sábado, 14 de março de 2026

FRACOLINO

 
Creio que até os milhares de robozinhos que às vezes acessam este blog desconjuntado (o que será que eles procuram aqui? Qualidade do material publicado eu garanto que não é) sabem que Jotabê é um ogro mal-humorado e impaciente, além de velho pra kawaka.
 
E digo impaciente porque não tenho saco para assistir à maioria dos recentes filmes hollywoodianos, aparentemente feitos para atingir a juventude bronzeada que quer mostrar seu valor. Claro que também podem interessar aos jovens arredios, tímidos, branquelos, que vivem trancados no banheiro e com muito cabelo nas palmas das mãos (if you know what I mean).
 
Esses filmes não me atraem. Avatar, por exemplo. Quer filme mais idiota? Para mim (que não assisti), ele serviu apenas para colocar no meu dicionário pessoal a palavra “avatar”, que me soa como um convite insistente: “ah, vá, tá?”
 
Minha praia são filmes de humor inteligente ou nonsense, como os do Mel Brooks, ou então filmes noir realizados entre as décadas de 30 e 50.
 
Maaaas, voltando à palavra “avatar”, confesso – ligeiramente constrangido – que descobri o meu em um personagem de histórias em quadrinhos das antigas. Sem muito suspense: esse personagem aparece nas HQs do Bolinha e da Luluzinha.
 
Nunca ouviu falar dessas revistinhas? Jovem é foda: não sabe merda nenhuma, mas acredita sinceramente que sabe tudo. Tenho certeza de que os robozinhos que às vezes avoejam por este blog suculento e saboroso (acho que estou com fome!) conhecem essas deliciosas e inocentes HQs.
 
E o personagem é um velho meio calvo, de barbas brancas e bastante caduco, que aparece de vez em quando, mas sempre em momentos hilários. É o avô sem noção do Carequinha, amigo do Bolinha.
 
Olha o Vovô Fracolino aí. Acho que parecemos um pouco. Pelo menos na piração e na completa falta de senso. Talvez, em vez de meu "avatar", melhor seria dizer que ele é meu "avôtar", mais coerente com minha idade matusalêmica.



sexta-feira, 13 de março de 2026

SUJEITO A DEVOLUÇÃO

 
Tenho medo de você
Talvez nem saiba dizer por quê
Medo de te magoar
Medo de decepcionar
Ou medo de te perder
Medo de não atender
Ou de não corresponder
Ao retrato que pintou de mim
 
Não tenho cores a exibir
Sou branco e preto no olhar
Mesmo tentando enganar
Quem desejou me adquirir.
Sou produto gasto, vencido
De segunda mão, já mexido 
Sem nota fiscal, sem recibo
Sujeito a devolução

quarta-feira, 11 de março de 2026

VAZEZINHO!

 
Dizem que há muito, muito tempo (técnica para tornar imprecisa a data), viveu uma princesa bela como Branca de Neve – a quem a escumalha maledicente dizia sentir uma atração secreta e doentia por sete homenzinhos verticalmente prejudicados (anões, entendeu?). Mas beleza era o único ponto a unir essa personagem de história da carochinha com a outra, de crônica da carochinha (crônica sim, porque este narrador é preguiçoso e não gosta de escrever muito. E nem me perguntem o significado de “carochinha”!).
 
Pois bem, a princesa que não era Branca de Neve era, na verdade, uma louraça, uma loura estonteante acostumada a bronzear suas formas suculentas nas areias de Nova Guarapari.
 
Um dia (outra indeterminação temporal), fazendo sua caminhada diária, quase pisa em um sapo repulsivamente horroroso, que nem sabe como surgiu ali (as fábulas são assim mesmo).
 
- EEECA!!!! Que coisa nojenta!
 
Para sua surpresa, o sapo respondeu:
 
- Tendes razão, adorável e linda princesa. Sou hoje um sapo feio e gordo, mas, se me beijares, quebrareis o encanto que jogaram em mim e voltarei a ser o príncipe encantado e encantador com que sonhastes por toda a vida. (Mesmo sendo sapo, era muito educado  um anfíbio de família, mais precisamente da família Bufonidae.).
 
A princesa, que não era burra – apesar de loura –, tinha direito ao contraditório e contra-argumentou:
 
- Mesmo que eu sonhe com um príncipe encantado desde a minha juventude, não quero beijar um sapo nojento!
 
