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sábado, 4 de julho de 2026

STORYBOARD

Em 2018, depois de ler algum artigo sobre cinema, mais especificamente sobre as técnicas de filmagem, tive a ideia de roteirizar um curta-metragem que, obviamente nunca foi feito, mas a ideia permaneceu na cabeça, justamente por ficar sabendo que o diretor italiano Federico Fellini registrava seus storyboards com desenhos bem detalhados que ele mesmo fazia. Outro que usou essa técnica foi cartunista Henfil, que praticamente desenhou todo o filme que criou, dirigiu ou sei lá o quê. Para quem nunca ouviu falar, o nome é “Deu no New York Times”.
 
Voltando à minha indigência, pedi ao ChatGPT para gerar os desenhos do storyboard imaginado. E ele fez, depois de muitas discussões. Mais trabalho ainda deu para montar tudo num padrão Blogson (sinônimo de tosco). Então, é isso. Se alguém quiser ler a versão original, o link está logo abaixo. Mas se quiserem conhecer a versão chatgepeteizada, o lugar é aqui mesmo. Só lamento a falta de nitidez dos textos, pois sou uma anta digital. É isso.
 
 https://blogsoncrusoe.blogspot.com/2018/04/curta-mensagem.html 










domingo, 17 de maio de 2026

DE MÃOS DADAS

 
Em BH, cidade onde moro, existe uma rua do chamado “baixo centro”, bem na periferia da área central, que é “rua de zona”. Sempre foi, embora mais bem frequentada na década de 1920, por aí. Nessa rua, além do sofisticado Montanhês Dancing, ficava o bordel onde Ana Furacão “batalhadava”.
 
Hoje, além de alguns hotéis de altíssima rotatividade, há lojas de atacado, papelarias, lojas de produtos populares e até uma igreja evangélica. Uma vez, para comprar algum tipo de embalagem em maior quantidade, estacionei o carro quase em frente a um desses “hotéis”. Meu amigo, o entra e sai de homens de todas as faixas etárias era impressionante! Isso me fez pensar que um produto tipo hipoglós deve vender bem por ali.
 
Mas estou muito longe do tema de hoje. O que mais chamou minha atenção foi a quantidade de idosos subindo e descendo as escadas desse e de outros puteiros da região. E aí surgiu em minha mente uma teoria miojo (aquela que é formulada em três minutos e o resultado é sempre uma merda), sobre que tipo de comportamento mais incomoda nossa sociedade hipócrita e preconceituosa. Sem paciência para detalhar meu pensamento, pedi ao ChatGPT para criar um conto ou crônica, depois de municiado com o que pensei. Este foi o prompt imaginado, a “munição” a utilizar:
 
“Imaginei um país distópico, talvez ditadura ao estilo de 1984, que define e promulga um decreto estabelecendo os direitos, deveres, proibições e punições dos idosos. Algo assim:
'Fica decretado que idosos não podem namorar, assim definidos atos e comportamentos que envolvam carícias próprias de adolescentes, tais como troca de beijinhos em público ou andar nas ruas de mãos dadas, abraçados. Tal comportamento é considerado atentado violento ao pudor, passível de internação em asilos.
Não é permitido aos idosos se apaixonar. Aos idosos só cabe o direito de ter amantes, usar os serviços de garotas e garotos de programa com a finalidade única de fazer sexo, vulgarmente conhecido como transar, trepar em ou sobre, excluídas e proibidas todas as manifestações de carinho explícito em locais públicos'.
Pensei nessa ideia por perceber os olhares espantados ou de inveja de outros idosos quando ando de mãos dadas com minha namorada, quando a beijo carinhosamente na boca, quando sorrio para ela e faço confidências ao pé do ouvido. Quer me ajudar a desenvolver esta ideia”?
 
Depois dos comentários de praxe tão ao gosto do ChatGPT, surgiu esta crônica distópica. Eu assinaria em baixo, mas foi a IA que escreveu.
 
