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quinta-feira, 25 de junho de 2026

FUCK!

 
Minhas netas de sete e oito anos são educadas pelas mães para não dizerem palavrões, pois são palavras vulgares, “palavras grandes”. E elas têm razão, pois o uso frequente de palavras de baixo calão pode ser deselegante, especialmente se ditas em certos ambientes. Digamos assim, ambientes da alta nobreza inglesa.
 
Particularmente, defendo a ideia de que se deve adequar o vocabulário ao ambiente. Se, por exemplo, converso com pessoas muito humildes e ouço um “nós vai” ou “a gente vamos”, já mando logo um “é nóis!”, pois para mim o que importa é a comunicação. Claro que isso muda de figura quando escrevo (e escrevo cada vez menos), pois aí já fico ligado em não deixar passar qualquer tipo de erro (nem sempre com sucesso). Obviamente, evito palavras “eruditas”, cultas, para não soar pedante. E também, confesso, por não ter intimidade com elas. Para mim, a escrita ideal deve ser fluida e agradável como uma crônica do Rubem Braga ou um texto do Vinicius de Moraes (difícil é conseguir!). E, cá pra nós, ninguém precisa escrever no jurisdiquês de um ministro do STF ou  como se estivesse fazendo uma dissertação acadêmica.
 
Os (escassos) leitores talvez estejam se perguntando aonde eu quero chegar com esta gororoba. E eu, constrangido, terei que dizer que não faço a menor ideia, pois fui assaltado por um tipo de psitacismo, aquele em que você fala, fala como um papagaio, mas não diz porra nenhuma. Perdão, deixei passar um palavrão. Mas tudo bem, pois hoje descobri que até a finada rainha da Inglaterra um dia disse “fuck”, palavra que em sua língua parece servir para tudo – substantivo, adjetivo e advérbio. E é sobre isso que irei falar.
 
Uma vez fiquei sabendo que na Inglaterra, mais especificamente em Londres, há vários sotaques (accents), de acordo com a condição sócio-econômica do falante e com o local onde são utilizados. Essa situação foi exibida no divertido filme “My Fair Lady” (não vou falar do filme). Mas o fato é que existe um “sotaque da rainha” (ou “do rei”), conhecido nas rodas boêmias de Londres como RP - Received Pronunciation, a línguagem da nobreza, da aristocracia.
 
Poderia dizer como os franceses que a “noblese oblige”, mas estaria dizendo um palavrão quase igual ao “fuck” da rainha, pois há uma “lista negra” de palavras e expressões que não devem ser ditas pela monarquia inglesa. E este é o assunto deste post (finalmente!).
 
Descobri que há uma espécie de protocolo que indica quais palavras e expressões não podem ser ditas ou usadas pela família real (morri de inveja do Brasil não ter um imperador). Mas chega de escrever, cansei. A partir de agora é só transcrição, só copy-cola:
 
Segundo especialistas, há um protocolo sobre quais palavras a família real pode usar. E a lista de termos proibidos vai muito além dos palavrões! No livro "Watching the English: the hidden rules of English behaviour", Kate Fox conta alguns termos que eles não podem usar:
- Toilet, por exemplo. Isso mesmo: a palavra em inglês para "privada" é proibida na família real, segundo a autora. Mas o motivo não tem a ver com a vulgaridade! É porque o termo tem origem francesa. Esse também é o motivo pelo qual as palavras "pardon", "perfume" e "lounge" foram proibidas.
- Pregnant é outra; a palavra significa "grávida", e segundo a revista US Weekly era considerada vulgar pela rainha. Ela costumava dizer que mulheres grávidas estavam "in the family way", expressão que literalmente significa "no caminho da família".
- Mum e dad: Muita gente estranhou o fato de Charles 3º ter chamado Elizabeth 2ª de "mamãe" ("mama") em seu primeiro discurso como rei. Na verdade, essa era uma preferência da própria rainha. Os filhos dela também chamavam Philip de "papa", inglês para "papai", mesmo depois de adultos.
- Tea: Talvez esse seja o item mais chocante: a família real britânica não pode usar a palavra inglesa para "chá"? Mas não é bem assim: em partes pobres do Reino Unido, a refeição feita entre as 17h e as 19h é chamada de "tea", algo como "chá da tarde". Mas não na família real! Eles preferem "jantar". Segundo a autora, a lista de palavras proibidas foi montada de acordo com as preferências da rainha Elizabeth 2ª, que ocupou o trono por 70 anos. Talvez as coisas mudem agora que Charles 3º é o rei — mas não espere ouvir a coroa falando palavrões tão cedo!
 
