quinta-feira, 27 de abril de 2017

PORCO NA SALA

Já que meu santo nome foi citado em um post do poderoso Marretão, sinto-me impelido a responder. Como não sou tão bobo quanto demonstro ser, resolvi transformar a resposta em post também. Essa situação lembra remotamente a polêmica Noel Rosa versus Wilson Batista, que rendeu fantásticos sambas. A diferença é que Jotabê não compõe (só decompõe) nem é poeta, apenas poeteiro (ou punheteiro).

Mas, antes de continuar, preciso dizer que a resposta do Marreta apenas adiou a materialização de um pensamento pré-existente aos posts do Azarão, ideia que tem-me perseguido ultimamente.

Você fala em tomar uma cerveja comigo mesmo que seja “uma sem álcool”. Talvez seja mais viável você tomar um leite com Toddy e cachaça. Quanto ao vômito na roupa, todos já fizemos isso na juventude. Eu piorei essa experiência ao dormir em cima, totalmente de porre. 

O que eu quis dizer é que você vem vindo com ótimas imagens (como o excelente poema “Garça no Esgoto”). De repente, é como se desse um estalo em sua cabeça e você pensa que ainda não disse um palavrão nem fez uma referência explícita a algum tipo de prática sexual. E aí, do nada, você saca uns dois ou três e aplica nos versos finais. E fica estranho.

Com relação aos palavrões, você nunca me ouviu (nem ouvirá) conversando com pessoas mais simples. Eu falo tanto palavrão que até eu mesmo me assusto. A diferença é que eles são ditos sem nenhuma conotação sexual.

Tratando-se de poesia, o que eu curto são as imagens e sacadas geniais, é o lirismo contido em um poema, mesmo que seja a história de uma tragédia. O que me incomoda não é o porco no chiqueiro, mas na sala.

Para finalizar, lembro apenas que tive uma infância de criança pobre, frequentemente exposta à riqueza despreocupada de meus primos endinheirados. Uma criança que literalmente já rolou na lama de um buraco aberto em forma de troco de pirâmide, executado a título de “piscina” (enquanto isso, meus primos brincavam nas praias cariocas).

Talvez por isso a “periferia” não me atraia, pois eu sei como é. Como disse o filósofo Joãozinho Trinta, “Quem gosta de miséria é intelectual. Pobre gosta de luxo.” E eu não sou intelectual. Evidentemente, isso é apenas uma metáfora para dizer do meu desapreço ou falta de interesse pela "poesia sórdida".

terça-feira, 25 de abril de 2017

SELVA SELVAGGIA - MILLÔR FERNANDES

Estava eu posto em sossego, pensando no estilo horroroso que percebo existir nos textos que teimo em escrever. Essa percepção fica mais viva quando releio os posts do blog depois de algum tempo. Aí lembrei-me da frase "enfim um escritor sem estilo", criada pelo meu "maestro soberano" Millôr Fernandes.

O violonista Andrés Segovia teria dito uma vez que "o violão é o instrumento mais fácil de tocar mal e o mais difícil de tocar bem". Creio que essa definição pode ser aplicada ao ato de escrever e à língua portuguesa (ou a qualquer outra língua). Escrever sem erros e sem vícios de linguagem é tarefa impossível para mim. O que dizer então de escrever bem, com elegância?

Estava nessa viagem mental, uma viagem feita em estrada esburacada, sentado em carro de boi e tendo apenas a bunda por amortecedor, quando me lembrei de um texto genial do meu maestro (para mim, todos os textos do Millôr são geniais), publicado no Pasquim na década de setenta, onde ele detonou o estilo do Roberto Campos - a quem às vezes chamava de "Bob Fields".

Por preguiça, fui procurar na internet e encontrei dois blogs que reproduzem esse texto. E o que li em um deles me deixou estarrecido, ou melhor, puto da vida. Mesmo atribuindo a autoria ao Millôr, o idiota que o publicou adulterou o texto, suprimindo as referências ao Roberto Campos, prova inequívoca da prostituição literária que rola na internet. Não citarei o nome desse "desinfeliz", mas, só de sacanagem, transcrevo um de seus "pensamentos": "aqui jaz meus pensamentos e mudanças..." .

Como estava pensando em brincar com a ideia da existência de vícios de linguagem nas coisas que escrevo, entrei na internet para descobrir o significado de alguns de que me lembrava. Aí descobri alguns que nem conhecia e que sou mestre em cometer. Para piorar, segundo aprendi na internet, nesta pequena introdução podem ser identificados alguns vícios de linguagem (adoro os nomes!): solecismo, vulgarismo, plebeísmo, estrangeirismo, neologismo, arcaísmo, barbarismo, preciosismo e prolixidade.

Grosseiramente falando, são tantas as topadas na língua, é tanto pé na jaca da ignorância e ausência de qualidade que só faltou bicho de pé. Agora, posso até me apresentar dessa forma: "Como neologista e vulgarista juramentado, digo que..." Ou então, "muito prazer, sou solecista e barbarista". 

Por isso, para dar um mínimo de qualidade a esta goma, aí vai o texto original do Millôr, esse sim, um mestre (ou master) retirado por mim do livro “Millôr no Pasquim”. Olhaí.


SELVA SELVAGGIA*

(OU ATRAVESSANDO UM ARTIGO DO ROBERTO CAMPOS)

