domingo, 16 de agosto de 2026

GUARDAR - ANTÔNIO CÍCERO

 
Antônio Cícero foi um grande poeta, filósofo, letrista e membro da Academia Brasileira de Letras. Era irmão da cantora e compositora Marina Lima, para quem escreveu várias letras das músicas por ela compostas.
 
Um dia, ao ver que estava em um processo sem volta, tomou a decisão durísssima de praticar eutanásia na Suiça, deixando uma carta endereçada aos amigos. Entendi que valia a pena transcrever trechos desta carta para apresentar um de seus poemas:
 

A CARTA:
O que ocorre é que minha vida se tornou insuportável. Estou sofrendo de Alzheimer. Assim, não me lembro sequer de algumas coisas que ocorreram não apenas no passado remoto, mas mesmo de coisas que ocorreram ontem. (...)
Não consigo mais escrever bons poemas nem bons ensaios de filosofia. Não consigo me concentrar nem mesmo para ler, que era a coisa de que eu mais gostava no mundo. Apesar de tudo isso, ainda estou lúcido bastante para reconhecer minha terrível situação. (...)
Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade.


O POEMA:
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre não
  se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto
                 é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é,
velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela
                                    ou ser por ela.
          Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
                         Do que pássaros sem vôos.
  Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se
                          declara e declama um poema:
                                     Para guardá-lo:
            Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
                  Guarde o que quer que guarda um poema:
                              Por isso o lance do poema:
                       Por guardar-se o que se quer guardar.

sábado, 15 de agosto de 2026

VOCÊ É BRASILEIRO? JURA?

 

Recebi este texto de um amigo de facebook e não resisti à tentação de divulgá-lo no blog, por pensar exatamente com seu autor.

O brasileiro que comprou um pedaço do Liverpool
A notícia me chamou a atenção: Eduardo Saverin, um dos fundadores do Facebook, está entre os investidores de um consórcio que acaba de adquirir uma participação de mais de 30% no Liverpool Football Club. O negócio avalia o tradicional clube inglês em mais de cinco bilhões de libras.
Eduardo Saverin é brasileiro.
Nasceu em São Paulo, em 1982. Mudou-se para os Estados Unidos aos dez anos, tornou-se cidadão americano em 1998 e, em 2011, renunciou à cidadania americana. Desde então, vive em Singapura.
Ainda assim, quando a notícia apareceu, lá estava ele: o brasileiro Eduardo Saverin.
E isso me fez pensar no nosso velho complexo de vira-latas.
A expressão foi criada por Nelson Rodrigues para falar da nossa inferioridade psicológica diante do estrangeiro. Temos, muitas vezes, a necessidade de acreditar que aquilo que vem de fora é melhor — mais sofisticado, mais competente, mais importante. Mas existe também o movimento contrário, talvez igualmente revelador: quando um brasileiro faz sucesso lá fora, imediatamente o reivindicamos.
O sujeito nasce no Brasil, vai embora ainda criança, estuda em Harvard, participa da criação do Facebook, constrói sua fortuna nos Estados Unidos, muda-se para Singapura, renuncia à cidadania americana e passa a investir pelo mundo.
E nós dizemos: "Vejam o brasileiro!"
É curioso.
Não estou dizendo que Saverin não seja brasileiro. Juridicamente, nasceu brasileiro e continua sendo brasileiro. Mas talvez haja uma diferença entre nacionalidade e pertencimento.
A nacionalidade pode estar registrada num documento. O pertencimento é uma coisa muito mais complicada.
O que me parece interessante é perceber como nós, brasileiros, gostamos de incorporar ao nosso currículo nacional aqueles que venceram no exterior. É como se o sucesso obtido longe daqui funcionasse como uma espécie de certificado de qualidade que pudéssemos exibir.
"É brasileiro!"
Como se disséssemos: vejam, nós também produzimos gente capaz de chegar lá.
Mas há uma ironia ainda maior.
Saverin não está comprando o Liverpool sozinho. Está participando de um consórcio que reúne alguns dos maiores capitais do mundo, entre eles Jeff Bezos. O Brasil não está comprando o Liverpool. Um homem nascido no Brasil está investindo no futebol inglês com dinheiro construído numa trajetória essencialmente internacional.
Talvez seja justamente aí que a história fique interessante.
O mundo mudou. O dinheiro atravessa fronteiras com uma facilidade que nossos sentimentos de pertencimento ainda não conseguem acompanhar.
Um homem pode nascer brasileiro, tornar-se americano, viver em Singapura e comprar parte de um clube inglês.
E nós ainda precisamos perguntar:
"Mas ele é brasileiro?"
Talvez o nosso complexo de vira-latas tenha mudado de forma.
Antes, olhávamos para o estrangeiro e dizíamos: eles são melhores que nós.
Agora, quando um dos nossos vence lá fora, corremos para dizer:
"Ele é nosso."
No fundo, talvez ainda estejamos procurando, no sucesso dos outros, uma maneira de acreditar um pouco mais em nós mesmos.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

