domingo, 18 de outubro de 2026

VOCÊ CONHECIA ESTA HISTÓRIA?

 
Vamos começar pelo básico: Carlos Drummond de Andrade (1902–1987) foi um dos maiores poetas, cronistas e escritores do Brasil, sendo figura central da segunda geração do Modernismo brasileiro.
 
Era também profundamente tímido e, por fora, aparentava ser um homem muito sério. A timidez e a introversão eram marcas registradas da sua personalidade; ele próprio se definia como um "urso polar" e usava o seu jeito reservado para se proteger dos holofotes e do assédio da imprensa. Estamos indo bem, por enquanto.
 
A esposa de Carlos Drummond de Andrade, Dolores Dutra de Morais, faleceu no dia 2 de julho de 1994, na cidade do Rio de Janeiro. Ela sobreviveu ao marido por quase sete anos, já que o poeta faleceu em agosto de 1987, pouco tempo depois da trágica perda da única filha do casal, Maria Julieta. Dolores e Drummond foram casados por 62 anos, tendo oficializado a união em 30 de maio de 1925.
 
OK. Estas informações foram copiadas da internet, mesmo que eu não me lembre de onde as encontrei.
 
Agora o caldo entorna um pouco. Carlos Drummond de Andrade teve uma relação extraconjugal de longa data com Lygia Fernandes, bibliotecária do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Tempo de relação: Eles se conheceram em 1951 e mantiveram um relacionamento secreto por cerca de 36 anos. Muito bom!
 
Drummond tinha 49 anos quando conheceu Lygia Fernandes, que era 25 anos mais jovem que ele. Ela começou a trabalhar com o poeta no Ministério da Educação e Cultura, e os dois engataram um romance que se estendeu até os últimos dias de vida do escritor.
 
Segundo relatos e crônicas biográficas, Drummond faleceu em 17 de agosto de 1987, segurando a mão da amante. Para ela, em 1951, ele escreveu e publicou o poema “Campo das Flores”, que traz esta estrofe inicial:
 
Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus – ou foi talvez o Diabo – deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.
 
Sinceramente acho comovente ele ter vivido esse amor clandestino por tanto tempo, sinal de que viveu feliz e apaixonado até os 85 anos. Mas há uma particularidade nessa love story da terceira idade que talvez muita gente desconheça: movido por esse relacionamento, o poeta itabirano escreveu 40 poemas eróticos, só reunidos no livro “O Amor Natural” após sua morte.
 
O motivo dessa decisão pode ter sido o medo de julgamentos e escândalo: O poeta temia que os versos fossem mal interpretados pelo público ou que manchasse sua imagem pública consolidada. Pouco importa.
 
O que importa para mim é que a maioria não me agradou. E nem se trata de moralismo. Erotismo por erotismo, o poema satírico “O Elixir do Pajé” do Bernardo Guimarães é bem mais interessante.
 
Mas transcrevo três dos que me agradaram mais, uma seleção mais bem comportada, digamos assim. Lêaí:
 
OH MINHA SENHORA MINHA SENHORA
Oh minha senhora ó minha senhora oh não se
incomode senhora minha
não faça isso eu lhe peço eu lhe suplico por Deus
nosso redentor minha
senhora não dê importância a um simples mortal
vagabundo como eu que
nem mereço a glória de quanto mais de... não não não
minha senhora não
me desabotoe a braguilha não precisa também se
despir o que é isso é
verdadeiramente fora de normas
e eu não estou absolutamente preparado
para semelhante emoção ou comoção sei lá minha
senhora nem sei mais o
que digo eu disse alguma coisa? sinto-me sem
palavras sem fôlego sem
saliva para molhar a língua e ensaiar um discurso
coerente na linha do
desejo sinto-me desamparado do Divino Espírito Santo
minha senhora eu
eu eu ó minha senh... esses seios são seus ou é uma
aparição e esses
pelos essas nád... tanta nudez me deixa naufragado
me mata me pulveriza
louvado bendito seja Deus é o fim do mundo
desabando no meu fim eu eu
 