Para encerrar este post, a explicação para o (ou a) fuck da rainha (transcrevendo de novo): Em 2020, o ator Brian Blessed chocou o público ao contar que já ouviu a rainha usando a palavra "fuck", o equivalente em inglês para "foda". No entanto, o caso foi raríssimo e não foi bem um xingamento: ela estava explicando a etimologia do termo. Ele disse que Elizabeth 2ª riu lembrando uma vez em que ele usou o palavrão ao vivo na televisão, e acrescentou: “O que eu gostaria de dizer a você é que 'fuck' é uma palavra anglo-saxônica, e significa espalhar a semente”.
 
Chique demais, não acharam? Pensando bem, por culpa se sua origem francesa não é chique dizer chic na corte. Talvez o rei Charles e sua turma digam elegant, refined, distinguished ou até classy, mas chic, nem pensar!
 
E assim, Jotabê – um monoglota de carteirinha – termina este post, ou melhor, esta crônica.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

HIPERSENSIBILIDADE ONOMÁSTICA

 
Talvez, graças à sonoridade pornográfica e vulgar do meu nome, devo ter adquirido e até alimentado uma “hipersensibilidade onomástica”, pois sempre fico meio descompensado quando descubro novos nomes bizarros, estrambóticos. Isso aconteceu quando me contaram de uma senhora que batizou assim seus filhos: Gleizon, Gleidersen e Gleiber. "Jura?", pensei comigo. Que ela tinha na cabeça? Substâncias ilícitas? Intoxicação alcoólica? Esquizofrenia não medicada, Alzheimer prematuro, depressão pós-parto? Ainda bem que ela provavelmente nunca saberá da existência do Blogson!
 
Nessas horas, é inevitável: eu logo me lembro de meu nome  e apelido, que recebem uma carga quase igual de rejeição, sendo a maior delas para o oxítono “Zé”. Porra, por que tinha de ser só Zé? Sinceramente, hoje eu penso que este apelido tem uma toxidade insuspeitada para os felizardos que foram batizados como Gleizon, Gleidersen e Gleiber, por exemplo.
 
Podem acreditar: depois de refletir muito sobre isso, cheguei à conclusão de que os apelidos oxítonos terminados em “é” são tóxicos, envenenam quem os possui. Zé, Zezé, Mé, Mané, Dedé, Jujé, Tizé, Bodé nenhum se salva. Por isso, criei um neologismo para identificá-los: são apelidos oxítonos tóxicos, ou “toxítonos” (de nada, Houaiss). Poderia até adotar um lema: “não deixe que seu filho já comece a usar drogas ainda no berçário”.
 
Ou, falando seriamente, o nome que os pais escolhem para os filhos deveriam servir para homenagear a criança, jamais um parente, um ídolo do pai ou da mãe, ou um político. Meu irmão chama-se Eduardo em homenagem ao brigadeiro Eduardo Gomes, candidato derrotado à Presidência da República em 1945 e 1950. Como não ganhou, o tempo ajudou a esquecer essa homenagem. Agora se um fanático condenasse seu filho ou filha a assinar seu nome como “Messias” ou “Valdemar” e sua filha como “Janja” ou “Gleise”, isso sim, seria uma puta sacanagem.
 
Esqueci de dizer que o autor deste texto atende pelo nome de José Botelho Pinto.

sábado, 16 de maio de 2026

AINDA PROCURANDO UM APELIDO

 
Cada vez mais eu me convenço de que raramente ou nunca terá a segunda chance de causar uma primeira boa impressão na gata de seus sonhos o infeliz que se chama José. Podem rir os insensíveis, mas é verdade.
 
Pensem bem, qual a chance do sujeito ser chamado de “Jósé” ou “Jusé” de forma carinhosa pela mulher que deseja e ama? Impossível! Basta um segundo para já ser chamado de Zezinho, Zezito ou o genérico Zé. Esse cara sou eu!
 
Na adolescência morando em uma casa que não tinha telefone, eu me martirizava imaginando atender o inexistente aparelho, ouvir a pergunta clássica: "Quem está falando?” e ser obrigado a responder: “É o Zé”. E quando a neurose estava mais descontrolada, ainda imaginava a voz do outro lado perguntando “qual Zé?”, como houvesse mais de um morando ali. Pensando bem, o nome de meu avô era Francisco José, mas só era conhecido como Chico ou Chiquinho, jamais o insípido José.
 
