segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

CONVERSANDO SOBRE RELIGIÃO, RELIGIOSIDADE, CRENÇA E FÉ

 
A morte da minha mulher teve para mim o efeito de um ciclone, de um tsunami ou, no mínimo, de um capotamento de carro, pois minha vida foi revirada como se fosse uma roupa dentro de uma lavadora. Tudo mudou, nada ficou como antes.
 
Tenho tentado manter a casa minimamente organizada e limpa, mas às vezes a vontade é de ficar deitado em nossa cama – em minha cama, agora tão grande e tão vazia.
 
Conversando com um de nossos filhos, o mais irrequieto, sempre querendo que eu me desfaça de metade dos objetos que minha mulher acumulou ao longo de cinco décadas, comentei que nossa casa é, na verdade, da Eliany, deles, dos nossos filhos, e que eu sou apenas o síndico. Ele riu e disse que é então o zelador, sempre querendo arrumar isso e aquilo.
 
Essas mudanças aconteceram também no campo religioso. Eu já me sentia praticamente ateu quando a doença de minha mulher teve uma progressão acentuada, fazendo-me lembrar desta frase do Millôr Fernandes: “O cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde”.
 
A partir daí, comecei a repensar as crenças que tive, a fé que fui perdendo e a esperar por um milagre que revertesse o quadro triste que começava a se desenhar com nitidez. Infelizmente, o milagre não aconteceu, trocado que foi por um vazio imenso e por uma saudade abissal.
 
Foi nesse cenário que surgiu a vontade de reler todas as postagens indexadas no marcador “Religare” do Blogson Crusoe. Sinceramente falando, gostei bastante de quase tudo o que li – apesar de perceber com clareza a curva descendente da minha fé desde o primeiro texto que falava de religião e religiosidade, de crença e de fé, escrito quando eu ainda nem sabia o significado da palavra “blog”.
 
Pensar em um novo e-book com esses textos foi uma reação quase imediata, estimulado pelas lembranças da minha Amada. Mas aconteceu o inesperado: o livro a quem dediquei tanto carinho foi recusado pela Amazon! 

Depois de seguir todos os passos para sua publicação, recebi um e-mail com este texto: Com base em nossa análise, não aceitaremos seu envio para publicação porque os livros podem resultar em uma experiência decepcionante para o cliente.

O que aconteceu depois fica para a próxima postagem.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

DOIS MESES

 
Hoje se completam dois meses do dia em que te toquei pela última vez. Eu estava em choque, sem pressentir a saudade que sentiria depois, na nossa casa vazia, cheia de lembranças, enfeites, retratos e roupas que você usava para ficar ainda mais linda.
 
É difícil imaginar a dor de saber que nunca mais celebraremos nosso aniversário de casamento, o Dia das Mães, que nunca mais comemoraremos o Dia Internacional da Mulher nem o seu aniversário. O Dia dos Namorados era uma data tão importante quanto o Natal. Como rir e cantar músicas antigas nas festas de família? Você não está mais aqui!
 
Fui criticado por um de nossos filhos por beijar seus lábios frios no caixão. Meu desejo era poder te abraçar pela última vez, só mais uma vez. Mas não pude. Precisei sair de casa para resolver questões ligadas ao seu sepultamento e, quando voltei, você já tinha sido levada embora. Para sempre.

Um de meus filhos me enviou a letra de uma música que está compondo, falando justamente dessas certezas definitivas, como nunca mais poder ser abraçado por você. Não consegui ler até o final, pois minha garganta começou a queimar e meus olhos a lacrimejar.
 
Quando, meu Amor, conseguirei conviver com a sua perda sem chorar? Queria tanto acreditar que nós nos reencontraremos um dia e que, nesse dia, eu possa te abraçar, te beijar e repetir milhares de vezes que eu te amo, que sempre te amei e que sempre te amarei! Será isso possível?

 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

ENFEITIÇADA, INCOMODADA E DESNORTEADA

A publicação de hoje serve para suavizar um pouco a crueza de algumas postagens recentes. Por isso, para não ficar falando abobrinhas, resolvi mudar a forma de apresentação de uma música lindíssima.

- Trata-se de um vídeo musical, um clip não oficial da música Bewitched, Bothered and Bewildered, produzido a partir da compilação de cenas extraídas da série The Crown, mostrando a Princesa Margaret em momentos distintos de sua vida. Na série, foram usadas duas atrizes – uma interpretando a princesa mais jovem e outra, já mais velha.

- Bewitched, Bothered and Bewildered é uma das músicas mais lindas que já ouvi. Foi composta em 1940 e, neste vídeo, é interpretada por Ella Fitzgerald. Como não assisti a nenhum episódio da série, não sei se essa melodia faz parte ou não de sua trilha sonora.

