terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

"QUANDO EU ERA CRIANÇA"

“Quando eu era criança pequena lá em Barbacena” era o bordão do personagem caipira Joselino Barbacena da “Escolinha do Professor Raimundo”, programa comandado pelo genial Chico Anysio. Curiosamente “esse bordão foi reconhecido, por lei, como frase cultural dessa cidade”. Fiz essa descoberta ao pensar em uma frase para começar este texto. Então, vamos lá.
 
Quando eu era criança pequena lá no bairro Carlos Prates não havia (ou não se conhecia) a diversidade de comportamentos e preferências expressa na sigla LGBTQIAPN+. Se você não sabe o que significa essa sopa de letras, vai saber agora:
 
L: Lésbicas; G: Gays; B: Bissexuais; T: Travestis, Transexuais e Transgêneros; Q: Queer (pessoas que não se encaixam na heterocisnormatividade); I: Intersexo (pessoas com características biológicas que não se encaixam na binariedade masculino/feminino); A: Assexuais; P: Pansexuais; N: Não-binários e (ufa!) “+”, que representa a pluralidade de outras identidades de gênero e orientações sexuais. O “ufa!” aí não é sigla, é só frescura.
 
Pois bem, quando eu ainda era criança só imaginava existir a sigla LG, ou seja, “L” para as lésbicas, conhecidas na época como “entendidas”, “machonas” ou sapatões e “G” para os gays – as bichas, bichas loucas, bichinhas ou viados, enfim. De um lado mulheres com comportamento masculinizado e do outro, homens delicadíssimos, voz afetada e gestual ondulante.
 
Sempre tive mais dificuldade para identificar as meninas “L”, o mesmo não acontecendo com os homens “G”, normalmente alegres e sempre insinuantes. Lembro-me de um que ao me ver já adolescente saindo da piscina com a água escorrendo mais concentrada nos pelos já existentes na barriga de tanquinho (eu já tive!), exclamou: “- Caminho da felicidade”.
 
Mas o tema de hoje não são reminiscências da infância e juventude. Tudo surgiu e foi motivado por um comentário feito pelo titular do blog “As Crônicas do Edu” a respeito de recente postagem que fiz com o título “Macho Dzeta” onde, sem me estender muito, confessei ser um heterossexual um pouquinho afeminado – traço de comportamento apreciado por algumas mulheres (não todas). Em outras palavras, um membro da fictícia “ABHA - Associação Brasileira de Heteros Afeminados”.
 
Meu amigo Eduardo, talvez sentindo-se incomodado com minhas “inconfidências”, lascou um comentário que me fez pensar neste texto, ampliando um pouco minha resposta original.
 
Falando sério, eu realmente falo "noossa" e "ui". O "ui" é real e o "noossa" é só de gozação, mas é difícil definir o limite entre um homem "sensível" e um afeminado, pois essa "fronteira" é elástica, fluida, da mesma forma que é difícil definir o que é um "macho". Cara, eu odeio esta palavra, tanto quanto "fêmea"! São duas palavras redutoras que servem apenas para coisificar alguém que tem muito mais para mostrar que apenas um comportamento estereotipado.
 
A realidade, aliás, vive desmentindo esses rótulos. Há gays com comportamento muito mais “macho”, dentro do imaginário tradicional, do que muitos heteros sensíveis ou vistos como afeminados. E está tudo bem. Porque orientação sexual não é manual de conduta, e masculinidade não vem com certificado de autenticidade.
 
Posso estar enganado, mas os homens que espancam ou matam suas companheiras estão abrigados no nicho "macho das antigas", usando um termo que acho engraçado. Obviamente – e ainda bem – são minoria. Mas fruto direto de uma ideia ultrapassada e tóxica do que significa “ser homem”.
 
No fim das contas, talvez o problema possa não ser o “ui”, o “noossa”, a sensibilidade ou a firmeza. Os costumes mudam, as pessoas podem também mudar, suavizando arestas antigas e revendo costumes enraizados, aceitando com mais naturalidade a multiplicidade de comportamentos e escolhas. Que acham disso? (cartas para a redação) 


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

UM MUNICÍPIO INVISÍVEL


Já manifestei aqui no blog minha preocupação com os miseráveis que dormem debaixo das marquises de prédios, tendo muitas vezes apenas um papelão como defesa contra a friagem do solo. Para mim, pouco importa o que levou esses infelizes a chegar a esse nível de absoluta miséria e desamparo. Só sei que fico penalizado por cada um que vejo deitado nas calçadas. E esse número tem aumentado.