 
Ninguém soube dizer ao certo quando começou.
Alguns afirmavam que foi depois da Reforma Sanitária Afetiva. Outros juravam que tudo nascera antes, quando os especialistas passaram a aparecer diariamente na televisão para explicar os perigos emocionais da velhice apaixonada.
“Paixão tardia provoca desequilíbrio social”, diziam.
“Apego senil sobrecarrega o sistema público.”
“O idoso apaixonado perde discernimento.”
No começo parecia apenas uma campanha educativa. Como aquelas recomendações para reduzir o sal ou caminhar trinta minutos por dia. Depois vieram os decretos. Então as multas. Finalmente os agentes.
Hoje já ninguém estranha.
Na Praça Central, por exemplo, os bancos são divididos por barras metálicas no meio, justamente para impedir excessiva aproximação afetiva entre cidadãos da terceira idade. A medida foi muito elogiada pelo Ministério da Compostura Pública.
“Conforto sem promiscuidade”, dizia o slogan.
Os jovens continuam se beijando nas esquinas, nos ônibus, nos corredores do metrô. O Estado considera isso aceitável. Hormonal. Transitório. Saudável até.
Mas velhos não.
Velhos apaixonados constrangem a sociedade.
Dois idosos caminhando de mãos dadas produzem nas pessoas um desconforto difícil de explicar, mistura de vergonha, irritação e uma espécie obscura de inveja.
Foi exatamente isso que aconteceu quando um idoso segurou a mão de sua namorada enquanto andavam despreocupadamente pela rua.
Nada teatral.
Nada indecente.
Apenas a mão.
Uma moça que vinha na direção oposta imediatamente desviou os olhos.
Dois rapazes riram.
Uma senhora parou diante da vitrine de uma farmácia apenas para continuar observando.
O idoso percebeu tudo.
Percebeu também quando sua namorada tentou discretamente soltar a mão.
Não soltou.
Continuaram andando.
Lentos.
Escandalosos.
 
Ao passarem diante do edifício dos Correios, ouviram o aviso eletrônico:
- Demonstrações afetivas senis em espaços públicos constituem infração ao Estatuto da Dignidade Etária. Preserve o decoro. Denuncie.
A namorada sorriu.
Foi pior.
Sorrisos cúmplices entre idosos haviam sido classificados no ano anterior como “indução visual de intimidade”.
O idoso achou graça da expressão jurídica. Sempre achava graça.
Setenta e cinco anos de vida para descobrir que amar alguém podia receber nome de doença administrativa!
 
Pararam diante de uma banca de flores clandestina.
As flores haviam praticamente desaparecido da cidade depois da regulamentação sentimental. Rosas eram consideradas itens de estímulo emocional. Sua venda exigia autorização especial para funerais e cerimônias patrióticas.
A mulher da banca olhou rapidamente para os lados antes de mostrar uma pequena margarida escondida sob jornais velhos.
- É importada – cochichou.
A namorada quase chorou.
O que também era proibido.
O Decreto nº 88 classificava lágrimas de natureza romântica como “descontrole afetivo regressivo”.
O idoso comprou a flor mesmo assim.
Pagou caro.
Pagou sorrindo.
 
Mais adiante, um painel luminoso exibia a frase do governo:
O DESEJO É FISIOLÓGICO. O AMOR É ANTISSOCIAL.
Abaixo da propaganda, dois agentes conduziam um homem algemado.
Seu crime: beijar a esposa na testa enquanto esperavam atendimento numa clínica geriátrica.
Algumas pessoas assistiam à cena com indignação moral.
Outras com alívio.
Porque o amor nos velhos produzia um efeito insuportável nos demais: lembrava a todos que o coração envelhece menos do que o corpo.
E isso o Estado jamais conseguiu perdoar.
Naquela noite, já em casa, a namorada perguntou:
- Você tem medo?
O idoso pensou um pouco.
Depois respondeu:
- Tenho.
Ela abaixou os olhos.
- Eu também.
Ficaram em silêncio.
Então ele segurou novamente a mão dela sobre a mesa.
Devagar.
Como quem pratica um crime.

