quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

BALÃO DE GÁS

Vivi 55 anos da minha vida ao lado da mulher que amava (e sempre amarei). Isso significa que passei toda a minha vida adulta ao lado dela, tempo em que fomos nos moldando e nos adaptando um ao outro, de tal forma que não consigo imaginar como eu seria hoje se nunca a tivesse conhecido. Provavelmente teria me casado com uma antiga namorada, talvez já estivesse divorciado, morando em outro estado ou país, tivesse ficado rico ou pobre de marré de si. Talvez alcoólatra, maconheiro ou monge budista, sei lá o quê!
 
Só sei uma coisa, perder a mulher da minha vida embaçou meu dia-a-dia e tirou minha vontade de viver, de continuar vivendo – apesar dos filhos, filhas e netas. Hoje eu acordo com uma enorme sensação de vazio, sem vontade ou ânimo para nada. Apesar disso, levanto-me e faço o que preciso fazer, mas tudo ficou irreal, irrelevante, sem sentido. Hoje eu me sinto tão inútil quanto um balão de gás que se esvaziou.
 
Leio as notícias nos portais que sempre acessei, irrito-me com os acontecimentos ou declarações de gente idiota, mas digo “foda-se!” mentalmente, pois nada mais tem importância para mim. Ou melhor, a escala de valores mudou. O que era relevante deixou de ser.
 
Saudade: tenho controlado sem maior esforço, consigo rir, falar asneiras e até me divertir. À noite, com os olhos já fechando de sono, beijo o terço que ela estava usando mais recentemente, digo “Boa noite, Amor!”, deito e durmo com a maior facilidade, quase instantaneamente. É uma sensação estranha de estar com alguém que não está mais aqui.
 
Agora estou envolvido na tarefa de desapegar e doar a imensa quantidade de objetos, livros, calçados, bolsas, roupas, vasilhas e até papéis e caixas de presente que ela insistia em guardar para futura reutilização. O resultado imediato desse mergulho foi encontrar uma pequena caixa da Mesbla, nunca utilizada. Para mim, um fissurado pela preservação da memória, essa embalagem antiga já seria o presente. Para quem não sabe, Mesbla é o nome de uma grande rede de lojas de departamentos, que faliu em 1999. 
 
Tentando organizar a suruba, fiz uma relação das doações pretendidas de forma quase didática, onde listei sapatos de salto alto e salto baixo, sandálias, chinelos e rasteirinhas, bolsas, cintos, blusas de frio e casacos, calças de malha e de tecido, bermudas, camisas e camisetas, camisolas e pijamas, saias, vestidos curtos e longos, roupas de uso doméstico, roupas para costurar, apertar ou modificar.
 
Vieram depois as joias e bijuterias diversas: colares, lenços, produtos variados para maquiagem, escovas elétricas, bolas de plástico para piscina infantil, peças de artesanato em mdf, uma máquina de tricô Lanofix e suas linhas, copos de vidro para milk-shake e banana split, embalagens para presente, tecidos diversos para costura, sacolas e papéis para reciclagem, livros, pratos, copos, panelas de aço inox, xícaras de café, pacotes de chá de vários sabores. etc. etc. etc.
 
Pela quantidade e diversidade dos ítens, pensei até em fazer um brechó ou bazar na garagem, mas fui dissuadido disso pelos filhos, preocupados com um portão convidativamente aberto, permitindo a entrada de desconhecidos em nossa casa. Apesar disso, muita coisa já foi doada.
 
Mas difícil mesmo é separar as roupas que ela usou. Comecei por esvaziar três das dezesseis gavetas do armário de onde minhas roupas foram expulsas para dar lugar às dela. Acumuladora em nível médio, recusava-se a se desfazer de roupas esquecidas há séculos nos cabides e gavetas, ou daquelas que não serviam mais ou, até mesmo, que estavam fora de moda. A dificuldade maior não é esvaziar as gavetas, mas rever e manusear roupas que ela usou nos últimos tempos. Lembrar-me dela, tão linda, usando uma dessas faz minha garganta se fechar e os olhos arderem.
 
Não tenho a intenção de apagar sua memória entranhada nessas roupas e objetos, apenas de dar nova destinação ao que não será mais usado. Depois de tudo separado e doado, os armários utilizados por ela ficarão vazios – mas nada comparado ao vazio que sinto por dentro.
 
 
 

2 comentários:

  1. Ei Jotabê,
    A Mesbla!!! Gente fui longe
    agora com esa sua
    publicação contemplativa.
    Aliás, já terminei a leitura
    do seu licr Ela.
    Lindas memórias.
    Abraço
    CatiahôAlc.

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