IN DUBIO PRO REO

 
Nada sabemos do futuro
Pouco sabemos do passado
Mesmo o presente – tão claro! –
Pode se apresentar escuro
Confuso, estranho, nublado
 
Fazendo-nos crer que o dito
Em tempo distante, esquecido
Possa ainda ser veredito
Para hoje nos condenar

Sem pensar que o que foi dito
Pode hoje ser desdito
Pois o que hoje é feio
Já foi um dia bonito
 
Que a eternidade por uns pretendida
Não teve nem tem garantia
De permanecer imutável
Em mente para sempre mutante
Mutável, fluida – enguia
 
Disse um amigo uma vez
Que não podemos julgar o passado
Com nossos olhos de presente

Que condenar, rejeitar o pretérito
Ainda que seja imperfeito
É esquecer que seremos julgados
Por quem estiver no futuro
E que essa é a única, eterna certeza
 
Quem fica propenso a julgar
Ignora ou não quer aceitar
Que o passado é apenas pretérito
Não adianta tentar alterar

E que só é possível mudar
O presente, só o presente,
Somente.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O QUERERES – CAETANO VELOSO

Minha reverência de hoje, extremamente respeitosa, é para Caetano Veloso. Embora já tenha pisado em algumas bolas (não é o que vocês estão pensando!) ao longo da vida – como no caso da associação “Procure Saber”, que tentou impedir a divulgação não autorizada de biografias –, é um sujeito indiscutivelmente genial.
 
Nem tudo o que ele já fez me agrada, pois sua obra é complexa, culta e sofisticada. Seu domínio vocabular é absoluto! Não tenho ferramental adequado para entender tudo o que ele faz (aliás, mesmo que tivesse, nem sei se teria interesse nisso). Algumas coisas eu gosto; outras, não. Simples assim.
 
Mas a letra desta música é absurdamente bonita e sofisticada. E o motivo de eu querer publicar esta maravilha é a enorme semelhança entre o que ele canta e o que rola – ou deixa de rolar – nos relacionamentos afetivos da terceira idade, quando a paixão já não reina soberana e precisa disputar espaço com todo o resto que a vida acumulou. 

Que pena, não?

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim




quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O PRESENTE

 
Pai é uma palavra tão pequena, mas que você me mostrou que pode ser gigante, carregada de significados e sentimentos.
 
Você já me disse várias vezes que não foi um bom pai, que foi um pai ausente. Eu só tenho que discordar, pois você me ensinou a ser pai: um pai carinhoso e sem medo de expressar seus sentimentos.
 
Um pai que me mostrou várias coisas, algumas das quais me interessam hoje. Você me ensinou a curiosidade pelo mundo.
 
Eu sei que você vai discordar de tudo escrito até agora, mas as várias conversas sobre os assuntos mais variados que já tivemos dizem o contrário.
 
Você falou (escreveu) que, neste Dia dos Pais, você não me daria presentes — você sempre diz isso — e que, dessa vez, você daria o presente.
 
O presente que eu quero é você presente (o máximo de tempo possível) e ser mais presente também na sua vida.
 
Posso não saber, mas imagino como você está nesses últimos oito meses, imagino como se sente, em luto e em luta.
 
Hoje entendi a questão do luto da mamãe pelo vovô, quando, um dia, em vez de ir ao cemitério, vocês foram tomar sorvete (se não me engano).
 
O luto não é apenas tristeza e dor. É conseguir entender, sentir que é possível seguir em frente apesar da ausência física.
 
Eu te falei que meu luto seria trabalhado em poesias. Segue a última, que eu não te mandei, pois ainda não estava no papel:
 
"Quando a ausência se torna presente,
a presença se ausencia".
 
