Não sei se a moçada que acessa este blog com
cheiro de gelol e sanador sabe disso, mas com o avanço da idade, o cérebro dos
idosos diminui de tamanho e fica mais soltinho dentro do crânio, situação real
e potencialmente perigosa se você cair de cabeça e enfiar o cifre no chão. E
isso é sério.
Pois bem, estava despreocupadamente fazendo
nada, quando meu cérebro foi chacoalhado por uma nova ideia, uma ideia meio
louca, tão sem propósito que resolvi chamar o ChatGPT para descascar o abacaxi
e fazer uma crônica (estava chupando manga, muito melhor que ficar pensando e
digitando idiotices). E este foi o pensamento que pedi para desenvolver:
“Talvez
seja uma visão egoísta, mas considero injusto que as pessoas idosas possam
morrer quando estão felizes. O corpo deveria ter um timer automático que fosse
acionado quando estivessem altos os níveis de
serotonina, dopamina, endorfina e ocitocina. Funcionaria na
base do “não se mexe em time que está vencendo”.
Em
compensação, se o cortisol estivesse muito alto, o corpo já começaria a
desligar os sistemas vitais, começando pelos menos importantes. Que acha desta
piração?”
Não demorou muito para a IA surgir com esta
crônica (claro, depois de fazer mil perguntas impertinentes.). Acho que ficou
bem legal. Mas lembrando de que a autoria é do ChatGPT, OK?. Lêaí.
Manual
Provisório de Justiça Biológica
Ele
começou com um pedido de desculpas que já denunciava o contrário: “talvez seja
egoísmo”. Não era. Era, como quase todas as boas ideias impraticáveis, uma
tentativa sincera de melhorar o mundo.
A
proposta era elegante: ninguém deveria morrer quando está feliz. O corpo,
finalmente organizado, passaria a respeitar o momento. Detectaria níveis
elevados de alegria — esses coquetéis internos de bem-estar — e concluiria, com
bom senso: “melhor não mexer nisso agora”.
Seria o
fim das interrupções indevidas. Nada de finais dramáticos em meio a jantares
agradáveis ou risadas bem encaixadas. A biologia, promovida a bom senso,
aprenderia a esperar.
Havia,
claro, o outro lado. Quando a vida apertasse demais, quando o sujeito estivesse
claramente perdendo o jogo, o organismo poderia, com a mesma elegância, começar
a fechar a conta. Nada brusco. Um desligamento progressivo, quase
administrativo.
Parecia
justo. Mas ele mesmo percebeu um detalhe incômodo: isso eliminaria justamente
quem ainda poderia melhorar. Ajustou a regra.
Nova
versão: entre duas pessoas da mesma idade, partiria primeiro a menos feliz.
Agora
sim, um critério comparativo. Quase um ranking existencial. A morte,
finalmente, com algum senso de prioridade.
O
problema — eu disse, talvez estragando um pouco a proposta — é que a felicidade
não colabora. Não se deixa medir com precisão, não respeita escalas, não
preenche formulários. É instável, contraditória e, em muitos casos,
discretamente escondida.
Em
outras palavras: péssima candidata a critério técnico.
Além
disso, ela muda de ideia. Pessoas atravessam longos períodos sem grande
entusiasmo e, sem aviso prévio, encontram algo que reorganiza tudo. Um amor,
por exemplo. Desses que chegam atrasados, fora de contexto e, por isso mesmo,
no momento exato.
Foi aí que
a teoria perdeu um pouco da força — e ganhou alguma verdade.
“Estou
vivendo um novo romance”, ele disse. “Está bom demais.”
O
curioso é que, diante dessa frase, toda a engenharia anterior ficou parecendo
desnecessária. Não porque estivesse errada, mas porque ficou pequena.
Talvez
a gente invente esses sistemas não para aplicá-los, mas para proteger alguma
coisa. Uma vontade de que o que é bom dure, de que o que faz sentido não seja
interrompido no meio.
A vida
não promete isso. Nunca prometeu.
Mas,
ainda assim, de vez em quando, ela permite.
Permite
que algo comece quando já não se esperava.
