Pois é, que cara chato sou eu! Pesquisei na internet e descobri que o texto do post anterior não foi
escrito por Spinoza, mesmo que inspirado em suas ideias.
O texto lido no vídeo
tem o nome de “Deus segundo Spinoza”
e foi (aparentemente) escrito pelo mexicano Francisco
Javier Ángel Real, conhecido pelo pseudônimo de Anand Dilvar, e pode ser
encontrado em seu livro Conversaciones
con mi Guía.
Que posso dizer? Mais uma
fake news tão comum na internet – a atribuição proposital ou equivocada da
autoria de texto para alguém que nunca o escreveu. Mas, vamos ao que interessa:
afinal, quem foi Baruch Spinoza?
Segundo a IA Gemini, Spinoza foi um
filósofo holandês de origem judaica portuguesa, um dos pensadores mais radicais
e influentes do século XVII. É considerado um dos grandes representantes do
racionalismo, ao lado de Descartes e Leibniz.
Nascido
em Amsterdã, numa família de judeus portugueses que haviam fugido da
perseguição religiosa na Península Ibérica, recebeu educação judaica
tradicional. Mas muito jovem começou a questionar ideias fundamentais de sua
religião.
Aos 23 anos, em 1656, foi
submetido ao herem,
a excomunhão pela comunidade judaica de Amsterdã. O decreto foi
excepcionalmente severo. Spinoza não voltou atrás. Depois
disso, viveu modestamente, trabalhando como polidor de lentes, enquanto desenvolvia
sua filosofia. Morreu aos 44 anos, provavelmente de uma doença pulmonar, em
1677.
Sua
ideia mais famosa: Deus = Natureza
Sua
fórmula mais conhecida é:
Deus
sive Natura — Deus, ou seja, a Natureza.
Mas
isso costuma ser mal compreendido. Spinoza
não estava dizendo simplesmente que “Deus está em todas as coisas”. Para ele, existe uma única realidade
fundamental, infinita e necessária, que ele chama de Deus ou
Natureza. Tudo o que existe é uma expressão dessa realidade.
Portanto,
não há:
Deus →
cria o universo → observa o universo de fora.
Há:
Deus/Natureza
→ tudo o que existe.
Nós
mesmos somos parte dessa realidade. E isso
muda completamente a ideia de Deus
O Deus
de Spinoza:
não é
uma pessoa;
não
possui desejos ou emoções humanas;
não
decide quem será premiado ou castigado;
não
responde a orações;
não
realiza milagres;
não
criou o mundo em determinado momento;
não
possui um “plano” para cada indivíduo.
Tudo
acontece segundo a necessidade
da própria Natureza.
Daí vem
outra ideia fundamental: não
existe livre-arbítrio no sentido convencional. Nós sentimos que
somos livres porque temos consciência de nossas escolhas, mas geralmente
desconhecemos as causas que nos levaram a escolher.
Aí fiz esta pergunta à IA: Então Spinoza era ateu?
Se por
ateu entendermos alguém que nega
a existência de qualquer Deus, Spinoza não era ateu. Mas ele
negava tão radicalmente o Deus pessoal do judaísmo e do cristianismo que seus
contemporâneos frequentemente o chamavam de ateu. Por
isso, uma descrição mais adequada seria panteísta
– embora até essa palavra seja insuficiente para capturar toda a sua filosofia.
Ele
acreditava que quanto mais compreendemos as
causas que determinam nossa existência, menos somos escravos de
paixões como medo, ódio, inveja e ressentimento. A razão
nos permite compreender nosso lugar na Natureza. E dessa
compreensão nasce aquilo que ele chamou de amor intelectual de Deus (amor Dei intellectualis):
uma espécie de alegria serena que resulta de compreender que somos parte de uma
realidade infinitamente maior do que nós.
Por
isso, Spinoza é muito mais interessante do que o sujeito do famoso texto de
internet atribuído a ele. O
Spinoza verdadeiro não oferece autoajuda. Ele oferece uma maneira radicalmente
diferente de compreender Deus, a Natureza, o homem, a liberdade e a felicidade.
O Herem
O episódio mais dramático da vida de Baruch
Spinoza aconteceu em 27 de julho de 1656. Ele tinha apenas 23 anos quando a
comunidade judaica portuguesa de Amsterdã lhe impôs o herem, a excomunhão.