Tá rindo? Esse medo neurótico era real. Fico até pensando que se tivesse sido paciente do Sigmund Freud ele teria ampliado seus estudos ao descobrir em mim uma telefonofobia, ou mesmo a existência de uma nova síndrome, provocada pela necessidade de dizer “alô”. Pegaria até bem chamá-la de “alôndrome”. Talvez assim eu ficasse famoso, com nome em publicações científicas - mesmo que associado a distúrbios psiquiátricos
 
Continua rindo, né, palhaço? Pois eu continuo minha pesquisa para encontrar um apelido digno e carinhoso, diferente dos clássicos “Mozão” e “Xuxu” (o amor tem uma tendência a resvalar para a breguice). Por ter um blog muito bem frequentado, cheguei a pensar no eletrônico “e-Zé”, mas soou caipira demais, confundido que seria com "Izé" (“- Izé, vem cá!”). Aí eu pensei em criar um nicname (isto é só para irritar os puristas) associando as duas primeiras letras do meu nome completo, que é como todos sabem, José Botelho Pinto Coelho (“ah, como era grande!”).
 
E é este cuidadoso estudo que submeto aos leitores que quiserem me ajudar. A coisa fica assim:
José com Botelho: JoBo; José com Pinto: JoPi ou Jopin; José com Coelho: JoCo ou JoCó.
Segunda opção: Botelho com José: BoJo; Botelho com Pinto: Bopi ou Bopin; Botelho com Coelho: BoCó ou BoCo.
Terceira opção: Pinto com José: PiJó ou PinJo; Pinto com Botelho: PiBo; Pinto com Coelho: PiCo.
E finalmente, a última versão: Coelho com José: CoJo; Coelho com Botelho: CoBo, Coelho com Pinto: Copi ou Copin.

Ou seja, vai ser ruim de nome assim lá na PQP! E o prenome de traz para a frente também fica uma merda (Esoj). Mas desgraça mesmo seria dobrar as duas primeiras letras: BoBo, PiPi ou PinPin e CoCo, CoCó ou Cocô. Aí já dá até ameaça de enfarte.
 
A última chance seria JoJo, nome de um personagem da música Get Back, dos Beatles: JoJo (Jojo was a man who thought he was a loner...). Mas JoeJoe não pode, pois um sobrinho (que nem se chama José!) teve essa ideia antes. Por direito de primogenitura onomástica, JoeJoe fica com ele.
 
Sem sacanagem, apesar de estar no ocaso da minha vida, estou pensando em encarar a burocracia e mudar meu nome para Alain Brad, referência explícita aos ícones da beleza masculina Alain Delon e Brad Pitt. Foda seria se algum filhadaputa começasse a me chamar de Alambrado.
 
Em resumo, dura é a vida de um José puro, on the rocks!

quinta-feira, 7 de maio de 2026

OCULTO

 
Outro dia fiquei chocado com a cara de pau, a desfaçatez, com o ego gigantesco exibido pelo presidente de um país por aí, que resolveu imprimir sua cara de idiota em passaportes, em papel moeda e até, aparentemente, em moedas de ouro. Essa atitude me fez pensar no culto à personalidade que outros líderes de maior ou menor relevância mundial incentivaram e até impuseram – Stalin, Mao Tse-Tung, Hitler, Sadam Hussein, Mussolini e por aí vai. O problema é que todos os citados eram execráveis, péssimas companhias para o maluco da vez.
 
O que se deduz disso é a existência de vaidade exacerbada, um egocentrismo doentio, quase patológico. Como dizia um antigo colega, esse pessoal se acha ou se achava tão foda que só faltava peidar cheiroso. Avaliação vulgar, mas precisa. E agora surge a pergunta: por que eu estou me preocupando com isso? Para falar a verdade, porque também padeço de excesso de vaidade (como cantou o Ultraje a Rigor, “eu me amo, não posso mais viver sem mim”!), narcisismo descontrolado e presunção nível cinco congênita.
 
E sabe o que isso significa? Que eu resolvi brindar as pessoas que acessam este blog (são milhares!!!) com duas imagens geradas pelo ChatGPT. Afinal, se até o Jean Jacques Rousseau, por que Jotabê  também não pode roussar?
 
