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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

RELIGARE - REFLEXÕES SOBRE RELIGIOSIDADE, CRENÇA E FÉ

 
(Continuação do post anterior)

Os sentimentos de perplexidade, decepção e raiva surgiram imediatamente ao ver a palavra “BLOQUEADO” à direita da imagem da capa original. Perguntei ao Fabiano Caldeira, meu consultor para assuntos relacionados aos e-books da Amazon e ele disse nunca ter visto nada daquilo.
 
E não havia como modificar nada. Talvez a solução fosse reiniciar o processo, ou melhor, “fazer de conta” que se tratava de outro livro – que, muito provavelmente, também seria bloqueado.
 
Muito irritado com a situação, comecei freneticamente a fazer alterações. Excluí três ou quatro textos, dois deles com longas transcrições de livros que li (e talvez esteja aí o motivo da recusa – direitos autorais não respeitados).
 
Mudei o texto de divulgação, utilizei apenas uma “palavra-chave” em lugar das sete da versão anterior, escolhi nova capa – bem melhor que a original e, só de raiva, estabeleci o preço de R$5,00 para a nova versão. Originalmente custaria apenas R$1,99. O novo livro foi aprovado e posto à venda. Aleluia!
 
Se alguém se interessar em saber como seria uma "bíblia jotabélica" (não herética!) ou outras viagens na maionese surgidas e "perpetradas" nos últimos dez anos, o período de download gratuito vai de 13/02/2026 a 17/02/2026, em pleno período carnavalesco. Mas, por coerência com a temática do novo e-book, é melhor que seja lido durante a quaresma. Olha o link aí.




A capa antiga (da versão não aprovada) era assim. Ao lado dela, o aviso da Amazon.










segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

CONVERSANDO SOBRE RELIGIÃO, RELIGIOSIDADE, CRENÇA E FÉ

 
A morte da minha mulher teve para mim o efeito de um ciclone, de um tsunami ou, no mínimo, de um capotamento de carro, pois minha vida foi revirada como se fosse uma roupa dentro de uma lavadora. Tudo mudou, nada ficou como antes.
 
Tenho tentado manter a casa minimamente organizada e limpa, mas às vezes a vontade é de ficar deitado em nossa cama – em minha cama, agora tão grande e tão vazia.
 
Conversando com um de nossos filhos, o mais irrequieto, sempre querendo que eu me desfaça de metade dos objetos que minha mulher acumulou ao longo de cinco décadas, comentei que nossa casa é, na verdade, da Eliany, deles, dos nossos filhos, e que eu sou apenas o síndico. Ele riu e disse que é então o zelador, sempre querendo arrumar isso e aquilo.
 
Essas mudanças aconteceram também no campo religioso. Eu já me sentia praticamente ateu quando a doença de minha mulher teve uma progressão acentuada, fazendo-me lembrar desta frase do Millôr Fernandes: “O cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde”.
 
A partir daí, comecei a repensar as crenças que tive, a fé que fui perdendo e a esperar por um milagre que revertesse o quadro triste que começava a se desenhar com nitidez. Infelizmente, o milagre não aconteceu, trocado que foi por um vazio imenso e por uma saudade abissal.
 
Foi nesse cenário que surgiu a vontade de reler todas as postagens indexadas no marcador “Religare” do Blogson Crusoe. Sinceramente falando, gostei bastante de quase tudo o que li – apesar de perceber com clareza a curva descendente da minha fé desde o primeiro texto que falava de religião e religiosidade, de crença e de fé, escrito quando eu ainda nem sabia o significado da palavra “blog”.
 
Pensar em um novo e-book com esses textos foi uma reação quase imediata, estimulado pelas lembranças da minha Amada. Mas aconteceu o inesperado: o livro a quem dediquei tanto carinho foi recusado pela Amazon! 

Depois de seguir todos os passos para sua publicação, recebi um e-mail com este texto: Com base em nossa análise, não aceitaremos seu envio para publicação porque os livros podem resultar em uma experiência decepcionante para o cliente.

O que aconteceu depois fica para a próxima postagem.

sexta-feira, 9 de maio de 2025

FALANDO DE PAPAS

 
A eleição de um substituto para o Papa Francisco provocou uma série de reportagens sobre os candidatos e, também, sobre os antigos papas. Natural, não é mesmo? Isso me deu vontade de publicar algumas curiosidades. Lêaí.
 
Um Papa brasileiro.
Sabia que o país poderia ter comemorado a escolha de um papa brasileiro? Pois é, eu não sabia, mas isso aconteceu em 1978, durante o conclave que sucedeu à morte do papa João Paulo I. O cardeal brasileiro dom Aloísio Lorscheider obteve dois terços dos votos necessários para ser eleito. No entanto, ele recusou o cargo por motivos de saúde. Morreu dois anos depois.
 
Um Papa polonês
Com a recusa do cardeal brasileiro, o posto de líder dos católicos ficou, então, com o polonês Karol Wojtyła, o João Paulo II. Uma das cidades visitadas por esse papa quando esteve no Brasil pela primeira vez, foi Belo Horizonte. No alto da Avenida Afonso Pena, quase ao pé da Serra do Curral, foi montado um mega altar, com visão privilegiada e quase total da cidade. Diante daquele cenário magnífico, o papa exclamou:
- Que belo horizonte!
Hoje essa praça é conhecida como a “Praça do Papa”.
 
Um Papa inovador
Até o século VI os Papas não mudavam de nome. Ao assumirem a cátedra de São Pedro, mantinham todos o nome de batismo, e fim de papo. Isso mudou definitivamente no ano 533, quando escolheram para papa um homem de nome pagão, do deus Mercúrio na mitologia romana (Hermes, para os gregos). Achando que não pegava bem o vigário de Cristo ostentar o nome de deus pagão – Mercúrio – adotou o nome de João II.

segunda-feira, 28 de abril de 2025

PARABÉNS, TIO DANI

 
Hoje nosso filho mais novo comemora seus 38 anos de vida. Sempre me surpreendo ao pensar nessa idade, pois, até outro dia, ele era um menino que me dava um abraço demorado, dizendo com um sorrisinho maroto “- Colou!”. Eu achava aquilo uma delícia. Hoje, quem às vezes o abraça demoradamente e diz “- Colou!” sou eu.
 
“Tio Dani” – como é chamado pelas sobrinhas –, é um fenômeno de inteligência emocional, pois é impossível não gostar dele e de seu sorriso tranquilo e sedutor. Manda super bem na cozinha e até criou o blog “Mixidão”, ideal para os analfabetos culinários, aquele pessoal que confunde alcachofra com Cochabamba e que mal, mal consegue fritar um ovo ou preparar um miojo. Além disso, já publicou dois livros de receitas lindissimamente ilustradas (a propaganda é a alma do negócio!), O primeiro volume está esgotado, mas ainda é possível adquirir o segundo através de seu blog (https://mixidao.com.br/).
 
