domingo, 1 de março de 2026

INSÔNIA

 O homem acorda, olha o relógio e reclama:
- Merda, são três horas ainda!
 
O sono inquieto e curto provocado pelas lembranças de um antigo amor. Vira de lado, cobre, descobre, ajeita o travesseiro e nada de o sono voltar. Levanta-se, liga o computador e começa a digitar.
 
Eu estava pensando que tive a sorte de ter tido dois amores definitivos e definidores na minha vida. Creio que deve ser isso, pois aquela paixão que faz o coração palpitar na iminência do próximo encontro passa com o tempo, mas o amor parece ficar. E não me pergunte como consegui isso, pois eu nunca, nunca mesmo consegui deixar completamente de pensar em você.
 
Estava quieto no meu canto e de repente te via nos lugares mais improváveis: no jardim de infância onde nossos filhos estudavam (você estava absurdamente linda de blusa laranja sem manga e calça preta); grávida na missa de sétimo dia da irmã de sua colega; atravessando o viaduto em sentido contrário ao meu; descendo a escada rolante das Lojas Americanas, coincidências que sempre assopravam as cinzas sobre brasas que nunca se extinguiram.
 
Essas situações sempre me fizeram desejar estar com você, mas não necessariamente para transar, mais para namorar, beijar na boca, coisas assim. Sentimentos estranhos, difíceis de administrar.
 
Outro dia me veio à cabeça um verso do Márcio Borges (irmão do Lô), na canção Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor: “quem sabe isso quer dizer amor, estrada de fazer o sonho acontecer”. Fiquei pensando se nossa história não é exatamente isso – uma estrada que permaneceu ali, silenciosa, à espera de que descubramos se ainda vale a pena ser percorrida.
 
Não sei. Talvez eu esteja apenas compartilhando um pensamento que me visitou. Mas achei que você deveria saber. A vida no campo do “Se”.
 
Relê o texto, passa o corretor de ortografia, lê mais uma vez e se dá por satisfeito. Salva o arquivo, pensando se o enviará para ela, mas agora só quer dormir. E dorme.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

EU ME AMO!

 
 
Depois de perceber as insuspeitadas qualidades do GPT para criar desenhos e imagens reais, resolvi pedir à IA para gerar uma imagem hiper-realista mostrando um casal se beijando na boca. Mas não um casal qualquer! Consegui uma foto recente de uma antiga namorada (linda!) e utilizei minha imagem mais recente, onde ostento uma bela (“belíssima”) barba branca. O danado do ChatGPT assumiu a missão e criou uma imagem tão legal que encheu de água minha boca (na ainda impossibilidade dela ser preenchida com a língua da gata).
 
Infelizmente, não posso – por razões óbvias – publicar essa imagem. Por isso, lembrando-me da música do Ultraje a Rigor que diz “eu me amo, não posso mais viver sem mim”, resolvi pedir à IA para gerar uma imagem em que eu beijo a mim mesmo. Sinceramente, por ser hetero, senti-me bastante desconfortável ao me ver beijando outro homem na boca – mesmo que esse homem seja eu mesmo. A vantagem foi poder fazer mais um trocadilho jotabélico, pois o título da postagem poderia ser “eu me homo”. Mas não será, pois pouca vergonha e safadeza têm limite. Olhaí.



quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

NIHIL OBSTAT

Acabei agora de ler um livro que me deram e preciso dizer: que leitura penosa! Nem citarei a inspiração do autor; limito-me a registrar meu desconforto por trombar, várias vezes durante a leitura, com todo tipo de agressão à língua portuguesa: troca de “há” por “a” e vice-versa (equívoco que meu professor ChatGPT classificou como “erro gramatical de ortografia”), problemas de concordância nominal (segundo meu professor, uma mulher dizendo “muito obrigado” comete erro de concordância de gênero, pois “obrigado/obrigada” é particípio usado como adjetivo e concorda com quem agradece – não com quem recebe o agradecimento).
 
Mas a coisa não para por aí: fui atropelado por inacreditáveis erros de grafia, como “bordéu” em vez de “bordel” (erro ortográfico por transcrição fonética, segundo a IA), além de falhas de concordância verbal e pronominal (“assim o credes, assim te enganas”), grafia equivocada da expressão latina vade retro, substituída por “vá de retro”, etc., etc.
 
Para encurtar a conversa, faltou ao autor a humildade e o bom senso de chamar alguém para fazer o copidesque do texto ou – ao menos – passar um corretor ortográfico nos originais.
 
Mas os problemas não se resumem às agressões à norma culta da “última flor do Lácio”: houve também abuso de clichês, pieguice excessiva, enredos simplórios e uso de palavras “eruditas” fora de contexto. Na prática, poderia dizer que não fui eu que terminei a leitura; foi a leitura do livro que quase terminou comigo.
 
