domingo, 31 de maio de 2026

DIALÉTICA – VINÍCIUS DE MORAES

 
Mesmo que não haja fundamentação psicanalítica e nem eu tenha (ainda) formação nessa área, criei “para uso pessoal” uma divisão de personalidades e comportamentos, assim definidos: pessoas solares, de temperamento solar e pessoas lunares, de temperamento lunar.
 
Eu vejo a pessoa solar como alegre, bem resolvida, de bem com a vida. A lunar seria alguém com tendência à depressão, melancólica e triste, mesmo que sem motivo aparente.
 
Se quiser saber, eu me considero uma pessoa “lunar”, que brinca o tempo todo, faz piadas de quinta série, mas, quando está sozinho, murcha e mergulha para dentro de si mesmo.
 
Esta abordagem surgiu depois de ler o poema “Dialética”, do Vinicius de Moraes. Bom vivant, boêmio, casado com “n” mulheres, dizia que era "um homem triste, com uma grande vocação para a alegria". Imagino que essa dualidade foi a inspiração para estes versos:
 
É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção.
É claro que te acho linda
E em ti bendigo o amor das coisas simples.
É claro que te amo.
E tenho tudo para ser feliz.
Mas acontece que eu sou triste.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

CURRAL DEL REI

 
A cidade onde moro foi projetada e construída sobre Curral del-Rei, um povoado arrasado e demolido para que surgisse a nova capital do estado. Começou assim: destruindo o que já existia. Sensacional.
 
O projeto foi feito por engenheiros, mas engenheiro calcula e executa, não projeta nem deveria. Ainda mais uma cidade!
 
Previu-se uma avenida-anel contornando a área central, confinando e destacando os maiorais: funcionários públicos, empresários, gente abonada, bacana, em casas mais simples ou palacetes, mas cada um no seu quadrado – ou retângulo, pois as ruas e avenidas cruzam-se em desenho ortogonal, pouco importando se aquilo eram ladeiras vertiginosas. As curvas de nível foram solenemente ignoradas.
 
Aliás, talvez o único nível realmente respeitado fosse o social.
 
A área contornada era cercada de colônias agrícolas onde a ralé e os imigrantes – espanhóis, italianos, portugueses – compunham a turma do agro, necessária para alimentar os parasitas públicos e os grandes negociantes da cidade, sempre dispostos às grandes negociatas.
 
Com o tempo, essas colônias foram loteadas, fazendo surgir os bairros mais antigos da cidade: periféricos, de urbanização desleixada, casas simples, ruas, becos e calçadas sem padrão, como se a própria arquitetura denunciasse sua origem desimportante.
 
A população desses bairros também carregava essa marca. Afinal, como conviver com a elite sócio-econômica da cidade? Só mesmo na zona, em um dos muitos puteiros discretamente afastados do olhar das famílias de bem. E sabe por que estou dizendo tudo isso?
 
Porque quis o destino – ou um anjo safado, ou talvez um chato de um querubim – que eu nascesse num desses bairros periféricos, depois que meu pai viu a quebra das empresas familiares das quais um dia fora sócio. O resultado foi sair da área nobre para morar na casa da sogra, ela própria uma deserdada do destino, depois de assistir ao patrimônio deixado pelo pai ser embolsado pelos irmãos filhos da puta.
 
Éramos pobres, sem nos dar conta disso, exceto quando confrontados com nossos dois únicos primos por parte de mãe. Eles, as únicas crianças com quem podíamos brincar, eram ricos de nascença, tinham brinquedos incríveis, bicicletas, passavam as férias na praia ou em estâncias hidrominerais. E nós lá, só olhando – e babando.
 
Que tal ir à Praça da Estação para nos despedir deles em uma de suas viagens para o Rio? Bom, não é? Que tal ser convidado a entrar no Vera Cruz, que era o melhor trem de passageiros da época (com ar condicionado e tudo mais), só para conhecer a cabine onde os primos viajariam (deitados, claro, em camas beliche)? Excelente, não? Pois é, eu já fui levado a um ou dois desses bota-fora, à noite. A volta para casa sempre tinha um gostinho de fundo de gaiola.
 
Talvez venha daí essa insegurança atávica que trago hoje comigo: a percepção de que ter cultura é muito bom, mas melhor mesmo é viajar para a Europa.
 
Esta talvez seja a verdadeira explicação “histórico-geográfico-sociológica” do meu complexo de vira-latas.
 
Porque, no fundo, a questão que fica é esta: como tratar com naturalidade despreocupada, como conviver naturalmente com a elite econômica da cidade se eu nunca fiz parte dela?

quinta-feira, 28 de maio de 2026

TAGORE

 
Talvez, por ter ficado viúvo em dezembro (momento tristíssimo, devastador), deve ter sido em janeiro passado que ganhei de uma amiga o livro A morte é um dia que vale a pena viver, escrito por uma médica especialista em cuidados paliativos, prestados a doentes em estágio terminal e a seus familiares.
 
Comecei a lê-lo, mas a leitura não progredia. Só agora, durante a semana em que me afastei do blog e de toda a internet, consegui, recomeçando do zero, chegar ao final.
 
