sexta-feira, 24 de maio de 2019

QUE GRANDE...


Meu amigo Pintão sempre tinha casos mirabolantes e espirituosos para contar. Ele era muito bom nisso, pois sempre conseguia prender a atenção de todos que estavam por perto. Um dia, comentando sobre o imperador romano Nero, disse que era um incompreendido só por ter mandado assassinar a mãe, o meio irmão, um porrilhão de cristãos e por ter mandado incendiar Roma enquanto tocava harpa, etc.

Rindo, dizia que era tudo intriga, e que antes do incêndio, Roma era uma grande favela, com vielas mal cheirosas e barracos construídos de forma precária. E que Nero demonstrou ser um grande urbanista, pois traçou largas avenidas e belos palácios na área destruída. E lembrou a lenda a respeito de sua morte, quando, ao ser apunhalado teria dito a frase “que grande artista o mundo vai perder!”.

Se é Nero ou vero, não quero nem saber. O que sei é o Blogson aproxima-se da borda da terra plana. E a única coisa que posso fazer é parafrasear o romano, ao dizer “que grande blogueiro a internet vai perder!”. Mas eu não sou Pintão (aliás, nem tenho) e isso é só uma piada ruim para provocar meu descrente amigo virtual Marreta. Fui!

MANIFESTAMENTE CONTRA IDIOTICES




quinta-feira, 23 de maio de 2019

terça-feira, 21 de maio de 2019

PASSANDO EM REVISTA A TROPA


As melhores férias da minha infância sempre foram passadas na casa de campo da irmã mais rica de minha mãe. Na verdade, a casa era de sua sogra, mas isso nada significava para mim, pois ou ia para lá ou ficava em casa. O que sei é que podia brincar com outras crianças além de meu irmão. Meus primos, no caso.

À noite, em uma sala iluminada por lampião (a energia elétrica ainda não havia chegado), a cunhada solteirona de minha tia comandava as brincadeiras. Uma delas era especialmente divertida para mim, pois exigia um mínimo de atenção. Para começar, eram designadas patentes militares a cada um dos participantes. A tia de meus primos dava o alerta:

- Passando em revista a tropa dei por falta do alferes!
.
- Alferes não falta!

- Quem falta?

- Quem falta é o capitão
.
- Capitão não falta!

- Quem falta?

- Quem falta é o ...

E a coisa ia nesse batido até que um dos participantes se distraia, esquecia a própria patente ou respondia errado. Todo mundo ria, os participantes que erravam iam sendo excluídos e a brincadeira acabava ao restar apenas dois. Como se vê, era uma coisa bem ingênua, criada talvez para impedir que as crianças pusessem fogo na casa depois do jantar.

Lembrando-me disso, fiquei pensando em uma sala de aula onde alguém faz a chamada dos alunos (ainda existe isso?). E ficou assim:

- Jair?
- Eu? O mito!

- Flavim?
- Limito...

- Carluxo?
- Transmito!

- Dudu?
- Imito!

- Queroz?
- Omito!

- Alguém deixou de ser chamado?
- A senhora esqueceu o Olavo.

- Ah, sim, é verdade! Astrólogo?
- Vomito!

segunda-feira, 20 de maio de 2019

SÓ CUTUCANDO...

Sabe aquele sujeito mala que está sempre tentando fazer uma piadinha, sempre tentando tirar um sarro em cima do que as pessoas dizem? Pois é, esse cara sou eu. Meus amigos de Facebook somam 143 pessoas, um mundo de gente. Alguns eu nem conheço pessoalmente, pois são conhecidos de conhecidos meus e que cismaram de solicitar minha amizade. OK! Por isso, vejo nesse pessoal representantes de todo o espectro político, de quase todas as religiões.

E é aí que a coisa fica divertida: um petista compartilha um post gozando ou criticando o “Mito”. Os bolsonaristas mais radicais exasperam-se e reagem com comentários longos. Às vezes é o contrário. Em outras vezes sou eu mesmo que contesto ou aprovo o que foi dito por esse ou aquele. Nessas ocasiões eu reajo ou colocando frases curtas e até enigmáticas só para provocar os mais exaltados ou escrevendo “textões”. Resumindo: eu sou mesmo o mala do facebook. As frases a seguir foram criadas nesse contexto. Olhaí.



sábado, 18 de maio de 2019

UMA BREVE HISTÓRIA DA DES(H)UMANIDADE

Em algum momento deste semestre eu pensei em escrever um texto começando lá pelo Big Bang, até desaguar nos dias de hoje ou no futuro. Como aquilo só ficou na minha cabeça, o problema é que eu não sei mais o que queria dizer e nem onde pretendia chegar. Por isso, vou saltar no escuro, começar como um trapezista de olhos vendados que dispensa o uso de rede. Se ficar minimamente aceitável e pronto até o dia 07/06, publico. Se não, lata de lixo.

Este é um texto cheio de crenças, incertezas, desesperança e alguma ironia. Que vença o (ou a) melhor. Há 13,6 bilhões de anos Dona Singularidade resolveu soltar os cachorros e o Universo começou a ser formado. Nenhum físico teórico com um mínimo de .vergonha na cara se atreve a dizer o que existiu antes disso. Como não sou teórico e meu físico anda cada vez mais debilitado, vou delirar um pouco. Deixando de lado a mania de fazer piadas horríveis, devo dizer que preciso de uma explicação - qualquer uma - para acalmar meu espírito. E é por aí que começo esta goma. O símbolo do universo é uma lemniscata (ou um oito deitado). Recentemente viajei nesse símbolo, ao imaginar que o encontro das duas curvas (a "cintura" do oito) poderia representar muito bem a tal Singularidade. O que implicaria na existência de um "pré-Universo".