 É difícil para um pai coruja e babão ter isenção para falar dos filhos a quem ama tanto sem se derramar em elogios. Mas ele e seus irmãos merecem isso, tal o carinho e preocupação que demonstram por nós. Em 2016 eu publiquei um texto em sua homenagem, cujo link é este:
https://blogsoncrusoe.blogspot.com/2016/04/o-bom-selvagem.html.
 
Parabéns, Tio Dani!

domingo, 27 de abril de 2025

ESSE PAPA ERA DO BALACOBACO!

 
Recebi pelo whatsapp de um amigo um excelente artigo sobre o Papa Francisco. Talvez o texto não atraia o interesse de quem não é católico, mas provavelmente deixará irritado quem o chamou de papa comunista. Eu fiquei surpreso com as pedreiras que enfrentou em seus doze anos de papado. O autor é Jamil Chade (UOL) e o título provável é 
Luxo, heresia e guerra: reforma de Francisco será testada no conclave”.
Sirvam-se!
 
 
Assim que tomou posse em 2013, o papa Francisco convocou nove cardeais e lhes deu uma tarefa: limpar o lugar. Eles teriam a missão de identificar tudo o que existia de exagero, corrupto ou que desviasse da missão da Igreja. Mas, acima de tudo, desenhar uma nova constituição para a Santa Sé e transferir poder e responsabilidades da Cúria Romana para as conferências locais de bispos. Seria um verdadeiro terremoto.
 
Ele assumia no lugar de Bento 16, que ganhou o apelido de "Papa Prada" por seu gosto por itens de luxo e sapatos de pele. Dois meses depois, Francisco decidiu fazer uma "inspeção" de surpresa a sua própria garagem e teria ficado impressionado com o valor e luxo da frota. Sua ordem foi para que os carros fossem vendidos e trocados por modelos mais baratos.
 
Sete meses depois de assumir o trono de São Pedro, o pontífice decidiu que, pela primeira vez em 125 anos, o mundo saberia o que estava nos cofres do Vaticano e ordenou a instituição a publicar seu primeiro balanço. Outro terremoto.
 
Em encontros privados e públicos, Francisco não disfarçou seu desprezo pela Cúria. Num encontro com freiras, ainda no final de 2013, ele admitiu que não concordava com o grupo que administrava a Santa Sé e que, por séculos, acumularam direitos e luxo.
 
Os chefes da igreja sempre foram narcisistas, lisonjeados e emocionados por seus cortesãos. A corte é a lepra do papado, disse.
 
O momento mais crítico de sua luta contra esses privilégios ocorreu em dezembro de 2015. Ao se reunir com a Cúria para a mensagem de Natal, o papa os acusou de "hipocrisia".
 
Havia outro fato que Francisco considerava como intolerável: a existência de mendigos nos arcos do Vaticano, repleto de ouro e arte. Depois de instalar chuveiros, banheiros e de ordenar a distribuição de comida e roupas para as centenas de mendigos e sem-teto que dormem todas as noites sob as pilastras do Vaticano e por Roma, o papa abriu uma barbearia gratuita para os mais miseráveis.
 
Quando a iniciativa foi anunciada, cabeleireiros e voluntários de Roma deram à Santa Sé dezenas de tesouras, pentes, espelhos e cadeiras para que os novos clientes pudessem ser atendidos. Francisco ainda comemorou seu aniversário distribuindo 400 sacos de dormir para os mendigos e sem-teto, e convidou 200 deles para jantar no Vaticano.
 
O vendaval que causava Francisco parecia não ter fim. Quatro meses depois de sua posse, ele quebrou um tabu - mas não alterou dogmas - quando disse: "quem sou eu para julgar os homossexuais?". Ele continuou causando indignação das alas mais radicais da Igreja ao lavar os pés de uma refugiada muçulmana. Sua missão, dizia ele, era acolher e usava a imagem da Igreja como um hospital de campanha, que atendia a todos, sem perguntar.
 
O centro de sua reforma era simples: a Igreja deveria servir aos fiéis e ao mundo. E não a ela mesma, sob o risco de ser irrelevante.
 
A guerra interna
Os gestos foram amplamente aplaudidos fora de Roma. Mas houve quem tenha resistido. "Um palhaço". Foi assim que uma ala mais tradicional da Santa Sé começou a chamar Jorge Bergoglio.
 
Francisco tinha pressa. Desde o início de seu pontificado, ele confessava a pessoas próximas a ele que temia que seu percurso seria curto. Precisava, assim, agir em dois sentidos: abrir o debate sobre temas sensíveis dentro da Igreja e, ao mesmo tempo, nomear cardeais progressistas para que sua obra não terminasse com o fim de seu pontificado.
 
Francisco, assim, acelerou a escolha desse novo governo da Santa Sé, proliferando nomeações de mais de cem religiosos de um total de 71 países, algo jamais visto na história do Vaticano.
 
O papa ainda usou um documento publicado por João Paulo 2º, Donum Veritatis, como base de um processo de demissões. O texto, que pedia a submissão da vontade e do intelecto e impedia que teólogos discordassem em público de seus superiores, tinha sido elaborado para permitir ao polonês uma ação contra dissidentes.
 
Alguns dos herdeiros de João Paulo 2º descobriram que a arma tinha, agora, se virado contra eles. Num dos gestos mais enfáticos, o papa argentino excomungou uma comunidade de franciscanos, acusados de manipulação do evangelho, de ensaiar uma aliança com a extrema direita e que promovia missas apenas em latim.
 
Mas fez muitos inimigos quando iniciou o debate sobre temas de fundo. Atacou o capitalismo, saiu em defesa de imigrantes e questionou toda a teoria econômica pela qual a liberdade do mercado garantiria que a pobreza fosse combatida. Ele ainda montou uma intensa campanha pela defesa do meio ambiente, acolheu e abraçou o cacique Raoní e transformou seu gabinete num espaço de diálogo com outras religiões.
 
Em 2019, ao organizar o Sínodo da Amazônia, permitiu que os documentos trouxessem a ideia de flexibilizar protocolos.
 
Algumas das propostas aprovadas pelos bispos chacoalharam a Praça São Pedro: a avaliação de uma eventual participação das mulheres na liturgia, a criação de um pecado ecológico e a possibilidade de que homens casados possam ser ordenados padres.
 
Tudo isso para que a Igreja volte a ter um papel na Amazônia. Se não bastasse, a presença de pessoas de pele escura, com outras tradições e vestimentas pelas salas do Vaticano deixaram os mais conservadores incomodados, e a crise entre tradicionalistas e reformistas ainda mais explícita. Uma estátua indígena que representava a fertilidade e que fora usada numa igreja de Roma ainda foi roubada e jogada num rio.
 
As propostas não vingaram. Mas, pela primeira vez, entraram nas discussões oficiais.
O argentino deixou claro que não aceitaria ser "prisioneiro de um seleto grupo", classificando seus adversários de "elite católica". Para questionar esse grupo, o papa citou os trabalhos de Charles Péguy que, há um século, escreveu "Nota Conjunta sobre Descartes e Filosofia Cartesiana".
 