 
NÃO QUERO SER O ÚLTIMO A COMER-TE
Não quero ser o último a comer-te.
Se em tempo não ousei, agora é tarde.
Nem sopra a flama antiga nem beber-te
aplacaria sede que não arde
 
em minha boca seca de querer-te,
de desejar-te tanto e sem alarde,
fome que não sofria padecer-te
assim pasto de tantos, e eu covarde
 
a esperar que limpasse toda a gala
que por teu corpo e alma ainda resvala,
e chegasses, intata, renascida,
 
para travar comigo a luta extrema
que fizesse de toda a nossa vida
um chamejante, universal poema
 
 
A MOÇA MOSTRAVA A COXA
A moça mostrava a coxa
a moça mostrava a nádega,
só não me mostrava aquilo
— concha, berilo, esmeralda —
que se entreabre, quatrifólio,
e encerra o gozo mais lauto,
aquela zona hiperbórea,
misto de mel e de asfalto,
porta hermética nos gonzos
de zonzos sentidos presos,
ara sem sangue de ofícios,
a moça não me mostrava.
E torturando-me,
e virgem no desvairado recato
que sucedia de chofre
à visão dos seios claros,
sua pulcra rosa preta
como que se enovelava,
crespa, intata, inacessível,
abre-que-fecha-que-foge,
e a fêmea, rindo, negava
o que eu tanto lhe pedia,
o que devia ser dado
e mais que dado, comido.
Ai, que a moça me matava
tornando-me assim a vida
esperança consumida.
no que, sombrio, faiscava.
Roçava-lhe a perna. Os dedos
descobriam-lhe segredos
lentos, curvos, animais,
porém o máximo arcano,
o todo esquivo, noturno,
a tríplice chave de urna,
essa a louca sonegava,
não me daria nem nada.
Antes nunca me acenasse.
Viver não tinha propósito,
andar perdera o sentido,
o tempo não desatava
nem vinha a morte render-me
ao luzir da estrela-d'alva,
que nessa hora já primeira,
violento, subia o enjoo
de fera presa no Zoo.
Como lhe sabia a pele,
em seu côncavo e convexo,
em seu poro, em seu dourado
pelo de ventre mas sexo
era segredo de Estado.
Como a carne lhe sabia
a campo frio, orvalhado,
onde uma cobra desperta
vai traçando seu desenho
num frêmito, lado a lado!
mas que perfume teria
a gruta invisa? Que visgo,
que estreitura, que doçume,
que linha prítina, pura,
me chamava, me fugia??
Tudo a bela me ofertava,
e que eu beijasse ou mordesse,
fizesse sangue: fazia.
Mas seu púbis recusava.
Na noite acesa, no dia,
sua coxa se cerrava.
Na praia, na ventania,
quanto mais eu insistia,
sua coxa se apertava.
Na mais erma hospedaria
fechada por dentro a aldrava,
sua coxa se selava,
se encerrava, se salvava,
e quem disse que eu podia
fazer dela minha escrava?
De tanto esperar, porfia
sem vislumbre de vitória,
já seu corpo se delia,
já se empana sua glória,
já sou diverso daquele
que por dentro se rasgava,
e não sei agora ao certo
se minha sede mais brava
era nela que pousava.
Outras fontes, outras fomes,
outros flancos: vasto mundo,
e o esquecimento no fundo.
Talvez que a moça hoje em dia...
Talvez. O certo é que nunca.
E se tanto se furtara
com tais fugas e arabescos
e tão surda teimosia,
por que hoje se abriria?
Por que viria ofertar-me
quando a noite já vai fria,
sua nívea rosa preta
nunca por mim visitada,
inacessível naveta?
Ou nem teria naveta...
 