Dizendo essas coisas, até parece que escrevo bem, o que não é verdade. Escrevo de forma espontânea e coloquial qualquer besteira que surge em minha mente. Depois, entretanto, começo a burilar o texto: passo o corretor, releio várias vezes, mudo a ordem dos parágrafos e das frases e até peço ajuda ao ChatGPT para tentar descobrir alguma “batata” gramatical. Mas quase sempre refugo as alterações que essa IA mala sem alça me propõe. E o motivo é simples: se eu aceitar a versão da IA, o texto deixa de ser meu – e eu, afinal, ainda tenho algumas moléculas de vergonha na cara.
 
Para mim, mesmo buscando manter a espontaneidade e o tom coloquial (excelentes para esconder minha ignorância), é um desrespeito ao leitor publicar um texto descuidado, com problemas de concordância e gramática. Se o texto pede uma palavra fora do meu “círculo de amizades”, vou ao dicionário, consulto a mãe dos muito burros sobre como usar as bonitezas e só então publico. E, às vezes, ainda erro!
 
Resumindo: tudo o que já escrevi e publiquei no blog pode ser tosco, grosseiro e vulgar, mas é uma tosqueira com selo de qualidade do corretor gramatical do velho e bom Word – uma versão moderna e linguística do imprimatur ou do nihil obstat de antanho.

 

 

 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

PRA VOCÊ – SILVIO CESAR

 

Eu teria talvez uns quinze ou dezesseis anos quando ouvi essa música pela primeira vez. Meu coração roqueiro estava sempre pronto a se apaixonar por quem me olhasse por mais de dez segundos. E a letra dessa música traduzia tudo o que meu coração vazio e carente sentia. Acho que sempre fui um roqueiro romântico.
 
Tentei “tirar” no violão sua harmonia, só para poder cantar para alguma eleita – ou para quem me elegesse como seu amor. Não consegui descobrir acordes aceitáveis nem fui eleito por ninguém, mas nunca deixei de gostar de sua letra e melodia suaves.
 
Hoje, “eu não sei bem por que” ela adquiriu uma intensidade absurda, fazendo meus olhos lacrimejarem de saudade da minha Amada. E é esta música que resolvi compartilhar com vocês, vocês que ainda podem abraçar seus amores.


 
PRA VOCÊ
Pra você eu guardei
Um amor infinito
Pra você procurei
O lugar mais bonito
 
Pra você eu sonhei
O meu sonho de paz
Pra você me guardei demais
Demais
 
Se você não voltar
O que faço da vida?
Não sei mais procurar
A alegria perdida
 
Eu não sei bem por quê
Fui gostar tanto assim
Ah, se eu fosse você
Eu voltava pra mim
Voltava sim
 
Ah, se eu fosse você
Eu voltava pra mim
 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

"ERROS DE GRAVAÇÃO"

Não estou acostumado com muitos comentários sobre minhas postagens. Por isso, resolvi ampliar o post "Uma HQ infantil", mostrando algumas das maluquices criadas pela IA. Sente a piração crescente do ChatGPT:
 
Texto non sense:


Cabritito já vestido para o casório durante a briga com os bandidos:

Balão atribuído ao personagem errado





UMA HQ INFANTIL

 
Este texto introdutório poderia ser dispensável, mas obedece ao meu desejo de sempre registrar a memória das pequenas coisas. 

Morávamos na casa de minha avó materna, junto com oito tios e tias, além de minha avó e meu avô. Éramos duas crianças e doze adultos. Naquela época, ainda não havia televisão em Belo Horizonte. Depois da "janta", ficávamos perambulando por ali, importunando um pouco, enquanto os adultos conversavam, até que nossa mãe nos mandava dormir. Como não tínhamos alternativa, obedecíamos.
 
Eu, meu irmão e nossos pais dormíamos no mesmo quarto, em um barracão (edícula) nos fundos da casa. A cama de casal ficava entre a minha e a de meu irmão. Para nos manter deitados – ou por qualquer outro motivo (saco cheio dos cunhados, por exemplo) – nosso pai nos contava histórias. Falava de sua infância em São José dos Oratórios e dos “doidos mansos” que perambulavam por lá. Entre eles, havia uma mulher meio desaforada, talvez já um pouco idosa, conhecida como “Sá-Maria-me-Atende”, que às vezes ia à casa de minha avó pedir esmola ou comida, se não me engano.
 
Por fim, contou sobre uma carrocinha ou charretinha que tivera, puxada por um bode branco ao qual dera o nome de Cabritito. Para nós, meninos criados na cidade grande e sem quase nenhuma liberdade para brincar, aquelas histórias eram magníficas, melhores que qualquer conto das Mil e Uma Noites ou algo parecido. Assim, contrariando seu provável desejo de que adormecêssemos logo, sempre pedíamos mais. Até que as lembranças se esgotaram: ele já nos havia contado tudo o que podia.
 