Por que lhes falta a coragem de assumir assuntos terrenos, eles acreditam que estão assumindo os de Deus. Por que têm medo de fazer parte da humanidade, pensam que são parte de Deus. Por que não amam ninguém, iludem-se pensando que amam a Deus, disse.
 
Divórcio dividiu a Igreja
Foi, acima de tudo, sua exortação apostólica Amoris Laetitia que causou uma rebelião. No documento, estrategicamente ambíguo, a nota de rodapé 351 deixa uma sugestão de que pessoas divorciadas e casais que tenham se casado de novo possam comungar.
 
Nela, o papa afirma que algumas pessoas vivendo num segundo casamento "podem estar vivendo na graça de Deus, podem amar e também podem crescer na vida de graça e caridade, enquanto recebem a ajuda da Igreja para esse fim".
 
Em certos casos, isso pode incluir a ajuda dos sacramentos. Por isso, quero lembrar aos sacerdotes que o confessionário não deve ser uma câmara de tortura, mas sim um encontro com a misericórdia do Senhor. Eu também gostaria de salientar que a Eucaristia não é um prêmio para os perfeitos, mas um poderoso remédio e alimento para os fracos, completou. "Ao pensar que tudo é preto e branco", acrescenta Francisco, "às vezes fechamos o caminho da graça e do crescimento", alertou.
 
Não demorou para que os grupos se organizassem. O mal-estar era de tal dimensão que, ainda em 2015, a revista Newsweek estampou em sua capa uma manchete que causou um profundo mal-estar no Vaticano. A publicação americana trazia uma foto do papa com uma pergunta. "Francisco é mesmo católico?".
 
A reportagem mostrava quanto ele e seus dissidentes estavam distantes nas ações públicas sobre tantos temas. Não era possível, segundo a revista, que ambos os grupos fossem da mesma religião.
 
Papa herético?
A partir de 2016, essa oposição decidiu ir ao ataque. Numa carta naquele ano, um grupo de teólogos denunciava Francisco por "heresia" no documento Amoris Laetitia.
 
Em 2019, uma segunda carta surgiu, acusando o papa por uma "rejeição abrangente do ensino católico sobre o casamento e a atividade sexual, sobre a lei moral e sobre a graça e o perdão dos pecados". Assinada por mais de mil teólogos e religiosos, ela insistia que Francisco teria cometido o "delito canônico de heresia", definido como o ato de alguém agir contrariamente a um ensinamento revelado por Deus.
 
Se Francisco não se arrependesse publicamente, a carta pedia que os bispos declarassem que ele cometeu heresia e deveria "sofrer as consequências canônicas desse crime". Essas consequências deveriam incluir a destituição do cargo.
 
Meses depois, surgiu nas livrarias romanas o livro Papa Ditador, escrito por um pseudônimo que escolheu um nome renascentista: Marcantonio Colonna. A obra, supostamente de um detrator, contava uma suposta ditadura imposta por Francisco, sem provas ou evidências.
 
A acusação de heresia também foi costurada por um cardeal que se transformou, na primeira metade do pontificado de Francisco, como seu adversário mais vocal. Raymond Burk havia sido demitido pelo papa do sistema de cortes do Vaticano e foi colocado no conselho de uma obscura entidade de caridade. Mesmo em seu novo cargo, Burke voltou a se chocar com o papa e teve seus poderes ainda mais reduzidos.
 
Sua retaliação foi publicar uma lista de perguntas e abrir o debate sobre Amoris Laetitia e se o papa estava violando as escrituras sagradas.
 
Ultraconservador, Burke mantinha uma relação de amizade com Steve Bannon, articulador de Donald Trump. Foi o cardeal quem convidou o estrategista americano de extrema direita a proferir um discurso no Vaticano, em 2014.
 
Quatro anos depois de assumir, o papa vinha ainda sofrendo uma campanha de desinformação e de ataques públicos. Numa certa manhã de 2017, postes e muros da cidade de Roma acordaram com cartazes criticando o pontífice.
 
Escritos em dialeto romano local, os pôsteres acusavam o papa de ter "removido padres; decapitado os Cavaleiros de Malta e ignorado os cardeais". Dias depois, o argentino rebateu: "Não perco o sono por isso".
 
Ao longo de seu percurso, Francisco manteve seu plano de reforma. Não realizou todas as transformações que desejava. Os escândalos não desaparecem por completo, com casos de corrupção envolvendo um prédio comprado pelo Vaticano em Roma avaliado em 140 milhões de euros, suspeitas de abusos sexuais persistentes e o uso de recursos para renovações milionárias de residências de cardeais.
 
Ainda assim, Francisco rompeu com uma estrutura de poder, de luxo e de privilégios que marcaram a Santa Sé nas últimas décadas.
 
É isso que está em jogo no Conclave, uma vez mais, admitiu um cardeal latino-americano, na condição de anonimato.
 

sábado, 26 de abril de 2025

FALANDO DE RELIGIÃO E RELIGIOSIDADE

 
A morte do Papa Francisco tornou ainda mais visíveis o ódio e o preconceito que hoje contaminam as redes (anti)sociais. Ao ler mensagens recebidas por minha mulher – enviadas ou comentadas por algumas de suas amigas de juventude e faculdade – só consegui sentir nojo, repulsa e ódio. O ódio, no meu caso, como consequência natural do princípio da ação e reação. Contra as amigas de minha mulher, senti apenas decepção e pena. Mas o que elas replicaram e compartilharam, meu Deus! Foi por isso que resolvi fazer uma colagem de pensamentos mais ou menos antigos para falar um pouco sobre religião, religiosidade, catolicismo, perda de fiéis e temas afins – tudo, claro, a partir da minha visão atual de católico-ateu. Quer viajar comigo?
 
Para mim, as religiões surgiram como resposta ao medo e à fragilidade. Quando começou a pensar, o Homo sapiens passou a sentir medo do desconhecido e das ameaças, reais ou imaginárias. Percebeu também sua própria fragilidade diante de forças que não entendia ou não podia controlar – fenômenos da natureza, morte, fome, dor, doenças, ataques de predadores, investidas de tribos inimigas. Precisava de conforto, de esperança, de explicações que não encontrava nem dentro de si mesmo nem em sua comunidade.
 
Assim nasceu o impulso de divinizar animais, árvores, fenômenos meteorológicos – qualquer coisa que fosse temida ou que pudesse ser venerada ou manipulada para obter proteção. Pelo que consigo imaginar, pelo menos no início da caminhada humana, nunca houve admiração ou amor pelos deuses, havia apenas medo, respeito, desejo de proteção e, claro, pedidos de ajuda para eliminar os inimigos.
 
Não demorou muito, e todos os povos já possuíam seu(s) deus(es) de estimação – cujos préstimos eram sempre solicitados em caso de guerras de conquista ou de defesa, tipo assim: “Jeová, Jeová, olhe também pra mim que eu estou mais pra lá do que pra cá” (Juca Chaves).
 