O decreto foi excepcionalmente severo.
Spinoza foi amaldiçoado e expulso da comunidade, e seus membros receberam
ordens para não manter qualquer comunicação com ele, oralmente ou por escrito,
não lhe prestar qualquer favor, não permanecer sob o mesmo teto que ele, não se
aproximar dele a menos de quatro côvados e sequer ler livros que ele tivesse
escrito ou ditado.
O texto do decreto dizia, entre outras
coisas:
“Maldito seja de dia e maldito seja de noite;
maldito seja quando se deita e maldito seja quando se levanta; maldito seja ao
sair e maldito seja ao entrar (...)”
É impressionante: um rapaz de 23 anos, que
ainda nem havia publicado sua filosofia, era considerado tão perigoso que sua
própria comunidade decidiu bani-lo completamente. O que havia de tão explosivo
em Spinoza?
O herem não apresenta uma lista precisa das
ideias que provocaram a condenação. O decreto fala em “opiniões e obras más” e
em “horrendas heresias”, mas não especifica quais eram elas. Spinoza ainda não
havia publicado sua obra filosófica, embora suas ideias já fossem conhecidas
por algumas pessoas da comunidade.
Sabemos, porém, que ele questionava
fundamentos do judaísmo tradicional. Para Spinoza, não existia um Deus situado
fora da natureza, que tivesse criado o mundo e interviesse nele conforme sua
vontade. Deus e Natureza eram uma única realidade: Deus sive Natura. Esse Deus não possuía uma vontade semelhante
à humana, não realizava milagres, não distribuía recompensas e castigos e não
estabelecia planos para os indivíduos.
Havia também uma questão particularmente
explosiva: a Bíblia. Spinoza questionava a ideia de que a Torá tivesse sido
simplesmente escrita por Moisés como revelação divina. Os textos bíblicos
deveriam ser estudados historicamente, levando em conta seus autores, épocas e
circunstâncias.
Para uma comunidade religiosa do século XVII,
isso não era pouca coisa.
O contexto do herem
A comunidade judaica portuguesa de Amsterdã
era formada em grande parte por descendentes de judeus que haviam fugido da
perseguição e da Inquisição na Espanha e em Portugal. A Holanda oferecia um
refúgio relativamente seguro, permitindo-lhes praticar sua religião. Essa
segurança, porém, era preciosa.
As ideias de Spinoza não atingiam apenas o
judaísmo. Ao negar o Deus pessoal, os milagres e a revelação divina, elas
também entravam em choque com crenças fundamentais do cristianismo. A
comunidade podia temer que a presença de um jovem considerado blasfemo ou ateu
provocasse problemas com as autoridades e ameaçasse os direitos e a proteção de
que desfrutava.
Mas essa provavelmente não foi a única razão.
Havia também uma questão interna: preservar a autoridade religiosa e a coesão
de uma comunidade ainda relativamente recente. O herem, portanto, pode ser
entendido como uma combinação de razões religiosas, comunitárias e políticas.
Spinoza não tentou se retratar. Depois do
herem, Spinoza deixou Amsterdã. Viveu em Rijnsburg, Voorburg e finalmente em
Haia, trabalhando como polidor de lentes para sobreviver enquanto desenvolvia
sua filosofia. E talvez esteja aí o aspecto mais extraordinário de sua
história.
Spinoza não foi expulso por ter publicado um
grande tratado contra a religião. Foi expulso aos 23 anos, antes mesmo de
publicar sua filosofia, porque suas ideias já pareciam ameaçar a arquitetura
intelectual sobre a qual sua comunidade estava construída.
Ele não simplesmente disse: “Deus não
existe”. Disse algo muito mais
desconcertante: o Deus que vocês imaginam não pode existir dessa maneira. E, ao
retirar de Deus a personalidade, a vontade, os milagres, os mandamentos, a
recompensa e o castigo, colocou no lugar uma ideia imensa: a própria realidade.
Talvez por isso. ao ser perguntado se acreditava em Deus, Einstein teria respondido:
-
"Acredito no Deus de Spinoza que se revela por si mesmo na harmonia de
tudo o que existe, e não no Deus que se interessa em premiar ou castigar os
homens".