 
E se alguém quiser conhecer os demais, é possível baixar o livro na internet no formato pdf. Só não me lembro onde consegui. Mas deixo esta frase do Drummond, para fechar este post:

"A última coisa que desaparece no homem é o erótico".

sábado, 17 de outubro de 2026

CADERNO DE RASCUNHO

 

Podem até me criticar por eu ser tão romântico assim
mas não consigo entender que me critiquem sem saber
o que há dentro de mim
 
Dentro de mim existe algo que falta a quem me critica,
que só pode ser encontrado quando se está apaixonado,
Que só as crianças possuem:
 
A inocência de um amor suave e explosivo, difícil de ser contido,
mais ainda de ser entendido.
 
Que um idoso pode dizer em sua própria defesa?
Que a paixão foi reacesa e é limpa, pura, ardente,
Como a de um garoto adolescente.
 
Talvez por isso os versos que escrevo
lembrem rascunhos em cadernos escolares,
rimando sem pudor infantil com pueril
 
E é isso que realmente são – infantis, pueris,
pois traduzem pensamentos imaturos –
mas encharcados de amor e desejo
 
Desprezando a idade que tenho
Sem vergonha, sem ter pejo
De dizer, de falar, de gritar
seu nome, mas me contenho
 
Não pensando em mim, mas em você
Que pode não querer se ver exposta assim
Só por isso eu digo: “Jota Bebê”, eu te amo!
 
E agora, se quiserem, podem me criticar
Com gosto, à vontade,
pois não me prendo à idade,
só ao que o coração mandar.
 
E que o fascínio sempre sentido
Jamais vire desfascínio
E que esse amor siga vivo
Até onde eu puder aguentar
 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

O TEMPO - MÁRIO QUINTANA

 

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são seis horas!

Quando se vê, já é sexta-feira!

Quando se vê, já é natal…

Quando se vê, já terminou o ano…

Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.

Quando se vê passaram 50 anos!

Agora é tarde demais para ser reprovado…

Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.

Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…

Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…

E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.

Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.

A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

ZEZÉ



Fiquei aturdido ao receber a notícia do falecimento da minha comadre Zezé, por complicações decorrentes de uma cirurgia de ponte de safena. Maria José (como eu a chamava) era minha amiga desde 1975, ano em que se casou com o Tinho e foi morar na casa ao lado da nossa. Nós também nos casamos naquele ano.
 
Engraçada, superdesbocada, adorava minha mulher, a quem chamava de amiga-irmã. Ficou devastada quando uma doença cruel interrompeu essa amizade, a mesma doença que abreviou a vida de seu amado Tinho, o médico Dr. Wilton.
 
Nossa relação era tão próxima que Zezé e Tinho foram padrinhos de batismo de nosso terceiro filho. Anos depois, já viúva, foi convidada para ser madrinha de uma das gêmeas de outro filho nosso. De vez em quando, ligava dizendo estar com saudade de nós, de mim. E conversava durante duas horas ou mais, sem se preocupar com o tempo ou o horário.
 
Agora, não haverá mais telefonemas, nem aquelas conversas intermináveis. É estranho pensar que alguém que fez parte de nossas vidas durante tantos anos simplesmente deixa de estar ao alcance. Sabemos que a pessoa morreu, mas há uma sensação de estranhamento por não poder mais ouvi-la, contar-lhe alguma coisa, saber das novidades. A vida continua, mas uma parte dela já não pode ser compartilhada com quem sempre esteve ali.
 
Conheço bem essa sensação. Desde a morte de minha amada Lily, ela me visita nos momentos mais banais: ao olhar uma fotografia antiga, procurar algum objeto ou tentar preparar algum alimento minimamente comestível. De repente, sinto a presença-ausência de quem compartilhou comigo uma história de 55 anos. É quando a realidade da perda se impõe, não como uma grande tragédia, mas como a impossibilidade miúda e definitiva de continuar vivendo certas coisas juntos.
 