Obviamente, os deuses cobravam pelos serviços prestados na forma de templos, estátuas e monumentos em sua homenagem, além da realização de sacrifícios e uma fidelidade incondicional.  A existência de tantos deuses podia levar a conflitos de interesse, um povo pedindo coisas que entravam em choque com as necessidades de outros, por mais idiotas, sacanas ou injustos que fossem esses pedidos, o desejo de uns ignorando as necessidades de outros. Talvez a crença de consequências mais perniciosas tenha sido a de um povo se considerar o escolhido desse ou daquele deus, porque uma coisa é você escolher um deus para adorar e outra bem diferente é se imaginar o "povo eleito" desse deus, com mais direitos que os demais povos.
 
Sinceramente, eu não consigo aceitar essa crença, a de um pai que privilegia um filho em detrimento dos outros. Existem pais assim no mundo real – eu mesmo conheci um –, mas nunca que um pai-deus ou deus-pai faria uma merda dessas, pois estaria condenando seus filhos ao conflito eterno, brigando pela herança divina. Se hoje (e sempre) a divisão de patrimônio material já provoca um caos desgraçado, como imaginar que isso não aconteceria com promessas divinas?
 
Para mim só duas opções existem: ou um deus não fez promessas apenas para seu povo predileto (tipo “terra prometida”), ou, se fez, não pode ser considerado o deus de todos os povos. Complicado, não? 
 
O grande problema é que essa crença se perpetuou ao longo dos milênios. Sinceramente, não dá para aceitar um deus exclusivista, injusto e parcial. Mas há milhares de cristãos que acreditam nisso (vamos nos manter no limite do cristianismo, ok?).
 
Outro problema que identifico hoje não é a crença de que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, mas o contrário disso. Ao longo da história, o homem imaginou um Deus à sua imagem e semelhança – a criatura modelando o criador. Isso explicaria todo preconceito, toda rejeição às mudanças, todo conservadorismo que floresceu (e ainda floresce) até hoje. Não sei de outras igrejas cristãs, mas alguns católicos são muito bons nisso (não todos, claro). Por isso, toda mudança no status quo proposta por quem a pode propor (um Papa) é tão mal recebida, tão mal interpretada.
 
Hoje eu vejo a Igreja Católica não como uma instituição decadente, mas como um equipamento gigantesco que gasta uma energia lascada para se movimentar. Essa inércia, essa dificuldade de se mover impede a autorização de ordenação feminina e para que os padres se casem , mesmo que a igreja anglicana esteja aí para provar que não há grandes problemas se isso acontecer. Há outros tabus que enlouquecem os muito conservadores – casamento gay, por exemplo. Mas numa igreja onde ainda existem os defensores da missa em latim com o celebrante de costas para os fieis, tudo é possível.
 
Esse conservadorismo, esse reacionarismo explica a perda de fieis para as igrejas evangélicas? Não, na minha opinião. No tempo em que eu ia todos os domingos à missa, comecei a pensar por que as igrejas estavam tão vazias e com poucos jovens. E cheguei a estas hipóteses:
 
Como sempre aconteceu, católico só recorre, só procura Deus se estiver precisando Dele. Se estiver com a vida mais ou menos tranquila, muito mais divertido é tomar cerveja, jogar bola ou assar uma carninha no domingo. Na minha infância as igrejas ficavam cheias e havia várias missas dominicais. Talvez o temor a Deus fosse maior, talvez as pessoas fossem mais ignorantes, mais crédulas. Essa situação de relativo conforto e o apelo à diversão talvez expliquem o sumiço dos que ainda se dizem católicos.
 
Mas e os que migraram para as igrejas evangélicas? Para mim a resposta é simples: ninguém que resolveu abandonar o catolicismo mudou para as igrejas protestantes tradicionais, (gente séria que merece todo o meu respeito); ninguém saiu por desacreditar nos santos e milagres aceitos pelo catolicismo. Os “migrantes” converteram-se à “fé” pregada nas igrejas pentecostais e neopentecostais, onde os "milagres" acontecem a rodo, e a esperança na cura ou solução imediata problemas financeiros são a promessa.
 
Pense bem, se alguém me promete solução imediata de algum problema, qual a vantagem de continuar fazendo promessas para santos católicos? As chamadas espórtulas da igreja católica durante a missa podem ser apenas moedas ou nada, mas ninguém que precisa ganha cesta básica. Estão aí os bispos e missionários evangélicos que não me deixam mentir sozinhos.
 
Então, dentre os que ainda se dizem católicos o conservadorismo é mais visível. Quando um papa surge falando em justiça social a reação é chamá-lo de "comunista" e idiotices do gênero. Aparentemente, todos os que o criticam são adeptos da frase “pra farinha pouca meu pirão primeiro”.
 
Hoje eu acredito que a maioria dos “migrantes” é formada por gente humilde, temente a Deus sim, mas que acredita em milagres  por atacado, que precisa de soluções e auxílio material imediato. A Igreja Católica pretende oferecer isso? Duvido. Para mim, ela está mais preocupada com a "teoria" que com a "prática", mais sensível aos ensinamentos de Jesus que aos castigos, promessas e ameaças do Antigo Testamento. Mais no Deus Filho que no Deus Pai, o inverso das novas igrejas evangélicas. Quem deixa de ser católico parece estar mais interessado nas benesses materiais acenadas pelos pastores dessas igrejas (universais, mundiais, internacionais, malas falas e similares) que de conforto espiritual. Esse é o meu pensamento. Estou errado?

quarta-feira, 23 de abril de 2025

ALEGRAI-VOS E EXULTAI

 
Em entrevista o Papa Francisco disse uma vez que o senso de humor é um atestado de sanidade e que há mais de 40 anos rezava todos os dias a oração atribuída a São Tomas More para pedir senso de humor, oração que colocou na nota 101 da Exortação Apostólica “Gaudete et Exsultate”. Fui conferir e realmente estava lá esta oração:
 
Dai-me, Senhor, uma boa digestão e também qualquer coisa para digerir. Dai-me a saúde do corpo, com o bom humor necessário para a conservar. Dai-me, Senhor, uma alma santa que saiba aproveitar o que é bom e puro, e não se assuste à vista do pecado, mas encontre a forma de colocar as coisas de novo em ordem. Dai-me uma alma que não conheça o tédio, as murmurações, os suspiros e os lamentos, e não permitais que sofra excessivamente por essa realidade tão dominadora que se chama “eu”. Dai-me, Senhor, o sentido do humor. Dai-me a graça de entender os gracejos, para que conheça na vida um pouco de alegria e possa comunicá-la aos outros. Assim seja.
 
Que está esperando? Vai continuar aí resmungando de cara fechada? Pode começar a rezar/orar!