 

 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

OCULTO

 
Outro dia fiquei chocado com a cara de pau, a desfaçatez, com o ego gigantesco exibido pelo presidente de um país por aí, que resolveu imprimir sua cara de idiota em passaportes, em papel moeda e até, aparentemente, em moedas de ouro. Essa atitude me fez pensar no culto à personalidade que outros líderes de maior ou menor relevância mundial incentivaram e até impuseram – Stalin, Mao Tse-Tung, Hitler, Sadam Hussein, Mussolini e por aí vai. O problema é que todos os citados eram execráveis, péssimas companhias para o maluco da vez.
 
O que se deduz disso é a existência de vaidade exacerbada, um egocentrismo doentio, quase patológico. Como dizia um antigo colega, esse pessoal se acha ou se achava tão foda que só faltava peidar cheiroso. Avaliação vulgar, mas precisa. E agora surge a pergunta: por que eu estou me preocupando com isso? Para falar a verdade, porque também padeço de excesso de vaidade (como cantou o Ultraje a Rigor, “eu me amo, não posso mais viver sem mim”!), narcisismo descontrolado e presunção nível cinco congênita.
 
E sabe o que isso significa? Que eu resolvi brindar as pessoas que acessam este blog (são milhares!!!) com duas imagens geradas pelo ChatGPT. Afinal, se até o Jean Jacques Rousseau, por que Jotabê  também não pode roussar?
 
A primeira imagem é um mosaico em estilo bizantino que teria sido encontrado em escavações recentes realizadas em Pompeia. Como cantou o Raul Seixas, "eu nasci há dez mil anos atrás". Se na Bíblia pode isso, por que eu também não posso, não é mesmo? Se quiserem, podem até me chamar de Highlander, que eu nem ligo. A segunda imagem foi encontrada em um nicho oculto da catedral da Sagrada Família, projetada pelo arquiteto catalão Antoni Gaudí. Que mais? Já chega, né?
 
Uma coisa eu posso garantir: nunca desejei um culto à personalidade. Para mim, já estaria de bom tamanho se houvesse “oculto da personalidade”. E fim. 




quinta-feira, 9 de abril de 2026

O TEMPO NÃO NEGOCIA

 
Outro dia uma pessoa muito querida manifestou sentir saudade do tempo em que era jovem. Tentei consolar dizendo platitudes e os clichês de praxe, mas entendo e compartilho um pouco desses sentimentos. Por não ter nada de interessante para fazer e por não estar com vontade de fazer o que não é interessante, comecei a escrever frases soltas cheias dos clichês mais surrados. Já estava até parecendo um poema de pé quebrado – que eu não sabia como terminar.
 
Foi aí, confesso, que pedi ao ChatGPT para dar uma arrumação no que já estava escrito e arranjar um final para o texto. Depois de algumas brigas e rejeições ao que essa IA sugeriu, acabou ficando como pode ser lido abaixo. Uma parceria entre uma inteligência artificial e uma inteligência natural (eu me amo!) em cima de um texto rascunhado por mim (eu me amo muito!). A novidade é que, depois de muito tempo, pedi à SunoAI para criar uma canção com essa letra. E ficou até um pouco simpática, graças a alguns tons menores utizados (tons menores trazem um pouco de nostalgia à melodia). Se quiser, escutaí:

 
Não queira voltar ao passado
Guarde com carinho, afeição
Aquele abraço apertado
Aquele selinho roubado
Pois eles não mais voltarão
 
Lembre-se e tenha saudade
Dos lugares que visitou
Das ruas onde caminhou
Mas mesmo que doa pensar
O tempo não retornará
 
Lugares, ruas, paisagens
Ainda podem lá estar
E você poderá retornar
Mas mesmo que o peito doa,
E a memória insista em chamar 
Os sonhos que ali viveu, entenda:

Não é você que ali está
A saudade não é erro
É prova de que aconteceu
Mas não se deixe enganar
 