Lembro-me, então, de um verso lindo escrito por Ronaldo Bastos e cantado por Beto Guedes, numa música feita em homenagem a Elis Regina, que havia morrido pouco antes:
 
“Dói de tanto medir a distância, saber que não vou te tocar além da lembrança”.
 
Talvez seja essa a maior estranheza da morte: a pessoa continua tão presente em nossa memória, tão misturada à nossa história, que custamos a aceitar que não esteja mais aqui. E, no entanto, não está. O que antes era convivência agora é só lembrança, e a lembrança, por mais viva que seja, não atende ao telefone.
 
Mesmo sem acreditar em vida depois da morte, gosto de imaginar que Zezé e minha mulher devem agora estar tomando uma cerveja e atualizando a conversa. E têm toda a eternidade para colocar a prosa em dia.
 
Escutaí a música.







quarta-feira, 14 de outubro de 2026

CAFÉ SOÇAITE – JORGE VEIGA

 Alguns pensamentos, provocados por frases que leio ou ouço, demoram a me abandonar. A mais recente é: “Existe vida mais barata, mas não presta não”.

Lembrei-me, então, de uma música gravada em 1954, cuja letra ironiza o esnobismo e a futilidade da elite social e econômica do Rio de Janeiro — uma sátira que combina com a frase que me ficou na cabeça.

Como a letra faz referências a personalidades daquela época, resolvi “traduzi-la” para os leitores de hoje.


 
Doutor de anedota e de champanhota
Estou acontecendo no café soçaite
Só digo enchanté, muito merci, all right
Troquei a luz do dia pela luz da Light
 
Agora estou somente contra a Dama de Preto
Nos dez mais elegantes, eu estou também
Adoro Riverside, só pesco em Cabo Frio
Decididamente, eu sou gente bem
 
Enquanto a plebe rude na cidade dorme
Eu ando com o Jacinto, que é também de Thormes
Terezas e Dolores, falam bem de mim
Eu sou até citado na coluna do Ibrahim
 
E quando alguém pergunta: como é que pode?
Papai de Black-tie, jantando com o Didu
Eu peço mais um whisky embora esteja pronto
Como é que pode? Depois eu conto

Café Soçaite: corruptela de Café Society, expressão que designava a alta sociedade, formada por milionários, aristocratas, celebridades, artistas e boêmios.

Ibrahim: Ibrahim Sued, jornalista e colunista social, um dos principais nomes do colunismo social brasileiro. Ficou conhecido também pelas gafes, muitas vezes aparentemente propositais, no rádio e na televisão.

Dama de Preto: personagem criada por Ibrahim Sued para fazer críticas anônimas e mordazes à sociedade carioca.

Jacinto de Thormes: pseudônimo de Maneco Müller, jornalista, cronista esportivo e pioneiro do colunismo social no Brasil.

Thereza e Dolores: Thereza de Souza Campos e Dolores Guinle, duas figuras conhecidas da alta sociedade carioca.

Didu: apelido de Carlos Eduardo de Souza Campos, banqueiro e personagem destacado da sociedade carioca. Foi casado com Thereza de Souza Campos.

Pronto: gíria antiga para designar quem estava sem dinheiro.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

SAUDADE DE MIM

 
Ontem, ouvindo meu filho tocar Beatles no trompete
 Revivi emoções já sentidas antes,
Talvez modificadas pela passagem do tempo.
 
Senti saudade de um tempo há muito vivido.
Pensando bem, senti saudade de mim,
De quando não sentia saudade de nada nem de ninguém.
E tudo o que eu queria era cantar músicas dos Beatles.
 
E tudo o que acontecia era estar apaixonado por alguém.
E tudo o que eu desejava era que alguém se apaixonasse por mim
Ao me ouvir cantar “If I Fell in Love with You”
Ou outra balada romântica da banda.
 
