quarta-feira, 10 de junho de 2026

QUANDO VIER A PRIMAVERA- ALBERTO CAIEIRO

 
Meu Deus, como era bom o Alberto Caieiro, ou melhor, o multifacetado Fernando Pessoa(s)! Queria ser capaz de escrever com um décimo, um vigésimo da beleza de suas palavras!
 
Quando vier a primavera, 
Se eu já estiver morto, 
As flores florirão da mesma maneira 
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada. 
A realidade não precisa de mim.
 
Sinto uma alegria enorme 
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
 
Se soubesse que amanhã morria 
E a primavera era depois de amanhã, 
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. 
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? 
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; 
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. 
Por isso, se morrer agora, morro contente, 
Porque tudo é real e tudo está certo.
 
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. 
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. 
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. 
O que for, quando for, é que será o que é.
 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

UM POETA PORTUGUÊS

 

Fiquei sabendo da existência do psiquiatra e escritor português António Lobo Antunes (atenção para o acento agudo!), graças a uma entrevista em que falava de sua motivação para escrever. Nesse vídeo antigo ele lembrou um episódio que o marcou muito e que me comoveu. Por isso, saí buscando pela internet e encontrei este texto, em que fala do mesmo assunto:
 
Às vezes sentia-me indignado. No estágio de pediatria, em que me puseram ao serviço de crianças com doenças terminais: porque é que crianças de três, quatro anos, iam morrer e sofriam tanto? Qual o sentido disto? A pessoa zanga-se com Deus. Eu zangava-me. Contei isto numa crónica: um miúdo de que gostava muito morreu. O empregado embrulhou-o num lençol. Eu estava na porta das enfermarias e vi o homem afastar-se com o miúdo morto ao colo e um dos pés saía do lençol. Isto continua dentro de mim. Às vezes penso que escrevo para este pé.
 
Pelo que descobri, foi um escritor mega laureado. Descobri também no site “O Pensador” algumas de suas frases e observações, sempre ótima matéria prima para postar no Blogson. Lêaí:
 

Não sou uma pessoa muito alegre. Sou introvertido. Fechado. Cheio de dúvidas. Não me é fácil viver comigo. Parece que estou sempre em guerra civil.

Sempre gostei de estar com o que chamam "pessoas humildes". Foi com essas que aprendi mais.

Não estou à procura de nada. A gente não procura, encontra. Uma das coisas que me agrada na vida é a imprevisibilidade do futuro. Claro que é aborrecido se o futuro for desagradável. Mas enquanto houver futuro, a nossa vida tem um sentido, e uma razão.

Tive sempre a sensação que um livro é um organismo vivo que nos escapa.

Cada palavra conseguida é como uma pedra que retiro de um poço. Quanto maior é a experiência e a maturidade literária, tanto maior se compreende o caminho que ainda falta percorrer.

Quem me assassinou para que eu seja tão doce?

Quando um coração se fecha, faz muito mais barulho do que uma porta.

Só há grupos onde existem fraquezas individuais.

A cultura é uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo escravo

Nunca falamos muito, acho que nunca falamos nada. E não sinto necessidade de começar agora. O que poderia dizer? Existem séculos e séculos de silêncio entre nós e, debaixo dos séculos do silêncio, ocultas lá no fundo, se calhar esquecidas, se calhar presentes, se calhar apagadas, se calhar vivas e a doerem-me, coisas que prefiro não transformar em palavras, coisas anteriores às palavras...

Não digas nada, dá-me só a mão. Palavra de honra que não é preciso dizer nada, a mão chega. Parece-te estranho que a mão chegue, não é, mas chega. (...) Se calhar sou uma pessoa carente. Se calhar nem sequer sou carente, sou só parvo.

Há momentos e situações em que o olhar comunica mais que as palavras, isso também é intimidade. Creio que sou capaz de dizer muitas coisas sem falar, é o outro que também tem de compreender e de saber interpretar. Quando se estabelece essa relação de intimidade e de amizade, não é necessário falar. (...) Frequentemente é melhor não o fazer porque as palavras estão muito gastas.

Não há ninguém que eu odeie, acho que dá muito trabalho odiar. Há é pessoas que me são indiferentes.

Muitas vezes as coisas que nos tocam mais são aquelas que na altura em que estão a acontecer nem nos apercebemos.