Não é você que está ali de novo
Porque você já não é mais o mesmo
E é aí que dói, porque voltar
A um lugar não é voltar no tempo
E tudo bem, porque o tempo não volta 
Ele não desacelera, não pára, não negocia

Então sinta, lembre, pense
Que viver não é olhar pra trás
É caminhar pra frente
É somente aguentar o agora 
Mesmo se não é suficiente

 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

DEDICADO AO BU

 
Esta postagem só se explica pela obsessão que tenho de guardar, de preservar a memória de fatos, casos e coisas irrelevantes. Resolvi cumprir o que tinha dito ao meu amigo Eduardo Medeiros, que é mostrar minha briga com o ChatGPT para que essa IA entendesse o que eu estava pedindo, ou seja: apenas gerar uma versão colorida exatamente igual ao meu desenho mal acabado. Acha que foi fácil? Eliminei o blablabla interminável da IA, transcrevendo apenas minhas reações depois de cada imagem gerada. Para quê? Pró-memória, só isso.

MEU PRIMEIRO PEDIDO

A partir do título do disco dos Beatles (Sargent Pepper’s...) eu fiz este desenho baseado na foto da capa do disco, só que os quatro são pimentas verdes, vestidos com roupas nas mesmas cores da foto original. Poderia gerar uma imagem igual ao MEU desenho, mas colorido como na foto?

PRIMEIRA REAÇÃO

As pimentas não podem ter braços! Não precisam de instrumentos musicais. O traço das bocas é só um sorriso de desenho tosco. Corrija a palavra sargent. Os olhos estão esquisitos e o desenho deveria ser mais fosco, menos brilhante. Pode tentar de novo?



SEGUNDA REAÇÃO
Ficou ótimo, mas os uniformes não podem ter mangas, já que não têm braços.


TERCEIRA REAÇÃO (Já meio puto)

Pô, meu amigo, está cada vez pior. Dos desenhos gerados o segundo é o melhor, MAS os bigodes de todos e os óculos da pimenta "John Lennon” desapareceram. Tente seguir o modelo do desenho, apenas aplique cor!


QUARTA REAÇÃO (Já bastante irritado)

OK. Não vou pedir outro desenho, mas o sorriso abaixo do bigode é só um risco, um arco. Vou tentar colorir eu mesmo. Eu só penso em colorir o espaço delimitado entre o bigode e a linha do sorriso, só isso. Se você conseguisse seguir isso que disse eu te pediria um último desenho, mas com os olhos do Lennon mais orientais (como no desenho)

QUINTA REAÇÃO (Até espumando, de tanto ódio)
Parei, não vou pedir mais nada! Se você não consegue entender meus pedidos direito por que tenho que seguir seus conselhos? Repetir erros anteriores (buracos no uniforme para braços inexistentes), orelhas e narizes nos pimentões, incorporação da "coroa" ao corpo de cada pimentão... Chega, é muito para mim! Não quero nada, muito menos sugestões que nunca param de ser feitas. Fui.

Depois de alterar manualmente os olhos e o sorriso da quarta versão, cheguei ao resultado que foi publicado e que meu amigo Eduardo considerou “pica”. E eu completaria: pica dura de conseguir!





terça-feira, 31 de março de 2026

MOLHO DE PIMENTA

 

Um de meus filhos pediu um dia que eu criasse desenhos para estampar camisetas que ele pensava em vender em seu blog. Um deles foi este desenho, imaginado a partir da associação do Sgt. Pepper (Sargento Pimenta) com pimentas vestidas como os Beatles aparecem na capa do disco. Faltava colorir, coisa que eu nunca fiz, pois a ideia da venda das camisetas foi esquecida. Hoje, procurando um "dezénho" no blog, revi o desenho original, ainda cheio de anotações a mão. Tive então a idéia de pedir ao ChatGPT para colorir o desenho. Depois de cinco tentativas, cada uma pior que a outra, fixei-me na segunda opção e tentei dar uma arrumada nos sorrisos e nos olhos. E este é o resultado. Ficou bom? Sei lá!