Por outro lado, sinto-me mais confortável com a ideia de Descartes, que teria dito não conceber um relógio sem a existência de um relojoeiro - mesmo que o ateu Stephen Hawking tenha dito que Deus não poderia fazer mais nada ou quase nada depois de iniciado o Big Bang (ou alguma coisa parecida com isso). Como sou fã desse cientista (mesmo que não tenha entendido nada do que escreveu), vou admitir que pode estar certo. Ainda assim, vou deixar para Deus o papel do bíblico Criador, ao exclamar "Fiat Lux!com voz estentórea (e a luz se fez!). Sinceramente, posso só ter dito asneiras até agora, mas adoro essa expressão em latim.

Continuemos, pois o dia já vai longe e o sol já está alto. Deus criou o Universo e ficou na moita depois disso, só se maravilhando com tudo o que surgia. Até que um dia (uns 3,8 bilhões de anos atrás) teve sua atenção voltada para um bando de moléculas de carbono desocupadas a delinquir em um planetinha insignificante. Naquele momento, provavelmente, Deus deve ter chegado à conclusão que seria bom intervir de novo e decretou um "fiat vitae". E aquelas moléculas transformaram-se em micro-organismos unicelulares.

Essa também é uma ideia confortável para mim. Já li que a Vida surgiu na Terra trazida por cometas ou o que quer que seja. Para mim está OK, pois não me importa onde, mas como surgiu. Fica difícil imaginar a transformação de moléculas (por mais complexas que fossem) em uma manifestação de "Vida". sem alguma interferência externa. E até que fique definitivamente esclarecido esse "como", continuo imaginando o dedo de Deus nessa história,

Com o surgimento da Vida, a coisa começou ficar mais divertida naquele planetinha insignificante, o terceiro a orbitar uma estrela pertencente ao "baixo clero galático". O ambiente era mega hostil para aqueles proto-organismos. Imagino que em um primeiro momento eram todos iguais. Como não devia ser tarefa fácil conseguir nutrientes naquele ambiente quase inorgânico (estou chutando!), talvez tenha sido aí que surgiram os micro-predadores. Afinal, comer (no sentido alimentar do termo) um semelhante era provavelmente mais fácil que ficar nas proximidades de fontes térmicas subaquáticas tentando descolar um lanchinho. E também suponho que foi aí que surgiram os proto-instintos tão bem definidos na Bíblia. Quais? Aqueles do "crescei e multiplicai-vos". Ou seja, a necessidade de sobreviver o máximo possível para poder transmitir suas mutações aos "descendentes". Pode ser um lixo, mas gosto muito de pensar que foi assim que os organismos foram aos poucos se diferenciando.

E aí a roda da pré-história se moveu e foi pegando velocidade e o bicho começou a pegar, ou melhor, uns bichos pegando e outros correndo para não ser pegos. Um  asteroide gigante fez "Poff!" na Terra e arregaçou quase tudo o que vivia, mas o pega pra capar continuou com outros animais, até surgir um bando de esquisitos que se diferenciava muito dos demais. Andavam sobre duas patas e - pecado  mortal! - pensavam. Ou melhor, pensavam que pensavam. Aliás, esta é uma crença carregada até hoje por seus descendentes. 

E foi aí que deu merda (ou começou a dar). Ao mesmo tempo em que se maravilhavam com um céu noturno sem poluição, começaram a criar objetos e ritos sem parar, alguns necessários e outros só para atrapalhar. Tendo evoluído dos primeiros predadores (estou chutando!) mataram-se e comeram-se com gosto e prazer (principalmente assados). Invocaram e criaram deuses, túmulos e sábios, e evoluíram, evoluíram muito. Inventaram maravilhas tecnológicas e gastronômicas a que deram nomes sonoros e estranhos, tais como daguerreótipo, telégrafo, orkut, toddy e outros.

E todo esse progresso só fez com que os antigos monos achassem que tudo podiam, que o mundo masculino tudo lhes daria e que recursos finitos eram inesgotáveis. Hoje aquele bando inicial de esquisitos soma mais de seis bilhões de predadores que continuam a se matar alegremente, mas sem comer a carcaça. Poluem tudo o que podem, acreditam que tudo podem e, sem se dar conta disso, estão (como diria o astrólogo) se fodendo cada vez mais (e sem prazer!), à caça da própria extinção. O que não seria mau, pois as espécies de animais ainda existentes agradeceriam.

Bom, abstive-me de comentar sobre os fundadores das grandes religiões (estava sem saco para isso), tenho certeza de que não era este o texto que comecei a esboçar na mente, nem sei se era assim o final imaginado (se é que imaginei algum final). A única coisa que sei é que a paciência dos 2,3 leitores não é um recurso inesgotável. Por isso, só posso dizer: fui!

quinta-feira, 16 de maio de 2019

BARATA À VISTA - MILLÔR FERNANDES

Minha mulher tem um horror paranoico às baratas. Um horror tão grande que faz com que ela não olhe para o inseto (vivo ou morto, tanto faz) e nem pronuncie seu nome. Na nossa casa a barata é uma verdadeira “indesejada das gentes”, pois ninguém dorme enquanto um desses insetos não for morto depois de ser avistado. E sempre há uns quatro frascos de inseticida em spray espalhados pela casa, pois ninguém se atreve (nem eu) a dar uma chinelada na distinta. Aquele "cloff" (som resultante do esmagamento) e a gosma que sai de dentro dela são muito repulsivos. Melhor é gastar logo meio tubo de inseticida e ficar vendo a coitada enlouquecer antes de bater as botas, ou melhor, as patas.