De repente um terror me sacode. Penetrei distraído e sinto que estou perdido na terrível floresta da linguagem do Roberto Campos. Ignorando a estrada sintática, ele me trouxe a zonas praticamente intransponíveis. Sem querer me entregar ao medo, vou tropeçando em anglicismos, datinismos, barbarismos e idiotismos de linguagem, quando ouço o silvar de vocábulos paragógicos. Caio no areal dos solecismos e sou mordido por vários anacolutos. A custo, afastando duas redundâncias e esmagando um horrendo pleonasmo, escorregando em sinistras hipérboles, agarro-me a um verbo auxiliar e a um complemento essencial. Porém, hibridismos me barram o caminho. Ensurdecido por rotacismos e lambdacismos, arranhado por orações anfibológicas, recuo para cair no terrível cipoal da regência robertiana, de onde raros escapam com vida. Galhos de corruptelas me cortam o rosto, enquanto sufoco com o cheiro dos defectivos. Ponho o pé num nome próprio que acho seguro, mas logo seis substantivos deverbais saltam sobre mim. Não tendo fuga, me protejo com uma próclise, evitando duas espantosas mesóclises e aproveito um advérbio de negação para atrair três pronomes relativos colocados em posições ameaçadoras. Estou esgotado; felizmente - coisa rara neste tremedal! - surge a clareira de um parágrafo.
Voltar não é mais possível. Avanço pois, abrindo parêntesis, onde enfio arcaísmos, anacronismos, expressões chuIas e ambivalentes. Uma silépse espera-me mais à frente. Desvio-me com uma vírgula, engano uma prosopopeia, sou envolvido por diversos parequemas a que logo se juntam odiosas ressonâncias verbais. Descanso sobre reticências quando ouço o tantã de interjeições pejorativas emitidas por sujeitos ocultos por elipse. Apócopes! Escapo pela picada do eufemismo e paro para respirar no fim de um período simples. Avanço pela pedreira dos metaplasmos, luto com apofonias, salto o pantanal dos cacófatos, esbarro em cacoqrafias, empurro cacologias, me arrasto pela cacoépia. Estou sufocado de exaustão diante de uma centena de substantivos promíscuos, já desespero, quando percebo o ponto final.
Estou salvo - Roberto Campos acaba sempre num lugar-comum.

* O Pasquim N' 38



sexta-feira, 21 de abril de 2017

RECRUTA VALDEMAR

Outro dia eu li na internet que o "Princípio da Gravitação Universal e a Teoria da Relatividade podem ser frutos do intelecto de dois autistas. Dois grandes gênios da ciência, diga-se de passagem, Albert Einstein e Isaac Newton, possivelmente sofriam da síndrome de Asperger (SA), uma forma amena de autismo, segundo notícia divulgada pela Reuters esta semana e publicada no Journal of the Royal Society of Medicine, da Inglaterra.

O distúrbio foi descoberto pelo médico austríaco Hans Asperger em 1944, e ocorre em função de um problema de desenvolvimento cerebral que causa deficiências nas faculdades sociais e de comunicação, assim como obsessão. Entretanto a SA não afeta o aprendizado, nem o intelecto. Muitos portadores dessa síndrome possuem talentos ou habilidades extraordinárias.

Os pesquisadores da Universidade de Cambridge e da Universidade de Oxford, estudaram as personalidades e a biografia de Einstein e Newton. Isaac Newton é nitidamente um caso clássico da síndrome de Asperger. Não falava e esquecia de comer, tamanho seu envolvimento com o trabalho. Começou a desvendar a lei da gravidade aos 23 anos, era um sujeito distante, de poucas palavras, e freqüentemente tinha acessos de mau humor. Desde a infância, quando se apaixonava por um tema, ele o fazia com tanta intensidade que se impunha longos períodos de solidão para estudá-lo. Outros traços da síndrome de Asperger, o desleixo com a aparência e a mania de reescrever até vinte vezes os seus estudos, sem fazer quase nenhuma alteração de uma cópia para outra".

Essas informações fizeram com que me lembrasse de outra característica do Newton, que li em algum lugar. Sir Isaac Newton, uma das maiores e mais brilhantes mentes que a humanidade já produziu, era quase um crápula. Era rancoroso, inseguro e vingativo. Devido ao ódio que devotava ao cientista que o antecedeu, mandou queimar seu único retrato conhecido ao assumir a presidência da Royal Society de Londres. Há outros casos de gente brilhante, genial em suas profissões, mas com comportamento totalmente reprovável. O pintor Caravaggio, por exemplo, era quase um marginal, apesar de gênio da pintura.


Quem leu até aqui e está se perguntando o que eu estou tentando dizer, pode relaxar, pois o motivo começa agora a ser revelado. Mas antes, preciso dizer que este é um texto bobo, mais bobo que os normalmente publicados aqui no Blogson. Serve apenas para registrar alguns pensamentos e ideias que vêm me atormentando há vários meses. E a causa disso são opiniões - às vezes inflamadas - emitidas por artistas, "intelectuais" e políticos em entrevistas, bate-bocas e todo tipo de meios adequados à depreciação e ao patrulhamento de quem não pensa igual a eles. Então, se eu disser apenas platitudes e reflexões acacianas é porque eu sou assim mesmo, um sujeito de pouco conteúdo. Bora lá.


Eu tinha quase quatorze anos quando o golpe ou revolução de 1964 aconteceu. Sendo de uma família anticomunista, nessa época eu já tinha pavor do comunismo, mesmo que não entendesse o que isso significava. Só sabia que era ruim. Afinal, como cantou o Paulinho da Viola, "tinha eu quatorze anos de idade". Mesmo assim, meu pai enfatizou várias vezes para não falar nada com estranhos, pois nunca se sabia se eram informantes do DOPS ou não. O "nada" seria qualquer coisa contra ou a favor dos militares.

Fui crescendo com aquele pavor de poder ser afetado por algum mal entendido, ao ponto de me tornar totalmente alheio à política, fosse ela de qualquer matiz ou direção. Meu negócio era rock, minha praia era a música, cinema, livros, a "cultura" e a contracultura, os quadrinhos exclusivos e desconhecidos da maioria. Eu queria ser intelectual.

Por volta dos meus dezessete, dezoito anos, um cantor começou a fazer um sucesso fantástico, fenomenal. Era o Wilson Simonal. Tudo (ou quase tudo) o que ele gravava logo caia na boca do povo, pois ele punha tanto suingue e balanço na interpretação, que transformava qualquer merda em hit, em sucesso. Até "meu limão, meu limoeiro, meu pé de jacarandá".