Os romances maus contam histórias, os bons romances mostram-nos a nós mesmos.

Quanto mais silêncio houver num livro, melhor ele é. Porque nos permite escrever o livro melhor, como leitor.

Quando se critica, estamos a julgar. Se julgarmos já não compreendemos, porque julgar implica condenar ou absolver.

Não sou um senhor de idade que conservou o coração menino. Sou um menino cujo envelope se gastou.

Nós somos casas muito grandes, muito compridas. É como se morássemos apenas num quarto ou dois. Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas.

Os livros que escrevi trazem o meu nome mas tenho dificuldade em encontrar os seus autores. Só aquele que estou a escrever é feito por mim, os restantes parece-me sempre terem sido outros homens que os compuseram.

Em todo o caso hoje não estou para ninguém. Não quero piedade. Não quero consolo. Não quero sorrisos de esperança. Quero imaginar o futuro sabendo que existe uma parede a interromper-me os dias. Os outros caminham para lá da parede. Eu fico deste lado.

Temos tendência para transformar as nossas opiniões pessoais em verdades universais e rejeitar tudo o que não encaixe na nossa grelha de valores.

O ato de ler é criativo e implica humildade.

São precisas três coisas para escrever: paciência, solidão e orgulho.

Um livro não está na cabeça, está na mão. Um livro não se faz com ideias. É o livro que tem de ter as ideias, não é o autor. O livro tem que ser mais inteligente que o autor.

A democracia implicava um constante referendar pelo povo das decisões do poder. Não existe.

É claro que me zango com Deus porque permite o sofrimento, mas talvez os seus desígnios tenham tais profundezas que não atinjo.

O sofrimento sempre me foi incompreensível porque nascemos para a alegria.

Eu continuo a aprender. Tenho muito que aprender, ainda. Acho que tenho uma noção parcial daquilo que estou a fazer.

Um parvo em pé vai mais longe que um intelectual sentado.

Temos tendência para transformar as nossas opiniões pessoais em verdades universais e rejeitar tudo o que não encaixe na nossa grelha de valores.

 

 

domingo, 7 de junho de 2026

SETENTA E SEIS

 

Já tive sonhos, juventude e alegria

Também saúde, dentes e amizades

Mas invejava quem mostrava e exibia

Tudo ter daquilo que não possuía

Hoje tenho o oposto disso: muita idade,

Que trouxe depressão, melancolia

Também tristeza, solidão, fragilidade

Que esperava que eu sentisse? Euforia?

PARABÉNS PRA VOCÊ

 
Mais uma vez o anjo negro da madrugada me fez acordar às três da manhã. Sua pontualidade me irrita, por me colocar em contato e sintonia com o dia que ainda não amanheceu. Nada tenho a fazer de útil, nada quero fazer de útil, só quero voltar a dormir, mas ele não deixa. Entra em minha mente e expulsa de lá todos os pensamentos felizes, deixando apenas aqueles que provocam um gosto amargo na boca. Cretino!
 
Agora, ao acordar, me lembro de estar completando 76 anos de vida. Não tenho dúvida de que serei cumprimentado por isso, que me desejarão muitos anos de vida e saúde. Isso me constrange, pois preciso sorrir, agradecido. Quem faz 76 anos sabe que não existirão mais muitos anos de vida nem saúde. E, pior é pensar, sentir, saber que não há mudanças reais a acontecer. Os dias remanescentes se sucederão sem novidades, sem esperança, sem alegria, tal como aconteceu com seus antecessores. Porque não há na maioria das vezes uma ruptura real da forma como se tem vivido, não há edição ou substituição do algoritmo mental que controla a sua vida.
 
Como cantou/ensinou o Belchior, “não se preocupe com os horrores que eu lhe digo, a vida realmente é diferente, quer dizer, ao vivo é muito pior”. Ou, como disse o poeta António Lobo Antunes, “Em todo o caso, hoje não estou para ninguém. Não quero piedade. Não quero consolo. Não quero sorrisos de esperança. Quero imaginar o futuro sabendo que existe uma parede a interromper-me os dias. Os outros caminham para lá da parede. Eu fico deste lado”. Bom dia!

 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

FULLGÁS - MARINA LIMA

 
Uma das letras mais apropriadas para o mês dos namorados foi escrita para a música “Fullgás”, pelo imortal Antônio Cícero, poeta de mão cheíssima e irmão da Marina Lima. Escutaí.