Uma vez minha mulher ganhou de alguém o livro “Diário de um Cucaracha”, coletânea de cartas escritas pelo Henfil a seus amigos durante o período em que morou nos Estados Unidos. Como a capa do livro ostentava a foto de uma “bela” barata, tive de encapá-lo para que ela pudesse lê-lo. Lembrando-me disso, resolvi postar um texto engraçadíssimo do meu ídolo Millôr Fernandes, escrito em um tempo onde o “politicamente correto” era ainda só uma ameaça distante. Olhaí:


A barata é a mais lídima das aquisições democráticas do mundo. Quase toda a casa a possui. Aos pobres lhes cabe melhor quinhão desses insetos, muito embora o Sr. Guinle não possa se queixar pois o Copacabana também as tem apesar de todo o DDT. Pertencendo à família das BLATÍDEAS, muito conhecida nos buracos de rodapés, cantos de estantes, fundos de arquivos e de gavetas, as baratas têm hábitos próprios interessantíssimos com os quais me familiarizei nos meus longos anos de pertinaz contato com arcanos e alfarrábios.
     Para se lidar com baratas há quem acredite em inseticidas e baraticidas. Como em tudo mais, acredito em psicologia. Para se aplicar a psicologia é preciso um certo método e uma vasta disciplina. Vejamos.
     Encontra-se a barata. Para se encontrar uma barata não é preciso muito gasto de energia. Em geral ela nos procura. E mais em geral ainda ela vem ao meio de nossos dedos quando pegamos aquela pilha de livros que estava embaixo da escada. No momento em que sentimos a barata presa em nossos dedos um sentimento de horror inaudito corre nossa espinha. Largamos livros, agitamo-nos furiosamente, batemos no chão, nos móveis e nos livros com o primeiro pano ou jornal que se nos depara, mas, a essa altura, a barata já estará longe, escondida numa das trezentos e sessenta e cinco mil páginas dos oitocentos e setenta livros que espalhamos no chão. Como encontrá-la? eis o problema. Esse problema, depois de acalmados nossos nervos e esfregadas nossas mãos com sabão e bastante álcool, é que procuramos resolver.
     Existem, para se pegar uma barata, dois processos distintos. Um é chamar a empregada e dizer: "Tem uma barata aí! Quero isso bem limpo!" e virar covardemente as costas. Dessa atitude pode resultar que a barata atinja um extraordinário grau de longevidade pois a empregada passará um pano nos livros e jogará por cima deles um pouco de DDT, dando-se por satisfeita. A barata também. E daqui há seis meses, quando você for pegar aquele velho exemplar de Balzac, terá a desagradável surpresa de ver, à página 276, olhando-o com aqueles olhos brejeiros e aquelas antenas irônicas que lhe são próprios, a mesma barata que você tinha condenado à morte. Vocês fitar-se-ão demoradamente. Ela continuará baloiçando as antenas. E você, depois de um segundo de inércia, saltará para o ar, jogará o livro para o outro lado e berrará femininamente. Pois eis que as baratas têm o extraordinário poder de nos afeminar a todos, afirmativa essa que se aceitará sem contestação se atentar para o grande número de baratas que há em nossos teatros.
    Portanto não se deve virar as costas a uma barata, como fazem os elementos da ribalta, mas sim enfrentá-la masculamente. Para isso precisamos, antes de mais nada, saber se a barata é uma BLATÍDEA comum ou se é uma PERIPLANETA AMERICANA, ou, em linguagem menos científica, uma dessas baratas que voam. Se é dessas aconselho o leitor a desistir de qualquer pretensão máscula, arrumar as malas, fechar as portas de sua casa e entrar para o Teatro.
Agora, se é das outras, sempre há recursos:
    1 — Pegue um Correio da Manhã bem dobrado, deixando à mostra o artigo de fundo. Sacuda os livros e espere, trepado numa cadeira. Atente sobretudo para o estilo de bater quando a barata surgir. Lembre-se: o estilo é o homem.
    2 — Quando a barata surgir bata de uma vez. Não durma na pontaria. Ela normalmente pára um pouquinho, para sondar o ambiente cá de fora e confrontá-lo com a literatura em que vive metida. esse o momento de atacar.
    3 — Trate de verificar se o inseto em que você está batendo é uma barata ou um barato. Nunca se esqueça: o barato sai caro.
    4 — Nunca aproxime e afaste o jornal para fazer pontaria. As baratas sabem muito bem o que as espera quando sentem esse ventinho, quando você bater de verdade ela já terá embarcado para a Europa.
    5 — Não tenha pena de bater. Bata firme, forte, decididamente. É a vida dela ou a sua. Se você não a matar terá que passar a existência inteira alimentando-a a inseticida.
    6 — Não se importe com as coisas que o cercam. Afinal de contas que são meia dúzia de copos partidos, um tapete manchado, dois livros com as páginas rasgadas e uma perna de cadeira quebrada se você conseguiu eliminar uma barata?
    7 — Se falhar, só a paciência lhe dará outra oportunidade. A barata não lhe dará outra tão cedo, enquanto permanecer em sua memória o trauma da pancada que quase lhe tirava a vida. Não adianta você sacudir livro após livro porque se recusará a aparecer. Agarrar-se-á às páginas e, se cair ao chão, correrá rapidamente, escondendo-se por trás do guarda-roupa.
    8 — Não se deixe levar pela vaidade. Às vezes você atinge uma barata de leve e ela vira-se de barriga para o ar agitando as perninhas ininterruptamente, com a expressão de quem está dando uma gargalhada, achando você engraçadíssimo. Isso poderá lisonjeá-lo mas não a poupe por esse motivo.
   9 — Às vezes elas tentam outro truque sentimental. Atingidas de leve elas vão se arrastando tristemente, de vez em quando olhando para você com um olhar que lhe dilacera o coração, como quem diz: "Seu malvado, viu o que você fez?" Antes de começar a chorar bata até matar. Depois chore.
   10 — De seis em seis meses faça um teste consigo próprio para ver se você está mais desbaratador do que no semestre anterior. Se a resposta for negativa não esmoreça. Continue lutando até que possa, como nós, cobrar caro pelas lições administradas. E essa é nossa última recomendação: cobre sempre caro pelos seus conselhos nesse setor. Não se barateie!


