quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

"A" REFORMA

Todo mundo (pelo menos os minimamente alfabetizados) já ouviu falar de Martinho Lutero e de sua Reforma Protestante, de sua condenação veemente à venda de indulgências pela Igreja. Mas aposto que ninguém (ou quase ninguém) já ouviu falar da "Reforma Católica". Bom, pelo menos de uma pequena reforma. Que teve até tabela de preços! Olhaí


(Eu achei essa lista tão engraçada que até pensei em guardar para uma ocasião especial, mas não resisti, pois os serviços a executar (ou já executados) são simplesmente surreais. Melhor dizendo, a descrição é que é surreal.)


DOUPONE

A primeira empresa onde trabalhei seguia um protocolo meio bizarro: os engenheiros, o único arquiteto e os estagiários de engenharia eram indistintamente tratados por “doutor”, enquanto os demais profissionais de nível universitário (psicólogos, administradores, contadores e economistas) tinham de se contentar em ser chamados de “senhor”. E eu, um aluno relapso, irresponsável e medíocre, um legítimo doupone, um verdadeiro doutor em porra nenhuma, adorava ser tratado com essa reverência equivocada.

Depois de formado - assim como acontecia então com todos os engenheiros - continuei a ser chamado de "doutor". Por conta disso, um dia, um vizinho que trabalhava com representação de fábricas de fechaduras e ferragens provocou a situação mais tosca: sabendo onde eu trabalhava, bateu lá, pedindo para falar com o "doutor Zezinho". Se pudesse, teria dado um tiro nele, tão puto fiquei com essa falta de senso.

O tempo foi passando e as pessoas começaram a "perder o respeito", passando a me chamar apenas pelo nome ou pelo elegantíssimo "Botelho Pinto". O "doutor" ficou reservado apenas aos flanelinhas ("E aí, doutor, o carro tá precisando dar uma lavadinha e uma cera. É rapidinho!").

Hoje, aposentado - e, pior, idoso -, espanto-me quando alguém me chama de "senhor" ou de "Seu Zé", pois não é essa a imagem que tenho de mim. Minha carteira de identidade mental ostenta ainda o retrato de um homem mais jovem e mais sonhador. Mas cheguei à conclusão de que preciso me ajustar e atualizar meu perfil, aceitar e assumir definitivamente a idade cronológica que tenho.

Antes que isso aconteça, preciso resolver um paradoxo: quanto mais me chamam de "Seu Zé" mais eu vejo que "Meu" Zé não existe mais, talvez nunca tenha existido. A cada dia que passa sou menos Senhor de mim mesmo, cada vez mais distante dos sonhos e desejos irrealizados. Não sou senhor de nada! Como ser chamado de "Senhor" se nada mais tenho de meu, intrinsecamente meu? O "meu" Zé verdadeiro perdeu-se há muito tempo e nada pode agora resgatá-lo. Assim, quando alguém me chamar de "Seu Zé", pode acontecer de ficar tentado a perguntar "Cadê ele?", onde está ele, o meu Zé desaparecido, talvez até mesmo o doupone que eu fui um dia?

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

MARAVILHAS DA NATUREZA

Não é do feitio do velho Blogson ficar postando vídeos de coelhinhas peludas e outros bichinhos, pois este é um blog que se dá ao respeito. Entretanto, dois vídeos que circulam pelo Facebook merecem ter sua divulgação ampliada. Creio mesmo que umas 2,3 visualizações a mais dá para conseguir. Para não passar batido, resolvi criar títulos para essas imagens pra lá de bizarras. Olhaí.

GATO DANDO UM TAPA NA PANTERA





COMO PORQUE É SÓLIDO; SE FOSSE LICOR, BEBÊ-LO-IA


segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

ALTA COSTURA

Minha mulher recebeu pelo uatizapi uma imagem pra lá de bizarra, apesar de sua aparente ingenuidade. Mais ou menos o que acontece com meu nome: se você tiver um mínimo de malícia e bom humor logo perceberá a sacanagem dissimulada.

É o caso dessa imagem. Eu não entendo nada de moda, de estilo ou o que quer que seja dessa área. Nunca sei se uma roupa é brega ou elegante, se é de grife ou de brechó. Só posso dizer que essa, especificamente, é do caralho! Olhaí.

sábado, 9 de dezembro de 2017

CONTANDO MILGALHAS

O velho Blogson estava se arrastando para conseguir completar 50.000 visualizações. De repente, do nada, ou melhor, da nuvem, surgiu na área uma gangue de robôs desocupados, provocando 164 visualizações só no dia 08/12. Com isso, o total de visualizações explodiu ("explodiu" é só força de expressão) para 50.170,2 acessos.

Com isso, meus planos foram atropelados, impedindo-me de não comemorar nada. Robô é sempre um autêntico estraga-desprazer! Mas uma prestaçãozinha de contas sempre é bem vinda. Por isso vamos a ela:

- Jotabê (ansiedade é foda, mano!):                          15.359,3 acessos (de raiva, de pânico)
- Turma do R2-D2 (Artoo-Detoo):                                6.521,9 abcessos
- Malucos que acharam o blog por engano:              26.338,8 excessos
- Votos em branco e anulados:                                    1.950,1 expressos
  TOTAL                                                                      50.170,1 insucessos

E la nave (DS-1 Orbital Battle Station) va.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A VINGANÇA DE UM NOME IMPRÓPRIO

- “José! Botelho Pinto!”

Que acha de ser cumprimentado assim? Gostou? Ou apresentar-se a alguém dizendo:

-“Meu nome é José Botelho (respira!) Pinto”. Engraçado, não?

