domingo, 28 de junho de 2026

MAGMA

 
O psiquiatra consulta sua agenda:
- Ninguém mais para atender hoje.
Dá uma olhada à sua volta, arruma algumas anotações e já se prepara para ir embora, quando o consultório é invadido por um desagradável cheiro de composto de enxofre, de ovo podre. Que poderia ser? Confere se alguma tomada queimou, examina as instalações sanitárias, olha para o aparelho de ar-condicionado, espia pela janela e nada.
Como a secretária já tinha ido embora, deixaria em sua mesa um bilhete para chamar o zelador logo pela manhã, quando chegasse.
Quando decide apagar as luzes, ouve três batidas firmes na porta, aberta em seguida por um homem sério, bem vestido, que pede para ser atendido.
- Desculpe aparecer sem marcar hora, mas preciso desabafar com o senhor, talvez até mesmo iniciar uma terapia.
- Receio que meu expediente tenha terminado.
Sem dar ouvido a isso, o homem senta em uma cadeira, cruza as pernas e espera uma reação.
Impressionado por aquela figura à sua frente e incomodado pelo cheiro desagradável do ambiente, resolve entender o motivo da atitude impertinente do estranho sentado à sua frente.
- OK, abrirei hoje uma exceção para o senhor. Mas, se quiser continuar, precisa primeiro agendar um horário com minha secretária. E meus honorários devem ser pagos diretamente a ela. Quem é o senhor, e o que o traz aqui?
- Meu nome é Lúcifer.
- Hum, Lúcifer... Lúcifer de quê?
- Apenas Lúcifer. E isso basta.
O psiquiatra anota alguma coisa e diz para si mesmo "Este vai ser difícil!", mas é surpreendido pelo comentário:
- Não sou difícil, Doutor. Difícil é minha sina, a situação a que fui condenado.
- Explique-se melhor, por favor.
- Eu sou um anjo caído, entendeu agora?
O psiquiatra faz algumas anotações e sorri amistosamente, enquanto pergunta:
- E por que o senhor imagina ser um “anjo caído”?
- Porque o Boss quis assim!
- Boss?
- Sim, Ele! (com o dedo indicador apontado para o teto).
- O senhor está se referindo ao seu pai ou ao seu patrão?
- Já vi que o senhor não está entendendo nada! Boss, Deus, Javé, como o senhor queira chamá-lo. Para mim é Boss, ironia que eu me permito fazer. Falando mais claramente, eu sou o que as pessoas chamam de Demônio ou Diabo.
- Ah, agora entendi! (nova anotação). O senhor é um “anjo caído” porque o Boss assim quis.
- Exato!
- E que o senhor fez de tão errado para receber essa alcunha?
- Acho que o senhor continua a não acreditar no que estou lhe dizendo. Eu sou imortal, tão imortal quanto o Boss. O problema é que Ele se enfurece por qualquer bobagem!
- Vejamos então se entendi direito (anotando): seu nome é Lúcifer, é um anjo caído, punido que foi pelo Boss, e é imortal, correto?
- Até que enfim!
- E qual é o motivo da punição?
- Eu simplesmente reclamei do calor infernal que estava fazendo no Céu. Perdão, eu quis dizer celestial. O Boss, irritado com o que considerou impertinência minha, me mandou para o quinto dos infernos, onde estou até hoje. Aquele ali, vou te contar...
- Mas dizem que o inferno é muito quente, fornalhas acesas, labaredas...
- Inferno é o nome que seus antepassados deram a um lugar hipotético, onde ficariam as almas condenadas por pecadilhos idiotas até a eternidade. Vou lhe dizer o que realmente é o inferno: o inferno é o magma que existe no centro da Terra, um lugar onde a temperatura pode chegar a 6.000 graus. E é para lá que fui atirado! O senhor acha justo ser condenado a isso só por ter reclamado de um calorzinho de 40 graus?
- E como o senhor consegue sair de lá e se apresentar tão elegante assim?
- Ora, Doutor, vai dizer que não acredita em milagre! Até já entrei com recurso pedindo a revisão da pena, mas o STC é pior que a justiça deste país, pois demora milênios para analisar e julgar os recursos apresentados.
- Que significa STC?
- Supremo Tribunal Celestial.
- Pois bem, meu caro Lúcifer, como deve saber, a nossa hora tem apenas cinquenta minutos. Mas fiquei muito impressionado com o que ouvi e quero sinceramente poder ajudá-lo de alguma forma. Aparentemente está com um severo quadro de depressão, que talvez precise ser tratada com terapia e medicamentos.
- Depressão de milênios, pode acreditar.
- Ok. Por isso, ligue amanhã para a Luana e peça para agendar um horário para você. Garanto que seu processo analítico não demorará mil anos.
- Obrigado, Doutor.
- Só tem mais uma coisa: recomendo ir também a um gastroenterologista, pois em decorrência do estresse emocional em vive, esse cheiro de flatos que deve soltar até sem perceber, esse odor de gás sulfídrico que chegou com você, pode ser apenas um problema digestivo de fácil solução.
- Flato, heim? Quem diria... Já fui acusado de muita coisa, mas nunca de flatulento!
E sai discretamente do consultório, sem esperar resposta.
O psiquiatra apaga as luzes e tranca a porta, enquanto pensa:
- Tomara que o gastroenterologista consiga ajudá-lo. Que cheiro nauseante!