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

ORAÇÃO DE NATAL

 Senhor,
Aproxima-se a data que os homens escolheram para celebrar Vosso nascimento, data que transformou-se também no momento em que pobres ou ricos se dão ou trocam presentes. Sabeis (tudo sabeis!) que nessa data há muita alegria, ricos presentes ou humildes lembranças, ceia farta em mesas suntuosas ou apenas o pouco alimento do dia a dia.
Talvez Vós não queirais interferir nessas celebrações para diminuir a absurda disparidade que fica tão visível nessa época. Eu entendo e creio que estais certos (claro, pois estais sempre certo!).
Mas há um pedido, um único pedido que gostaria de Vos fazer, pois Vós curastes o leproso, fizestes o cego ver e o paralítico voltar a andar, curastes a mão atrofiada e até ressuscitastes um morto. Por isso, Senhor, eu peço: curai o vício das pessoas que mergulharam nas drogas e delas não conseguem mais se libertar; livrai da miséria absoluta aqueles que dormem ao relento, tendo apenas um papelão para evitar o contato do corpo com o chão frio da madrugada; dai-lhes dignidade, saúde e esperança, não os deixeis à mercê da indiferença de seus semelhantes. Amém

terça-feira, 17 de setembro de 2024

ATEU NÃO COMETE HERESIA

 
Tive muitas dúvidas se deveria ou não publicar um texto tão provocativo, mesmo que profundamente confessional e sincero (apesar da tradicional avacalhação jotabélica). Minha sorte é não conseguir alcançar o brilho intelectual dos comentários de Yuval Harari em seu livro “Sapiens”. Além disso, não pretendo convencer ninguém a mudar sua fé (nem sua descrença). Este texto reflete apenas o estágio atual da minha espiritualidade. E posso dizer que sinto saudade do tempo em que tinha fé.
 
Por isso, é importante deixar bastante claro que não vejo as religiões ou seus ensinamentos como algo ruim. Pelo contrário! O que realmente me incomoda é a defesa intransigente de certas interpretações feitas por alguns seguidores ao longo do tempo, pois nem Jesus nem Buda nem Maomé escreveram uma única palavra. Foram seus seguidores que “interpretaram” e registraram suas mensagens, muitas vezes moldando-as de acordo com sua falta de cultura, seus preconceitos pessoais e de acordo com o contexto de suas épocas.
 
É nesse processo de interpretação que, a meu ver, surgem os desvios, as intolerâncias e os mal-entendidos. Já pensou se um dos discípulos de Jesus fosse o Mala fala e outro fosse o padre Marcelo Rossi? Como seriam os evangelhos escritos por eles? Captou a sutileza? Afinal, talvez a essência dos grandes fundadores das religiões atuais seja, no fundo, muito mais simples e compassiva do que o que acabou sendo registrado ao longo dos séculos. E agora, deixando chorumelas, passemos ao texto principal.
 
 
Nasci em uma família católica à moda antiga, com uma fé simples e sem questionamentos, de ir à missa e comungar todo domingo, de fazer novenas, rezar terços, de acompanhar intermináveis procissões. Nos dias de semana minha avó, minha mãe e eu (então com uns sete anos) ajoelhávamos às 18 horas diante do rádio que transmitia a “Hora do Angelus”. Esse era o mundo em que cresci.
 
O defeito (só pode ser defeito!) é que eu comecei a refletir cedo demais sobre os textos bíblicos lidos durante a missa. Por conta de minhas dúvidas, ao entrar na adolescência comecei a ler tudo sobre religião, sobre religiões e cultos que encontrava pela frente. Fui a centro espírita e terreiro de umbanda. Minha busca por Deus era constante. Mas creio que meu gene da religiosidade sofreu alguma mutação, pois quanto mais suplicava a Deus para aumentar minha fé, mais eu a via indo embora.
 
E a situação se agravou definitivamente depois de ler o livro Sapiens. Dizendo em uma linguagem nada bíblica, aí a coisa fodeu de vez. E eu, um católico de missa dominical que até foi convidado a ser ministro da eucaristia, acabei por me tornar um ateu-católico ou católico-ateu (olha o gene da religiosidade atuando para não me afastar definitivamente da minha antiga fé!). Essa mudança teve um defeito colateral, pois substituí a crença pela superstição. Está bom até aqui? Continuemos.
 
Outro defeito grave, herético aos olhos de muitos, foi passar a criticar e duvidar dos textos do Antigo Testamento. Ele pode até ter sido inspirado por Deus, mas os livros que o compõem foram escritos há milhares de anos por um bando de gente bronca, sem cultura, inteligentes mas ignorantes, em um tempo em que uma simples doença de pele era considerada “lepra”. E é aí que entra meu ranço com a ideia de “terra prometida”.
 
Para começar, esse conceito foi introjetado em um povo que viveu escravizado no Egito durante algum tempo. Naquela época escravizar até mesmo uma população inteira era procedimento comum entre os vencedores de guerras entre países ou povos. Mas algum “inteligente” provavelmente entendeu que se houvesse uma intervenção divina ficaria mais fácil a população escravizada se rebelar, fugir ou o cacete que fosse. E melhor ainda era ter um deus exclusivo, poderoso, fodão, mais imponente que aqueles deuses idiotas com cara de chacal, hipopótamo, crocodilo e outras esquisitices.
 
E aí surgiu a “terra prometida”. Falando “sério”, o Deus do AT era muito mão de vaca, pois em vez de prometer uma terra com exuberantes florestas de cedros e praias paradisíacas (estou pensando no Líbano, mas se existiu um Noé, porque não uma frota de Noés para levar a moçada?), o Cara oferece um pedaço de deserto!. Mais barato, mas muito inferior. E, pior, já tinha sido objeto de usucapião por outras tribos! Isso só podia dar merda, e deu, claro, fazendo surgir um cu de gato que nunca termina.
 
Outra coisa que me incomoda muito era a crença daqueles caipiras de que Deus era exclusividade sua. São Paulo foi o primeiro a entender as vantagens da globalização. Não fosse ele, até hoje estariam sendo ignorados os bilhões de pessoas, de vários continentes e grupos étnicos que partilham da fé, da crença em Deus. Mas será mesmo que Ele existe?
 
Bom, para tranquilizar os leitores que ainda estão acordados, eu creio que sim, que é uma possibilidade simpática. Mas não aquele deus vingativo, passional, cruel e rancoroso do AT, não aquele feito (ou imaginado) à minha imagem e semelhança. Fica difícil aceitar isso, pois Ele poderia, por exemplo, ter a imagem e semelhança dos Neandertais. Ou vice versa.
 
Outra coisa que sempre critiquei sem verbalizar meu pensamento é a ideia do “pecado original”. Como assim? Quer dizer que a humanidade foi automaticamente condenada só por Adão e Eva terem desobedecido a Deus e comido o “fruto da árvore da ciência do bem e do mal”? (Gen 2, 17)?
 
Eu vejo a coisa da seguinte forma: como sou darwinista de coração, para mim Adão e Eva são apenas figuras alegóricas que não existiram tal como descrito na Bíblia. E se eles não existiram, certamente não comeram a “maçã envenenada”. E se não comeram, não há pecado original, nunca houve! Fico pensando em minhas netinhas condenadas já no nascimento por uma coisa que não cometeram. Puta sacanagem e covardia!
 
