Separando coisas guardadas por minha mulher,
encontrei um livrinho pequeno, fininho com belas ilustrações, publicado pela
Editora Miguilim, e delicado como parecer ser a autora do texto.
Cris Guerra é uma publicitária mineira,
cronista, blogueira e escritora de sucesso. Mora atualmente em São Paulo e,
desde 2022, prefere ser chamada de “Cris Pàz” (com “a” craseado), alteração que
ela assim explica: “Cansei de ser chamada
de guerreira”.
Pois bem, depois de gastar não mais que cinco
minutos para ler o livreto encontrado – que me fez lembrar (e ter saudade) da mãe que meus filhos tiveram –, decidi transcrevê-lo integralmente neste
blog desconhecido e mais abandonado que ruína maia no meio da selva, .
Entretanto, se ela vier a saber e se zangar por esta publicação-homenagem não
autorizada, eu apagarei o post.
Até lá, espero que os leitores e leitoras que
acessam o Blogson se deliciem com o texto – que tentei manter quase com a mesma
diagramação do livro.
Dizem:
quando
nasce um bebê, nasce também uma mãe.
É um
polvo.
Um
restaurante delivery. Uma máquina de chocolate prontinho. Uma mecânica de
carrinhos e controle remoto. Uma médica de bonecas. Uma professora–terapeuta–cozinheira
de carreira medíocre. Nasce uma fábrica de cafuné, um chafariz de soro
biológico, um robô que desperta ao som de choro.
E
principalmente: nasce a fada do beijo
Quando
nasce um bebê, nasce também o medo da morte
– mães
não se conformam em deixar o mundo sem encaminhar devidamente um filho.
Não
pense você que ao se tornar mãe uma mulher abandona todas as mulheres que já
foi um dia. Bobagem. Ganha mais mulheres em si mesma. Com seus desejos aumentam
sua audácia, sua garra, seus poderes.
Se já
era impossível, cuidado:
ela
vira muitas.
Também
não me venha imaginar mães como seres delicados e frágeis.
Mães
são fogo. Ninguém segura. Se antes eram incapazes de matar um mosquito,
adquirem uma fúria inédita. Montam guarda ao lado de suas crias, dispostas a
enfrentar tudo o que zumbir perto delas.
pernilongos,
lagartas, leões, gente.
Mães
não têm tempo para o ensaio: estreiam a peça no susto.
Aprendem
a pilotar o avião em pleno voo. E dão o exemplo, mesmo que nunca tenham sido
exemplo.
Cobrem
seus filhos com o cobertor que lhes falta. E, não raro, depois de fazerem o
impossível, acreditam que poderiam ter feito melhor.
Nunca
estarão prontas para a tarefa gigantesca que é criar um filho.
–
alguém está?
Mente
quem diz que mãe sente menos dor – pelo contrário! Ela apenas aprende a deixar
sua dor para outra hora. Atira o seu choro no chão para ir acalentar o do
filho.
Nas
horas vagas, dorme. Abastece a casa. Trabalha. Encontra os amigos. Lê, ou
adormece com um livro no rosto. E, quando tem tempo pra chorar – cadê?
passou.
A mãe
então aproveita que a casa está calma e vai recolher os brinquedos da sala.
Como esse menino cresceu, ela pensa, a caminho do quarto do filho. Termina o
dia exausta, sentada no chão da sala, acompanhada de um sorriso besta.
Já os
filhos, ah os filhos fazem a mãe voltar os olhos para coisas que não importavam
antes. O índice de umidade do ar. Os ingredientes o suco de caixinha. O nível
de sódio do macarrão sem glúten.
Onde
fica Guiné–Bissau.
Os
rumos da agricultura orgânica. As alternativas contra o aquecimento global.
Política.
E até
sua própria saúde.
Mães
são mulheres ressuscitadas.
Filhos
as rejuvenescem, tornando suas vidas mais perigosas
– e
mais urgentes.
Qundo
nasce um bebê nasce uma empreiteira. Capaz de cavar a estrada qundo não há
caminho, só pra poder indicar:
Por
ali, filho, naquela direção.
Texto muito bom!
ResponderExcluirMães são iguais em todo reino animal.
Minha mãe me dizia um provérbio popular lá do seu tempo:
"ser mãe é padecer no paraíso".
Sim!
ExcluirGostei da escrita.
ResponderExcluirMuito boa, mesmo.
Realmente.
ExcluirO senhor aponta meu blog aí, a direita do seu. Obrigada, de coração!!!
ResponderExcluirSim!
ExcluirJotabê,
ResponderExcluirLinda transcrição.
Abraço.
CatiahôAlc,