quinta-feira, 26 de março de 2026

MIXARIA

 Deu no G1: STF limita 'penduricalhos', mas cria novo teto salarial e pode pressionar gastos públicos


domingo, 22 de março de 2026

MANUAL PROVISÓRIO DE JUSTIÇA BIOLÓGICA

 Não sei se a moçada que acessa este blog com cheiro de gelol e sanador sabe disso, mas com o avanço da idade, o cérebro dos idosos diminui de tamanho e fica mais soltinho dentro do crânio, situação real e potencialmente perigosa se você cair de cabeça e enfiar o cifre no chão. E isso é sério.
 
Pois bem, estava despreocupadamente fazendo nada, quando meu cérebro foi chacoalhado por uma nova ideia, uma ideia meio louca, tão sem propósito que resolvi chamar o ChatGPT para descascar o abacaxi e fazer uma crônica (estava chupando manga, muito melhor que ficar pensando e digitando idiotices). E este foi o pensamento que pedi para desenvolver:
 
“Talvez seja uma visão egoísta, mas considero injusto que as pessoas idosas possam morrer quando estão felizes. O corpo deveria ter um timer automático que fosse acionado quando estivessem altos os níveis de serotonina, dopamina, endorfina e ocitocina. Funcionaria na base do “não se mexe em time que está vencendo”.
Em compensação, se o cortisol estivesse muito alto, o corpo já começaria a desligar os sistemas vitais, começando pelos menos importantes. Que acha desta piração?”
 
Não demorou muito para a IA surgir com esta crônica (claro, depois de fazer mil perguntas impertinentes.). Acho que ficou bem legal. Mas lembrando de que a autoria é do ChatGPT, OK?. Lêaí.
 
Manual Provisório de Justiça Biológica
Ele começou com um pedido de desculpas que já denunciava o contrário: “talvez seja egoísmo”. Não era. Era, como quase todas as boas ideias impraticáveis, uma tentativa sincera de melhorar o mundo.
A proposta era elegante: ninguém deveria morrer quando está feliz. O corpo, finalmente organizado, passaria a respeitar o momento. Detectaria níveis elevados de alegria — esses coquetéis internos de bem-estar — e concluiria, com bom senso: “melhor não mexer nisso agora”.
Seria o fim das interrupções indevidas. Nada de finais dramáticos em meio a jantares agradáveis ou risadas bem encaixadas. A biologia, promovida a bom senso, aprenderia a esperar.
Havia, claro, o outro lado. Quando a vida apertasse demais, quando o sujeito estivesse claramente perdendo o jogo, o organismo poderia, com a mesma elegância, começar a fechar a conta. Nada brusco. Um desligamento progressivo, quase administrativo.
Parecia justo. Mas ele mesmo percebeu um detalhe incômodo: isso eliminaria justamente quem ainda poderia melhorar. Ajustou a regra.
Nova versão: entre duas pessoas da mesma idade, partiria primeiro a menos feliz.
Agora sim, um critério comparativo. Quase um ranking existencial. A morte, finalmente, com algum senso de prioridade.
O problema — eu disse, talvez estragando um pouco a proposta — é que a felicidade não colabora. Não se deixa medir com precisão, não respeita escalas, não preenche formulários. É instável, contraditória e, em muitos casos, discretamente escondida.
Em outras palavras: péssima candidata a critério técnico.
Além disso, ela muda de ideia. Pessoas atravessam longos períodos sem grande entusiasmo e, sem aviso prévio, encontram algo que reorganiza tudo. Um amor, por exemplo. Desses que chegam atrasados, fora de contexto e, por isso mesmo, no momento exato.
Foi aí que a teoria perdeu um pouco da força — e ganhou alguma verdade.
“Estou vivendo um novo romance”, ele disse. “Está bom demais.”
O curioso é que, diante dessa frase, toda a engenharia anterior ficou parecendo desnecessária. Não porque estivesse errada, mas porque ficou pequena.
Talvez a gente invente esses sistemas não para aplicá-los, mas para proteger alguma coisa. Uma vontade de que o que é bom dure, de que o que faz sentido não seja interrompido no meio.
A vida não promete isso. Nunca prometeu.
Mas, ainda assim, de vez em quando, ela permite.
Permite que algo comece quando já não se esperava.
Permite que alguém se surpreenda com a própria felicidade.
Permite que exista, mesmo que por um tempo incerto, esse estado raro e simples de dizer:
“está bom demais”.
E talvez, no fim, isso não seja justiça.
Mas já é, de algum modo, um cuidado.
 