NÃO É MESMO?

 




quinta-feira, 4 de junho de 2026

SI TÚ ME OLVIDAS - PABLO NERUDA

 
O romantismo está no ar! E agora na pena de Pablo Neruda. Afinal, estamos em junho, mês dos namorados e das festas juninas. Nada como lembrar os versos do músico e compositor mineiro Fernando Bocca (falecido): “Bota lenha, alimenta essa fogueira, deixa queimar noite inteira o fogo dos corações”.
 
SI TÚ ME OLVIDAS
Pablo Neruda
Quiero que sepas
una cosa.
Tú sabes cómo es esto:
si miro
la luna de cristal, la rama roja
del lento otoño en mi ventana,
si toco
junto al fuego
la impalpable ceniza
o el arrugado cuerpo de la leña,
todo me lleva a ti,
como si todo lo que existe,
aromas, luz, metales,
fueran pequeños barcos que navegan
hacia las islas tuyas que me aguardan.
Ahora bien,
si poco a poco dejas de quererme
dejaré de quererte poco a poco.
Si de pronto
me olvidas
no me busques,
que ya te habré olvidado.
Si consideras largo y loco
el viento de banderas
que pasa por mi vida
y te decides
a dejarme a la orilla
del corazón en que tengo raíces,
piensa
que en ese día,
a esa hora
levantaré los brazos
y saldrán mis raíces
a buscar otra tierra.
Pero
si cada día,
cada hora
sientes que a mí estás destinada
con dulzura implacable.
Si cada día sube
una flor a tus labios a buscarme,
ay amor mío, ay mía,
en mí todo ese fuego se repite,
en mí nada se apaga ni se olvida,
mi amor se nutre de tu amor, amada,
y mientras vivas estará en tus brazos
sin salir de los mios
 
SE TU ME ESQUECES
Pablo Neruda
 
Quero que saibas
uma coisa.
 
Tu sabes como é isto:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono em minha janela,
se toco
junto ao fogo
a impalpável cinza
ou o corpo enrugado da lenha,
tudo me leva a ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
em direção às tuas ilhas que me aguardam.
 
Agora, bem,
se pouco a pouco deixares de me amar,
deixarei de te amar pouco a pouco.
 
Se de repente
me esqueceres,
não me procures,
pois eu já te terei esquecido.
 
Se considerares longo e selvagem
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e decidires
abandonar-me à margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
nessa hora,
erguerei meus braços
e minhas raízes partirão
a buscar outra terra.
 
Mas
se a cada dia,
a cada hora,
sentes que estás destinada a mim
com doçura implacável;
se a cada dia sobe
uma flor aos teus lábios para me procurar,
ah, meu amor, ah, minha,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
meu amor alimenta-se do teu amor, amada,
e enquanto viveres estará em teus braços
sem sair dos meus.
 
 
 

 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

O MEU OLHAR – ALBERTO CAIEIRO

 
Nem só de amor vivem os homens, mas também de logros, roubos, assaltos, desfalques, trambiques, assassinatos, corrupção, feminicídio, fake news, interesses escusos, filhadaputagens diversas, e por aí vai, pois a capacidade da humanidade de fazer merda é muito grande. A poesia não tem força para mudar isso, mas funciona como aquele copo de água fresca em dias de fritar ovo no asfalto, alivia. E este é mais um post dedicado ao mês dos namorados, pois namorar não fere nenhum dos Dez Mandamentos. Lêaí:
 
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.  Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama

terça-feira, 2 de junho de 2026

MODERAÇÃO DE COMENTÁRIOS

 AVISO: Comentários estimulados por essa ou aquela publicação nunca o padrão do blog. na verdade, pouquíssimas pessoas deixaram ou ainda deixam algum comentáriosobre o que foi publicado. Mesmo assim, às vezes passo batido e nem descubro o que foi comentado. Por sso, já que eu gosto de responder a todos, resolvi voltar com a moderação de comentários só para ver se tem algum não descoberto. Mas TODOS serão publicados. É só isso, por enquanto.