Lembro-me de uma música que tem algo a ver com este post. O título é "Recruta Valdemar" e tem estes versos:

Valdemar é um recruta biruta
que não sabe nem marchar
e qualquer voz de comando
"Esquerda!", "Direita!"
tonteia o Valdemar

Eu era como o recruta Valdemar, pois ficava tonto com esse papo de direita e esquerda. Por isso, não entendi na época o que aconteceu com o Simona. Só muito depois é que fui saber o motivo de sua carreira artística ter literalmente acabado. Alguém divulgou (aparentemente sem apuração) que o Simonal teria usado agentes do Dops para dar um pau em um funcionário que teria lhe dado cano. E a notícia se espalhou (ou viralizou, como se diz hoje). Se isso é verdade ou não, pouco importa. Ele devia conhecer todo mundo, pessoas de todas as convicções políticas, mas o fato de (supostamente) usar "o regime" por interesse pessoal foi demais para a "intelligentsia" nacional, que o viu como colaborador do regime militar, um dedo-duro, portanto. A mídia em peso gelou o sujeito, não falou mais nada sobre ele a não ser para descer o cacete. O cartunista Henfil criou um personagem que era a cara dele, com uma faixa amarrada na testa, tal como fazia o cantor. O detalhe era um dedo indicador anormalmente longo, o "dedo duro". E o Simonal sumiu.

Pensando nessas coisas e na reação apaixonada que o tema Direita versus Esquerda provoca nas pessoas, fiquei tentado a expor um pensamento que me incomoda muito e que é o tema real do post de hoje: 

Ninguém é um crápula apenas por ser de direita! Da mesma forma, ninguém é um canalha apenas por alinhar-se com o pensamento de esquerda. 

São as convicções e crenças pessoais que fazem uma pessoa ser de direita ou de esquerda (óbvio, não é?). Para mim, quem é de direita é mais centrado em si mesmo, mais adepto do mérito pessoal, das conquistas individuais, mais egocêntrico, mais individualista. Já os de esquerda seriam mais idealistas, sonhadores, estariam mais focados em uma sociedade mais justa (o que quer que isso signifique), nos mais desfavorecidos, na eliminação do desnível sócio-econômico, etc. Conheço um jovem super idealista assim, que é amigo de meus filhos. É um advogado que só atende e defende movimentos populares de ocupação de terrenos.

Obviamente, nem Direita nem Esquerda são demonstrações da "ignorância política" de quem é simpatizante com essas ou aquelas ideias. Também não são sinônimos de Corrupção. Corrupção combina com falta de caráter, falta de ética, falta de moral. Na prática, isso se materializa em "obras públicas". Volto a dizer, quem se alinha com o pensamento de esquerda ou de direita só o faz por identificação pessoal com essas ideologias, não por burrice ou falta de caráter.

Não conheço pessoalmente nenhum patife que seja de esquerda ou de direita. Todas os meus conhecidos de quem descobri as simpatias pessoais e identificação com essa ou aquela ideologia (graças ao que postam ou comentam no Facebook!) são, no geral, pessoas de ótimo caráter, encantadoras, muitos deles com cultura bem acima da média. No entanto, ao defender o Bolsonaro e crucificar o Lula (ou o contrário disso) comportam-se como se estivessem sido mordidos por cachorros hidrófobos.

Por isso, enfureço-me com comentários depreciativos que parte expressiva da "Intelligentsia" brasileira faz aos que não comungam de seu credo político. Como o comentário que vi o deputado cuspidor Jeep Willis fazer sobre um jovem extremamente bem articulado e com raciocínio consistente, cujos únicos "defeitos" seriam a juventude e o fato de ser de direita. Pois bem, Sua Excelência - um modelo de controle emocional -, entre outras críticas, acusou o jovem de "ignorância política". Por dedução, pode-se dizer que o deputado se acha o mestre dos mestres, o senhor dos anéis (ou do anel).

Há também as manifestações inflamadas e pródigas em perdigotos do ator José de Abreu. Ou os discursos do senador Lindberg Farias contra qualquer medida que possa ser benéfica ao país. Pelo menos no Brasil, quem é de esquerda é pródigo em manifestar desprezo por quem não pensa na mesma linha. E se o bacana tem alguma influência ou é ator, escritor, músico com alguma fama, aí é que a coisa piora. Para essa moçada a coisa mais fácil é chamar alguém de fascista (ou "fachista", como se a língua daqui fosse o italiano. Para mim, fachista ou faxista é o sujeito que fabrica aquelas faixas que são amarradas nos postes, logo removidas pela prefeitura). 

Estou de saco cheio desse preconceito! Aliás, se tem alguma coisa que me tira do sério, que me enfurece até o nível máximo é perceber ou sentir que alguém está sendo menosprezado, humilhado ou desprezado. Depois de perceber que sou de centro-direita (eu me achava apenas de centro), sinto-me também ofendido e emputecido com a forma como gente de esquerda trata ou se refere a quem é de direita. Grosseiramente falando, o sujeito de direita seria o leproso bíblico dos tempos atuais, um pária, alguém que deve ser mantido à distância.

Já faz algum tempo que descobri um texto de um político inglês, que reclama e explica de forma muito mais elegante o que estou tentando dizer. Segundo a Wikipédia, Daniel Hannan (esse é o nome) é jornalista e "membro do Parlamento Europeu representando o distrito eleitoral do sudeste da Inglaterra pelo Partido Conservador". Nesse artigo ele diz o seguinte:

(...) "a maioria das pessoas de Esquerda é sincera nos seus compromissos assumidos com os direitos humanos, a dignidade da pessoa humana e o pluralismo. Minha animosidade com muitos (não todos) esquerdistas é algo mais simples. (...) ao assumirem uma superioridade moral, tornam o diálogo político praticamente impossível. Usar a alcunha “Direita” querendo que isso signifique “algo desagradável” é um pequeno mas importante exemplo".

No original:
(...) "most people on the Left are sincere in their stated commitment to human rights, personal dignity and pluralism. My beef with many (not all) Leftists is a simpler one. (...) by assuming a moral superiority, they make political dialogue almost impossible. Using the soubriquet “Right-wing” to mean “something undesirable” is a small but important example".