 
Apesar de ter gostado muito da crônica, fiquei intrigado com o título dado pela IA e perguntei: “Por que você escolheu este  título para essa crônica?” E esta foi a resposta:
 
Boa pergunta — e ela entra no espírito da própria crônica.
 
Sobre o título: “Manual Provisório de Justiça Biológica”
Ele tem três camadas de ironia:
“Manual” sugere algo técnico, organizado, quase científico — como se fosse possível normatizar a vida, criar regras claras para nascer e morrer. Isso contrasta com o caos real da existência.
“Justiça” aponta diretamente para a sua ideia original: corrigir uma “injustiça” da vida (morrer quando está feliz, ou preservar quem está melhor). É uma tentativa humana de impor sentido onde não há critério moral claro.
“Provisório” quebra tudo isso com delicadeza. É como se o próprio texto admitisse: “olha, isso aqui é bonito, mas não vai funcionar — e tudo bem”.
A vida não aceita versão final de manual.
O título, então, já prepara o leitor para uma proposta que é ao mesmo tempo séria e meio fadada ao fracasso — mas um fracasso elegante.

Ainda com vontade de fazer nada, resolvi imitar uma característica irritante do ChatGPT, que é sempre fazer novas perguntas e comentários após sua próprias ponderações e explicações. Por isso, dei a “estocada” final com esta pergunta: “Poderia explicar melhor o final desta crônica?”
 
E a danada da IA respondeu assim:
 
Vou destrinchar as últimas ideias.
 
1. “Talvez a gente invente esses sistemas não para aplicá-los, mas para proteger alguma coisa.”
 
Aqui a crônica revela o motivo real da ideia do “design ideal”.
Não é engenharia da vida. É um gesto de proteção.
Quando alguém está vivendo algo muito bom — como um amor que chegou num momento inesperado — nasce um impulso quase automático:
 “isso não podia acabar agora.”
Então a mente tenta criar regras para o universo.
É uma forma de defender o momento.
 
2. “A vida não promete isso. Nunca prometeu. / Mas, ainda assim, de vez em quando, ela permite.”
 
Esse é o ponto de virada emocional do texto.
Ele reconhece duas coisas ao mesmo tempo:
a vida não garante justiça emocional
mas ela também não impede que coisas boas aconteçam
Ou seja: o mundo não foi feito para preservar a felicidade…
mas curiosamente ela aparece mesmo assim.
Isso cria uma sensação de milagre cotidiano, sem chamar de milagre.
 
3. A repetição de “Permite…”
 
Essa parte é importante no ritmo e no sentido.
Ela transforma o final numa espécie de respiração calma, quase contemplativa.
Cada linha amplia um pouco a ideia:
algo pode começar tarde
alguém pode se surpreender com a própria felicidade
e, finalmente, alguém pode dizer algo simples
Essa progressão aproxima o leitor do momento humano que originou a crônica.
 
4. A última frase:
 
“E talvez, no fim, isso não seja justiça. Mas já é, de algum modo, um cuidado.”
Essa é a chave do final.
No começo da crônica, a preocupação era justiça (um sistema que decidiria quem vive mais).
Mas no fim, o texto percebe que talvez a vida não funcione com justiça — pelo menos não nesse sentido.
Então surge outra palavra mais suave: cuidado.
Não um cuidado planejado, técnico ou garantido.
Mas aquele tipo de cuidado que a gente sente quando algo bom aparece no momento certo, mesmo sem explicação.
É quase como se o texto dissesse:
Talvez o mundo não seja justo.
Mas às vezes ele é gentil.
E essa mudança — de justiça para gentileza da vida — é o verdadeiro fechamento da crônica.
 
