domingo, 13 de setembro de 2026

O MAL E O SOFRIMENTO – LEANDRO GOMES DE BARROS


Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?
 
Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?
 
Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

A RAPOSA E AS UVAS – ESOPO

Entenda quem quiser...
 

Uma raposa faminta viu, penduradas numa videira, algumas belas uvas maduras. Desejando comê-las, aproximou-se e começou a saltar para alcançá-las. Saltou muitas vezes, mas não conseguiu apanhar nenhuma.

Por fim, afastou-se, dizendo:

— Não importa. Estão verdes mesmo. 

Moral: É fácil desprezar aquilo que não se consegue alcançar.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O VELHO, O DESEJO E A PIZZA

 
Recentemente, em um velório, contaram-me uma historinha que bem poderia servir de inspiração para o "anjo pornográfico" Nelson Rodrigues. A cena é esta: algum tempo depois de ter perdido a esposa com quem viveu centenas de anos, o homem idoso sentiu necessidade de ter contato novamente com um corpo feminino. "Sacudidão" como ele se auto-avaliava, fez o movimento nelsonrodriguiano em seu tabuleiro: declarou para a cunhada – uma senhora quase tão idosa quanto ele, obesa mórbida e já atropelada pelo tempo implacável – seu desejo de que ela fosse morar com ele.  Não saberia dizer se ela riu na sua cara, mas riu ao contar para alguém a tentativa de sedução de que fora "vítima".
 
Ao saber dessa história, pensei que a atração física pela cunhada vinha de longe, silenciosa, gulosa, talvez do tempo em que ela era uma jovem mais atraente que a idosa maltratada pelo Tempo em que se transformou. E me lembrei do título de um livro publicado por um dos membros mais ilustres do "Clube da Esquina": "Os sonhos não envelhecem”
 
Sem paciência para escrever o que me pareceu uma boa história para o Blogson, municiei o ChatGPT com essas informações, acrescidas de meus delírios pessoais. E saiu esta crônica, escrita a quatro "mãos", pois eu tentei torná-la ainda mais doentia. E falta um detalhe: todos já morreram.
 
 
A CUNHADA
 
Ela adorava pizza. Era a única coisa de que ele tinha certeza. O resto era conjectura.
 
Havia anos ele alimentava por ela um desejo que, de tão antigo, já adquirira a dignidade de uma doença crônica. Ela sabia. Ele sabia que ela sabia. E, entre os dois, existia aquele silêncio que é muito mais eloquente do que qualquer confissão.
 
Um dia, ele telefonou: 
- Quer vir comer uma pizza?
 
Ela aceitou. Ele desligou e ficou alguns segundos olhando para o telefone. Depois, comprou a melhor pizza que encontrou. Comprou também cerveja. Três latões, quantidade razoável para uma noite inocente.
 
Quando ela chegou, trouxe consigo aquela intimidade que sempre tivera com ele. Conversaram, riram, comeram. A segunda cerveja desapareceu rapidamente. A terceira foi aberta quase como quem assina um tratado.
 
Em determinado momento, ele disse: 
- Se você quiser, pode dormir aqui. Está tarde.
- E você?
- Eu durmo em outro quarto.
 
Ela riu. 
- Com a porta trancada?
- A sua, naturalmente.
- Você continua impossível.
 
Ele sorriu.
- Nunca prometi melhorar!
 
Mais tarde, ela entrou no quarto. Ele entrou no outro. Fechou a porta. Deitou-se e ficou olhando para o teto. Do outro lado do corredor, nenhuma porta se abriu. Nenhum passo, nenhuma voz, nada.
 
Passaram-se dez minutos. Vinte. Meia hora. Então ele ouviu um barulho – a geladeira. Levantou-se, foi até a cozinha e encontrou a cunhada diante dela, procurando água.
- Não consegue dormir?
- Não.
 
Ele também abre a geladeira. Ficam os dois em silêncio, iluminados pela luz branca do aparelho. Ela pergunta:
- Você ainda pensa naquela bobagem?
- É claro! Como diz a música, "os sonhos não envelhecem"!
 
Ela fecha a geladeira.
- Eu já te disse que isso nunca vai acontecer.
- Pois é...
 
Ela caminhou de volta para o quarto. Na porta, virou-se:
- Boa noite.
- Boa noite!
 
Ela fechou a porta. Ele voltou para a cama, com a resignação dos homens que passam a vida inteira confundindo esperança com estratégia:
- Água mole em pedra dura...
 
