terça-feira, 9 de agosto de 2016

CODA

Escrevo este texto no dia 01/11/2015 (é sério!), para um post que não tem graça nenhuma, nenhuma originalidade (e isso é a cara do Blogson!). Mas, antes de continuar, preciso perguntar: você sabe o que significa o título que escolhi para esta maluquice? Não? Vai saber agora.

CODA é um sinal gráfico colocado ao final de uma partitura musical para indicar que a música termina ali. Há mais algumas sutilezas, mas vou ficar nesta definição. Então, este post é o coda do blog. Simples assim.

É estranho escrever isto, mas este post é realmente o último que sairá no Blogson. A ideia de fazer isso surgiu há um tempo que não sei precisar. Claro, não é? Até porque estou escrevendo para o futuro. E esse pensamento é o mesmo que motivou o texto "Ruínas na Selva". Mas, enquanto aquele era só uma divagação, este é definitivo.

Talvez as pessoas que acessam com alguma frequência esta bagaça achem estranha minha atitude. Talvez algum psicólogo diga que isso indica o desejo de ter controle sobre minha vida ou sei lá o que. Pode ser, não recuso esta ideia. Conheci superficialmente um sujeito que era cunhado de uma amiga da família de minha mulher. Esse cara morreu de câncer. Embora não tenha ido ao velório, fiquei sabendo de alguns detalhes: pouco antes de morrer, deixou pronta uma programação a ser observada em seu enterro e, como adorava música clássica, escolheu e gravou algumas peças dentre os inúmeros CDs que possuía, para serem reproduzidas durante todo o velório. Não bastasse isso, escreveu uma carta explicando essas escolhas musicais. A carta, um DVD com essas músicas e um retrato seu (o retrato na capa e a carta na contracapa do DVD) foram entregues a cada pessoa presente ao velório. Essa nossa amiga deu-me o que ganhou (e que nunca ouvi). Alguns podem ter achado a lembrança uma coisa meio mórbida, uma esquisitice do morto, mas eu achei bem legal a ideia. Mesmo que se tratasse de uma comunicação impossível. Como agora.

O fato é que quando alguém ler este post saberá que é realmente o último suspiro do Blogson Crusoe, o velho blog da solidão ampliada. Certamente surgirá em um ou outro o desejo de saber por que isso aconteceu. Por que parou? Parou por quê? Neste momento pelo menos, lamento não conseguir satisfazer essa curiosidade., mas vou arriscar, fazendo uma lista de possibilidades: surtei; o saco encheu; fiquei com Alzheimer ou morri. Bom, se o motivo é minha morte, talvez possa ter morrido de câncer, infarto fulminante, derrame cerebral, acidente ou o que quiserem imaginar. Foda-se, não estou nem aí, ou melhor, não estarei nem aí.

Mas o motivo deste post é transmitir meu mais profundo sentimento de gratidão, carinho e amizade às pessoas que leram alguma coisa que escrevi aqui. Não são muitas, eu sei. Posso até arriscar-me a identificar os "2,3" leitores do blog.

Começaria pelos que fizeram comentários por escrito ou de viva voz: minha para sempre amada Eliane, mulher linda em todos os sentidos; os geeks puro-sangue Gustavo e sua amada Fernanda, donos do ótimo blog Casal Geek, Daniel, dono do premiado blog Mixidão e sua amada Cláudia; meu amigo Mauro Condé, dono do blog O Blog do MaLuCo; o "Azarão", amigo virtual (de quem nunca soube o nome) e dono do blog hardcore A Marreta do Azarão, minha irmã Maria e seu filho Gabriel.

Mesmo que alguns tenham desaparecido há tempos, consigo identificar também os simpaticíssimos e sempre bem-vindos leitores Fabiano, "Lord Wilmore", "J", Renato Perim, Andrea, Agostinho e meu sobrinho Lucas. Pensando bem, deu até para encher uma Kombi!

Além dessa "confraria", agradeço a meus filhos, noras, sobrinhos, amigos e a cada anônimo que acessou o blog pelo menos uma vez, talvez por engano, talvez fisgado por textos, títulos e nomes de gente famosa. Não importa. Obrigado a todos, de verdade.

Criar e alimentar o Blogson com minhas bobagens foi uma das experiências mais fascinantes que tive em toda a vida. Todo tipo de sentimento foi vivenciado por conta dos textos e desenhos que divulgava: ansiedade, frustração, esperança, alegria, orgulho (vejam vocês, até isso!), raiva, tristeza, saudade, amor, ódio. Pedindo desculpas pelo chavão, foi mesmo um turbilhão de emoções!

O blog foi também um excelente espelho para mim. Hoje eu sei que as coisas que divulguei não tem qualidade nenhuma, são apenas produções amadorísticas, algo assim como uma peça teatral encenada por mal ensaiados alunos de ginásio. Mesmo assim, foi uma experiência incrível. Através do blog, descobri defeitos e qualidades insuspeitadas (mais defeitos que qualidades, na verdade), tais como um TOC moderado, vaidade exacerbada, preconceitos nunca admitidos, medos ocultos, carência afetiva patológica, um universo de sensações, enfim. 

Descobri também que escrevo legalzinho (mas morreria de fome se precisasse ganhar a vida escrevendo profissionalmente). Claro está que isso só aconteceu em virtude dos comentários (ou sua inexistência) dos "2,3" leitores mais constantes. Neste caso, acredito que a medalha de ouro do estoicismo deve ser entregue ao "Marreta", tão diferente e tão parecido comigo, pois esse leu (e comentou) quase todas as bobagens contidas neste blog!

E se este é o último post, podem até fazer comentários, mas talvez não haja ninguém para aceitá-los e responder (talvez eu esteja morto, esqueceram?). Como duvido que alguém tenha lido todos os posts, sugiro - seguindo o exemplo do sujeito do velório citado no início - que leia os demais. Como (ainda) estou vivo, essa ideia me atrai e conforta. Depois, isso não significará nada, concordam?



