domingo, 10 de maio de 2026

NASCIDOS NA FAZENDA - A REVISTA

 “Qualquer vida, se tem o narrador certo, merece um livro ou, pelo menos, um capítulo”. O autor desta frase magnífica é o jornalista Diogo Schelp, que a construiu para comentar na revista Veja um livro recém-lançado.
 
Tomo a liberdade de usá-la para apresentar um livreto, uma revista contendo em uma só postagem o resultado da junção de seis textos publicados anteriormente. O assunto, claro, são lembranças de pessoas com quem convivi. No caso particular, meus avós maternos. Não creio ser o “narrador certo”, talvez seja apenas o único – e mais errado que certo.
 
Tal como os posts já divulgados sobre a família de meu pai, este é parte de um texto maior, ainda inacabado, que comecei a escrever em 2013 para deixar para meus filhos (caso eles queiram saber). O tema são as lembranças que tenho sobre a família de minha mãe. Deixo claro que meus comentários e lembranças descritas não se enquadram na cartilha politicamente correta nem na linha chapa branca.
 
Apesar disso tudo, resolvi divulgar um pouco dessa memória no Blogson. E o culpado é o meu amigo virtual Marreta do Azarão, que disse ser minha "verdadeira veia literária" as memórias. Assim, antes que minha memória acabe de vez, vamos falar um pouco da véia, ou melhor, vamos exercitar a veia. E o assunto começa justamente com a família de minha avó materna. Vamos lá.
 
Nascidos Na Fazenda – Parte 1
Quando eu nasci, em 1950, meus pais e meu irmão já moravam na casa de minha avó materna. Minha avó teve onze filhos, mas um deles morreu ainda pequeno. Minha mãe era a segunda mais velha e foi também a segunda a se casar. Todos os filhos, com exceção de tia Ci, casada com tio Tristano, moravam nessa casa. Como a casa era pequena, barracões (edículas) foram sendo construídos para abrigar esse povo todo e mais meu avô, que, embora separado de minha avó, morava lá também, em um quarto de um dos barracões existentes no fundo do imóvel.
 
Comparados com meus tios paternos, metade deles nascida antes de 1900, os irmãos de minha mãe eram verdadeiras crianças, pois a tia materna mais velha (tia Ci) é mais jovem que a caçula da família de meu pai (tia Zinha). Por isso, apenas para registro e ordenação, transcrevo os dados fornecidos por minha irmã, tal como fiz com os irmãos de meu pai:
 
Tia Ci (Araci), minha madrinha de batismo, nasceu em 19/02/1919. Em 19/12/1920 nasceu minha mãe. Meu tio e padrinho Moacir (Cici) nasceu em 25/04/1925. Tio Nem (Manoel) nasceu em 02/07/1926.
 
Tio Tôto (Walter) nasceu em 28/05/1928. Em 30/07/1929 nasceu tia Dalva. O próximo foi Omir (não “tio Omir”, apenas e tão somente, Omir), nascido em 14/07/1931. Depois dele, veio tia Aidê, nascida em 24/08/1933. A mais nova das mulheres, tia Marisa, nasceu em 15/12/1935. O último tio - Almon (Mon), apenas dez anos mais velho que eu, nasceu em 05/04/1940.
 
Meu tio José (epa!, de novo) foi o terceiro filho a nascer, ficando entre minha mãe e tio Cici. Segundo tia Aidê, morreu com onze meses, vítima de uma variante mais branda da famosa gripe espanhola. Parece que nessa mesma época suas tias Anita e Domila também perderam bebês, vitimados pela mesma doença. Uma coincidência não muito simpática (para mim, pelo menos) é o fato de os dois tios “José”, um por parte de pai e outro por parte de mãe, terem morrido na infância.
 
Uma coisa que eu nunca entendi é o bailado dos sobrenomes de minha avó e de meu avô, que se alternavam na composição dos nomes dos filhos. Meu avô chamava-se Francisco José Botelho. Minha avó, Julieta Alvarenga Costa. E os filhos ficaram assim:
Tia Ci (Alvarenga Botelho); minha mãe, Lia (Alvarenga Botelho); tio Cici (Botelho Alvarenga); tio Ném (Botelho Alvarenga); tio Tôto (Botelho Alvarenga); tia Aidê (Botelho Alvarenga); tia Dalva (Alvarenga Botelho); Omir (Botelho Alvarenga); tia Marisa (Alvarenga Botelho) e Mon (Botelho Alvarenga). Parece que essa ideia maluca teria sido de meu avô. Sei não, mas ele deve ter fumado algum tipo de cipó ou fumo de rolo jamaicano, na época. Também nunca entendi porque foi usado o “Alvarenga” de minha avó em vez do sobrenome “Costa”.
 
Como vivi nessa casa durante 24 anos, até me casar, as lembranças vão se justapondo e se embaralhando muito. Por isso, recorri algumas vezes à minha irmã, que me forneceu datas, nomes e casos que eu já tinha esquecido ou, mesmo, que desconhecia. As transcrições literais do que ela me enviou estão entre aspas e em itálico. E, para tentar ordenar um pouco essa bagunça, preciso falar de cada uma dessas pessoas isoladamente. E vou começar por minha avó.
 
 
Seu apelido era Lêta. Não sei onde nasceu, mas tinha uma penca de irmãos, como era costume naquele tempo (e depois tem gente que critica a televisão!). Esses irmãos iam visitá-la de vez em quando. Colocados na ordem de idade, lembro-me do tio Juquinha (José), tia Chana (Emerenciana) e tia Anita (Ana), uma senhora gorda e metida, por quem nunca tive simpatia. Era casada com tio Olímpio.
 
