Tenho andado meio sumido da blogosfera pelo simples motivo de não ter nada a dizer. Nenhum caso para contar, nenhuma história, nenhuma bobagem que me pareça digna de ser publicada. E o mais estranho é não sentir aquele antigo desejo paranoico de postar qualquer coisa quase todos os dias.
Blogson Crusoe
O blog da solidão ampliada
terça-feira, 25 de agosto de 2026
SAMBA!
Tenho andado meio sumido da blogosfera pelo simples motivo de não ter nada a dizer. Nenhum caso para contar, nenhuma história, nenhuma bobagem que me pareça digna de ser publicada. E o mais estranho é não sentir aquele antigo desejo paranoico de postar qualquer coisa quase todos os dias.
sexta-feira, 21 de agosto de 2026
AFRODITE
Se eu soubesse como seria ter novo amor,
O risco que eu correria de amar sem medida,
Maré alta, sujeita a ressaca – que invade a praia
E coloca em perigo o banhista,
Eu não teria tentado, eu não teria querido
Reviver um passado distante, praticamente esquecido.
Teria disso fugido, não teria desejado tanto
Redescobrir esse amor escondido.
E pegar uma baranga qualquer,
Que fosse apenas bonita e gostosa, mulher
Para deitar na minha cama, fazer cafuné,
Andar de mãos dadas e até,
Talvez – namorar todo dia.
De sentir saudade de alguém todo dia, querer com ela estar,
Sonhando com isso acordado, desejo absurdo, impossível,
Pois não há no amor simetria.
Então, melhor seria não dar a esse amor o poder
De tomar de assalto corpo, mente, tudo,
O coração, tudo, tudo, integralmente.
Sabendo que agora é tarde, pois não mais consigo
Libertar-me do amor que deixei renascer.
Pensei uma deusa do amor consultar,
Querendo saber o que diria, sorver sua sabedoria.
Contar-lhe tudo o que sentia. Que conselhos me daria?
Aquela desgraçada, riu de mim!
E disse não haver solução pra velhice,
Que amor não tem idade, quem tem idade é quem ama,
Que amores maduros são frutas desidratadas,
Por mais que se deseje o contrário, que fossem
Sumarentas, carnudas.
Já foram, não são mais.
E que o máximo que
posso fazer
É aceitar este fato, entender
Que o amor que desperto em alguém –
Se realmente desperto – nunca será como antes,
No tempo da juventude. E é pegar ou largar,
Sem reclamar, pois isso não mais mudará.
Ah, Afrodite, sua sacana!
Deusa do amor? Pois sim...
E ainda há quem nela acredite! Ah, Afrodite...
Já foram, não são mais.
É aceitar este fato, entender
Que o amor que desperto em alguém –
Se realmente desperto – nunca será como antes,
No tempo da juventude. E é pegar ou largar,
Sem reclamar, pois isso não mais mudará.
Deusa do amor? Pois sim...
E ainda há quem nela acredite! Ah, Afrodite...
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
domingo, 16 de agosto de 2026
GUARDAR - ANTÔNIO CÍCERO
Antônio Cícero foi um grande poeta, filósofo, letrista e membro da Academia Brasileira de Letras. Era irmão da cantora e compositora Marina Lima, para quem escreveu várias letras das músicas por ela compostas.
Um dia, ao ver que estava em um processo sem volta, tomou a decisão durísssima de praticar eutanásia na Suiça, deixando uma carta endereçada aos amigos. Entendi que valia a pena transcrever trechos desta carta para apresentar um de seus poemas:
A CARTA:
O que ocorre é que minha vida se tornou insuportável. Estou sofrendo de Alzheimer. Assim, não me lembro sequer de algumas coisas que ocorreram não apenas no passado remoto, mas mesmo de coisas que ocorreram ontem. (...)
