Recentemente, em
um velório, contaram-me uma historinha que bem poderia servir de inspiração
para o "anjo pornográfico" Nelson Rodrigues. A cena é esta: algum
tempo depois de ter perdido a esposa com quem viveu centenas de anos,
o homem idoso sentiu necessidade de ter contato novamente com um corpo
feminino. "Sacudidão" como ele se auto-avaliava, fez o movimento
nelsonrodriguiano em seu tabuleiro: declarou para a cunhada – uma senhora quase
tão idosa quanto ele, obesa mórbida e já atropelada pelo tempo implacável – seu
desejo de que ela fosse morar com ele. Não saberia dizer se ela riu na
sua cara, mas riu ao contar para alguém a tentativa de sedução de que fora
"vítima".
Ao saber dessa
história, pensei que a atração física pela cunhada vinha de longe, silenciosa,
gulosa, talvez do tempo em que ela era uma jovem mais atraente que a idosa
maltratada pelo Tempo em que se transformou. E me lembrei do título de um livro
publicado por um dos membros mais ilustres do "Clube da Esquina": "Os sonhos não envelhecem”.
Sem paciência
para escrever o que me pareceu uma boa história para o Blogson, municiei o
ChatGPT com essas informações, acrescidas de meus delírios pessoais. E saiu
esta crônica, escrita a quatro "mãos", pois eu tentei torná-la ainda
mais doentia. E falta um detalhe: todos já morreram.
A PIZZA
Ela adorava pizza. Era a única coisa de que ele tinha certeza. O resto
era conjectura.
Havia anos ele alimentava por ela um desejo que, de tão antigo, já
adquirira a dignidade de uma doença crônica. Ela sabia. Ele sabia que ela
sabia. E, entre os dois, existia aquele silêncio que é muito mais eloquente do
que qualquer confissão.
Um dia, ele telefonou:
- Quer vir comer uma pizza?
Ela aceitou. Ele desligou e ficou alguns segundos olhando para o
telefone. Depois, comprou a melhor pizza que encontrou. Comprou também cerveja.
Três latões, quantidade razoável para uma noite inocente.
Quando ela chegou, trouxe consigo aquela intimidade que sempre tivera
com ele. Conversaram, riram, comeram. A segunda cerveja desapareceu
rapidamente. A terceira foi aberta quase como quem assina um tratado.
Em determinado momento, ele disse:
- Se você quiser, pode dormir aqui. Está tarde.
- E você?
- Eu durmo em outro quarto.
Ela riu.
- Com a porta trancada?
- A sua, naturalmente.
- Você continua impossível.
Ele sorriu.
- Nunca prometi melhorar!
Mais tarde, ela entrou no quarto.
Ele entrou no outro. Fechou a porta. Deitou-se e ficou olhando para o
teto. Do outro lado do corredor, nenhuma porta se abriu. Nenhum passo, nenhuma
voz, nada.
Passaram-se dez minutos. Vinte. Meia hora.
Então ele ouviu um barulho – a geladeira.
Levantou-se, foi até a cozinha e encontrou a cunhada diante dela,
procurando água.
- Não consegue dormir?
- Não.
Ele também abre a geladeira.
Ficam os dois em silêncio, iluminados pela luz branca do aparelho.
Ela pergunta:
- Você ainda pensa naquela bobagem?
- É claro! Como diz a música, "os sonhos não envelhecem"!
Ela fecha a geladeira.
- Eu já te disse que isso nunca vai acontecer.
- Pois é...
Ela caminhou de volta para o quarto.
Na porta, virou-se:
- Boa noite.
- Boa noite!
Ela fechou a porta.
Ele voltou para a cama, com a resignação dos homens que passam a vida
inteira confundindo esperança com estratégia:
- Água mole em pedra dura...
Depois de alguns minutos, acrescentou:
- Esta pedra, pelo visto, é granito!
E com uma expressão acanalhada no rosto, completou:
. Mas eu ainda vou furar essa pedra!
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