Depois, vinha tia Domila (Laldomila), casada com tio Custódio ou Custodinho, para diferenciar de outro irmão de minha avó, ele também Custódio. Além do nome alucinógeno, tia Domila seria fácil, fácil uma personagem de história em quadrinhos, mais precisamente irmã da bruxa Alcéia, das histórias da Luluzinha. Sinceramente, ela era feia pra caramba, com seu nariz mega adunco e aqueles olhos... bem, os olhos eram parecidos com os meus, arregalados e com bolsa e tudo. Uma bosta.
 
O mais engraçado é que o marido, tio Custódio (Custodinho) morria de ciúmes dela. Uma de suas filhas, Alda, sempre honrou com muito mérito a feiura da mãe. De tão magra, usava duas calças compridas, “para engrossar a perna”. Separada do marido (porque será?) e aparentemente meio ninfomaníaca, quando era mais jovem ia à Avenida Paraná (coisa muito fina!) para descolar algum motorista ou trocador. Não é invenção minha! Quando eu namorava a minha mulher e o ponto final do meu ônibus era na Paraná, cansei de vê-la por ali, nos sábados à noite. Morria de vergonha.
 
Continuando com os tios-avós, vinham o Oscar e o Neca (Manoel). Minha avó era a segunda mais nova. Esse pessoal todo morava no bairro Floresta.
 
Alguns anos atrás, minha tia Aidê mostrou-me uma fotografia sensacional, que, contada de hoje (estamos em 2013), deve ter de noventa a cem anos. Nesse retrato, com aquelas caras de foto posada de antigamente, estão meu bisavô, minha bisavó – que era sua segunda esposa – e todos os filhos do primeiro e do segundo casamento. Minha avó aparece como uma jovem de, no máximo, vinte anos. Essa fotografia e a informação de que meu bisavô foi casado duas vezes esclareceram uma das coisas que mais me intrigavam, relacionadas à Tia Chana.
 
 
Nascidos Na Fazenda – Parte 2
Os pais de minha avó chamavam-se (olha o tempo se movendo!) Joaquim Carlos Pereira de Alvarenga e Alda Augusta da Costa (Dindinha). Quando o Joaquim casou-se com minha bisavó ele era viúvo e pai de cinco filhos, que ela acabou de criar: duas moças de nome ignorado ("não lembrado"), tio Quinca, tio Chiquinho e tio Custódio. Uma das filhas, talvez a mais velha, teve um filho apelidado de Juca, que protagonizou um dos casos bizarros da família.
 
Segundo ouvi algumas vezes de minha mãe, tia Chana era casada com seu sobrinho (!). Tinha o apelido de Juca Barão e já era bem velho quando íamos visitá-los na Rua Floresta, onde moravam. Essa consanguinidade maluca atingiu os quatro ou cinco filhos do casal, mas não me lembro como. Pois bem, minha mente infantil, de criança, não conseguia assimilar essa história:
- “Como é que pode, casada com o sobrinho? Mas eles parecem ter a mesma idade!”
 
Bem, minha mente não é mais de criança, mas permanece ainda meio infantil. E olha que meus pais nem eram parentes!... (piada muito ruim!)
 
A explicação é simples: tia Chana, que era filha do segundo casamento de meu bisavô, casou-se com um “meio sobrinho”, pois o tio Juca, seu marido, era justamente o filho de uma de suas duas irmãs do primeiro casamento. Convenhamos, não deixa de ser uma situação meio bizarra, meio incestuosa.
 
No post anterior eu mencionei a existência de uma foto antiquíssima da família de minha avó materna. Recentemente, recebi de minha irmã uma cópia escaneada da tal foto. Uma das tias avós estava ausente e foi inserida depois, usando-se o photoshop da época (tesoura e grude ou goma arábica). Esse retrato deve ter sido tirado entre 1915 e 1920(!). A título de curiosidade, fiz um "Onde está Wally", um "Who's Who" da foto. Olhaí.
 
Antes de prosseguir com as lembranças, preciso esclarecer uma coisa: como não sou espírita (espiritualista), para mim as pessoas permanecem “vivas” apenas enquanto alguém conseguir lembrar-se delas, enquanto puderem ser identificadas por fotos, casos de família ou documentos. E há casos de família que, mesmo sendo um pouco constrangedores para algum de meus tios, iluminam a personalidade de quem os protagonizou. Por isso, mesmo que não queira magoar ou ofender ninguém (pelo contrário!), este texto pode ter algum deboche, alguma “falta de modos”. Mas assim é a vida, é assim que eu a vejo. E, afinal, nunca é demais lembrar que parte do que sou, das influências que recebi, vêm dessa família, com quem convivi diariamente por 24 anos.
 
Minha avó nasceu em 05/01/1898 e era dois anos mais velha que meu avô. Certamente por vaidade, mentia o ano de nascimento. Para mim, tinha nascido em 1900. Só quando ela morreu fiquei sabendo a data certa, gravada na lápide da sepultura. Era muito, muito magra. Se tivesse sido calculado, certamente seu IMC seria inferior a 18. E “feinha”, na opinião de uma senhora que a conheceu.
 
