quarta-feira, 29 de outubro de 2014

CHATÔ, O REI DO BRASIL - FERNANDO MORAIS

Hoje, eu reverencio o escritor Fernando Morais e seu excelente livro “Chatô - o Rei do Brasil”. Embora seja um calhamaço de mais de 700 páginas sobre a história de Assis Chateaubriand, que foi dono de uns cem jornais e emissoras de televisão, entre outras empresas, é uma leitura agradabilíssima e extremamente divertida.

Para essa homenagem, transcrevo uma das histórias super pitorescas contadas no livro. Essa história tem início em uma campanha para a criação de aeroportos pelo país afora. Para isso, usando de sua absoluta influência, Chateaubriand conseguiu que várias empresas, “espontaneamente”, doassem aviões de pequeno porte para os aeroportos criados. E o texto transcrito descreve uma dessas cerimônias. 

Falando sério, quem ainda não leu esse livro não sabe o que está perdendo, pois é muuuito bom! E o autor escreve bem demais (o início, então, é magistral). Olhaí.

(...) Até a metade a cerimônia não foi em nada diferente das dezenas que já tinham acontecido naquele mesmo lugar. Primeiro falou alguém em nome dos doadores; depois foi a vez da madrinha Iolanda Penteado; depois do ministro, Chateaubriand encerrou a sessão de discursos: ‘Desejo em primeiro lugar expressar nosso agradecimento pela presença do ministro da Aeronáutica nesta festa e pela galanteria da senhora Iolanda Penteado, que veio ungir dos santos óleos de sua espiritualidade o batismo do novo aparelho ...’, nem seu discurso deixaria de ser uma repetição de tantos outros que fizera em ocasiões idênticas.

Feito o batismo, apareceram os garçons com o champanhe. Chateaubriand tomou das mãos de um deles a bandeja, dobrou o guardanapo sobre o braço esquerdo e saiu servindo os convidados que se encontravam à sua volta. Uma taça para a madrinha, uma para o ministro, uma para cada um dos doadores presentes. Aproximou-se do grupo de oficiais da Aeronáutica, todos fardados, e com uma mesura ofereceu-lhes uma taça. Um deles, alto e louro, tomou uma taça nas mãos e perguntou-lhe delicadamente:

-   O senhor sabe quem sou eu?
Ele respondeu com um sorriso:
-   Não, não sei. Quem é o senhor?
O jovem oficial respondeu de cara fechada:
-   Eu sou o tenente Paulo Bockel, seu filho da puta! Sou irmão do Clito Bockel!

Nem acabou de falar e, num gesto instantâneo que sem dúvida ensaiara, com mão esquerda jogou a taça de champanhe nos olhos do jornalista e com a direita aplicou-lhe violento murro no olho esquerdo. Apesar de sua resistência de remador, Chateaubriand percebeu instintivamente que o homem que o agredia era pelo menos vinte centímetros maior que ele. Largou a bandeja com garrafa e taças no ar, enfiou a mão na cintura e tirou o revólver, que já saiu do coldre disparando. Com um olho obscurecido pelo sangue que jorrava de sua sobrancelha e o outro ardendo e semifechado pelo champanhe, viu que duas balas tinham atravessado a batina do padre. Desabou no chão atirando mais uma, duas, três vezes. Ao ver um vulto avançar sobre seu corpo ainda caído, mirou na cabeça. Chateaubriand disparou e viu a bala entrar na boca do agressor. Os guarda-costas de Salgado Filho carregaram o jornalista para o banco de trás do carro do ministro e arrancaram em disparada. A festa de batismo do Augusto Severo estava terminada.

Ainda não eram onze horas da manhã quando o jornalista francês Jacques Epstein entrou esbaforido pela redação dos Associados e escancarou aos gritos a porta da sala de Dario de Almeida Magalhães:
-   Chateaubriand a tué Olimpio Guilherme! Chateaubriand a tué Olimpio Guilherme!

Naquele mesmo instante Chateaubriand estava chegando ao consultório de Drault Ernanny, amparado pelos seguranças do ministro Salgado Filho, assustado e com o rosto coberto de sangue:
-   Doutor Drault, parece que eu matei Olímpio Guilherme e que arranquei o saco de um padre com dois tiros! O padre eu nem conheço, doutor Drault, mas eu achei que estava atirando no filho da puta do irmão do Bockel e fui acertar logo na cara de Olímpio Guilherme, o homem mais bonito do Brasil?

A célebre pontaria ruim de Chateaubriand não fizera tanto estrago assim. Quando Epstein chegou ao jornal com a notícia de que Chateaubriand havia assassinado Olímpio Guilherme, Dario de Almeida Magalhães procurou se informar sobre a tragédia. Mas, ao chegar ao hospital em que o ator e jornalista tinha sido internado, soube que ele escapara por verdadeiro milagre. Chateaubriand disparara ao todo quatro tiros. O vulto que se aproximara dele não era o de Paulo Bockel, como imaginara na confusão, mas o de Olímpio Guilherme (também alto e forte como o agressor), que se abaixara para socorrê-lo. A bala de calibre 38, disparada quase à queima-roupa, arrancou-lhe os dentes e foi alojar-se na garganta, a poucos milímetros da medula. Ele já tinha sido operado e estava fora de perigo. As outras duas balas, que Chateaubriand temia que tivessem "arrancado o saco" do padre-piloto Geraldo da Silva e Souza, na verdade passaram entre as pernas do religioso, apenas perfurando sua batina. A quarta bala, localizada depois pelo inquérito feito pela Aeronáutica, perdera-se no ar e fora alojar-se na parede do fundo de um hangar. Como Olímpio Guilherme não sofreria nenhuma sequela mais grave, o único prejuízo maior provocado pelos tiros tinha sido a constrangedora revelação de que ‘os mais belos dentes do Brasil’ eram postiços, feitos em Hollywood.(...)” 

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