LOS BESOS SE DAN EN LA BOCA


Digam o que quiserem, riam-se de mim se puderem, mas o melhor e maior antídoto ou alívio contra a miséria humana, contra o lodaçal em que os políticos se refestelam é o amor. Não estou brincando, estou falando sério, pois hoje, para mim, só o amor me permite respirar sem me intoxicar muito com a fumaça dos bombardeios que atingem prédios residenciais ou com o veneno diário que as redes sociais distribuem. E a melhor forma de buscar o amor é através da poesia lírica, porque de tragédias eu já estou farto. Por isso, sempre que puder, sempre que encontrar, sempre que conseguir escrever alguma coisa, publicarei aqui neste velho e inexpressivo blog um poema ou texto poético. E o primeiro é este (com direito a tradução)
 
LOS BESOS SE DAN EN LA BOCA
(Elsa Moreno Calabuig)

Creo que los besos se dan en la boca
porque es de donde brotan las palabras.
Si yo te besara la punta de los dedos
estaría buscando una caricia.
Si te besara la suela del zapato
estaría buscando un camino.
Si te besara en los párpados
cuando estás dormido
estaría pidiendo permiso
para entrar en tus sueños,
pero te estoy besando los labios
porque quiero escuchar mis palabras salir de ti.
(Otra vez…)
Si te besara la planta de los pies
buscaría un paso en falso.
Si te besara la parte interna del codo
buscaría tus cubículos.
Si te besara la sombra,
no sabría lo que busco
pero estaría tan cerca…
Si te buscara esta noche besaría a cada extraño
hasta encontrarte.
(Tampoco.. Otra vez…)
Si te besara,
sería escurridiza por un lienzo
carne que se desborda y que se expande
por las vigas de mi casa.
Treparía escurridiza por un muro fronterizo
entre la piel de la carne que se inyecta
en una estructura impersonal llamada nombre.
Estaría consumida antes siquiera de abrir los labios
si te besara y, no podemos hacer nada por esta muerte,
por esta muerte…
(demasiado…)
Si te besara,
sería escurridiza por un lienzo
carne que se desborda y que se expande
por las vigas de mi casa.
Treparía escurridiza por un muro fronterizo
entre la piel de la carne que se inyecta
en una estructura impersonal llamada nombre.
Estaría consumida antes siquiera de intentarlo
invocaría un cataclismo solo con pronunciarlo,
y por eso,
por eso,
me guardo quieta,
quieta,
atenta,
al tanto,
alerta,
alerta…
por si acaso…
por si acaso hubiese atisbo
de encontrar el punto medio entre los muros donde shhh…
no hacernos daño,
donde solo darnos cuenta
de hasta dónde llega el beso,
antes de que llegue la rabia.
 
BEIJOS SÃO DADOS NA BOCA
Elsa Moreno Calabuig
Acho que beijos são dados na boca
porque é de lá que as palavras brotam.
Se eu beijasse a ponta dos seus dedos,
estaria buscando um carinho.
Se eu beijasse a sola do seu sapato,
estaria buscando um caminho.
Se eu beijasse suas pálpebras
enquanto você dorme,
estaria pedindo permissão
para entrar nos seus sonhos,
mas estou beijando seus lábios
porque quero ouvir minhas palavras saírem de você.
(De novo…)
Se eu beijasse a sola dos seus pés,
estaria buscando um passo em falso.
Se eu beijasse a parte interna do seu cotovelo,
estaria buscando suas cavidades.
Se eu beijasse sua sombra,
eu não saberia o que estou procurando,
mas estaria tão perto…
 
Se eu estivesse procurando por você esta noite, beijaria todos os estranhos
até te encontrar. (Nem… De novo…)
Se eu te beijasse,
eu seria escorregadia sobre uma tela,
carne transbordando e se expandindo
ao longo das vigas da minha casa.
Eu subiria escorregadia por um muro divisório
entre a pele da carne que é injetada
em uma estrutura impessoal chamada nome.
Eu seria consumida antes mesmo de abrir meus lábios
se eu te beijasse, e não podemos fazer nada sobre esta morte,
sobre esta morte…
(demais…)
Se eu te beijasse,
eu seria escorregadia sobre uma tela,
carne transbordando e se expandindo
ao longo das vigas da minha casa.
Eu subiria escorregadia por um muro divisório
entre a pele da carne que é injetada
em uma estrutura impessoal chamada nome.
Eu seria consumida antes mesmo de tentar,
eu invocaria um cataclismo só de pronunciá-lo,
e é por isso,
é por isso,
eu me mantenho imóvel,
imóvel,
atenta,
consciente,
alerta,
alerta…
só por precaução…
só por precaução, caso haja um vislumbre
de encontrar o ponto médio entre as paredes onde shhh…
não nos machucamos,
onde só percebemos
o quão longe o beijo alcança,
antes que a fúria chegue.
 

domingo, 31 de maio de 2026

DIALÉTICA – VINÍCIUS DE MORAES

 
Mesmo que não haja fundamentação psicanalítica e nem eu tenha (ainda) formação nessa área, criei “para uso pessoal” uma divisão de personalidades e comportamentos, assim definidos: pessoas solares, de temperamento solar e pessoas lunares, de temperamento lunar.
 
