Não sou uma pessoa muito alegre. Sou
introvertido. Fechado. Cheio de dúvidas. Não me é fácil viver comigo. Parece
que estou sempre em guerra civil.
Sempre gostei de estar com o que chamam
"pessoas humildes". Foi com essas que aprendi mais.
Não estou à procura de nada. A gente não
procura, encontra. Uma das coisas que me agrada na vida é a imprevisibilidade
do futuro. Claro que é aborrecido se o futuro for desagradável. Mas enquanto
houver futuro, a nossa vida tem um sentido, e uma razão.
Tive sempre a sensação que um livro é um
organismo vivo que nos escapa.
Cada palavra conseguida é como uma pedra
que retiro de um poço. Quanto maior é a experiência e a maturidade literária,
tanto maior se compreende o caminho que ainda falta percorrer.
Quem me assassinou para que
eu seja tão doce?
Quando um coração se fecha,
faz muito mais barulho do que uma porta.
Só há grupos onde existem
fraquezas individuais.
A cultura é uma coisa
apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo escravo
Nunca falamos muito, acho
que nunca falamos nada. E não sinto necessidade de começar agora. O que poderia
dizer? Existem séculos e séculos de silêncio entre nós e, debaixo dos séculos
do silêncio, ocultas lá no fundo, se calhar esquecidas, se calhar presentes, se
calhar apagadas, se calhar vivas e a doerem-me, coisas que prefiro não
transformar em palavras, coisas anteriores às palavras...
Não digas nada, dá-me só a
mão. Palavra de honra que não é preciso dizer nada, a mão chega. Parece-te
estranho que a mão chegue, não é, mas chega. (...) Se calhar sou uma pessoa
carente. Se calhar nem sequer sou carente, sou só parvo.
Há momentos e situações em
que o olhar comunica mais que as palavras, isso também é intimidade. Creio que
sou capaz de dizer muitas coisas sem falar, é o outro que também tem de
compreender e de saber interpretar. Quando se estabelece essa relação de
intimidade e de amizade, não é necessário falar. (...) Frequentemente é melhor
não o fazer porque as palavras estão muito gastas.
Não há ninguém que eu odeie,
acho que dá muito trabalho odiar. Há é pessoas que me são indiferentes.
Muitas vezes as coisas que
nos tocam mais são aquelas que na altura em que estão a acontecer nem nos
apercebemos.
Os romances maus contam
histórias, os bons romances mostram-nos a nós mesmos.
Quanto mais silêncio houver
num livro, melhor ele é. Porque nos permite escrever o livro melhor, como
leitor.
Quando se critica, estamos a
julgar. Se julgarmos já não compreendemos, porque julgar implica condenar ou
absolver.
Não sou um senhor de idade
que conservou o coração menino. Sou um menino cujo envelope se gastou.
Nós somos casas muito
grandes, muito compridas. É como se morássemos apenas num quarto ou dois. Às
vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas.
Os livros que escrevi trazem o meu nome
mas tenho dificuldade em encontrar os seus autores. Só aquele que estou a
escrever é feito por mim, os restantes parece-me sempre terem sido outros
homens que os compuseram.
Em todo o caso hoje não estou para
ninguém. Não quero piedade. Não quero consolo. Não quero sorrisos de esperança.
Quero imaginar o futuro sabendo que existe uma parede a interromper-me os dias.
Os outros caminham para lá da parede. Eu fico deste lado.
Temos tendência para transformar as
nossas opiniões pessoais em verdades universais e rejeitar tudo o que não
encaixe na nossa grelha de valores.
O ato de ler é criativo e implica
humildade.
São precisas três coisas para escrever:
paciência, solidão e orgulho.
Um livro não está na cabeça, está na
mão. Um livro não se faz com ideias. É o livro que tem de ter as ideias, não é
o autor. O livro tem que ser mais inteligente que o autor.
A democracia implicava um constante
referendar pelo povo das decisões do poder. Não existe.
É claro que me zango com Deus porque
permite o sofrimento, mas talvez os seus desígnios tenham tais profundezas que
não atinjo.
O sofrimento sempre me foi
incompreensível porque nascemos para a alegria.
Eu continuo a aprender. Tenho muito que
aprender, ainda. Acho que tenho uma noção parcial daquilo que estou a fazer.
Um parvo em pé vai mais
longe que um intelectual sentado.
Temos tendência para transformar as nossas opiniões pessoais em verdades universais e rejeitar tudo o que não encaixe na nossa grelha de valores.
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