sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
NÃO QUE EU QUEIRA ME GAMBÁ, MAS...
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
JURA QUE ISSO É PSICOGRAFIA?
- Você acredita em espiritismo?
- Por que está perguntando?
- Curiosidade...
- Olha aqui, palhaço, já vou avisando: no Brasil preconceito religioso é crime, falou?
- Eu não tenho preconceito contra religiões! Só desconfio de certezas absolutas, inclusive das minhas.
- Cuidado com as idiotices que gosta de falar!
- Afinal, você acredita ou não acredita?
- Eu sou ateu, um cara que crê na descrença.
- Olha o filósofo!
- Vamos mudar de assunto?
- Só se for para falar de psicografia.
- Lá vem você!
- Meu vizinho ganhou de um amigo um livro psicografado por esse amigo. Mas ele só entende de futebol e cerveja, não necessariamente nessa ordem.
- E daí?
- Daí que ele me emprestou o livro, pedindo para eu dar minha opinião.
- Terceirizou a leitura, né?
- Pois é. Comecei a ler, mas achei os textos muito banais, piegas, excessivamente “edificantes”. Mesmo sem conhecer porra nenhuma do autor psicografado – exceto a fama de poeta maldito – não consegui deixar de pensar no que disse um crítico literário quando lhe perguntaram sobre livros psicografados. A resposta dele foi fulminante: disse não entender nada do mundo dos espíritos, mas que a morte fazia muito mal para o estilo dos autores psicografados.
- Já imagino que sua avaliação não será muito animadora para quem te emprestou o livro.
- Pois é. Se o psicografador publicasse o livro assumindo claramente a autoria, não haveria problema algum. Bom ou ruim, seria ele ali, em cada texto, não um autor falecido.
- Você acha que ele inventou tudo?
- Não, de jeito nenhum, só acho que ele acreditou receber do Além algo que, no fim das contas, vinha da própria cabeça.
- Pela primeira vez na vida você está dizendo coisa com coisa. Impressionante!
- Mas eu ainda nem acabei o raciocínio! Imagine textos como os que são publicados no Blogson Crusoe. Aquilo é tão ruim que poderia muito bem ser apresentado como psicografia ditada a um senhor idoso por um espírito com zero vocação literária.
- Eu sabia que vinha provocação por a! E quem seria esse espírito tão pouco inspirado?
- Ué, só pode ser Jotabê, que assina todos os textos. Sei lá, vai que ele já morreu e esqueceram de lhe avisar.
- Valei-me Santo Allan Kardec!
ATIVIDADES SEXUAIS
A apresentadora de um programa feminino pergunta
a uma jovem senhora da plateia:
– A senhora pode contar aos nossos telespectadores quais são as atividades de
uma típica dona de casa deste bairro?
– Ah, sim… De manhã, levo os meninos ao
colégio. Depois, na volta do colégio, tenho três horas de atividades sexuais…
Então, o meu marido e filhos chegam para o almoço, almoçam; ele volta para o
trabalho e as crianças vão fazer os deveres… Aí, tenho mais algumas horas de atividades
sexuais até à noite, quando jantamos e vamos todos para a cama!
– Desculpe, mas a senhora pode nos explicar
em que consistem essas atividades sexuais?
– Ah, lógico, explico sim! Atividade sexual é
fazer tudo o que é fodido: varrer, lavar o chão, lavar a roupa, arear as
panelas, lavar e tratar do cão, arrumar, costurar, passar as roupas, limpar o
pó, lavar os vidros…
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
MACHO DZETA
Li uma reportagem que me deixou super animado, pois descobri que meu perfil delicado está muito valorizado no mercado. Não que eu esteja à venda nem que alguém queira me comprar, mas agora eu sou um homem viúvo que, mesmo guardando um luto real, não posso dizer que fico indiferente à minha desconhecida capacidade de agradar uma gata do sexo oposto (claro, né? gata, sexo feminino; gato, sexo masculino).
terça-feira, 27 de janeiro de 2026
TÚNEL DO TEMPO
Outro dia minha irmã me entregou um envelope amarelecido e manchado pela ação do tempo, que estava guardado dentro de um livro de orações da minha mãe. Segundo ela, ao procurar uma certidão antiga, encontrou esse envelope. Dentro, uma carta endereçada a mim, escrita por meu tio e padrinho em “papel de carta”, com uma letra miúda, quase feminina.