Eu vejo a pessoa solar como alegre, bem resolvida, de bem com a vida. A lunar seria alguém com tendência à depressão, melancólica e triste, mesmo que sem motivo aparente.
 
Se quiser saber, eu me considero uma pessoa “lunar”, que brinca o tempo todo, faz piadas de quinta série, mas, quando está sozinho, murcha e mergulha para dentro de si mesmo.
 
Esta abordagem surgiu depois de ler o poema “Dialética”, do Vinicius de Moraes. Bom vivant, boêmio, casado com “n” mulheres, dizia que era "um homem triste, com uma grande vocação para a alegria". Imagino que essa dualidade foi a inspiração para estes versos:
 
É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção.
É claro que te acho linda
E em ti bendigo o amor das coisas simples.
É claro que te amo.
E tenho tudo para ser feliz.
Mas acontece que eu sou triste.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

CURRAL DEL REI

 
A cidade onde moro foi projetada e construída sobre Curral del-Rei, um povoado arrasado e demolido para que surgisse a nova capital do estado. Começou assim: destruindo o que já existia. Sensacional.
 
O projeto foi feito por engenheiros, mas engenheiro calcula e executa, não projeta nem deveria. Ainda mais uma cidade!
 
Previu-se uma avenida-anel contornando a área central, confinando e destacando os maiorais: funcionários públicos, empresários, gente abonada, bacana, em casas mais simples ou palacetes, mas cada um no seu quadrado – ou retângulo, pois as ruas e avenidas cruzam-se em desenho ortogonal, pouco importando se aquilo eram ladeiras vertiginosas. As curvas de nível foram solenemente ignoradas.
 
Aliás, talvez o único nível realmente respeitado fosse o social.
 
A área contornada era cercada de colônias agrícolas onde a ralé e os imigrantes – espanhóis, italianos, portugueses – compunham a turma do agro, necessária para alimentar os parasitas públicos e os grandes negociantes da cidade, sempre dispostos às grandes negociatas.
 
Com o tempo, essas colônias foram loteadas, fazendo surgir os bairros mais antigos da cidade: periféricos, de urbanização desleixada, casas simples, ruas, becos e calçadas sem padrão, como se a própria arquitetura denunciasse sua origem desimportante.
 
A população desses bairros também carregava essa marca. Afinal, como conviver com a elite sócio-econômica da cidade? Só mesmo na zona, em um dos muitos puteiros discretamente afastados do olhar das famílias de bem. E sabe por que estou dizendo tudo isso?
 
Porque quis o destino – ou um anjo safado, ou talvez um chato de um querubim – que eu nascesse num desses bairros periféricos, depois que meu pai viu a quebra das empresas familiares das quais um dia fora sócio. O resultado foi sair da área nobre para morar na casa da sogra, ela própria uma deserdada do destino, depois de assistir ao patrimônio deixado pelo pai ser embolsado pelos irmãos filhos da puta.
 
Éramos pobres, sem nos dar conta disso, exceto quando confrontados com nossos dois únicos primos por parte de mãe. Eles, as únicas crianças com quem podíamos brincar, eram ricos de nascença, tinham brinquedos incríveis, bicicletas, passavam as férias na praia ou em estâncias hidrominerais. E nós lá, só olhando – e babando.
 
Que tal ir à Praça da Estação para nos despedir deles em uma de suas viagens para o Rio? Bom, não é? Que tal ser convidado a entrar no Vera Cruz, que era o melhor trem de passageiros da época (com ar condicionado e tudo mais), só para conhecer a cabine onde os primos viajariam (deitados, claro, em camas beliche)? Excelente, não? Pois é, eu já fui levado a um ou dois desses bota-fora, à noite. A volta para casa sempre tinha um gostinho de fundo de gaiola.
 