Fiquei conhecendo essa senhora (D. Zizinha) por puro acaso, pois ela era a proprietária de uma casa semi-abandonada na rua onde moramos. Chegamos a pensar em comprar esse imóvel e, por isso, às vezes telefonava para ela. Essa senhora tinha uma visão desencantada e sarcástica da vida, com comentários ácidos e cortantes. Talvez por isso, eu gostava de conversar com ela. Nessas conversas que mantivemos, por mais incrível que pareça, descobri que ela conhecia minha família, que era sobrinha ou prima do tio Juca Barão e que tinha sido muito amiga de minha mãe na adolescência, a quem definiu como “muito bonitinha”, em contraponto à minha avó, “muito feinha”. Segundo essa senhora, meu avô era “bonitão”. Eu nunca soube se houve casos (no plural) de infidelidade de meu avô, apenas transcrevo a frase que ouvi de Dona Zizinha: “o Chiquinho não era fácil”.
 
Outra lembrança de minha avó, quando ainda estava lúcida. Um dia, alguém chegou à nossa casa para entregar a parte da herança paterna ou materna que lhe coube – um conjunto de louça sanitária decorada, muito bonito, composto de bacia, jarro, saboneteira e penico, esses dois com tampa; um cesto de palha com fundo quadrado, tão usado que tinha um furo em um dos cantos, e mais alguma tranqueira de que não me lembro. Essa “maravilha” de herança provocou um colapso nervoso. Também, pudera: imóveis, fazendas, gado e sei lá o que teriam sido repartidos entre os irmãos (creio que só entre os homens).
 
Pra finalizar este post, outra lembrança: minha avó comprou de seu sobrinho Orlando, filho de tia Anita, um terreno em Lagoa Santa. Conforme apalavrado, o terreno teria determinada área, definida em alqueires. Ao ser passada a escritura, o terreno tinha minguado para 30.000 m² ou coisa parecida. O certo é que a área entregue equivalia a um terço do oferecido. Consequência? Um bate-boca gigantesco com o sobrinho filho da puta e novo colapso nervoso. Esse terreno foi depois comprado por meu pai e colocado em nosso nome (maldita ideia!).
 
Antes de passar para meu avô, preciso registrar que minha avó foi, sem que eu me desse conta disso até agora, uma figura central nas primeiras décadas de minha vida, com todas as suas dores e decepções, a verdadeira fêmea alfa da família (obrigado, Nat Geo).
 
 
Nascidos Na Fazenda – Parte 3
E aí vai mais um capítulo das "Memórias Sentimentais de Jotabê" (isso é só enrolação, só uma piadinha, entendeu?). Vamos lá:
 
Vovô Chiquinho nasceu em 15 de março de 1900. Vovô, não, que esse tratamento era dado por meu irmão e primos (minha irmã o chamava simplesmente de “Vô”). Eu o chamava, sem nenhuma cerimônia, de “Sô Chico” (da mesma forma que falava “Seu Amintas” e “Dona Lia”, quando conversava com meus pais). E o engraçado é que ele gostava disso, dessa falta de modos (meus pais também). Uma vez minha mãe comentou o que vovô tinha dito a meu respeito: -“Esse aí me puxou!” Que eu posso dizer disso? Que o discernimento dele era péssimo.
 
Chamava-se Francisco José Botelho e era filho de Lino José Martins e Januária Antônia de Oliveira Botelho. Perguntada o porquê de o sobrenome de seu pai ser “Botelho” e não “Martins”, tia Aidê não soube explicar. Fico pensando que, na virada do século XIX para o XX, os cartórios de registro civil deviam ser uma zona, a verdadeira casa da mãe Joana.
 
Outra “reflexão”: se vovô tivesse se chamado “Francisco José Martins”, eu não teria uma insinuação de ato sexual no nome (“Botelho Pinto”), para me acompanhar o resto da vida. Não à toa, alguns colegas me tratavam respeitosamente por “Botei-vos” “Censurado” e mais uma penca de variantes e sinônimos, na mais pura sacanagem. E, numa boa, eu sempre me diverti com isso. Mas isso já é outra história.
 
É possível ver meus bisavós, já velhinhos, em duas fotografias espetaculares ainda existentes na casa de minha irmã. O casal teve esses filhos, não necessariamente na ordem em que estão relacionados:
 
Olinta, Onésio, Odila, João, Francisco (meu avô), Waldemar, Odorêncio (esse nome só empata em feiura com Laldomila, que era irmã de minha avó) e Humberto.
 
Creio que com exceção de tio João, todos os outros moravam em Lavras. Alguns nunca cheguei a conhecer. Lembro-me que tio Waldemar e – em datas distintas – tio Dorenço (Odorêncio) foram uma vez à nossa casa. Creio que foi um deles que trouxe um litro de um molho saborosíssimo, feito com “trezentos” ingredientes diferentes.
 
Tio Humberto ou “tio Beto”, como todos falavam, era dentista e teve três filhas com nomes que me encantavam: Ábia, Hebe e Íbia (ou coisa parecida). Lembro-me da Ábia, uma moça com bochechas bem acentuadas, que se casou por procuração com um português. Chique!
 
Tio João sempre ia lá em casa, assim como algumas de suas filhas. Depois que comecei a namorar minha mulher, uma de minhas cunhadas, um dia, perguntou se eu tinha um tio, talvez tio-avô, conhecido como João Botelho. Era o próprio. Meu tio era o avô de seu namorado na época, o Roberto Bocão. O engraçado é que graças a esse namoro eu conheci e fiquei amigo de um primo distante (de terceiro grau). Ele e seus irmãos são os únicos que conheço e com quem converso esporadicamente, pois os pais moram em frente à casa de minha sogra (o mais conhecido é o Serginho, que, em uma noite de Natal, depois de tirar meleca do nariz veio me estender a mão despreocupadamente, fazendo uma de minhas noras quase desmaiar de rir).
 