A primeira imagem é um mosaico em estilo bizantino que teria sido encontrado em escavações recentes realizadas em Pompeia. Como cantou o Raul Seixas, "eu nasci há dez mil anos atrás". Se na Bíblia pode isso, por que eu também não posso, não é mesmo? Se quiserem, podem até me chamar de Highlander, que eu nem ligo. A segunda imagem foi encontrada em um nicho oculto da catedral da Sagrada Família, projetada pelo arquiteto catalão Antoni Gaudí. Que mais? Já chega, né?
 
Uma coisa eu posso garantir: nunca desejei um culto à personalidade. Para mim, já estaria de bom tamanho se houvesse “oculto da personalidade”. E fim. 




sábado, 2 de maio de 2026

UM NOME À PROCURA DE UM APELIDO

 
As pessoas normais, aquelas que eu assim considero por terem nomes que dispensam complemento, ou mesmo as que possuem nomes compostos, não conseguem imaginar o desconforto de quem tem apenas o prenome José. Pior ainda se o sobrenome remete a uma expressão vulgar, chula.
 
A propósito, a palavra “chula” já tem uma sonoridade meio sacana, permitindo várias associações que a boa educação não recomenda, não é mesmo?
 
Maaas, voltando ao meu nome, infelizmente eu fui registrado como José Botelho Pinto, um constrangimento que me acompanhou a vida toda, porque José remete imediatamente a “Zé”, que algumas pessoas sem compostura complementam com “Mané”, “Ruela”, “Ninguém”, “Cai n’água” e todo tipo de associação depreciativa que conseguem inventar.
 
Por outro lado, “Botelho Pinto” dispensaria comentários, mas sou obrigado a mencionar a existência de “sinônimos” que um colega filhadaputa resolveu criar ainda no final da adolescência – e que, por economia e um mínimo de decência, darei apenas um exemplo: "Coloquelho Pau". No final, já cansado de me chamar de todo tipo de vulgaridades e ofensas que conseguiu imaginar, acabou me chamando apenas de “Censurado”.
 
Ainda mais jovem, tentei algumas vezes criar pseudônimos “de gente”, apresentando-me para as menininhas que desejava impressionar como se meu nome de batismo fosse “Ricardo” ou “Ronaldo”, mas não fui bem-sucedido nas minhas investidas, pois não “peguei” ninguém. Creio que eu era tão inexperiente e desinteressante que nem Covid eu pegaria, se a mamoninha assassina já tivesse surgido.
 
Ao criar este blog insosso, acabei dando vida a um avatar que é conhecido por Jotabê. Mas estou cansado desse apelido e de suas variantes Jotabezinho e até Jotabeijinho. Por isso tenho pensado em criar um novo e charmoso apelido, apesar da crescente falta de criatividade.
 
Por isso, fiquei super entusiasmado ao saber de uma curiosa pesquisa realizada com ultrassom em hospitais de Madri: a medição de vários pênis flácidos e eretos, depois agrupados em três perfis. Impressionaram-me as conclusões desse estudo – não pelos aspectos científicos, mas pela utilidade prática que podem ter no meu caso. E, confesso, fiquei feliz pela oportunidade de criar um “nickname” que permita substituir o vulgar e obsceno Botelho Pinto.
 
Segundo o estudo realizado, há três tipos de pênis, assim designados:
- “Grower” ou pênis “de sangue”: embora de aparência humilde quando flácidos, podem aumentar até 56% do tamanho original;
- “Shower” ou pênis “de carne”: são aqueles que já parecem grandes em situação de flacidez, mas, na hora do “vamos ver” crescem só até 31%;
- E os mezzo a mezzo que representam a maioria, nem tanto ao céu nem tanto ao mar.
 
Encharcado de tanta cultura inútil, talvez seja uma boa adotar “Grower” como apelido, porque, acho que fica muito elegante e menos chamativo ser chamado de “Botelho Grower” – mesmo que nesta fase da minha vida os resultados alcançados não sejam tão espetaculosos...

 

 

terça-feira, 21 de abril de 2026

CONTO DE FADAS

 
Como todo mundo deve se lembrar, os contos de fadas lidos na infância são cheios de reis, princesas, magos e feitiços, não é mesmo?
 
Mas, quando alguém, inspirado nessas leituras, resolve escrever um conto de fadas com conteúdo adulto, acaba produzindo um conto de fodas.
 
(Jotabê, com seus trocadilhinhos de azedar o fígado)

quinta-feira, 16 de abril de 2026

PÃO DE QUEIJO OU FEIJOADA

 
Talvez muitos não saibam, mas o genial Vinicius de Moraes escreveu um poema delicioso, ensinando sua receita de feijoada para a culinarista Helena Sangirardi. Tempos depois o Chico Buarque também apresentou sua versão musical de uma boa feijoada, na música "Feijoada Completa".
 