Talvez venha daí essa insegurança atávica que trago hoje comigo: a percepção de que ter cultura é muito bom, mas melhor mesmo é viajar para a Europa.
 
Esta talvez seja a verdadeira explicação “histórico-geográfico-sociológica” do meu complexo de vira-latas.
 
Porque, no fundo, a questão que fica é esta: como tratar com naturalidade despreocupada, como conviver naturalmente com a elite econômica da cidade se eu nunca fiz parte dela?

quinta-feira, 28 de maio de 2026

TAGORE

 
Talvez, por ter ficado viúvo em dezembro (momento tristíssimo, devastador), deve ter sido em janeiro passado que ganhei de uma amiga o livro A morte é um dia que vale a pena viver, escrito por uma médica especialista em cuidados paliativos, prestados a doentes em estágio terminal e a seus familiares.
 
Comecei a lê-lo, mas a leitura não progredia. Só agora, durante a semana em que me afastei do blog e de toda a internet, consegui, recomeçando do zero, chegar ao final.
 
Em uma de suas páginas encontrei um poema de Rabindranath Tagore, prêmio Nobel de Literatura em 1913. Tagore foi um polímata indiano – poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta, compositor, pintor, filósofo, reformador social, educador, linguista e gramático – e o primeiro asiático a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura.
 
O resto, para quem se interessar em conhecer um pouco mais, já sabe: Wikipédia, internet etc. Porque minha intenção é apenas postar aqui, neste blog desclassificado, o poema que li. Bora lá.
 
Não me deixe rezar por proteção contra os
perigos, mas pelo destemor em enfrentá-los.
 
Não me deixe implorar pelo alívio da dor, mas
pela coragem de vencê-la.
 
Não me deixe procurar aliados na batalha
da vida, mas a minha própria força.
 
Não me deixe suplicar com temor aflito
para ser salvo, mas esperar paciência para merecer a liberdade.
 
Não me permita ser covarde, sentindo sua
clemência apenas no meu êxito, mas me deixe
sentir a força da sua mão quando eu cair.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

SALIVA

 
Talvez seja bobo eu repetir palavras
Reexibindo sentimentos antes represados
Mas às vezes eu me sinto afogando em um mar
De emoções que não me deixam respirar
 
Adolescente diante da menina que olha para ele
Com olhos de promessa e sorrisos de sedução
E tudo o que esse jovem deseja é aspirar
Sorver o ar que sai da boca da menina
 
Pois tudo o que ele quer é estar com ela
Todo o tempo, o tempo todo, abraçá-la sem parar
Passar a língua em seus lábios, beijar sua boca,
Provar da sua saliva, sentir seu perfume,
 
Mexer em seus cabelos,
Fazer carinhos em seu rosto
Beijar e morder sua nuca.
E, como num passe de mágica, perceber
 
Que estão deitados nus, abraçando-se
A dançar um bolero horizontal
Uma música que só os dois escutam
Sem hora para acabar, sensual.
 
E aí eu saio desse transe e descubro
Estar sozinho.  Mas não me conformo e digo
Para o espelho que é isso que eu quero
É ela que eu desejo, é tudo o que preciso.

terça-feira, 26 de maio de 2026

FORUGH FARROKHZAD? MUITO PRAZER!

 
Você consegue imaginar que no teocrático Irã atual já existiu uma autora de poemas transgressores e sensuais? Pois é, eu não sabia. Segundo a Wikipédia, “Forugh Farrokhzad, foi uma influente poeta e diretora de cinema iraniana. Ela foi uma controversa poeta modernista e uma autora iconoclasta e feminista. Farrokhzad morreu em um acidente de carro aos 32 anos”, em 1967, antes, portanto da chegada do aiatolá Khomeini. Mesmo assim, fica a pergunta: teria sido mesmo acidente? Se quiser saber mais, por favor, peça ao Google, ao ChatGPT, ao Donald Trump ou em quem você pensar. Meu negócio é publicar, divulgar um de seus poemas. Lê aí.

 
O PECADO
Cometi um pecado cheio de prazer,
num abraço quente e ardente.
Pequei rodeada por braços
quentes, vingadores e de ferro.
 
Naquele recanto escuro e silencioso,
olhei em seus olhos cheios de segredos.
Meu coração impacientemente palpitava em meu peito,
em resposta ao anseio de seus olhos.
 