terça-feira, 14 de maio de 2019

O CULTO DA PERSONALIDADE


Já repeti esta frase umas dez vezes, mas é sempre atual e pertinente. Por isso, aí vai mais uma: “a internet te colocou em contato com pessoas que antes estavam a uma distância segura”. É isso que tenho sentido desde o momento em que criaram para mim um perfil no Facebook. Obviamente, se participasse do Tweeter ou Instagram, sentiria as mesmas coisas que o fakebook provoca em mim: espanto, horror, medo, ódio, desprezo, consternação, desânimo e risadas, muitas risadas. E tudo começou na era petista, anabolizado depois pela Dilma.

Putz, o tanto que eu babava de ódio ou desprezo pelos textos endeusando o Lula e pelas pessoas que os publicavam só podia ser dimensionado em potência de dez, tipo 10 elevado à trigésima potência, coisa assim. O que eu nunca poderia imaginar é que isso ainda era pouco se comparado à mitificação do Mito, ao endeusamento de um boçal. E, pior ainda, ao ler os comentários chulos e vulgares de um astrólogo de extremíssima direita, considerado “o” guru do atual governo. Pelos palavrões que utiliza sem parcimônia poderia ser chamado “curu”.

Sinceramente, eu sempre achei a Esquerda uma merda, mesmo não precisando ir ao seu extremo. O que eu nunca sonhei é que a Extrema Direita poderia ser uma merda igual (ou pior), apenas com o sinal trocado. E parece que em todos os lugares do mundo onde os extremos ideológicos (ou religiosos) tiveram a triste chance de exibir sua visão deformada (por parcial) do mundo aconteceu um fenômeno bizarro, hilário ou amedrontador, dependendo do aparato utilizado para seu surgimento. Esse fenômeno é o culto à personalidade do bam bam bam do momento.

Pelo que li, vários líderes políticos se esmeraram em atingir o patamar de “deuses” de suas populações. Além de uma profusão de bustos, estátuas e mausoléus suntuosos, “o culto inclui cartazes gigantescos com a imagem do líder, sua constante bajulação por parte de meios de comunicação e muitas vezes perseguição aos dissidentes. Stalin, Adolf Hitler, Benito Mussolini, Mao Tsé-Tung tomaram medidas que levaram ao culto de sua personalidade, assim como Saddam Hussein, Nicolae Ceausescu e Kim Jong-il”.

A Coreia do Norte é o país onde esse culto à personalidade atinge a nota máxima da hilaridade. O nascimento de Kim Jong-il. pai do atual dono do pedaço, por exemplo, teria sido anunciado “por uma andorinha, que fez com que o inverno mudasse para a primavera, uma estrela iluminasse o céu e um arco-íris duplo aparecesse espontaneamente.

Impossível não ter “frouxos de riso” ao ler uma sandice dessas! Se bem que nunca se pode dizer que um país onde se executa um alto funcionário com um tiro de canhão anti-aéreo está a uma distância verdadeiramente segura para que se possa tirar um sarro dessas maluquices. Sei lá, não é mesmo? Como diria alegremente o astrólogo: “quem tem cu, tem medo

Mas dureza mesmo é perceber que esse culto à personalidade ainda que de forma incipiente está presente também neste país idiota. Dois posts que vi recentemente no Facebook, além de confirmar esta tese me deram vontade de comentar alguma coisa sobre eles, mesmo sendo uma pessoa radicalmente moderada, sempre disposto a tentar suavizar opiniões extremadas sobre política e religião.

Na prática, o que eu sou mesmo é o mala da internet, aquele que diz não quando a maioria diz “sim”; ou que diz “sim” quando todos estão babando o “não” mais passional. Talvez esse comportamento seja normal no planeta de onde vim. Porque eu acho que não sou mesmo deste mundo, tão estranho ele se me apresenta. Mas estou enrolando sem entrar no assunto que finaliza este texto.

Os posts que mencionei são dedicados ao Lula e ao Bolsonaro. O do Lula é uma gozação feita em cima do Bozo. Uma boa piada, diga-se. O que me incomodou foi a frase que alguém postou imediatamente após a imagem do Twitter: “Como não amar esse homem?” Minha primeira reação foi pensar em vomitar, de tão incomodado fiquei. Os seguidores do petista são tão devotos, tão religiosamente crentes em tudo o que ele diz ou faz, que tornam impossível uma convivência pacífica com quem não segue o messias da Esquerda. Olha a imagem que saiu no Facebook:

Mas o primeiro prêmio da falta total de senso coube a quem publicou este post (compartilhado por meus amigos bolsonaristas!!!). Depois da imagem, um texto tão infantil que lembra uma oração feita por uma criança de dez anos. E como é de autora desconhecida, poderia dizer que é "oculto da personalidade" (muito ruim!). Olhaí:

