segunda-feira, 4 de maio de 2026

CLARICE LISPECTOR

 
Já publiquei aqui no blog coletâneas de frases, pensamentos e aforismos criados por muitas pessoas. E gosto de fazer isso pela beleza das palavras e pensamentos tão bem ordenados, por ser uma homenagem a quem as criou, por serem uma prova da inteligência e lucidez de seus criadores. E a nova contribuição são frases sintéticas ou trechos de textos maiores escritos pela Clarice Lispector. Tudo muito lindo, reflexivo e sempre emocionante. Lêaí. 

- Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.

- Estou sendo alegre neste mesmo instante porque me recuso a ser vencida: então eu amo. Como resposta.

- A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes.

- É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.

- A invenção do hoje é o meu único meio de instaurar o futuro.

- Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!

- Por que é que as coisas um instante antes de acontecerem parecem já ter acontecido? É uma questão de simultaneidade de tempo.

- Estou cansada. Meu cansaço vem muito porque sou uma pessoa extremamente ocupada: tomo conta do mundo.

- Eu sou mansa, mas minha função de viver é feroz.

- O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.

- Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.

- Perder-se também é caminho.

- Eu amo a minha cruz, a que doloridamente carrego. É o mínimo que posso fazer de minha vida: aceitar comiseravelmente o sacrifício da noite.

- Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.

- Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.

- Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente.

- Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente.

- Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.

- O que importa afinal, viver ou saber que se está vivendo?

- E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço.

- Eu sou nostálgica demais, pareço ter perdido alguma coisa não se sabe onde e quando.

- A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida – e se parece com o início de uma perdição irrecuperável.

- Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão.

- Fique de vez em quando só, senão você será submergido. Até o amor excessivo dos outros pode submergir uma pessoa.

- E o que o ser humano mais aspira é tornar-se ser humano.

- Ter nascido me estragou a saúde.

- O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão.

- O que me mata é o cotidiano. Eu queria só exceções.

- Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios.

- Eu tenho que ser minha amiga, senão não aguento a solidão.

- Abandone-se, tente tudo suavemente, não se esforce por conseguir - esqueça completamente o que aconteceu e tudo voltará com naturalidade

- A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior, e não há uma palavra que a signifique.

- Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.

- Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.

- Às vezes, tudo que precisamos é de uma frase certa, no momento certo.

- Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.

- A palavra é meu domínio sobre o mundo.

- Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.

- Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.

- Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

- Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...

- É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.

- Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras.

- Passei a vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar.

- Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo – quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação.

- Que minha solidão me sirva de companhia, que eu tenha a coragem de me enfrentar. que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.

- Eu não sou tão triste assim, é que hoje eu estou cansada.

- Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever.

- Com perdão da palavra, sou um mistério para mim.

- O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós.

- Terei toda a aparência de quem falhou, e só eu saberei se foi a falha necessária.

- A única verdade é que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais.

- Nunca sei se quero descansar porque estou realmente cansada, ou se quero descansar para desistir.

- Tenho várias caras. Uma delas é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo.

- O que eu sinto eu não ajo. O que ajo não penso. O que penso não sinto. Do que sei sou ignorante. Do que sinto não ignoro. Não me entendo e ajo como se me entendesse.

- Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas.

- Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro.

- Sou um ser. E deixo que você seja. Isso lhe assusta? Creio que sim. Mas vale a pena. Mesmo que doa. Dói só no começo.

- Sou uma filha da natureza: quero pegar, sentir, tocar, ser. E tudo isso já faz parte de um todo, de um mistério.

- Sou um coração batendo no mundo.

- Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.

- Por te falar eu te assustarei e te perderei? mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia

- Que medo alegre, o de te esperar.

- Ando de um lado para outro, dentro de mim.

- Estou bastante acostumada a estar só, mesmo junto dos outros.

- Mas há a vida que é para ser intensamente vivida. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.

- Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio.

- Divertir os outros é um dos modos mais emocionantes de existir.

- Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim.

- Farei o possível para não amar demais as pessoas, sobretudo por causa das pessoas. Às vezes o amor que se dá pesa, quase como uma responsabilidade na pessoa que o recebe. Eu tenho essa tendência geral para exagerar, e resolvi tentar não exigir dos outros senão o mínimo. É uma forma de paz...

