Minhas netas de sete e oito anos são educadas
pelas mães para não dizerem palavrões, pois são palavras vulgares, “palavras
grandes”. E elas têm razão, pois o uso frequente de palavras de baixo calão
pode ser deselegante, especialmente se ditas em certos ambientes. Digamos assim,
ambientes da alta nobreza inglesa.
Particularmente, defendo a ideia de que se
deve adequar o vocabulário ao ambiente. Se, por exemplo, converso com pessoas
muito humildes e ouço um “nós vai” ou “a gente vamos”, já mando logo um “é nóis!”,
pois para mim o que importa é a comunicação. Claro que isso muda de figura
quando escrevo (e escrevo cada vez menos), pois aí já fico ligado em não deixar
passar qualquer tipo de erro (nem sempre com sucesso). Obviamente, evito palavras “eruditas”, cultas,
para não soar pedante. E também, confesso, por não ter intimidade com elas.
Para mim, a escrita ideal deve ser fluida e agradável como uma crônica do Rubem
Braga ou um texto do Vinicius de Moraes (difícil é conseguir!). E, cá pra nós,
ninguém precisa escrever no jurisdiquês de um ministro do STF ou como se estivesse fazendo uma dissertação
acadêmica.
Os (escassos) leitores talvez estejam se
perguntando aonde eu quero chegar com esta gororoba. E eu, constrangido, terei
que dizer que não faço a menor ideia, pois fui assaltado por um tipo de
psitacismo, aquele em que você fala, fala como um papagaio, mas não diz porra
nenhuma. Perdão, deixei passar um palavrão. Mas tudo bem, pois hoje descobri
que até a finada rainha da Inglaterra um dia disse “fuck”, palavra que em sua língua parece servir
para tudo – substantivo, adjetivo e advérbio. E é sobre isso que irei falar.
Uma vez fiquei sabendo que na Inglaterra,
mais especificamente em Londres, há vários sotaques (accents), de acordo com a condição sócio-econômica do falante e com o
local onde são utilizados. Essa situação foi exibida no divertido filme “My Fair Lady” (não vou falar do filme).
Mas o fato é que existe um “sotaque da rainha” (ou “do rei”), conhecido nas
rodas boêmias de Londres como RP -
Received Pronunciation, a línguagem da nobreza, da aristocracia.
Poderia dizer como os franceses que a “noblese oblige”, mas estaria dizendo um palavrão quase igual ao “fuck”
da rainha, pois há uma “lista negra” de palavras e expressões que não devem ser
ditas pela monarquia inglesa. E este é o assunto deste post (finalmente!).
Descobri que há uma espécie de protocolo que
indica quais palavras e expressões não podem ser ditas ou usadas pela família
real (morri de inveja do Brasil não ter um imperador). Mas
chega de escrever, cansei. A partir de agora é só transcrição, só copy-cola:
Segundo
especialistas, há um protocolo sobre quais palavras a família real pode usar. E
a lista de termos proibidos vai muito além dos palavrões! No livro
"Watching the English: the hidden rules of English behaviour", Kate
Fox conta alguns termos que eles não podem usar:
-
Toilet, por exemplo. Isso mesmo: a palavra em inglês para "privada" é
proibida na família real, segundo a autora. Mas o motivo não tem a ver com a
vulgaridade! É porque o termo tem origem francesa. Esse também é o motivo pelo
qual as palavras "pardon", "perfume" e "lounge"
foram proibidas.
-
Pregnant é outra; a palavra significa "grávida", e segundo a revista
US Weekly era considerada vulgar pela rainha. Ela costumava dizer que mulheres
grávidas estavam "in the family way", expressão que literalmente
significa "no caminho da família".
- Mum e
dad: Muita gente estranhou o fato de Charles 3º ter chamado Elizabeth 2ª de
"mamãe" ("mama") em seu primeiro discurso como rei. Na verdade,
essa era uma preferência da própria rainha. Os filhos dela também chamavam
Philip de "papa", inglês para "papai", mesmo depois de
adultos.
- Tea:
Talvez esse seja o item mais chocante: a família real britânica não pode usar a
palavra inglesa para "chá"? Mas não é bem assim: em partes pobres do
Reino Unido, a refeição feita entre as 17h e as 19h é chamada de
"tea", algo como "chá da tarde". Mas não na família real!
Eles preferem "jantar". Segundo a autora, a lista de palavras
proibidas foi montada de acordo com as preferências da rainha Elizabeth 2ª, que
ocupou o trono por 70 anos. Talvez as coisas mudem agora que Charles 3º é o rei
— mas não espere ouvir a coroa falando palavrões tão cedo!
Para encerrar este post, a explicação para o
(ou a) fuck da rainha (transcrevendo
de novo): Em 2020, o ator Brian Blessed
chocou o público ao contar que já ouviu a rainha usando a palavra
"fuck", o equivalente em inglês para "foda". No entanto, o
caso foi raríssimo e não foi bem um xingamento: ela estava explicando a
etimologia do termo. Ele disse que Elizabeth 2ª riu lembrando uma vez em que
ele usou o palavrão ao vivo na televisão, e acrescentou: “O que eu gostaria de
dizer a você é que 'fuck' é uma palavra anglo-saxônica, e significa espalhar a
semente”.
Chique demais, não acharam? Pensando bem, por
culpa se sua origem francesa não é chique dizer chic na corte. Talvez o rei Charles e sua turma digam elegant, refined, distinguished ou até classy, mas chic, nem pensar!
E assim, Jotabê – um monoglota de carteirinha
– termina este post, ou melhor, esta
crônica.
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