Todos os dias, pela dificuldade que tenho para andar a pé (artrose nos joelhos) vou de carro para comprar o pão nosso de cada dia. E saio bem cedo de casa, por volta das seis da manhã. Na volta, sou obrigado a passar pela praça principal do bairro, bem em frente ao icônico Bar do Bolão. Hoje, debaixo da marquise desse bar, quatro pessoas estavam deitadas, ainda dormindo. E é isso que me deixa desolado. São tantos os que se (des)abrigam nas calçadas e praças que, sinceramente, não consigo pensar que alguém tenha uma solução real para o problema. Por isso, resolvi apelar para a ironia.
 
Minas Gerais tem 853 municípios. Em Belo Horizonte, (sobre)vivem 15.474 pessoas em situação de rua – um contingente maior do que a população de 618 municípios do estado.
 
Diante dessa situação absurda, talvez seja uma boa criar o 854º município  o da população em situação de rua. Com direito a prefeito e verbas federais! Ou não?

domingo, 1 de fevereiro de 2026

GASTANDO O LATIM – MILLÔR FERNANDES

 
O Millôr era muito foda!
 
Bem, fiquei calado mais ou menos duzentos anos, na esperança de que algum latinista, algum erudito, aparecesse para corrigir Inácio de Alvarenga. Como todo mundo sabe, está na História, está nos “Autos” da Inconfidência, reuniram-se, em casa de Tomás Gonzaga, além do próprio, o dr. Cláudio Manuel da Costa, Inácio de Alvarenga e o padre Corrêa de Toledo (1).
 
Nessa reunião, o grupo discutiu a já muito discutida questão da Bandeira da Nova República. Cláudio Manuel da Costa, que já tinha feito uma proposta de bandeira, insistiu nela: a figura de um gênio quebrando seus grilhões com a inscrição: “Libertas Aequo Spiritus” (2). Alvarenga lembrou então que essa proposta já tinha sido feita numa reunião em casa de Francisco de Paula, mas que nem mudando a legenda para Aut Libertas Aut Nihil o pessoal tinha topado. Naquela mesma reunião o alferes Tiradentes tinha feito outra proposta: uma bandeira com um triângulo representando a Santíssima Trindade. Ele próprio, Alvarenga, sugerira que se juntasse ao triângulo o verso de Virgílio: Libertas Quae Sera Tamen e a proposta tinha sido aprovada. Nesta reunião aconteceu o mesmo — todos acharam a ideia muito bonita. E a bandeira da insurreição ficou sendo, definitivamente, essa.
 
Pois desculpem, amigos, a ideia não é boa e o latim é péssimo. Eu, que sempre achei a frase Liberdade Ainda que Tardia uma proposta completamente furada (3), resolvi, um dia, com minha total descrença na História e nos Historiadores, ir diretamente à fonte da frase: Virgílio. E, como não podia deixar de acontecer, a frase estava errada. Inácio de Alvarenga citou de memória, ninguém foi à fonte (nem na hora, nem até hoje, duzentos anos depois) e o erro se perpetuou.
 
A frase de Virgílio é Libertas: quae sera. Essa frase, sim, dá em português Liberdade, ainda que tardia. Como está na Bandeira (Libertas quae sera tamen) é um saudável bestialógico: Liberdade ainda que tardia todavia.
 
Bem, mas como não sou latinista (4), é melhor reproduzir o próprio original (5) pro pessoal aí não começar com discussões inúteis (6). Como sabem os que já leram as “Éclogas” (7) de Publius Vergilius Maro, mais conhecido como Virgílio, logo no início da primeira écloga, dois personagens se encontram, Melibaeus e Tityrus, este indo a Roma comprar sua liberdade. O diálogo:
 
Melibaeus — Et quae fuit tibi tanta causa vivendi Romam? (E qual foi, para ti, a causa tão premente de vir a Roma?)
Tityrus — Libertas: quae sera, tamen respexit inertem; postquam candidior barbacadebat tondenti; etc. (Liberdade: embora tardia, todavia (tamen) ainda me alcança em minha inatividade, quando a barba já me cai embranquecida.)
 