Neste blog eu falei de mim o tempo todo, de forma explícita ou só nas entrelinhas. No início, procurei preservar minha identidade de forma quase doentia. Depois, fui relaxando e expondo os casos de família e a quase totalidade do meu nome. Acho que agora é o momento ideal para divulgar o que faltava. Dentro da linha de que as pessoas permanecem "vivas" enquanto alguém se lembra delas, aí vai (de forma definitiva!) meu retrato mais recente, onde ostento uma barba que deixei crescer aos sessenta e cinco anos, só para  tirar uma foto

Aliás, essa é só mais uma maluquice Jotabê, pois deixei crescer a barba em apenas três ocasiões, espaçadas uma da outra por vinte anos (aos 22, aos 42 e aos 65 anos). Um verdadeiro "TOC de longo curso", concordam? Olhaí.



Como é? Não está identificável? Claro que está! A mancha escura do lado direito da foto, logo abaixo do olho, é a pinta (nevo) que tenho no rosto. Além disso, olha as rugas na testa, o pé de galinha do olho e a barba quase totalmente branca. Tá tudo aí!

Para ser sincero, não me animei a vencer a barreira do anonimato (a última) que desejei manter desde o início do blog. Isso foi o máximo que me permiti divulgar, um retrato mais parecido com uma silhueta, pois o desejo de permanecer incógnito venceu o exibicionismo. Mas a pinta está lá.

Bom, agora chega de enrolação. Como disse o Vinícius de Moraes em uma de suas letras, "ciao, goodbye, auf wiedersehen”. Fui!!!


segunda-feira, 8 de agosto de 2016

FIM DE FEIRA

BACIADA
Não sei como essa prática é conhecida em outras cidades, mas em BH, no final das feiras livres, os comerciantes colocam (ou colocavam) em bacias de alumínio as sobras de frutas e legumes, vendendo-as por um preço bem abaixo do que estavam cobrando antes e davam a isso o nome de “baciada”. O mesmo raciocínio é expresso na frase “mais barato que banana em fim de feira”.
Pois bem, resolvi fazer uma baciada com as sobras de bobagens que não me animei a divulgar antes, seja pela ruindade maior que a habitual ou pelo tamanho. O resultado ficou meio despencado, muito parecido com banana em fim de feira, mas está “de grátis”.


CÂMARA OU CAMA?
Um dia, na minha frente, na fila de um supermercado, duas mulheres conversavam animadamente quando uma delas disse esta frase:
- “A Câmara Municipal não é um bom lugar para uma mulher trabalhar”.
Na mesma hora, imaginando que era uma referência a assédio, surgiu na minha cabeça um pensamento Jotabê:
Os assessores de políticos, normalmente, são “pau para toda obra”. Já nessa Câmara pelo menos, as assessoras parecem ser "obra para todo pau".


DICIONÁRIO VIRTUAL

Post Mortem: Expressão para identificar um post programado por engano para data posterior ao fim de um blog (muito, muito ruim!).


COME O QUE?
A piada de hoje é politicamente correta. Talvez alguém estranhe isso e até pense:
 Mas esse cara não é contra o pensamento politicamente correto?
E eu já esclareço que (tentar) fazer humor (ruim) em cima dos admiradores do Luis Carlos Prestes e do João Amazonas é uma coisa politicamente correta para mim (duh!).
O caso é o seguinte: uma vez ouvi ou li a frase – “comunistas comem criancinhas". Isso é uma maluquice total, lógico, mas bem que serviria para zoar com esse pessoal. Aí pensei nesse diálogo:
- Ouvi falar que os comunistas comem criancinhas. Você sabia disso?
- E você sabia que isso é uma idiotice, tipo teoria da conspiração?
- Você não acredita nisso?
- Comunista não come criancinha...
- Você é comunista?
- Não sou, idiota!
- Você está dizendo que comunista é idiota?
- Não, jumento! Eu disse que não sou comunista. Nem idiota (o que, no fim das contas significa quase a mesma coisa).
- Você acha então que comunista não come criancinha, né?
- Claro que não, mané!
- Sacanagem, eu ia detonar um vizinho meu!
- Posso saber por quê?
- Eu ia chegar pra ele e falar: - você fala que é comunista, mas o que é mesmo é pedófilo!
- Puta merda! Eu não sei por que continuo conversando com você!


ESPORTES OLÍMPICOS
Como estou em pleno clima de olimpíada, fiquei imaginando que uma discussão entre dois homens muitas vezes lembra uma luta de espadas (claro, se os dois forem heterossexuais). Poderia até rolar um diálogo assim:
- Você tem cara de ex-grimista, acertei?
- Não te conheço e detesto trocadilhos idiotas!
- Você não sabre com quem está falando?”
- Você deve ser doente da cabeça ou isso é alguma pegadinha!
- Olha, meu papo é reto, não fico fazendo floretes. Para mim, você não passa de um merda!
- Ofensa, não! Vou te encher de porrada, seu filhadaputa!”
E aí começaria o boxe.


MARKETING
“Anéis olímpicos estampam drogas apreendidas pela polícia do Rio”.
Depois de ler essa notícia no portal G1, fiquei pensando que o “espírito das olimpíadas” envolveu até a bandidagem. Só faltou o ideal olímpico (“citius, altius, fortius”) ser usado como marketing para ressaltar os efeitos e a qualidade da droga oferecida: "mais rápido, mais alto, mais forte".

Pegando a trilha da mesma notícia, fiquei imaginando um "cliente" interessado no produto, perguntando aos passantes:
"Cadê o senhor dos anéis?"
(Depois disso, só mesmo fechando o blog).


domingo, 7 de agosto de 2016

PARA ENTREGA DA LOJA

Gastei boa parte do dia de ontem fazendo uma faxina no Blogson "para entrega da loja". Descartei muitas ideias para posts que não escreverei mais. Algumas eram identificadas por apenas uma frase ou palavra, precisariam ser expandidas. Outros posts já estavam prontos, mas fiquei preocupado com a patrulha do pessoal politicamente correto e passei a régua nesses também.