Como escrevi antes, espero que sua presença como meu pai ainda dure muitos anos.
 
E espero, e me esforço, para que a Felicidade não se ausente de sua vida.
 
Obrigado por tudo.
 
E, como você diz, te contar um segredo:
 
eu te amo!
 
Bê 11/08/26

terça-feira, 11 de agosto de 2026

EXIBIDO!

 
Olhaí, pessoal. Os cento e trinta e poucos poemas que eu publiquei ao longo do tempo neste blog desconjuntado acabaram sendo reunidos, selecionados e lançados na Amazon sob a forma de e-book, graças à mentoria inicial e apoio do Fabiano Caldeira, imperador absoluto do blog Fabiano Café Gay.
 
Mas o que deveria ser apenas uma publicação, acabou se transformando em dois, três, quatro e sei lá mais quantos e-books. O material era o mesmo, apenas a finalidade mudava.
 
Recentemente, ao ver minha vida e coração revirados por uma pessoa especialíssima, comecei a escrever poemas de amor e de inquietação, bem no estilo neurótico-apaixonado e instável que caracteriza e define meu estado mental.
 
Pois bem, nada mais natural que surgisse também o desejo de que ela lesse os poemas jotabélicos anteriores à sua ressurreição e também aqueles que inspirou. Mas ler a versão e-book é mais chato (para mim, pelo menos).
 
 Por isso, resolvi fazer um livro impresso para dar a ela, a musa inspiradora desse desejo (de outros também). Depois de uma seleção rigorosíssima da tralha toda, selecionei 111 poemas. Mas deu trabalho, como deu trabalho!  Aliás, trabalho e briga com a Amazon, motivada por eu querer utilizar uma capa criada pelo ChatGPT. Para encurtar a conversa, perdi a briga e fui obrigado a usar o criador de capa do KDP.
 
Computados mortos e feridos, medicados e suturado os ferimentos, o livro impresso foi  finalmente aprovado pela Amazon. E é essa belezura que exibo para vocês (sou muito exibido, quase um exibicionista). O título adotado é "OLHOS DE SOL NASCENTE: Seleção Afetiva de Poemas". Por que "olhos de sol nascente"? A explicação para esse título está no corpo do livro. Mas ninguém precisa comprar, pois sai caro pra burro (frete dos EUA para cá, etc.).


segunda-feira, 10 de agosto de 2026

DOCA SECA

 
Não sou nem quero ser porto seguro
Para ninguém, nunca fui.
Porto seguro pede mar, rio, lagoa
E por mais que isso me doa
Preciso dizer que sou, sempre fui
Inseguro, cais flutuante para quem
Quis, quer ou quiser em mim se atracar.
Cais que flutua no seco, não na água
Que não sabe dizer o que é mar
Pois a única coisa que sabe fazer
Que lembra um pouco a palavra
É amar. Sem medida, freio ou receio
E isso pode fazer muito mal.
Para mim, para alguém ou ninguém...

sábado, 8 de agosto de 2026

COMEÇO, MEIO E FIM - ROUPA NOVA


Esta música linda foi composta pelo Tavito, ex Som Imaginário. Espero que os leitores deste blog velho e desgastado (como o próprio blogueiro) apreciem.


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

TIVE SIM - LUIZ MELODIA

Luiz Melodia foi um compositor que me cativou logo de início, quando ouvi a Gal Costa cantar “Pérola Negra” (“tente passar pelo que estou passando”), de sua autoria. Depois vieram “Juventude Transviada”, "Estácio, Holly Estácio" (“se alguém quer matar-me de amor que me mate no Estácio”) e outras que fogem do tema deste post, porque ele era um cantor fabuloso, com uma voz anasalada que punha no chinelo gente como o Cazuza ou Diogo Nogueira.

Infelizmente, faleceu vítima de câncer (doença filha da puta!) em 2017. Mas deixou uma interpretação ao vivo da música “Tive Sim” que é espetacular (desculpe, Diogo Nogueira, você pode ter pegado a deliciosa Paola Oliveira, mas como intérprete não chega aos pés nem de seu pai João Nogueira nem do Luiz Melodia). 

