Você já tentou ler algum livro e se assustou com a aridez do texto ou com o vocabulário muito sofisticado ou erudito? Já tive algumas experiências com isso, mas a culpa geralmente não era minha. E os livros não eram literatura mesmo, eram mais um amontoado de dados analisados e comentados pelo autor. Mas há livros que são para mim como o caviar do Zeca Pagodinho: nunca vi, nunca li, só ouço falar. E o motivo é simples: como nunca compro livros (sou mão de vaca), só leio os que ganho. Para ser sincero, gostaria muito de ganhar e ler o “Grande Sertão: Veredas”, do Guimarães Rosa, e o mais badalado de todos, que é o “Ulysses”, de James Joyce.
Agora, pense comigo (“sigam-me os bons”): se um Zé Mané anônimo resolvesse exibir seu vocabulário super erudito e pernóstico em um documento a ser divulgado na empresa onde trabalhei, qual seria a reação previsível? No meu caso, se fosse seu chefe, antes de devolver os hieróglifos para o autor traduzir, teria que me segurar para não mandar o cara à puta que pariu. Porque ninguém precisa escrever em linguagem periférica, das quebradas, para ser entendido. Basta escrever com clareza em linguagem coloquial ou levemente formal, e tudo bem.
Mas vamos imaginar que a nota de uma redação faça parte da classificação geral de um vestibular. E foi isso que aconteceu no vestibular para o curso de Direito de uma faculdade paulista. Essa redação tirou nota zero pelo simples motivo de ser apenas um emaranhado, um cipoal de palavras eruditas que ninguém de bom senso tem saco para tentar entender. O autor disputava uma vaga no curso de Direito e foi desclassificado. Que se pode dizer a um jovem de 18 anos que parece ter saído de dentro de um dicionário do Aurélio e que provavelmente não tem amigos nem namorada?
- “Filho, vá viver a sua vida com alegria e descontração, pratique algum esporte, areje sua mente, arranje uma namorada – ou namorado. Você será um péssimo advogado se insistir nessa linguagem empoeirada e cheia de teias de aranha com que escreve”.
A autora Djaimilia de Almeida, no livro A Visão das Plantas, mistura narrativa e reflexão histórica pra discutir ideias sobre o mundo de hoje.
Nessa linha, o linguista Ferdinand de Saussure entra com a ideia de que o sentido das coisas depende da relação entre palavra e significado.
Só que, como tudo muda o tempo todo, essas “verdades fixas” acabam ficando meio frágeis e discutíveis.
No fundo, o texto sugere que a identidade se fragmenta e que o perdão ganha vários sentidos, muitas vezes marcado por limites, pressões sociais e até violência simbólica.
Que achou desta reflexão? Boa? Tudo a ver? Como diriam os astronautas da Estação Espacial, I don’t care! Mas a coisa fica boa mesmo quando se lê um trecho do texto original da – repetindo – redação nota zero:
Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforismática revela a tétrica languidez do sofrer recôndito. Djaimilia de Almeida concebe, em A Visão das Plantas, valer-se a epísteme lírico-narrativa de concepções hermenêutico-historiográficas, as quais decorrem da dialética antagônica e maquiavélica ao postularem a teleologia hodierna. Sob essa perspectiva, Ferdinand de Saussure preconiza a relação simbiótica entre significado e significante a partir da coesão engendrada pelo domínio tradicional concomitante ao coercitivo. Entretanto, à medida em que impera a dinamicidade, fragilizam-se axiomas em difusas postulações. Nesse ínterim, ressoa o sofrer recôndito na fragmentação identitária ao se concernir ao perdão - significado - múltiplos significantes: o condicionamento e a limitação, seja em razão da violência simbólica ou da tecnocracia.
Fiquei tão incomodado com essa notícia, que deu vontade de dizer a esse jovem (com todo carinho):