Fui limpando, limpando, até restar só o que será apresentado após esta introdução e mais três posts já iniciados, mas sei que esses também não serão concluídos. Um deles traria lembranças das minhas férias na infância, que por ser pessoal e intransferível, não dá para ninguém aproveitar. Por isso, deixo aos 2,3 leitores que produzem textos autorais a sugestão de que utilizem em suas divagações os temas dos dois restantes (caso se interessem, lógico). 

Os títulos dos posts que nunca terminarei são: "Sob o domínio do medo" e "Os sete pecados capitais". Essas ideias surgiram na época da criação do blog, mas ficaram esquecidas até hoje, talvez pela imersão necessária a cada uma.

Esses posts tratariam dos temas sob a minha ótica pessoal e funcionariam como sessões de "terapia blóguica": de que forma o medo alterou meu comportamento, pensamentos e atitudes, por exemplo. No caso dos "sete pecados", a coisa ficaria mais divertida, pois precisaria identificar o modo como eu teria (ou não) cometido esses "pecados". Mas não dá mais. Por isso, foram excluídos junto com os outros rascunhos. Se alguém quiser carregar essa tocha não olímpica (mas tão desgovernada e sem rumo como se fosse), fique à vontade. Eu até que gostaria de ler o resultado.

E agora, vamos ao que sobrou de melancolia e depressão:


QUANDO A VIDA ERA EM PRETO E BRANCO
Outro dia, enquanto via algumas fotos antigas, fiquei pensando que talvez gostemos de achar que a vida ali retratada também era em preto e branco - mais simples, mais previsível, sem dúvidas ou questionamentos, longe da paleta de cores fortes que as emoções, embates e conflitos do dia-a-dia real utilizam.


VELHICE
Velhice é o encontro diário de você mesmo com seus defeitos, sonhos irrealizados, esperanças abandonadas, arrependimentos tardios, rancores mal resolvidos e pesadelos recorrentes.


HOJE AMANHECI PENSANDO EM ME DESPEDIR
Hoje amanheci pensando em me despedir. Não pretendo viajar, não tenho ideias suicidas, não pretendo mudar de país. Apenas pensei em me adiantar, me antecipar, pois sou um sujeito que preza a boa educação, aquela que nem se usa mais hoje em dia, a educação das pequenas gentilezas, da atenção (mesmo que eventualmente falsa), da polidez no trato. Talvez por estar tendo frequentes brancos de memória. Por isso, considero indelicado, inaceitável sair sem me despedir.
- “Mas, sair de onde, criatura?”, dirão alguns. Sair de mim mesmo é a resposta e a chave. Tempos atrás, li que os americanos estabeleceram uma estatística que traz uma informação meio preocupante: as pessoas morrem - em média - doze anos após se aposentar. Bem, eu me aposentei definitiva e irrevogavelmente em 2009. Sendo um sujeito mediano, é provável então que morra por volta de 2021, aos setenta e um anos.
Isso contradiz um pouco a possível herança genética, pois meu pai e minha mãe morreram com mais de oitenta e cinco anos. Nesse caso, eu teria ainda dezenove anos para andar por aí, desarvorado e sem rumo. Mas se a herança familiar conta, pode acontecer de eu começar a sofrer de Alzheimer, tal como ocorreu com minha mãe. E esse é o motivo da despedida. Não sei quantos anos viverei e permanecerei lúcido, por isso amanheci pensando em me despedir, pois há coisas que não se deve deixar para a última hora.
Um dia, se eu começar a me esquecer do que acabei de fazer, podem rir de mim, eu talvez ria com vocês. Se eu perguntar por pessoas já falecidas, digam que não demoram a chegar, que foram "aqui pertinho", Mas se eu começar a não reconhecer com quem estou falando, mesmo que essas pessoas sejam meus amores eternos, procurem não se assustar ou ficar tristes, pois já não estarei mais com vocês, mesmo que meu corpo ainda esteja.
Por isso eu amanheci pensando em me despedir. Não sei quanto tempo terei para fazer isso e espero que esse dia demore muito a chegar, mas sou um sujeito educado e cortês. Seria uma indelicadeza e uma grosseria de minha parte não poder dizer uma última vez à minha Amada e a cada um de nossos amados filhos e filhas:
- Eu te amo e te amarei para sempre. Foi incrível, foi maravilhoso te conhecer, te abraçar e rir com você enquanto pude fazer isso.
Acho que um abraço apertado seria uma boa ideia para selar essa despedida.






sábado, 6 de agosto de 2016

PROPOSTA TÉCNICA - VOLUME 2

Uma das técnicas mais sofisticadas e eficientes de manipulação de licitações de obras surgiu em São Paulo no final da década de 1970 ou início da década de 1980, aparentemente de forma inocente e bem intencionada. Era um procedimento rigorosamente legal e incontestável, mas dizem que "o diabo está nos detalhes". Daí...

Em 1980 fui admitido em uma empresa de médio a grande porte, uma "grandinha", onde passei os melhores anos de minha vida profissional. Essa construtora tinha as características de empresa familiar: um presidente extremamente sério e competente e alguns irmãos com cargos na direção empresa, que mais atrapalhavam que ajudavam, pois viviam em permanente conflito com outro diretor, esse sim, genial e competentíssimo, mas com gênio irascível e nenhuma paciência com a mediocridade de seus pares na diretoria. Talvez seja esse o segredo de sua demissão e da derrocada da empresa. Mas meu tema não são brigas de diretoria. Por isso, vamos lá.

Pouco depois de admitido, fui convocado a ajudar na elaboração de uma proposta para alguma obra em São Paulo. Essa licitação tinha três etapas de seleção de empresa: documentação, proposta técnica e proposta comercial. Esse modelo foi seguido e depois replicado pelo Brasil afora durante toda a década de 1980 e princípio da de 1990, até a promulgação em 21/06/1993 da Lei 8666, que estabeleceu “normas gerais sobre licitações e contratos administrativos pertinentes a obras, serviços, inclusive de publicidade, compras, alienações e locações no âmbito dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios”. Até essa legislação entrar em vigor, o sistema funcionou às mil maravilhas.

Infelizmente, não sei como é hoje, pois minha saída da empresa e da área de engenharia aconteceu quase simultaneamente à aplicação dessa lei. Mas está aí o Petrolão para demonstrar que a criatividade das grandes empreiteiras continua muito eficiente.