Como até mesmo os pinguins de Madagascar ou os pigmeus bandar já sabem, Jotabê é totalmente desprovido de caráter - que resolveu trocar por uma dose dupla de falta de senso e um copo de leite com toddy (gelado, por favor!).
 
Por isso, resolveu aventurar-se no ramo da picaretagem explícita e da gigolagem descarada, ao pedir à Suno AI que musicasse uma receita de como fazer pãozim de queijo.
 
Alguém com um pouco mais de bom senso poderá se preocupar com a saúde mental jotabélica e perguntar por que pedir a uma inocente IA para musicar uma receita culinária, ainda mais de pão de queijo!
 
"Vingança", é a resposta. Movido pela fome e irritado por sempre pedir à IA um ritmo para musicar seus poemas e receber outro totalmente diferente, Jotabê resolveu unir o inútil ao desagradável. E por que pão de queijo? Porque eu sou mineiro, uai!
 
Para que este post não seja imediatamente considerado intragável e impalatável, resolvi publicar a receita do Vinicius e a musiquinha da Suno. Quer mais o quê?
 
FEIJOADA À MINHA MODA
Amiga Helena Sangirardi
Conforme um dia eu prometi
Onde, confesso que esqueci
E embora — perdoe — tão tarde
 
(Melhor do que nunca!) este poeta
Segundo manda a boa ética
Envia-lhe a receita (poética)
De sua feijoada completa.
 
Em atenção ao adiantado
Da hora em que abrimos o olho
O feijão deve, já catado
Nos esperar, feliz, de molho.
 
E a cozinheira, por respeito
À nossa mestria na arte
Já deve ter tacado peito
E preparado e posto à parte
 
Os elementos componentes
De um saboroso refogado
Tais: cebolas, tomates, dentes
De alho — e o que mais for azado
 
Tudo picado desde cedo
De feição a sempre evitar
Qualquer contato mais... vulgar
Às nossas nobres mãos de aedo
 
Enquanto nós, a dar uns toques
No que não nos seja a contento
Vigiaremos o cozimento
Tomando o nosso uísque on the rocks.
 
Uma vez cozido o feijão
(Umas quatro horas, fogo médio)
Nós, bocejando o nosso tédio
Nos chegaremos ao fogão
 
E em elegante curvatura:
Um pé adiante e o braço às costas
Provaremos a rica negrura
Por onde devem boiar postas
 
De carne-seca suculenta
Gordos paios, nédio toucinho
(Nunca orelhas de bacorinho
Que a tornam em excesso opulenta!)
 
E — atenção! — segredo modesto
Mas meu, no tocante à feijoada:
Uma língua fresca pelada
Posta a cozer com todo o resto.
 
Feito o quê, retire-se caroço
Bastante, que bem amassado
Junta-se ao belo refogado
De modo a ter-se um molho grosso
 
Que vai de volta ao caldeirão
No qual o poeta, em bom agouro
Deve esparzir folhas de louro
Com um gesto clássico e pagão.
 
Inútil dizer que, entrementes
Em chama à parte desta liça
Devem fritar, todas contentes
Lindas rodelas de linguiça
 
Enquanto ao lado, em fogo brando
Desmilinguindo-se de gozo
Deve também se estar fritando
O torresminho delicioso
 
Em cuja gordura, de resto
(Melhor gordura nunca houve!)
Deve depois frigir a couve
Picada, em fogo alegre e presto.
 
Uma farofa? — tem seus dias...
Porém que seja na manteiga!
A laranja gelada, em fatias
(Seleta ou da Bahia) — e chega.
 
Só na última cozedura
Para levar à mesa, deixa-se
Cair um pouco da gordura
Da linguiça na iguaria — e mexa-se.
 
Que prazer mais um corpo pede
Após comido um tal feijão?
— Evidentemente uma rede
E um gato para passar a mão...
 
Dever cumprido. Nunca é vã
A palavra de um poeta... — jamais!
Abraça-a, em Brillat-Savarin
O seu Vinicius de Moraes.
 

PÃO DE QUEIJO À MODA SUNO

É PRECISO SABER VIVER - TITÃS

 E como isso pode ser difícil! Quem espera que a vida Seja feita de ilusão Pode até ficar maluco Ou morrer na solidão É preciso ter cuida...