No mesmo artigo, esse deputado critica a visão de alguns esquerdistas  de que Direita é sinônimo de "vilania" (synonym for “baddie”). Usando uma expressão do Gilberto Gil, o que tem de gente que se "arvora a ser Deus" não está no gibi. E é aí que mora minha implicância e esta é a mensagem que encerra este post aguado:

O simples fato de alguém ser o fodástico em sua profissão ou atividade principal, não implica na obtenção automática de um passaporte de santo ou de dono da verdade eterna. E é isso que a moçada de Esquerda tenta sacramentar.



quarta-feira, 19 de abril de 2017

APENAS

Se quiser me conhecer
Se desejar me entender
Se precisar saber como sou
Se quiser mesmo me conhecer

Escarneça das tolas anedotas que invento
Descarte tudo o que já ouviu
Delete tudo o que escrevi

Esqueça as banalidades que digo
Descreia nas minhas histórias
Despreze minha futilidade

Apenas ouça quando silencio
Apenas escute meu silêncio
Apenas escute 
Apenas

terça-feira, 18 de abril de 2017

PUTA ELOGIO

Meu querido amigo e colega Luis Felipe era conhecido por todos os engenheiros da empresa pelo apelido “Pintão”. Um desavisado poderia achar que ele era uma versão menor (bem menor) do Negão da Piroca, mas a alcunha servia apenas para diferenciá-lo do filho, conhecido por “Pintinho”.

O Pintão era um grande causeur, um contador de histórias divertidíssimas e, provavelmente, muito aumentadas por ele. Quando seus filhos ainda eram bem crianças, resolveu contar a eles uma história de caçada de onça, guardada em sua memória, justamente pelo comentário entusiasmado de um dos meninos.

- Eu estava na floresta caçando, quando apareceu na minha frente uma onça. Eu peguei a espingarda, mirei e... "pá"!
- Matou ela!
- Não, a espingarda falhou. Ela veio para cima de mim. Peguei então um pedaço de pau e bati na cabeça dela!... mas o pau quebrou.

Segundo ele, o filho mais novo foi ficando inquieto com aquela situação, mas o pai continuou, veemente.

- Aí eu peguei minha faca e enfiei nela!
- Ela morreu?
- Não... a faca entortou!
- E o que você fez???

Nesse momento da história, com o filho preocupadíssimo e de olhos arregalados, o Pintão comentou conosco que não sabia mais o que inventar. Só não podia reproduzir a piada, dizendo que a onça o teria comido. E saiu o fecho “empolgante”:

- Quando ela pulou em mim, eu a agarrei pelo pescoço e nós rolamos pelo chão, mas dei uma gravata com tanta força que ela acabou morrendo sem ar. Então eu peguei a onça pelo rabo, rodei, rodei e joguei ela lá longe!

A reação empolgadíssima do filho pequeno foi hilária:

- EITA PAI FEDAPUTA!!!!!

Nesse ponto, meu amigo encerrou a historinha com um comentário bem a seu estilo. Rindo, disse:

- Acho que foi o maior elogio que recebi na minha vida!


Essa história já foi contada aqui no Blogson no início de 2016, mas, além da falta de vergonha na cara de requentar posts antigos, o caso serve para mostrar que palavrões, linguagem obscena ou expressões vulgares podem ser - e muitas vezes realmente são - elogios ou manifestações de carinho, afeto ou amizade.

Em nossa casa a linguagem chula é de uso corrente desde sempre, pois nunca proibi nossos filhos de dizer palavrões (coisa que fazem com extrema desenvoltura). Talvez por isso, as palavras cascudas sejam usadas apenas pela sua força expressiva, sem nenhuma (ou quase nenhuma) conotação sexual. Resumindo, o que me incomoda ou constrange não são as palavras vulgares, mas o contexto em que podem ser ditas.

Por exemplo, “Eita porra”, seguido de um “ficou muito bom” é indiscutivelmente um elogio, um puto de um elogio. Ou, se quiserem, um puta elogio - mesmo que imerecido. Uma frase dessas demonstra que a pessoa que a formulou é uma flor de delicadeza, mesmo que seja uma flor cheia de espinhos e cascuda.

terça-feira, 11 de abril de 2017

NÃO SEI

O texto a seguir é remotamente inspirado no poema "Realidade Virtual", de autoria de "J". Melhor dizendo, é apenas uma deformação grosseira do tema. Não sei o que quer dizer, não tem sentido para mim, não sei que título dar a isso. Apenas surgiu assim.

Este texto tem muito de mim
Incomodamente, muito de mim
Incômoda mente.

Tenho me sentido cada vez mais real
Mais consistente
Com menos aspiração.

Talvez por isso esteja mais silencioso
Mais impaciente
Invisível.

Este texto tem pouco de mim
Virtualmente pouco de mim
Virtual mente.

Tenho me sentido cada vez menos real
Menos consistente
Com menos inspiração.

Talvez por isso esteja mais silencioso
Mais impaciente
Irascível. 


segunda-feira, 10 de abril de 2017

INIMIGOS ÍNTIMOS

Embora se digam frequentadores assíduos do Mercado Central, há mais de um ano que os dois ex-colegas não se encontram. Mesmo que pouco se vejam depois que um deles se aposentou, continuam com a intimidade descontraída adquirida nos anos em que dividiram uma sala.

- Olha o cara aí, meu! Me disseram que você tinha morrido!
- “Praga de urubu magro não mata cavalo gordo”.
- Aliás, magro é o que você não está mesmo. Está fazendo regime de engorda? Olha essa barriga!
- É, eu estou com mais barriga e com “menas” bunda!
- Essa é muito velha!
- É bem velha mesmo, mas mais nova que você. Você está muito mal-acabado, cada vez mais careca.
- Não esquento não, pois calvície é uma coisa que não vai pra frente. Só pra trás.
- Puta que pariu! Você me achou só pra gente ficar contando piada vencida?
- Tem razão. Senta aí e toma uma comigo! Garçom, traz...
- Não vai rolar, fiquei de pegar minha mulher no salão dentro de... de meia hora.
- Dá tempo! Traz aí uma bem gelada, dois copos e uma porção de jiló frito.
- Jiló frito é o que há para acompanhar uma cerveja gelada, mas não posso mesmo ficar.
- Mas pelo menos me conta o que está fazendo! Ouvi dizer que você estava trabalhando na construtora do seu cunhado.
- Ah, é! Uns seis meses depois de me aposentar eu já estava de saco cheio de ficar à toa. Aí meu cunhado perguntou se eu não queria ajudá-lo a organizar o setor de elaboração de propostas lá da “gatinha”.
- Que negócio é esse de gatinha?
- Ah! É o apelido dado às construtoras pequenas. Alguns chamam de “pimil” – “picaretagens mil”.
- Esse é o ninho das “gatonas” do Petrolão, né? Já nascem querendo foder tudo!
- Não é bem assim, mas não estou com tempo para entrar nessa.
- Deixa de ser viado, porra! Sua mulher espera um pouquinho. E está dando certo?
- Já saí de lá faz tempo. Não estou mais na idade de suportar gente chata e fingir que está tudo bem.
- Teve problemas com seu cunhado?
- Não, com ele não! Ele é gente boa! Foi um lance que aconteceu com outra pessoa, um verdadeiro déjà vu, mas tenho de ir agora.
- Porra, meu, você me deixa curioso e vai saindo assim?
- Pois é, a gente se vê depois.

