Outro dia minha irmã me entregou um envelope amarelecido e manchado pela ação do tempo, que estava guardado dentro de um livro de orações da minha mãe. Segundo ela, ao procurar uma certidão antiga, encontrou esse envelope. Dentro, uma carta endereçada a mim, escrita por meu tio e padrinho em “papel de carta”, com uma letra miúda, quase feminina.
É uma carta estranha, escrita para me ajudar a vencer a insegurança da adolescência. Sinceramente, não me lembro de jamais ter recebido essa carta nem consigo imaginar por que foi guardada por minha mãe. Teria sido escrita por ela como se fosse meu tio e desistido de me enviar?
Talvez essa carta tenha sido motivada por sinais que eu já dava naquela época. Aos dezesseis anos, eu carregava uma mistura intensa de medo, culpa e curiosidade. Talvez eu tivesse morrido de vergonha ao lê-la, pois vivia com a sensação de estar sempre fazendo algo errado, mesmo quando ninguém dizia nada.
Afinal, para quem pediu perdão a Deus pelo gozo da primeira masturbação, para quem furou a porta do banheiro para ver a tia solteira tomar banho e imaginou aprender a beijar lendo as revistas Seleções do Reader’s Digest deixadas justamente por esse tio, não seria nada demais receber conselhos para me ajudar a viver e a vencer o medo paralisante que sentia.
O pequeno furo na porta do banheiro, feito e refeito algumas vezes, denunciava um desejo que eu não sabia controlar. Ninguém nunca mencionou o assunto, mas o pequeno furo estava lá, visível. Minha mãe certamente o viu. O silêncio, nesse caso, parece ter sido a forma escolhida para ela lidar com aquilo.
Talvez por isso a carta. Não como repreensão direta, mas como desvio: falar de timidez, de medo, de insegurança, quando o problema parecia maior e mais difuso. Aos dezesseis anos eu já carregava uma neurose daquelas boas, algo que, mesmo para os padrões confusos da adolescência, não parecia exatamente normal.
Teria sido essa a motivação? A incapacidade de ter uma conversa franca e direta comigo? Nunca saberei a verdade. Mesmo assim, resolvi digitar o conteúdo dessa provável “fake letter”, corrigindo os erros de português, para talvez publicar no blog. Meu tio e padrinho morreu em 1988 e minha mãe em 2009.
Zezinho,
Estou te escrevendo porque gosto de você e porque sou seu padrinho. Sempre falei que você parece comigo quando eu era novo, quieto demais, cheio de medo das coisas. Mesmo morando fora e trabalhando em outra cidade, a gente nunca deixa de pensar na família.
Quando saí de casa pra estudar odontologia em Uberaba, achei que ia ficar mais tranquilo, mais solto pra conversar com as moças. Eu sempre fui muito sério, diferente dos meus irmãos, mais quieto, sempre com medo de errar, de passar vergonha. Comecei a trabalhar cedo, mas tinha dificuldade para arranjar namorada.
Demorei pra beijar uma menina, pra namorar, e quando namorei não durou muito. Eu não sabia o que dizer, ficava nervoso demais. Esse medo acabava me atrapalhando mais do que ajudando. Eu queria acertar tanto que não fazia nada direito. Ainda bem que conheci a Teresinha.
Com o tempo entendi que ninguém nasce sabendo. Todo mundo passa vergonha alguma vez. Ouvir um não dói, mas passa. Ficar sem tentar é pior. Medo todo mundo tem, mas não pode deixar ele mandar na gente.
Você sempre foi mais tímido, mas está fazendo dezesseis anos hoje, não tenha vergonha de não saber. Pergunte, tente, arrisque. Se der errado, faz parte da vida. O importante é não ficar parado.
Venha me visitar um dia, assim eu aproveito e dou uma olhada nos seus dentes. E parabéns pelo aniversário.
Cici.
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