Tempos depois de terminado o namoro com minha cunhada, fomos convidados para o casamento do Bocão. Nessa época meu avô já tinha morrido. Quando vi meu tio-avô sentado na igreja, fiquei com uma vontade danada de ir abraçá-lo, mas desisti. Afinal, ele me conheceu criança e talvez não fosse se lembrar de mim. Se eu o tivesse abraçado, de certa forma estaria também abraçando meu avô. Hoje penso que devia ter feito isso. Tio João permaneceu lúcido até os 102 anos e morreu um ano depois.
 
Nunca entendi por que só os irmãos de meu avô e de minha avó eram bem de vida (quase todos, pelo menos). Em suas visitas dominicais, eram casos de fazenda pra cá, boiada prá lá, por aí. Meus avós, coitados, estiveram sempre na merda – ou perto disso. Consultando minha irmã sobre datas e fatos para escrever estas lembranças, surgiu a explicação para essa ostentação domingueira (pelo menos, no que se refere aos irmãos de minha avó).
 
Minha mãe e seus quatro irmãos mais velhos nasceram em uma fazenda localizada em Ijaci, distrito de Lavras na época. Depois, mudaram-se para outra fazenda em Pedro Leopoldo, onde nasceu Tio Tôto. Nova mudança de fazenda e de cidade e mais um nascimento: tia Dalva nasceu na Fazenda da Pedra Branca, em Capim Branco.
 
Segundo tia Aidê, seus pais iam se mudando junto com a Dindinha, mãe de minha avó. As fazendas teoricamente eram dela, mas quem fazia os negócios eram seus filhos homens e, à medida que vendiam as propriedades da mãe, “compravam outras menores e embolsavam uma parte, até restar só a casa da Floresta”. Puta sacanagem. E meu avô trabalhava para ela, Dindinha. Tia Aidê disse que “de genro ele virou o ‘faz-tudo’ enquanto os cunhados ficavam só no ‘bem bom’”.
 
Talvez por esse motivo, meu avô começou a trabalhar como “construtor”, um termo que se usava ainda na época de minha formatura. No duro, no duro, essa função é exercida hoje pelos “mestres de obras” ou “encarregados gerais”. Em uma época de poucos engenheiros, o prático tinha mercado de trabalho garantido.
 
Sei de poucas obras que meu avô administrou (ou construiu, como dizia). Uma delas é uma chaminé tronco-cônica, feita com tijolos, provavelmente necessária para algum forno, caldeira ou coisa parecida. Essa chaminé ainda deve existir e fica ou ficava quase na beira da lagoa, próximo à vila residencial da Aeronáutica, em Lagoa Santa.
 
Outra obra, onde fui ainda pequeno com ele, é um conjunto de casas construído em frente ao Clube dos Oficiais, no Prado. Essas casas eram de propriedade do Antônio Luciano, um sujeito riquíssimo e com um apetite sexual extraterrestre.
 
Vale a pena falar um pouco desse sujeito: décadas atrás, a prefeitura de Belo Horizonte resolveu criar oito novos parques na cidade. Seis deles seriam construídos em terrenos do tal Luciano. O procedimento era simples: as áreas seriam desapropriadas, a PBH pagaria uma mixaria para os proprietários e fim.
 
Ao saber dessa intenção, imediatamente mandou fazer projetos de urbanização e loteamento dessas áreas e deu entrada na prefeitura. Com isso, os imóveis adquiriram novo status e novo valor. Resultado: essa manobra inviabilizou as desapropriações e a ideia foi enterrada. Creio que uma dessas áreas é hoje o bairro Camargos, em frente ao Minas Shopping, do outro lado da Cristiano Machado.
 
O Luciano (Dr. Luciano, como vovô se referia a ele) era dono de quase todos os cinemas de Belo Horizonte, aliás, os melhores. Dizia-se que tinha uns oitenta mil imóveis só em Beagá (!). Mas sexo é o assunto em que esse médico (era médico, o sacana) era um craque, pois deixou dois filhos legítimos de seu casamento, uns quarenta outros foram reconhecidos como filhos naturais, com direito a herança, e existem ainda mais de cem que brigam ou brigaram na justiça para ser também reconhecidos como descendentes desse super-coelho.
 
Para ele, vale uma frase que ouvi quando fizemos curso de noivos. Ao escutar um dos noivos dizer que tinha 26 irmãos, o orientador perguntou: -“Seu pai teve tempo de vestir as calças?” Cagamos de rir.
 
 
Nascidos Na Fazenda – Parte 4
Eu terminei a terceira parte desta série de lembranças falando de um sujeito que tinha um apetite sexual do tamanho da Muralha da China.
 
Pois bem, Sô Chico trabalhou durante anos para esse sátiro. Se comparada à performance desse médico, a “escapadinha” de meu avô nem seria digna de nota. Exceto para minha avó e seus filhos. Vovô teria conhecido sua segunda mulher, Amélia, durante a construção do aeroporto do Carlos Prates. Segundo minha irmã, tia Ci, mamãe e tio Nem contaram a ela a mesma versão.
 