Enquanto vê o ex-colega se afastar, dá um gole na cerveja e fica remoendo lembranças.
- Não sei porque eu fico tentando conviver com esse bosta. Nunca fui muito com a cara dele, sempre certinho, sempre com a razão, sempre educadinho. Viado! Quem ele pensa que é? Sempre com aquele sorrisinho de sabichão na boca. Sabichão porra nenhuma! Sabichona, isso sim! (Em voz alta): - Garçom, mais uma, por favor!

O aposentado entra no carro, acomoda as compras e exclama:
- Que cara mala, meu! Não mudou nada! Sempre bisbilhotando tudo, querendo saber de tudo, intrometendo-se em tudo. Nem sei quantos sapos eu tive de engolir por causa daquele escrotão. Tomar no cu! Da próxima vez que passar perto dele vou fingir que não o vi. Babaca!

quarta-feira, 5 de abril de 2017

COMENTANDO AS RECENTES - 036 (AVISO DE CONTEÚDO)

Provando sua condição de blockbuster dos blogs (ou blogbuster), a página do meu amigo virtual Marreta ganhou o status de “Conteúdo Adulto”, provavelmente por conta de alguns seios, bundas e genitálias femininas (ele é hetero) que gosta de postar. Certamente esse “certificado de qualidade” que recebeu deve ter sido concedido graças às patrulhas politicamente corretas ou outro tipo qualquer de moralistas.

Acho essa coisa meio bizarra, porque ninguém precisa ver ou ler o conteúdo do blog. Se ele cometesse agressões contra a língua portuguesa eu até entenderia, mas não, pois ele escreve bem pra kawaka. O grilo, a bronca deve ser por mostrar alguém “pagando peitinho” (ou outras regiões geográficas) ou fazendo algum tipo de “contorcionismo”.

Já reproduzi aqui no Blogson a frase mais sensata dita por uma pessoa normalmente insensata, que é essa: “não converso sobre sexo, eu faço”. Eu também sou dessa linha, mas fico na minha quando vejo no Marreta alguma coisa que eu não postaria. Denunciar um blog por isso é coisa de gente infeliz, mal resolvida. Muito pior é o que vem acontecendo no Planalto Central do país (como cantou o Caetano uma vez).

Para salvar a própria pele (muitos usam pele de cordeiro), alguns dos políticos brasileiros têm feito mais piruetas que o pessoal do Cirque Du Soleil, mais ginástica que o Diego Hypólito. E é tanta pornografia, são tantas as sacanagens que Suas Excelências estão inventando e querendo aprovar, que eu acho que poderia ser confeccionada uma placa ou estabelecida uma regra para impedir que menores de idade tenham acesso indiscriminado ao conteúdo dos assuntos ali tratados à luz do dia. Olhaí.


terça-feira, 4 de abril de 2017

SOMBRAS ALONGADAS

Este é um post no melhor estilo frankenstein, pois tem pedaços (ou trechos) de várias origens (quatro, para ser exato). Mesmo que possa parecer picaretagem, não é. Pelo menos, não em sua essência ou motivação básica. A questão é a seguinte: o post anterior a este, falava de “silhuetas comportamentais”. Um dos meus dois leitores (creio que o 0,3 abandonou o barco), na verdade uma leitora atenta e sempre bem vinda, estranhou não haver nenhuma imagem para ilustrar o textículo postado e comentou que lhe veio à cabeça a foto "Camelos no Deserto", clicada por George Steinmetz.

Sinceramente, nunca tinha ouvido falar nem do autor nem de sua obra, mas comentei que imaginara mesmo colocar uma imagem, mas não encontrei nenhuma que me agradasse. Disse ainda que pensava em fazer um desenho que ilustrasse minha reflexãozinha, mas que a "urgência", a ânsia de compartilhar minha viagem pessoal falou mais alto e saiu sem o desenho. Mas que ainda o faria.

Bom, se o inferno existe, deve mesmo estar cheio de boas intenções. Se não existir, troque a palavra por “inverno” que dá quase a mesma coisa. O que sei é que é dificílimo para mim a materialização de forma decente da imagem que pensei. Parti para a colagem de fotos, mas ficou um lixo. Aí me lembrei dos tais camelos e fui atrás. Descobri uma imagem deslumbrante, que se pudesse ser espelhada, diria tudo o que pensei. Mas descobri mais uma imagem linda, também ela com o conceito “espelhado”.

Foi aí que me ocorreu a ideia, complementar (em certos aspectos) ao post anterior, de que as pessoas normalmente tentam exibir em público silhuetas e sombras mais alongadas, como se essa projeção de suas qualidades e méritos tivesse a mesma dimensão do que realmente têm.

Depois dessa goma, só mesmo exibindo os “camelos” (dromedários, na verdade) e a outra imagem lindíssima e super poética.

E só mais um esclarecimento: segundo li, a foto do deserto teria sido tirada ao pôr do sol, exatamente na vertical. “O preto são as sombras. Os camelos são as pequenas linhas brancas” que aparecem unidas às patas dos animais. Obrigado pela dica, “J”.





segunda-feira, 3 de abril de 2017

SILHUETAS

Criança ainda, eu gostava de ver as sombras alongadas que o sol do início da manhã projetava nos muros e paredes das ruas por onde andava em direção à escola. Hoje ainda gosto de ver as silhuetas movendo-se enquanto as pessoas caminham. Mas sei que nas ruas do convívio social e familiar são apenas nossas silhuetas que se interagem, enquanto nas paredes e muros que trazemos dentro de nós ficam projetadas nossas verdadeiras, tridimensionais e desconhecidas imagens.

domingo, 2 de abril de 2017

COMENTANDO AS PENÚLTIMAS - 027 (BATE-BOCA)

Achei bacana assistir ao vídeo do bate-boca entre os deputados Arlindo Chinaglia (PT-SP) e Arthur Maia (SD-BA) durante audiência ocorrida na comissão especial da reforma da Previdência no dia 31 de março de 2017. Suas Excelências chegaram até a trocar insultos durante a reunião. Chinaglia chamou Maia, relator da proposta na Casa, de "empresário caloteiro". Maia rebateu e disse que Chinaglia era um "vagabundo". "Vagabundo é você", retrucou o petista. 