Depois de alguns minutos, acrescentou:
- Esta pedra, pelo visto, é granito!
E com um sorriso irônico no rosto, completou:
- Mas um dia eu consigo furar essa pedra!

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

DE ONDE EU VIM?

 

Desde quando fiquei sabendo que o exame de DNA poderia trazer informações sobre a minha ancestralidade, eu tive vontade de fazer. Mas o dia a dia tem a mania de ser avaro com frescuras desse tipo, melhor gastar o dinheiro com coisas úteis – e assim a vida vai passando, sabotando, enterrando pequenos prazeres. 

Mas uma mudança radical em minha vida fez com que eu tentasse priorizar a minha felicidade, o meu bem-estar. Comecei a fazer aulas de dança de salão, resolvi fazer  pilates e aprender a dançar forró.

Além disso, decidi ter aulas de teclado, melhorar minha performance no violão, aprender inglês, começar a aplicar a caneta emagrecedora e viajar para a Suiça. 

Com exceção da viagem e das aulas, o resto já está em andamento. E toda essa sanha para combater a mais absurda solidão que já senti fez também surgir o desejo de saber de onde eu vim. Comprei também esse exame! E o resultado saiu ontem. 

Só fiquei decepcionando com uma coisa: eu sempre quis ter um pezinho na África, mas não tenho. Olha que interessante o resultado: 

Jose, seu DNA indica que 93% da sua ancestralidade é proveniente da Europa.

Europa – 93%, assim distribuídos:
Ibéria – 50%
Itália – 13%
Europa Ocidental – 6% (Alemanha, França e Países Baixos e Ilhas Britânicas)
País Basco – 5%
Bálcãs – 5% (Bulgária e Macedônia do Norte, Grécia, Romênia e Moldávia, Sérvia e Montenegro, Croácia e Bósnia-Herzegovina)
Judeus Sefaradim – 5%
Judeus Ashkenazim – 4%
Sardenha < 3%
Leste Europeu < 3%
Lapônia e Volga-Ural < 2%

Oriente Médio e Magrebe – 5%
 
Américas < 3%

Na próxima encadernação, quero nascer italiano. Afinal, já tenho 13% de sangue romano correndo em minhas veias! 

Meno, JBrancaleone, meno!

P.S. O ìncrível Exército de Brancaleone é um dos filmes mais grotescos e engraçados que já vi

sábado, 5 de setembro de 2026

BANGUELA

 
Não quero mudar o passado,
Desejo só inconsequente.
Quero mudar o presente.
Presente que foi herdado
De um passado que devia ser
Para sempre, sempre olvidado.
 
Diz um velho ditado que
A cavalo dado não se olham os dentes.
Não sei avaliar essa frase
Só sei que a desprezo e descarto,
Pois cansei de cavalo magro, doente
E, pra piorar, desdentado.
 
Quero um novo presente,
com fita vermelha amarrado,
com metal dourado enfeitado,
que tenha meu tamanho certinho
e que eu possa ser nele enterrado.

OH ME! OH LIFE! – WALT WHITMAN

 

Oh, eu! Oh, vida! Das perguntas que voltam, sempre as mesmas,

Dos trens intermináveis dos descrentes, das cidades povoadas de tolos,

De mim mesmo, a me censurar sem trégua

(pois quem mais tolo que eu, quem mais descrente?),

Dos olhos que em vão suplicam pela luz, das coisas mesquinhas,

Da luta que incessantemente recomeça,

Dos pobres frutos de tudo, das multidões que se arrastam,

Sórdidas, laboriosas, ao meu redor,

Dos anos vazios e inúteis que os outros vivem,

E nos quais também eu me enredo,

A pergunta, oh, eu! — tão triste, sempre retornando:

Que há de bom em meio a tudo isso,

Oh, eu, oh, vida?

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

INGRESSO PRIVILEGIADO

 

Cansei de ver, ler ou ouvir alguém perguntando qual o sentido da vida. Eu mesmo já fiz essa pergunta, esperando ouvir uma resposta soprada em meu ouvido durante o sono. Saco cheio disso! 

Agora, o que eu quero mesmo saber é qual o sentido da morte. Não a explicação biológica, mas o sentido mais profundo da morte. Alívio, descanso, libertação, nova viagem? Breve regresso? Todas as possibilidades para esse show. E eu quero um ingresso privilegiado.

O MAL E O SOFRIMENTO – LEANDRO GOMES DE BARROS

Se eu conversasse com Deus Iria lhe perguntar: Por que é que sofremos tanto Quando viemos pra cá? Que dívida é essa Que a gente tem que morr...