Esse assunto era quase tabu na família. E, claro, quanto mais o tempo passa, mais tende a ficar providencialmente esquecido. Afinal, os “vértices” desse “triângulo das Bermudas” já morreram há muito tempo. Mas ainda me permito especular como tudo começou. “Sô Chico” era um sujeito “sacudido”. (termo antigo que pode ser entendido como saudável, forte, por aí). Talvez, em um fim de semana qualquer, talvez não tivesse nada para fazer... Já disseram que “mente vazia é a morada do capeta”. Aí,... Bingo! Ou Bang.
 
Alguns filhos levavam isso numa boa, pelo menos os mais moleques (tio Nem, Omir e Mon). De vez em quando, se esse assunto surgia e tia Aidê estava longe, comentavam alguma coisa e riam, fazendo blague da traição do pai.
 
Eu sempre achei que alguns dos filhos dessa Amélia fossem também de meu avô, talvez por um comentário feito uma vez por minha mãe. Segundo ela, o caçula da segunda família parecia-se muito com o Almon, seu irmão mais novo. As informações fornecidas recentemente por minha irmã desmentem essa suposição. Pelo sim, pelo não, fica a dúvida.
 
“A mãe dela (que parece era uma mulher meio "pra frente" pra não dizer coisa pior) servia a refeição para os trabalhadores, inclusive o Vô e empurrava a filha de todo jeito para algum deles, porque ela, Amélia não sei se tinha sido abandonada pelo marido ou se tinha ficado viúva e com três filhos pequenos, dois meninos e uma menina. O Abel, um dos que trabalhou com o Vô nessa época e era motorista da obra (e foi talvez a pessoa que tenha contado tudo pra Vó), também afirmava que os filhos da d.Amélia eram do marido (policial) e que o Vô se encarregou de criá-los. O filho dela que conversou com a tia Aidê pelo telefone tinha ou tem o apelido de Bolinha (ele trabalhava como investigador) e tio Nem o conheceu pessoalmente; esse moço disse a mesma coisa para tia Aidê e para o tio Nem, que considerava o Vô como pai porque ele os criou, mas que ele e os irmãos não eram filhos legítimos dele, eles inclusive tinham o sobrenome do pai. A moça virou freira. E o Abel (ele morava aqui na Lagoa) contou pra mamãe, que a d. Amélia faleceu um ano depois do Vô”.
 
O fato é que, aos sábados, depois de almoçar, meu avô avisava que ia visitar os parentes. E saía quase que arrastando os pés – “de tanto trabalhar”, segundo ele. Entretanto, bastava atingir a esquina para pegar uma velocidade digna de marcha olímpica. Minha mãe e meu pai comentavam isso, rindo.
 
Vovô gostava muito de mim - e eu dele. Depois que me casei, eu ficava às vezes até um mês sem ir à casa de minha avó. Ele reclamava que eu não ia vê-lo, essas coisas. E eu sempre prometia visitá-lo com mais frequência, promessa sempre descumprida, até porque não tinha carro.
 
Um dia, meu chefe chega com a notícia fatal: meu avô tinha sido atropelado e estava no CTI (provavelmente) do Hospital São Lucas. Creio que até nos deu carona. Alguns primos e tios estavam lá, do lado de fora, meio atarantados. Não me lembro se no mesmo dia ou no dia seguinte, recebi a notícia de seu falecimento. Aquilo me doeu muito, ainda mais porque eu realmente pretendia visitá-lo no fim de semana seguinte. Depois, talvez no velório ou na missa de sétimo dia, fiquei sabendo de mais detalhes. Tinha sido atropelado na Niquelina ao perder o equilíbrio, quando tentava atravessar a rua. Detalhe: indo ou vindo da casa de sua segunda família.
 
Foi socorrido por alguém que o conhecia da região. Ainda consciente, pediu ao amigo: “Não me deixe sozinho”. Creio que foi tia Aidê que me contou ter recebido um telefonema de um de seus “meios-irmãos”, com o seguinte recado: “não se preocupem, nós não iremos ao enterro, não queremos envergonhá-los”.
 
Esse tipo de coisa me deixa perplexo: se não havia nenhuma herança para repartir (o que tornaria tudo muito mais difícil), porque comprar a mágoa de uma mãe já falecida? Porque não conhecer, porque evitar relacionar-se com pessoas que, afinal, também poderiam ser seus irmãos? Meu avô morreu em 1976 com 76 anos, quatro anos depois de minha avó.
 
Até hoje, quando vejo alguém cujos traços se parecem com os de meu tio Almon, me pego perguntando: “será que é meu parente?”
 
 
Nascidos Na Fazenda – Parte 5
Por mais que eu goste de retratos, preciso admitir que a foto de algum parente falecido a quem nunca tivemos oportunidade de conhecer é um objeto unidimensional, pois registra apenas um instante, uma fração de segundo da vida do retratado. Basta, entretanto alguém nos contar um simples caso, uma lembrança, que tudo muda.
 
É o que aconteceu com os pais de meu avô materno. Desde pequeno, convivi com os retratos (apenas dois) de meus bisavós sem nunca me interessar em ao menos saber seus nomes. Só quando resolvi escrever algumas lembranças de família para serem lidas por meus filhos é que surgiu a necessidade de conhecer os nomes desses antepassados. Mas a coisa parou por aí.
 
Recentemente, depois desses textos já escritos, minha tia contou-me um caso sobre seus avós que mudou minha forma de vê-los, uma história tão delicada, tão comovente, que fez aquelas fotos antigas que eu tanto conhecia ganhar textura, relevo, tornando-se quase imagens holográficas daqueles velhinhos. E o texto sobre os pais de minha mãe, originalmente imaginado em quatro partes, ganhou a quinta parte só para registrar essa historinha.
 