Pura finesse, total elegância. Serenados os ânimos entre os “homens e mulheres de boa vontade” presentes à reunião, ficou claro para mim que além de ter foro privilegiado, alguns deputados e senadores são também chegados a um desaforo privilegiado.

NÃO DISCUTO - PAULO LEMINSKI

A poesia, essa coisa tão inútil e tão fundamental, tem cutucado minha mente nos últimos dias. Por conta disso, descobri os versos de Paulo Leminski, que, à exceção do nome entreouvido em algum lugar, era apenas um ilustre desconhecido para mim, ignorantão que sou. Gostei demais e escolhi três poesias para enriquecer o velho Blogson. Curiosamente, uma delas é uma colagem de definições e impressões de poetas sobre o que é poesia. Vê aí.

RAZÃO DE SER
Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?


POESIA:
“words set to music” (Dante
via Pound), “uma viagem ao
desconhecido” (Maiakóvski), “cernes
e medulas” (Ezra Pound), “a fala do
infalável” (Goethe), “linguagem
voltada para a sua própria
materialidade” (Jakobson),
“permanente hesitação entre som e
sentido” (Paul Valery), “fundação do
ser mediante a palavra” (Heidegger),
“a religião original da humanidade”
(Novalis), “as melhores palavras na
melhor ordem” (Coleridge), “emoção
relembrada na tranquilidade”
(Wordsworth), “ciência e paixão”
(Alfred de Vigny), “se faz com
palavras, não com ideias” (Mallarmé),
“música que se faz com ideias”
(Ricardo Reis/Fernando Pessoa), “um
fingimento deveras” (Fernando
Pessoa), “criticismo of life” (Mathew
Arnold), “palavra-coisa” (Sartre),
“linguagem em estado de pureza
selvagem” (Octavio Paz), “poetry is to
inspire” (Bob Dylan), “design de
linguagem” (Décio Pignatari), “lo
impossible hecho possible” (Garcia
Lorca), “aquilo que se perde na
tradução (Robert Frost), “a liberdade
da minha linguagem” (Paulo Leminski)


NÃO DISCUTO
não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino

sábado, 1 de abril de 2017

VOCÊ RI(M)A COMO EU RI(M)O?

Depois de ler um comentário (super bem vindo) aqui no Blogson, fiquei divagando sobre essa coisa estranha que é a Poesia. Mesmo que não esteja certo (pois sou apenas alguém da área de Exatas), ocorreu-me a ideia de que Poesia é paixão, explosão, emoção,  concisão, enquanto a Prosa seria razão, reflexão, contenção, extensão.

Em outras palavras, a Prosa seria como o calorzinho bom que se sente ao vestir um agasalho em dias mais frios. Em contraponto, a Poesia teria o brilho das labaredas  e o calor intenso das chamas que emana de uma fogueira quando se está próximo de uma.

Meu pai gostava muito de poesia, mesmo que falasse pouco sobre isso. Tendo nascido em 1911, e ainda por cima no interior de Minas, nada mais natural que apreciasse os poemas no estilo clássico, com métrica e rima. Eu até entendo essa predileção. Aqui mesmo no Blogson, em um post “reverência” ao Vinicius de Moraes de janeiro de 2015, fiz o seguinte comentário (já disse e repito que não tenho nenhum pudor em fazer citações de mim mesmo):

Gosto muito de poesia e reverencio aqueles que conseguem transmitir emoção de forma concisa, minimalista. Os sonetistas então, esses são a nata, por conseguirem domar o esqueleto rígido do soneto. Em outras palavras, eu os vejo com o mesmo respeito que devoto aos neurocirurgiões. A coisa é mais ou menos como uma cirurgia feita no cérebro: o que falta em espaço sobra em restrições e cuidados a tomar. Ou seja, ambos conseguem o suprassumo da precisão e eficiência, tudo realizado em espaço muito reduzido.

Como sou mais moderno (só um pouquinho) que meu pai, aprecio e traço qualquer tipo de poesia, com ou sem rima. Só tenho resistência à poesia que me parece gratuitamente pornográfica. Mesmo assim, fico na minha. Curiosamente, uma das exceções que faço ao estilo “poesia de zona” são os poemas satíricos do Gregório “Boca do Inferno” de Matos e ao “Elixir do Pajé” e “A origem do mênstruo”, dois poemas cheios de métrica, rima e sacanagem do Bernardo Guimarães (só conheço esses dois).

Com essas ideias na cabeça, resolvi perguntar na internet o que é poesia, afinal. E achei muitas definições e frases geniais de gente que entende ou entendia disso, rimando ou não. Olha que bacana:

Aprendi com meu filho de dez anos que a poesia é a descoberta das coisas que eu nunca vi. (Oswald de Andrade)

Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz.  (Mário Quintana)

O material do poeta é a vida. Por isso me parece que a poesia é a mais humilde das artes. (Vinícius de Moraes)

Amor é prosa, sexo é poesia (Rita Lee)

Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. (Mario Quintana)

 O material do poeta é a vida, e só a vida, com tudo o que ela tem de sórdido e sublime. Seu instrumento é a palavra. Sua função é a de ser expressão verbal rítmica ao mundo informe de sensações, sentimentos e pressentimentos dos outros com relação a tudo o que existe ou é passível de existência no mundo mágico da imaginação. Seu único dever é fazê-lo da maneira mais bela, simples e comunicativa possível, do contrário ele não será nunca um bom poeta, mas um mero lucubrador de versos (...). (Vinicius de Moraes)

Tem que existir tanta poesia no receptor quanto no emissor. Você precisa ser tão poeta para entender um poema quanto para fazê-lo. Só poetas são capazes de entender poesia. (Paulo Leminski)

Poesia não nasce pela vontade da gente, ela nasce do espanto, alguma coisa da vida que eu vejo e que não sabia. (Ferreira Gullar)

