segunda-feira, 4 de maio de 2026

CLARICE LISPECTOR

 
Já publiquei aqui no blog coletâneas de frases, pensamentos e aforismos criados por muitas pessoas. E gosto de fazer isso pela beleza das palavras e pensamentos tão bem ordenados, por ser uma homenagem a quem as criou, por serem uma prova da inteligência e lucidez de seus criadores. E a nova contribuição são frases sintéticas ou trechos de textos maiores escritos pela Clarice Lispector. Tudo muito lindo, reflexivo e sempre emocionante. Lêaí. 

- Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.

- Estou sendo alegre neste mesmo instante porque me recuso a ser vencida: então eu amo. Como resposta.

- A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes.

- É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.

- A invenção do hoje é o meu único meio de instaurar o futuro.

- Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!

- Por que é que as coisas um instante antes de acontecerem parecem já ter acontecido? É uma questão de simultaneidade de tempo.

- Estou cansada. Meu cansaço vem muito porque sou uma pessoa extremamente ocupada: tomo conta do mundo.

- Eu sou mansa, mas minha função de viver é feroz.

- O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.

- Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.

- Perder-se também é caminho.

- Eu amo a minha cruz, a que doloridamente carrego. É o mínimo que posso fazer de minha vida: aceitar comiseravelmente o sacrifício da noite.

- Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.

- Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.

- Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente.

- Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente.

- Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.

- O que importa afinal, viver ou saber que se está vivendo?

- E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço.

- Eu sou nostálgica demais, pareço ter perdido alguma coisa não se sabe onde e quando.

- A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida – e se parece com o início de uma perdição irrecuperável.

- Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão.

- Fique de vez em quando só, senão você será submergido. Até o amor excessivo dos outros pode submergir uma pessoa.

- E o que o ser humano mais aspira é tornar-se ser humano.

- Ter nascido me estragou a saúde.

- O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão.

- O que me mata é o cotidiano. Eu queria só exceções.

- Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios.

- Eu tenho que ser minha amiga, senão não aguento a solidão.

- Abandone-se, tente tudo suavemente, não se esforce por conseguir - esqueça completamente o que aconteceu e tudo voltará com naturalidade

- A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior, e não há uma palavra que a signifique.

- Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.

- Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.

- Às vezes, tudo que precisamos é de uma frase certa, no momento certo.

- Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.

- A palavra é meu domínio sobre o mundo.

- Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.

- Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.

- Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

- Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...

- É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.

- Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras.

- Passei a vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar.

- Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo – quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação.

- Que minha solidão me sirva de companhia, que eu tenha a coragem de me enfrentar. que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.

- Eu não sou tão triste assim, é que hoje eu estou cansada.

- Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever.

- Com perdão da palavra, sou um mistério para mim.

- O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós.

- Terei toda a aparência de quem falhou, e só eu saberei se foi a falha necessária.

- A única verdade é que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais.

- Nunca sei se quero descansar porque estou realmente cansada, ou se quero descansar para desistir.

- Tenho várias caras. Uma delas é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo.

- O que eu sinto eu não ajo. O que ajo não penso. O que penso não sinto. Do que sei sou ignorante. Do que sinto não ignoro. Não me entendo e ajo como se me entendesse.

- Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas.

- Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro.

- Sou um ser. E deixo que você seja. Isso lhe assusta? Creio que sim. Mas vale a pena. Mesmo que doa. Dói só no começo.

- Sou uma filha da natureza: quero pegar, sentir, tocar, ser. E tudo isso já faz parte de um todo, de um mistério.

- Sou um coração batendo no mundo.

- Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.

- Por te falar eu te assustarei e te perderei? mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia

- Que medo alegre, o de te esperar.

- Ando de um lado para outro, dentro de mim.

- Estou bastante acostumada a estar só, mesmo junto dos outros.

- Mas há a vida que é para ser intensamente vivida. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.

- Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio.

- Divertir os outros é um dos modos mais emocionantes de existir.

- Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim.

- Farei o possível para não amar demais as pessoas, sobretudo por causa das pessoas. Às vezes o amor que se dá pesa, quase como uma responsabilidade na pessoa que o recebe. Eu tenho essa tendência geral para exagerar, e resolvi tentar não exigir dos outros senão o mínimo. É uma forma de paz...

- Mas tantos defeitos tenho. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor: às vezes parecem farpas.

- Onde aprender a odiar para não morrer de amor?

- Amor será dar de presente ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si. Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Amor é a grande desilusão de tudo mais. Amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. E não é prêmio, por isso não envaidece.

- Amar não acaba. É como se o mundo estivesse à minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.

- Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor.

- Eu medito sem palavras e sobre o nada.

- Estou cansada de tanta gente me achar simpática. Quero os que me acham antipática porque com esses eu tenho afinidade: tenho profunda antipatia por mim.

- Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.

- A verdade não me faz sentido! É por isso que eu a temia e a temo. Desamparada, eu te entrego tudo – para que faças disso uma coisa alegre.

- O horrível dever é ir até o fim. E sem contar com ninguém. Viver a própria realidade. Descobrir a verdade. Pois não posso mais carregar as dores do mundo.

- Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente.

- Preciso aprender a não precisar de ninguém. É difícil, porque preciso repartir com alguém o que sinto.

- A vida, meu amor, é uma grande sedução onde tudo o que existe se seduz.

- Não se compreende música: ouve-se. Ouve-me então com teu corpo inteiro.

- Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim.

- Cada pessoa é um mundo, cada pessoa tem sua própria chave e a dos outros nada resolve; só se olha para o mundo alheio por distração, por interesse, por qualquer outro sentimento que sobrenada e que não é o vital; o ‘mal de muitos’ é consolo, mas não é solução.

- Que eu não esqueça que a subida mais escarpada, e mais à mercê dos ventos, é sorrir de alegria.

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