É uma carta estranha, escrita para me ajudar a vencer a insegurança da adolescência. Sinceramente, não me lembro de jamais ter recebido essa carta nem consigo imaginar por que foi guardada por minha mãe. Teria sido escrita por ela como se fosse meu tio e desistido de me enviar?
Talvez essa carta tenha sido motivada por sinais que eu já dava naquela época. Aos dezesseis anos, eu carregava uma mistura intensa de medo, culpa e curiosidade. Talvez eu tivesse morrido de vergonha ao lê-la, pois vivia com a sensação de estar sempre fazendo algo errado, mesmo quando ninguém dizia nada.
Afinal, para quem pediu perdão a Deus pelo gozo da primeira masturbação, para quem furou a porta do banheiro para ver a tia solteira tomar banho e imaginou aprender a beijar lendo as revistas Seleções do Reader’s Digest deixadas justamente por esse tio, não seria nada demais receber conselhos para me ajudar a viver e a vencer o medo paralisante que sentia.
O pequeno furo na porta do banheiro, feito e refeito algumas vezes, denunciava um desejo que eu não sabia controlar. Ninguém nunca mencionou o assunto, mas o pequeno furo estava lá, visível. Minha mãe certamente o viu. O silêncio, nesse caso, parece ter sido a forma escolhida para ela lidar com aquilo.
Talvez por isso a carta. Não como repreensão direta, mas como desvio: falar de timidez, de medo, de insegurança, quando o problema parecia maior e mais difuso. Aos dezesseis anos eu já carregava uma neurose daquelas boas, algo que, mesmo para os padrões confusos da adolescência, não parecia exatamente normal.
Teria sido essa a motivação? A incapacidade de ter uma conversa franca e direta comigo? Nunca saberei a verdade. Mesmo assim, resolvi digitar o conteúdo dessa provável “fake letter”, corrigindo os erros de português, para talvez publicar no blog. Meu tio e padrinho morreu em 1988 e minha mãe em 2009.
Zezinho,
Estou te escrevendo porque gosto de você e porque sou seu padrinho. Sempre falei que você parece comigo quando eu era novo, quieto demais, cheio de medo das coisas. Mesmo morando fora e trabalhando em outra cidade, a gente nunca deixa de pensar na família.
Quando saí de casa pra estudar odontologia em Uberaba, achei que ia ficar mais tranquilo, mais solto pra conversar com as moças. Eu sempre fui muito sério, diferente dos meus irmãos, mais quieto, sempre com medo de errar, de passar vergonha. Comecei a trabalhar cedo, mas tinha dificuldade para arranjar namorada.
Demorei pra beijar uma menina, pra namorar, e quando namorei não durou muito. Eu não sabia o que dizer, ficava nervoso demais. Esse medo acabava me atrapalhando mais do que ajudando. Eu queria acertar tanto que não fazia nada direito. Ainda bem que conheci a Teresinha.
Com o tempo entendi que ninguém nasce sabendo. Todo mundo passa vergonha alguma vez. Ouvir um não dói, mas passa. Ficar sem tentar é pior. Medo todo mundo tem, mas não pode deixar ele mandar na gente.
Você sempre foi mais tímido, mas está fazendo dezesseis anos hoje, não tenha vergonha de não saber. Pergunte, tente, arrisque. Se der errado, faz parte da vida. O importante é não ficar parado.
Venha me visitar um dia, assim eu aproveito e dou uma olhada nos seus dentes. E parabéns pelo aniversário.
Cici.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
domingo, 25 de janeiro de 2026
"PELA ESTRADA AFORA EU VOU"...
Depois de ficar sabendo que o deputado Nikolas Ferreira resolveu fazer uma caminhada até Brasília em defesa da liberdade (do Bolsonaro) e da justiça (o que ele entende por isso), uma espécie de “coluna Prestes” da Direita, fiquei pensando o que move alguém a fazer uma idiotice dessas. Depois, com mais calma, entendi que idiotas somos nós que damos atenção a essa jogada de marketing. Como sou confessadamente um ignorantão em matéria de política e, para ser sincero, já estar de saco dessas birrinhas envolvendo bolsonaristas e lulistas, pedi ao ChatGPT, meu consultor para assuntos aleatórios, uma análise histórica da situação.