Eu acho que a poesia é um inutensílio. A única razão de ser da poesia é que ela faz parte daquelas coisas inúteis da vida que não precisam de justificativa porque elas são a própria razão de ser da vida. Querer que a poesia tenha um porquê, querer que a poesia esteja a serviço de alguma coisa é a mesma coisa que querer que um gol do Zico tenha uma razão de ser além da alegria da multidão. É a mesma coisa que querer, por exemplo, que o orgasmo tenha um porquê. É a mesma coisa que querer que a alegria da amizade e do afeto tenha um porquê. Eu acho que a poesia faz parte daquelas coisas que não precisam ter um porquê. Para que porquê? (Paulo Leminski)

quinta-feira, 30 de março de 2017

TINHA UMA PEDRA, CAMÕES

Já falei da família de meu pai aqui nesta bagaça, mas talvez por esquecimento ou desinteresse, deixei passar dois pequenos detalhes que iluminam um pouco mais essas pessoas queridas.

Nos quatro posts que dediquei a essa família que viveu em um século só deles, mencionei o contraste – e essa é apenas minha opinião – entre a modernidade de sua educação formal, ainda no início do século XX, todos formados em faculdade, com seu comportamento arredio, tímido e introvertido de matutos nascidos no interior de Minas Gerais entre o final do século XIX e início do século XX. Daí a ideia de terem vivido no século 19,4 ou 20,3, por exemplo.

Pois bem, apesar da cultura humanista a que tiveram acesso, eram profundamente formalistas e conservadores quando se tratava de pintura e poesia. Minha tia Sinhá era uma pintora acadêmica bastante boa, qualidade que deixou de explorar quando os negócios da família foram para o brejo. Mas recusava-se a aceitar como arte a pintura moderna de Portinari, Picasso e todos que viraram pelo avesso o estilo com que se identificava. Lembro-me de tê-la ouvido contar a reação de espanto e consternação que algum intelectual que conhecia esboçou ao ouvi-la comentar de forma depreciativa (-"Deveras, Sinha?) os painéis de Portinari que estão na igrejinha da Pampulha, em BH.

Já com meu pai o problema eram as poesias modernas. Para ele, poesia tinha de ter métrica e rima. Sem isso, era prosa ou bobagem modernosa. Creio que tinha especial antipatia pelo poema “No Meio do Caminho”, de Carlos Drummond de Andrade.  Aquele negócio de “Nunca me esquecerei que no meio do caminho Tinha uma pedra Tinha uma pedra no meio do caminho” era demais para ele.

Lembrei-me desses casos remexendo em coisas guardadas há mais tempo. Uma delas é um livro de sonetos de Camões, que ganhei de uma ex-nora. Como o livro tinha servido apenas para que ela fizesse algum trabalho escolar, perguntou-me se eu o queria. E aí, pimba.

Lembrando-me das rimas e métricas dos sonetos, redondilhas, e alexandrinos “d’antanho”, tão ao gosto de meu pai e de seus irmãos, resolvi encerrar este post com um soneto que achei no tal livro. Certamente teriam apreciado, pois o sujeito entendia muito do assunto.


Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

terça-feira, 28 de março de 2017

LAURA - CHARLIE PARKER

Essa música é tão linda que não tenho nenhum pudor de repeti-la aqui no blog. Na primeira vez, o link trazia um vídeo com Carly Simon, em uma versão cantada. O post de hoje é uma versão instrumental, mistura perfeita de uma música linda e atemporal com um instrumento musical de som maravilhoso. E o intérprete é uma das lendas do jazz, estilo que eu não manjo. Por isso, prefiro só curtir a música e sua interpretação, verdadeiro "biscoito fino", como diria Oswald de Andrade. Olhaí.



MUITO SINGULAR

Uma das melhores coisas que existem é pegar um fato ou teoria científica e usar isso para transformar uma bobagem qualquer em pseudo-ciência (para ser sincero, há coisas beeem melhores de fazer que isso). É o caso, por exemplo, do “design inteligente”. Pois muito bem, resolvi criar uma teoria dessas também.

O Big Bang, pelo que entendi (na verdade não entendi picles nenhuma), é uma “singularidade espaço-tempo”. Em outras palavras, a coisa seria assim: “no início do Big Bang, toda a matéria, toda a energia e todo o espaço que hoje observamos estavam comprimidos em uma área de volume zero e densidade infinita que, para os cosmólogos, recebe a denominação de singularidade”.

Essa é a teoria científica, OK? Agora, a teoria pseudo-científica: para mim, por não conseguirem uma explicação razoável para o Big Bang (o que havia antes, o que o causou?), os cientistas deram a ele o nome de “singularidade”. Sendo assim, já que ninguém (exceto os evangélicos) sabe como surgiu a Vida, minha sugestão é que também seja considerada uma Singularidade o exato instante em que foi criada a primeira proto-ameba ou coisa parecida, que se possa chamar de ser vivo.

"SWEET DREAMS" - O ELEMENTO JOTA

Ora veja o amor que não senti quando devia,
amores que bateram à porta, sopraram pela janela
e que eu deixei sair.

É a dor que me faz indócil companhia,
assistindo ao meu lado o passeio de todo amor que
eu nunca soube viver.

E eu que sempre fui crente da minha ignobilidade
e cética de qualquer destreza
já não me assombro com os fantasmas dos amores que desperdicei,
são também personagens da minha diuturna fantasia.
Porém não meus.

Talvez porque descubra que amo aquela dama que para tudo me segue;
amo a dor que me consome,
sofro pelo amor que me destrói.

E no solitário conforto, onde ressona o meu eu mais profundo,
sei que os sonhos, estes sim,
são apenas meus.

segunda-feira, 27 de março de 2017

CONTANDO REBITES

Seis meses depois de se aposentar, ele já estava inquieto pela total inatividade em que vivia. Por isso, quando o cunhado fez o convite para que o ajudasse a organizar o setor comercial da pequena construtora que lutava para fazer crescer, aceitou de bom grado. Fez apenas uma exigência: poder fazer o próprio horário de trabalho - e isso incluiria poder chegar mais tarde, só para evitar o trânsito maluco da hora do rush. Resolveu também ir de metrô, só para não ficar estressado com os motoboys que ficam barbarizando entre os carros. Aceitas essas condições, logo estabeleceu-se uma rotina prazerosa de trabalho para ele. Pelo menos, até aquele dia...
  