 
Agora, vamos examinar esta questão de outro ângulo. Suponhamos que o Deus do AT ficou mesmo muito puto por aquele “criado à sua imagem e semelhança” Tê-lo desobedecido. Mas pense comigo: qual pai normal pensaria em impedir e negar a seu filho oportunidade tão fundamental de adquirir conhecimento  ao comer o “fruto da ciência do bem e do mal”? O correto não deveria ser o inverso disso?
 
Eu sou um pai meia boca, relapso, mas tentei dar a meus filhos tudo o que pude – não só bens materiais, mas conhecimento formal de qualidade e, principalmente, Amor. Mas o Deus do AT não quis saber. Além de expulsar “de casa” aquele casal de crianças, ainda resolveu punir toda sua descendência com o “pecado original”. Para mim, esse comportamento espantoso é, na verdade, sinônimo de “rancor original”.
 
Para piorar ainda mais Sua imagem, mandou Seu filho unigênito descer à Terra para, com seu absurdo sofrimento, redimir a pisada no tomate feita por Adão e Eva milênios antes. Qual pai normal faria isso?
 
Bom, para terminar esta gororoba herética e debochada e tranquilizar os que creem em Deus, preciso dizer que não acredito no deus raivoso e vingativo do AT. Também não acredito em “terra prometida” nem em “pecado original”. Prefiro acreditar no Deus-amor, no Deus-Bondade, no Deus-perdão trazido por Jesus. E mesmo que seja hoje um ateu-católico, não vejo nenhum problema em aceitar ser J. Cristo o Filho de Deus, injustamente perseguido, torturado e crucificado por um bando de ignorantes fundamentalistas. Que têm seguidores ainda hoje, até mesmo em outras religiões. Fui.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

UM ATEU CATÓLICO III

 
Se você leu e não gostou dos posts recentes dedicados a divagações sobre religião e fé, pode parar por aqui, porque este é mais um da série “Ateu Católico” (o último). Poderia dizer brincando com as palavras que este é o terceiro da chatíssima trindade de posts que resolvi publicar. Mas se quiser continuar, bora lá.
 
Eu gostava muito de conversar sobre religião com meu amigo e colega de serviço Pintão, um ateu convertido ao catolicismo. E ao expor minhas dúvidas e inquietações ele tentava me acalmar dizendo que a fé vem de dentro de cada pessoa. Uma vez comentou sobre uma expressão francesa – “la foi du charbonnier”, a “fé do carvoeiro”, para definir a fé monolítica que algumas pessoas possuem, uma fé que nada questiona e que tudo aceita.
 
Fiquei com aquela imagem na cabeça e sempre me lembro dela quando a mente viaja pelo desconhecido, pelo ainda não comprovado, misturando ciência e fé. A partir de agora vou registrar reflexões sobre a Bíblia e sobre as religiões, mostrando por que eu me considero um pouco ateu e um pouco católico.
 
Hoje eu sinto inveja das pessoas quem têm alguma crença religiosa, mas sinto inveja também dos ateus convictos e até daqueles que não se preocupam com religião. Eu sou cheio de dúvidas e tenho tendência a misturar ciência com fé. Por exemplo: Deus criou o Universo?
 
Apesar da quantidade incalculável de galáxias, estrelas e planetas, minha tendência é dizer que se Deus (ou deuses) realmente existe, é razoável imaginar que ele criou o universo. Estou dizendo isto porque estima-se que existam centenas de bilhões de galáxias, cada uma delas com 200 a 400 bilhões de estrelas. Se você pensar que cada estrela pode ter uns 10 planetas fica até difícil entender o número total de planetas existentes. Mas vamos simplificar. Se um “infinitésimo” dessa quantidade corresponder a planetas com vida inteligente será preciso ter muita boa vontade para imaginar que nós somos os queridinhos de Deus e que fomos criados à sua imagem e semelhança. Além disso, até já ouço os espíritos dos neandertais, dos denisovanos e de outros “primos” reclamando também dessa “predileção divina”.
 
Mas Deus pode estar no início, na criação do universo. O universo em que vivemos teria surgido a partir do Big Bang, uma “singularidade”, onde o nada transformou-se em tudo. Talvez exista o dedo de Deus no Fiat Lux que se seguiu. Eu gosto muito e acho poética a descrição bíblica para a criação do mundo:
 
No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas. Deus disse: "Faça-se a luz!" E a luz foi feita.
 
Outra pergunta: Jesus era mesmo filho de Deus? Resposta: nunca tive problema com isso, mas nunca achei necessário que nascesse de uma virgem e que não tivesse mais irmãos. Mulher virgem é mais pura? Isso significa que sexo é impuro? Besteira pura, isso sim. Sim, se Deus existir, para mim Jesus pode ter sido mesmo filho de Deus e pode ter ressuscitado. Mas nunca parei para racionalizar isso. Porque nem tudo é explicável e talvez nunca seja. Por exemplo: matéria escura do universo. Existe? Não existe? Até agora é uma construção intelectual não comprovada nem mensurada. Uma das teorias é esta:
 
"Cerca de 95% de toda a matéria que constitui nosso Universo, aparentemente, é feita de algo que não conhecemos e que não conseguimos observar de forma direta. Além disso, um terço de toda essa matéria desconhecida, apelidada de matéria escura, não interage eletromagneticamente, ou seja, não é capaz de emitir ou absorver qualquer tipo de radiação."
 
Acabei de misturar fé com ciência, mas assim é a cabeça de um católico ateu. E vamos mudar de assunto.
 
 
Sabe quantas religiões existem no mundo? Segundo a Wikipédia, umas dez mil. Cá pra nós, você acha justo imaginar que só o Deus judaico-cristão é verdadeiro? Não precisa responder.
 
Sabe quais são os principais grupos religiosos do mundo? Em dados de 2012, são estes: 
Cristianismo (28%)
Islamismo (22%)
Hinduísmo (15%)
Irreligião (11,9%)
Budismo (8,5%)
Ateismo (2,3%)
Judaísmo (0,2%)
Outros (12,1%)
 
Comentários:
- Segundo o dicionário, Irreligião (também referida como incredulidade, ausência de religião ou pessoas sem religião) é a ausência, indiferença ou não prática de uma religião.
- Chama atenção o percentual do judaísmo. Insignificante, mas como tem potencial para atrair rejeição e confusão!
- As quatro maiores religiões surgiram há milênios, sendo o islamismo a mais recente. Surgiu no século VII. Mas vamos mudar de assunto de novo.
 
 
Não entrando no mérito do Verbo ter-se feito carne ou não, eu penso que os fundadores ou formatadores das grandes religiões eram pessoas com inteligência emocional muito acima da média e, que depois de muita meditação e reflexões sobre a essência da vida, estavam interessados apenas em passar mensagens edificantes e normas para um convívio harmonioso e fraterno entre aqueles que os seguiam. O problema é que nenhum deles deixou nada escrito. Quem se encarregou de registrar os ensinamentos recebidos foram seus discípulos.
 