Não consigo mais escrever bons poemas nem bons ensaios de filosofia. Não consigo me concentrar nem mesmo para ler, que era a coisa de que eu mais gostava no mundo. Apesar de tudo isso, ainda estou lúcido bastante para reconhecer minha terrível situação. (...)
Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade.
O que ocorre é que minha vida se tornou insuportável. Estou sofrendo de Alzheimer. Assim, não me lembro sequer de algumas coisas que ocorreram não apenas no passado remoto, mas mesmo de coisas que ocorreram ontem. (...)
Não consigo mais escrever bons poemas nem bons ensaios de filosofia. Não consigo me concentrar nem mesmo para ler, que era a coisa de que eu mais gostava no mundo. Apesar de tudo isso, ainda estou lúcido bastante para reconhecer minha terrível situação. (...)
Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade.
O POEMA:
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre não
se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto
é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é,
velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela
ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que pássaros sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se
declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre não
se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto
é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é,
velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela
ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que pássaros sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se
declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
sábado, 15 de agosto de 2026
VOCÊ É BRASILEIRO? JURA?
Recebi este texto de um amigo de facebook e
não resisti à tentação de divulgá-lo no blog, por pensar exatamente com seu
autor.
O brasileiro que comprou um pedaço do Liverpool
A notícia me chamou a atenção: Eduardo Saverin, um dos fundadores do Facebook, está entre os investidores de um consórcio que acaba de adquirir uma participação de mais de 30% no Liverpool Football Club. O negócio avalia o tradicional clube inglês em mais de cinco bilhões de libras.
Eduardo Saverin é brasileiro.
Nasceu em São Paulo, em 1982. Mudou-se para os Estados Unidos aos dez anos, tornou-se cidadão americano em 1998 e, em 2011, renunciou à cidadania americana. Desde então, vive em Singapura.
Ainda assim, quando a notícia apareceu, lá estava ele: o brasileiro Eduardo Saverin.
E isso me fez pensar no nosso velho complexo de vira-latas.
A expressão foi criada por Nelson Rodrigues para falar da nossa inferioridade psicológica diante do estrangeiro. Temos, muitas vezes, a necessidade de acreditar que aquilo que vem de fora é melhor — mais sofisticado, mais competente, mais importante. Mas existe também o movimento contrário, talvez igualmente revelador: quando um brasileiro faz sucesso lá fora, imediatamente o reivindicamos.
O sujeito nasce no Brasil, vai embora ainda criança, estuda em Harvard, participa da criação do Facebook, constrói sua fortuna nos Estados Unidos, muda-se para Singapura, renuncia à cidadania americana e passa a investir pelo mundo.
E nós dizemos: "Vejam o brasileiro!"
É curioso.
Não estou dizendo que Saverin não seja brasileiro. Juridicamente, nasceu brasileiro e continua sendo brasileiro. Mas talvez haja uma diferença entre nacionalidade e pertencimento.
A nacionalidade pode estar registrada num documento. O pertencimento é uma coisa muito mais complicada.
O que me parece interessante é perceber como nós, brasileiros, gostamos de incorporar ao nosso currículo nacional aqueles que venceram no exterior. É como se o sucesso obtido longe daqui funcionasse como uma espécie de certificado de qualidade que pudéssemos exibir.
"É brasileiro!"
Como se disséssemos: vejam, nós também produzimos gente capaz de chegar lá.
Mas há uma ironia ainda maior.
Saverin não está comprando o Liverpool sozinho. Está participando de um consórcio que reúne alguns dos maiores capitais do mundo, entre eles Jeff Bezos. O Brasil não está comprando o Liverpool. Um homem nascido no Brasil está investindo no futebol inglês com dinheiro construído numa trajetória essencialmente internacional.
Talvez seja justamente aí que a história fique interessante.
O mundo mudou. O dinheiro atravessa fronteiras com uma facilidade que nossos sentimentos de pertencimento ainda não conseguem acompanhar.
Um homem pode nascer brasileiro, tornar-se americano, viver em Singapura e comprar parte de um clube inglês.