Assim que o metrô abre as portas, o aposentado entra no segundo vagão, escolhe o lugar onde sempre gosta de sentar, tira os óculos do bolso, abre o livro na página onde havia parado e mergulha na leitura, indiferente às pessoas ao redor. Tem os cabelos quase totalmente grisalhos, está ligeiramente obeso e apresenta a “barriga de chope”’ que todos os amigos de mesma faixa etária possuem. Veste-se informalmente com calça jeans, camisa polo e sapatênis, que são suas roupas prediletas.

Mesmo que não tenha nada a esconder e ainda que nunca ande com muito dinheiro no bolso, naquele dia sente-se observado. É uma sensação que já teve em outras situações, em outros lugares e que nunca soube explicar como isso acontece. Mas o incômodo de sentir-se vigiado é real, o que o faz tirar os olhos da leitura e olhar à sua volta. E lá está o motivo, bem à sua frente.

Sentada em um banco oposto ao seu, encontra-se uma mulher de meia idade, gordota, cabelos descuidados e começando a embranquecer, e o olhar de quem não é exatamente um modelo de normalidade. Parece já tê-la visto antes, mas volta à leitura do livro, lembrando-se do conselho do filho mais velho: -“o segredo é evitar contato visual com bêbado e gente doida, pois esse pessoal é muito pegajoso”.

Esboça um sorriso enquanto se lembra de sua juventude. Na época da faculdade, quando esperava o ônibus para voltar para casa depois das aulas, muitas vezes foi abordado por pessoas que pediam dinheiro exibindo nas mãos uma carteira profissional ensebada ou algum outro documento amarrotado, frequentemente embriagadas e com sinais nítidos de ter dormido em alguma calçada. Achava estranha a atração que exercia sobre essas pessoas - até mesmo quando havia mais gente no ponto de ônibus. Talvez fosse pelo fato de sempre olhar as pessoas com alguma curiosidade.

Lembrou-se de uma abordagem que foi particularmente divertida, quando um sujeito magro e alto aproximou-se e pediu cinquenta centavos, explicando com toda dignidade: -“não vou mentir não, eu quero é para a cachaça”. Como só tinha mesmo o dinheiro da passagem, não teve como atender ao pedido do cachaceiro, ainda que o achasse merecedor, só pela sinceridade demonstrada. Estava nesse devaneio enquanto tentava achar o ponto do livro onde tinha parado a leitura, quando ouviu a pergunta:

- Aconteceu alguma coisa, algum problema com você?

Olhou na direção de onde tinha partido a voz. Era a mulher sentada à sua frente, olhando fixamente para ele, com uma expressão que lhe pareceu misturar preocupação e censura. Tentou cortar o contato visual, mas foi impedido por outra pergunta:

- Porque você não veio ontem?
- Eu não entendi o que a senhora disse. O barulho...
- Eu perguntei se aconteceu alguma coisa com você, pois não veio ontem.
- Desculpe-me, mas a senhora deve estar me confundindo com outra pessoa, pois nem a conheço.

Demonstrando impaciência, a mulher eleva a voz.

- É claro que você me conhece! E não o estou confundindo com ninguém!
- A senhora deve estar enganada. Sem querer ofender, nunca a vi mais gorda!
- Não estou preocupada se o senhor me acha gorda ou magra, nova ou velha, mas eu o conheço muito bem!

Um diálogo surreal assim não podia estar acontecendo, pensou o aposentado. Tentou suavizar as palavras, até para que os demais passageiros parassem de olhar para ele, com risinhos e sorrisos disfarçados.

- Peço desculpas se a ofendi. O que eu quis dizer e estou enfatizando é que não a conheço ou, se já fomos apresentados alguma vez, infelizmente não consigo me lembrar quando nem onde.
- Você me conhece aqui mesmo do metrô. Todo dia, neste horário, você embarca na segunda estação depois da minha, escolhe sempre o assento defronte ao meu, tira os óculos do bolso, abre o livro e começa a ler. Está sempre vestido de calça jeans, camisa de malha com gola polo e calça sapatênis. Marrom. Como vê, eu sei tudo sobre você. Ah, e desce na estação antes da minha.

Era uma situação estranhíssima e potencialmente fora de controle. Até mesmo pela falsa intimidade da forma de tratamento que ela empregava. Estaria ele sendo objeto de uma paquera enrustida e silenciosa de uma velhota feia e gorda? Ficou tentado a pensar que em vez de “objeto”, o certo seria considerar-se “vítima”, mas recusou a avaliação preconceituosa. Estava imaginando como poderia acabar com aquele circo constrangedor e grotesco, quando a mulher atacou de novo, com a voz um pouco mais alterada:

- Quando eu percebi que você tinha um comportamento metódico e organizado, sempre repetindo os mesmos gestos, eu fiquei feliz. Aliás, mais que feliz, fiquei aliviada, me identifiquei com seus gestos. Antes de você aparecer, eu passava o tempo contando os bancos e os rebites do vagão. Você neutralizou essa minha fissura, essa ânsia. Por isso é que eu perguntei o que aconteceu, pois fiquei preocupada quando não apareceu ontem.

Era demais! Aturar bêbados e loucos mansos por alguns minutos em um ponto de ônibus era suportável, mas servir de terapia para uma mulher provavelmente psicótica, portadora de TOC e atitudes francamente desequilibradas durante todo o percurso feito diariamente no metrô, seria mais do que estava disposto a aceitar. Aquilo precisava acabar. E de forma definitiva.

Tentou sorrir de forma cúmplice para ela até que o metrô parasse na próxima estação, não importando qual fosse. Quando a porta se abriu, saiu rapidamente do vagão, sem olhar para trás, mas não sem antes ouvir a doida gritando:

- “Volta, você desceu na estação errada!”

Aliviado, pega um táxi e vai para casa, de onde liga para o cunhado. Conta rapidamente o acontecido e termina a conversa, dizendo:

- Sinto muito, mas depois de hoje decidi parar de trabalhar definitivamente. Simplesmente não dou mais conta nem estou a fim de aguentar coisas desse tipo. Depois a gente se fala mais.