sábado, 17 de janeiro de 2026

PREFERE SONHO OU REALIDADE?


Esta crônica foi escrita originalmente com palavras mais cruas, com linguagem mais explícita. Sugeriram que eu a tornasse "palatável" para leitoras de comportamento mais delicado e elegante. Até pedi ajuda ao moralista ChatGPT, mas a versão ficou muito suave, quase asséptica. Aí resolvi fazer uma suavizada jotabélica.

Ele precisava falar com alguém. Precisava de companhia. Ligou para uma antiga amiga.
 
- Oi, Ricardo, que surpresa! Como você está?
- Vivendo.
- Parece que não está bem…
- Que "nada" você tem para fazer hoje?
- Como assim?
- Reformulando: você tem alguma coisa para fazer hoje?
- Não. Só ver o BBB. Por quê?
- Queria te convidar para comer uma pizza. Estou precisando de companhia.
- Adorei! Amo pizza. Você me pega aqui?
- Eu te pego em qualquer lugar, do jeito que você quiser, meu sonho sempre foi te pegar.
- Engraçadinho!
- Oito horas?
- Oito.
 
Às oito em ponto ele a pegou na porta do prédio. Ela já o esperava na calçada. Estava envelhecida, mas continuava alimentando suas fantasias.
Depois dos beijinhos automáticos, ela perguntou como ele estava, enquanto escolhia o sabor da pizza.
 
- E então, como está convivendo com a solidão?
- Estranha. Casa vazia. Vida vazia.
- Você gostava bem dela, não?
- Sim e não. Talvez estivesse acostumado a uma rotina cheia de silêncios. Quando ela se separou eu me assustei, mas entendi. Já não transávamos havia três anos.
- Três anos? E como você administrava isso?
- Usava o método adolescente, no banheiro.
- Credo!
- Horrível está agora. Nunca tive tanta vontade de contato físico com uma mulher, com o corpo nu de uma mulher! Abraçar, beijar, cheirar, tocar, todas as possibilidades que um encontro íntimo propicia. E isso está me deixando maluco.
 
Ela desviou o olhar.
 
- E o que você pretende fazer? Pagar uma garota de programa?
- Está louca? Eu sempre valorizei a afinidade, a intimidade com a parceira.
- Onde você acha que vai encontrar isso hoje?
- Foi por isso que te convidei para comer pizza.
 
Incrédula, ela reaspondeu:
 
- Você enlouqueceu?
- Talvez. Mas sempre tive a sensação de que você gostava de me provocar  e seduzir com suas histórias sensuais e picantes.
- Nunca te contei histórias picantes!
- Contou de homens. De sexo. E aquilo incendiava minha imaginação. O auge foi quando me matou de desejo ao contar ter ido para o motel com um ex-colega de colégio, só para realizar uma fantasia dele. Que inveja do filhadaputa! E a minha fantasia sexual, como é que fica? Devia ter te contado, pois eu tenho frequentes sonhos eróticos com você. E são ótimos!
- Essa conversa está me deixando constrangida.
- Calma, coma sua pizza! Quer mais cerveja?
- Não, obrigada.
- Só mais uma lembrança: lembra de um natal passado na casa da sua mãe, em que você sentou ao meu lado? Como o sofá estava cheio de crianças barulhentas, você ficou tão próxima de mim que nossas coxas se encostaram. Você estava linda. Depois, as crianças saíram e ficamos só nós dois no sofá em uma sala vazia, a sua coxa deliciosa espremida na minha. Você não se arredou! Fiquei tão inseguro com a possibilidade de alguém nos ver assim que também me levantei, Mas fiquei com a sensação de que você tinha vontade de dar para mim. E você era a garota mais gostosa do bairro! Falando sério, você alguma vez teve vontade de dar para mim? Ainda está em tempo!
 
Ela ia responder quando alguém tocou seu ombro.
 
- Pai, acorda! A pizza chegou.
 
Estava em uma pizzaria e tinha cochilado. O filho o olhava com impaciência. Olhou sem vontade para a fatia de marguerita colocada em seu prato. Não queria comer pizza, o que queria mesmo era ter escutado a resposta.
 

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Esta crônica foi escrita originalmente com palavras mais cruas, com linguagem mais explícita. Sugeriram que eu a tornasse "palatável...