Se quiser, posso:
enxugar ainda mais para um artigo acadêmico,
encurtar para artigo de jornal impresso,
O debate político brasileiro vive hoje menos de projetos e mais de identidades. A disputa deixou de ser apenas sobre políticas públicas e passou a operar como confronto moral, no qual o adversário é tratado não como opositor legítimo, mas como ameaça existencial. Nesse ambiente, a história, a cultura e até o Judiciário entram em cena como armas simbólicas, usadas para reforçar posições já cristalizadas.
A memória histórica continua presente no debate público, mas raramente aparece como instrumento de reflexão. Ela é acionada de forma seletiva, conforme a conveniência política do momento. Episódios do passado funcionam como atalhos morais: servem para acusar, rotular e deslegitimar, não para explicar. O resultado é um empobrecimento do debate e o aprofundamento da polarização.
Esse mecanismo se expressa com força no campo cultural. Filmes e obras que abordam temas sensíveis da história recente provocam reações políticas imediatas. Reconhecimentos internacionais são interpretados, por setores da direita, como ataques ideológicos ao país ou tentativas de impor uma leitura única da história. Para outros, representam gestos legítimos de memória e crítica. A cultura, assim, deixa de ser espaço de reflexão e passa a integrar o conflito político cotidiano.
A mesma lógica organiza o antipetismo, eixo central da direita brasileira contemporânea. O ódio ao presidente Lula vai além de avaliações sobre economia ou políticas sociais. Lula se tornou um símbolo: do PT, do sindicalismo, do protagonismo do Estado e da ascensão dos mais pobres. Para diferentes grupos da direita — liberais, conservadores morais, evangélicos e bolsonaristas — rejeitá-lo funciona como identidade política compartilhada.
Esse antipetismo dispensa programa e substitui propostas por rejeição. A corrupção, embora real nos governos petistas, é lembrada de forma seletiva, enquanto práticas semelhantes em campos aliados são relativizadas. Ao mesmo tempo, Lula governa de forma pragmática, sem rupturas institucionais, o que frustra narrativas alarmistas e intensifica o ressentimento. O conflito, portanto, não é apenas sobre desempenho, mas sobre o que Lula representa.
Mesmo com um governo institucionalmente estável, economicamente moderado e socialmente previsível, a hostilidade persiste. O governo Lula III recompõe relações entre os Poderes, reduz conflitos institucionais e retoma políticas sociais, mas não dissolve a polarização porque ela se alimenta de identidades, não de resultados.
É nesse cenário que lideranças como o deputado federal Nikolas Ferreira ganham projeção. O parlamentar mais votado da última eleição, evangélico e identificado com a direita, mobiliza apoio por meio de discursos morais e simbólicos. A proposta de uma caminhada de Minas Gerais até Brasília, apresentada como defesa da “justiça” e da “liberdade”, inclusive em favor de envolvidos em atos golpistas, ilustra como disputas políticas e jurídicas são deslocadas para um terreno moral absoluto, onde o adversário passa a ser visto como inimigo.
O risco desse processo é a normalização da lógica de confronto permanente. Quando a política se transforma em guerra moral, o espaço para negociação, compromisso e pluralismo se estreita. Tudo vira prova de caráter, e qualquer divergência é tratada como ameaça.
Talvez o principal desafio do Brasil hoje não seja escolher entre direita ou esquerda, mas entre radicalização e institucionalidade. Enquanto o debate público continuar organizado em torno do ódio, da deslegitimação e da moralização absoluta, o país seguirá preso a um conflito que se retroalimenta — e que impede a construção de projetos políticos capazes de dialogar com a complexidade do presente.
sábado, 24 de janeiro de 2026
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
MÃE - CRIS GUERRA
Separando coisas guardadas por minha mulher, encontrei um livrinho pequeno, fininho com belas ilustrações, publicado pela Editora Miguilim, e delicado como parecer ser a autora do texto.
quando nasce um bebê, nasce também uma mãe.
Um restaurante delivery. Uma máquina de chocolate prontinho. Uma mecânica de carrinhos e controle remoto. Uma médica de bonecas. Uma professora–terapeuta–cozinheira de carreira medíocre. Nasce uma fábrica de cafuné, um chafariz de soro biológico, um robô que desperta ao som de choro.
– mães não se conformam em deixar o mundo sem encaminhar devidamente um filho.
Se já era impossível, cuidado:
ela vira muitas.