Antes de contar esse caso e como homenagem sincera aos meus antepassados, os velhinhos que protagonizaram essa love story caipira, apresento duas imagens: na primeira, meu bisavô aparece em retrato posado, tamanho cartão postal; a segunda é ainda mais incrível, pois mostra sua esposa (minha bisavó, lógico) – justamente quando ficou algum tempo hospedada na casa de minha avó – ladeada pela nora e pelo filho (meus avós maternos). Olhaí:




 
Segundo minha tia, os pais de seu pai moravam em Lavras. Em 1948, por motivos de saúde, sua avó paterna, Dona Januária ("Madrinha"), foi obrigada a vir para Belo Horizonte para tratar-se, deixando o marido idoso ("Padrinho") em Lavras. Minha tia disse que ela precisava tomar radiações, o que me faz pensar na existência de algum tipo de tumor ou câncer. Embora tivesse outros filhos morando em BH, a velhinha fez questão de hospedar-se na casa de meus avós, lá permanecendo por uns dois meses.
 
A uma distância de pouco mais de 2.000 metros dessa casa localiza-se o Aeroporto do Carlos Prates, utilizado apenas por aviões de pequeno porte e helicópteros, pois a pista tem pouco mais de 900 metros. Pois bem, um belo dia, durante o período de tratamento, sem aviso prévio, o pai de meu avô fretou um monomotor, um "teco-teco" e viajou para BH, descendo nesse aeroporto. Tomou um "carro de aluguel" e chegou até a casa onde a esposa estava hospedada.
 
Minha tia, que presenciou o encontro dos dois, disse que foi "a coisa mais bonitinha". Minha bisavó, ao ver o marido chegar de surpresa, exclamou:
Ô, Sô Lino, o senhor veio me ver? Não precisava! 
 
Ao que meu bisavô respondeu, com simplicidade e carinho:
Eu estava com saudade, Sá Januária!
 
Creio que meu bisavô voltou para Lavras no mesmo dia, mas enquanto esteve em BH, os velhinhos não se desgrudaram um só momento. Chamam também atenção as formas de tratamento de "" e "", estranhamente respeitosas para meus olhos de século vinte, principalmente por serem marido e mulher. Ela morreu em 1949, pouco tempo depois de sua estadia em BH, e ele alguns meses depois, talvez no início de 1950. 
 
O que eu sei é que essa historinha, apesar de muito curta, lembra bastante um daqueles filmes românticos que passavam na sessão da tarde, bom para ser visto ao lado da amada, debaixo das cobertas.
 
 
Nascidos Na Fazenda – Parte 6
Para encerrar esta série sobre meus avós maternos, uma espécie de "Memórias Sentimentais de Jotabê", resolvi postar as fotos que recebi de minha irmã. Como já disse antes, imagens, lembranças, documentos preservados servem para manter "vivas" as pessoas comuns, anônimas. Mas não vejo problema nenhum em fazer alguma piada ou comentário irônico sobre elas, pois o sentimento principal que tenho por essa gente é carinho, mesmo nunca tendo conhecido alguns. Assim, em vez de ficar enrolando, passemos às apresentações.
 
A primeira imagem é a "restauração" daquela foto incrível apresentada na parte 2 desta série. Sinceramente, alguns "ficaram bem na foto", mas a feiura da maioria (minha avó incluída) é constrangedora, fazendo-me pensar em uma "Família Adams" cabocla.
 
Sobre essa foto minha irmã fez o seguinte comentário ao enviá-la: "A outra foto (não é xerox) é um retrato desse retrato original e o fotógrafo fez por conta própria uma "restauração" ridícula; colocou óculos no bisavô, um vestido na Tia Anita que é a do retratinho colado e modificou a fisionomia dela também, um troço muito tosco". Só posso acrescentar: e com sobrancelhas de Frida Kahlo!

 

 
Os próximos retratos mostram a mãe de minha avó já bem velhinha. Segundo minha tia Aidê, sua avó "Dindinha" morreu em 01/07/1948. Curiosamente, seu rosto envelhecido não combina com sua imagem mais nova, na fotografia restaurada. E a expressão de desencanto, mesmo que minha avaliação não seja correta, faz pensar que é fruto das "estripulias imobiliárias" cometidas pelos próprios filhos.
 


Com meu bisavô a coisa é quase surreal, pois teria morrido talvez em 1917(!), pouco tempo depois dessa fotografia e antes do casamento de minha avó.
 
Os últimos retratos mostram meu avô ainda muito novo – talvez com uns trinta anos (olha o estilo do sapato!) – e minha avó, já velhinha (talvez já no início da demência), com seu jornal, onde sempre procurava "imóveis para comprar". É com essa imagem que lembro-me dela dançando quadrilha ao som de "Your mother should know". 