Foi então que teve início a fase ficcional. Passou a inventar histórias no estilo bangue-bangue ou de filmes de caratê, lembrando os filmes mudos de Carlitos, sempre com algumas pancadas, chutes na bunda e bandidos sendo arremessados longe depois de girarem sobre as próprias cabeças, seguros – pela agora heroína Sá-Maria-me-Atende – apenas por uma perna ou um braço.
 
A partir daí, o delírio tomou conta das histórias (e ele nem bebia!). Logo, o Cabritito casou-se com Sá-Maria-me-Atende. E o mais curioso é que ela se tornava, ali, a primeira super-heroína brasileira! Uma super-heroína desconhecida, caipira, meio louca, casada com um bode e que, além de força física descomunal, voava! E somente eu e meu irmão sabíamos de sua existência.
 
Pois é, a primeira super-heroína brasileira voava graças a um artifício bastante peculiar – batata-doce. Na iminência de capturar algum criminoso em fuga (que inevitavelmente seria lançado longe após orbitar ao seu redor, preso por um braço ou perna), a heroína comia batata-doce e logo começava a soltar flatos, puns, funfas ou peidos – conforme pedirem a pudicícia e a finesse do leitor. Primeiro, um “po, po, po” contido; depois, ganhava impulso (“Pruuum!”) e, “Fium!”, saía voando a jato. Era quase impossível dormir depois de tantas emoções!
 
Contei essas histórias às minhas netas, que morreram de rir. Então prometi fazer uma historinha em quadrinhos sobre isso. Sem inspiração para criar o roteiro e sem o talento para desenho do blogueiro Fabiano Caldeira, recorri ao ChatGPT para cumprir a missão.
 
E a danada da IA respondeu assim:
Que delícia de memória! Dá para transformar isso numa HQ maravilhosa, misturando nostalgia, humor escatológico infantil e um toque poético de ‘super-heroína rural secreta’. Vou sugerir duas páginas, seis quadros cada, já com descrição visual, falas e ritmo de humor.
 
As descrições e falas sugeridas ficaram bem interessantes. Por isso, corrigi apenas algumas coisas, descartei outras e pedi que a IA gerasse as imagens. Aí o bicho pegou: não houve meio de o ChatGPT produzir imagens sem erros. Isso consumia o limite ou  “verba” de geração, obrigando-me a esperar até doze horas para tentar novamente, após receber a seguinte mensagem:
 
“You've hit the free plan limit for image generation requests. You can create more images when the limit resets in 9 hours and 59 minutes.”
 
A brincadeira para agradar minhas netas começou a ficar estressante, pois algumas imagens simplesmente nunca saíam como eu reiteradas vezes solicitava. Surgiam coisas absurdas: a heroína com três braços, um bandido com corpo de bode e o bode com cabeça de bandido etc. Essa cena foi gerada nove vezes, sempre com resultados estapafúrdios, até que desisti de utilizá-la.
 
Para chegar a um resultado minimamente aceitável que pudesse mostrar às netinhas, abri mão de oito ou mais quadros, que acrescentariam mais de uma página à história e que poderiam ter deixado a HQ com um aspecto mais completo.
 
Além disso, precisei retalhar e remontar toda a narrativa com os quadros remanescentes, alguns inexplicavelmente em padrão diferente dos demais. Foi uma luta!
 
No fim das contas, o resultado – embora menor do que poderia ter sido – ficou “bonzinho”. Apenas para as netinhas, obviamente. E sempre lembrando que tudo foi feito pelo ChatGPT, tendo eu apenas intervindo (muitas vezes sem sucesso) para melhorar ou corrigir o que essa IA tresloucada e geniosa produziu. Se eu fosse o talentoso Fabiano Caldeira, certamente teria saído uma historinha melhor e com traços mais homogêneos, o que não aconteceu. Enfim…
 
A seguir, a HQ frankenstein (espero que pelo menos as netinhas gostem):







sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

MEU MOMENTO ERA ANTES

 
Estou preso no passado
Logo eu que criticava todos
Que diziam frases tolas como
No meu tempo é que era bom
 
E eu sempre pensava que meu tempo é hoje
Será sempre hoje
Não importando se o passado foi bom ou ruim

Mas as certezas absolutas talvez existam
Para que as percamos, para que as modifiquemos.
 
Hoje, uma casa vazia, uma cama vazia e uma vida vazia
Me dizem que meu lugar era lá
Que meu momento era antes
Que meu desejo era ontem

E os elos dessa corrente
São difíceis de quebrar.
 
Hoje eu me sinto como alguém
Que desceu em Marte e descobre
Que não tem como voltar
Que nunca mais
Abraçará a quem amou e ama tanto
 
Que naquele planeta estéril só terá lembranças
Enquanto aguarda que o fim
Não demore a chegar.

INSÔNIA

  O homem acorda, olha o relógio e reclama: - Merda, são três horas ainda!   O sono inquieto e curto provocado pelas lembranças de um antigo...