Pois bem, voltando à formulação da proposta, logo descobri que o preço ofertado era o que menos importava. E o motivo era simples: no próprio edital de licitação já se encontrava a estimativa detalhada feita pelo órgão contratante. Qualquer empresa que quisesse participar da concorrência era obrigada a balizar seu preço dentro dos limites de mais ou menos dez por cento do valor estabelecido no edital. Imagino que o detalhe sutil e saboroso seria o fato de essa estimativa aparentemente ser alta pra kawaka. Essas condições pré-estabelecidas obrigavam a que todos os licitantes oferecessem o limite mínimo, ou seja, o preço do órgão menos dez por cento. A única forma de excluir alguém nessa fase era encontrar algum erro de conta, de soma, que elevasse o preço mínimo do concorrente em um centavo que fosse. Quando isso acontecia, a empresa ficava em último lugar e dava atestado de burrice e incompetência de sua equipe.

Fazendo um pequeno retrospecto, quando esse critério era adotado, aparentemente a obra já nascia com preço superestimado, pois ninguém nunca reclamou disso. Quem preparava essas estimativas? Boa pergunta...

Então, se a maioria das empresas participantes passasse ilesa pelo exame detalhado de sua documentação e atestados técnicos e se todo mundo empatasse na Proposta Comercial, ofertando o preço mínimo permitido pelo edital, como desempatar a licitação e escolher a empresa vencedora? Elementar, meu caro estagiário: só mesmo com a ajuda da Proposta Técnica. E que ajuda!

Voltando ao meu primeiro contato com essa situação (e o primeiro contato a gente nunca esquece), fui incumbido de ajudar a detalhar algum método executivo. Mas eu era grosso e inexperiente nesse assunto, pois, além de ter sido um aluno relapso do curso de engenharia, nunca tinha trabalhado nesse tipo de serviço. Mesmo assim, comecei a escrever sobre o que não entendia. Escrevi uma página (a duras penas) e mostrei para meu chefe. Olhou rapidamente e disse que estava pouco detalhado, que precisaria escrever mais. Na prática, “encher mais linguiça”. Para ajudar, com um sorriso irônico, entregou-me um pacotaço de cópias xerox de uma proposta antiga de outra empresa.

Aquilo foi uma epifania: a tal empresa tinha detalhado cada uma das etapas construtivas previstas quase ao nível molecular. Além disso, a proposta original continha fotos para ilustrar cada método executivo, etc. Essa era a chave de uma proposta técnica vencedora: qualidade, qualidade, qualidade. Você quer saber o que eu fiz? Copicolei o texto que estava escrevendo, tendo o cuidado de mudar palavras e frases do texto base. Muita competência!

Foi nessa época que a empresa tentou entrar para o seleto clube de grandes empreiteiras que faziam obras espetaculares pelo país afora. Seguindo a trilha indicada pelas grandonas, a cada nova licitação providenciavam-se capas personalizadas onde eram impressos os dados da obra e do órgão licitante, papeis timbrados de qualidade encomendados especificamente para cada proposta, fotos em tamanho A4, desenhos e projetos executivos em profusão, folhas e mais folhas datilografadas detalhando o passo a passo da obra. Resumindo: cada proposta técnica era uma maravilha e um curso rápido de engenharia (e, claro, muita cola e muita imitação). Quase invariavelmente, só tinha um defeito: os lobistas da empresa nunca conseguiam antecipadamente "combinar com os russos". E o resultado era sempre o mesmo: ficávamos em terceiro, quarto, quinto lugar na licitação, nunca no primeiro.

E o motivo era simples e a chave da história: as propostas técnicas dos diversos concorrentes recebiam notas para cada quesito, igualzinho ao que acontece nos desfiles de escola de samba. E os quesitos eram conhecimento do problema, metodologia proposta, equipe técnica, equipamentos disponíveis, plano de suprimento, currículo dos responsáveis técnicos indicados, organização do canteiro de obras e todo tipo de exigências que acabavam virando "pegadinhas" e de julgamento totalmente subjetivo. Bastava tirar meio ponto ou até menos, para que a nota final ficasse inferior à da vencedora, que era, afinal, aquela "que tinha combinado com os russos".

Qual era a explicação para isso? A empresa em que trabalhei não tinha lobistas com o trânsito e a influência dentro dos diversos órgãos públicos que as grandes construtoras possuíam. Além disso, nunca conseguia igualar o padrão de qualidade das propostas que as maiorais foram atingindo. Ouvi dizer que uma delas, para determinada obra, levou uma maquete (!) super detalhada como parte integrante de sua proposta. Outras esmeravam-se no acabamento gráfico, com os desenhos executivos propostos impressos a cores, etc. Era uma briga desigual entre as "escolas do primeiro grupo" com as coitadinhas do "grupo de acesso". Dar notas assim ficava fácil quando alguém já sabia quem deveria ganhar essa ou aquela obra.

Só as maiores construtoras sobreviveram às sucessivas crises econômicas e à escassez de grandes obras. Só as grandes e algumas de médio porte que souberam, de alguma forma, crescer. Coincidentemente são as mesmas retidas na peneira do Petrolão. A OAS era uma empresa inexpressiva conhecida pela sacanagem que os concorrentes faziam com as letras do seu nome. Na piada, "OAS" significava Obras Arranjadas pelo Sogro, pois um dos sócios da empresa era genro de Antonio Carlos Magalhães, o Toninho Malvadeza, político baiano já falecido. A Queiroz Galvão era apenas uma empresa pernambucana boa de briga e muito competitiva, até mudar sua sede para o Rio de Janeiro.

A empresa onde trabalhei fechou as portas, o mesmo acontecendo com várias construtoras de porte equivalente, durante um dos diversos solavancos cíclicos que a economia do país sofreu. Quem conseguiu sobreviver e até crescer, deve ter descoberto o caminho da pedras.