O PESO DE UMA NAÇÃO
Essa foto me chamou muita atenção, pensei comigo, o que deve passar na mente desse homem?
Todos os dias é uma luta contra aqueles que desejam o “bem” para o País.
Sobe forte ataque da mídia o que faz esse homem ainda acreditar? Qual seu desejo? Uma nação que foi acostumada a ser enganada e ainda estar lá... Lutando, sozinho. O tempo trará todas as respostas que desejamos, foram 57 milhões de pessoas (inclusive eu) a acreditar nesse homem abençoado. Jair Messias Bolsonaro o Brasil é pesado né, meu amado? Como é difícil tirar das entranhas do palácio os egos, cobiças, e artimanhas... Como é difícil acordar e ter parte da população lhe xingando nas redes sociais e nas ruas. Ahhh, Presidente, o Senhor está sendo até mais forte do que eu imaginava! Sua posição é guardada por Deus, e os anjos guardam seus projetos e propósitos. Não se sinta cansado! Assim como Moisés em batalha cansou seus braços e o povo o ajudou a segurar erguido, nós estamos aqui, Presidente, para segurar seu braços cansados. Nós te amamos!
A Nação te escolheu, e nem você acreditava nisso tudo né? Uma loucura. Mas lá na frente, se Deus permitir e eu estiver bem velhinha,vou contar sua história, da qual fiz parte.
(Autora desconhecida)

Meu amado”, “Nós te amamos!” O que eu posso dizer depois dessa leitura? Só isso: que vergonha, meu Deus, que vergonha!


domingo, 12 de maio de 2019

SÓ TEM UMA!


- Hoje é Dia das Mães! O pior é que me esqueci de comprar presente...

- Tá louco? Sua mãe morreu há dez anos!

- Eu sei, é que eu não resisti a fazer essa brincadeira.

- Só faltou contar aquela piada do menino que abre a geladeira e diz “Mãe, só tem uma!” Piada horrível, diga-se.

- Claro que não!

- Porque mãe só tem uma.

- Grande filósofo! Ou é só astrólogo?

- Não enche o saco!

- Mãe só tem uma...

- Ainda bem que só tem uma, né?

- Qual é a piada agora?

- Não é piada. É só uma constatação. Já pensou se em vez de uma, todo mundo tivesse duas mães?

- Não entendi!

- Cara, com duas mães para cada um, iria dar fila de espera em qualquer consultório de psicoterapeuta!

- Você é doente mesmo!





quinta-feira, 9 de maio de 2019

COM TODO RESPEITO


Esta é uma versão "maluco-beleza" do post "Grafi-tweets". No bairro onde moro existe uma casa onde está instalado o "Centro de Convivência Artur Bispo do Rosário", unidade da prefeitura que "promove a reinserção social de pacientes psiquiátricos através das artes". O muro dessa casa é coalhado de desenhos e frases aparentemente escritas pelo pessoal atendido. Algumas são bem legais, como este trocadilho: “Com doido respeito”.  Há também pirações como "A ótica é a ética. Não estresso, só verso". Ou "Vejo sem ver, pois sou o homem-morcego".  Graças a meu filho e ao Google Maps, consegui cinco imagens do lugar (infelizmente, com pouca nitidez ao ser jogadas no blog). O que se percebe é que sempre estão “atualizando” o mural. Olhaí.








UM PÉ DESCALÇO


Miss Marple - a simpaticíssima personagem criada por Agatha Christie - resolvia os assassinatos mirabolantes imaginados pela autora graças a silogismos, associações de ideias e analogias que fazia dos crimes e criminosos com personagens e episódios de sua cidadezinha natal. Tenho percebido que adotei o mesmo procedimento em muitos dos textos que escrevi. Ou seja, a partir de algum caso ou lembrança antiga fiz minhas divagações rasteiras e banais sobre acontecimentos recentes. Hoje aconteceu a mesma coisa com uma lembrança de minha avó materna.

Como talvez se lembrem os 2,3 leitores deste blog, morei na casa de minha avó até me casar. Aos 24 anos. Quando estava com dezesseis, Dona Leta começou a apresentar sinais inesperados e até constrangedores de demência, uma demência crescente, tão mais assustadora quanto mais passava o tempo. Depois de falar mais palavrões que um Olavo de Carvalho, de dançar como uma adolescente, de destratar noras que não aceitava, morreu ao fim de seis anos de demência, em posição fetal, com reações de bebê recém-nascido. Mas, bem no início, quando ainda falava e misturava realidade com delírio, um dia chegou mancando perto de minha mãe, pois estava calçando chinelo apenas em um dos pés.

Minha mãe não achou nada engraçado e perguntou onde estava o outro pé. Com um ar meio aparvalhado, minha avó disse que não sabia. Procura daqui, procura dali, debaixo da cama, atrás da porta, dentro do guarda-roupa e nada de chinelo. Outro par deve ter sido providenciado até que se achasse o "fujão". Que foi encontrado ainda no mesmo dia, quando minha mãe resolveu reabastecer a lata de biscoitos que ficava ao lado da cabeceira de minha avó. Era lá que ele estava, na companhia dos biscoitos ainda não comidos. Todos riram com isso, provavelmente comentando que "Mãe está caducando". E essa é a imagem que me veio à mente: o pé descalço de minha avó.

Ultimamente, tenho visto, lido ou ouvido tantas barbaridades circulando pelas redes sociais ou nos noticiários do rádio e da TV, que acabo ficando triste, surpreso, irritado, aterrorizado ou acabrunhado. O radicalismo, o ódio e o preconceito estão atingindo níveis nunca sonhados por mim. E o pior é que vejo isso partindo de pessoas que conheço há muito tempo: primos, cunhados, amigos, vizinhos. Como cantou João Bosco, "meu companheiro está armado até os dentes". Pessoas cordialíssimas, simpaticíssimas, gentilíssimas. Mas, na prática, gente que sonha com moinhos inexistentes, que acha normal, louvável e até desejável andar "só com um pé calçado", seja ele o esquerdo ou o direito. 