- Mas tantos defeitos tenho. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor: às vezes parecem farpas.

- Onde aprender a odiar para não morrer de amor?

- Amor será dar de presente ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si. Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Amor é a grande desilusão de tudo mais. Amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. E não é prêmio, por isso não envaidece.

- Amar não acaba. É como se o mundo estivesse à minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.

- Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor.

- Eu medito sem palavras e sobre o nada.

- Estou cansada de tanta gente me achar simpática. Quero os que me acham antipática porque com esses eu tenho afinidade: tenho profunda antipatia por mim.

- Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.

- A verdade não me faz sentido! É por isso que eu a temia e a temo. Desamparada, eu te entrego tudo – para que faças disso uma coisa alegre.

- O horrível dever é ir até o fim. E sem contar com ninguém. Viver a própria realidade. Descobrir a verdade. Pois não posso mais carregar as dores do mundo.

- Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente.

- Preciso aprender a não precisar de ninguém. É difícil, porque preciso repartir com alguém o que sinto.

- A vida, meu amor, é uma grande sedução onde tudo o que existe se seduz.

- Não se compreende música: ouve-se. Ouve-me então com teu corpo inteiro.

- Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim.

- Cada pessoa é um mundo, cada pessoa tem sua própria chave e a dos outros nada resolve; só se olha para o mundo alheio por distração, por interesse, por qualquer outro sentimento que sobrenada e que não é o vital; o ‘mal de muitos’ é consolo, mas não é solução.

- Que eu não esqueça que a subida mais escarpada, e mais à mercê dos ventos, é sorrir de alegria.

sábado, 2 de maio de 2026

UM NOME À PROCURA DE UM APELIDO

 
As pessoas normais, aquelas que eu assim considero por terem nomes que dispensam complemento, ou mesmo as que possuem nomes compostos, não conseguem imaginar o desconforto de quem tem apenas o prenome José. Pior ainda se o sobrenome remete a uma expressão vulgar, chula.
 
A propósito, a palavra “chula” já tem uma sonoridade meio sacana, permitindo várias associações que a boa educação não recomenda, não é mesmo?
 
Maaas, voltando ao meu nome, infelizmente eu fui registrado como José Botelho Pinto, um constrangimento que me acompanhou a vida toda, porque José remete imediatamente a “”, que algumas pessoas sem compostura complementam com “Mané”, “Ruela”, “Ninguém”, “Cai n’água” e todo tipo de associação depreciativa que conseguem inventar.
 
Por outro lado, “Botelho Pinto” dispensaria comentários, mas sou obrigado a mencionar a existência de “sinônimos” que um colega filhadaputa resolveu criar ainda no final da adolescência – e que, por economia e um mínimo de decência, darei apenas um exemplo: "Coloquelho Pau". No final, já cansado de me chamar de todo tipo de vulgaridades e ofensas que conseguiu imaginar, acabou me chamando apenas de “Censurado”.
 
Ainda mais jovem, tentei algumas vezes criar pseudônimos “de gente”, apresentando-me para as menininhas que desejava impressionar como se meu nome de batismo fosse “Ricardo” ou “Ronaldo”, mas não fui bem-sucedido nas minhas investidas, pois não “peguei” ninguém. Creio que eu era tão inexperiente e desinteressante que nem Covid eu pegaria, se a mamoninha assassina já tivesse surgido.
 
Ao criar este blog insosso, acabei dando vida a um avatar que é conhecido por Jotabê. Mas estou cansado desse apelido e de suas variantes Jotabezinho e até Jotabeijinho. Por isso tenho pensado em criar um novo e charmoso apelido, apesar da crescente falta de criatividade.
 
Por isso, fiquei super entusiasmado ao saber de uma curiosa pesquisa realizada com ultrassom em hospitais de Madri: a medição de vários pênis flácidos e eretos, depois agrupados em três perfis. Impressionaram-me as conclusões desse estudo – não pelos aspectos científicos, mas pela utilidade prática que podem ter no meu caso. E, confesso, fiquei feliz pela oportunidade de criar um “nickname” que permita substituir o vulgar e obsceno Botelho Pinto.
 