 
 
 


CARTA A UMA MÃE QUE SE FOI - BÊ COELHO

 


sexta-feira, 8 de maio de 2026

NÃO SEI O QUE ACONTECE

 
Não sei o que acontece comigo
Se é sonho, delírio ou castigo
Pois fico inquieto, insone
Sentindo o tipo de gula
Que mata um faminto de fome
 
Desejo ardente, total, incontido
Guardado dentro de mim
Bem chaveado, escondido
Que cria estar reprimido
Para sempre, sempre, amém
 
O que eu não sabia (Não!)
Nem jamais conceberia
Que um sonho, desejo antigo
 Despertasse ainda em alguém
O desejo de estar comigo

quinta-feira, 7 de maio de 2026

OCULTO

 
Outro dia fiquei chocado com a cara de pau, a desfaçatez, com o ego gigantesco exibido pelo presidente de um país por aí, que resolveu imprimir sua cara de idiota em passaportes, em papel moeda e até, aparentemente, em moedas de ouro. Essa atitude me fez pensar no culto à personalidade que outros líderes de maior ou menor relevância mundial incentivaram e até impuseram – Stalin, Mao Tse-Tung, Hitler, Sadam Hussein, Mussolini e por aí vai. O problema é que todos os citados eram execráveis, péssimas companhias para o maluco da vez.
 
O que se deduz disso é a existência de vaidade exacerbada, um egocentrismo doentio, quase patológico. Como dizia um antigo colega, esse pessoal se acha ou se achava tão foda que só faltava peidar cheiroso. Avaliação vulgar, mas precisa. E agora surge a pergunta: por que eu estou me preocupando com isso? Para falar a verdade, porque também padeço de excesso de vaidade (como cantou o Ultraje a Rigor, “eu me amo, não posso mais viver sem mim”!), narcisismo descontrolado e presunção nível cinco congênita.
 
E sabe o que isso significa? Que eu resolvi brindar as pessoas que acessam este blog (são milhares!!!) com duas imagens geradas pelo ChatGPT. Afinal, se até o Jean Jacques Rousseau, por que Jotabê  também não pode roussar?
 
A primeira imagem é um mosaico em estilo bizantino que teria sido encontrado em escavações recentes realizadas em Pompeia. Como cantou o Raul Seixas, "eu nasci há dez mil anos atrás". Se na Bíblia pode isso, por que eu também não posso, não é mesmo? Se quiserem, podem até me chamar de Highlander, que eu nem ligo. A segunda imagem foi encontrada em um nicho oculto da catedral da Sagrada Família, projetada pelo arquiteto catalão Antoni Gaudí. Que mais? Já chega, né?
 
Uma coisa eu posso garantir: nunca desejei um culto à personalidade. Para mim, já estaria de bom tamanho se houvesse “oculto da personalidade”. E fim. 




terça-feira, 5 de maio de 2026

KAFKA E A BONECA VIAJANTE - ANÔNIMO

 


Recebi pelo whatsaap o texto abaixo. Não sei quem é o autor e creio que isso pouco importa. O que realmente importa é a delicadeza e o lirismo contidos na história brevemente narrada no texto - enviado por uma pessoa tão inesquecível e delicada quanto. Como sou de natureza sonhadora e romântica (pois é...), resolvi publicá-lo no Blogson, como homenagem a quem o enviou e antídoto ou contraponto a todo desespero, tragédia, burrice, estupidez e filhadaputagem noticiados diariamente.

Um ano antes de sua morte, Franz Kafka viveu uma experiência singular. Passeando pelo parque de Steglitz, em Berlim, encontrou uma menina chorando porque havia perdido sua boneca. Para acalmar a garotinha, inventou uma história – a boneca não estava perdida, mas viajara, e ele, um "carteiro de bonecas", tinha uma carta em seu poder que lhe entregaria no dia seguinte. Naquela noite, ele escreveu a primeira de muitas cartas que, durante três semanas, entregou pontualmente à menina, narrando as peripécias da boneca vividas em todos os cantos do mundo.

Durante anos, Klaus Wagenbach, um estudioso de Kafka, procurou a menina pela região próxima ao parque, investigou com os vizinhos, colocou anúncio nos jornais, mas nunca conseguiu encontrar a pista da menina ou dos originais das cartas. Segundo Dora Dymant, sua última companheira, Kafka se envolveu com tanta seriedade na tarefa de consolar a pequena Elsi como se escrevesse mais um de seus romances ou contos que nunca foram publicados em vida. Toda essa inusitada situação, verdadeira ou não, acabou inspirando Jordi Sierra a escrever um livro onde inventa as supostas cartas, criando desta forma um final imaginário para esta estranha e bela história.

O livro é dividido em quatro partes: primeira ilusão: a boneca perdida – quando Kafka encontra a menina chorando no parque; segunda fantasia: as cartas de Brígida – quando se torna o carteiro de bonecas, e passa a escrever as cartas da então boneca perdida que se tornou viajante; terceira ilusão: o longo percurso da boneca viajante – quando começam as cartas de despedida da boneca; quarto sorriso: o presente – quando há a aceitação e superação da perda.

“Quanto a mim, permiti-me a transgressão: inventar essas cartas, terminar a história, dar-lhe um final imaginário. Pode ter sido este ou outro qualquer, não acho que seja muito importante. O que aconteceu é tão belo em si mesmo que o resto carece de importância. A única coisa evidente é que aquelas cartas devem ter sido mais lúcidas que as recriadas por mim.” – Jordi Sierra i Fabra, declara no final do livro “Kafka e a Boneca Viajante”.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

CLARICE LISPECTOR

 


Já publiquei aqui no blog coletâneas de frases, pensamentos e aforismos criados por muitas pessoas. E gosto de fazer isso pela beleza das palavras e pensamentos tão bem ordenados, por ser uma homenagem a quem as criou, por serem uma prova da inteligência e lucidez de seus criadores. E a nova contribuição são frases sintéticas ou trechos de textos maiores escritos pela Clarice Lispector. Tudo muito lindo, reflexivo e sempre emocionante. Lêaí. 

- Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.

- Estou sendo alegre neste mesmo instante porque me recuso a ser vencida: então eu amo. Como resposta.

- A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes.

- É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.

- A invenção do hoje é o meu único meio de instaurar o futuro.

- Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!

- Por que é que as coisas um instante antes de acontecerem parecem já ter acontecido? É uma questão de simultaneidade de tempo.

- Estou cansada. Meu cansaço vem muito porque sou uma pessoa extremamente ocupada: tomo conta do mundo.

- Eu sou mansa, mas minha função de viver é feroz.

- O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.

- Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.

- Perder-se também é caminho.

- Eu amo a minha cruz, a que doloridamente carrego. É o mínimo que posso fazer de minha vida: aceitar comiseravelmente o sacrifício da noite.

- Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.

- Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente.

- Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente.

- Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.

- O que importa afinal, viver ou saber que se está vivendo?

- E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço.

- Eu sou nostálgica demais, pareço ter perdido alguma coisa não se sabe onde e quando.

- A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida – e se parece com o início de uma perdição irrecuperável.

- Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão.

- Fique de vez em quando só, senão você será submergido. Até o amor excessivo dos outros pode submergir uma pessoa.

- E o que o ser humano mais aspira é tornar-se ser humano.

- Ter nascido me estragou a saúde.

- O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão.

- O que me mata é o cotidiano. Eu queria só exceções.

- Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios.

- Eu tenho que ser minha amiga, senão não aguento a solidão.

- Abandone-se, tente tudo suavemente, não se esforce por conseguir - esqueça completamente o que aconteceu e tudo voltará com naturalidade

- A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior, e não há uma palavra que a signifique.

- Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.

- Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.

- Às vezes, tudo que precisamos é de uma frase certa, no momento certo.

- Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.

- A palavra é meu domínio sobre o mundo.

- Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.

- Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.

- Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

- Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...

- É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.

- Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras.

- Passei a vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar.

- Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo – quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação.

- Que minha solidão me sirva de companhia, que eu tenha a coragem de me enfrentar. que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.

- Eu não sou tão triste assim, é que hoje eu estou cansada.

- Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever.

- Com perdão da palavra, sou um mistério para mim.

- O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós.

- Terei toda a aparência de quem falhou, e só eu saberei se foi a falha necessária.

- A única verdade é que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais.

- Nunca sei se quero descansar porque estou realmente cansada, ou se quero descansar para desistir.

- Tenho várias caras. Uma delas é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo.

- O que eu sinto eu não ajo. O que ajo não penso. O que penso não sinto. Do que sei sou ignorante. Do que sinto não ignoro. Não me entendo e ajo como se me entendesse.

- Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas.

- Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro.

- Sou um ser. E deixo que você seja. Isso lhe assusta? Creio que sim. Mas vale a pena. Mesmo que doa. Dói só no começo.

- Sou uma filha da natureza: quero pegar, sentir, tocar, ser. E tudo isso já faz parte de um todo, de um mistério.

- Sou um coração batendo no mundo.

- Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.

- Por te falar eu te assustarei e te perderei? mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia

- Que medo alegre, o de te esperar.

- Ando de um lado para outro, dentro de mim.

- Estou bastante acostumada a estar só, mesmo junto dos outros.

- Mas há a vida que é para ser intensamente vivida. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.

- Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio.

- Divertir os outros é um dos modos mais emocionantes de existir.

- Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim.

- Farei o possível para não amar demais as pessoas, sobretudo por causa das pessoas. Às vezes o amor que se dá pesa, quase como uma responsabilidade na pessoa que o recebe. Eu tenho essa tendência geral para exagerar, e resolvi tentar não exigir dos outros senão o mínimo. É uma forma de paz...

- Mas tantos defeitos tenho. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor: às vezes parecem farpas.

- Onde aprender a odiar para não morrer de amor?

- Amor será dar de presente ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si. Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Amor é a grande desilusão de tudo mais. Amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. E não é prêmio, por isso não envaidece.

- Amar não acaba. É como se o mundo estivesse à minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.

- Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor.

- Eu medito sem palavras e sobre o nada.

- Estou cansada de tanta gente me achar simpática. Quero os que me acham antipática porque com esses eu tenho afinidade: tenho profunda antipatia por mim.

- Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.

- A verdade não me faz sentido! É por isso que eu a temia e a temo. Desamparada, eu te entrego tudo – para que faças disso uma coisa alegre.

- O horrível dever é ir até o fim. E sem contar com ninguém. Viver a própria realidade. Descobrir a verdade. Pois não posso mais carregar as dores do mundo.

- Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente.

- Preciso aprender a não precisar de ninguém. É difícil, porque preciso repartir com alguém o que sinto.

- A vida, meu amor, é uma grande sedução onde tudo o que existe se seduz.

- Não se compreende música: ouve-se. Ouve-me então com teu corpo inteiro.

- Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim.

- Cada pessoa é um mundo, cada pessoa tem sua própria chave e a dos outros nada resolve; só se olha para o mundo alheio por distração, por interesse, por qualquer outro sentimento que sobrenada e que não é o vital; o ‘mal de muitos’ é consolo, mas não é solução.

- Que eu não esqueça que a subida mais escarpada, e mais à mercê dos ventos, é sorrir de alegria.

NASCIDOS NA FAZENDA - A REVISTA

  “Qualquer vida, se tem o narrador certo, merece um livro ou, pelo menos, um capítulo”.  O autor desta frase magnífica é o jornalista Diogo...