Não estão senis, não são dementes, mas, graças à sua visão insuspeitadamente radical, andam "mancando", pois se recusam a aceitar que o normal, o desejável é o equilíbrio, a moderação, a ponderação. E, pior, talvez para convencer-se de que estão certos divulgam notícias e imagens falsas, ridicularizam tudo o que não está de acordo com sua limitada visão de mundo. E defendem o indefensável, elogiam o condenável e aplaudem o deplorável. No meio dessa gente minha avó não poderia se sentir mais à vontade. Mesmo guardando um pé de chinelo na lata de biscoitos.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

OS GRANDES FILÓSOFOS E SUAS FRASES INSPIRADORAS



LAO-TSÉ (?-531 a.C.)
Preocupe-se com a aprovação das pessoas e você será prisioneiro de si mesmo.

CONFÚCIO (551-479 a.C.)
A maior glória não é ficar de pé, mas levantar-se cada vez que se cai.

 SÓCRATES (469-399 a.C.)
A verdadeira sabedoria consiste em saber que você não sabe de nada.

PLATÃO (427-347 a.C.)
Uma vida não questionada não merece ser vivida.

ARISTÓTELES (384-322 a.C.)
A dignidade não consiste em possuir honrarias, mas em merecê-las.

MARCO PÓRCIO CATÃO - CATÃO, O VELHO (234-149 a.C.)
Depois que eu morrer, prefiro que as pessoas se perguntem por que não tenho um monumento, e não por que o tenho.

EPÍTETO (50-130 a.C.)
A verdadeira riqueza não consiste em ter grandes posses, mas em ter poucas necessidades.

SANTO AGOSTINHO (354-430)
Sê humilde para evitar o orgulho, mas voa alto para alcançar a sabedoria.

SÃO TOMÁS DE AQUINO (1225-1274)
Não se opor ao erro é aprová-lo, não defender a verdade é negá-la.

RENÉ DESCARTES (1596-1650)
Não há nada no mundo que esteja melhor repartido do que a razão: todos estão convencidos de que a tem de sobra.

DAVID HUME (1711-1776)
Todos nós temos uma prodigiosa parcialidade em favor de nós mesmos.

IMMANUEL KANT (1724-1804)
O homem não é nada além daquilo que a educação faz dele.

GEORG HEGEL (1770-1831)
O que a história ensina é que os governos e as pessoas nunca aprendem com a história.

FRIEDRICH NIETZSCHE (1844-1900)
Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas.

LUDWIG WITTGENSTEIN (1889-1951)
Os limites do meu conhecimento são os limites do meu mundo.

THEODOR ADORNO (1903-1969)
Liberdade não é poder escolher entre preto e branco, mas sim abominar este tipo de propostas de escolha.

JEAN PAUL SARTRE (1905-1980)
Um homem não é outra coisa senão o que faz de si mesmo.

MICHEL FOUCAULT (1926-1989)
A psicologia nunca poderá dizer a verdade sobre a loucura, pois é a loucura que detém a verdade da psicologia.

OLAVO DE CARVALHO (1947-)
A quem me chama de desocupado não posso nem responder que desocupado é o cu dele, já que não para de cagar o dia inteiro...

sábado, 4 de maio de 2019

COMPARANDO OS ESTUDOS

Para quem nunca acessou este blog, é importante dizer que há uma versão anterior desta piada, dedicada à “igreja petista” (que ficou mais engraçada). Que significa isso? Que não tenho vacas sagradas para adorar. Fazer o que, não é mesmo?


Como sabem os 2,3 leitores deste blog, eu sou católico. Mesmo assim, gosto de ler e aprender alguma coisa sobre outras religiões. Uma coisa que já notei é que as igrejas fundamentalistas atraem e agregam pessoas que aceitam sem questionar ou criticar tudo o que seus pastores, bispos ou missionários dizem ou fazem. Assim eu vejo as grandes igrejas que aparecem a quase qualquer hora do dia nos canais de TV aberta.

Dentro dessa linha, fiquei pensando que há "igrejas" em que muitas pessoas agem da mesma forma, mesmo não conseguindo aceitar ou perceber seu caráter religioso ou "sagrado". São as igrejas políticas. Tempos atrás, para dar uma avaliada nessa ideia, resolvi fazer uma comparação do que aconteceria se o petismo fosse uma religião. Esse “estudo comparado” com o catolicismo resultou no post “Estudo Comparado” (título originalíssimo, não?), publicado em janeiro de 2017.

Mas diante do que tenho visto ultimamente nas redes sociais, comecei a pensar que o bolsonarismo talvez seja também uma religião, uma religião nascente e, por isso mesmo, ainda sem a força da igreja petista. Aí resolvi reproduzir a fórmula do post citado, só para tentar fazer rir um pouco. As equivalências encontradas foram então colocadas na lista a seguir. Saca só:






quinta-feira, 2 de maio de 2019

"GRANDE" LEBOWSKI, MAS QUE SAUDADE!!!

Até o dia 07/06 vou me permitir escrever o que der na telha (inclusive utilizando gírias em desuso)!

Um dia, acordei de madrugada e estava passando um filme estranho, estrelado por Jeff Bridges, um dos filhos do “Mike Nelson”, herói da minha infância. Mesmo tendo perdido o início, continuei a assistir, talvez por alguma cena mais inusitada. O que sei é às vezes ria nervosamente, tão grande era a permanente perplexidade do personagem. Só a hilariante cena das cinzas do amigo lançadas "ao mar" já me faz recomendar esse filme. O tempo passou, fiquei com aquela história na cabeça, mas não sabia o título. Só recentemente descobri tratar-se de "O Grande Lebowski".

