sexta-feira, 29 de maio de 2026

CURRAL DEL REI

 
A cidade onde moro foi projetada e construída sobre Curral del-Rei, um povoado arrasado e demolido para que surgisse a nova capital do estado. Começou assim: destruindo o que já existia. Sensacional.
 
O projeto foi feito por engenheiros, mas engenheiro calcula e executa, não projeta nem deveria. Ainda mais uma cidade!
 
Previu-se uma avenida-anel contornando a área central, confinando e destacando os maiorais: funcionários públicos, empresários, gente abonada, bacana, em casas mais simples ou palacetes, mas cada um no seu quadrado – ou retângulo, pois as ruas e avenidas cruzam-se em desenho ortogonal, pouco importando se aquilo eram ladeiras vertiginosas. As curvas de nível foram solenemente ignoradas.
 
Aliás, talvez o único nível realmente respeitado fosse o social.
 
A área contornada era cercada de colônias agrícolas onde a ralé e os imigrantes – espanhóis, italianos, portugueses – compunham a turma do agro, necessária para alimentar os parasitas públicos e os grandes negociantes da cidade, sempre dispostos às grandes negociatas.
 
Com o tempo, essas colônias foram loteadas, fazendo surgir os bairros mais antigos da cidade: periféricos, de urbanização desleixada, casas simples, ruas, becos e calçadas sem padrão, como se a própria arquitetura denunciasse sua origem desimportante.
 
A população desses bairros também carregava essa marca. Afinal, como conviver com a elite sócio-econômica da cidade? Só mesmo na zona, em um dos muitos puteiros discretamente afastados do olhar das famílias de bem. E sabe por que estou dizendo tudo isso?
 
Porque quis o destino – ou um anjo safado, ou talvez um chato de um querubim – que eu nascesse num desses bairros periféricos, depois que meu pai viu a quebra das empresas familiares das quais um dia fora sócio. O resultado foi sair da área nobre para morar na casa da sogra, ela própria uma deserdada do destino, depois de assistir ao patrimônio deixado pelo pai ser embolsado pelos irmãos filhos da puta.
 
Éramos pobres, sem nos dar conta disso, exceto quando confrontados com nossos dois únicos primos por parte de mãe. Eles, as únicas crianças com quem podíamos brincar, eram ricos de nascença, tinham brinquedos incríveis, bicicletas, passavam as férias na praia ou em estâncias hidrominerais. E nós lá, só olhando – e babando.
 
Que tal ir à Praça da Estação para nos despedir deles em uma de suas viagens para o Rio? Bom, não é? Que tal ser convidado a entrar no Vera Cruz, que era o melhor trem de passageiros da época (com ar condicionado e tudo mais), só para conhecer a cabine onde os primos viajariam (deitados, claro, em camas beliche)? Excelente, não? Pois é, eu já fui levado a um ou dois desses bota-fora, à noite. A volta para casa sempre tinha um gostinho de fundo de gaiola.
 
Talvez venha daí essa insegurança atávica que trago hoje comigo: a percepção de que ter cultura é muito bom, mas melhor mesmo é viajar para a Europa.
 
Esta talvez seja a verdadeira explicação “histórico-geográfico-sociológica” do meu complexo de vira-latas.
 
Porque, no fundo, a questão que fica é esta: como tratar com naturalidade despreocupada, como conviver naturalmente com a elite econômica da cidade se eu nunca fiz parte dela?

3 comentários:

  1. Jotabê,
    Taí uma publicação sua que
    li com muita atenção e aproveitando
    cada palavra e cada pontuação,
    não a pontuação da gramática, mas
    da sua exposição. Trazendo a reflexão
    pra minha vida, nunca, mas nunca tive
    a visão das diferenças apontadas.
    Não que elas não existam ou que
    eu aço de conta que não existam,
    mas porque gosto ser agradecida
    por cada fase que minha família passou
    desde antes mesmo de meus pais se
    conhecerem. Sou de fato agradecida
    por viver nesse tempo chamado hoje.
    Mas uma coisa linda que seu texto
    faz é mostrar a tragetória de um lugar
    que abriga tantas histórias.
    Sabe, sou mineira de Caratinga, mas
    nunca fui até lá, eu só nasci lá
    e meus pais seguiram viagem, poisl
    lá em casa somos mutos filhos e
    pelo menos 2 de cada lugar e falo
    de Estado. Uma vez, saimos a passeio
    eu,meu esposo e um casal de amigos
    e perto do limite entre RJ e MG,
    meu amigo silvioafonso que dirigia
    pasou o carro antes da divisa,
    saimos do carro e ele disse
    - Minha Amiga Catiahô, atravessa a linha
    e entra na terra e Estado que vc nasceu.
    Eu fui, tiramos fotos e voltamos para
    nossa viagem que Não era para MG.
    Foi uma experiência linda, confesso.
    Tá vendo como seu texto é ótimo!
    Abraço
    CatiahôAlc.

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    1. Obs: respondi a seu
      comentario na publicação
      anterior, lá no Espelhando.

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    2. O contraste ficava visível no campo pessoal, com meus dois primos ricos. A ideia de juntar a memória da minha infância com a visão urbanística (que pode estar errada) serviu para dar mais peso ao texto.

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