- "Sim"? Sim, porra nenhuma! Há sessenta e sete anos eu fui condenado por meus pais a ser motivo de piadinhas por conta desse sobrenome de sonoridade bandalha. A bem da verdade, só com dezessete, dezoito anos é fui descobrir o trocadilho sacana que carregava na carteira de identidade. Até então, o que me incomodava era chamar-me apenas José, sem nenhum apêndice, um José “puro e sem gelo”, sem outro nome que me fizesse menos genérico, tipo José Carlos, etc.

Talvez por isso, tenho a maior dificuldade de chamar os conhecidos pelo nome correto. E nem é o caso de criar apelidos, pois o que faço mesmo é deformar o prenome. Assim, Bernardo vira Bertoldo, Beraldo, Bernoulli ou Beraldino. Fábio virou Bil, Cecília mudou para Cilícia, Eliane vira Eliene ou Lilica, Daniel virou Dani Boy, Elizabeth transforma-se em Bernadete, Fernanda em Fernândola e por aí vai. Curiosamente, só chamo uma amiga mais conhecida por Zezé de Maria José. Da mesma forma, Cinho volta a ser Maurício.

Por isso, como ficar indiferente a um arquivo contendo o nome completo de dez mil pessoas? Impossível, claro. Quando descobri esse arquivo fiquei mais alegre que (Botelho) Pinto no lixo, pois sabia que era diversão certa (para mim, obviamente).

A primeira providência foi, com o auxílio do Excel, isolar o prenome. Com isso, os nomes compostos ficaram reduzidos apenas ao primeiro componente. O passo seguinte foi classificar em ordem alfabética e excluir as repetições. O resultado foi uma planilha com pouco mais de dois mil nomes.

Se alguém estava achando que isso é coisa de gente doida, lamento informar que me diverti "horrores" lendo toda essa planilha. Em alguns casos, cheguei quase a gargalhar, tal a bizarrice encontrada. E só não ri mais por solidariedade, por espírito de grupo. Afinal, só um Botelho pode saber o peso do Pinto que carrega no documento (isso ficou meio estranho!).

Além da minha obsessão, do meu TOC moderado, o que chama mesmo a atenção é a existência de mais de dois mil prenomes diferentes em uma listagem de "apenas" dez mil pessoas. Eu nunca imaginaria tanta diversidade, tanta variedade. Uma leitura dessa planilha traz algumas explicações. Além dos prenomes clássicos (ou civilizados), podem ser encontrados
- Nomes estrangeiros (talvez indicando a origem dos ascendentes);
- Homenagens a personalidades da história ou do entretenimento (normalmente grafados com erro);
- Extraídos da Bíblia;
- Motivados por analfabetismo funcional de funcionários de cartório (ou dos próprios pais);
- aqueles (normalmente os mais bizarros, ridículos ou "alucinógenos") que são fruto da "criatividade", falta de senso ou de delírio momentâneo de padrinhos, pais ou palpiteiros "bem intencionados". Essa última categoria poderia ser dividida em subcategorias (estou ficando especialista na matéria!). A melhor de todas é do tipo "Ostentação".

Mas, creio que a principal razão de tanta diversidade são as inúmeras grafias para um mesmo nome, "fenômeno" mais frequente nos que começam com as letras "k" ou "w". E essa é a parte mais divertida, pois a inclusão, supressão ou substituição de uma única letra produz um efeito hilariante.

E já que tive o trabalho de ler dois mil nomes próprios (2.370, para ser exato), resolvi compartilhar alguns exemplos dos impróprios com os 1,4 leitores deste blog. Só deixarei de fora os "alucinógenos" por acreditar que são únicos no universo, o que poderia me trazer algum tipo de problema. Bora lá.

- Nomes estrangeiros: Giovanni e suas variações Geovane, Geovani, Geovanni, Gilvane, Giovane, Giovani;

- Homenagens a personalidades da história ou do entretenimento: Abiackel, Denner, Fagner, Lamarck, Maicon; Mararubia, Naiguel (Mansell?), Ranfrey (Bogart?), Ronnie, Ronny, Rony (Von?), Tchaikovsky;

- Extraídos da Bíblia: além dos manjadões, encontrei estas bonitezas (com grafia errada) - Calebe, Isequiel, Izaqueu, Jozué

- Motivados por analfabetismo funcional de funcionários de cartório (ou dos próprios pais): para não ficar só transcrevendo nomes, lembro um caso que talvez já tenha contado aqui no blog. O pai foi registrar o filhote e o oficial do cartório perguntou o nome do pimpolho. "Herbert". "Erberte?" "Não, Herbert - com 'H' e 'T' mudo". Na certidão saiu "Herbert Temudo".

- E chegamos à melhor parte da planilha. Tantos são os prenomes bizarros ou ridículos que fica difícil escolher. Aí vai uma amostra, a prova de que uma simples troca de letra pode arregaçar a vida de quem possui nomes como esses: Cloves, Hailton, Halbert, HalberttHalisson, Hemerson, Mhárcia, Sérgia(?), Vadina (???), Jonathan, Jonatas, Jonathan, Jonathas, Janatan (o pai devia estar bêbado!), 

A propósito da "família Jonathan", conheço um caso idiota. O pai da criança, ótima pessoa mas sujeito muito humilde e ignorante, deu ao primeiro filho o nome de Jonathan (nem faço ideia como é a grafia), mas exige que o menino seja chamado de "Djonathan". Muito chique!

Para o ridículo tipo "Ostentação" dois nomes femininos (nem preciso explicar essa escolha): Aloessandra e Karisstem. Para encerrar meu mergulho no mundo dos prenomes bizarros e ridículos, transcrevo os recordistas da criatividade, a "família Wanderley", com dez grafias diferentes: Valderley, Vanderlei, Vanderley, Vanderli, Walderlei, Wanderlai, Wanderlei, Wanderley, Wanderlin, Wanderly.

