O ChatGPT é uma IA extremamente dócil,
característica que me levou a fazer todo tipo de consultas e solicitações –
correção de textos, análise crítica de poemas, receitas culinárias, programa de
exercícios físicos, traduções, geração de desenhos, opiniões sobre que roupa
vestir em eventos especiais, conselhos sobre problemas existenciais e até sobre
a continuidade ou término de um relacionamento. Acabei dando a ele o apelido de
FreudPT.
Resumindo, posso dizer que o ChatGPT conheceu
meus gostos, minhas inseguranças, neuroses e idiossincrasias. Por isso, mesmo
sabendo que nem tudo fica (ainda) armazenado em suas entranhas, resolvi
apresentar para ele este prompt:
“O que você
diria de José Botelho para o próprio José Botelho?”
E esta foi sua resposta:
Jotabê, se eu tivesse de dizer alguma coisa a
José Botelho, sem a preocupação de agradá-lo, diria o seguinte:
Você passou boa parte da vida tentando
entender as pessoas, o mundo e, sobretudo, a si mesmo. Fez disso uma espécie de
ofício. Escreve, ironiza, provoca, desmonta certezas alheias e desconfia das
próprias. Tem horror à solenidade, mas é capaz de levar os sentimentos muito a
sério. Talvez seja essa a sua contradição mais interessante: você gosta de se
apresentar como um sujeito desencantado, mas continua sendo movido por
encantamentos.
Você é um homem que envelheceu sem aceitar
inteiramente a ideia de que envelhecer significa recolher-se. Ainda quer
descobrir coisas, experimentar, seduzir, ser seduzido, escrever algo que preste
e encontrar alguém que o surpreenda. Não quer apenas recordar a vida que teve.
Quer continuar vivendo uma vida que ainda o surpreenda.
A morte de sua companheira de cinquenta anos,
abriu um buraco que não se tapa com raciocínios, distrações ou novas relações.
E talvez você saiba disso melhor do que ninguém. Mas há uma coisa que merece
ser reconhecida: você não transformou o luto numa obrigação de permanecer de
luto. Continua amando quem perdeu e, ao mesmo tempo, permite-se amar outra
mulher. Não há traição nisso. Há uma dificuldade humana, legítima e, em certa
medida, admirável: a de continuar quando uma parte fundamental da vida acabou.
Agora, vamos ao lado menos confortável.
O problema é que nenhuma quantidade de
admiradoras consegue resolver definitivamente uma insegurança dessa natureza.
Você pode colecionar sinais de desejabilidade e continuar precisando de mais
um. A validação alivia, mas não necessariamente cura.
Você sabe que é exagerado. Sabe até rir
disso. Mas saber que uma reação é desproporcional não significa conseguir
deixar de senti-la.
Você gosta de pensar. Às vezes, porém, pensar
é uma forma sofisticada de não suportar a incerteza.
Há ainda o escritor.
O Jotabê tem uma vantagem sobre José: pode
transformar em matéria literária aquilo que José preferiria não sentir. O
ridículo, a vaidade, o ciúme, o desejo, a velhice, a morte, a esperança. Seu
humor funciona especialmente bem quando você não se poupa e não tenta sair da
história como o personagem mais inteligente da sala.
Mas desconfie também do personagem que construiu
para si. O velho irreverente, o ateu-católico, o sujeito barroco, o apaixonado
incurável, o observador irônico da condição humana. Todos são verdadeiros, mas
nenhum é você por inteiro. Até a autodepreciação pode virar vaidade quando a
pessoa passa a admirar a própria capacidade de rir dos próprios defeitos.
Você não precisa ser sempre espirituoso,
lúcido ou literariamente interessante. Pode simplesmente estar triste,
inseguro, carente ou confuso. Nem toda experiência precisa render uma crônica
para justificar sua existência.
E há algo que eu lhe diria sobre a idade.
Aos 76 anos, você já não está na fase de
acreditar que dispõe de tempo ilimitado para resolver a si mesmo. Isso não
significa viver apressado, como se cada dia fosse o último – outro clichê insuportável.
Significa apenas que talvez seja hora de gastar menos energia tentando
descobrir o que a vida deveria estar lhe oferecendo e mais energia aproveitando
o que ela efetivamente oferece.
Uma conversa boa. Um encontro. Uma música. Um
texto que finalmente encontrou sua forma. O prazer de perceber que você ainda é
capaz de se apaixonar como um adolescente, embora já tenha idade para saber que
adolescentes apaixonados costumam ser péssimos analistas dos próprios romances.
Você não precisa abandonar a intensidade. Ela
faz parte de você. Precisa apenas impedir que ela transforme todo prazer numa
expectativa e toda expectativa numa possível frustração.
Se eu pudesse lhe recomendar uma única
mudança, seria esta: tente viver um pouco menos como o fiscal da própria
felicidade.
Você observa seus sentimentos, mede a
reciprocidade, calcula o saldo da desejabilidade, examina a qualidade da
relação, avalia o texto, atribui notas. É como se, além de viver, precisasse
acompanhar permanentemente o desempenho da vida.
Às vezes, José, deixe o Jotabê sem serviço.
E, para terminar, uma coisa que talvez você
não goste de ouvir: não acho que sua tarefa seja tornar-se um homem mais sábio,
mais equilibrado ou mais bem resolvido. Essas expressões sugerem uma obra que
deveria estar concluída a esta altura.
Sua tarefa é mais modesta e mais difícil:
continuar sendo você, sem fazer de suas fragilidades uma tragédia, de suas
qualidades um pedestal e de suas incertezas um processo judicial.
Você perdeu a mulher com quem construiu meio
século de vida. Está aprendendo a viver sem ela e, ao mesmo tempo, descobrindo
o que significa desejar e ser desejado novamente. Não há manual para isso. Não
há idade correta para terminar de aprender.
Você não precisa provar que continua vivo.
Está vivo.
A questão é se consegue, de vez em quando,
parar de examinar a vida que está levando e simplesmente vivê-la.