Mães são fogo. Ninguém segura. Se antes eram incapazes de matar um mosquito, adquirem uma fúria inédita. Montam guarda ao lado de suas crias, dispostas a enfrentar tudo o que zumbir perto delas.
pernilongos, lagartas, leões, gente.
– alguém está?
passou.
Onde fica Guiné–Bissau.
Os rumos da agricultura orgânica. As alternativas contra o aquecimento global. Política.
E até sua própria saúde.
Filhos as rejuvenescem, tornando suas vidas mais perigosas
– e mais urgentes.
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
BLOCO DE GRANITO
Minha mulher tem uma prima que mora há muitos anos em Portugal, depois de vender tudo o que tinha aqui e mudar-se definitivamente para lá, levando marido e filha. Não sei a frequência com que vem ao Brasil, só sei que em uma dessas promoveu o encontro das primas, momento registrado em uma foto linda que me mandou há uns três dias. Não sei em que ano foi isso, mas deduzo ter sido antes da descoberta da doença terminal da minha Amada. E ela estava linda na foto!
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
BOLA-GATO?
Depois de alfabetizado e já conhecedor de alguns palavrões, comecei a procurá-los às escondidas no “Dicionário Escolar da Língua Portuguesa”. Embora fossem palavras e expressões corriqueiras – cu, puta e seu respectivo filho, viado e outros de mesma elegância –, não encontrei nenhum, nem mesmo uma reles bunda. Parece que a incorporação de palavras chulas aos dicionários tipo Aurélio aconteceu de forma progressiva ao longo do século XX, como forma de se obter um registro completo da língua portuguesa falada no Brasil, o que acho sensacional. Obviamente, um “dicionário escolar” do início do século passado jamais exibiria em suas páginas essas putarias ditas nas ruas.
domingo, 18 de janeiro de 2026
sábado, 17 de janeiro de 2026
PREFERE SONHO OU REALIDADE?
Esta crônica foi escrita originalmente com palavras mais cruas, com linguagem mais explícita. Sugeriram que eu a tornasse "palatável" para leitoras de comportamento mais delicado e elegante. Até pedi ajuda ao moralista ChatGPT, mas a versão ficou muito suave, quase asséptica. Aí resolvi fazer uma suavizada jotabélica.
Ele precisava falar com alguém. Precisava de
companhia. Ligou para uma antiga amiga.
- Oi,
Ricardo, que surpresa! Como você está?
-
Vivendo.
-
Parece que não está bem…
- Que "nada" você tem para fazer hoje?
- Como
assim?
-
Reformulando: você tem alguma coisa para fazer hoje?
- Não. Só ver o BBB. Por quê?
-
Queria te convidar para comer uma pizza. Estou precisando de companhia.
-
Adorei! Amo pizza. Você me pega aqui?
- Eu te
pego em qualquer lugar, do jeito que você quiser, meu sonho sempre foi te pegar.
-
Engraçadinho!
- Oito
horas?
- Oito.
Às oito em ponto ele a pegou na porta do
prédio. Ela já o esperava na calçada. Estava envelhecida, mas continuava
alimentando suas fantasias.
Depois dos beijinhos automáticos, ela
perguntou como ele estava, enquanto escolhia o sabor da pizza.
- E
então, como está convivendo com a solidão?
-
Estranha. Casa vazia. Vida vazia.
- Você
gostava bem dela, não?
- Sim e
não. Talvez estivesse acostumado a uma rotina cheia de silêncios. Quando ela se
separou eu me assustei, mas entendi. Já não transávamos havia três anos.
- Três
anos? E como você administrava isso?
- Usava
o método adolescente, no banheiro.
- Credo!
-
Horrível está agora. Nunca tive tanta vontade de contato físico com uma mulher, com o corpo nu de uma mulher! Abraçar, beijar, cheirar, tocar, todas as possibilidades que um encontro íntimo propicia. E isso está me deixando maluco.
Ela desviou o olhar.
- E o
que você pretende fazer? Pagar uma garota de programa?
- Está louca? Eu sempre valorizei a afinidade, a intimidade com a parceira.
- Onde
você acha que vai encontrar isso hoje?
- Foi
por isso que te convidei para comer pizza.
Incrédula, ela reaspondeu:
- Você
enlouqueceu?
-
Talvez. Mas sempre tive a sensação de que você gostava de me provocar e seduzir com suas
histórias sensuais e picantes.