E agora é para acabar mesmo. Meu filho contou um caso ocorrido com um médico seu amigo. Durante um plantão em um posto de atendimento, o médico pegou a ficha e chamou o paciente: "Walt Disney". Ninguém se mexeu. Elevou um pouco a voz: "WALT DISNEY!" Um adolescente com cara de puto levantou-se da cadeira e corrigiu: "É Valdisnêi, pô!"


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

POLITICAMENTE INCORRETÍSSIMO

EXEMPLO
Correu mundo a imagem do ex-general croata Slobodan Praljac tomando cianeto de potássio depois de ouvir a sentença que o condenou a 20 anos de prisão por crimes contra a humanidade. Segundos antes de ingerir o veneno, o sujeito exclamou: "Não sou criminoso de guerra. Rejeito a decisão do tribunal". Foi bastante chocante.

Essa atitude me fez pensar nos políticos brasileiros enrolados com a Lava Jato, especialmente os que já foram condenados e que continuam alegando inocência. É mesmo uma pena que bons exemplos nem sempre sejam seguidos!


ELOGIO
Talvez por uma carência afetiva congênita ou por uma necessidade pré-natal de ser amado, o elogio para mim sempre foi um estímulo para melhorar, para produzir mais ou só um afago bem vindo na autoestima. Por isso, sempre procurei fazer o mesmo quando entendia que o elogio era merecido. Foi assim que eu descobri que a maioria das pessoas não estava acostumada a ser reconhecida de forma positiva. E parece que isso se agravou.

Nos tempos tediosamente corretos em que vivemos, onde a cada dia que passa parece haver menos espaço para o humor e a ironia, uma dos comportamentos menos recomendados é ser cortês, educado e cavalheiro, pois o cavalheirismo poderá ser interpretado como elitismo, esnobismo ou até assédio de qualquer tipo. Nas redes sociais então é que o bicho pega, tantas são as "voadoras" verbais despejadas nos comentários.

Mas a minha ideia não é fazer pregação. Meu negócio é passar o tempo. Por isso, imaginei três cenários envolvendo um senhor, um cavalheiro mais idoso, bem vestido, talvez um gentleman. Um elogio feito por esse senhor nos tempos equivocadamente corretos de hoje poderia ser assim interpretado:
- Se elogiar uma criança sorridente, os pais já ficarão de olho nele, pensando que pode ser um pedófilo disfarçado;
- Se elogiar a juventude e graça de uma adolescente, de uma jovem, talvez ela ache que o cara é um tiozão;
- Se elogiar a elegância e o porte de uma senhora idosa, ela talvez pense que pode se tratar de assédio sexual. Mas o pior mesmo é se gostar da ideia! É ruim!


quinta-feira, 30 de novembro de 2017

SMARTPHONE

Voltei do cardiologista com a receita de um novo medicamento (mais um!), pois os exames detectaram que fico com arritmia a partir de determinado nível de esforço físico. Bacana! Mais um aplicativo trazido pela idade.

A piada que define a velhice como sendo a “idade do condor” (com dor aqui, com dor ali, etc.), apesar de verdadeira e bem sacada é pouco abrangente e, venhamos e convenhamos, já está quase tão gasta quanto a frase “é pavê ou pra comê?”, que muitas pessoas utilizam como se fosse a coisa mais original do mundo.

Por isso, do alto dos meus sessenta e sete anos (talvez devesse dizer “do baixo”), resolvi dar uma melhorada, fazer um upgrade nesse conceito. Afinal, eu tenho a força! (não, isso é coisa do desenho do He-Man). Reiniciando, eu tenho a experiência, a expertise nessa área (é chique demais usar palavras em inglês!).

A ideia é a seguinte: para mim, a velhice lembra um pouco um smartphone, pois já vem cheia de “aplicativos” (mesmo que você não queira usá-los!). Esses “aplicativos” são os seguintes: vista cansada, calvície, perda progressiva de audição, dor nas articulações, barriga obscena, insônia e irritabilidade. Devo ter esquecido alguns, pois a perda de memória é outro desses aplicativos. Sem falar nos que surgem provocados pela ação da gravidade no corpo. A bem da verdade, mais em algumas partes que em outras, se entendem o que quero dizer. Aliás, deve ser essa a explicação de tantos senhores apresentarem uma expressão circunspecta, triste, grave. É o efeito da gravidade, lógico.

Por tudo isso que foi dito (devo ter esquecido alguma coisa!), por todos os aplicativos que traz consigo, a velhice pode mesmo ser comparada a um smart de grife, talvez até mesmo a um iPhone. Mas, por seus efeitos indesejados, talvez seja melhor chamá-la de Ai Phone.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

VALOR RELATIVO

Hoje recebi no Facebook um daqueles posts que lembram cometas, pois, apesar de antigos, periodicamente entram de novo no “sistema solar”.  O post relacionava a fortuna dos telepastores mais badalados. Fui conferir os dados na internet e descobri que são de 2013. Sem problema, pois teriam sido extraídos de uma reportagem da revista Forbes, transcrita pelo portal G1.

