quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

MÃE - CRIS GUERRA

 
Separando coisas guardadas por minha mulher, encontrei um livrinho pequeno, fininho com belas ilustrações, publicado pela Editora Miguilim, e delicado como parecer ser a autora do texto.
 
Cris Guerra é uma publicitária mineira, cronista, blogueira e escritora de sucesso. Mora atualmente em São Paulo e, desde 2022, prefere ser chamada de “Cris Pàz” (com “a” craseado), alteração que ela assim explica: “Cansei de ser chamada de guerreira”.
 
Pois bem, depois de gastar não mais que cinco minutos para ler o livreto encontrado  que me fez lembrar (e ter saudade) da mãe que meus filhos tiveram , decidi transcrevê-lo integralmente neste blog desconhecido e mais abandonado que ruína maia no meio da selva, . Entretanto, se ela vier a saber e se zangar por esta publicação-homenagem não autorizada, eu apagarei o post.
 
Até lá, espero que os leitores e leitoras que acessam o Blogson se deliciem com o texto – que tentei manter quase com a mesma diagramação do livro.
 
 
Dizem:
quando nasce um bebê, nasce também uma mãe.
 
É um polvo.
Um restaurante delivery. Uma máquina de chocolate prontinho. Uma mecânica de carrinhos e controle remoto. Uma médica de bonecas. Uma professora–terapeuta–cozinheira de carreira medíocre. Nasce uma fábrica de cafuné, um chafariz de soro biológico, um robô que desperta ao som de choro.
 
E principalmente: nasce a fada do beijo
 
Quando nasce um bebê, nasce também o medo da morte
– mães não se conformam em deixar o mundo sem encaminhar devidamente um filho.
 
Não pense você que ao se tornar mãe uma mulher abandona todas as mulheres que já foi um dia. Bobagem. Ganha mais mulheres em si mesma. Com seus desejos aumentam sua audácia, sua garra, seus poderes.
Se já era impossível, cuidado:
ela vira muitas.
 
Também não me venha imaginar mães como seres delicados e frágeis.
Mães são fogo. Ninguém segura. Se antes eram incapazes de matar um mosquito, adquirem uma fúria inédita. Montam guarda ao lado de suas crias, dispostas a enfrentar tudo o que zumbir perto delas.
pernilongos, lagartas, leões, gente.
 
Mães não têm tempo para o ensaio: estreiam a peça no susto.
 
Aprendem a pilotar o avião em pleno voo. E dão o exemplo, mesmo que nunca tenham sido exemplo.
 
Cobrem seus filhos com o cobertor que lhes falta. E, não raro, depois de fazerem o impossível, acreditam que poderiam ter feito melhor.
 
Nunca estarão prontas para a tarefa gigantesca que é criar um filho.
– alguém está?
 
Mente quem diz que mãe sente menos dor – pelo contrário! Ela apenas aprende a deixar sua dor para outra hora. Atira o seu choro no chão para ir acalentar o do filho.
 
Nas horas vagas, dorme. Abastece a casa. Trabalha. Encontra os amigos. Lê, ou adormece com um livro no rosto. E, quando tem tempo pra chorar – cadê?
passou.
 
A mãe então aproveita que a casa está calma e vai recolher os brinquedos da sala. Como esse menino cresceu, ela pensa, a caminho do quarto do filho. Termina o dia exausta, sentada no chão da sala, acompanhada de um sorriso besta.
 
Já os filhos, ah os filhos fazem a mãe voltar os olhos para coisas que não importavam antes. O índice de umidade do ar. Os ingredientes o suco de caixinha. O nível de sódio do macarrão sem glúten.
Onde fica Guiné–Bissau.
Os rumos da agricultura orgânica. As alternativas contra o aquecimento global. Política.
E até sua própria saúde.
 
Mães são mulheres ressuscitadas.
Filhos as rejuvenescem, tornando suas vidas mais perigosas
– e mais urgentes.
 
Qundo nasce um bebê nasce uma empreiteira. Capaz de cavar a estrada qundo não há caminho, só pra poder indicar:
 
Por ali, filho, naquela direção.
 
 

7 comentários:

LINDO!

 Achei lindo este poema encontrado no Facebook.