quinta-feira, 25 de junho de 2026

FUCK!

 
Minhas netas de sete e oito anos são educadas pelas mães para não dizerem palavrões, pois são palavras vulgares, “palavras grandes”. E elas têm razão, pois o uso frequente de palavras de baixo calão pode ser deselegante, especialmente se ditas em certos ambientes. Digamos assim, ambientes da alta nobreza inglesa.
 
Particularmente, defendo a ideia de que se deve adequar o vocabulário ao ambiente. Se, por exemplo, converso com pessoas muito humildes e ouço um “nós vai” ou “a gente vamos”, já mando logo um “é nóis!”, pois para mim o que importa é a comunicação. Claro que isso muda de figura quando escrevo (e escrevo cada vez menos), pois aí já fico ligado em não deixar passar qualquer tipo de erro (nem sempre com sucesso). Obviamente, evito palavras “eruditas”, cultas, para não soar pedante. E também, confesso, por não ter intimidade com elas. Para mim, a escrita ideal deve ser fluida e agradável como uma crônica do Rubem Braga ou um texto do Vinicius de Moraes (difícil é conseguir!). E, cá pra nós, ninguém precisa escrever no jurisdiquês de um ministro do STF ou  como se estivesse fazendo uma dissertação acadêmica.
 
Os (escassos) leitores talvez estejam se perguntando aonde eu quero chegar com esta gororoba. E eu, constrangido, terei que dizer que não faço a menor ideia, pois fui assaltado por um tipo de psitacismo, aquele em que você fala, fala como um papagaio, mas não diz porra nenhuma. Perdão, deixei passar um palavrão. Mas tudo bem, pois hoje descobri que até a finada rainha da Inglaterra um dia disse “fuck”, palavra que em sua língua parece servir para tudo – substantivo, adjetivo e advérbio. E é sobre isso que irei falar.
 
Uma vez fiquei sabendo que na Inglaterra, mais especificamente em Londres, há vários sotaques (accents), de acordo com a condição sócio-econômica do falante e com o local onde são utilizados. Essa situação foi exibida no divertido filme “My Fair Lady” (não vou falar do filme). Mas o fato é que existe um “sotaque da rainha” (ou “do rei”), conhecido nas rodas boêmias de Londres como RP - Received Pronunciation, a línguagem da nobreza, da aristocracia.
 
Poderia dizer como os franceses que a “noblese oblige”, mas estaria dizendo um palavrão quase igual ao “fuck” da rainha, pois há uma “lista negra” de palavras e expressões que não devem ser ditas pela monarquia inglesa. E este é o assunto deste post (finalmente!).
 