Segundo a reportagem, a “fortuna de líderes evangélicos chamou atenção da Forbes, que adora listas de bi e milionários. A revista americana Forbes – sinônimo de listas das pessoas mais ricas do mundo – debruçou-se sobre a fortuna dos ‘multimilionários’ líderes evangélicos brasileiros. Para a Forbes, a indústria da fé é um ‘negócio altamente lucrativo’ no Brasil, liderada pelo chefe da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo(...) ‘A religião sempre foi um negócio rentável. E se acontecer de você ser um pregador evangélico brasileiro, as chances de ganhar na loteria celestial são realmente muito altas hoje em dia’, diz a matéria

E aí vem esta lista:
                        Pastor / Igreja                                                           Fortuna
Edir Macedo (Igreja Universal do Reino de Deus)                   US$950 milhões
Valdemiro Santiago (Igreja Mundial do Poder de Deus)          US$220 milhões
Silas Malafaia (Igreja Assembleia de Deus)                             Us$150 milhões
R. R. Soares (Igreja Internacional da Graça de Deus)             US$125 milhões
Estevam e Sonia Hernandes (Igreja Renascer em Cristo)       US$  65 milhões

É muita grana! Segundo o post, o Valdemiro teria entrado com processo contra a divulgação dessas informações. Imagino que o real motivo do boiadeiro ter pensado nisso pode ser a humilhação imposta a todos pelo Edir Mais Cedo (“Deus ajuda a quem cedo madruga”). Porque, fazendo as contas, um Edir Macedo vale 4,3 Valdemiros! (ou 6,3 Malafaias; ou 7,6 R.R. Soares; ou 14,6 Hernandes).

É nessas horas que a beleza da matemática se manifesta (por isso, não consigo entender por que tanta gente detesta essa ciência. Serve para tanta coisa! Até mesmo para fazer piadas sem nenhuma graça).

Por exemplo, se você jogar os valores relativos do Edir e do Valdemiro em uma equação matemática, descobrirá que o resultado é exato. Olha só:

4,3 x 0 = 1 x 0. Perfeito!


terça-feira, 28 de novembro de 2017

ODE AO POLITICAMENTE CORRETO

Às vezes eu penso que a internet é como uma arena onde gladiadores de todo tipo se enfrentam. Algumas pessoas são tão agressivas que poderiam ser comparadas às feras que degustavam os cristãos no Coliseu. E tome reprovações de todo tipo a todo tipo de comportamento possível. “Ah, você é contra isso assim assim”? “Filho da puta!”, “Idiota!”, “Fascista!”, “Comunista!”, “Bunda Mole!”, “Banguela!”, “Peidorreiro!” (o menu pode ser bastante variado).

Mas creio que nada se compara ao embate entre Esquerda e Direita. A coisa é tão intensa que às vezes eu penso que a qualquer hora o tradicional fígado acebolado com jiló do Mercado Central será disputado na palitada, palito a palito, garfada a garfada, tantas são as pessoas que querem comer o fígado dos simpatizantes da ”agremiação” adversária.

Uma coisa, entretanto, tem me incomodado muito: aparentemente, tudo o que pode ser relacionado à Direita é “ilegal, imoral ou engorda”. Bom, é quase isso. Querem um exemplo? Ouvi hoje no rádio que a expressão “mi mi mi” é “criação da direita racista”. Agora fodeu! Fiquei sem saber o que pensar (a bem da verdade, tenho ficado muito sem saber o que pensar, mas acho que é coisa da idade). Pelo jeito, um eleitor do Lula jamais poderá fazer um deboche usando essa expressão. Como sou um cara da conciliação e do entendimento, sugiro que usem qualquer uma das seis outras notas musicais. Talvez dê certo.

Outro exemplo da má vontade com aqueles que valorizam o esforço individual e o mérito é o comportamento politicamente correto. O Millôr Fernandes foi brilhante (como sempre) quando disse isso em uma entrevista: "estamos nos aproximando perigosamente da neo-ditadura americana - a mais estúpida da história, tendendo a ficar violenta - a do politicamente correto. Mexe com tudo - cigarro, trepadas, segurança (o cinto), as piadas, as etnias. O cidadão americano hoje se auto-policia tanto quanto o cidadão soviético se policiava no stalinismo e o alemão no nazismo. (...) Os débeis lá de cima - de um lado e de outro - não percebem que quando um negro está sendo tratado com cuidado, é porque o outro o está colocando como inferior, no respeito, e ele está se colocando como inferior, na exigência". Quem disse isso foi o Millôr Fernandes!

Sem sacanagem, eu ODEIO essa expressão! Sempre disse que só não sou 100% politicamente incorreto por desprezar todo tipo de radicalismo (não se assustem, eu sou especialista em auto-citação sem pudor). Além do mais, apesar de ser monoglota, acredito que essa expressão importada é mal traduzida. Em português e em inglês existe a palavra drama (com uma pronúncia parecida com "drêma"). Vira e mexe, em algum programa legendado, eu ouço e leio essa palavra, mas o assunto tratado não se encaixa bem no meu conceito de "drama".

A mesma sensação eu tenho em relação ao famigerado "politicamente correto". Essa é uma expressão infeliz que me dá azia. Sei não, mas tenho uma desconfiança que deve haver alguma sutileza na forma original, não captada por quem a traduziu. Por mim, mudaria essa expressão para "comportamento socialmente desejável". Acabaria dando na mesma merda, mas seria mais inteligível. Mesmo que continuasse tão detestável e castrador quanto a versão original.

Mas agora estou meio cabreiro, pois li que “o discurso politicamente incorreto é, em oposição ao chamado politicamente correto, uma forma de expressão que procura banalizar os preconceitos sociais sem receios de nenhuma ordem. Em geral, confunde-se com opiniões de direita, mas pode ser também expressão de simples preconceitos cotidianos”.

Pô, já nem se pode mais ser politicamente incorreto em paz! Vacilou, já tem alguém te aplicando o carimbo de “Direita”, já fica com o rótulo de “fascista”. Falando em rótulo, os semideuses da internet, aqueles que se julgam donos da verdade absoluta usam tantos rótulos diferentes que até lembram lojas especializadas em cervejas artesanais.

Mas voltemos ao tema principal. Lógico que não posso ser politicamente correto, pois sendo de Direita já serei rotulado de idiota, fascista e capaz das maiores vilanias, tais como derrubar o sorvete de uma criança ou desenhar bigode no retrato da Gleise.