- O lado bom para quem não entende nada de inglês é a existência de legendas no vídeo, o que permite fazer analogias e ter ao menos uma pálida ideia (muito pálida) do comportamento da Princesa Margaret.

- Em algum momento, ela teria feito o seguinte comentário: “Era inevitável: quando há duas irmãs e uma é a rainha, que deve ser a fonte de honra e de tudo que é bom, a outra acaba ficando no foco da mais criativa malícia, a irmã diabólica”.

- A irmã da Rainha Elizabeth teve uma vida social bastante agitada. Bebia muito, fumava muito e se relacionou, ao longo do tempo, com dezenas de homens – entre eles, talvez, Mick Jagger, dos Rolling Stones. Morreu aos 71 anos.

- Agora, só não se deixa levar pela música sofisticada e pelas imagens quem prefere um estilo musical mais rústico, menos elaborado ou, digamos assim, mais “rural” ou “periférico”.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

"QUANDO EU ERA CRIANÇA"

“Quando eu era criança pequena lá em Barbacena” era o bordão do personagem caipira Joselino Barbacena da “Escolinha do Professor Raimundo”, programa comandado pelo genial Chico Anysio. Curiosamente “esse bordão foi reconhecido, por lei, como frase cultural dessa cidade”. Fiz essa descoberta ao pensar em uma frase para começar este texto. Então, vamos lá.
 
Quando eu era criança pequena lá no bairro Carlos Prates não havia (ou não se conhecia) a diversidade de comportamentos e preferências expressa na sigla LGBTQIAPN+. Se você não sabe o que significa essa sopa de letras, vai saber agora:
 
L: Lésbicas; G: Gays; B: Bissexuais; T: Travestis, Transexuais e Transgêneros; Q: Queer (pessoas que não se encaixam na heterocisnormatividade); I: Intersexo (pessoas com características biológicas que não se encaixam na binariedade masculino/feminino); A: Assexuais; P: Pansexuais; N: Não-binários e (ufa!) “+”, que representa a pluralidade de outras identidades de gênero e orientações sexuais. O “ufa!” aí não é sigla, é só frescura.
 
Pois bem, quando eu ainda era criança só imaginava existir a sigla LG, ou seja, “L” para as lésbicas, conhecidas na época como “entendidas”, “machonas” ou sapatões e “G” para os gays – as bichas, bichas loucas, bichinhas ou viados, enfim. De um lado mulheres com comportamento masculinizado e do outro, homens delicadíssimos, voz afetada e gestual ondulante.
 
Sempre tive mais dificuldade para identificar as meninas “L”, o mesmo não acontecendo com os homens “G”, normalmente alegres e sempre insinuantes. Lembro-me de um que ao me ver já adolescente saindo da piscina com a água escorrendo mais concentrada nos pelos já existentes na barriga de tanquinho (eu já tive!), exclamou: “- Caminho da felicidade”.
 
Mas o tema de hoje não são reminiscências da infância e juventude. Tudo surgiu e foi motivado por um comentário feito pelo titular do blog “As Crônicas do Edu” a respeito de recente postagem que fiz com o título “Macho Dzeta” onde, sem me estender muito, confessei ser um heterossexual um pouquinho afeminado – traço de comportamento apreciado por algumas mulheres (não todas). Em outras palavras, um membro da fictícia “ABHA - Associação Brasileira de Heteros Afeminados”.
 
Meu amigo Eduardo, talvez sentindo-se incomodado com minhas “inconfidências”, lascou um comentário que me fez pensar neste texto, ampliando um pouco minha resposta original.
 
Falando sério, eu realmente falo "noossa" e "ui". O "ui" é real e o "noossa" é só de gozação, mas é difícil definir o limite entre um homem "sensível" e um afeminado, pois essa "fronteira" é elástica, fluida, da mesma forma que é difícil definir o que é um "macho". Cara, eu odeio esta palavra, tanto quanto "fêmea"! São duas palavras redutoras que servem apenas para coisificar alguém que tem muito mais para mostrar que apenas um comportamento estereotipado.
 
A realidade, aliás, vive desmentindo esses rótulos. Há gays com comportamento muito mais “macho”, dentro do imaginário tradicional, do que muitos heteros sensíveis ou vistos como afeminados. E está tudo bem. Porque orientação sexual não é manual de conduta, e masculinidade não vem com certificado de autenticidade.
 
Posso estar enganado, mas os homens que espancam ou matam suas companheiras estão abrigados no nicho "macho das antigas", usando um termo que acho engraçado. Obviamente – e ainda bem – são minoria. Mas fruto direto de uma ideia ultrapassada e tóxica do que significa “ser homem”.
 