Naquele recanto escuro e silencioso,
sentei-me desgrenhada ao seu lado.
Seus lábios derramaram paixão sobre os meus,
e escapei da dor do meu coração enlouquecido.
 
Sussurrei em seu ouvido a história do amor:
Eu te quero, ó minha vida,
eu te quero, ó abraço que dá vida,
ó meu amante enlouquecido, você.
 
O desejo acendeu uma chama em seus olhos;
o vinho tinto dançava na taça.
Na cama macia, meu corpo
embriagado tremia sobre seu peito.
 
Cometi um pecado cheio de prazer,
ao lado de uma forma trêmula e estupefata.
Ó Deus, quem sabe o que fiz
naquele recanto escuro e silencioso.

domingo, 24 de maio de 2026

BACK HOME

 
No ônibus, voltando da casa de meus filhos – sim, porque minha nora é uma queridíssima filha do coração – lembrei-me da música Back in Bahia, composta e gravada em 1972 pelo Gilberto Gil em sua volta do exílio a que foi submetido. Alguns versos têm tudo a ver com o que estou sentindo agora. E a música é muito boa!
 
Hoje eu me sinto
Como se ter ido fosse necessário para voltar
Tanto mais vivo
De vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá



segunda-feira, 18 de maio de 2026

AVISO AOS NAVEGANTES

 A partir de hoje e até o dia 23 ou 24 não acessarei blogs amigos, não publicarei nem comentarei nada. Só na volta, se tiver assunto, publicarei alguma coisa. Até lá o blog ficará sem novidades, mas respirando sem auxílio de ventilação mecânica. See you later alligator!

https://www.youtube.com/watch?v=1Hb66FH9AzIhttps://www.youtube.com/watch?v=1Hb66FH9AzI


domingo, 17 de maio de 2026

DE MÃOS DADAS

 
Em BH, cidade onde moro, existe uma rua do chamado “baixo centro”, bem na periferia da área central, que é “rua de zona”. Sempre foi, embora mais bem frequentada na década de 1920, por aí. Nessa rua, além do sofisticado Montanhês Dancing, ficava o bordel onde Ana Furacão “batalhadava”.
 
Hoje, além de alguns hotéis de altíssima rotatividade, há lojas de atacado, papelarias, lojas de produtos populares e até uma igreja evangélica. Uma vez, para comprar algum tipo de embalagem em maior quantidade, estacionei o carro quase em frente a um desses “hotéis”. Meu amigo, o entra e sai de homens de todas as faixas etárias era impressionante! Isso me fez pensar que um produto tipo hipoglós deve vender bem por ali.
 
Mas estou muito longe do tema de hoje. O que mais chamou minha atenção foi a quantidade de idosos subindo e descendo as escadas desse e de outros puteiros da região. E aí surgiu em minha mente uma teoria miojo (aquela que é formulada em três minutos e o resultado é sempre uma merda), sobre que tipo de comportamento mais incomoda nossa sociedade hipócrita e preconceituosa. Sem paciência para detalhar meu pensamento, pedi ao ChatGPT para criar um conto ou crônica, depois de municiado com o que pensei. Este foi o prompt imaginado, a “munição” a utilizar:
 
“Imaginei um país distópico, talvez ditadura ao estilo de 1984, que define e promulga um decreto estabelecendo os direitos, deveres, proibições e punições dos idosos. Algo assim:
'Fica decretado que idosos não podem namorar, assim definidos atos e comportamentos que envolvam carícias próprias de adolescentes, tais como troca de beijinhos em público ou andar nas ruas de mãos dadas, abraçados. Tal comportamento é considerado atentado violento ao pudor, passível de internação em asilos.
Não é permitido aos idosos se apaixonar. Aos idosos só cabe o direito de ter amantes, usar os serviços de garotas e garotos de programa com a finalidade única de fazer sexo, vulgarmente conhecido como transar, trepar em ou sobre, excluídas e proibidas todas as manifestações de carinho explícito em locais públicos'.
Pensei nessa ideia por perceber os olhares espantados ou de inveja de outros idosos quando ando de mãos dadas com minha namorada, quando a beijo carinhosamente na boca, quando sorrio para ela e faço confidências ao pé do ouvido. Quer me ajudar a desenvolver esta ideia”?
 