Como veem os leitores, o tamen nada tem com a primeira parte da frase, escolhida por Alvarenga. O que me permite repetir, mais uma vez: “A História é uma istória!” (8)
 
Notas:
1) Este repórter também estava presente mas, devido à sua extraordinária discrição, a História não reparou nele.
2) “Deus do céu, que horror!” murmurou este repórter, do seu carro.
3) Qualquer grupo revolucionário quando propõe liberdade é pra já, pô, e não ainda que tardia. Você pode aceitar uma liberdade ainda que tardia, como o personagem de Virgílio, mas jamais propô-la como bandeira de luta. Liberdade ainda que tardia já será, assim, uma antecipação de Minas está onde sempre esteve?
4) Aliás, não sou nada.
5) Cito da excelente Interlinear Translation, de Hart & Osborn, David McKay Company, Inc. Nova York.
6) Existem outras?
7) Ao todo 37 pessoas, no Brasil inteiro, sendo que 19 em São Luís do Maranhão.
8) Relutei muito tempo em aceitar a palavra estória como conto, diferenciada de História, narrativa de fatos importantes da vida da humanidade. Essa palavra foi criada pelo Diário Carioca, no tempo em que este era dirigido pelo jornalista Pompeu de Sousa, agora em Brasília. Acho, aliás não tenho certeza, que foi o próprio Pompeu de Sousa quem inventou a palavra. Todavia não vejo por que, se a palavra é totalmente inventada, não se escreve istória, como se pronuncia. Se, porém, a palavra pretende, ainda, alguma etimologia, esta vem, naturalmente, de História, e, portanto, também nesse caso, dá istória.
 
                              Veja, 17 de janeiro de 1979

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

NÃO QUE EU QUEIRA ME GAMBÁ, MAS...

 
Não que eu queira me gambá (repetir no texto o título da postagem aumenta um pouquinho o publicado, mas torna a piada - já ruim - ainda pior), mas descobri que sou NOLT. E não precisa ficar com essa cara de quem não está entendendo nada, pois já vou explicar (transcrever, na verdade):

NOLT, sigla para New Older Living Trend (Nova Tendência de Vida Mais Velha), define pessoas com 60 anos ou mais que rejeitam rótulos tradicionais de envelhecimento, como “idoso”, buscando um estilo de vida ativo, produtivo e conectado. O movimento foca em protagonismo, aprendizado contínuo, cuidados com a saúde mental e física e tecnologia, desafiando o etarismo.

Quem diria, não é mesmo? Jotabê, o NOLT do Blogson Crusoe, cuíca da blogosfera!

O único defeito dessa classificação reside no fato de que, física e socialmente falando, sou o anti-NOLT. Tirando a saúde mental, ainda razoavelmente boa, o resto deixa muito a desejar. Meus joelhos têm cantado tanto que estou até tentando imaginar um nome para essa dupla, algo como Esaó e Jacu, Galeto e Sobrecoxa, Granizo e Garnizé, algo nesse estilo.

Para piorar, não estou estudando nada, não tenho grana para viajar nem penso em nova carreira — seja ela uma meia maratona ou uma fileira de brilho.

Relacionamentos, por exemplo: estive fazendo mentalmente uma lista de possíveis parceiras para ensaboar debaixo do chuveiro ou dormir de conchinha. Fazer “nhá nhá” então, como dizia um antigo amigo, está fora de cogitação. E o resultado foi uma lástima.

E nem digo da dificuldade para chamar o gênio da lâmpada. O problema maior é o fato de as opções serem extremamente limitadas: seja pela aparência de sítio arqueológico de algumas, seja pelo fato de outras serem casadas, seja porque as demais são feias bagarai. E quando não são, já têm "dono" ou outras predileções. Garotas de programa, nem pensar. Sugar babies, também não. Porque pior do que o cara se achar a última cereja do bolo é ser visto como tiozão do churrasco — ou melhor, vôzão do churrasco.

Mesmo assim, apesar de tudo - porque não sinto culpa de nada -, tratem-me agora como NOLT. Xô, velhice!!!!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

JURA QUE ISSO É PSICOGRAFIA?