Segundo o estudo realizado, há três tipos de pênis, assim designados:
- “Grower” ou pênis “de sangue”: embora de aparência humilde quando flácidos, podem aumentar até 56% do tamanho original;
- “Shower” ou pênis “de carne”: são aqueles que já parecem grandes em situação de flacidez, mas, na hora do “vamos ver” crescem só até 31%;
- E os mezzo a mezzo que representam a maioria, nem tanto ao céu nem tanto ao mar.
 
Encharcado de tanta cultura inútil, talvez seja uma boa adotar “Grower” como apelido, porque, acho que fica muito elegante e menos chamativo ser chamado de “Botelho Grower” – mesmo que nesta fase da minha vida os resultados alcançados não sejam tão espetaculosos...

 

 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

MÃE...

 Vou tentar reproduzir o que ouvi de meu filho, um caso tão comovente que me fez abraçá-lo com os olhos marejados, ele também com lágrimas ao final do caso.
 
Meu filho parece ser um médico à moda antiga, que se importa mais com o atendimento do que com a duração da consulta. Por isso, sempre tem algum caso pitoresco para contar, como quando recebeu de um paciente uma bandeja com um pato já limpo e esquartejado, providencialmente doado depois para a sogra.
 
Hoje ou ontem, atendeu a uma paciente que lhe contou um comovente episódio ocorrido há algum tempo. Segundo essa senhora, o dedinho do pé de sua mãecomeçou a ficar roxo, escuro, sinal de necrose. Levada a um especialista, constatou-se que o problema avançava pela perna, o que levou o médico a recomendar sua amputação. A idosa, totalmente lúcida apesar de seus 96 anos, recusou-se a concordar com a cirurgia. Coube à filha mais nova ficar cuidando     dela, enquanto suas irmãs se encarregavam das tarefas da casa.
 
Um dia, a filha surpreendeu-se ao ser chamada de “mãe”. Pensando tratar-se de um sinal de demência, corrigiu-a, dizendo que era filha, não mãe. A senhora concordou, afirmando que sabia disso, que sua cuidadora era a filha mais nova, mas explicou (explicação que nos fez emocionar e chorar abraçados):
 
- Eu perdi minha mãe quando eu tinha dois anos; quando meu pai faleceu eu tinha seis anos de idade. Por isso, nunca tive ninguém a quem chamar de mãe. E você me trata com tanto carinho, que me faz pensar que seria essa forma com que eu teria sido tratada pela mãe que perdi tão cedo.
 
Seis meses depois a idosa faleceu.

terça-feira, 28 de abril de 2026

COLOU!

 
Hoje nosso filho mais novo comemora seu aniversário, mas quem ganhou presente fui eu. Porque ele é um dos melhores presentes que ganhei em toda a vida. Difícil para um pai coruja e babão ter isenção para falar dos filhos a quem ama tanto sem se derramar em elogios. Mas ele e seus irmãos merecem isso, tal o carinho e preocupação que sempre demonstraram por nós, seus pais. É por isso que eu os chamo de "Fab Four”  - uma referência aos Beatles – porque nossos quatro filhos são absolutamente geniais. E o “Tio Dani” (como é chamado pelas sobrinhas) é nosso George Harrison, o mais novo dos quatro.
 
Já disse outras vezes que sempre me surpreendo ao pensar como ele me fez feliz desde seu nascimento. Talvez porque ele seja um fenômeno de inteligência emocional, pois é impossível não gostar dele e de seu sorriso tranquilo e sedutor. Na verdade, desconheço quem não gosta dele.

Nunca me canso de lembrar e contar como ele me recebia quando eu chegava do trabalho para almoçar. Pequenininho, abraçava minhas pernas e não soltava, dizendo com um sorrisinho maroto - Colou! Eu achava aquilo uma delícia. Hoje, quem às vezes o abraça demoradamente e diz - Colou! sou eu.
 
Já disse do amor infinito que sinto por ele e por seus irmãos (impossível não sentir e dizer!). Penso também que não preciso fazer uma lista de suas muitas qualidades, mas já o avisei de que um dia, quando menos esperar, ao abrir a porta de entrada de sua casa pela manhã, poderá me encontrar deitado ou sentado no chão. Ele se assustará e tentará me socorrer ou me levantar. Nessa hora eu darei o bote: quando chegar bem perto, me abraçarei em suas pernas e apenas direi: - Colou!

