omir e Mon). De vez em quando, se esse assunto surgia e tia Aidê estava longe, comentavam alguma coisa e riam, fazendo blague da traição do pai.
 
Eu sempre achei que alguns dos filhos dessa Amélia fossem também de meu avô, talvez por um comentário feito uma vez por minha mãe. Segundo ela, o caçula da segunda família parecia-se muito com o Almon, seu irmão mais novo. As informações fornecidas recentemente por minha irmã desmentem essa suposição. Pelo sim, pelo não, fica a dúvida.
 
“A mãe dela (que parece era uma mulher meio "pra frente" pra não dizer coisa pior) servia a refeição para os trabalhadores, inclusive o Vô e empurrava a filha de todo jeito para algum deles, porque ela, Amélia não sei se tinha sido abandonada pelo marido ou se tinha ficado viúva e com três filhos pequenos, dois meninos e uma menina. O Abel, um dos que trabalhou com o Vô nessa época e era motorista da obra (e foi talvez a pessoa que tenha contado tudo pra Vó), também afirmava que os filhos da d.Amélia eram do marido (policial) e que o Vô se encarregou de criá-los. O filho dela que conversou com a tia Aidê pelo telefone tinha ou tem o apelido de Bolinha (ele trabalhava como investigador) e tio Nem o conheceu pessoalmente; esse moço disse a mesma coisa para tia Aidê e para o tio Nem, que considerava o Vô como pai porque ele os criou, mas que ele e os irmãos não eram filhos legítimos dele, eles inclusive tinham o sobrenome do pai. A moça virou freira. E o Abel (ele morava aqui na Lagoa) contou pra mamãe, que a d. Amélia faleceu um ano depois do Vô”.
 
O fato é que, aos sábados, depois de almoçar, meu avô avisava que ia visitar os parentes. E saía quase que arrastando os pés – “de tanto trabalhar”, segundo ele. Entretanto, bastava atingir a esquina para pegar uma velocidade digna de marcha olímpica. Minha mãe e meu pai comentavam isso, rindo.
 
Vovô gostava muito de mim - e eu dele. Depois que me casei, eu ficava às vezes até um mês sem ir à casa de minha avó. Ele reclamava que eu não ia vê-lo, essas coisas. E eu sempre prometia visitá-lo com mais frequência, promessa sempre descumprida, até porque não tinha carro.
 
Um dia, meu chefe chega com a notícia fatal: meu avô tinha sido atropelado e estava no CTI (provavelmente) do Hospital São Lucas. Creio que até nos deu carona. Alguns primos e tios estavam lá, do lado de fora, meio atarantados. Não me lembro se no mesmo dia ou no dia seguinte, recebi a notícia de seu falecimento. Aquilo me doeu muito, ainda mais porque eu realmente pretendia visitá-lo no fim de semana seguinte. Depois, talvez no velório ou na missa de sétimo dia, fiquei sabendo de mais detalhes. Tinha sido atropelado na Niquelina ao perder o equilíbrio, quando tentava atravessar a rua. Detalhe: indo ou vindo da casa de sua segunda família.
 
Foi socorrido por alguém que o conhecia da região. Ainda consciente, pediu ao amigo: “Não me deixe sozinho”. Creio que foi tia Aidê que me contou ter recebido um telefonema de um de seus “meios-irmãos”, com o seguinte recado: “não se preocupem, nós não iremos ao enterro, não queremos envergonhá-los”.
 
Esse tipo de coisa me deixa perplexo: se não havia nenhuma herança para repartir (o que tornaria tudo muito mais difícil), porque comprar a mágoa de uma mãe já falecida? Porque não conhecer, porque evitar relacionar-se com pessoas que, afinal, também poderiam ser seus irmãos? Meu avô morreu em 1976 com 76 anos, quatro anos depois de minha avó.
 
Até hoje, quando vejo alguém cujos traços se parecem com os de meu tio Almon, me pego perguntando: “será que é meu parente?”
 
 
Nascidos Na Fazenda – Parte 5
Por mais que eu goste de retratos, preciso admitir que a foto de algum parente falecido a quem nunca tivemos oportunidade de conhecer é um objeto unidimensional, pois registra apenas um instante, uma fração de segundo da vida do retratado. Basta, entretanto alguém nos contar um simples caso, uma lembrança, que tudo muda.
 
É o que aconteceu com os pais de meu avô materno. Desde pequeno, convivi com os retratos (apenas dois) de meus bisavós sem nunca me interessar em ao menos saber seus nomes. Só quando resolvi escrever algumas lembranças de família para serem lidas por meus filhos é que surgiu a necessidade de conhecer os nomes desses antepassados. Mas a coisa parou por aí.
 
Recentemente, depois desses textos já escritos, minha tia contou-me um caso sobre seus avós que mudou minha forma de vê-los, uma história tão delicada, tão comovente, que fez aquelas fotos antigas que eu tanto conhecia ganhar textura, relevo, tornando-se quase imagens holográficas daqueles velhinhos. E o texto sobre os pais de minha mãe, originalmente imaginado em quatro partes, ganhou a quinta parte só para registrar essa historinha.
 
