Recebi pelo whatsapp um vídeo onde aparece um
ator global declamando um texto do Vinicius de Moraes, uma mensagem cujo título
seria “Aos meus amigos”. A interpretação teve ainda o auxílio luxuoso do violão
do Toquinho, que solava delicadamente músicas de autoria do Poetinha. De cara
já pensei em publicar aqui no blog. Para isso, precisava encontrar o texto
escrito. E aí a coisa pegou: o texto interpretado parece ser uma colagem de
autores distintos, pois o primeiro parágrafo foi realmente escrito pelo Vinícius,
mas não o último. Daria muito trabalho copiar cada frase dita. Por isso, resolvi
publicar o texto “Aos meus amigos”, mesmo título informado no início do vídeo.
Mas este, de um só autor, o amoroso Vinicius de Moraes. Lêaí.
Ah,
meus amigos, não vos deixeis morrer assim... O ano que passou levou tantos de
vós e agora os que restaram se puseram mais tristes; deixaram-se, por vezes,
pensativos, os olhos perdidos em ontem, lembrando os ingratos, os ecos de sua
passagem; lembrando que irão morrer também e cometer a mesma ingratidão.
E agora
os que restaram se puseram mais tristes. Ide ver vossos clínicos, vossos
analistas, vossos macumbeiros, e tomai sol, tomai vento, tomai tento, amigos
meus! — porque a Velha andou solta este último Bissexto e daqui a quatro anos
sobrevirá mais um no Tempo e alguns dentre vós — eu próprio, quem sabe? — de
tanto pensar na Última Viagem já estarão preparando os biscoitos para ela.
Eu me
havia prometido não entrar este ano em curso — quando se comemora o 1964.°
aniversário de um Judeu que acreditava na Igualdade e na Justiça — de humor
macabro ou ânimo pessimista. Anda tão coriácea esta República, tão difícil a
vida, tão caros os géneros, tão barato o amor que — pombas! — não há de ser a
mim que hão de chamar ave de agouro. Eu creio, malgrado tudo, na grande vida
generosa que está por aí; creio no amor e na amizade; nas mulheres em geral e
na minha em particular; nas árvores ao sol e no canto da juriti; no uísque
legítimo e na eficácia da aspirina contra os resfriados comuns. Sou um crente —
e por que não o ser? A fé desentope as artérias; a descrença é que dá câncer.
Pelo
bem que me quereis, amigos meus, não vos deixeis morrer. Comprai vossas varas,
vossos anzóis, vossos molinetes e andai à Barra em vossos fuscas a pescar, a
pescar, amigos meus! — que se for para engodar a isca da morte, eu vos perdoarei
de estardes matando peixinhos que não vos fizeram nenhum mal. Muni-vos também
de bons cajados e perlustrai montanhas, parando para observar os gordos
besouros a sugar o mel das flores inocentes, que desmaiam de prazer e logo
renascem mais vivas, relubrificadas pela seiva da terra. Parai diante dos
Véus-de-Noiva que se despencam virginais, dos altos rios, e ride ao vos
sentirdes borrifados pelas brancas águas iluminadas pelo sol da serra. Respirai
fundo, três vezes, o cheiro dos eucaliptos, a exsudar saúde, e depois ponde-vos
a andar, para frente e para cima, até vos sentirdes levemente taquicárdicos.
Tomai então uma ducha fria e almoçai boa comida roceira, bem calçada por pirão
de milho. O milho era o sustentáculo das civilizações índias do Pacífico, e
possuía status divino, não vos esqueçais! Não abuseis da carne de porco, nem
dos ovos, nem das frituras, nem das massas. Mantende, se tiverdes mais de 50
anos, uma dieta relativa durante a semana a fim de que vos possais esbaldar nos
domingos com aveludadas e opulentas feijoadas e moquecas, rabadas, cozidos,
peixadas à moda, vatapás e quantos. Fazei de seis em seis meses um checkup para
ver como andam vossas artérias, vosso coração, vosso fígado.
E amai,
amigos meus! Amai em tempo integral, nunca sacrificando ao exercício de outros
deveres, este, sagrado, do amor. Amai e bebei uísque. Não digo que bebais em
quantidades federais, mas quatro, cinco uísques por dia nunca fizeram mal a
ninguém. Amai, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido.
Mas
sobretudo não morrais, amigos meus!
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