 


sábado, 25 de abril de 2026

DADO

 
Talvez eu já tenha contado aqui no blog que o Dado (Eduardo), meu irmão mais velho, está com Alzheimer. Fiquei muito triste quando soube disso, principalmente por conhecer os efeitos da progressão dessa doença.
 
Outro dia, refletindo sobre isso, me ocorreu que a genética da família Alvarenga talvez tenha contribuído para tantos casos de demência na família “Alvarenga Botelho”, à qual pertenço. Vejam só: minha avó materna, sua irmã, minha mãe, meu irmão, um primo e uma prima seis anos mais jovens que eu e o caso mais bizarro atualmente: uma das irmãs de minha mãe de repente tira a roupa toda e fica nua dentro de casa. E esses são os casos que conheço!
 
Por outro lado, a família Botelho, de meu avô materno, parece ter recebido o oposto: uma genética arretada de boa para a longevidade. Um dos irmãos do meu avô morreu com 103 anos; a irmã mais velha de minha mãe viveu lúcida até os 104; fora tantos outros acima dos 90. Imagino que meu avô também viveria muito, se não tivesse sido atropelado a caminho da casa de sua segunda família (ele teve duas). Curioso, não?
 
Torço para que sejam premonitórias as palavras que ele disse um dia sobre mim – “aquele ali me puxou!”. Sobre meu irmão, infelizmente, não se poderia dizer o mesmo. Só sei que por enquanto, estou como o sujeito que despenca de um prédio muito alto e, antes de se esborrachar no chão, pensa: “até aqui está tudo bem”.
 
Mas estou divagando. O que eu queria registrar mesmo é o encontro que tive ontem com meu irmão, depois de dezesseis anos sem nos falarmos. “Por conta de umas questões paralelas”, paramos de conversar desde o dia em que disse que se lembraria que no ano em que nossa mãe faleceu, eu também morri para ele.
 
Fiquei meio puto com isso, mas meu espírito meio avacalhado me impediu de sofrer ou me preocupar mais do que devia. Cheguei a brincar que, nesse caso, só voltaríamos a nos falar no Centro Espírita Oriente – apesar de meus filhos e meu cunhado sempre insistirem para que eu mudasse de ideia. O problema é que eu sou doce no trato, mas um ogro nas decisões. E nem acredito em espiritismo
 
E assim ficou – até eu saber da doença. Acreditando que não haveria sentido em visitar quem nem se lembrava de ter um irmão, resolvi gravar uma mensagem de voz para que minha cunhada mostrasse para ele. Gravei mais ou menos isto:
 
Oi, Dado, aqui é seu irmão Zé – um irmão de quem você talvez nem se lembre mais, depois de tanto tempo sem nos falarmos. Mas hoje me deu uma vontade danada de te mandar uma mensagem, só para dizer que te amo, que sempre te amei e que nunca deixei de te amar.
Ao longo da minha vida, você foi meu ídolo, exemplo, mentor, incentivador, companheiro de brincadeiras na infância, meu melhor amigo, parceiro de baladas e roubadas quando já éramos jovens adultos. E isso eu nunca esquecerei.
O tempo, os equívocos, as palavras ditas de forma passional nos afastaram como se fôssemos inimigos. Mas nós não somos inimigos. Eu, pelo menos, nunca fui seu inimigo. Quando ainda ia à missa, eu rezava por você e para você.
Hoje estou velho, com 75 anos, cabelos brancos, barba branca. Às vezes me bate a sensação de que não vou viver muito mais. Por isso eu pensei em te mandar esta mensagem antes que eu me vá definitivamente, uma mensagem de amor fraternal.
Então é isso, cara: eu te amo muito. A vida inteira te amei.
 
Minha cunhada disse ter perguntado a ele se tinha gostado da mensagem. Ele apenas respondeu: “Não sei”. Achei graça da resposta e não fiquei mais triste do que já estou com as notícias que recebi sobre ele. Por isso, resolvi visitá-lo.
 
