A cidade onde moro foi projetada e construída
sobre Curral del-Rei, um povoado arrasado e demolido para que surgisse a nova capital do
estado. Começou assim: destruindo o que já existia. Sensacional.
O projeto foi feito por engenheiros, mas
engenheiro calcula e executa, não projeta nem deveria. Ainda mais uma cidade!
Previu-se uma avenida-anel contornando a área
central, confinando e destacando os maiorais: funcionários públicos,
empresários, gente abonada, bacana, em casas mais simples ou palacetes, mas
cada um no seu quadrado – ou retângulo, pois as ruas e avenidas cruzam-se em
desenho ortogonal, pouco importando se aquilo eram ladeiras vertiginosas. As
curvas de nível foram solenemente ignoradas.
Aliás, talvez o único nível realmente
respeitado fosse o social.
A área contornada era cercada de colônias
agrícolas onde a ralé e os imigrantes – espanhóis, italianos, portugueses –
compunham a turma do agro, necessária para alimentar os parasitas públicos e os
grandes negociantes da cidade, sempre dispostos às grandes negociatas.
Com o tempo, essas colônias foram loteadas,
fazendo surgir os bairros mais antigos da cidade: periféricos, de urbanização
desleixada, casas simples, ruas, becos e calçadas sem padrão, como se a própria arquitetura
denunciasse sua origem desimportante.
A população desses bairros também carregava
essa marca. Afinal, como conviver com a elite sócio-econômica da cidade? Só mesmo na zona, em
um dos muitos puteiros discretamente afastados do olhar das famílias de bem. E
sabe por que estou dizendo tudo isso?
Porque quis o destino – ou um anjo safado, ou
talvez um chato de um querubim – que eu nascesse num desses bairros
periféricos, depois que meu pai viu a quebra das empresas familiares das quais um dia fora
sócio. O resultado foi sair da área nobre para morar na casa da sogra, ela
própria uma deserdada do destino, depois de assistir ao patrimônio deixado pelo
pai ser embolsado pelos irmãos filhos da puta.
Éramos pobres, sem nos dar conta disso,
exceto quando confrontados com nossos dois únicos primos por parte de mãe.
Eles, as únicas crianças com quem podíamos brincar, eram ricos de nascença,
tinham brinquedos incríveis, bicicletas, passavam as férias na praia ou em
estâncias hidrominerais. E nós lá, só olhando – e babando.
Que tal ir à Praça da Estação para nos
despedir deles em uma de suas viagens para o Rio? Bom, não é? Que tal ser
convidado a entrar no Vera Cruz, que era o melhor trem de passageiros da época
(com ar condicionado e tudo mais), só para conhecer a cabine onde os primos
viajariam (deitados, claro, em camas beliche)?
Excelente, não? Pois é, eu já fui levado a um ou dois desses bota-fora, à
noite. A volta para casa sempre tinha um gostinho de fundo de gaiola.
Talvez venha daí essa insegurança atávica que
trago hoje comigo: a percepção de que ter cultura é muito bom, mas melhor mesmo é
viajar para a Europa.
Esta talvez seja a verdadeira explicação “histórico-geográfico-sociológica”
do meu complexo de vira-latas.
Porque, no fundo, a questão que fica é esta: como tratar com naturalidade despreocupada, como conviver naturalmente com a elite econômica da cidade se eu nunca fiz parte
dela?
Jotabê,
ResponderExcluirTaí uma publicação sua que
li com muita atenção e aproveitando
cada palavra e cada pontuação,
não a pontuação da gramática, mas
da sua exposição. Trazendo a reflexão
pra minha vida, nunca, mas nunca tive
a visão das diferenças apontadas.
Não que elas não existam ou que
eu aço de conta que não existam,
mas porque gosto ser agradecida
por cada fase que minha família passou
desde antes mesmo de meus pais se
conhecerem. Sou de fato agradecida
por viver nesse tempo chamado hoje.
Mas uma coisa linda que seu texto
faz é mostrar a tragetória de um lugar
que abriga tantas histórias.
Sabe, sou mineira de Caratinga, mas
nunca fui até lá, eu só nasci lá
e meus pais seguiram viagem, poisl
lá em casa somos mutos filhos e
pelo menos 2 de cada lugar e falo
de Estado. Uma vez, saimos a passeio
eu,meu esposo e um casal de amigos
e perto do limite entre RJ e MG,
meu amigo silvioafonso que dirigia
pasou o carro antes da divisa,
saimos do carro e ele disse
- Minha Amiga Catiahô, atravessa a linha
e entra na terra e Estado que vc nasceu.
Eu fui, tiramos fotos e voltamos para
nossa viagem que Não era para MG.
Foi uma experiência linda, confesso.
Tá vendo como seu texto é ótimo!
Abraço
CatiahôAlc.
Obs: respondi a seu
Excluircomentario na publicação
anterior, lá no Espelhando.
O contraste ficava visível no campo pessoal, com meus dois primos ricos. A ideia de juntar a memória da minha infância com a visão urbanística (que pode estar errada) serviu para dar mais peso ao texto.
ExcluirO avanço do progresso na construção das cidades não foram feitas de forma justa ou "social". Aqui no Rio, esse processo empurrou gente pobre para os morros de onde surgiram as favelas.
ResponderExcluirMas veja pelo lado bom: você tinha amigo rico na infância. Por outro lado, sempre vai ter gente que tem mais e as que tem menos, isso é inevitável em qualquer regime econômico ou político. A grande sacada que os países que hoje são ricos é que eles conseguiram diminuir bastante a distância entre uns e outros.
Todo mundo que vem com esse questionamento está, na verdade, expressando como gostaria de estar com a burguesia que critica, pois se estivesse satisfeito, não estaria pensando nessas coisas. Acontece que ninguém está satisfeito onde está, então todo mundo almeja subir de patamar. As pessoas apenas estão em degraus diferentes. Comparando com a minha realidade, você (para mim) é um burguês. Tudo o que você disse a respeito de uma classe superior, serviria para eu falar sobre você. Calma, não se ofenda. Isto não é um julgamento. Lembra que que escrevi que ninguém está satisfeito de estar onde está? É isso. Eu olho quem está acima de mim e vejo você. E você olha que está de você e vê outro fulano. O fulano olha quem está aima dele e vê outro...
ResponderExcluirVocê já viu o filme O POÇO, da Netflix? É antigo. Deve ter uns dez anos. Muita gente odiou aquele filme, mas ele faz alguns pensarem sobre essas coisas, é que ele não fica ali expondo nitidamente, feito lições para o aluno aprender. A questão é mais do tipo mensagens subliminares.
Muita gente morreu, no filme, porque era preciso focar na própria subexistência, até que alguém conseguiu ir além e fez aquilo que muitos deveriam ter feito e não conseguiram: enviar a panacota dde volta ao seu local de origem.
Mas o que isso tem a ver? Nitidamente, nada. Mas dá margem para muita reflexão.
Só vi agora, Fabiano. Você tem toda razão! Felizes são aqueles que possuem grande riqueza interior, pois não precisam preocupar-se em "ter".
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