Mas o sapo era persistente, sedutor, e continuou a tentar convencer a princesa a beijá-lo. Disse até que escreveria crônicas e poemas para e sobre ela. Tanto fez que a princesa, fazendo a maior cara de nojo, beijou o sapo.
 
E o inesperado que era esperado aconteceu. Surgiu à sua frente um velho obeso, de barba branca e cabelos idem (os poucos que ainda não tinham caído), que sorriu doce e maliciosamente para ela.
 
Não acreditando no que via (tentativa de negação da realidade que a assustava), a deusa linda e loura exclamou:
 
- Eu estava esperando um príncipe lindo, charmoso e gostoso, mas você é um velho decrépito! E ainda fala como se tivesse saído do século passado!
 
- Tendes razão, oh apetitosa e linda princesa! Tenho hoje duzentos anos, pois virei sapo ainda no tempo da Primeira República. Mas continuo sendo capaz de amá-la.
 
A princesa nem pestanejou:
 
- Amá-la? Boa ideia! Pegue essa mala velha e suma da minha frente. Vê lá se quero me relacionar com um velho obeso e feio como você! Fui seduzida por suas palavras, mas já decidi (ela era muito assertiva quando precisava):
 
- Não quero te beijar nunca mais! Sei lá, vai que depois fico com a boca cheia de sapinho! Por isso, vaza! Ou melhor... vazezinho!

 

segunda-feira, 9 de março de 2026

VÔ, ME CONTA SUA HISTÓRIA?

 
Sentados nos sofás da sala, um de frente para o outro, um homem idoso absorto na leitura de um dos livros de memória de Pedro Nava. Do outro lado, uma jovem teclando seu inseparável smartphone. De repente, ela para, olha para o homem e pergunta:
- Que livro é esse?
- Ahn? É um dos sete livros que o médico e memorialista Pedro Nava escreveu contando suas lembranças.
- Sete livros? Pô, esse tinha caso pra contar!
- Ele tinha uma memória poderosa, mas também utilizava cartas, retratos antigos e lembranças diversas que guardava.
- Legal!
- É sempre bom ouvir casos de épocas passadas. Os franceses chamam isso de “petite histoire”: a história de objetos e pessoas comuns, anônimas, mas nem por isso menos interessantes.
- Entendi! Vô, me conta sua história?
- Eu? Não tenho história para contar.
- Aposto que tem! Conta aí a história de uma paixão secreta do passado. Pode ser do presente também, se tiver.
- Revolver o passado nem sempre é bom.
- Besteira! Agora que vovó morreu, você pode contar o que quiser para mim. Eu juro que fica só entre nós. Conta aí, vai!
- Tá bom. Vou contar de uma paixão que se misturou com o relacionamento que eu e sua avó tivemos, como se fosse um bordado, um trançado de linhas que volta e meia se cruzavam e que eu tentava manter em segredo.
- Eba! Já tô curiosa!
- Eu a conheci muito antes de sua avó...
- Pera aí: como ela se chama?
- Você quer uma história ou uma biografia?
- Tá, desculpe. Não vou mais te interromper.
- Vamos chamá-la de Jô, está bem?
- OK.
- Foi em uma hora-dançante. Eu a chamei para dançar e ela aceitou. Eu dançava horrivelmente mal, era tímido, bobo e inexperiente. Deus, como eu era inexperiente! Talvez eu tenha tentado dançar de rosto colado, mas creio que ela travou e logo disse que iria parar. Não me lembro mais o que aconteceu depois disso, só sei que ela disse onde morava, o que talvez eu tenha interpretado como um convite.
- E você foi lá?
- Claro, eu queria arranjar uma namorada! Mas foi uma ducha fria, pois uma amiga dela não nos deixou a sós nem por um segundo. Agora imagine a situação: um jovem tímido, bobo e inexperiente, sem saber como agir. Não havia nada a fazer e eu tive de ir embora. Está gostando da história?
- Estou, mas esperando mais ação, romance, surpresa.
-Só depois que trouxer um café para mim. E traga água também, para molhar a garganta.
- Beleza.
 