Para provar isso (embora não seja essa a intenção) vejam e escutem esta maravilha composta pelo genial Cartola. A propósito, o vídeo erra o autor, ao atribuir a música ao Zeca Pagodinho (faltou cultura inútil a quem deu esse vacilo!). Segura aí. 



terça-feira, 4 de agosto de 2026

MUSA

 
Às vezes surge u’a vontade inesperada
De bobaginhas de amor falar em seu ouvido
Desejo quase sempre incompreendido
 
Talvez todo mundo estranhe
Um jeito de amar tão esquisito
Mal sabem eles que amar assim é só delícia
 
Amor superlativo que faz a razão faltar
E o bom senso totalmente esquecido
Amor de doido manso, inofensivo, sem perigo
 
E, quer saber?  Eu nem ligo,
Pois é assim que vive esse amor:
Aquece o peito e o coração acaricia
 
E declaro não saber mudar o rito,
A fórmula, a bula de um amor assim bonito
Pois nasce tão espontâneo e alegre,
 
Explode tudo, muda a dimensão do tempo
Cada segundo longe é minuto
Cada minuto perto, eternidade.

sábado, 1 de agosto de 2026

PORTO SEGURO

 
Dia desses ouvi alguém dizer que “mulher deseja um homem que seja seu porto seguro”, algo assim. Fiquei com aquilo na cabeça, tentando entender o significado profundo dessa declaração. Que seria um porto seguro? Segurança financeira? Performance sexual irretocável? Apoio em momentos de dor ou depressão?
 
Pode ser tudo isso ou o contrário. Creio que talvez segurança emocional, equilíbrio, maturidade sejam características de um homem “cais” ou “embarcadouro” a que a autora da frase pensava definir.
 
E aí me fiz a mesma pergunta: seria eu um porto seguro para alguém? A resposta que imaginei está nestes versos:
 
Seria eu um porto seguro?
Não sei como fazer isso
Não sei nem me proteger!
Que dirá como não ser imaturo!
 
A única coisa que sei fazer
É amar profundamente
Escancarar meu corpo e mente
Deixar sair a paixão
Limpa, intensa, envolvente
 
Não tenho limites para amar
Nem segredos sei guardar
Tudo o que penso de bom eu falo
Mesmo que seja fruto
de terremoto mental ou abalo
 
Isso não é engraçado, pelo contrário
É triste, talvez ridículo
Mas nada muda esse cenário
Não sei esconder sentimentos
 
Meu cais não é fixo, flutua
Mas não afunda, fica estável
Não há onda do mar que o destrua
 
E o amor que nele deposito
Jamais correrá nenhum risco
De escapar ou se afogar
 
Seria isso um porto seguro?
Talvez seja, talvez sim, quem sabe?
Eu posso até afirmar, mas só descobre
Quem se dispõe a usar
E foi sempre assim, a vida inteira
Não sei como isso mudar.

 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

TODAS AS CARTAS DE AMOR SÃO RIDÍCULAS - ÁLVARO DE CAMPOS

 
Tenho publicado alguns (ou vários) poemas, onde celebro o amor que estou sentindo por uma menina que me revirou pelo avesso e explodiu minha mente. Não me preocupo com a qualidade literária, o que vale é a intensidade dos sentimentos.
 
Essa novidade recebeu um comentário irônico do titular do blog “As Crônicas do Edu”, ao afirmar que “como já disse um grande poeta, toda carta (poema?) de amor é ridícula” (deduzo que ele já conhecia o poema do Álvaro Campos/Fernando Pessoa). E ele tem razão. Mas que bom é ter motivo para ser ridículo! Olhaí o poema:
 
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
 
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
 
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
 
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
 
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
 
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
 
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

terça-feira, 28 de julho de 2026

POSOLOGIA

 
Ficar de mãos dadas com você
Nas ruas ou diante da TV.
 
Ouvir sua voz gravada
Ler suas mensagens escritas
Conversar por telefone.
 
Ou olhar seu rosto lindo
E ficar hipnotizado
Por seus olhos de sol nascente.
 
Beijar sua boca
Mordiscar seu pescoço
Suave, lentamente
Fazer cafuné em seus cabelos
Sentir sua pele ao te abraçar
Beijar e beijar seu corpo.
 
Várias as formas de apresentação
De um mesmo remédio:
 
Tônico fortificante
Antidepressivo sem receita
Vitaminas de A a Z.
.
Sem precisar de prescrição.
Sem risco de superdosagem.
Sem contraindicação.

domingo, 26 de julho de 2026

ANDRÉ MAUROIS - FRASES

 
Depois de ler uma bela frase atribuída a André Maurois, quis saber um pouco mais sobre ele e se teria escrito outros aforismos, com a intenção de publicá-los no blog, caso os encontrasse.
 