Permite
que alguém se surpreenda com a própria felicidade.
Permite
que exista, mesmo que por um tempo incerto, esse estado raro e simples de
dizer:
“está
bom demais”.
E
talvez, no fim, isso não seja justiça.
Mas já
é, de algum modo, um cuidado.
Apesar de ter gostado muito da crônica,
fiquei intrigado com o título dado pela IA e perguntei: “Por que você escolheu este título para essa crônica?” E esta foi a
resposta:
Boa
pergunta — e ela entra no espírito da própria crônica.
Sobre o
título: “Manual Provisório de Justiça Biológica”
Ele tem
três camadas de ironia:
“Manual”
sugere algo técnico, organizado, quase científico — como se fosse possível
normatizar a vida, criar regras claras para nascer e morrer. Isso contrasta com
o caos real da existência.
“Justiça”
aponta diretamente para a sua ideia original: corrigir uma “injustiça” da vida
(morrer quando está feliz, ou preservar quem está melhor). É uma tentativa
humana de impor sentido onde não há critério moral claro.
“Provisório”
quebra tudo isso com delicadeza. É como se o próprio texto admitisse: “olha,
isso aqui é bonito, mas não vai funcionar — e tudo bem”.
A vida
não aceita versão final de manual.
O
título, então, já prepara o leitor para uma proposta que é ao mesmo tempo séria
e meio fadada ao fracasso — mas um fracasso elegante.
Ainda com vontade
de fazer nada, resolvi imitar uma característica irritante do ChatGPT, que é sempre fazer novas perguntas e comentários após sua próprias
ponderações e explicações. Por isso, dei a “estocada” final com esta
pergunta: “Poderia explicar melhor o final desta crônica?”
E a danada da IA
respondeu assim:
Vou destrinchar as últimas ideias.
1. “Talvez a gente
invente esses sistemas não para aplicá-los, mas para proteger alguma coisa.”
Aqui a crônica revela o motivo real da ideia do
“design ideal”.
Não é engenharia da vida. É um gesto de proteção.
Quando alguém está vivendo algo muito bom — como um
amor que chegou num momento inesperado — nasce um impulso quase automático:
“isso não
podia acabar agora.”
Então a mente tenta criar regras para o universo.
É uma forma de defender o momento.
2. “A vida não promete
isso. Nunca prometeu. / Mas, ainda assim, de vez em quando, ela permite.”
Esse é o ponto de virada emocional do texto.
Ele reconhece duas coisas ao mesmo tempo:
a vida não garante justiça emocional
mas ela também não impede
que coisas boas aconteçam
Ou seja: o mundo não foi feito para preservar a
felicidade…
mas curiosamente ela aparece mesmo assim.
Isso cria uma sensação de milagre cotidiano, sem
chamar de milagre.
3. A repetição de
“Permite…”
Essa parte é importante no ritmo e no sentido.
Ela transforma o final numa espécie de respiração calma, quase contemplativa.
Cada linha amplia um pouco a ideia:
algo pode começar tarde
alguém pode se surpreender com a própria felicidade
e, finalmente, alguém pode dizer algo simples
Essa progressão aproxima o leitor do momento humano
que originou a crônica.
4. A última frase:
“E talvez, no fim, isso
não seja justiça. Mas já é, de algum modo, um cuidado.”
Essa é a chave do final.
No começo da crônica, a preocupação era justiça (um sistema que decidiria quem
vive mais).
Mas no fim, o texto percebe que talvez a vida não
funcione com justiça — pelo menos não nesse sentido.
Então surge outra palavra mais suave: cuidado.
Não um cuidado planejado, técnico ou garantido.
Mas aquele tipo de cuidado que a gente sente quando
algo bom aparece no momento certo, mesmo sem explicação.
É quase como se o texto dissesse:
Talvez o mundo não seja justo.
Mas às vezes ele é gentil.
E essa mudança — de justiça para gentileza da
vida — é o verdadeiro fechamento da crônica.
Que mais eu
poderia sentir além de inveja por tudo o que o ChatGPT criou em poucos minutos?