Hoje, meu violão não soa bem e eu
Esqueci as letras que gostava de cantar.

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

ESCALA DE VALORES

 
A mensagem “Tem vida mais barata, mas não presta, não!” teria sido enviada por um dono de cartório a um amigo. Mas caiu na rede, viralizou e até virou letra de música. Eu não a conhecia – até uma mulher muito rica tê-la dito para mim com um sorriso malicioso no rosto lindo.
 
Claro que era uma ironia, embora revelasse uma maneira de pensar que não é exclusiva de quem a enunciou. Minha reação foi de perplexidade, pois por trás da ironia, enxerguei um sarcasmo cruel, revelador de uma visão elitista e deslumbrada da vida. Incomodado, pedi a uma IA uma análise sociológica da frase. Eis o resultado:
 
“A expressão popular ‘tem vida mais barata, mas não presta, não’ reflete um cruzamento entre a cultura da ostentação, o hedonismo e a mercantilização do status social na sociedade contemporânea. Do ponto de vista sociológico, a frase sintetiza a ideia de que a dignidade, a felicidade e o bem-estar são equiparados ao poder de consumo
.
Em contraposição, a qualidade de vida deixa de ser medida pelo tempo livre, pela paz de espírito ou pelas relações afetivas, e passa a ser validada por gastos materiais — camarotes open bar, iates, carros importados e festas.
 
Ao afirmar que a vida mais barata ‘não presta’, o discurso descarta as formas de existência que escapam ao ciclo de acumulação e exibição de riquezas, estigmatizando a simplicidade como sinônimo de fracasso ou tédio.
 
O estilo de vida defendido nessa máxima aposta no prazer imediato e efêmero. Frases como essa também são apropriadas ironicamente por elites ou grupos privilegiados para naturalizar desigualdades, como quem diz que manter um padrão excludente e caro é a única forma ‘civilizada’ de existir, ignorando que a ‘vida barata’ é a realidade compulsória da maioria da população”.
 
E é aí que entra outra ironia: afinal, o que é uma vida barata? Para Elon Musk, trilionário, talvez seja a de quem dispõe de apenas alguns bilhões e nem aparece nas listas da Forbes. Para o assalariado que chega ao fim do mês sem dinheiro, talvez seja a de quem depende do Bolsa-Família.
 
Foi o que me ocorreu ao ouvir aquela frase, dita com um sorriso por uma mulher linda. Porque, feitas as contas e comparada com a sua, a minha vida talvez seja uma dessas vidas baratas que, segundo ela, não prestam.

Se ela realmente enxerga a vida dessa maneira, onde eu me encaixo na sua escala de valores?

domingo, 11 de outubro de 2026

SORRI – DJAVAN

 
Por questões de "foro íntimo", resolvi mover esta postagem de 2024 para hoje. Tanta coisa aconteceu desde então! E a música é linda, atemporal.

Para quem não conhece, Ryk@rdo é um poeta português de gosto sofisticado e mestre em escrever belos poemas com rima e métrica impecáveis. Hoje, ao acessar seu blog “Pensamentos e Devaneios Poéticos” (recomendo!) o primeiro verso de sua publicação mais recente – “Sorri quando não há sol ao amanhecer"  – me fez lembrar da versão brasileira da música “Smile” composta por Charlie Chaplin. E este presente é que deixo para os leitores nesta sexta-feira. Letra de Braguinha e música de Charlie Chaplin na voz de Djavan..
 
https://www.youtube.com/watch?v=LnKJKCZT5Jw
 
Sorri
Quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos, vazios
 
Sorri
Quanto tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
 
Sorri
Quando o Sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados, doridos
 
Sorri
Vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorries
Todo mundo irá supor
Que és feliz...
 