E hoje (força de expressão, entende?) eu descobri o motivo de ter ficado tão marcado pelo comportamento do cara ("The Dude"): é como se o personagem tivesse sido inspirado em mim! Sempre às voltas com seu cigarro de maconha (isso não foi inspirado em mim), sempre com ar apalermado, sempre dando a impressão de estar perdido em outro planeta, sempre com uma perplexidade irritante, sempre sem entender nem ligar para nada à sua volta.

Acho que foi isso que me incomodou (apesar de achar engraçado). Eu joguei minha vida estudantil e profissional fora justamente por não saber como me encaixar em um mundo em que eu não prestava atenção. Já disse isso aqui e vou repetir: eu passei em um dos primeiros lugares no único vestibular que fiz, mas saí da faculdade de braços dados com os mais relapsos, ignorantes e desajustados alunos que conseguiram se formar no tempo certo.

No primeiro ano as aulas tinham duração de mais de uma hora, o que dava três aulas por dia. Eu chegava no meio da primeira, coçava saco dentro ou fora da sala durante a segunda e saía no meio da terceira. A primeira providência que tomei ao tirar 2 em um total de 20 na primeira prova de Cálculo Diferencial e Integral foi trancar matrícula, o que zoneou meu curso inteiro. Colei em 90% de todas as provas ao longo dos cinco anos de duração do curso. Portos, Canais e Vias Navegáveis foi a única matéria em que tive 100% de aproveitamento. Também foi a única em que nunca assisti a nenhuma aula.

O trabalho final (único) de Aeroportos era um projeto que utilizava o número de matrícula e mais alguma pegadinha para definir o comprimento da pista. Como eu não tinha dinheiro para pagar alguém que fizesse o trabalho por mim, pedi emprestado o rascunho do trabalho de um colega cuja pista era bastante próxima da minha, meti um papel vegetal em cima e nem nanquim usei. Copiei o desenho utilizando para isso uma caneta Bic Preta Escrita Fina e uma caneta Hidrocor preta. Meu colega tirou 100 e eu passei com 60, que era a nota mínima. Também só vi o professor uma única vez.

Eu agia dessa forma o tempo inteiro, sonambulicamente, como se estivesse sob o efeito de alguma droga alucinógena (mas não estava). Depois de formado, quando eu precisei manter a família que tinha iniciado, eu era um sujeito destroçado, inseguro, que tinha medo até de tirar férias para não ser demitido, pois tinha um medo permanente de perder o emprego e não ter como manter mulher e os filhos que foram nascendo. Mesmo assim, a perplexidade diante da vida e do mundo se manteve. Só a expressão de idiota era disfarçada (se era mesmo!). Hoje eu vejo que eu era um Lebowski da vida real, “o cara” no pior sentido possível, ou melhor, The Dude. Ah, se eu pudesse voltar no tempo e se pudesse corrigir não todos, mas pelo menos alguns erros, com algum "Photoshop de vidas"! Ah, se eu pudesse!

segunda-feira, 29 de abril de 2019

IRRESPONSABILIDADE ILIMITADA


O post “Sonhando de olhos abertos” teve como ponto de partida a celebração de 44 anos de nosso casamento (muito tempo, não?). O que não foi dito é que se passaram 50 anos desde que conheci minha mulher, em pleno Carnaval de 1969. E depois dizem que amor de carnaval dura só três dias! Obviamente só mais uma solene bobagem que as pessoas gostam de dizer. Bobagem desatualizada, diga-se, pois hoje o carnaval dura no mínimo uma semana (na Bahia deve durar uns trezentos dias). Mas não é de carnaval que quero falar. Meu assunto hoje é o casamento civil.

Quando nos casamos, era normal que acontecessem duas cerimônias. O casamento religioso era o que dava ibope, tinha valor e era aceito pelos parentes e amigos do noivo e da noiva - imediatamente escaneada dos pés à cabeça pelas tias e primas bisbilhoteiras do noivo, atentas a um eventual e suspeito aumento de volume abdominal (“será que é o que estou pensando?”).

Para o casamento civil, embora acontecesse primeiro, ninguém dava muita bola (“mera formalidade burocrática!”). Isso podia afetar até o status dos padrinhos escolhidos. O que foi parcialmente confirmado no nosso caso. Mesmo sendo obrigatórios apenas dois, chamamos uma penca de parentes queridos para testemunhar a constituição de nossa “sociedade de responsabilidade limitada”. Mas acontecia uma exceção nessa história.

Havia um barzinho a que íamos frequentemente, justamente por ficar a uns cem metros da casa de minha mulher. Íamos eu, ela, algumas amigas, as irmãs e namorados e ficávamos horas conversando fiado. Era chamado de “Postinho” por fazer parte das instalações de um posto de combustíveis. Talvez pela parcimônia na dosagem do uísque que um dos cunhados de minha mulher gostava de consumir, o único garçom acabou ganhando o apelido de “Conta-Gotas”.

Como era bem humorado, acabamos ficando “amigos”. Pois bem, naquela época eu era quase um “bicho-grilo” de tão alternativo, tão “ilimitada” era minha “irresponsabilidade”. Por isso, mesmo sem nunca ter perguntado como se chamava, convidei-o para ser meu padrinho no casamento civil. Creio que ficou meio cabreiro com o convite (talvez com receio de ter de dar presente), mas acabou aceitando depois de ser desobrigado dessa chatice.

