Se eu soubesse
como seria ter novo amor,
O risco que eu
correria de amar sem medida,
Maré alta, sujeita
a ressaca – que invade a praia
E coloca em perigo o banhista,
Eu não teria
tentado, eu não teria querido
Reviver um passado
distante, praticamente esquecido.
Teria disso
fugido, não teria desejado tanto
Redescobrir esse
amor escondido.
Melhor seria não
deixar esse amor florescer
E pegar uma
baranga qualquer,
Que fosse apenas
bonita e gostosa, mulher
Para deitar na
minha cama, fazer cafuné,
Andar de mãos
dadas e até,
Talvez – namorar
todo dia.
Mas jamais faria a
besteira de me deixar apaixonar,
De sentir saudade
de alguém todo dia, querer com ela estar,
Sonhando com isso
acordado, desejo absurdo, impossível,
Pois não há no
amor simetria.
Então, melhor
seria não dar a esse amor o poder
De tomar de
assalto corpo, mente, tudo,
O coração, tudo,
tudo, integralmente.
Estava nessa
divagação, lamentando não ter pensado assim antes,
Sabendo que agora
é tarde, pois não mais consigo
Libertar-me do
amor que deixei renascer.
Sem entender se
delirava ou sonhava enquanto dormia,
Pensei uma deusa
do amor consultar,
Querendo saber o
que diria, sorver sua sabedoria.
Contar-lhe tudo o que sentia. Que conselhos
me daria?
Pois Afrodite, a
deusa do amor consultada,
Aquela desgraçada,
riu de mim!
E disse não haver
solução pra velhice,
Que amor não tem
idade, quem tem idade é quem ama,
Que amores maduros
são frutas desidratadas,
Por mais que se
deseje o contrário, que fossem
Sumarentas, carnudas.
Já foram, não são
mais.
E que o máximo que
posso fazer
É aceitar este
fato, entender
Que o amor que
desperto em alguém –
Se realmente
desperto – nunca será como antes,
No tempo da juventude. E é pegar ou largar,
Sem reclamar, pois
isso não mais mudará.
Ah, Afrodite, sua sacana!
Deusa do amor? Pois sim...
E ainda há quem
nela acredite! Ah, Afrodite...