OK, admito que sou de Direita, mas uma Direita light, sem glúten e sem adição de açúcar. Centro-direita, entendeu? Por isso, como sou um sujeito da paz, não quero que me confundam com um bolsonarista juramentado (quase ia escrevendo “jumentado”, mas percebi a tempo).

Sendo essa minha intenção, resolvi aderir às praticas corretas. Por isso, resolvi propor novos parâmetros para o que o Washington Olivetto definiu como “politicamente saudável” (o cara é muito bom). Poderíamos começar estabelecendo um protocolo para “práticas sexualmente corretas”. O documento (tamanho médio, normal) estabeleceria que todas são corretas - até mesmo a abstinência, que é a tara sexual mais esquisita, segundo o Millôr.

Outra opção seria o comportamento soporiferamente correto. O contrário disso seria a situação em que o sujeito adormece no ônibus e começa a roncar alto, a babar pelo canto da boca ou, no extremo, a usar o ombro do vizinho como travesseiro. Isso, logicamente, seria intolerável.

Mais um exemplo civilizatório a ser observado: comportamento flatulentamente correto. O cidadão que preza esse valor evitará ao máximo peidar em público, especialmente se for dado a sons de corneta. Em elevadores, ambientes fechados e ônibus cheios em dias chuvosos, então, nem pensar! Jamais poderá aliviar-se se houver o menor risco de exalar odor de gambá molhado ou em estado adiantado de putrefação. Nada denuncia mais um sujeito flatulentamente incorreto que a expressão de cachorro-que-peidou-na-igreja estampada (ou “estampida”) em seu rosto.

E por aí vai. Falando um pouco mais sério, eu gostaria que a classe política brasileira adotasse comportamentos politicamente corretos, mas aí já é querer demais, não é mesmo? Talvez algum de meus "amigos de Facebook" se espante com minha falta de modos. Paciência. Como já disse em outra ocasião, o politicamente incorreto e o escrachado andam sempre de mãos dadas na minha mente. Mas os dois são heterossexuais.


sábado, 25 de novembro de 2017

RAÇÃO PARA PINTO

A cada dia que passa fico mais fã do deputado presidiário, o velho e bom Celso Jacob, pois ele é a personificação, a materialização do que tenho dito ultimamente – a realidade pode ser ainda mais louca que a mais delirante ficção.

Afinal, não bastasse ter sido condenado pelo STF (a suprema instância) a cumprir pena de sete anos por crime de falsificação de documento público e continuar exercendo impunemente seu mandato no Congresso, resolveu escangalhar de vez o limite entre o delírio e a realidade, ao tentar entrar na cadeia com queijo e biscoitos na cueca.

Pataquipareu!!! Um presidiário que continua deputado! Flagrado com queijo e biscoitos na cueca! É demais para minha cabeça...

Só falta agora ele tentar ficar livre da punição que recebeu, dizendo algo assim:
-Doutor, alivia aí, é só um queijinho, só uns biscoitinhos quebrados!

Aí o responsável pela revista poderia retrucar assim:
- O senhor está querendo insinuar que isso é ração pra pinto? 

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

LOUCURA, LOUCURA!

Conheço uma pessoa que trabalhou como assistente social durante algum tempo em um manicômio, de onde guardou as lembranças e os casos mais bizarros. Uma vez comentou que tinha ficado “especialista em pinto”, pois havia uma ala onde todos andavam nus. Por isso, já tinha visto "uns trezentos". De acordo com uma engraçadíssima expressão citada pelo cantor Tavito em um programa do Jô Soares, eram literalmente os “homens-pêndulo”.

Segundo ela, havia “pêndulos” de todas as cores, calibres, tamanhos e formas. “Tinha até uns bicudos, que lembravam a ponta de um lápis”. Outra coisa que chamou sua atenção foi a pele do saco de alguns, pois, graças ao mais absoluto alheamento da realidade, sentavam-se em qualquer lugar, inclusive no piso cimentado quente. Essa total alienação acabava provocando uma aparência gretada, fosca e cascuda na bolsa escrotal, lembrando, segundo ela, “pele de elefante”.

Mas o caso mais bizarro aconteceu quando alguns loucos começaram a pedir a extração de todos os dentes, talvez usando a desculpa de estarem doendo ou coisa parecida. Alertado pelo dentista (ou enfermeiro), um dos psiquiatras resolveu esclarecer esse comportamento anormal em um mundo já tomado pela total anormalidade. Chamou um por um e pediu explicações para aquela novidade.

E a solução do mistério foi essa: Cigarros. Todos os que pediram a extração total dos dentes fumavam - mas não tinham dinheiro para sustentar o vício. A solução era filar de quem tinha. E um senhor idoso que se enquadrava no perfil de “abonado” nem era tão louco assim. Ou melhor, era louco mas não era bobo. Por isso, trocava um cigarro por um boquete. Como diria meu amigo virtual Marreta: “Pãããããããta que o pariu!!!

Achou graça? Mas a história melhora ainda mais, pois, como o sacana podia escolher (afinal, a oferta era maior que a procura), selecionava só os banguelas, pois o “chupisco” era mais gostoso. Depois disso, imagino que o espertão deve ter tomado um esporro do psiquiatra e que a extração total de dentes passou a ser feita só com indicação expressa de um dentista.

É mole? Não, naquela época não era mole.

DEU BANDEIRA

O fodástico designer gráfico Hans Donner propôs uma alteração nos dizeres centrais da bandeira brasileira, acrescentando a palavra “AMOR” ao texto original, que ficaria assim: “AMOR, ORDEM E PROGRESSO”.