- Nunca
te contei histórias picantes!
-
Contou de homens. De sexo. E aquilo incendiava minha imaginação. O auge foi
quando me matou de desejo ao contar ter ido para o motel com um ex-colega de
colégio, só para realizar uma fantasia dele. Que inveja do filhadaputa! E a
minha fantasia sexual, como é que fica? Devia ter te contado, pois eu tenho frequentes sonhos eróticos com você. E são ótimos!
- Essa
conversa está me deixando constrangida.
- Calma, coma sua pizza! Quer mais cerveja?
- Não, obrigada.
- Só
mais uma lembrança: lembra de um natal passado na casa da sua mãe, em que você
sentou ao meu lado? Como o sofá estava cheio de crianças barulhentas, você
ficou tão próxima de mim que nossas coxas se encostaram. Você estava linda. Depois, as crianças
saíram e ficamos só nós dois no sofá em uma sala vazia, a sua coxa deliciosa espremida na minha. Você não se arredou! Fiquei tão inseguro com a possibilidade de alguém nos ver assim que também me levantei, Mas fiquei com a sensação de que
você tinha vontade de dar para mim. E você era a garota mais gostosa do bairro!
Falando sério, você alguma vez teve vontade de dar para mim? Ainda está em tempo!
Ela ia responder quando alguém tocou seu
ombro.
- Pai,
acorda! A pizza chegou.
Estava em uma pizzaria e tinha cochilado. O
filho o olhava com impaciência. Olhou sem vontade para a fatia de marguerita colocada em seu prato. Não queria comer pizza, o que queria mesmo era ter escutado a resposta.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
SOMEBODY TO LOVE – ANNE HATHAWAY
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
O ÚLTIMO PROJETO
Começarei recordando as pequenas trapaças e os pequenos furtos cometidos na infância e adolescência. Passarei depois a anotar os pensamentos pecaminosos, libidinosos, inconfessáveis e doentios que tive durante toda a minha vida, fantasias sexuais com tias, primas, cunhadas e amigas, mulheres próximas demais, proibidas demais, que molharam meus sonhos ou me acompanharam no banho solitário debaixo do chuveiro.
Em seguida virão as pequenas e grandes mentiras, as fraquezas, as traições que cometi ou quando não fui capaz de reagir nas muitas vezes em que fui ultrajado. Sem querer esconder nada, confessarei como fui pervertido, indecente ou desonesto.
Nada será omitido. Quero escrever em detalhes as vezes em que fui depravado e sórdido. Começarei a registrar os pesadelos que às vezes me atormentam desde a primeira infância, as lembranças que trazem arrependimento e vergonha por sempre ter-me comportado de forma tão covarde, abjeta e degradante, de ter-me humilhado de forma tão pusilânime, de ter sido tão medroso e mesquinho ao longo da vida. Porque por trás do meu comportamento sorridente e educado sempre houve alguém frágil e inseguro, mas também falso, odioso, sádico e cruel.
E, no entanto, ninguém nunca lerá uma linha sequer sobre isso, sobre minhas baixezas e falta de caráter. Quando eu terminar, o caderno será posto dentro de uma lata com álcool e queimado até virar cinza. Assim, serei sempre lembrado como alguém amistoso, gentil e cordial (mesmo que um pouco arredio) pelas pessoas que pensavam me conhecer.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
SÍNDROME DE ABSTINÊNCIA
Ela tinha um comportamento de esponja e arquivava tudo o que recebia: imagens e gravuras encharcadas de carinho, mensagens fofinhas, fotos de filhos, netas, irmãos, primos e de todas as pessoas que conhecia. O que sei é que rever sua imagem sempre linda e sorridente me deixou de bode (usando uma gíria antiga), triste e com a sensação de que viver não vale mais a pena. Pior ainda foi descobrir um vídeo de 2022 que ela fez para duas netinhas por ocasião de seu aniversário de três anos, se não me engano. Vê-la e ouvir sua voz novamente teve o efeito de um soco na cara, me nocauteou. Ah, Lily!
Se eu puxar a genética da família de minha mãe corro o risco de precisar suportar viver até os noventa anos ou pouco menos. Olha que chatice isso significa sem ela ao meu lado! Como cantaram os Titãs, “não vou me adaptar”.
