Sentados nos sofás da sala, um de frente para o outro, um homem idoso
absorto na leitura de um dos livros de memória de Pedro Nava. Do outro lado,
uma jovem teclando seu inseparável smartphone. De repente, ela para, olha para
o homem e pergunta:
- Que livro é esse?
- Ahn? É um dos sete livros
que o médico e memorialista Pedro Nava escreveu contando suas lembranças.
- Sete livros? Pô, esse
tinha caso pra contar!
- Ele tinha uma memória
poderosa, mas também utilizava cartas, retratos antigos e lembranças diversas
que guardava.
- Legal!
- É sempre bom ouvir casos de
épocas passadas. Os franceses chamam isso de “petite histoire”: a história de
objetos e pessoas comuns, anônimas, mas nem por isso menos interessantes.
- Entendi! Vô, me conta sua
história?
- Eu? Não tenho história
para contar.
- Aposto que tem! Conta aí
a história de uma paixão secreta do passado. Pode ser do presente também, se
tiver.
- Revolver o passado nem
sempre é bom.
- Besteira! Agora que vovó
morreu, você pode contar o que quiser para mim. Eu juro que fica só entre nós.
Conta aí, vai!
- Tá bom. Vou contar de uma
paixão que se misturou com o relacionamento que eu e sua avó tivemos, como se
fosse um bordado, um trançado de linhas que volta e meia se cruzavam e que eu
tentava manter em segredo.
- Eba! Já tô curiosa!
- Eu a conheci muito antes
de sua avó...
- Pera aí: como ela se
chama?
- Você quer uma história ou
uma biografia?
- Tá, desculpe. Não vou
mais te interromper.
- Vamos chamá-la de Jô,
está bem?
- OK.
- Foi em uma hora-dançante.
Eu a chamei para dançar e ela aceitou. Eu dançava horrivelmente mal, era
tímido, bobo e inexperiente. Deus, como eu era inexperiente! Talvez eu tenha
tentado dançar de rosto colado, mas creio que ela travou e logo disse que iria
parar. Não me lembro mais o que aconteceu depois disso, só sei que ela disse
onde morava, o que talvez eu tenha interpretado como um convite.
- E você foi lá?
- Claro, eu queria arranjar
uma namorada! Mas foi uma ducha fria, pois uma amiga dela não nos deixou a sós
nem por um segundo. Agora imagine a situação: um jovem tímido, bobo e
inexperiente, sem saber como agir. Não havia nada a fazer e eu tive de ir
embora. Está gostando da história?
- Estou, mas esperando mais
ação, romance, surpresa.
-Só depois que trouxer um café
para mim. E traga água também, para molhar a garganta.
- Beleza.
A água e o café chegam e a menina ordena:
- Continua!
- Logo no início do namoro
com sua avó, eu ainda tinha “passe livre” para ir a horas dançantes depois de
sair de sua casa. E era isso que eu fazia. Em uma dessas vezes, quem eu encontro?
- Já sei, a Jô!
- Claro! Eu não sei o que
acontece comigo, o que sempre aconteceu comigo, parece que eu fui enfeitiçado,
magnetizado pela Jô. Aí a chamei para dançar. Ela concordou, sem demonstrar
muito entusiasmo. Mas aí aconteceu um “milagre”: a música que passou a ser
tocada era daquelas que se dança separado.
- Ahahah, nem imagino você
dançando assim!
- Naquele tempo, as danças
já surgiam com passos coreografados e eu estava “up to date”, como dizem. Eu
sabia a coreografia da nova dança. Quando me viu dançando assim, ela chamou uma
amiga para me ver.
- Eita!!!!
- Pois é, eu me senti o rei
da cocada. Quando a música lenta recomeçou, ela se aconchegou, e se aninhou em
meu peito, a gata se transformando em gatinha. Mas era tarde, pois eu já
namorava sua avó.
- E ficou por isso mesmo?
- Bom, teve ainda uma festa
junina que era o que havia de mais top na época. Também fui sozinho – e lá
estava ela. Ficamos a noite toda juntos, aos abraços e beijos.
- Acho engraçado ver você
contar esses casos, seus olhos brilham ao falar dessa mulher. Ela era bonita?
- Era... e ainda é.
- E aí, que rolou depois?
- Aconteceu um fato
curioso. Como eu estava com a cabeça super confusa, comecei a fazer terapia
perto da Praça Sete. Não sei como, mas meu irmão encontrou com ela e contou que eu não andava
muito bem. Acredita que ela apareceu na casa da minha
avó? Eu estava saindo para a terapia e ela me ofereceu carona. Tinha acabado de
ganhar um carro do pai e estava toda feliz.
- E aí?
- Me deixou no centro
e foi embora. Depois disso, foi de novo lá em casa, me pegou e acabamos parando
em rodovia , debaixo de um viaduto. Estávamos nos beijando quando chegou a
polícia rodoviária e nos mandou vazar dali.
- Sacanagem, nem uma mão no
peitinho?
- Minha filha, você está falando
com seu avô!
- E daí? Isso é tão normal!
- Pode ser hoje, mas
naquele tempo não. Além disso, eu era muito, muito bobo e inexperiente.
- Nem imagino você assim!
- Deixa eu continuar mais
um pouco, pois já estou cansado.
- Manda!
- Teve também o lance do
vestibular. Como eu já tinha entrado na faculdade, consegui uma boquinha para
trabalhar de fiscal no próximo vestibular. Estou lá tranquilão, quando quem
vejo chegar?
- A Jô, claro. Tô achando
que essa mulher tem super poderes ou GPS para te localizar!
- Pois é... Ela estava
estonteantemente linda, toda de branco. Naquele momento o Mineirão era
utilizado para as provas. Por isso perguntei qual era o setor onde ela ficaria.
Peguei emprestado um binóculo do exército e comecei a procurá-la do outro lado
do estádio, pois não podia sair do meu posto. E achei.
- Que mais, só isso?
- Eu preferia não entrar em
mais detalhes, pois o caso fica meio constrangedor.
- Cê tá querendo escapulir,
né? Mas vamos fazer assim: você para agora, mas continua amanhã, fechou?
- Combinado.
Mas a neta nunca ficou sabendo o resto daquela história banal do avô, pois pela
manhã, estranhando a demora dele para o café, foram até o
quarto onde dormia. Encontraram-no morto,
com os olhos abertos e um sorriso congelado em sua boca.