Achei bacanérrima a sugestão, mas, já que é um símbolo, acredito que nossa bandeira precisa passar por uma fase civilizatória intermediária. Minha proposta é, num primeiro momento, mudar para este modelo:


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

COMENTANDO AS RECENTES - 047 (GLÓRIA)

Às vésperas do Dia da Consciência Negra, a repórter Glória Maria publicou no Instagram uma frase atribuída ao ator americano Morgan Freeman, que diz o seguinte: "O dia em que pararmos de nos preocupar com Consciência Negra, Amarela, ou Branca e nos preocuparmos com Consciência Humana, o racismo desaparece”.Ótima frase, mesmo que não dê para saber se corresponde à realidade. Mesmo assim, cutucou todos os que têm "aquela velha opinião formada sobre tudo". O resultado é que só faltou ser crucificada,  tantas foram as críticas e reações negativas.    

O Millôr Fernandes ensinou que "livre pensar é só pensar". E a Glória Maria demonstrou ter essa qualidade cada vez mais rara hoje em dia: ela pensa! Sua reação às críticas foi um texto claro, lúcido e perfeito. A transcrição de suas palavras no Blogson só dignifica e valoriza este blog indigente, este blog da solidão ampliada. Não preciso comentar nada, pois o texto diz tudo o que eu penso e sinto. Bora lá.

Pra todos que não concordam com este pensamento do Morgan Freeman: não concordar é um direito de vocês! Mas pretender que todos pensem igual é no mínimo prepotente! Eu concordo totalmente com ele! Pra começar, ele não é brasileiro e não está citando o dia da Consciência Negra. Uma conquista nossa! Está falando de algo muito maior. Humanidade! Eu e ele também nascemos negros e pobres e conquistamos nosso espaço com muita luta é trabalho! Não somos privilegiados. Somos pessoas que nunca aceitaram o lugar reservado pra nós num mundo branco! Algum de vocês conhece a minha história e a dele? Se contentam em tirar conclusões e emitir opiniões equivocadas em redes sociais! Nós estudamos, lutamos, resistimos e combatemos todo tipo de discriminação! O preconceito racial é marca nas nossas vidas! Mas não tenho que mudar minhas ideias por imposição de quem quer que seja! Apagar este post???? Nunca!!!! Quem não concorda com ele ok! Acho triste mas entendam. As cabeças e os sentimentos graças a Deus não são iguais! Como lutar contra a desigualdade se não aceitamos as diferenças? Queridos vivam suas vidas e nos deixe viver a nossa! Temos que tentar sempre encontrar nosso próprio caminho! Sem criticar e condenar o dos outros! Cada um precisa combater o racismo da maneira que achar melhor! Lembrando sempre do direito e da opinião do outro!sou negra e me orgulho . Mas não sigo cartilhas . Minhas dores raciais conheci e combati sozinha! Sem rede social para exibir minhas frustrações! Tenho direito e dever de colocar o que penso num espaço que é meu! Não imponho e não aceito que me digam como devo viver ou pensar! 

FALTA DECORO

Quando eu era criança, minha mãe, ao ver um menino fazendo birra, dizia que o birrento estava “precisando de couro”. O curioso nessa história é que ela nunca nos bateu. Quando passávamos muito dos limites, um tapa no braço ou um beliscão resolviam o assunto. Hoje em dia os pais não podem corrigir os filhos pelo método Braille (usando a mão), mas algumas pessoas demonstram que deveriam ter sido exempladas na infância, para aprender a ter vergonha na cara.

Pertence a esse grupo (ou "bando" ou "quadrilha") a maioria dos parlamentares brasileiros. Aparentemente, nunca receberam educação nem um corretivo adequado de seus pais; usando as palavras de minha mãe, sempre precisaram “de couro”. Cresceram, foram eleitos e deu nisso que vemos atualmente. Porque hoje em dia, o artigo mais em falta no Congresso é decoro parlamentar (entenderam agora onde eu queria chegar?).

Mas não foi sempre assim. Em 1949 cassaram um deputado por quebra de decoro parlamentar. O motivo da cassação – dá até pena do coitado – foi ter sido fotografado fazendo pose, vestido de fraque e cueca samba-canção (gigantesca). Deveria ter sido cassado pelo ridículo da indumentária, nunca pela falta de decoro. Mas foi cassado, talvez porque os parlamentares da época possuíam um mínimo de vergonha na cara, prezavam e respeitavam o tal decoro parlamentar.

O tempo passou, a decência dos homens públicos caiu de moda e descobriu-se outra serventia para a cueca, depois de um assessor “paralamentar” de um deputado petista (só tem honesto no PT!) ser preso com US$100 mil dentro de sua “underwear”. Pensem bem, cem mil dólares equivalem a 325.000 paus em moeda brasileira. Creio que ninguém nunca imaginou que caberia tanto pau dentro de uma mesma cueca!

E agora, para arregaçar de vez a moral pública (entidade abstrata tão improvável quanto a existência de fadas e duendes), temos um deputado presidiário. O velho e bom Celso Jacob, do PMDB-RJ, mesmo condenado definitivamente pelo STF (a suprema instância) a cumprir pena de sete anos por crime de falsificação de documento público e dispensa de licitação, continua deputado, continua a exercer o seu mandato em Brasília, continua a receber auxílio-moradia, mesmo tendo que dormir na Papuda.

Segundo a revista VEJA, o "inocente" dorme em uma cela de 12 metros quadrados (pequena!) na ala dos “vulneráveis”. Mas, como pode alguém com “direito a foro privilegiado” ficar na ala dos “vulneráveis”? Mais invulnerável que ele só mesmo o Aécio e o Temer!

A reportagem informa ainda que toma banho (quente) no Congresso (na Papuda é banho frio), toma café e almoça do bom e do melhor no restaurante do Congresso e fica no celular o tempo todo (na Papuda não pode). Filé! E Suas Excelências não cassam o “desinfeliz”! Por isso, ao sair do presídio-dormitório para “trabalhar” e lembrar que foi condenado mas não foi cassado, poderá sorrir com ironia e dizer algo assim: “-Tomou, Papuda?