E é ele que aparece com sua camisa estampada de mangas compridas e calça pantalona em algumas fotos, tiradas durante e depois da cerimônia.. Não me lembro mais do que aconteceu depois disso, pois passamos a ir muito pouco ao Postinho depois de nos casarmos. E meu padrinho Conta-Gotas sumiu sem que eu nunca ficasse sabendo como se chamava. Olha ele aí.




sexta-feira, 26 de abril de 2019

VAMO QUE VAMO


TUDO O QUE É VOLÁTIL UM DIA SE EVAPORA (SPOILER)


No início da década de 1970, por não ter dinheiro para ser playboy, mauricinho, metrossexual ou outra designação para os jovens endinheirados que se exibiam com roupas caras, carros do papai ou deles próprios, tudo o que eu queria era ser alternativo, diferente, único (a carência afetiva já estava presente). Por isso, tentava ser o mais descolado possível. Pois, como cantou o Herbert Viana, "era mais fácil se eu tentasse fazer charme de intelectual". E uma das formas que encontrei foi comprar revistas e jornais alternativos de que ficava sabendo através da leitura do Pasquim ou pesquisando em bancas de jornal. 

Graças a isso, comprei (e ainda tenho) os tabloides "Flor do Mal" (apesar de terem saído cinco números, só tenho um), "Presença" (de título suspeitíssimo - "Vou ali fazer uma presença"), a edição brasileira de "Rolling Stones" e "Jornal de Amenidades". Além desses, comprava as revistas de humor e cartuns "O Grilo" (que começou como tabloide caretinha e passou a revista com o melhor do circuito alternativo internacional), "O Bicho" (que durou oito números) e "Fradim".

Flor do Mal, O Bicho, Fradim e Jornal de Amenidades foram produzidos por antigos colaboradores do "Pasquim". À exceção do "Grilo" e "Fradim", o que essas publicações tiveram em comum  foi a curta existência, o caráter efêmero. Uma dessas publicações merece um comentário extra-literário. O Jornal de Amenidades (JA) foi criado por Tarso de Castro, um cara que comeu a Candice Bergen, uma das atrizes mais lindas da época - que tempos depois confessou ter sido ele o grande amor de sua vida (estou me sentindo como se fizesse parte da bancada do programa da Sonia Abrão).

Estava pensando nisso, nessa transitoriedade de alguns meios e formas de comunicação, justamente por comparar os blogs atuais com a "imprensa nanica" da década de 1970. E explico: o blogroll (chique, não?) do Blogson Crusoe contém os links de cinco blogs: "A Marreta do Azarão", "Casal Geek", "MaLuComg", "Mixidão" e "Um Sábado Qualquer". Mesmo sem fazer parte do “blogroll”, há mais um - "O Elemento Jota" - que eu sempre bisbilhotava. Curiosamente, desses seis blogs que acompanhava, só metade está “positiva e operante”. O "Casal Geek", equivalente ao "Jornal de Amenidades" está (segundo seus criadores) definitivamente desativado. O "Mixidão", simpaticíssimo e premiado blog de receitas lindissimamente desenhadas (para analfabeto culinário nenhum botar defeito) está há um ano paralisado. E o Elemento Jota, com seus poemas incríveis e imagens perturbadoras, simplesmente sumiu, foi retirado da internet por sua titular. Sobraram apenas os "heróis da resistência" "Blog do MaLuCo", comandado por uma estrela da administração empresarial de alto nível, o "Um Sábado Qualquer" (que parece ter perdido o gás criativo - mas não o tino comercial) e o divertido "A Marreta do Azarão" (que teve as pernas quebradas por conta de sua falta de modos, por sua recusa a ajoelhar-se diante do censor).

E que lições, informações ou correlações esses blogs trazem para o “blog da solidão ampliada”? A única possível, que é a efemeridade desse tipo de comunicação. Como na maioria das vezes não se lucra nada com um blog, a única coisa que o mantém vivo é a postagem não muito espaçada de imagens, ideias, piadas, crônicas, desenhos, reflexões do titular do blog. Mas até isso um dia acaba (ou torna-se tão esporádico que ninguém mais se lembra de acessar o blog). O desejo acaba, a inspiração desaparece, a criatividade evapora-se e o tesão – que coincidência! – simplesmente desintegra-se. É isso que tenho sentido frequentemente em relação ao velho Blogson. Aparentemente, a fonte secou Ou, como diria o Drummond, “o dia não veio,o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou”.

Tenho ficado maçante e repetitivo por estar sempre voltando a esse assunto nas postagens recentes do blog, mas aqui é minha blogoterapia, meu lugar de desabafar. E o sentimento é real, passa longe de chantagem emocional. Aliás, que chantagem seria essa se não há ninguém a chantagear? Na prática, creio ter dito tudo o que queria dizer. Além disso, estou escrevendo pior a cada dia que passa. E isso me incomoda muito. Acho que cansei de tentar ser o que não sou. Cansei de tentar garimpar alguma pepita em um solo cada vez mais estéril e difícil de cavar. Aproveitando os versos dramáticos de Caymi, só "me resta o cansaço, cansaço da vida, cansaço de mim. Velhice chegando e eu chegando ao fim". 

Por isso, este é só mais um aviso: o blog vai mesmo acabar. Mas há uma coisa que não posso deixar de registrar: o meu riso, a minha alegria e a minha gratidão ao ler os comentários engraçados, elogiosos, encorajadores e sem noção que dois amigos virtuais (a quem quero muito bem) fizeram ao longo do tempo. Esses para sempre desconhecidos "amigos" são os titulares do Marreta e do Elemento Jota. Se esses dois malucos não existissem, é provável que o velho Blogson já tivesse fechado as portas há muito tempo.

E como o blog vai mesmo acabar, já tem até data para isso acontecer: 07/06/2019, quando completará cinco anos de existência. De hoje até lá, são 42 dias. Poderei postar o que quiser o que me der na telha. Acho difícil mas não improvável. Mas o último post (que o Marreta já leu) está pronto há muito tempo. Nesse dia, farei como cantou o Chico: “baterei o portão sem fazer alarde, com a leve impressão de que já vou tarde”.