Bem se alguém imagina tirar uma moral dessa história, eu diria que não há moral em práticas amorais. Como não tenho nenhuma pretensão de tirar alguma lição disso, deixo apenas algumas frases descosidas e sem pontos comuns, para servir de epílogo (ou epitáfio) deste post:

A espécie humana é um equívoco da Natureza
"Para farinha pouca, meu pirão primeiro"
Só punições severas e rapidamente aplicadas poderiam reduzir a corrupção (mas nunca acabariam com ela)
"Ou locupletamo-nos todos ou restaure-se a moralidade" (Sérgio Porto)
Uma guerra nuclear (ou queda de um asteroide gigante) seria uma boa ideia para acabar com a corrupção (e com toda a vida na Terra)
Não tenho mais nenhuma esperança de que algum dia o mundo fique melhor do que está


Estava neste ponto do texto, quando minha mulher me chamou para ver um vídeo do Youtube que recebeu via Whatsapp ou FacebookOuvir essa palestra (mais de uma hora) me indicou o patamar de mediocridade das coisas que escrevi para o Blogson, mas deu-me um alento de esperança, pois o tema está, de alguma forma, relacionado a este post. Talvez a Ética possa melhorar um pouco este país idiota. Quem sabe?

O último a acessar o link é mulher do padre (ou marido, vá saber). Espero que alguém goste. Vê aí
.
https://www.youtube.com/watch?v=_pTJ7feeiDI





sexta-feira, 5 de agosto de 2016

REELIN AND ROCKIN - CHUCK BERRY

Como já disse antes, minha vida sempre foi marcada pela batida do rock, do qual gostei desde a primeira vez em que ouvi esse ritmo, ainda na infância (minha e do rock). Para mim, o pai do rock é o Chuck Berry (a mãe é o Little Richard). Em 2009, quando ele se apresentou em BH, achei que não valia a pena ir vê-lo, pois o cara já estava com 83 anos. Sem se preocupar com isso, uma sobrinha de minha mulher foi ao show e saiu extasiada, tal a energia do "JB Goode" (Johnny B. Goode). Fazer o que, não é mesmo?

Pois bem, não pretendo publicar mais nada na seção “Reverência” deste blog. Por isso, se todo início tem um final, nada melhor que finalizar com uma música composta em 1958, bem no início de minha vida desgovernada. A diferença é que a versão que escolhi foi tocada (e gravada) em 1972, durante uma temporada de shows em Londres. Sete minutos de pura safadeza não explícita, mas totalmente sugerida. O velho e bom Chuck estava com 46 anos, mais esperto e sacana que a plateia de jovens que o assistia.

Para quem quiser ver essa apresentação, o link está no final do texto. A letra traduzida foi obtida no fascículo dedicado ao roqueiro (fazia parte  da coleção “Rock - A História e a Glória”). Essa tradução (muito boa, por sinal) está em cima da gravação que saiu neste vinil:



Olha a tradução:
Às vezes eu acho que vou, mas aí acho que não vou
Às vezes eu acho que vou, mas aí acho que não vou
Às vezes eu faço mas aí acho que não faço

Olhei no relógio, e era quase uma
Falei: vem cá, boneca, vamos nos divertir

Refrão repetido a cada "olhada no relógio"
Ficamos girando, filha
Girando & balançando & requebrando até o dia raiar

Olhei no relógio, eram quinze pras duas
Ela disse que não era mas eu sabia que era sim

Olhei no relógio, e eram quinze pras três
Ela disse "Espera um minuto, Chuck eu vou..."
Traz uma coca aí (1)                       ,

Olhei no relógio, eram quase quatro horas
Aí ela me virou e disse "faz isso outra vez"

Olhei no relógio e eram quinze pras cinco
Eu tava mais morto que vivo, pô!

Olhei no relógio, eram cinco e quinze
Rodando que nem um mustang com tração nas quatro rodas

Olhei no relógio, eram quinze pras seis
Uuuuuui, finalmente fiquei pronto

Olhei no relógio, eram seis e pouco
Pô, eu voltei firme que nem uma mistura de cimento

Olhei no relógio, eram sete e quinze
Foi quando rodopiamos e subimos pro céu (2)

Olhei no relógio, eram quinze pras oito
Sabe, ela deu uma.mexidinha e me fez ficar todo esticado

Olhei no relógio, eram quinze pra nove
Ela disse “ai, Chuck querido, é gostoso demais

Olhei no relógio, eram quinze pras dez
Sabe que ela me chamou de volta e me obrigou a fazer outra vez?

Olhei no relógio, eram onze e meia
Aí ela pegou, me xingou um palavrão, sabem por quê? Ora, não vou contar por que!

Olhei no relógio, eram doze em ponto
Começamos a cavar que nem uma velha escavadeira

Sarramos na cozinha, sarramos no corredor
Sujou um pouco no meu dedo então limpei na parede
E giramos & balançamos & requebramos até o dia raiar

(1) a rima óbvia era pee, urinar ... (brincadeirinhas)
(2) heaven, céu, é uma das poucas palavras em inglês que rimam com seven, sete.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

PROPOSTA TÉCNICA - VOLUME 1


Salvo no caso de fusões de empresas já existentes, todas as construtoras começaram fazendo reformas prediais, construindo casas ou pequenas obras. Muitas vezes, graças à indicação de parentes e amigos. Normalmente, os sócios são engenheiros novos e recém-formados, com muita coragem e garra, mas pouca ou nenhuma experiência. 

Eu mesmo sonhei ser um desses, mas faltou-me "coragem e garra". Ter-me tornado pai aos vinte e seis anos e a inexistência de parentes ricos para dar apoio e suporte em caso de necessidade fizeram com que esse desejo, que esse sonho permanecesse apenas isso: sonho. Por não ter espírito empreendedor, hoje eu vejo que não errei por não ter tentado. Talvez, se tivesse montado uma construtora, teria caído na vala comum da maioria dessas "gatinhas" (nome mineiro para as pequenas empresas de engenharia), ou seja, teria quebrado ou fechado simplesmente. E condenado minha mulher e filhos a muita privação.