Em 02 de novembro o site UOL também publicou uma reportagem sobre as “dificuldades” desse deputado. O que mais chamou minha atenção foram estas informações (o grifo é meu): 
Mais de cinco meses depois da condenação, já transitada em julgado, a Mesa Diretora da Câmara e partidos com representação na Casa ignoram a decisão do STF. Embora a Constituição preveja que o peemedebista deve perder o mandato por ter sido condenado, a direção da Casa e os partidos, inclusive os da oposição, não apresentaram até agora no Conselho de Ética pedido de cassação do parlamentar.
O artigo 55 da Constituição estabelece que perde o mandato o deputado ou senador que "sofrer condenação criminal em sentença transitada em julgado". A perda, porém, não é automática após a condenação.
Para que o processo de cassação seja aberto, a Mesa Diretora da Câmara ou algum partido com representante no Congresso deve apresentar o pedido. A palavra final é do plenário, por maioria absoluta da Casa --257 deputados, no caso.

Antigamente, ser fotografado de cuecas era inadmissível, não podia, mas, hoje em dia, fraudar licitação é considerado normal (ou norma)? Como diria a finada Hebe Camargo cerrando os dentes: “- Gracinha!

A esculhambação, o corporativismo e a falta de vergonha na cara atingiram níveis tão altos no aquário onde vivem Suas Excelências que o cumprimento da lei magna tornou-se irrelevante para eles. Se fossem ainda crianças estariam precisando de couro. A falta de bom senso, decência e decoro dos nobres parlamentares faz com que mereçam uma boa surra, mesmo que seja só nas urnas. Aliás, essa é a única resposta que merecem receber da população.



domingo, 19 de novembro de 2017

MATEMÁTICA APLICADA

Uma vez eu recebi um e-mail profissional, que tinha no final a seguinte frase: “nós somos o resultado de nossas escolhas”. Na época, fiquei muito impressionado, mas depois descobri que é uma frase bem na linha daquela que diz que “o homem é filho do menino”.

Neste fim de semana, por não ter nada com que me preocupar (afinal, os parlamentares estavam gozando o feriadão de 15 de novembro!) nem nada que me ajudasse a passar o tempo - nem mesmo uma unha encravada ou dente siso - lembrei-me dessa frase e fiquei por ali pensando sobre as escolhas que fiz ao longo da vida e em que resultaram (não há um lugar específico para “ali”, isto é só um artifício para engordar um pouco o texto).

Depois de muito matutar sobre o assunto (uns 2,3 minutos), cheguei à conclusão de que deveria fazer uma releitura da frase inicial. No meu caso, ela ficaria assim: “eu sou o resultado da soma das minhas escolhas”.

Acho até que ficou bacana, mas tem um problema nesta história: ao fazer a soma das minhas escolhas descobri que essa operação é algébrica e, pior, o resultado que encontrei foi zero. Matemática filha da puta!

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

PATRULHEIRO TODDY

Quando eu era criança (o asteroide responsável pela extinção dos dinossauros ainda não tinha caído na Terra), revistas em quadrinhos e filmes de faroeste eram a coisa mais comum que existia. Incomuns ou raras eram as casas que possuíam televisores. Por conta disso, criou-se até a expressão “televizinho” para indicar os amigos e moradores mais desinibidos e sem noção que, confortavelmente acomodados nos sofás e cadeiras do feliz proprietário desse aparelho, assistiam a programação noturna da única emissora que existia em BH. No caso, a TV Itacolomi, dos Diários Associados.

A casa de minha avó onde morávamos não tinha televisão. Em compensação, no barracão (edícula) construído na lateral da casa, morava minha tia, recém-casada. E ela possuía. O resultado é que no final da década de 1950 e início de 1960 eu era freguês dos seriados em preto e branco passados à tarde e início da noite: Rin Tin Tin, Papai Sabe Tudo, O Último dos Moicanos, Maverick, Bat Masterson, Ivanhoé, Aventura Submarina, Os Intocáveis, Além da Imaginação e Patrulheiros Toddy

Posso ter-me confundido ou esquecido de algum, mas essas séries estão no Big Bang da televisão brasileira. Batman (zás! pow!), O Agente da Uncle, Zorro (o do hilário Sargento Garcia), Agente 86, Perdidos no Espaço, Jornada nas Estrelas, Família Adams, Bonanza e outros jurássicos foram exibidos quando eu já era “grande”, ou melhor, quando já estava às voltas com minha insegurança, medos e dramas da adolescência.

Recentemente, lembrei-me de um desses antigões, mais especificamente dos “Patrulheiros Toddy”. Eu estava no final da infância quando esse seriado foi exibido em BH. Os heróis eram os Texas Rangers americanos, sempre às voltas com algum criminoso e exibindo aquele chapelão ridículo, do tipo que o dono da Igreja Mundial e os cantores sertanejos gostam de usar. Muito bem.

Nos intervalos de cada episódio desse seriado, obviamente patrocinado pelo achocolatado que dava nome ao programa, entrava um ator brasileiro vestido de patrulheiro, tendo ao lado um ou dois meninos vestidos da mesma forma. Aquilo para mim era o máximo, pois eu sonhava (sonho irrealizado) ser também um patrulheiro Toddy. Os potes desse achocolatado vinham com pequenos brinquedos tipo estrela de xerife, essas coisas. Certamente devo ter implorado para minha mãe comprar um, para poder ganhar aquela estrela “fantástica”. Mas não me lembro de ter ganhado ou não, pois creio que nem todos os potes traziam esse brinquedo. Bela sacanagem!