Segundo a Wikipédia, “André Maurois, (nascido Émile Salomon Wilhelm Herzog) foi um famoso romancista, biógrafo e ensaísta francês do século XX. Ele se destacou principalmente por suas biografias elegantes de grandes personalidades e por entrar para a Academia Francesa em 1938”. Bacana!
 
A seguir, alguns exemplos do pensamento desse francês que encontrei na internet.
 

A leitura de um bom livro é um diálogo incessante: o livro fala e a alma responde.

Cultura é o que fica depois de se esquecer tudo o que foi aprendido.

O que fizeste para a mulher, isso ela pode esquecer, mas nunca esquecerá aquilo que para ela não fizeste.

Os mais verdadeiros e os mais vivos amores são sempre os mais inesperados.

Não há mulheres perigosas, há apenas homens fracos.

O matrimônio é algo no qual é necessário trabalhar permanentemente e nunca está pronto.

No matrimônio, uma profunda análise mútua conduz a uma infinita querela.

A amizade supõe a confiança, união de pensamentos e esperança.

Todos os negócios que me propõem são maus, porque se fossem bons não mos propunham.

O amor nos outros é para nós quase sempre incompreensível.

O homem rico tem comensais ou parasitas, o homem poderoso, cortesãos, o homem de ação, camaradas, que também são amigos.

O verdadeiro matrimônio é uma mistura particular de amor, amizade, consideração e sensualidade.

O homem de ação é antes de tudo um poeta.

A morte não pode ser pensada, pois é ausência de pensamento. Temos de viver como se fôssemos eternos.

A certeza de ser amado dá robustez a um espírito tímido, tornando-o natural.

Um casamento feliz é uma longa conversa que sempre parece muito curta.

Há em todo o sucesso humano uma parte mal definida de felicidade.

Não basta ter espírito. É preciso tê-lo o bastante para abster-se de tê-lo em demasia.

A felicidade é uma flor que não se deve colher.

Os homens entregam a alma como as mulheres o corpo, por zonas sucessivas e bem defendidas.

Muitas pessoas estragam a vida com a imaginação da infelicidade que as ameaça.

Os negócios são a combinação da guerra e do desporto.

A razão de ser de qualquer fé é trazer-nos uma certeza.

Aquilo que os homens menos vos perdoam é o mal que disseram de vós.

Poucos são os que nunca tiveram uma oportunidade de alcançar a felicidade e menos ainda os que aproveitaram essa oportunidade.

O amor suporta melhor a ausência ou a morte do que a dúvida.

A arte é um esforço para criar, além do mundo real, um mundo mais humano.

O casamento é um edifício que deve ser reconstruído todos os dias.

O Raciocínio pode servir para demonstrar com certa aparência de solidez as teses mais absurdas.

Conservar a esperança equivale a não envelhecer. A velhice é mais do que cabelos brancos e rugas.É sentimento de que é tarde demais, é o sentimento de que o palco já pertence a outra geração.A verdadeira doença da velhice não é o enfraquecimento do corpo: é a apatia da alma.

A arte de envelhecer consiste em conservar alguma esperança.

Todos os poderosos líderes de homens possuem traços em comum, que parece ser as condições de sua superioridade. Para começar, dão pouco valor ao que as pessoas comuns cobiçam.

Os homens de gênio, na ação, veem as coisas como elas se apresentam e não como gostariam que fossem.

Mente ampla, rápida; inacreditável capacidade de trabalho; honestidade intelectual; nenhuma ilusão sobre a raça humana; a arte de encantar sem bajular, eis o que pode ter mantido a boa fortuna ao seu lado.

A arte suprema não é ter sucesso, é saber parar".

Às vezes, procuramos a felicidade da mesma forma que procuramos nossos óculos quando eles estão bem em cima do nosso nariz.

 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

SONETO 81 - LUIS DE CAMÕES

Camões era o cara!