Descobri que há uma espécie de protocolo que indica quais palavras e expressões não podem ser ditas ou usadas pela família real (morri de inveja do Brasil não ter um imperador). Mas chega de escrever, cansei. A partir de agora é só transcrição, só copy-cola:
 
Segundo especialistas, há um protocolo sobre quais palavras a família real pode usar. E a lista de termos proibidos vai muito além dos palavrões! No livro "Watching the English: the hidden rules of English behaviour", Kate Fox conta alguns termos que eles não podem usar:
- Toilet, por exemplo. Isso mesmo: a palavra em inglês para "privada" é proibida na família real, segundo a autora. Mas o motivo não tem a ver com a vulgaridade! É porque o termo tem origem francesa. Esse também é o motivo pelo qual as palavras "pardon", "perfume" e "lounge" foram proibidas.
- Pregnant é outra; a palavra significa "grávida", e segundo a revista US Weekly era considerada vulgar pela rainha. Ela costumava dizer que mulheres grávidas estavam "in the family way", expressão que literalmente significa "no caminho da família".
- Mum e dad: Muita gente estranhou o fato de Charles 3º ter chamado Elizabeth 2ª de "mamãe" ("mama") em seu primeiro discurso como rei. Na verdade, essa era uma preferência da própria rainha. Os filhos dela também chamavam Philip de "papa", inglês para "papai", mesmo depois de adultos.
- Tea: Talvez esse seja o item mais chocante: a família real britânica não pode usar a palavra inglesa para "chá"? Mas não é bem assim: em partes pobres do Reino Unido, a refeição feita entre as 17h e as 19h é chamada de "tea", algo como "chá da tarde". Mas não na família real! Eles preferem "jantar". Segundo a autora, a lista de palavras proibidas foi montada de acordo com as preferências da rainha Elizabeth 2ª, que ocupou o trono por 70 anos. Talvez as coisas mudem agora que Charles 3º é o rei — mas não espere ouvir a coroa falando palavrões tão cedo!
 
Para encerrar este post, a explicação para o (ou a) fuck da rainha (transcrevendo de novo): Em 2020, o ator Brian Blessed chocou o público ao contar que já ouviu a rainha usando a palavra "fuck", o equivalente em inglês para "foda". No entanto, o caso foi raríssimo e não foi bem um xingamento: ela estava explicando a etimologia do termo. Ele disse que Elizabeth 2ª riu lembrando uma vez em que ele usou o palavrão ao vivo na televisão, e acrescentou: “O que eu gostaria de dizer a você é que 'fuck' é uma palavra anglo-saxônica, e significa espalhar a semente”.
 
Chique demais, não acharam? Pensando bem, por culpa se sua origem francesa não é chique dizer chic na corte. Talvez o rei Charles e sua turma digam elegant, refined, distinguished ou até classy, mas chic, nem pensar!
 
E assim, Jotabê – um monoglota de carteirinha – termina este post, ou melhor, esta crônica.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

AOS MEUS AMIGOS - VINICIUS DE MORAES

 
Recebi pelo whatsapp um vídeo onde aparece um ator global declamando um texto do Vinicius de Moraes, uma mensagem cujo título seria “Aos meus amigos”. A interpretação teve ainda o auxílio luxuoso do violão do Toquinho, que solava delicadamente músicas de autoria do Poetinha. De cara já pensei em publicar aqui no blog. Para isso, precisava encontrar o texto escrito. E aí a coisa pegou: o texto interpretado parece ser uma colagem de autores distintos, pois o primeiro parágrafo foi realmente escrito pelo Vinícius, mas não o último. Daria muito trabalho copiar cada frase dita. Por isso, resolvi publicar o texto “Aos meus amigos”, mesmo título informado no início do vídeo. Mas este, de um só autor, o amoroso Vinicius de Moraes. Lêaí.