Que mais eu poderia sentir além de inveja por tudo o que o ChatGPT criou em poucos minutos?

 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

EU ME AMO!

 
 
Depois de perceber as insuspeitadas qualidades do GPT para criar desenhos e imagens reais, resolvi pedir à IA para gerar uma imagem hiper-realista mostrando um casal se beijando na boca. Mas não um casal qualquer! Consegui uma foto recente de uma antiga namorada (linda!) e utilizei minha imagem mais recente, onde ostento uma bela (“belíssima”) barba branca. O danado do ChatGPT assumiu a missão e criou uma imagem tão legal que encheu de água minha boca (na ainda impossibilidade dela ser preenchida com a língua da gata).
 
Infelizmente, não posso – por razões óbvias – publicar essa imagem. Por isso, lembrando-me da música do Ultraje a Rigor que diz “eu me amo, não posso mais viver sem mim”, resolvi pedir à IA para gerar uma imagem em que eu beijo a mim mesmo. Sinceramente, por ser hetero, senti-me bastante desconfortável ao me ver beijando outro homem na boca – mesmo que esse homem seja eu mesmo. A vantagem foi poder fazer mais um trocadilho jotabélico, pois o título da postagem poderia ser “eu me homo”. Mas não será, pois pouca vergonha e safadeza têm limite. Olhaí.



domingo, 22 de fevereiro de 2026

"ERROS DE GRAVAÇÃO"

Não estou acostumado com muitos comentários sobre minhas postagens. Por isso, resolvi ampliar o post "Uma HQ infantil", mostrando algumas das maluquices criadas pela IA. Sente a piração crescente do ChatGPT:
 
Texto non sense:


Cabritito já vestido para o casório durante a briga com os bandidos:

Balão atribuído ao personagem errado





UMA HQ INFANTIL

 
Este texto introdutório poderia ser dispensável, mas obedece ao meu desejo de sempre registrar a memória das pequenas coisas. 

Morávamos na casa de minha avó materna, junto com oito tios e tias, além de minha avó e meu avô. Éramos duas crianças e doze adultos. Naquela época, ainda não havia televisão em Belo Horizonte. Depois da "janta", ficávamos perambulando por ali, importunando um pouco, enquanto os adultos conversavam, até que nossa mãe nos mandava dormir. Como não tínhamos alternativa, obedecíamos.
 
Eu, meu irmão e nossos pais dormíamos no mesmo quarto, em um barracão (edícula) nos fundos da casa. A cama de casal ficava entre a minha e a de meu irmão. Para nos manter deitados – ou por qualquer outro motivo (saco cheio dos cunhados, por exemplo) – nosso pai nos contava histórias. Falava de sua infância em São José dos Oratórios e dos “doidos mansos” que perambulavam por lá. Entre eles, havia uma mulher meio desaforada, talvez já um pouco idosa, conhecida como “Sá-Maria-me-Atende”, que às vezes ia à casa de minha avó pedir esmola ou comida, se não me engano.
 
Por fim, contou sobre uma carrocinha ou charretinha que tivera, puxada por um bode branco ao qual dera o nome de Cabritito. Para nós, meninos criados na cidade grande e sem quase nenhuma liberdade para brincar, aquelas histórias eram magníficas, melhores que qualquer conto das Mil e Uma Noites ou algo parecido. Assim, contrariando seu provável desejo de que adormecêssemos logo, sempre pedíamos mais. Até que as lembranças se esgotaram: ele já nos havia contado tudo o que podia.
 