A água e o café chegam e a menina ordena:
- Continua!
- Logo no início do namoro com sua avó, eu ainda tinha “passe livre” para ir a horas dançantes depois de sair de sua casa. E era isso que eu fazia. Em uma dessas vezes, quem eu encontro?
- Já sei, a Jô!
- Claro! Eu não sei o que acontece comigo, o que sempre aconteceu comigo, parece que eu fui enfeitiçado, magnetizado pela Jô. Aí a chamei para dançar. Ela concordou, sem demonstrar muito entusiasmo. Mas aí aconteceu um “milagre”: a música que passou a ser tocada era daquelas que se dança separado.
- Ahahah, nem imagino você dançando assim!
- Naquele tempo, as danças já surgiam com passos coreografados e eu estava “up to date”, como dizem. Eu sabia a coreografia da nova dança. Quando me viu dançando assim, ela chamou uma amiga para me ver.
- Eita!!!!
- Pois é, eu me senti o rei da cocada. Quando a música lenta recomeçou, ela se aconchegou, e se aninhou em meu peito, a gata se transformando em gatinha. Mas era tarde, pois eu já namorava sua avó.
- E ficou por isso mesmo?
- Bom, teve ainda uma festa junina que era o que havia de mais top na época. Também fui sozinho – e lá estava ela. Ficamos a noite toda juntos, aos abraços e beijos.
- Acho engraçado ver você contar esses casos, seus olhos brilham ao falar dessa mulher. Ela era bonita?
- Era... e ainda é.
- E aí, que rolou depois?
- Aconteceu um fato curioso. Como eu estava com a cabeça super confusa, comecei a fazer terapia perto da Praça Sete. Não sei como, mas meu irmão encontrou com ela e contou que eu não andava muito bem.  Acredita que ela apareceu na casa da minha avó? Eu estava saindo para a terapia e ela me ofereceu carona. Tinha acabado de ganhar um carro do pai e estava toda feliz.
- E aí? 
- Me deixou no centro e foi embora. Depois disso, foi de novo lá em casa, me pegou e acabamos parando em rodovia , debaixo de um viaduto. Estávamos nos beijando quando chegou a polícia rodoviária e nos mandou vazar dali.
- Sacanagem, nem uma mão no peitinho?
- Minha filha, você está falando com seu avô!
- E daí? Isso é tão normal!
- Pode ser hoje, mas naquele tempo não. Além disso, eu era muito, muito bobo e inexperiente.
- Nem imagino você assim!
- Deixa eu continuar mais um pouco, pois já estou cansado.
- Manda!
- Teve também o lance do vestibular. Como eu já tinha entrado na faculdade, consegui uma boquinha para trabalhar de fiscal no próximo vestibular. Estou lá tranquilão, quando quem vejo chegar?
- A Jô, claro. Tô achando que essa mulher tem super poderes ou GPS para te localizar!
- Pois é... Ela estava estonteantemente linda, toda de branco. Naquele momento o Mineirão era utilizado para as provas. Por isso perguntei qual era o setor onde ela ficaria. Peguei emprestado um binóculo do exército e comecei a procurá-la do outro lado do estádio, pois não podia sair do meu posto. E achei.
- Que mais, só isso?
- Eu preferia não entrar em mais detalhes, pois o caso fica meio constrangedor.
- Cê tá querendo escapulir, né? Mas vamos fazer assim: você para agora, mas continua amanhã, fechou?
- Combinado.
 
Mas a neta nunca ficou sabendo o resto daquela história banal do avô, pois pela manhã, estranhando a demora dele para o café, foram até o quarto onde dormia. Encontraram-no morto, com os olhos abertos e um sorriso congelado em sua boca.
 

domingo, 8 de março de 2026

E OS OUTROS 364?

 


QUE DIA!

 
Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Parabéns! Mas os outros 364 também deveriam ser dias internacionais da mulher. Só assim, quem sabe, acabaria essa explosão de feminicídios que a mídia divulga.
 
Hoje também completam-se três meses do falecimento do meu inesquecível Amor. Talvez por isso, tive insônia. Acordei muito cedo (3h30), fiz café e deitei de novo. Dei uma cochiladinha e ela apareceu em um sonho fugaz, sorrindo pra mim com aquele rosto lindo que tinha. Queria que o sonho tivesse continuado! Chorei muito, tanta saudade eu senti ao acordar.
 
O Kid Abelha tem uma música linda (Os Outros) com alguns versos que definem bem que sinto por ela, o que sempre sentirei por ela. Vejam se não é isso (fiz pequenas modificações de gênero e situação):
 
Não consigo aceitar a gente separado
Procuro evitar comparações
A minha vida continua
Mas é certo que eu seria sempre seu
 
Que saudade! Desculpem por compartilhar este momento com vocês, mas estou profundamente triste agora.



FRACOLINO

  Creio que até os milhares de robozinhos que às vezes acessam este blog desconjuntado (o que será que eles procuram aqui? Qualidade do mate...