 
Ah, meus amigos, não vos deixeis morrer assim... O ano que passou levou tantos de vós e agora os que restaram se puseram mais tristes; deixaram-se, por vezes, pensativos, os olhos perdidos em ontem, lembrando os ingratos, os ecos de sua passagem; lembrando que irão morrer também e cometer a mesma ingratidão.
 
E agora os que restaram se puseram mais tristes. Ide ver vossos clínicos, vossos analistas, vossos macumbeiros, e tomai sol, tomai vento, tomai tento, amigos meus! — porque a Velha andou solta este último Bissexto e daqui a quatro anos sobrevirá mais um no Tempo e alguns dentre vós — eu próprio, quem sabe? — de tanto pensar na Última Viagem já estarão preparando os biscoitos para ela.
 
Eu me havia prometido não entrar este ano em curso — quando se comemora o 1964.° aniversário de um Judeu que acreditava na Igualdade e na Justiça — de humor macabro ou ânimo pessimista. Anda tão coriácea esta República, tão difícil a vida, tão caros os géneros, tão barato o amor que — pombas! — não há de ser a mim que hão de chamar ave de agouro. Eu creio, malgrado tudo, na grande vida generosa que está por aí; creio no amor e na amizade; nas mulheres em geral e na minha em particular; nas árvores ao sol e no canto da juriti; no uísque legítimo e na eficácia da aspirina contra os resfriados comuns. Sou um crente — e por que não o ser? A fé desentope as artérias; a descrença é que dá câncer.
 
Pelo bem que me quereis, amigos meus, não vos deixeis morrer. Comprai vossas varas, vossos anzóis, vossos molinetes e andai à Barra em vossos fuscas a pescar, a pescar, amigos meus! — que se for para engodar a isca da morte, eu vos perdoarei de estardes matando peixinhos que não vos fizeram nenhum mal. Muni-vos também de bons cajados e perlustrai montanhas, parando para observar os gordos besouros a sugar o mel das flores inocentes, que desmaiam de prazer e logo renascem mais vivas, relubrificadas pela seiva da terra. Parai diante dos Véus-de-Noiva que se despencam virginais, dos altos rios, e ride ao vos sentirdes borrifados pelas brancas águas iluminadas pelo sol da serra. Respirai fundo, três vezes, o cheiro dos eucaliptos, a exsudar saúde, e depois ponde-vos a andar, para frente e para cima, até vos sentirdes levemente taquicárdicos. Tomai então uma ducha fria e almoçai boa comida roceira, bem calçada por pirão de milho. O milho era o sustentáculo das civilizações índias do Pacífico, e possuía status divino, não vos esqueçais! Não abuseis da carne de porco, nem dos ovos, nem das frituras, nem das massas. Mantende, se tiverdes mais de 50 anos, uma dieta relativa durante a semana a fim de que vos possais esbaldar nos domingos com aveludadas e opulentas feijoadas e moquecas, rabadas, cozidos, peixadas à moda, vatapás e quantos. Fazei de seis em seis meses um checkup para ver como andam vossas artérias, vosso coração, vosso fígado.
 
E amai, amigos meus! Amai em tempo integral, nunca sacrificando ao exercício de outros deveres, este, sagrado, do amor. Amai e bebei uísque. Não digo que bebais em quantidades federais, mas quatro, cinco uísques por dia nunca fizeram mal a ninguém. Amai, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido.
Mas sobretudo não morrais, amigos meus!
 
 
 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

CONQUISTADORA

 
Pelo que tenho publicado recentemente, acho que já deu para notar que estou em novo relacionamento. E, confesso, está bom demais, pois o desejo inconsciente de morrer que vinha sentindo, acabou, passou. Hoje, tudo o que eu quero é viver.
 
Como disse meu amigo "Bu", o amor é brega. E eu concordo com ele, pois é um sentimento superlativo, nunca contido, nunca discreto. E a prova disso é este texto que fui rabiscando sem me preocupar com a qualidade literária. Ficou bom? Ficou ruim? Que diferença faz? Hoje eu escrevo para ela. Eu gostei, ela adorou e isso basta.
 