Sorri
Vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorries
Todo mundo irá supor
Que és feliz

 

 

sábado, 10 de outubro de 2026

DA ESTUPIDEZ – DIETRICH BONHOEFFER


 
Assisti no Instagram a um vídeo interessantíssimo com a leitura de um texto do pastor luterano e teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer. Não sei se que acessa o blog conseguirá conectar-se com este link. Em todo caso, é este: 
https://www.instagram.com/reel/DeEbduPucQE/?xtok=MWFvaHoyeTJidWthYg==ão
 
Bonhoeffer era um ferrenho opositor do nazismo e chegou a participar de uma tentativa de assassinar Hitler. Por causa de sua resistência ao regime, acabou preso e enviado para um campo de concentração, onde foi executado apenas uma semana antes da libertação do campo pelas tropas soviéticas. Baita sacanagem, concordam?
 
O texto que foi transformado em vídeo é este. Tão lúcido e tão atual que não resisti a procurá-lo para publicá-lo no Blogson. Espero que gostem e, sobretudo, que reflitam sobre o que Bonhoeffer escreveu.
 
A estupidez é mais perigosa que a maldade. Contra o mal se pode protestar; o mal pode ser exposto, revelado; pode também ser evitado, se necessário, até pela força; o mal sempre carrega o germe da autodecomposição, deixando pelo menos um desconforto naquele que o pratica. Diversamente, não há como se defender da estupidez. Nada pode ser feito aqui com protestos ou com violência; razões não a convencem; simplesmente não se dá crédito a fatos que contradigam o próprio preconceito – em tais casos, o estúpido se torna ainda mais resistente – e se esses fatos são incontestáveis, podem com facilidade ser postos de lado como casos isolados e sem sentido.
 
O estúpido, ao contrário da pessoa má, sente-se completamente satisfeito consigo mesmo; sim, ele até se torna perigoso, enfurecendo-se facilmente quando é refutado. Portanto, a relação com o estúpido exige muito mais cautela do que com a pessoa má. Nunca se há de convencer o estúpido pela razão – é inútil e perigoso. Para saber lidar com a estupidez, é preciso antes procurar entender sua natureza. Não se trata essencialmente de um defeito intelectual, mas algo que atinge a humanidade do sujeito. Tanto é assim que existem pessoas de inteligência extraordinariamente ágil que são estúpidas e pessoas intelectualmente pesadas que podem ser tudo, menos estúpidas.
 
Para nossa surpresa, chegamos à seguinte conclusão: parece que a estupidez não é propriamente um defeito congênito, mas um processo em que as pessoas se tornam estúpidas sob certas circunstâncias, ou deixam-se fazer estúpidas de forma recíproca. Também observamos que a estupidez aparece mais em pessoas ou grupos propensos ou condenados a viver em comum do que em pessoas mais fechadas, reservadas e solitárias. Assim, parece que a estupidez é um problema mais sociológico do que psicológico. É uma forma especial de influência das circunstâncias históricas sobre o homem, isto é, uma consequência psicológica de certas circunstâncias externas. Em uma análise mais detalhada, verifica-se que toda forte expansão externa do poder, seja política ou religiosa, golpeia um grande número de pessoas com estupidez. Sim, parece que é uma lei psicológica e sociológica. O poder de alguém precisa da estupidez de outrem.
 
O processo não é que, de repente, algumas faculdades – como a intelectual – definhem ou fracassem, mas sim que a independência interna da pessoa vai sendo roubada pela impressão esmagadora do desenvolvimento do poder, até que - mais ou menos inconscientemente – essa pessoa renuncia a encontrar seu próprio comportamento em relação às situações que a vida lhe apresenta.
 
