quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O VELHO, O DESEJO E A PIZZA

 
Recentemente, em um velório, contaram-me uma historinha que bem poderia servir de inspiração para o "anjo pornográfico" Nelson Rodrigues. A cena é esta: algum tempo depois de ter perdido a esposa com quem viveu centenas de anos, o homem idoso sentiu necessidade de ter contato novamente com um corpo feminino. "Sacudidão" como ele se auto-avaliava, fez o movimento nelsonrodriguiano em seu tabuleiro: declarou para a cunhada – uma senhora quase tão idosa quanto ele, obesa mórbida e já atropelada pelo tempo implacável – seu desejo de que ela fosse morar com ele.  Não saberia dizer se ela riu na sua cara, mas riu ao contar para alguém a tentativa de sedução de que fora "vítima".
 
Ao saber dessa história, pensei que a atração física pela cunhada vinha de longe, silenciosa, gulosa, talvez do tempo em que ela era uma jovem mais atraente que a idosa maltratada pelo Tempo em que se transformou. E me lembrei do título de um livro publicado por um dos membros mais ilustres do "Clube da Esquina": "Os sonhos não envelhecem”
 
Sem paciência para escrever o que me pareceu uma boa história para o Blogson, municiei o ChatGPT com essas informações, acrescidas de meus delírios pessoais. E saiu esta crônica, escrita a quatro "mãos", pois eu tentei torná-la ainda mais doentia. E falta um detalhe: todos já morreram.
 
 
A PIZZA
 
Ela adorava pizza. Era a única coisa de que ele tinha certeza. O resto era conjectura.
 
Havia anos ele alimentava por ela um desejo que, de tão antigo, já adquirira a dignidade de uma doença crônica. Ela sabia. Ele sabia que ela sabia. E, entre os dois, existia aquele silêncio que é muito mais eloquente do que qualquer confissão.
 
Um dia, ele telefonou:
 
- Quer vir comer uma pizza?
 
Ela aceitou. Ele desligou e ficou alguns segundos olhando para o telefone. Depois, comprou a melhor pizza que encontrou. Comprou também cerveja. Três latões, quantidade razoável para uma noite inocente.
 
Quando ela chegou, trouxe consigo aquela intimidade que sempre tivera com ele. Conversaram, riram, comeram. A segunda cerveja desapareceu rapidamente. A terceira foi aberta quase como quem assina um tratado.
 
Em determinado momento, ele disse:
 
- Se você quiser, pode dormir aqui. Está tarde.
- E você?
- Eu durmo em outro quarto.
 
Ela riu.
 
- Com a porta trancada?
- A sua, naturalmente.
- Você continua impossível.
 
Ele sorriu.
 
- Nunca prometi melhorar!
 
Mais tarde, ela entrou no quarto.
 
Ele entrou no outro. Fechou a porta. Deitou-se e ficou olhando para o teto. Do outro lado do corredor, nenhuma porta se abriu. Nenhum passo, nenhuma voz, nada.
 
Passaram-se dez minutos. Vinte. Meia hora.
 
Então ele ouviu um barulho – a geladeira.
 
Levantou-se, foi até a cozinha e encontrou a cunhada diante dela, procurando água.
 
- Não consegue dormir?
- Não.
 
Ele também abre a geladeira.
 
Ficam os dois em silêncio, iluminados pela luz branca do aparelho.
 
Ela pergunta:
 
- Você ainda pensa naquela bobagem?
- É claro! Como diz a música, "os sonhos não envelhecem"!
 
Ela fecha a geladeira.
 
- Eu já te disse que isso nunca vai acontecer.
- Pois é...
 
Ela caminhou de volta para o quarto.
 
Na porta, virou-se:
 
- Boa noite.
- Boa noite!
 
Ela fechou a porta.
 
Ele voltou para a cama, com a resignação dos homens que passam a vida inteira confundindo esperança com estratégia:
 
- Água mole em pedra dura...
 
Depois de alguns minutos, acrescentou:
 
- Esta pedra, pelo visto, é granito!

E com uma expressão acanalhada no rosto, completou:

. Mas eu ainda vou furar essa pedra!

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