E nós ainda precisamos perguntar:
"Mas ele é brasileiro?"
Talvez o nosso complexo de vira-latas tenha mudado de forma.
Antes, olhávamos para o estrangeiro e dizíamos: eles são melhores que nós.
Agora, quando um dos nossos vence lá fora, corremos para dizer:
"Ele é nosso."
No fundo, talvez ainda estejamos procurando, no sucesso dos outros, uma maneira de acreditar um pouco mais em nós mesmos.
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
IN DUBIO PRO REO
Nada sabemos do futuro
Pouco sabemos do passado
Mesmo o presente – tão claro! –
Pode se apresentar escuro
Confuso, estranho, nublado
Em tempo distante, esquecido
Possa ainda ser veredito
Para hoje nos condenar
Sem
pensar que o que foi dito
Pode hoje ser desdito
Pois o que hoje é feio
Já foi um dia bonito
Que
a eternidade por uns pretendida
Não teve nem tem garantia
De permanecer imutável
Em mente para sempre mutante
Mutável, fluida – enguia
Pode hoje ser desdito
Pois o que hoje é feio
Já foi um dia bonito
Não teve nem tem garantia
De permanecer imutável
Em mente para sempre mutante
Mutável, fluida – enguia
Que não podemos julgar o passado
Com nossos olhos de presente
Que
condenar, rejeitar o pretérito
Ainda que seja imperfeito
É esquecer que seremos julgados
Por quem estiver no futuro
E que essa é a única, eterna certeza
Quem
fica propenso a julgar
Ignora ou não quer aceitar
Que o passado é apenas pretérito
Não adianta tentar alterar
Ainda que seja imperfeito
É esquecer que seremos julgados
Por quem estiver no futuro
E que essa é a única, eterna certeza
Ignora ou não quer aceitar
Que o passado é apenas pretérito
Não adianta tentar alterar
E
que só é possível mudar
O presente, só o presente,
Somente.
O presente, só o presente,
Somente.
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
O QUERERES – CAETANO VELOSO
Minha reverência de
hoje, extremamente respeitosa, é para Caetano Veloso. Embora já tenha pisado em
algumas bolas (não é o que vocês estão pensando!) ao longo da vida – como no
caso da associação “Procure Saber”, que tentou impedir a divulgação não
autorizada de biografias –, é um sujeito indiscutivelmente genial.
Nem tudo o que ele já fez me agrada, pois sua obra é complexa, culta e sofisticada. Seu domínio vocabular é absoluto! Não tenho ferramental adequado para entender tudo o que ele faz (aliás, mesmo que tivesse, nem sei se teria interesse nisso). Algumas coisas eu gosto; outras, não. Simples assim.
Mas a letra desta música é absurdamente bonita e sofisticada. E o motivo de eu querer publicar esta maravilha é a enorme semelhança entre o que ele canta e o que rola – ou deixa de rolar – nos relacionamentos afetivos da terceira idade, quando a paixão já não reina soberana e precisa disputar espaço com todo o resto que a vida acumulou.
Nem tudo o que ele já fez me agrada, pois sua obra é complexa, culta e sofisticada. Seu domínio vocabular é absoluto! Não tenho ferramental adequado para entender tudo o que ele faz (aliás, mesmo que tivesse, nem sei se teria interesse nisso). Algumas coisas eu gosto; outras, não. Simples assim.
Mas a letra desta música é absurdamente bonita e sofisticada. E o motivo de eu querer publicar esta maravilha é a enorme semelhança entre o que ele canta e o que rola – ou deixa de rolar – nos relacionamentos afetivos da terceira idade, quando a paixão já não reina soberana e precisa disputar espaço com todo o resto que a vida acumulou.
Que pena, não?
Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão
Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês
Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor
Ah! Bruta flor, bruta flor
Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói
Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és
Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor
Ah! Bruta flor, bruta flor
Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus
E onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus
O quereres estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim
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