O fato de o estúpido ser muitas vezes teimoso não significa que ele seja independente. Conversando com ele, você quase pode sentir que seu discurso nem sequer tem a ver com ele mesmo, com aquilo que o constitui. Trata-se de frases de efeito, slogans e chavões que se apoderaram dele. Ele está enfeitiçado, cego, abusado e maltratado em sua própria natureza. Tornando-se assim um instrumento sem vontade própria, o estúpido será capaz de todo o mal e, ao mesmo tempo, incapaz de reconhecer-se mau ou de reconhecer maldade em seus atos. Aqui está o perigo de um abuso diabólico. Como resultado, as pessoas serão destruídas para sempre.
 
Disso decorre que somente um ato de liberação – e não um ato de instrução – poderá superar a estupidez. Na grande maioria dos casos, para superar a estupidez, a pessoa terá de aceitar que uma genuína libertação interior só se tornará possível após a libertação externa; até então, sem essa condição, teremos que desistir de todas as tentativas de convencer os estúpidos. A propósito, nesse estado de coisas, fica bem claro que em tais circunstâncias é vão tentar saber o que "o povo" realmente pensa, mesmo porque, ao mesmo tempo - nessas dadas circunstâncias – qualquer resposta seria supérflua para o pensador e realizador responsável.
 
A Palavra da Bíblia que diz que o temor de Deus é o começo da sabedoria (Salmos 111: 1); diz que a liberação interior dos humanos, para uma vida responsável diante de Deus, é a única verdadeira superação da estupidez.
 
De resto, esses pensamentos sobre a estupidez são reconfortantes, pois não permitem tratar a maioria das pessoas como estúpidas a todo custo. Realmente, isso dependerá da tendência dos Poderes Instituídos, vale dizer, se querem tornar seu povo estúpido ou se buscam a independência interior e sabedoria de seus governados.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

AH, É? VIDA BARATA NÃO PRESTA? SEI...

Às vezes eu penso em uma charge e peço para o ChatGPT criar o desenho imaginado. Duro é ser atendido! Depois de ouvir uma frase tristemente sarcástica e socialmente incorreta, resolvi pedir ajuda ao ChatGPT para criar uma charge com ela, só para criticar essa visão tristemente elitista. E o prompt inicial foi este:
 
“Criar uma charge satírica em estilo cartoon de jornal, em preto e branco com hachuras e traço de nanquim marcante. A cena se passa durante o dia, sob a luz do sol em uma calçada urbana movimentada. Dois homens pobres, vestidos com roupas velhas, estão de pé conversando. Eles olham com expressões irônicas para um morador de rua deitado sobre uma grande folha de papelão estendida no chão. Um balão de fala clássico de quadrinhos sai da boca de um dos homens de pé, contendo o texto: Tem vida mais barata, mas não presta não".
 
Mas a merdinha da IA simplesmente ignorou o prompt e criou o desenho que quis. Aliás, acabou fazendo três. No primeiro parecia ser o mendigo quem estava falando, todo feliz da vida. Pedi para gerar outro desenho e saiu mais um aquém das expectativas. Já irritado, explicitei mais um pouco o prompt, pedi para deixar o mendigo sem sapatos e saiu uma terceira imagem. Aí resolvi mostrar os três desenhos, mesmo sabendo que explicar uma piada é uma das piores coisas que existem.

Eu sei que existe muita gente que não entende uma piada, mas uma inteligência artificial precisaria entender, para não sair invadindo sites e fazendo merda.

Primeira versão:


Segunda versão:


Última tentativa:






quinta-feira, 8 de outubro de 2026

A TAL DA DEMOCRACIA – JEAN GARFUNKEL

 
Assisti no Instagram a um vídeo em que o poeta, cantor e compositor Jean Garfunkel declama seu excelente poema “A tal da democracia”. Copiei o link e espero que os leitores do blog consigam assisti-lo também – e, sobretudo, que curtam sua mensagem bem-humorada.

Por via das dúvidas, segue abaixo o texto escrito.

https://www.instagram.com/reel/Dc_ePzIReP2/?utm_source=ig_web_copy_link&stkn=NTc4MTIwNjQ2YQ
 
A TAL DA DEMOCRACIA
 
A tal da democracia, a despeito de seus custos,
ainda é o modo mais certo, ainda é o jeito mais justo.
 