Antes de contar esse caso e como homenagem sincera aos meus antepassados, os velhinhos que protagonizaram essa love story caipira, apresento duas imagens: na primeira, meu bisavô aparece em retrato posado, tamanho cartão postal; a segunda é ainda mais incrível, pois mostra sua esposa (minha bisavó, lógico) – justamente quando ficou algum tempo hospedada na casa de minha avó – ladeada pela nora e pelo filho (meus avós maternos). Olhaí:




 
Segundo minha tia, os pais de seu pai moravam em Lavras. Em 1948, por motivos de saúde, sua avó paterna, Dona Januária ("Madrinha"), foi obrigada a vir para Belo Horizonte para tratar-se, deixando o marido idoso ("Padrinho") em Lavras. Minha tia disse que ela precisava tomar radiações, o que me faz pensar na existência de algum tipo de tumor ou câncer. Embora tivesse outros filhos morando em BH, a velhinha fez questão de hospedar-se na casa de meus avós, lá permanecendo por uns dois meses.
 
A uma distância de pouco mais de 2.000 metros dessa casa localiza-se o Aeroporto do Carlos Prates, utilizado apenas por aviões de pequeno porte e helicópteros, pois a pista tem pouco mais de 900 metros. Pois bem, um belo dia, durante o período de tratamento, sem aviso prévio, o pai de meu avô fretou um monomotor, um "teco-teco" e viajou para BH, descendo nesse aeroporto. Tomou um "carro de aluguel" e chegou até a casa onde a esposa estava hospedada.
 
Minha tia, que presenciou o encontro dos dois, disse que foi "a coisa mais bonitinha". Minha bisavó, ao ver o marido chegar de surpresa, exclamou:
Ô, Sô Lino, o senhor veio me ver? Não precisava! 
 
Ao que meu bisavô respondeu, com simplicidade e carinho:
Eu estava com saudade, Sá Januária!
 
Creio que meu bisavô voltou para Lavras no mesmo dia, mas enquanto esteve em BH, os velhinhos não se desgrudaram um só momento. Chamam também atenção as formas de tratamento de "" e "", estranhamente respeitosas para meus olhos de século vinte, principalmente por serem marido e mulher. Ela morreu em 1949, pouco tempo depois de sua estadia em BH, e ele alguns meses depois, talvez no início de 1950. 
 
O que eu sei é que essa historinha, apesar de muito curta, lembra bastante um daqueles filmes românticos que passavam na sessão da tarde, bom para ser visto ao lado da amada, debaixo das cobertas.
 
 
Nascidos Na Fazenda – Parte 6
Para encerrar esta série sobre meus avós maternos, uma espécie de "Memórias Sentimentais de Jotabê", resolvi postar as fotos que recebi de minha irmã. Como já disse antes, imagens, lembranças, documentos preservados servem para manter "vivas" as pessoas comuns, anônimas. Mas não vejo problema nenhum em fazer alguma piada ou comentário irônico sobre elas, pois o sentimento principal que tenho por essa gente é carinho, mesmo nunca tendo conhecido alguns. Assim, em vez de ficar enrolando, passemos às apresentações.
 
A primeira imagem é a "restauração" daquela foto incrível apresentada na parte 2 desta série. Sinceramente, alguns "ficaram bem na foto", mas a feiura da maioria (minha avó incluída) é constrangedora, fazendo-me pensar em uma "Família Adams" cabocla.
 
Sobre essa foto minha irmã fez o seguinte comentário ao enviá-la: "A outra foto (não é xerox) é um retrato desse retrato original e o fotógrafo fez por conta própria uma "restauração" ridícula; colocou óculos no bisavô, um vestido na Tia Anita que é a do retratinho colado e modificou a fisionomia dela também, um troço muito tosco". Só posso acrescentar: e com sobrancelhas de Frida Kahlo!

 

 
Os próximos retratos mostram a mãe de minha avó já bem velhinha. Segundo minha tia Aidê, sua avó "Dindinha" morreu em 01/07/1948. Curiosamente, seu rosto envelhecido não combina com sua imagem mais nova, na fotografia restaurada. E a expressão de desencanto, mesmo que minha avaliação não seja correta, faz pensar que é fruto das "estripulias imobiliárias" cometidas pelos próprios filhos.
 


Com meu bisavô a coisa é quase surreal, pois teria morrido talvez em 1917(!), pouco tempo depois dessa fotografia e antes do casamento de minha avó.
 
Os últimos retratos mostram meu avô ainda muito novo – talvez com uns trinta anos (olha o estilo do sapato!) – e minha avó, já velhinha (talvez já no início da demência), com seu jornal, onde sempre procurava "imóveis para comprar". É com essa imagem que lembro-me dela dançando quadrilha ao som de "Your mother should know". 

 
 
 


OS FILHOS DE FRANCISCO (E JULIETA) – A REVISTA

  Bem lá na infância do blog, fiz várias postagens contando casos das famílias de meu pai e de minha mãe. Em uma delas, o titular do blog A ...