domingo, 25 de janeiro de 2026

"PELA ESTRADA AFORA EU VOU"...

 
Depois de ficar sabendo que o deputado Nikolas Ferreira resolveu fazer uma caminhada até Brasília em defesa da liberdade (do Bolsonaro) e da justiça (o que ele entende por isso), uma espécie de “coluna Prestes” da Direita, fiquei pensando o que move alguém a fazer uma idiotice dessas. Depois, com mais calma, entendi que idiotas somos nós que damos atenção a essa jogada de marketing. Como sou confessadamente um ignorantão em matéria de política e, para ser sincero, já estar de saco dessas birrinhas envolvendo bolsonaristas e lulistas, pedi ao ChatGPT, meu consultor para assuntos aleatórios, uma análise histórica da situação.
 
Para isso, fiz à IA esta pergunta: Por que a Direita brasileira odeia o Lula e seu governo? Ele está ou não fazendo um bom governo?”
 
O resultado foi um “cartapácio” de sete páginas, grande demais para ser publicado no blog de amenidades que é o Blogson.
 
No final, o GPT propôs:
Se quiser, posso:
enxugar ainda mais para um artigo acadêmico,
adaptar para linguagem jornalística, ou
incluir referências teóricas (Arendt, Levitsky & Ziblatt, Todorov, etc.).
 
Pedi para enxugar aquele palavrório todo e saiu um texto mais sucinto, com nova proposta no final:
 
Se quiser, posso:
encurtar para artigo de jornal impresso,
adaptar para coluna de opinião, ou
deixar mais ácido / mais neutro, dependendo do veículo.
 
Achei de bom tamanho o resultado e é este que transcrevo a seguir:
 
Quando a política vira guerra moral
O debate político brasileiro vive hoje menos de projetos e mais de identidades. A disputa deixou de ser apenas sobre políticas públicas e passou a operar como confronto moral, no qual o adversário é tratado não como opositor legítimo, mas como ameaça existencial. Nesse ambiente, a história, a cultura e até o Judiciário entram em cena como armas simbólicas, usadas para reforçar posições já cristalizadas.
A memória histórica continua presente no debate público, mas raramente aparece como instrumento de reflexão. Ela é acionada de forma seletiva, conforme a conveniência política do momento. Episódios do passado funcionam como atalhos morais: servem para acusar, rotular e deslegitimar, não para explicar. O resultado é um empobrecimento do debate e o aprofundamento da polarização.
Esse mecanismo se expressa com força no campo cultural. Filmes e obras que abordam temas sensíveis da história recente provocam reações políticas imediatas. Reconhecimentos internacionais são interpretados, por setores da direita, como ataques ideológicos ao país ou tentativas de impor uma leitura única da história. Para outros, representam gestos legítimos de memória e crítica. A cultura, assim, deixa de ser espaço de reflexão e passa a integrar o conflito político cotidiano.
A mesma lógica organiza o antipetismo, eixo central da direita brasileira contemporânea. O ódio ao presidente Lula vai além de avaliações sobre economia ou políticas sociais. Lula se tornou um símbolo: do PT, do sindicalismo, do protagonismo do Estado e da ascensão dos mais pobres. Para diferentes grupos da direita — liberais, conservadores morais, evangélicos e bolsonaristas — rejeitá-lo funciona como identidade política compartilhada.
Esse antipetismo dispensa programa e substitui propostas por rejeição. A corrupção, embora real nos governos petistas, é lembrada de forma seletiva, enquanto práticas semelhantes em campos aliados são relativizadas. Ao mesmo tempo, Lula governa de forma pragmática, sem rupturas institucionais, o que frustra narrativas alarmistas e intensifica o ressentimento. O conflito, portanto, não é apenas sobre desempenho, mas sobre o que Lula representa.
Mesmo com um governo institucionalmente estável, economicamente moderado e socialmente previsível, a hostilidade persiste. O governo Lula III recompõe relações entre os Poderes, reduz conflitos institucionais e retoma políticas sociais, mas não dissolve a polarização porque ela se alimenta de identidades, não de resultados.
É nesse cenário que lideranças como o deputado federal Nikolas Ferreira ganham projeção. O parlamentar mais votado da última eleição, evangélico e identificado com a direita, mobiliza apoio por meio de discursos morais e simbólicos. A proposta de uma caminhada de Minas Gerais até Brasília, apresentada como defesa da “justiça” e da “liberdade”, inclusive em favor de envolvidos em atos golpistas, ilustra como disputas políticas e jurídicas são deslocadas para um terreno moral absoluto, onde o adversário passa a ser visto como inimigo.
O risco desse processo é a normalização da lógica de confronto permanente. Quando a política se transforma em guerra moral, o espaço para negociação, compromisso e pluralismo se estreita. Tudo vira prova de caráter, e qualquer divergência é tratada como ameaça.
Talvez o principal desafio do Brasil hoje não seja escolher entre direita ou esquerda, mas entre radicalização e institucionalidade. Enquanto o debate público continuar organizado em torno do ódio, da deslegitimação e da moralização absoluta, o país seguirá preso a um conflito que se retroalimenta — e que impede a construção de projetos políticos capazes de dialogar com a complexidade do presente.
 

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