Depois dos comentários de praxe tão ao gosto do ChatGPT, surgiu esta crônica distópica. Eu assinaria em baixo, mas foi a IA que escreveu.
 
 
Ninguém soube dizer ao certo quando começou.
Alguns afirmavam que foi depois da Reforma Sanitária Afetiva. Outros juravam que tudo nascera antes, quando os especialistas passaram a aparecer diariamente na televisão para explicar os perigos emocionais da velhice apaixonada.
“Paixão tardia provoca desequilíbrio social”, diziam.
“Apego senil sobrecarrega o sistema público.”
“O idoso apaixonado perde discernimento.”
No começo parecia apenas uma campanha educativa. Como aquelas recomendações para reduzir o sal ou caminhar trinta minutos por dia. Depois vieram os decretos. Então as multas. Finalmente os agentes.
Hoje já ninguém estranha.
Na Praça Central, por exemplo, os bancos são divididos por barras metálicas no meio, justamente para impedir excessiva aproximação afetiva entre cidadãos da terceira idade. A medida foi muito elogiada pelo Ministério da Compostura Pública.
“Conforto sem promiscuidade”, dizia o slogan.
Os jovens continuam se beijando nas esquinas, nos ônibus, nos corredores do metrô. O Estado considera isso aceitável. Hormonal. Transitório. Saudável até.
Mas velhos não.
Velhos apaixonados constrangem a sociedade.
Dois idosos caminhando de mãos dadas produzem nas pessoas um desconforto difícil de explicar, mistura de vergonha, irritação e uma espécie obscura de inveja.
Foi exatamente isso que aconteceu quando um idoso segurou a mão de sua namorada enquanto andavam despreocupadamente pela rua.
Nada teatral.
Nada indecente.
Apenas a mão.
Uma moça que vinha na direção oposta imediatamente desviou os olhos.
Dois rapazes riram.
Uma senhora parou diante da vitrine de uma farmácia apenas para continuar observando.
O idoso percebeu tudo.
Percebeu também quando sua namorada tentou discretamente soltar a mão.
Não soltou.
Continuaram andando.
Lentos.
Escandalosos.
 
Ao passarem diante do edifício dos Correios, ouviram o aviso eletrônico:
- Demonstrações afetivas senis em espaços públicos constituem infração ao Estatuto da Dignidade Etária. Preserve o decoro. Denuncie.
A namorada sorriu.
Foi pior.
Sorrisos cúmplices entre idosos haviam sido classificados no ano anterior como “indução visual de intimidade”.
O idoso achou graça da expressão jurídica. Sempre achava graça.
Setenta e cinco anos de vida para descobrir que amar alguém podia receber nome de doença administrativa!
 
Pararam diante de uma banca de flores clandestina.
As flores haviam praticamente desaparecido da cidade depois da regulamentação sentimental. Rosas eram consideradas itens de estímulo emocional. Sua venda exigia autorização especial para funerais e cerimônias patrióticas.
A mulher da banca olhou rapidamente para os lados antes de mostrar uma pequena margarida escondida sob jornais velhos.
- É importada – cochichou.
A namorada quase chorou.
O que também era proibido.
O Decreto nº 88 classificava lágrimas de natureza romântica como “descontrole afetivo regressivo”.
O idoso comprou a flor mesmo assim.
Pagou caro.
Pagou sorrindo.
 
Mais adiante, um painel luminoso exibia a frase do governo:
O DESEJO É FISIOLÓGICO. O AMOR É ANTISSOCIAL.
Abaixo da propaganda, dois agentes conduziam um homem algemado.
Seu crime: beijar a esposa na testa enquanto esperavam atendimento numa clínica geriátrica.
Algumas pessoas assistiam à cena com indignação moral.
Outras com alívio.
Porque o amor nos velhos produzia um efeito insuportável nos demais: lembrava a todos que o coração envelhece menos do que o corpo.
E isso o Estado jamais conseguiu perdoar.
Naquela noite, já em casa, a namorada perguntou:
- Você tem medo?
O idoso pensou um pouco.
Depois respondeu:
- Tenho.
Ela abaixou os olhos.
- Eu também.
Ficaram em silêncio.
Então ele segurou novamente a mão dela sobre a mesa.
Devagar.
Como quem pratica um crime.

 

 

QUANDO VIER A PRIMAVERA- ALBERTO CAIEIRO

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