“Quando
eu era criança pequena lá em Barbacena” era o bordão do personagem
caipira Joselino Barbacena da “Escolinha do Professor Raimundo”,
programa comandado pelo genial Chico Anysio. Curiosamente “esse bordão foi reconhecido, por lei,
como frase cultural dessa cidade”. Fiz essa descoberta ao pensar em uma
frase para começar este texto. Então, vamos lá.
Quando eu era criança pequena lá no
bairro Carlos Prates não havia (ou não se conhecia) a diversidade de
comportamentos e preferências expressa na sigla LGBTQIAPN+. Se você não
sabe o que significa essa sopa de letras, vai saber agora:
L: Lésbicas;
G: Gays; B: Bissexuais; T: Travestis, Transexuais e
Transgêneros; Q: Queer (pessoas que não se encaixam na
heterocisnormatividade); I: Intersexo (pessoas com características
biológicas que não se encaixam na binariedade masculino/feminino);
A: Assexuais; P: Pansexuais; N: Não-binários e (ufa!) “+”, que representa a pluralidade de
outras identidades de gênero e orientações sexuais. O “ufa!” aí não é
sigla, é só frescura.
Pois bem, quando eu ainda era criança só
imaginava existir a sigla LG, ou seja, “L” para as lésbicas, conhecidas na
época como “entendidas”, “machonas” ou sapatões e “G” para os gays – as bichas,
bichas loucas, bichinhas ou viados, enfim. De um lado mulheres com
comportamento masculinizado e do outro, homens delicadíssimos, voz afetada e
gestual ondulante.
Sempre tive mais dificuldade para identificar
as meninas “L”, o mesmo não acontecendo com os homens “G”, normalmente alegres
e sempre insinuantes. Lembro-me de um que ao me ver já adolescente saindo da
piscina com a água escorrendo mais concentrada nos pelos já existentes na
barriga de tanquinho (eu já tive!), exclamou: “- Caminho da felicidade”.
Mas o tema de hoje não são reminiscências da
infância e juventude. Tudo surgiu e foi motivado por um comentário feito pelo
titular do blog “As Crônicas do Edu” a
respeito de recente postagem que fiz com o título “Macho Dzeta” onde, sem me estender muito, confessei ser um
heterossexual um pouquinho afeminado – traço de comportamento apreciado por
algumas mulheres (não todas). Em outras palavras, um membro da fictícia “ABHA - Associação Brasileira de Heteros
Afeminados”.
Meu amigo Eduardo, talvez sentindo-se
incomodado com minhas “inconfidências”, lascou um comentário que me fez pensar
neste texto, ampliando um pouco minha resposta original.
Falando sério, eu realmente falo
"noossa" e "ui". O "ui" é real e o
"noossa" é só de gozação, mas é difícil definir o limite entre um
homem "sensível" e um afeminado, pois essa "fronteira" é
elástica, fluida, da mesma forma que é difícil definir o que é um
"macho". Cara, eu odeio esta palavra, tanto quanto
"fêmea"! São duas palavras redutoras que servem apenas para
coisificar alguém que tem muito mais para mostrar que apenas um comportamento
estereotipado.
A realidade, aliás, vive desmentindo esses
rótulos. Há gays com comportamento muito mais “macho”, dentro do imaginário
tradicional, do que muitos heteros sensíveis ou vistos como afeminados. E está
tudo bem. Porque orientação sexual não é manual de conduta, e masculinidade não
vem com certificado de autenticidade.
Posso estar enganado, mas os homens que
espancam ou matam suas companheiras estão abrigados no nicho "macho das antigas", usando um
termo que acho engraçado. Obviamente – e ainda bem – são minoria. Mas fruto
direto de uma ideia ultrapassada e tóxica do que significa “ser homem”.
No fim das contas, talvez o problema possa não ser o “ui”, o “noossa”, a sensibilidade ou a firmeza. Os costumes mudam,
as pessoas podem também mudar, suavizando arestas antigas e revendo costumes enraizados, aceitando com mais
naturalidade a multiplicidade de comportamentos e escolhas. Que acham disso?
(cartas para a redação)