Além da gestão amadorística e deficiente a que normalmente estão sujeitas no início, acredito que as pequenas construtoras estão expostas a um risco muitíssimo maior que, por exemplo, uma pizzaria recém-inaugurada ou uma pequena loja de autopeças ou sei lá o que. E esse risco está relacionado à formulação do preço da obra que se pretende executar. Embora utilize-se a expressão "indústria da construção", não há nada mais despadronizado que a construção de qualquer obra. A começar pela localização (que pode afetar o preço de frete dos materiais básicos utilizados. Além disso, o subsolo existente define essa ou aquela fundação. Pesam ainda a quantidade absurda de materiais  diferentes necessários, sejam eles incorporados à obra ou apenas como auxiliares durante os processos construtivos. Fora atrasos de pagamentos, ações trabalhistas, mudança de projetos, etc. etc. etc. etc. ...

Ainda que este início esteja mais árido que areia lavada, de leitura mais penosa que andar descalço em pedra britada, de avanço mais duro que concreto armado, já aviso a quem sobreviveu até agora que o texto deve melhorar um pouco.

Porque a questão básica que se impõe aos empresários frescos (é bom deixar claro que todos os engenheiros são machões. Até mesmo algumas engenheiras) é: como ganhar dinheiro (ou lucrar) fazendo obras por empreitada? Repetindo: qual deve ser o preço que bem atenda contratado e contratante?


Se houver licitação, aí é que o caldo entorna. Do primeiro gerente a que fui subordinado, ouvi uma afirmação que nunca esqueci. Em uma conversa com um grupo de engenheiros do qual eu fazia parte, o sujeito disse de forma bem humorada que uma proposta comercial onde nada foi esquecido certamente leva uma construtora a perder a licitação da qual participa. E repetiu sorrindo: – “se não esquecer alguma coisa, não ganha a obra”. E a explicação é simples: como ninguém quer perder dinheiro, o bom senso recomenda que se adote um percentual para prevenção de custos imprevistos. Se essa "vacina" for aplicada indiscriminadamente em toda a proposta, o resultado provável é a perda da licitação (por over dose).

Essa construtora onde trabalhávamos era uma empresa extremamente ética e jamais participava de “acordos” (entre empreiteiras) para definição prévia de quem ganharia a obra, uma prática extremamente comum na área de obras públicas naquela época e, provavelmente, hoje ainda (alguém se lembrou do Petrolão? Pois é). Talvez por isso, essa excelente empresa só trabalhasse fazendo obras para indústrias e outras empresas privadas. Por manter-se fiel a essa filosofia, permaneceu uma empresa de médio porte. Em compensação, graças ao cuidado e interesse de seu fundador por práticas administrativas modernas e controle rigoroso de custos, serviu de modelo para, pelo menos, cinco novas empresas de engenharia, fundadas por profissionais que tinham pertencido ao seu quadro de engenheiros. 

Anos depois, já em outra construtora, ouvi do presidente da empresa, um senhor calmo e ponderado, a frase: –“nunca perdi dinheiro por deixar de fazer uma obra”. Sábias palavras. Porque estou dizendo isso? Para falar de corrupção, propinas e práticas nada “cristãs”. Mas,  como o caminho é longo, vamos devagar.


Na minha opinião, quando se elabora uma proposta para executar determinada obra, assume-se um risco muito alto, maior que o normalmente existente em outros setores da economia. E são vários os motivos para isso:

- na fase da licitação, o projeto apresentado pode estar incompleto, mal detalhado ou com erros - ou é de responsabilidade da empresa que for contratada;
- salvo casos muito especiais e pouco frequentes, nenhuma obra é igual a outra. Assim, as experiências e dificuldades vividas na primeira obra de quase nada valerão para a realização da segunda;
- atrasos no recebimento das faturas correspondentes às parcelas já executadas podem, em alguns casos, até quebrar uma construtora de pequeno ou médio porte;
- no caso de obras públicas, embora "raro"(?), não chega a surpreender que haja pagamento de propinas feito a achacadores ligados à fiscalização da obra (alguém se lembrou do Petrolão? Pois é). 

Por volta de 1977, praticamente recém-formado, ouvi do diretor de uma pequena construtora a seguinte história: essa empresa tinha ganho na maior lisura e pelo menor preço uma pequena obra em um município da Grande BH. Embora rigorosamente dentro do cronograma, não havia meio de receber em dia os pagamentos pelos serviços já executados. Queixando-se da dificuldade em receber as faturas em dia com um amigo que era dono de outra pequena construtora, esse diretor foi instruído a procurar alguém muito graduado na Administração Municipal. O assunto a tratar seria a concordância em pagar uma propina de 2% de cada fatura recebida, uma espécie de "corretagem", para que sua empresa pudesse receber em dia. Depois de fazer isso, nunca mais recebeu atrasado. Detalhe:  metade da extorsão era destinada ao prefeito. A outra parte era distribuída entre alguns secretários. Comovente, não?

O que uma pequena construtora pode fazer para que seu barquinho possa continuar flutuando nesse oceano tempestuoso? No caso específico, mesmo arriscando-se a perder a concorrência o que esse empresário fez foi passar a incluir essa "corretagem" em toda proposta que apresentava para outras licitações nesse município, com o consequente aumento no valor final. Edificante, não?

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

SEXO, DROGAS & ROCK' N ROLL - PARTE 3

SEXO

Agora, chegou a hora que todo mundo (2,3 leitores) esperava ansiosamente, pois o assunto é sexo. Mas, como falar de um assunto tão íntimo, tão cheio de mistérios e tabus? O jeito é começar, sem enrolação. Assim, vamos lá:

Sexo: masculino, heterossexual, cisgênero. 

Como é, não sabe o que é cisgêneroAprendi essa palavra outro dia. É um neologismo que logo estará nos dicionários. Basicamente, dito de forma mais livre, define a pessoa que está feliz e identificada com o gênero ao qual pertence desde o nascimento. É o oposto ou contrário de "transgênero". As pessoas que fazem operação para mudança de sexo são transgêneros. Indo ainda mais para o popular: a cantora(?) Gretchen é cisgênero, enquanto a(o) filha(o) Tamy é transgênero. Sacou a diferença? 