 
- Você acredita em espiritismo?
- Por que está perguntando?
- Curiosidade...
- Olha aqui, palhaço, já vou avisando: no Brasil preconceito religioso é crime, falou?
- Eu não tenho preconceito contra religiões! Só desconfio de certezas absolutas, inclusive das minhas.
- Cuidado com as idiotices que gosta de falar!
- Afinal, você acredita ou não acredita?
- Eu sou ateu, um cara que crê na descrença.
- Olha o filósofo!
- Vamos mudar de assunto?
- Só se for para falar de psicografia.
- Lá vem você!
- Meu vizinho ganhou de um amigo um livro psicografado por esse amigo. Mas ele só entende de futebol e cerveja, não necessariamente nessa ordem.
- E daí?
- Daí que ele me emprestou o livro, pedindo para eu dar minha opinião.
- Terceirizou a leitura, né?
- Pois é. Comecei a ler, mas achei os textos muito banais, piegas, excessivamente “edificantes”. Mesmo sem conhecer porra nenhuma do autor psicografado – exceto a fama de poeta maldito – não consegui deixar de pensar no que disse um crítico literário quando lhe perguntaram sobre livros psicografados. A resposta dele foi fulminante: disse não entender nada do mundo dos espíritos, mas que a morte fazia muito mal para o estilo dos autores psicografados.
- Já imagino que sua avaliação não será muito animadora para quem te emprestou o livro.
- Pois é. Se o psicografador publicasse o livro assumindo claramente a autoria, não haveria problema algum. Bom ou ruim, seria ele ali, em cada texto, não um autor falecido.
- Você acha que ele inventou tudo?
- Não, de jeito nenhum, só acho que ele acreditou receber do Além algo que, no fim das contas, vinha da própria cabeça.
- Pela primeira vez na vida você está dizendo coisa com coisa. Impressionante!
- Mas eu ainda nem acabei o raciocínio! Imagine textos como os que são publicados no Blogson Crusoe. Aquilo é tão ruim que poderia muito bem ser apresentado como psicografia ditada a um senhor idoso por um espírito com zero vocação literária.
- Eu sabia que vinha provocação por a! E quem seria esse espírito tão pouco inspirado?
- Ué, só pode ser Jotabê, que assina todos os textos. Sei lá, vai que ele já morreu e esqueceram de lhe avisar.
- Valei-me Santo Allan Kardec!

 

ATIVIDADES SEXUAIS

 

A apresentadora de um programa feminino pergunta a uma jovem senhora da plateia:


– A senhora pode contar aos nossos telespectadores quais são as atividades de uma típica dona de casa deste bairro?

– Ah, sim… De manhã, levo os meninos ao colégio. Depois, na volta do colégio, tenho três horas de atividades sexuais… Então, o meu marido e filhos chegam para o almoço, almoçam; ele volta para o trabalho e as crianças vão fazer os deveres… Aí, tenho mais algumas horas de atividades sexuais até à noite, quando jantamos e vamos todos para a cama!

– Desculpe, mas a senhora pode nos explicar em que consistem essas atividades sexuais?

– Ah, lógico, explico sim! Atividade sexual é fazer tudo o que é fodido: varrer, lavar o chão, lavar a roupa, arear as panelas, lavar e tratar do cão, arrumar, costurar, passar as roupas, limpar o pó, lavar os vidros…

 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

MACHO DZETA

 
Li uma reportagem que me deixou super animado, pois descobri que meu perfil delicado está muito valorizado no mercado. Não que eu esteja à venda nem que alguém queira me comprar, mas agora eu sou um homem viúvo que, mesmo guardando um luto real, não posso dizer que fico indiferente à minha desconhecida capacidade de agradar uma gata do sexo oposto (claro, né? gata, sexo feminino; gato, sexo masculino).
 
Como os tempos mudaram! Quando comecei a namorar aquela que seria a paixão de toda a minha vida, um de seus irmãos disse que eu era “viado”. Nem liguei para isso, pois sempre fiz críticas ao seu comportamento rude de brutamontes sexual.
 
Uma das certezas que sempre me acompanharam foi saber que não sou um “macho alfa”. Nem beta. O máximo que eu poderia ser é “macho dzeta” – ou Zéta (repetir piadas ruins é sinal claro de falta de assunto).
 
Porque eu tenho a cara do heterossexual definido na reportagem. Aliás, fiquei tão empolgado, que até me esqueci de dizer o título: “Homens afeminados são desejados por mulheres cansadas de 'hétero top'”.
 
Gentem, esse cara sou eu! Eu gesticulo ao falar, faço xixi sentado, choro (como tenho chorado!), uso expressões do tipo “Adooro!”, “Nooossa!” ou exclamações do tipo “Ui!”. Como disse um filho, se eu tivesse demorado mais dois minutos para nascer, eu seria gay.
 
Segundo a reportagem, “Basta um homem heterossexual ter atitudes como essas para ser considerado afeminado”. E completa dizendo que “Geralmente usado de forma pejorativa, o termo virou virtude para muitas mulheres que, hoje em dia, preferem se relacionar com "homens açucarados", cansadas dos ‘hétero tops’”.
 
Mas preciso fazer uma correção: a palavra “hetero” não é proparoxítona como muita gente pensa. O correto não é dizer “hétero” com “e” acentuado, mas “hetero”, paroxítona da melhor qualidade.
 
Então, já deixo um aviso para as gostosas que acessam este blog e se sentem atraídas por homens afeminados: sou doce, sensível, culto, espirituoso, romântico – e hetero. Mas ainda de luto.
 

"QUANDO EU ERA CRIANÇA"

“Quando eu era criança pequena lá em Barbacena”  era o bordão do personagem caipira  Joselino Barbacena  da  “Escolinha do Professor Raimund...