O Evangelho de São Marcos é considerado o primeiro a ser escrito, provavelmente entre os anos 60 e 70 d.C, trinta anos depois da morte de Jesus. O Evangelho de São João foi escrito entre os anos 90 e 110 d.C., entre 60 e 80 anos após a morte do Messias. Ao ficar sabendo disso você já começa a ter minhocas na cabeça. Ou não? Pense bem, você realmente acredita na exatidão das palavras e na descrição precisa dos atos e milagres praticados por Cristo passado tanto tempo? Não precisa responder.
 
Jesus era judeu. Os doze apóstolos também eram judeus. Nada mais natural, portanto que os evangelistas citassem trechos de profecias para demonstrar aos demais judeus que Jesus era verdadeiramente o filho de Deus, que tinha origem divina. Talvez, naquela época, eles não percebessem que o que realmente importava (e sempre importou) eram os ensinamentos que Jesus tinha deixado.
 
Eu, pelo menos, sempre achei curiosa e desnecessária essa “ânsia” pela busca de provas. Sem falar na descrição de acontecimentos que não presenciaram, como o nascimento de Jesus. Quem contou para eles? Negócio é o seguinte: se você já leu trechos dos Evangelhos de forma não mecânica, não automática, já deve ter tido a sensação de que os evangelistas buscaram provar a origem divina de Jesus citando trechos de profecias do Antigo Testamento.
 
Ninguém discute a beleza das parábolas criadas por Cristo, mesmo que registradas com palavras semelhantes ou com alguma “licença poética”, mas alguns episódios citados sempre fizeram surgir a dúvida em minha mente. Por isso, nos meus tempos de católico praticante (e questionador) resolvi ler toda a Bíblia. Talvez assim eu mudasse minha visão reticente e crítica a muitas leituras feitas durante as missas. A primeira providência foi comprar uma Bíblia das Edições Paulinas, impressa em papel de jornal.
 
Comecei lendo a Apresentação e a Introdução Geral. Descobri assim que a “Holy Bible” é formada por 46 “livros” do Antigo Testamento e 27 do Novo Testamento. Descobri depois que a quantidade de livros do Antigo Testamento pode variar, dependendo da versão consultada (existe uma porrada). Para o ChatGPT, por exemplo, são apenas 39. De onde saiu isso? Só Deus sabe! (piada).
 
No caso do Novo Testamento, a coisa é mais simples:
Evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas, João
Livro Histórico: Atos dos Apóstolos
Epístolas de São Paulo: Romanos, Coríntios (duas), Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, Tessalonicenses (duas), Timóteo (duas), Tito, Filêmon, Hebreus
Epístolas Católicas: Tiago, Pedro (duas), João (três), Judas,
Livro Profético: Apocalipse,
 
Resolvi começar a leitura pelo Evangelho de São Mateus. Achei lindo, adorei a leitura das belíssimas parábolas criadas por Jesus, mas a coisa começou a dar tilt, pois eu pensava que os quatro evangelhos seriam complementares entre si. Ledo engano! Mateus, Marcos e Lucas são chamados sinóticos por apresentarem muitas semelhanças, Tantas que levaram os estudiosos a acreditar que esses evangelhos foram escritos com base em fontes comuns. Em outras palavras, são quase um copicola do outro. Isso é ruim? Não necessariamente, mas fiquei um pouco decepcionado.
 
Tentei também ler o “Apocalipse”, mas não tive saco. É muita fantasia e alegoria. Dá até para pensar que São João estava bêbado ou fumado quando o escreveu.
 
Para concluir a goma iniciada no penúltimo post, a Bíblia jotabélica seria formada pelo A.T. magrinho citado no post anterior e por um Novo Testamento sem o livro do Apocalipse. Uma das versões mais antigas da Bíblia é chamada de Septuaginta. A Bíblia jotabélica poderia ser conhecida como Bíblia Zedapinta (piada ruim!).
 
E agora é para acabar mesmo: você pode ter odiado e achado ridículos os argumentos e reflexões apresentados nos três posts do católico ateu, mas se quiser diversão garantida leia o Gênesis, uma crônica policial por excelência. Fui.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

UM ATEU CATÓLICO II

 
Já deixo claro que o que será lido a partir de agora é só fruto de um delírio pessoal, delírio que me acompanha desde quando eu era ainda um católico praticante. Serve para alguma coisa? Claro que não, é apenas uma tentativa de fazer o cérebro exercitar-se.
 

Você alguma vez pensou que a Bíblia poderia ser diferente, mais simples do que é? Não? Eu já. E explico o motivo de pensar assim. O Antigo Testamento está cheio de “livros” que nada significam para mim, um não judeu. Quer um exemplo? Que interesse tem para mim a história de Rute ou “Números”? Mesmo sendo atualmente um católico-ateu (ou ateu-católico) fiquei pensando em uma versão “gourmet” da Bíblia (se este blog tivesse leitores certamente alguém já estaria me chamando de herege).
 
Para isso, solicitei os serviços do ChatGPT e fiz a seguinte pergunta:
“De que tratam os livros do Antigo Testamento?” E ele respondeu:           
 
Os livros do Antigo Testamento da Bíblia tratam de uma variedade de temas, incluindo história, leis, profecias, sabedoria, poesia e relatos religiosos. Aqui está uma visão geral dos principais temas e conteúdos de cada seção:
Pentateuco:
Gênesis: Origens do mundo, dos povos e da nação de Israel, incluindo histórias de criação, os patriarcas (Abraão, Isaac, Jacó) e a escravidão no Egito.
Êxodo: A libertação de Israel do Egito, a entrega da lei no Monte Sinai (incluindo os Dez Mandamentos) e a jornada pelo deserto.
Levítico: Leis religiosas, rituais e regulamentos para o sacerdócio e o culto.
Números: Censo de Israel no deserto, jornadas, rebeliões e preparação para entrar na Terra Prometida.
Deuteronômio: Recapitulação das leis e eventos anteriores, exortações para obedecer a Deus e previsões sobre a entrada em Canaã.
Livros Históricos:
Josué: Conquista de Canaã e divisão da terra entre as tribos de Israel.
Juízes: Período de liderança militar e política antes da monarquia.
Rute: História de uma mulher moabita que se torna ancestral do rei Davi.
1 Samuel: Samuel, Saul e Davi: os primeiros reis de Israel.
2 Samuel: Reinado de Davi e os primeiros anos de seu filho Salomão.
1 Reis: Reinado de Salomão e divisão do reino após sua morte.
2 Reis: História dos reinos divididos de Israel e Judá até o exílio.
1 Crônicas: Genealogias e história de Israel, com ênfase na linhagem de Davi.
2 Crônicas: História dos reis de Judá, destacando o templo e a adoração.
Livros Poéticos e de Sabedoria:
Jó: Reflexões sobre o sofrimento e o significado da fé.
Salmos: Uma coleção de cânticos e orações.
Provérbios: Sabedoria prática para a vida diária.
Eclesiastes: Reflexões sobre o propósito da vida e a busca pela sabedoria.
Cântico dos Cânticos: Um poema sobre amor e desejo.
Profetas Maiores:
Isaias: Profecias sobre o futuro de Israel e do Messias.
Jeremias: Profecias de julgamento e esperança, com foco na queda de Jerusalém.
Lamentações: Poesias lamentando a destruição de Jerusalém.
Ezequiel: Visões proféticas e mensagens simbólicas durante o exílio.
Daniel: História e visões proféticas durante o exílio babilônico.
Profetas Menores:
Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias: Profecias, advertências e promessas de restauração para Israel.
 
