quarta-feira, 9 de julho de 2014

PROFUNDAMENTE - MANOEL BANDEIRA

Embora goste muito de poesia, devo confessar minha imensa ignorância sobre o assunto. Por exemplo, quase nada sei (mas é nada mesmo) sobre Manoel Bandeira. Apesar disso, a reverência hoje é para ele. E poema escolhido é “Profundamente”.

Foi só quando comecei a ler “Baú de Ossos”, de Pedro Nava, é que tomei conhecimento dessa poesia, que serve como preâmbulo, como mote para esse incrível livro. Como o assunto “memória” mexe muito comigo, bastou ler para virar fã eterno dos dois escritores. E se o Manoel Bandeira tivesse escrito apenas esse poema, já teria direito de entrar em qualquer antologia que se fizesse. Olha só que beleza:


Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
 Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

09/07/2014

2 comentários:

  1. Jotabê,
    Mas como não conhecia
    o fantástico Manuel Bandeira?
    Grande homem poeta que permeia
    minha historia:
    Esse eu levei pro Teatro, como
    Diretora Teatral

    Os Sapos
    Enfunando os papos,
    Saem da penumbra,
    Aos pulos, os sapos.
    A luz os deslumbra.
    Em ronco que aterra,

    Berra o sapo-boi:
    — “Meu pai foi à guerra!”
    — “Não foi!” — “Foi!” — “Não foil!?.

    O sapo-tanoeiro,
    Parnasiano aguado,
    Diz: — “Meu cancioneiro
    É bem martelado.

    Vede como primo
    Em comer os hiatos!
    Que arte! E nunca rimo
    Os termos cognatos.

    O meu verso é bom
    Frumento sem joio.
    Faço rimas com
    Consoantes de apoio.

    Vai por cinquenta anos
    Que lhes dei a norma:
    Reduzi sem danos
    A formas a forma.

    Clame a saparia
    Em críticas céticas:
    Não há mais poesia
    Mas há artes poéticas...”

    Urra o sapo-boi:
    — “Meu pai foi rei” — “Foi!”
    — “Não foi!” — “Foi” —*“Não foi!”.

    Brada em um assomo
    O sapo-tanoeiro:
    — “A grande arte é como
    Lavor de joalheiro.

    Ou bem de estatuário.
    Tudo quanto é belo,
    Tudo quanto é vário,
    Canta no martelo.”

    Outros, sapos-pipas
    (Um mal em si cabe),
    Falam pelas tripas:
    — “Sei!” — “Não sabe!” — “Sabel”.

    Longe dessa grita,
    Lá onde mais densa
    A noite infinita
    Verte a sombra imensa;

    Lá, fugido ao mundo,
    Sem glória, sem fé,
    No perau profundo
    E solitário, é

    Que soluças tu,
    Transido de frio,
    Sapo cururu
    Da beira do rio...

    1918

    E esse eu vivo no meu dia a dia:

    Vou-me embora pra Pasárgada [Manuel Bandeira]

    Vou-me embora pra Pasárgada
    Lá sou amigo do rei
    Lá tenho a mulher que eu quero
    Na cama que escolherei

    Vou-me embora pra Pasárgada
    Aqui eu não sou feliz
    Lá a existência é uma aventura
    De tal modo inconsequente
    Que Joana a Louca de Espanha
    Rainha e falsa demente
    Vem a ser contraparente
    Da nora que nunca tive

    E como farei ginástica
    Andarei de bicicleta
    Montarei em burro brabo
    Subirei no pau-de-sebo
    Tomarei banhos de mar!
    E quando estiver cansado
    Deito na beira do rio
    Mando chamar a mãe-d’água
    Pra me contar as histórias
    Que no tempo de eu menino
    Rosa vinha me contar
    Vou-me embora pra Pasárgada

    Em Pasárgada tem tudo
    É outra civilização
    Tem um processo seguro
    De impedir a concepção
    Tem telefone automático
    Tem alcaloide à vontade
    Tem prostitutas bonitas
    Para a gente namorar

    E quando eu estiver mais triste
    Mas triste de não ter jeito
    Quando de noite me der
    Vontade de me matar
    — Lá sou amigo do rei —
    Terei a mulher que eu quero
    Na cama que escolherei
    Vou-me embora pra Pasárgada.

    Libertinagem (1930)

    Bjins
    CatiahôAlc.

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    Respostas
    1. Uma coisa é conhecer ou saber da existência do autor, outra é já ter lido sua obra. Este poema foi originalmente publicado em 2014.

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