Em uma de suas páginas encontrei um poema de Rabindranath Tagore, prêmio Nobel de Literatura em 1913. Tagore foi um polímata indiano – poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta, compositor, pintor, filósofo, reformador social, educador, linguista e gramático – e o primeiro asiático a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura.
 
O resto, para quem se interessar em conhecer um pouco mais, já sabe: Wikipédia, internet etc. Porque minha intenção é apenas postar aqui, neste blog desclassificado, o poema que li. Bora lá.
 
Não me deixe rezar por proteção contra os
perigos, mas pelo destemor em enfrentá-los.
 
Não me deixe implorar pelo alívio da dor, mas
pela coragem de vencê-la.
 
Não me deixe procurar aliados na batalha
da vida, mas a minha própria força.
 
Não me deixe suplicar com temor aflito
para ser salvo, mas esperar paciência para merecer a liberdade.
 
Não me permita ser covarde, sentindo sua
clemência apenas no meu êxito, mas me deixe
sentir a força da sua mão quando eu cair.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

SALIVA

 
Talvez seja bobo eu repetir palavras
Reexibindo sentimentos antes represados
Mas às vezes eu me sinto afogando em um mar
De emoções que não me deixam respirar
 
Adolescente diante da menina que olha para ele
Com olhos de promessa e sorrisos de sedução
E tudo o que esse jovem deseja é aspirar
Sorver o ar que sai da boca da menina
 
Pois tudo o que ele quer é estar com ela
Todo o tempo, o tempo todo, abraçá-la sem parar
Passar a língua em seus lábios, beijar sua boca,
Provar da sua saliva, sentir seu perfume,
 
Mexer em seus cabelos,
Fazer carinhos em seu rosto
Beijar e morder sua nuca.
E, como num passe de mágica, perceber
 
Que estão deitados nus, abraçando-se
A dançar um bolero horizontal
Uma música que só os dois escutam
Sem hora para acabar, sensual.
 
E aí eu saio desse transe e descubro
Estar sozinho.  Mas não me conformo e digo
Para o espelho que é isso que eu quero
É ela que eu desejo, é tudo o que preciso.

terça-feira, 26 de maio de 2026

FORUGH FARROKHZAD? MUITO PRAZER!

 
Você consegue imaginar que no teocrático Irã atual já existiu uma autora de poemas transgressores e sensuais? Pois é, eu não sabia. Segundo a Wikipédia, “Forugh Farrokhzad, foi uma influente poeta e diretora de cinema iraniana. Ela foi uma controversa poeta modernista e uma autora iconoclasta e feminista. Farrokhzad morreu em um acidente de carro aos 32 anos”, em 1967, antes, portanto da chegada do aiatolá Khomeini. Mesmo assim, fica a pergunta: teria sido mesmo acidente? Se quiser saber mais, por favor, peça ao Google, ao ChatGPT, ao Donald Trump ou em quem você pensar. Meu negócio é publicar, divulgar um de seus poemas. Lê aí.

 
O PECADO
Cometi um pecado cheio de prazer,
num abraço quente e ardente.
Pequei rodeada por braços
quentes, vingadores e de ferro.
 
Naquele recanto escuro e silencioso,
olhei em seus olhos cheios de segredos.
Meu coração impacientemente palpitava em meu peito,
em resposta ao anseio de seus olhos.
 
Naquele recanto escuro e silencioso,
sentei-me desgrenhada ao seu lado.
Seus lábios derramaram paixão sobre os meus,
e escapei da dor do meu coração enlouquecido.
 
Sussurrei em seu ouvido a história do amor:
Eu te quero, ó minha vida,
eu te quero, ó abraço que dá vida,
ó meu amante enlouquecido, você.
 
O desejo acendeu uma chama em seus olhos;
o vinho tinto dançava na taça.
Na cama macia, meu corpo
embriagado tremia sobre seu peito.
 
Cometi um pecado cheio de prazer,
ao lado de uma forma trêmula e estupefata.
Ó Deus, quem sabe o que fiz
naquele recanto escuro e silencioso.

domingo, 24 de maio de 2026

BACK HOME

 
No ônibus, voltando da casa de meus filhos – sim, porque minha nora é uma queridíssima filha do coração – lembrei-me da música Back in Bahia, composta e gravada em 1972 pelo Gilberto Gil em sua volta do exílio a que foi submetido. Alguns versos têm tudo a ver com o que estou sentindo agora. E a música é muito boa!
 
Hoje eu me sinto
Como se ter ido fosse necessário para voltar
Tanto mais vivo
De vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá



segunda-feira, 18 de maio de 2026

AVISO AOS NAVEGANTES

 A partir de hoje e até o dia 23 ou 24 não acessarei blogs amigos, não publicarei nem comentarei nada. Só na volta, se tiver assunto, publicarei alguma coisa. Até lá o blog ficará sem novidades, mas respirando sem auxílio de ventilação mecânica. See you later alligator!

https://www.youtube.com/watch?v=1Hb66FH9AzIhttps://www.youtube.com/watch?v=1Hb66FH9AzI


DIALÉTICA – VINÍCIUS DE MORAES

  Mesmo que não haja fundamentação psicanalítica e nem eu tenha (ainda) formação nessa área, criei “para uso pessoal” uma divisão de persona...