Vivi 55 anos da minha vida ao lado da mulher
que amava (e sempre amarei). Isso significa que passei toda a minha vida adulta
ao lado dela, tempo em que fomos nos moldando e nos adaptando um ao outro, de
tal forma que não consigo imaginar como eu seria hoje se nunca a tivesse conhecido. Provavelmente teria me casado com uma antiga namorada, talvez já
estivesse divorciado, morando em outro estado ou país, tivesse ficado rico
ou pobre de marré de si. Talvez alcoólatra, maconheiro ou monge
budista, sei lá o quê!
Só sei uma coisa, perder a mulher da minha
vida embaçou meu dia-a-dia e tirou minha vontade de viver, de continuar
vivendo – apesar dos filhos, filhas e netas. Hoje eu acordo com uma
enorme sensação de vazio, sem vontade ou ânimo para nada. Apesar disso,
levanto-me e faço o que preciso fazer, mas tudo ficou irreal, irrelevante, sem
sentido. Hoje eu me sinto tão inútil quanto um balão de gás que se esvaziou.
Leio as notícias nos portais que sempre
acessei, irrito-me com os acontecimentos ou declarações de gente idiota, mas
digo “foda-se!” mentalmente,
pois nada mais tem importância para mim. Ou melhor, a escala de valores mudou.
O que era relevante deixou de ser.
Saudade: tenho controlado sem maior esforço,
consigo rir, falar asneiras e até me divertir. À noite, com os olhos já
fechando de sono, beijo o terço que ela estava usando mais recentemente,
digo “Boa noite, Amor!”, deito e
durmo com a maior facilidade, quase instantaneamente. É uma sensação estranha
de estar com alguém que não está mais aqui.
Agora estou envolvido na tarefa de desapegar
e doar a imensa quantidade de objetos, livros, calçados, bolsas, roupas, vasilhas
e até papéis e caixas de presente que ela insistia em guardar para futura
reutilização. O resultado imediato desse mergulho foi encontrar uma pequena
caixa da Mesbla, nunca
utilizada. Para mim, um fissurado pela preservação da memória, essa embalagem
antiga já seria o presente. Para quem não sabe, Mesbla é o nome de uma grande rede de lojas de departamentos, que faliu em 1999.
Tentando organizar a suruba, fiz uma relação
das doações pretendidas de forma quase didática, onde listei sapatos de salto
alto e salto baixo, sandálias, chinelos e rasteirinhas, bolsas, cintos, blusas de
frio e casacos, calças de malha e de tecido, bermudas, camisas e camisetas,
camisolas e pijamas, saias, vestidos curtos e longos, roupas de uso doméstico,
roupas para costurar, apertar ou modificar.
Vieram depois as joias e bijuterias diversas:
colares, lenços, produtos variados para maquiagem, escovas elétricas, bolas de
plástico para piscina infantil, peças de artesanato em mdf, uma máquina de
tricô Lanofix e suas linhas, copos de vidro para milk-shake e banana split,
embalagens para presente, tecidos diversos para costura, sacolas e papéis para
reciclagem, livros, pratos, copos, panelas de aço inox, xícaras de café,
pacotes de chá de vários sabores. etc. etc. etc.
Pela quantidade e diversidade dos ítens, pensei até em
fazer um brechó ou bazar na garagem, mas fui dissuadido disso pelos filhos, preocupados
com um portão convidativamente aberto, permitindo a entrada de desconhecidos em
nossa casa. Apesar disso, muita coisa já foi doada.
Mas difícil mesmo é separar as roupas que ela
usou. Comecei por esvaziar três das dezesseis gavetas do armário de onde minhas
roupas foram expulsas para dar lugar às dela. Acumuladora em nível médio,
recusava-se a se desfazer de roupas esquecidas há séculos nos cabides e
gavetas, ou daquelas que não serviam mais ou, até mesmo, que estavam fora de moda.
A dificuldade maior não é esvaziar as gavetas, mas rever e manusear roupas que
ela usou nos últimos tempos. Lembrar-me dela, tão linda, usando uma dessas faz
minha garganta se fechar e os olhos arderem.
Não tenho a intenção de apagar sua memória
entranhada nessas roupas e objetos, apenas de dar nova destinação ao que não
será mais usado. Depois de tudo separado e doado, os armários utilizados por
ela ficarão vazios – mas nada comparado ao vazio que sinto por dentro.
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Ei Jotabê,
ResponderExcluirA Mesbla!!! Gente fui longe
agora com esa sua
publicação contemplativa.
Aliás, já terminei a leitura
do seu licr Ela.
Lindas memórias.
Abraço
CatiahôAlc.
Que bom que gostou!
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