No fim das contas, talvez o problema possa não ser o “ui”, o “noossa”, a sensibilidade ou a firmeza. Os costumes mudam, as pessoas podem também mudar, suavizando arestas antigas e revendo costumes enraizados, aceitando com mais naturalidade a multiplicidade de comportamentos e escolhas. Que acham disso? (cartas para a redação) 


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

UM MUNICÍPIO INVISÍVEL


Já manifestei aqui no blog minha preocupação com os miseráveis que dormem debaixo das marquises de prédios, tendo muitas vezes apenas um papelão como defesa contra a friagem do solo. Para mim, pouco importa o que levou esses infelizes a chegar a esse nível de absoluta miséria e desamparo. Só sei que fico penalizado por cada um que vejo deitado nas calçadas. E esse número tem aumentado.

Todos os dias, pela dificuldade que tenho para andar a pé (artrose nos joelhos) vou de carro para comprar o pão nosso de cada dia. E saio bem cedo de casa, por volta das seis da manhã. Na volta, sou obrigado a passar pela praça principal do bairro, bem em frente ao icônico Bar do Bolão. Hoje, debaixo da marquise desse bar, quatro pessoas estavam deitadas, ainda dormindo. E é isso que me deixa desolado. São tantos os que se (des)abrigam nas calçadas e praças que, sinceramente, não consigo pensar que alguém tenha uma solução real para o problema. Por isso, resolvi apelar para a ironia.
 
Minas Gerais tem 853 municípios. Em Belo Horizonte, (sobre)vivem 15.474 pessoas em situação de rua – um contingente maior do que a população de 618 municípios do estado.
 
Diante dessa situação absurda, talvez seja uma boa criar o 854º município  o da população em situação de rua. Com direito a prefeito e verbas federais! Ou não?

domingo, 1 de fevereiro de 2026

GASTANDO O LATIM – MILLÔR FERNANDES

 
O Millôr era muito foda!
 
Bem, fiquei calado mais ou menos duzentos anos, na esperança de que algum latinista, algum erudito, aparecesse para corrigir Inácio de Alvarenga. Como todo mundo sabe, está na História, está nos “Autos” da Inconfidência, reuniram-se, em casa de Tomás Gonzaga, além do próprio, o dr. Cláudio Manuel da Costa, Inácio de Alvarenga e o padre Corrêa de Toledo (1).
 
Nessa reunião, o grupo discutiu a já muito discutida questão da Bandeira da Nova República. Cláudio Manuel da Costa, que já tinha feito uma proposta de bandeira, insistiu nela: a figura de um gênio quebrando seus grilhões com a inscrição: “Libertas Aequo Spiritus” (2). Alvarenga lembrou então que essa proposta já tinha sido feita numa reunião em casa de Francisco de Paula, mas que nem mudando a legenda para Aut Libertas Aut Nihil o pessoal tinha topado. Naquela mesma reunião o alferes Tiradentes tinha feito outra proposta: uma bandeira com um triângulo representando a Santíssima Trindade. Ele próprio, Alvarenga, sugerira que se juntasse ao triângulo o verso de Virgílio: Libertas Quae Sera Tamen e a proposta tinha sido aprovada. Nesta reunião aconteceu o mesmo — todos acharam a ideia muito bonita. E a bandeira da insurreição ficou sendo, definitivamente, essa.
 
Pois desculpem, amigos, a ideia não é boa e o latim é péssimo. Eu, que sempre achei a frase Liberdade Ainda que Tardia uma proposta completamente furada (3), resolvi, um dia, com minha total descrença na História e nos Historiadores, ir diretamente à fonte da frase: Virgílio. E, como não podia deixar de acontecer, a frase estava errada. Inácio de Alvarenga citou de memória, ninguém foi à fonte (nem na hora, nem até hoje, duzentos anos depois) e o erro se perpetuou.
 
A frase de Virgílio é Libertas: quae sera. Essa frase, sim, dá em português Liberdade, ainda que tardia. Como está na Bandeira (Libertas quae sera tamen) é um saudável bestialógico: Liberdade ainda que tardia todavia.
 
Bem, mas como não sou latinista (4), é melhor reproduzir o próprio original (5) pro pessoal aí não começar com discussões inúteis (6). Como sabem os que já leram as “Éclogas” (7) de Publius Vergilius Maro, mais conhecido como Virgílio, logo no início da primeira écloga, dois personagens se encontram, Melibaeus e Tityrus, este indo a Roma comprar sua liberdade. O diálogo:
 
Melibaeus — Et quae fuit tibi tanta causa vivendi Romam? (E qual foi, para ti, a causa tão premente de vir a Roma?)
Tityrus — Libertas: quae sera, tamen respexit inertem; postquam candidior barbacadebat tondenti; etc. (Liberdade: embora tardia, todavia (tamen) ainda me alcança em minha inatividade, quando a barba já me cai embranquecida.)
 