Então é isso: sexo masculino, heterossexual, cisgênero e fim. Queria mais o que, voyeur? 

terça-feira, 2 de agosto de 2016

SEXO, DROGAS & ROCK' N ROLL - PARTE 2

DROGAS
A primeira droga que eu usei foi talo seco de chuchu. Não ria, pois é verdade. Com onze, doze anos, um conhecido me mostrou que dava para fumar aquela coisa. É claro que fiz como o Bill Clinton, pois fumei mas não traguei, coisa que eu não sabia fazer. Mas era divertido fumar cigarro de chuchu, pois produzia uma fumaça bem legal embora deixasse um gosto ruim na boca. Como isso era coisa de criança, logo abandonei essa bobagem.

Meu pai era tabagista pesado, pois fumava desde os treze anos de idade. Tinha os dedos e o bigode amarelos de nicotina e vivia tentando parar de fumar. Até conseguir parar definitivamente, tentou várias vezes, sempre nos prometendo que “agora era pra valer”. Segundo nos disse anos depois, morria de vergonha dos filhos saberem que tinha fracassado.

Eu pouco me lixava para isso, mas obedeci fielmente seu pedido de só fumar depois dos dezoito anos. Lembro-me dele falando que o cigarro era uma porcaria e que nós nunca deveríamos fumar. Entretanto, se ainda assim quiséssemos, que esperássemos fazer dezoito anos, pois aí ele até acenderia um para nós. Não precisou.

Comecei a fumar com dezenove anos. Um dia, na praia, alguém pediu que eu acendesse um cigarro com um pipoqueiro que estava por ali. Como imaginei que o cigarro apagaria até voltar, pus na boca e aspirei. Eureka! Apesar de ficar meio tonto, sem querer, tinha aprendido a tragar.

Comecei com um cigarro no sábado, fui aumentando aos poucos, até chegar ao consumo diário de um maço, quando parei. E foi meu sogro que fez com que eu parasse. Um dia fui buscar o resultado de uma biópsia que ele tinha feito e levei ao seu médico. O médico olhou o resultado e perguntou o que eu era dele.

Genro, por quê?

- A situação dele não é muito boa, pois está com câncer no pulmão.

- É curável? O que dá para fazer?

- Talvez pudéssemos extrair o pulmão doente. Como ele fuma desde a infância, o outro pulmão ficará sobrecarregado e talvez ela morra de infarto ou insuficiência respiratória.

- Qual é a expectativa de vida que ele tem?

- Pessimista, três meses; otimista, um ano.

Naquele dia, ao dar essa notícia para minha mulher e seus irmãos, parei de fumar. E ele morreu seis meses depois.



Minha relação com o álcool já foi mais estranha, pois eu sempre achei ruim o gosto de qualquer bebida. Apesar disso, adolescente, quando ia a alguma festa em casa de família, bebia cuba libre ou high-fi, duas misturas intragáveis. Se a festa era em clube, eu tomava cachaça em algum boteco antes de entrar. Com uma ou duas goladas já esgotava o copo. Aí era só esperar o efeito desinibidor, libertador, ...que nunca vinha.

Ninguém nunca soube me explicar o efeito do álcool no meu organismo. Primeiro, turvava-se a vista, como se tivesse pingado um colírio para fazer exame de vista em um consultório de oftalmologista. O passo seguinte era a sensação de que a língua estava mais grossa, o que me fazia falar meio enrolado. A perda significativa da audição vinha logo a seguir, fazendo com que eu passasse a falar mais alto. Se o teor alcoólico estava anormalmente muito alto, perdia o tato e a sensibilidade da pele caia. A partir daí, my friend, começava a cambalear descontroladamente. A única coisa que ficava inalterada nesse quadro de pré-coma alcoólica era a filha da puta da minha consciência. Podia tomar um copo de cerveja ou algumas doses de uísque que lá estava eu, os sentidos entrando em colapso e as emoções inalteradas. Triste antes? Também agora. Muito alegre? Tudo igual. 

Resumindo, a bebida nunca me fez ficar mais alegre, desinibido ou impulsivo. Nem mais triste, deprimido ou raivoso. Só inalteradamente tímido e introvertido. E no dia seguinte, aquele gosto de fundo de gaiola na boca, aquela dor de cabeça escrota, a velha e boa ressaca. Por isso, quando ainda não tinha namorada, bebia até cambalear. Essa era a única diversão que eu tirava da "marvada".  Isso aconteceu até o dia em que meu irmão teve de arrombar a porta do banheiro da casa onde morávamos, para me tirar de lá, quase em coma alcoólica, depois de ter bebido todos os tipos de bebida disponíveis em uma confraternização em um domingo à noite. No dia seguinte, prometi à minha mãe ficar um ano sem beber.

Passado esse período sabático, já não achava mais graça nenhuma em cambalear "desgovernado". Passei a beber cerveja esporadicamente, conversando com cunhados e amigos. Cheguei até a pegar alguns porres gigantescos com a loura gelada (o último aconteceu no carnaval de 1976).  Mas nunca gostei de cerveja, Às vezes dizia brincando que gostava demais (verdade) do primeiro copo, bebido de uma só vez; mas, a partir do segundo copo, a bebida ficava com gosto de cerveja - e eu não gosto de cerveja.

O último e definitivo porre que tomei foi quando nosso terceiro filho formou-se na faculdade. Avisei que iria beber até me acabar, o que realmente fiz. O uísque rolava solto e eu encarei. Lá pelas tantas, dirigi-me à mesa onde estavam meus filhos e noras. Estava quase cambaleando. Quando meu filho mais novo olhou para mim, notei no seu rosto uma expressão que misturava pena, horror, constrangimento e preocupação. E a minha consciência lá, firme, vigilante. Senti tanta vergonha naquela hora que decidi parar de beber - pelo menos, naquela festa.

Um.dia, revendo essas imagens em minha cabeça, pensando em todas as pessoas de quem gosto e que se transformam em puro lixo quando estão bêbadas, decidi parar de beber definitivamente. Não sei precisar a data certa, só sei que desde antes do Natal de 2013 nunca mais pus nenhuma bebida alcoólica na boca. Qual a vantagem, afinal?



