Esta noite/madrugada acordei com uma sensação
boa, com o desejo sincero de deixar de ser um ogro mal humorado ou, pelo menos,
passar a ser um ogro gentil. É claro que eu não me vejo sentado em uma mesa de
bar jogando conversa fora enquanto tomo uma coca-cola (ou leite com toddy trazido de casa). Isso é muito para
mim. Talvez fosse melhor dizer que isso não significa nada para mim, um
introvertido caladão que gosta de ficar isolado em um canto, só observando o
que rola em festas de aniversário ou de fim de ano.
Mas comecei a desejar transformar em
realidade o comportamento falso que sempre adotei ao me aproximar das pessoas,
especialmente daquelas que poderiam ter alguma utilidade momentânea para mim. E
esse desejo de mudança começou a brotar depois de publicar o texto “Disjuntor”.
Pode parecer engraçado, mas constatar que o tempo de vida médio de mais de
oitocentas personalidades falecidas em 2024 foi de 75 anos, mesmo sem levar em
conta a “causa mortis”, mexeu um
pouco comigo, um jovenzinho de 74
anos.
Talvez esteja acontecendo comigo o mesmo que
já aconteceu com muitas pessoas no fim da vida, o desejo de corrigir ou
reescrever os capítulos finais que já se encontravam esboçados ou rascunhados.
Pouco importa o motivo, na verdade. Mesmo assim, resolvi pesquisar meu
disjuntor particular, pois meu último sonho real é poder ver minhas netas
adolescentes, poder estar presente em suas festas de quinze anos, vê-las com seus namoradinhos ou namoradinhas (por que não?). Para isso, eu preciso viver até os
84 anos. Assim, reuni em uma planilha os dados de meus pais, avós e dos tios e tias
já falecidos. E a situação encontrada foi esta:
Meu pai e minha mãe morreram respectivamente
com 85 e 88 anos, o que me deixou animadinho, mas a média de vida dos parentes do sexo masculino (tios, avô materno e pai) chegou, só em 80 anos. Sacanagem! Se isso acontecer comigo será
como perder o jogo na disputa de pênaltis. Apesar da decepção, isso não
invalida meu desejo de ser um ogro feliz. Por isso, a partir de hoje,
procurarei sinceramente tratar a todos da forma mais amistosa e cordial possível. Claro, isso
será mais significativo no contato com pessoas humildes.
Sorrirei sem espalhafato, perguntarei o nome de
quem me atender (mesmo que o esqueça dentro de 10 segundos), falarei da
sonoridade obscena do meu próprio, só para ver o riso debochado ou desconcertado
das pessoas, agradecerei o atendimento que receber, cederei o meu lugar na fila
para senhoras idosas, serei o último a entrar no elevador só para que a porta não se feche, cumprimentarei discretamente quem passar por mim na rua –
sempre olhando nos olhos das pessoas, só para que elas saibam que alguém as
notou. Assim, quando eu morrer com 80 ou 85 anos, gostaria que se lembrassem de
mim como um sujeito amistoso, gentil e educado, alto astral e gente boa. Mas esse é o
desejo de uma pessoa viva. Depois de morto, não ligarei a mínima se ninguém se
lembrar de mim.
Belo texto que gostei de ler
ResponderExcluirCumprimentos poéticos
E aí, velhinho? (como dizia o Pernalonga), beleza?
ResponderExcluirOlha, cada um é como é. Uns mais introvertidos, outros mais extrovertidos. Uns mais bem humorados, outros ogros que não gostam de gente...é difícil mudar a personalidade mas é possível. Eu sempre fui muito ciumento, e isso atrapalhou bastante meu primeiro casamento. Quando ele terminou e eu conheci minha atual esposa (juntos há 20 anos) eu decidi que ia me livrar do ciúme doentio e me livrei. Fez bem para mim. Mude o que você acha que será melhor para você, não para os outros.
Quanto a esse negócio de idade, ver quando os pais morreram...sei não. Os meus não passaram dos 80 e morreram com doenças ruins. Meu pai aos 78 com câncer na bexiga, minha mãe aos 77 com alzheimer.
Não sei se verei algum neto, afinal de contas, fui pai já bem coroa aos 45 anos. Não tive filhos do meu primeiro casamento aos 24 anos.
O que será que será? O tempo dirá, vamos viver tudo o que há pra viver, como canta Lulu.
O engraçado é que eu usei hoje essa fala do Pernalonga em um zap para um dos filhos., sugerindo que me dissesse isso. Quanto ao resto, meu caro Eduardo, creio que a velhice finalmente entrou dentro de fim e, pior, sem lubrificante e sem camisinha.
ExcluirÉ isto mas a alternativa a isto é morrer jovem.
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