Percebeu que eu tinha razão ao dizer da inutilidade para um não judeu de livros destinados originalmente apenas aos judeus? Aí fiz outra pergunta:
 
“Para um não judeu que não esteja interessado em conhecer os aspectos históricos e culturais do judaísmo, quais livros trariam ensinamentos de interesse geral, que pudessem ser aplicados até mesmo para ateus?”
 
Para um não judeu que não esteja interessado nos aspectos históricos e culturais do judaísmo, mas que busque ensinamentos de interesse geral aplicáveis até mesmo para ateus, os livros que se concentram mais em reflexões sobre a vida, moralidade e sabedoria prática podem ser mais relevantes. Nesse sentido, os seguintes livros poderiam ser considerados como contendo ensinamentos de interesse geral:
Provérbios: Oferece uma vasta coleção de sabedoria prática para a vida cotidiana, incluindo conselhos sobre relacionamentos, trabalho, finanças e comportamento ético.
Eclesiastes: Explora questões filosóficas sobre o propósito da vida, o significado da existência humana e a busca pela felicidade, fornecendo reflexões profundas sobre a natureza da existência.
Salmos: Contém uma variedade de cânticos e orações que abordam uma ampla gama de experiências humanas, incluindo gratidão, arrependimento, confiança e esperança, oferecendo conforto e inspiração espiritual.
Jó: Proporciona uma reflexão sobre o sofrimento humano, questionando as noções tradicionais de recompensa e punição divinas e explorando as complexidades da fé e da justiça em face da adversidade.
 
Estes livros oferecem insights universais sobre a natureza humana, a moralidade e o propósito da vida que podem ser valiosos para qualquer pessoa, independentemente de sua afiliação religiosa. Eles fornecem orientação prática, reflexão filosófica e consolo espiritual que podem ser aplicados em diversas situações e contextos da vida.
 
E assim seria o Antigo Testamento para um ateu-católico: magrinho, magrinho. E só com o que realmente importa para mim. Mas isso, como já disse, é só uma chacoalhada no cérebro, para que ele não adormeça antes de mim.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

UM ATEU CATÓLICO

Durante toda a minha vida, talvez mais que a maioria das pessoas, eu estive de algum modo ligado à religião, à prática religiosa e à religiosidade. Ainda criança, ajoelhava-me às seis da tarde junto com minha mãe e minha avó em frente ao rádio durante a transmissão da “Hora do Angelus”. O tempo passou e eu comecei a me questionar e a questionar algumas práticas religiosas. Entrando na adolescência eu ia às missas de domingo, mas ficava parado no umbral da entrada da igreja. Não ouvia nada do que o padre falava nem prestava atenção na cerimônia religiosa que estava acontecendo, pois meu interesse era apenas ver as meninas que entravam na igreja. Por pruridos de consciência decidi que ou assistia à missa sentado nos bancos próximos ao altar ou parava de ir à missa. Parei.
 
No final da adolescência tive aulas de cultura religiosa no colégio onde estudava. Um padre italiano espanou todas as minhas crenças e crendices, mas parei de assistir às suas aulas. O resultado foi uma perplexidade e, porque não admitir?, uma angústia religiosa, uma necessidade de me reconectar com Deus. Para isso, comecei a ler tudo o que encontrava sobre outras religiões, fui a centro espírita e terreiro de umbanda, mas decidi me afastar completamente de qualquer tipo de atividade religiosa. Continuava a crer em Deus, mas era Ele lá e eu cá.
 
Perto de prestar vestibular pensei em estudar Teologia, mas depois de um esporro fenomenal de meu irmão mais velho (“Você quer ser padre? Vai viver de quê?”) desisti dessa ideia. Um dia, já prestes a me casar com a mulher da minha vida, descobri que precisaria fazer um “curso de noivos”. Adorei a experiência e não passou muito tempo para que eu voltasse a ir à missa todos os domingos. Lia atentamente em um folheto fornecido pela igreja as leituras do dia e prestava máxima atenção nas homilias feitas pelo celebrante, mas questionava muitos textos que lia, especialmente os do Antigo Testamento.
 
Os filhos foram nascendo e a seu tempo participando de atividades dentro da igreja. Quando atingiam a idade de quatorze anos entraram para o movimento de jovens que existia, nele permanecendo até quando quisessem. O mais velho tocou órgão na “missa dos jovens” até quando quis. Pouco depois de se afastar da igreja declarou-se ateu. OK! E assim fui levando minha vida de católico meia-boca, sempre lendo o que pintasse na minha frente, exceção feita a textos produzidos por igrejas evangélicas.
 
Continuei indo à missa todo domingo, sempre comungando, momento em que fazia uma oração mental (“Creio, Senhor, mas aumentai a minha fé”). Mas não adiantou, pois sentia que minha fé estava indo embora. Até criei uma frase sobre isso: “Minha fé é como a chama de uma vela, qualquer ventinho a faz oscilar”.
 
Um ponto de virada em minha fé aconteceu quando ganhei de presente o livro “Sapiens” escrito por Yuval Harari, um historiador israelense e ateu. O livro é super bem escrito e sua leitura é agradabilíssima, mas o que o torna especial são as informações que traz sobre as últimas descobertas arqueológicas e a análise que faz de suas implicações.
 
A partir de sua leitura tornei-me um “católico ateu” ou um “ateu católico”, pois minhas crenças queridas foram para o ralo. Hoje, apesar de tudo o que penso, tento ainda manter algum tipo de religião, um “catolicismo Jotabê”, talvez por ter o que alguns geneticistas definem como “gene religioso”.
 
Hoje não consigo mais rezar, mas basta algum medo aparecer para me comportar como na frase de Millôr Fernandes: O cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde”. E digo isso tranquilamente, pois como já disse muitas vezes, eu sempre precisei mais de Deus que Ele de mim.
 
Talvez, como escreveu o físico Marcelo Gleiser, eu faça parte de um pequeno grupo de pessoas “que se dá a reflexões mais profundas, examina, questiona e reavalia sua fé regularmente, sabendo que o crer é fluido. Nossas convicções mudam com a idade e, com essas mudanças, muda, também, nossa relação com a fé”.
 
Justamente por isso ultimamente tenho pensado muito sobre Jesus e sua relação com a Bíblia e, principalmente, com as profecias bíblicas. Mas essa goma ficará para o próximo post pois, mesmo que não tenha mais leitores, continuo achando que ninguém gosta de ler “textões”, ainda mais se forem sobre as experiências religiosas de desconhecidos. 

ENTRE O MAR E O ROCHEDO

  Já não sei mais quem sou Nem dizer quem já fui Só consigo dizer que passou O tempo em que não te vi Um tempo em que só vivi Com lembranças...