Como veem os leitores, o tamen nada tem com a primeira parte da frase, escolhida por Alvarenga. O que me permite repetir, mais uma vez: “A História é uma istória!” (8)
 
Notas:
1) Este repórter também estava presente mas, devido à sua extraordinária discrição, a História não reparou nele.
2) “Deus do céu, que horror!” murmurou este repórter, do seu carro.
3) Qualquer grupo revolucionário quando propõe liberdade é pra já, pô, e não ainda que tardia. Você pode aceitar uma liberdade ainda que tardia, como o personagem de Virgílio, mas jamais propô-la como bandeira de luta. Liberdade ainda que tardia já será, assim, uma antecipação de Minas está onde sempre esteve?
4) Aliás, não sou nada.
5) Cito da excelente Interlinear Translation, de Hart & Osborn, David McKay Company, Inc. Nova York.
6) Existem outras?
7) Ao todo 37 pessoas, no Brasil inteiro, sendo que 19 em São Luís do Maranhão.
8) Relutei muito tempo em aceitar a palavra estória como conto, diferenciada de História, narrativa de fatos importantes da vida da humanidade. Essa palavra foi criada pelo Diário Carioca, no tempo em que este era dirigido pelo jornalista Pompeu de Sousa, agora em Brasília. Acho, aliás não tenho certeza, que foi o próprio Pompeu de Sousa quem inventou a palavra. Todavia não vejo por que, se a palavra é totalmente inventada, não se escreve istória, como se pronuncia. Se, porém, a palavra pretende, ainda, alguma etimologia, esta vem, naturalmente, de História, e, portanto, também nesse caso, dá istória.
 
                              Veja, 17 de janeiro de 1979

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

NÃO QUE EU QUEIRA ME GAMBÁ, MAS...

 
Não que eu queira me gambá (repetir no texto o título da postagem aumenta um pouquinho o publicado, mas torna a piada - já ruim - ainda pior), mas descobri que sou NOLT. E não precisa ficar com essa cara de quem não está entendendo nada, pois já vou explicar (transcrever, na verdade):

NOLT, sigla para New Older Living Trend (Nova Tendência de Vida Mais Velha), define pessoas com 60 anos ou mais que rejeitam rótulos tradicionais de envelhecimento, como “idoso”, buscando um estilo de vida ativo, produtivo e conectado. O movimento foca em protagonismo, aprendizado contínuo, cuidados com a saúde mental e física e tecnologia, desafiando o etarismo.

Quem diria, não é mesmo? Jotabê, o NOLT do Blogson Crusoe, cuíca da blogosfera!

O único defeito dessa classificação reside no fato de que, física e socialmente falando, sou o anti-NOLT. Tirando a saúde mental, ainda razoavelmente boa, o resto deixa muito a desejar. Meus joelhos têm cantado tanto que estou até tentando imaginar um nome para essa dupla, algo como Esaó e Jacu, Galeto e Sobrecoxa, Granizo e Garnizé, algo nesse estilo.

Para piorar, não estou estudando nada, não tenho grana para viajar nem penso em nova carreira — seja ela uma meia maratona ou uma fileira de brilho.

Relacionamentos, por exemplo: estive fazendo mentalmente uma lista de possíveis parceiras para ensaboar debaixo do chuveiro ou dormir de conchinha. Fazer “nhá nhá” então, como dizia um antigo amigo, está fora de cogitação. E o resultado foi uma lástima.

E nem digo da dificuldade para chamar o gênio da lâmpada. O problema maior é o fato de as opções serem extremamente limitadas: seja pela aparência de sítio arqueológico de algumas, seja pelo fato de outras serem casadas, seja porque as demais são feias bagarai. E quando não são, já têm "dono" ou outras predileções. Garotas de programa, nem pensar. Sugar babies, também não. Porque pior do que o cara se achar a última cereja do bolo é ser visto como tiozão do churrasco — ou melhor, vôzão do churrasco.

Mesmo assim, apesar de tudo - porque não sinto culpa de nada -, tratem-me agora como NOLT. Xô, velhice!!!!

CONVERSANDO SOBRE RELIGIÃO, RELIGIOSIDADE, CRENÇA E FÉ

  A morte da minha mulher teve para mim o efeito de um ciclone, de um tsunami ou, no mínimo, de um capotamento de carro, pois minha vida foi...