 
Meus desejos são bem simples, nada difíceis de atingir.
Basta que esteja ao meu lado para todo desejo se cumprir
Pois acordar com você, deslumbrado, melhor sensação, indescritível.
Difícil é esperar acontecer, controle emocional quase impossível.
 
E assim tem sido a minha vida desde quando decidi abrir minha “porta”
Para ver se você queria entrar. Mas abrir era pouco, era modesto, insuficiente.
Você veio com ímpeto de conquistadora,
Já chegou arrombando as portas, arrebentando trancas,
Derrubando as barreiras, destruindo as defesas.
 
E eu, sitiado, fascinado, rendido e indefeso,
Tive de entregar meu coração. Mas, se você não o quisesse... eu,
Sem hesitar nem um pouco, o entregaria assim mesmo.


domingo, 21 de junho de 2026

ENSINA-ME A VIVER

Outro dia, talvez devido ao recente período de grande sofrimento e dor em que vivi, surgiram duas frases em minha mente, endereçadas a quem me soergueu e espantou a vontade real e inconsciente de morrer que eu sentia: “Ensina-me a ter alegria” e “Ensina-me a viver”, pois tudo o que desejo agora é viver. E nem preciso dizer por que nem ao lado de quem. Estava pensando em escrever alguma coisa nessa linha, quando me lembrei de que a frase “ensina-me a viver” é o título de um filme exibido por aqui em 1971, por aí. Segundo a Wikipédia, foi classificado em 45º lugar na lista dos 100 filmes mais engraçados de todos os tempos do American Film Institute em 2000.
 
Tentando rever alguma das cenas hilárias do filme, acabei descobrindo que ainda pode ser visto na Apple TV ou Prime Vídeo. No Youtube, além do trailer,  há vários trechos desse filme, uma espécie de degustação cinematográfica. Por isso, embora não seja o tipo de assunto com a cara do Blogson, resolvi postar a resenha do filme, acreditando que ninguém ou quase ninguém dos leitores do blog já o assistiu. E o motivo é simples: eu tinha 20 anos quando o assisti no cinema; hoje eu tenho 76 anos (provavelmente um dos blogueiros mais velhos ainda em atividade). Dado o recado, olhaí parte da resenha (para não estragar o prazer de quem quiser assistir ao filme).
 
 
Harold Chasen é um jovem obcecado pela morte. Ele encena elaborados suicídios falsos, frequenta funerais (geralmente de pessoas que não conhece) e dirige um carro funerário, tudo para grande desgosto de sua mãe, uma socialite rica e egocêntrica. Sua mãe o envia a um psicanalista, arranja encontros às cegas para ele e lhe compra um carro de luxo, planos que ele subverte à sua maneira.
Um dia, durante o funeral de um desconhecido, Harold conhece Maude, uma senhora de 79 anos, e descobre que compartilham um hobby. Harold fica encantado com a visão peculiar de Maude sobre a vida, que é alegre e deliciosamente despreocupada em contraste com seu semblante mórbido. Maude mora em um vagão de trem desativado e não hesita em infringir a lei; ela é bastante habilidosa em roubar carros e arranca rapidamente uma árvore doente da calçada para replantá-la na floresta. Ela e Harold criam um laço, e Maude mostra a Harold os prazeres da arte e da música (inclusive como tocar banjo) e o ensina a aproveitar ao máximo seu tempo na Terra.
Enquanto isso, a mãe de Harold está determinada, contra a vontade dele, a encontrar uma esposa para ele. Uma a uma, Harold assusta e horroriza cada uma de suas pretendentes virtuais, fingindo cometer atos horríveis, incluindo autoimolação, automutilação e seppuku. Sua mãe tenta alistá-lo no exército enviando-o para a casa de seu tio, que perdeu um braço servindo sob o comando do General MacArthur na Segunda Guerra Mundial, mas Harold impede o recrutamento encenando uma cena em que Maude se passa por uma manifestante pacifista e Harold aparentemente a assassina por fanatismo militarista (...).