Anos depois, já casado ou namorando, descobri que um dos conhecidos da família de minha mulher havia sido um dos patrulheirinhos que me causaram tanta inveja. É engraçado dar-me conta de que nunca conversei sobre isso com ele, apesar de ter utilizado seus serviços de contador por breve tempo. Só pode ter sido ato falho ou inveja recalcada!

Mas alguém pode estar se perguntando por que resolvi escarafunchar a memória para extrair essa bobagem. O primeiro motivo é que eu gosto de contar casos (mesmo que já não tenha muita coisa para contar), como bem sabem os dois leitores do Blogson. O segundo motivo não tem nada de nostalgia. Na verdade, vem acontecendo já há algum tempo, pois estou falando de patrulhamento, ou melhor, dos diversos tipos de patrulhamento que viraram moda no país.

Aliás, pensando bem, "patrulhas" cujo papel era perseguir e punir os diferentes, os independentes sempre existiram. Fariseus da Bíblia, Guarda Vermelha, Inquisição, Comando de Caça aos Comunistas, Guarda Bolivariana, Ku Klux Klan, milícias de todo tipo, etc. Caçar e queimar bruxas literal ou metaforicamente falando sempre foi sua missão e razão de existir. E depois ainda dizem que a espécie humana é gregária. Boa para criar presentes de grego, isso sim!  Mas hoje em dia a coisa ficou pior, graças à visibilidade que esses grupos ganharam nas redes sociais da internet.

“Redes sociais”, pensando bem, é um nome super adequado, pois a “pesca” é feita de forma indiscriminada, predatória, descartando-se as espécies que não interessam. Assim como na pesca de peixes, o que menos importa é preservar ou respeitar a integridade do descarte. Este papo está meio idiota e pouco consistente, mas o que eu estou tentando dizer é o seguinte: a ideia do Grande Irmão, do Big Brother é (na bem sacada observação do Marreta) uma coisa já ultrapassada, modesta, pouco ambiciosa, pois o que existe hoje é a Grande Irmandade, sempre pronta a devorar os independentes, os que não pensam ou seguem suas crenças e ideais.

A Grande Irmandade dos atores e famosos que se autointitulam intelectuais, por exemplo, é pródiga em perseguir e condenar os colegas considerados "de Direita", como se fossem os leprosos bíblicos dos dias de hoje. Curiosamente, nos Estados Unidos já houve um movimento semelhante, só que no sentido inverso, quando os considerados "comunistas" eram proibidos de trabalhar. Prova de que a Intolerância não precisa de ideologia ou religião para vicejar, para se manifestar e atacar.

Eu me entristeço ao observar o avanço do comportamento classificado como "politicamente correto", sinal que a humanidade está ficando a cada dia mais mal humorada, cada dia menos capaz de rir de si mesma. Ninguém poderia ser julgado e perseguido por ter  pensamentos racistas, sexistas, homofóbicos ou iconoclastas. E daí? Se esse comportamento não traz prejuízo real a ninguém, qual é o problema de alguém ter esse tipo de pensamentos e externar isso em sua vida privada?

Eu sou católico praticante (apesar de ter lido "Sapiens"), mas já fiz e já ri muito de piadas sobre religião, Jesus, etc. Da mesma forma, sou radicalmente contra o machismo, o racismo e a homofobia, mas já rolei de rir com piadas sobre isso. E ri justamente porque são piadas. E foram contadas sem a presença dos que poderiam ofender-se com elas.

Uma vez criei a expressão "Síndrome da Divindade Adquirida" (que era também uma piada) para indicar o comportamento de pessoas que acreditam que o mundo é ou deveria ser "à sua imagem e semelhança", segundo suas crenças. Os fundamentalistas religiosos são particularmente bons nisso, mas não há verdades absolutas, não há certezas absolutas. Por isso, divirto-me quando vejo no rosto de conhecidos e pessoas próximas expressões de perplexidade e espanto provocados por algum comentário que faço.

Hoje em dia, quando o comportamento politicamente correto vai aos poucos se transformando em epidemia - ou até pandemia - vejo pessoas que lembram o Giordano Bruno ao defender de forma intransigente sua independência intelectual, não se importando com as eventuais consequências. Esse é o caso de meu amigo virtual Marreta, que viu seu blog “colocado na fogueira”, mas não se intimidou nem se rendeu.

Eu, particularmente, me identifico mais com o Galileu Galilei, que para não sentir sua pele pururucar, viu-se obrigado a renunciar publicamente à sua descoberta de que a Terra não era o centro do Universo. Por isso, segundo a lenda (lenda mesmo), teria murmurado algo como "apesar disso, ela se move". Eu me vejo assim. Sigo e respeito convenções, por mais idiotas que as considere, mas sigo. Por dentro, entretanto, sou livre. E enquanto não inventarem um rastreador de pensamentos politicamente incorretos, continuarei livre, nunca patrulhando nada nem ninguém, pois só uma vez, só uma vez na vida eu quis ser patrulheiro. Patrulheiro Toddy.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

COMENTANDO AS RECENTES - 046 (LEILÃO)

Em 16/11/2017 o portal G1 divulgou esta notícia:

“A casa de leilões Christie's leiloou, na quarta-feira (15), por US$ 450,3 milhões, um quadro pintado por Leonardo da Vinci há cinco séculos, ‘Salvator Mundi’, a única obra do artista italiano mantida em coleções privadas.O quadro, que chegou a fazer parte da coleção do Rei Carlos I da Inglaterra, acabou nas mãos de um bilionário russo, que o comprou em 2013 por US$ 127,5 milhões”.

O único comentário que me ocorre é este: “Jesus Cristo, isso tudo?” Ou melhor, “Jesus, Christie's, isso tudo?”