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
 
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder;
 
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade;
 
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

quinta-feira, 23 de julho de 2026

CORRENTE ALTERNADA

 
Vivendo entre o céu e o inferno
No calor do Saara ou no frio polar
A fome pungente e o lauto jantar
No alegre playground ou total solidão
 
Alternando euforia e melancolia
Na maior parte do tempo, tristeza, apatia
Felicidade só em um único dia
Presença? Alegria explodindo
Na ausência, confesso: alegria em recesso
 
Não sei como aguentar tudo isso
Oscilando entre a fossa e a alegria
No rarefeito ar do Everest ou no fundo
Mais fundo do mar mais profundo
 
Coração quase a infartar
Me sentindo um rotor
De corrente alternada girando
Girando, girando, girando
 
E eu me pergunto: até quando?
Como poder aguentar?
Mas sei que é o que quero, desejo
Que isso nunca se acabe
Só preciso saber suportar

quarta-feira, 22 de julho de 2026

SE EU CONVERSASSE COM DEUS – LEANDRO GOMES DE MATOS

 
Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?
 
Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?
 
Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?


segunda-feira, 20 de julho de 2026

MORTE: A RECOMPENSA DA VIDA - A MARRETA DO AZARÃO

 
O blogueiro Azarão, também conhecido nas rodas de cerveja boa e barata como Marreta, escreve muito bem e é autor de belos e incisivos poemas. Depois de levar uma sumida grande, reapareceu com um poema que retrata bem a vontade recorrente que às vezes invade meu cérebro. Aí resolvi copiar o poema e publicá-lo no Blogson, mesmo sem sua autorização.
 
Um dia,
Adormecerei
Para não mais acordar.
 
Um dia,
Adormecerei -
Por cansaço,
Por embriaguez,
Por hipnóticos tarja preta,
Pela ingestão conjunta contraindicada de todos eles
(esses médicos caretas, falsos moralistas, chatos pra caralho) -
E não mais acordarei.
 
Será o dia
Que o senso comum
O IML
Os cartórios e os registros de óbitos
(por que registrar o óbito, o óbvio?),
Chamarão de minha Morte.
 
E será o melhor dia de minha vida,
O dia em que em que deixarei de,
O dia em que não serei mais obrigado a viver,
O dia em que não terei mais que assinar o livro ponto da existência, 
Que não terei mais que dar provas de vida,
Quando há tempos, morto já estou.
 
Minha chamada Morte,
Será a justa recompensa,
O prêmio,
O FGTS,
A aposentadoria,
A alforria,
Por todo trabalho escravo 
Do que foi viver.

 

 

sábado, 18 de julho de 2026

DIZ AÍ, SUASSUNA!

A seguir, frases do imortal (pela ABL) e hilário Ariano Suassuna, intelectual, escritor, filósofo, dramaturgo, professor, romancista, artista plástico, ensaísta, poeta, político e advogado brasileiro.

O mentiroso é um artista que recria a realidade para torná-la mais suportável ou mais bela

O povo não mente, o povo faz literatura oral.

O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso.

A tarefa de viver é dura, mas fascinante.

Quem gosta de ler não morre só.

Tudo que é bom de passar é ruim de contar. E tudo que é ruim de passar é bom de contar.

Arte pra mim não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte pra mim é missão, vocação e festa.

A massificação procura baixar a qualidade artística para a altura do gosto médio. Em arte, o gosto médio é mais prejudicial do que o mau gosto... Nunca vi um gênio com gosto médio.

Às vezes, tudo que precisamos é de uma frase certa, no momento certo.

É muito difícil você vencer a injustiça secular, que dilacera o Brasil em dois países distintos: o país dos privilegiados e o país dos despossuídos.

Eu digo sempre que das três virtudes teologais chamadas, eu sou fraco na fé e fraco na qualidade, só me resta a esperança. Eu sou o homem da esperança.

Que eu não perca a vontade de ter grandes amigos, mesmo sabendo que, com as voltas do mundo, eles acabam indo embora de nossas vidas.

Tenho duas armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho. É com isso que enfrento essa dura e fascinante tarefa de viver.

Não troco o meu "oxente" pelo "ok" de ninguém!

Não sou nem otimista, nem pessimista. Os otimistas são ingênuos, e os pessimistas amargos. Sou um realista esperançoso. Sou um homem da esperança. Sei que é para um futuro muito longínquo. Sonho com o dia em que o sol de Deus vai espalhar justiça pelo mundo todo.

Dizem que tudo passa e o tempo duro tudo esfarela.

Quando eu morrer, não soltem meu cavalo nas pedras do meu pasto incendiado: fustiguem-lhe seu dorso alardeado, com a espora de ouro, até matá-lo.