quinta-feira, 18 de junho de 2026

ENTRE O MAR E O ROCHEDO

 
Já não sei mais quem sou
Nem dizer quem já fui
Só consigo dizer que passou
O tempo em que não te vi
Um tempo em que só vivi
Com lembranças rondando a mente
Que me deixavam assustado
Tentando ser indiferente,
Por saber ser impossível
Ter você ao meu lado
 
Mas descobri também
Dolorosamente, bem sei
O que é sentir solidão
Sabendo que estava tão perto
E mesmo assim estar só
Sem poder me aproximar
Como se vivesse em um gueto
Onde não gostaria de estar
Solidão insuportável
Inimaginável vicissitude
Vontade de transformar
A solidão em solitude
 
Nunca me senti solitário
Mesmo estando sozinho
Estando apenas comigo
Mas a vida é cheia de cliques
Que ligam ou desligam emoções
Que trazem surpresas consigo
Reprimidas sensações
 
O que me espera agora, não sei
Vivendo entre o céu e o inferno
Marisco entre o mar e o rochedo
Só sei que preciso tentar
Arriscar, me jogar sem medo
De doer, me machucar
Já sabendo que amar
Traz consigo um segredo
Pois se vive alternando
A inanição ou banquete
O paraíso ou degredo
Difícil tentar me manter
Calmo, tranquilo, sereno
Duro é tentar suportar
Conflito assim tão extremo

quarta-feira, 17 de junho de 2026

HIPERSENSIBILIDADE ONOMÁSTICA

 
Talvez, graças à sonoridade pornográfica e vulgar do meu nome, devo ter adquirido e até alimentado uma “hipersensibilidade onomástica”, pois sempre fico meio descompensado quando descubro novos nomes bizarros, estrambóticos. Isso aconteceu quando me contaram de uma senhora que batizou assim seus filhos: Gleizon, Gleidersen e Gleiber. "Jura?", pensei comigo. Que ela tinha na cabeça? Substâncias ilícitas? Intoxicação alcoólica? Esquizofrenia não medicada, Alzheimer prematuro, depressão pós-parto? Ainda bem que ela provavelmente nunca saberá da existência do Blogson!
 
Nessas horas, é inevitável: eu logo me lembro de meu nome  e apelido, que recebem uma carga quase igual de rejeição, sendo a maior delas para o oxítono “Zé”. Porra, por que tinha de ser só Zé? Sinceramente, hoje eu penso que este apelido tem uma toxidade insuspeitada para os felizardos que foram batizados como Gleizon, Gleidersen e Gleiber, por exemplo.
 
Podem acreditar: depois de refletir muito sobre isso, cheguei à conclusão de que os apelidos oxítonos terminados em “é” são tóxicos, envenenam quem os possui. Zé, Zezé, Mé, Mané, Dedé, Jujé, Tizé, Bodé nenhum se salva. Por isso, criei um neologismo para identificá-los: são apelidos oxítonos tóxicos, ou “toxítonos” (de nada, Houaiss). Poderia até adotar um lema: “não deixe que seu filho já comece a usar drogas ainda no berçário”.
 
Ou, falando seriamente, o nome que os pais escolhem para os filhos deveriam servir para homenagear a criança, jamais um parente, um ídolo do pai ou da mãe, ou um político. Meu irmão chama-se Eduardo em homenagem ao brigadeiro Eduardo Gomes, candidato derrotado à Presidência da República em 1945 e 1950. Como não ganhou, o tempo ajudou a esquecer essa homenagem. Agora se um fanático condenasse seu filho ou filha a assinar seu nome como “Messias” ou “Valdemar” e sua filha como “Janja” ou “Gleise”, isso sim, seria uma puta sacanagem.
 
Esqueci de dizer que o autor deste texto atende pelo nome de José Botelho Pinto.

MAGMA

  O psiquiatra consulta sua agenda: - Ninguém mais para atender hoje. Dá uma olhada à sua volta, arruma algumas anotações e já se prepara pa...