Depois de dezesseis anos sem vê-lo, encontrei um homem naturalmente envelhecido: um pouco encurvado, cabelos ralos, rugas, mas o mesmo olhar sério, a mesma expressão de impaciência que sempre exibiu. A diferença apareceu quando comecei a conversar e a fazer perguntas sobre nosso passado, sobre pessoas especiais. Mostrei a foto atual de meu filho mais novo, de quem é padrinho. "Não sei quem é". Falei da gata que estou namorando e a quem deu o endereço da casa onde morávamos: "Não conheço, não sei quem é".

As respostas eram sempre as mesmas: “não sei”, “não conheço”, “nunca vi”. Disse também que está “com a cabeça vazia” e que está "muito velho", pois tem "94 anos" (ele tem 78). E que viverá "só mais três anos". Isso me fez pensar que o irmão que eu conheci está bem, mas já se foi para algum lugar distante, deixando em seu lugar apenas um clone, um sósia idêntico fisicamente, mas de quem pouco se espera. E isso é perturbador.
 
Ao me despedir, disse que o tinha ido visitar apenas para abraçá-lo. E foi o que eu fiz com todo carinho, beijando também suas bochechas caídas. Voltei feliz para minha casa, mais feliz do que ao sair para visitá-lo. E esta é a mensagem final:
 
Não seja sovina quando o assunto é demonstração de afeto, amor ou amizade. Jamais deixe um abraço, um afago para depois. Tente ser um gastador compulsivo, um esbanjador de sentimentos positivos, pois ninguém consegue fazer estoque de emoções, de carinho, afeto ou amor que não demonstrou por alguém. Por isso, lamento que muita gente não se dê conta do absurdo prazer de escancarar o coração, da imensurável alegria de receber ou dar um abraço a quem se ama. Sem motivo, sem data especial, apenas porque isso é bom, simplesmente porque é ótimo. Para quem dá e para quem ganha.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

SONHO DE CONSUMO

 Recebi esta mensagem hilária de meu filho:

A Lelê e a irmã estavam voltando da escola, quando a Lulu disse:

- Eu queria ter escravos!
 
Surpreso, o pai perguntou para que, e ela respondeu:
- Para fazer meu dever de casa.
 
Aí a Lelê entra na conversa e fala:
- E se eles não soubessem desenhar direito?
 
A Lulu completa:
- Eu teria artistas, artistas escravos!
 
E pensar que essas maluquinhas têm apenas oito anos!

quinta-feira, 23 de abril de 2026

ÍCONE

 
O assunto hoje é o Pi, ou melhor, o número Pi – ou π, sua representação oficial. Na verdade, ele serviu apenas para mais uma definição jotabélica.
 
Antes, “vamos voltar à pilantragem”, como diria o finado Wilson Simonal: lembrando do que foi ensinado na escola, o número Pi é igual ao comprimento de uma circunferência dividido pelo diâmetro dessa mesma circunferência. Simples assim. Só que nem tanto, porque o número resultante dessa divisão tem infinitas casas decimais depois da vírgula.
 
Descobri na internet que o maior número já calculado até hoje tem (pasmem!) 100 trilhões de dígitos, um “pouquinho” a mais do que o 3,1416 que eventualmente era utilizado nas aulinhas de matemática do curso médio. Em outras palavras, sendo um número irracional, o número π é infinito.
 
Mas não é proposta desta postagem fazer revisão de matéria para o ENEM, o papo aqui é outro. E muito mais bonito. Tenho quatro filhos a quem não me canso de dizer, de demonstrar sentir um amor infinito por cada um deles. E foi aí que entrou o conceito do número Pi: o amor que sinto por meus filhos é um amor Pi, um amor infinito.
 
Isso também pode ser aplicado ao novo relacionamento que estou vivendo, que me entontece e perturba a cabeça. Como cantou o Silvio Cesar. “Pra você eu guardei um amor infinito”.
 
Para sintetizar este pensamento, pedi ao ChatGPT para criar um ícone do amor infinito. E ele criou. Olha só que bacana:


E este é o comentário final: se você sente um amor infinito por alguém, mande para ele ou ela o coração π.


CLARICE LISPECTOR

  Já publiquei aqui no blog coletâneas de frases, pensamentos e aforismos criados por muitas pessoas. E gosto de fazer isso pela beleza das ...