Foi então que teve início a fase ficcional. Passou a inventar histórias no estilo bangue-bangue ou de filmes de caratê, lembrando os filmes mudos de Carlitos, sempre com algumas pancadas, chutes na bunda e bandidos sendo arremessados longe depois de girarem sobre as próprias cabeças, seguros – pela agora heroína Sá-Maria-me-Atende – apenas por uma perna ou um braço.
 
A partir daí, o delírio tomou conta das histórias (e ele nem bebia!). Logo, o Cabritito casou-se com Sá-Maria-me-Atende. E o mais curioso é que ela se tornava, ali, a primeira super-heroína brasileira! Uma super-heroína desconhecida, caipira, meio louca, casada com um bode e que, além de força física descomunal, voava! E somente eu e meu irmão sabíamos de sua existência.
 
Pois é, a primeira super-heroína brasileira voava graças a um artifício bastante peculiar – batata-doce. Na iminência de capturar algum criminoso em fuga (que inevitavelmente seria lançado longe após orbitar ao seu redor, preso por um braço ou perna), a heroína comia batata-doce e logo começava a soltar flatos, puns, funfas ou peidos – conforme pedirem a pudicícia e a finesse do leitor. Primeiro, um “po, po, po” contido; depois, ganhava impulso (“Pruuum!”) e, “Fium!”, saía voando a jato. Era quase impossível dormir depois de tantas emoções!
 
Contei essas histórias às minhas netas, que morreram de rir. Então prometi fazer uma historinha em quadrinhos sobre isso. Sem inspiração para criar o roteiro e sem o talento para desenho do blogueiro Fabiano Caldeira, recorri ao ChatGPT para cumprir a missão.
 
E a danada da IA respondeu assim:
Que delícia de memória! Dá para transformar isso numa HQ maravilhosa, misturando nostalgia, humor escatológico infantil e um toque poético de ‘super-heroína rural secreta’. Vou sugerir duas páginas, seis quadros cada, já com descrição visual, falas e ritmo de humor.
 
As descrições e falas sugeridas ficaram bem interessantes. Por isso, corrigi apenas algumas coisas, descartei outras e pedi que a IA gerasse as imagens. Aí o bicho pegou: não houve meio de o ChatGPT produzir imagens sem erros. Isso consumia o limite ou  “verba” de geração, obrigando-me a esperar até doze horas para tentar novamente, após receber a seguinte mensagem:
 
“You've hit the free plan limit for image generation requests. You can create more images when the limit resets in 9 hours and 59 minutes.”
 
A brincadeira para agradar minhas netas começou a ficar estressante, pois algumas imagens simplesmente nunca saíam como eu reiteradas vezes solicitava. Surgiam coisas absurdas: a heroína com três braços, um bandido com corpo de bode e o bode com cabeça de bandido etc. Essa cena foi gerada nove vezes, sempre com resultados estapafúrdios, até que desisti de utilizá-la.
 
Para chegar a um resultado minimamente aceitável que pudesse mostrar às netinhas, abri mão de oito ou mais quadros, que acrescentariam mais de uma página à história e que poderiam ter deixado a HQ com um aspecto mais completo.
 
Além disso, precisei retalhar e remontar toda a narrativa com os quadros remanescentes, alguns inexplicavelmente em padrão diferente dos demais. Foi uma luta!
 
No fim das contas, o resultado – embora menor do que poderia ter sido – ficou “bonzinho”. Apenas para as netinhas, obviamente. E sempre lembrando que tudo foi feito pelo ChatGPT, tendo eu apenas intervindo (muitas vezes sem sucesso) para melhorar ou corrigir o que essa IA tresloucada e geniosa produziu. Se eu fosse o talentoso Fabiano Caldeira, certamente teria saído uma historinha melhor e com traços mais homogêneos, o que não aconteceu. Enfim…
 
A seguir, a HQ frankenstein (espero que pelo menos as netinhas gostem):







JOYCE

  Às vezes surge u’a vontade inesperada De bobaginhas de amor falar em seu ouvido Desejo quase sempre incompreendido   Talvez todo mundo est...