Quanto ao resto não discuto, não defendo o indefensável,
todo o sistema é corrupto, toda economia é frágil –
os argumentos contábeis, os álibis da tirania
são sempre desfavoráveis  à tal da democracia.
 
Ditadura dá mais lucro, isso é fato consumado:
“Vamos calar os escrúpulos e ouvir a voz do mercado”.
 
Os ricos ficam mais ricos e os pobres espoliados,
e o país paga esse mico de regressar ao passado.
 
A tal da democracia, por mais frágil e combalida,
é a voz da maioria decidindo a própria vida.
 
A tal da democracia, que não pode se abater,
é o peso do contrapeso na balança do poder.
 
Viva a tal da democracia, a democracia é a tal.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

AGRADECIMENTO

Não vou fazer segredo nem suspense. Este é um post para agradecer publicamente as palavras preocupadas e carinhosas que amigos e amigas virtuais deixaram nos comentários do poema "Limite" que publiquei recentemente.
 
Ler um comentário – qualquer comentário – sobre alguma publicação que faço é sempre um prazer, ainda mais quando ele demonstra carinho e preocupação comigo. E foi isso que aconteceu. Por isso, resolvi tranquilizar a todos, deixando claro o seguinte:
 
Não escrevo poemas quando estou alegre. Todos os “poemas” que publico são fruto da tristeza, da melancolia, da raiva ou da depressão que estiver sentindo no momento. Também servem para registrar alguma reflexão ou, simplesmente, para fazer declarações de amor a alguém (idoso também se apaixona).
 
Como meu humor é um tanto bipolar, alterno facilmente de estado de espírito. Mas nem sempre publico o que escrevi logo depois de tê-lo criado. Ontem, por exemplo, estava tranquilão, pensando em pedir ao ChatGPT que criasse um cartoon a partir de uma frase que ouvi recentemente.
 
Há ainda a questão da prioridade. Assisti, no Instagram, a dois vídeos tão impactantes que corri a procurar suas versões escritas, só para publicá-las no blog. Quando isso acontece, sinto-me obrigado – ou tentado – a deixar para depois aquilo que é de minha autoria.
 
Por isso, pessoal, hoje estou bem e agradecido pelo carinho recebido. Sintam-se abraçados e beijados carinhosamente – claro, beijados de forma seletiva, por favor, tal como cantou Gilberto Gil: “Eu passei muito tempo aprendendo a beijar...”
 

terça-feira, 6 de outubro de 2026

LIMITE

 
O passado não está cabendo mais
dentro de mim.
 
O passado vivido
somou-se ao que não foi vivido
e ao que foi só desejado.
 
Sinto minha mente
querendo explodir
 
numa tristeza constante,
onipresente,
impossível de ser debelada,
 
como se alimentada
por um fogo eterno
que teima em queimar
e me queimar,
destruir.
 
Não precisarei ser cremado
quando morrer,
 
pois hoje já sou as cinzas
do que fui.
Ou quis um dia ser.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

ARIDEZ

 
Alguém já disse que
não há romantismo na vida real,
 
que romantismo só existe
na vida que acreditamos ser real.
 
Não sei se concordo com isso.
 
Durante toda a minha vida,
tentei viver
o romantismo escancarado,
 
dando mais valor
ao que me pedia o coração
do que aos argumentos da razão.
 
Porque a vida, para mim, não tem sentido.
 
E, se não tem mesmo nenhum,
por que aceitar
a aridez do dia a dia?
 
Tudo o que quero
é sonhar,
 
sonhar com o amor,
viver a paixão,
 
e que essa paixão,
 
mesmo no indesejado,
no temido momento binário,
 
seja tão intensa
e alucinada
quanto as que vivi
na minha juventude.

 

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