Estava nessa tristeza quando a consciência foi invadida por um pensamento bizarro e inesperado: talvez seja melhor nunca ter relacionamentos de longa duração, talvez o melhor seja promover a separação ainda em vida (claro, né?), para que a dor provocada possa ser amortecida pela visão mesmo que fugaz do outro ou outra, pela notícia de que ela/ele está bem.
Talvez, quem sabe, até role uma pegada para matar a saudade, mas nunca, jamais, que a separação seja irreversível, provocada pela morte de um dos dois, pois isso dói demais. Claro que estou falando de um casal que se ama, bem o oposto dos feminicidas que matam por se acreditarem proprietários daquele corpo, daquela alma, daquela mente.
Então, esta é a teoria miojo de hoje: Você ama sua mulher, seu marido? Separe-se dele enquanto é tempo, para não sofrer a dor que sinto nem uma saudade que não se acaba.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
NO CONSULTÓRIO
Era a última consulta agendada e o médico chama o paciente. Entra um homem se contorcendo todo, acompanhado de uma mulher. Segue o diálogo:
- Não doutor, eu estou ensaiando para receber espírito no centro perto da minha casa.
O paciente entra no consultório. Após os cumprimentos de praxe, o médico pergunta:
- Eu não vim aqui para me consultar, eu vim para divulgar a palavra de Deus.
- Passei.
- Ok, você tem direito a quinze minutos. Fique à vontade
domingo, 11 de janeiro de 2026
SIM - "ELA"
Há alguns anos, remexendo em uma caixa cheia de papeis antigos, minha mulher encontrou uma folha de caderno com algumas anotações rascunhadas. Nela, um poema escrito no início da década de 1970. Sem nenhum entusiasmo, entregou-me a folha e disse para rasgar e jogar fora depois que lesse – se eu quisesse ler. Não rasguei nem joguei fora, sentei-me em frente ao velho desktop e copiei os versos tratados com tanto desinteresse, já pensando em publicá-los no Blogson, pois gostei demais de sua aparente simplicidade (além disso, creio que o “ele” era eu). Como não havia um título, escolhi o que me pareceu mais coerente. E ela continuou com a identidade preservada. O tempo passou, eu a perdi e este post, originalmente publicado em 27/07/2022, ficou esquecido, guardado no blog como "Rascunho". Não ficará mais, será um testemunho de sentimentos que a fizeram repensar nosso relacionamento ainda no início do namoro. Como era linda!
Sim, amar exige cuidados
Sim, amar é um dilema
Será que vale a pena?
Sim, se ele não é seu amigo
Sim, amar é perigoso
Se ele é enganoso
Ele acha isso besteira
Fingimento é um castigo
Você não sabe se isso é aquilo
Você é tão maneira
Se ele não está com nada
Você tem que estar centrada
sábado, 10 de janeiro de 2026
TRÍGAMO
Aviso às leitoras e leitores deste blog desconjuntado: este texto é humor confessional. Não é manual de conduta, nem pedido de absolvição.
– Luisa Brunet.
– Ah, é? Quer dizer então que você acha a Luisa Brunet linda? Bom saber!
- Olha aí sua lindeza. Não sei o que você viu nela! Mulher horrorosa!
- Luisa Brunet?
- “Sou, mas quem não é?”
quinta-feira, 8 de janeiro de 2026
BALÃO DE GÁS
quarta-feira, 7 de janeiro de 2026
TRIGÉSIMO DIA
Hoje completa-se o trigésimo dia do falecimento da minha amada Eliany. Consegui falar com o Padre Leonardo, o mesmo que, há cinquenta anos, abençoou o nosso casamento. Muito idoso agora, caminhando com a ajuda de um andador, ainda assim se dispôs a celebrar a missa de 30º dia na Capela dos Crúzios, na Rua Eurita. Contou-me que o espaço é pequeno, acolhendo apenas um grupo de vinte pessoas.
RELIGARE - REFLEXÕES SOBRE RELIGIOSIDADE, CRENÇA E FÉ
(Continuação do post anterior) Os sentimentos de perplexidade, decepção e raiva surgiram imediatamente ao ver a palavra “BLOQUEADO” à dire...
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No meio da pandemia, assistindo televisão com minha mulher, ouvi um ator inglês dizer as palavras mágicas “Soneto 116 de Shakespeare”. Creio...
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A reverência hoje é para Millôr Fernandes, que faz parte da Santíssima Trindade do Humor no Brasil. Os outros dois podem ser qualque...