E aí chegamos ao reino das drogas ilícitas. No final da década de 1960 e início da seguinte, tudo o que eu queria era experimentar maconha. Afinal, muitos conhecidos usavam, o filme sobre o festival de Woodstock tinha acabado de ser exibido (assisti umas três vezes), etc. Não havia a noção de que seu uso era danoso para o organismo, e por aí. 

Mas eu tinha medo (era ilícito, proibido) e desejo (era moderno, descolado) de experimentar. Um dia, conversando sobre drogas com um conhecido da faculdade (chamava-se Tadeu mas tinha o apelido de Caetz, por causa do cabelo a la Caetano Veloso), disse-me que iria me arrumar uma "bolinha" para dar um barato legal. E realmente trouxe. Era um glóbulo de remédio natureba. Disse que eu devia tomar com cachaça. Apesar de meio ressabiado, resolvi encarar. Engoli aquela bosta com uma dose de pinga e fiquei esperando o barato. Mas nem uma baratinha eu vi passar, pois não aconteceu absolutamente nada. Só fiquei com a sensação humilhante de que tinha sido alvo de uma pegadinha de maconheiro gozador.

Poucos meses antes, tinha viajado para Guarapari com algumas pessoas. Era período de férias e a cidade estava lotada de mineiros. Passei por um maconheiro meio barra pesada que conhecia apenas de vista e comentei com um conhecido (que também queria experimentar) que esse cara poderia nos ajudar a comprar um baseado. Fomos atrás do sujeito e explicamos nosso desejo e pedimos sua "assessoria". Prontificou-se imediatamente em nos ajudar e pediu o dinheiro, pois "logo estaria de volta". Para ser sincero, estou esperando o bagulho até hoje. Talvez ele tenha se esquecido de nossas fisionomias, quem sabe, não é?

Falando sério, eu acredito que era tão bundão que nenhum maconheiro de respeito queria ser visto a meu lado, nenhum nunca quis me aplicar, como se dizia na época. Ainda bem.

Para explicar por que não fumo, não bebo nem cheiro, gosto de citar os versos do Belchior que dizem "a minha alucinação é suportar o dia a dia, o meu delírio é a experiência com coisas reais". Recentemente, ouvi uma frase que passou a ser minha predileta e que utilizo para terminar este post:

A Realidade me satisfaz.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

SEXO, DROGAS & ROCK' N ROLL - PARTE 1

Depois da criação do blog, a fase adulta de minha vida já foi exposta em vários textos, desenhos, "poemas" e outras frescuras. Mas, ao contrário de algumas pessoas que conheço, o grande barato para mim é expor meu lado ridículo, grotesco e até condenável, por acreditar que é muito mais risível e atraente. Para mim, Mr. Hyde será sempre muito mais interessante que o Dr. Jeckyl, assim como o South Park é mais divertido que a Turma da Mônica ou o Clube do Mickey.

Após ter escrito as poucas lembranças que guardo da família de meu pai, depois de ter contado casos sobre meus avós maternos e de seus filhos, dei uma passeada também sobre lembranças da minha infância e juventude. Como já disse outras mil vezes, esses textos foram originalmente escritos para meus filhos. Com a criação do Blogson, fui, aos poucos, perdendo o pudor e postando esses textos, curiosamente os preferidos por quem acessa o blog.

Para "fechar" minha série pessoal, achei que precisava de um texto que falasse de minha vida de adulto jovem e solteiro (encerrada aos vinte e quatro anos). É claro que essa fase tem alguns casos mais "polêmicos" (o termo correto é "ridículos"), que mereciam ser esquecidos. Mesmo assim, resolvi abrir o Raul, ou melhor, o baú. E o título do post não poderia ser mais explícito. Porque a partir de agora, o assunto é Sexo, Drogas e Rock and Roll. Som na caixa!

ROCK AND ROLL
Começarei pela parte mais fácil, até por já ter falado sobre isso no post "Trilha Sonora". Em 1954, quatro anos depois de eu ter nascido, Bill Halley gravou "Rock Around the Clock", que é considerado por muita gente boa o primeiro rock and roll. Sem me preocupar com datas e se é ou deixou de ser o primeiro ou o quinto rock (esse assunto é controverso), o que sei é que minha vida sempre foi marcada pela batida desse ritmo. Aliás, um ritmo que, na sua origem, lembrava a batida acelerada do coração. Basta ouvir os rockões do Chuck Berry, por exemplo.

Como já disse antes, eu gostei do rock de imediato, não precisei de intermediários. Na casa de minha avó, casa de gente festeira e animada, o som que se ouvia era das músicas boas para dançar de rosto (quase) colado: boleros, tangos, fox-trots. Embora tivesse disco (78 rpm) de baião, não tinha disco de samba, um ritmo talvez exótico para quem nasceu no interior. E rock, claro, nem se conhecia.

Imagino que Bill Halley e Elvis Presley eram tocados no rádio, sem jabá, apenas como uma curiosidade, muito esporadicamente. O que me deixava puto, pois eu queria ouvir aquele som. Então fico tranquilo ao dizer que o rock é mais natural e espontâneo em minha vida que o samba, que tive de aprender a gostar.

Foi o rock também que fez com que eu quisesse me enturmar com gente fora do meu bairro (pois lá eu só via cachaceiros e barangas). Além disso, o desejo de reproduzir minhas músicas prediletas me mostrou a necessidade de aprender a tocar (espancar) violão, pois meu sonho era ser guitarrista solo de uma banda, e poder tocar para uma multidão que me amaria (as meninas) e admiraria (os marmanjos).

Essa conjunção de fatores (insegurança, carência afetiva crônica, tendência ao exibicionismo social), alguns típicos da adolescência e outros de fabricação própria, me direcionou para o próximo tópico destas lembranças. Mas, antes, só para fechar este tema, reproduzo o final do post “Trilha Sonora”:

E o rock, que surgiu em meados da década de 1950, daqui a algum tempo será apenas mais uma das curiosidades surgidas no terceiro planeta que orbita uma dos bilhões de estrelas que existem na Via Láctea, ela própria uma dos bilhões de galáxias que existem no Universo. Poeira de estrelas, portanto. Assim como eu.