O sonho é que leva a gente para a frente. Se a gente for seguir a razão, fica aquietado, acomodado.

Jesus às vezes se disfarça de mendigo pra testar a bondade dos homens.

A gente tem uma tendência para acreditar que não morre. Tudo que é vivo morre.

Matar padre dá um azar danado. Sobretudo para o padre.

Ser poeta é muito bom porque eu não tenho nenhuma obrigação de veracidade. Eu posso mentir à vontade, cientista é que não pode.

Se os alemães não leram Guimarães Rosa, Euclides da Cunha ou Machado de Assis, quem perde são eles.

Os doidos perderam tudo, menos a razão. Têm uma (razão) particular. Os mentirosos são parecidos com os escritores que, inconformados com a realidade, inventam outras.

Eu não tenho imaginação, eu copio. Tenho simpatia por mentiroso e doido. Como sou do ramo, identifico mentiroso logo.

Não existe arte nova ou velha, só boa ou ruim.

É preciso mais fé para acreditar de que o homem se originou do macaco do que ter fé para acreditar na história de Adão e Eva.

O ser humano é o mesmo em qualquer lugar, em qualquer tempo, em qualquer que seja a sua condição. Você pode ser rico ou pobre, mas os problemas que afetam verdadeiramente o ser humano são os mesmos.

O autor que se julga um grande escritor, além de antipático é burro, imbecil. Um escritor só pode ser julgado depois da sua morte. Muito tempo depois.

O homem não nasceu para a morte: o homem nasceu para a vida e para a imortalidade.

Eu divido a Humanidade em duas metades: de um lado os que gostam de mim e concordam comigo. Do outro, os equivocados.

É preciso reafirmar valores sem ter medo de ser chamado de arcaico.

Toda arte é local antes de ser regional, mas, se prestar, será contemporânea e universal.

A globalização é o novo nome do imperialismo, e o gosto médio é uma peste, é muito pior do que o mau gosto.

Som universal só conheço três: arroto, espirro e peido.

No meu ver o ser humano tem duas saídas para enfrentar o trágico da existência: o sonho e o riso

Não tenho medo da morte. Só tenho medo de morrer sem terminar um livro que eu esteja escrevendo; e não ter uma morte limpa. Eu quero pelo menos uma morte limpa.

Eu sou muito contra as pessoas falarem mal dos outros pela frente. Eu acho que é uma falta de educação muito grande. Não é? Falar, falar mal pela frente, constrange quem ouve, constrange quem fala. Não custa nada a gente esperar um pouco as pessoas darem as costas.

Não me preocupo muito em ter ou não uma posição como artista. Literatura para mim não é mercado. É a minha festa, é onde eu me realizo. Digo sempre: arte é missão, vocação e festa. Não me venham com essa história de mercado.

A novela não tem nada a ver. Que língua é aquela que eles falam? Você está no meio de nordestinos aqui. Já ouviu um de nós falar daquele jeito? Aquilo não é fala, é miado de gato"

Depois que eu vi num hotel em São Paulo um show de rock pela televisão, nunca mais eu critiquei os cantores medíocres brasileiros. Qualquer porcaria como a Banda Calypso ainda é melhor que qualquer banda de rock.

Acho Melville, por exemplo, extraordinário. Agora, Madonna e Michael Jackson são muito burros, limitados, medíocres. É ofensivo dizer que representam a cultura americana.

Eu precisaria de alguém que me ouvisse. Mas que me ouvisse sentindo cada palavra como um tiro ou uma facada. Cada uma tem seu significado sangrento.

Sou um escritor de poucos livros e poucos leitores. Vivo extraviado em meu tempo por acreditar em valores que a maioria julga ultrapassados. Entre esses, o amor, a honra e a beleza que ilumina caminhos da retidão, da superioridade moral, da elevação, da delicadeza, e não da vulgaridade dos sentimentos.

Sigo tendo pena de nossos adversários aqui em Pernambuco, porque eles não sabem o que é felicidade, porque felicidade é torcer pelo Sport.

Eu não conseguiria conviver com a visão amarga, dura, atormentada e sangrenta do mundo. Então, ou existe Deus, ou a vida não tem sentido nenhum. Bastaria a morte para tirar qualquer sentido da existência. Para mim Deus é uma necessidade. Se eu não acreditasse, seria um desesperado.

 


PERFEITO!