domingo, 8 de setembro de 2024

IRREVERSÍVEL


A ida ao hospital onde um parente de minha mulher está internado em estágio terminal mexeu comigo, ao vê-lo "afogado no seco", como disse alguém. E saber que aquela situação é irreversível faz com que a razão se debata entre o desejo de uma morte rápida e a ilusão de que talvez haja uma solução miraculosa.
 
Ontem visitei alguém perto da Morte,
Alguém que estava por aí até outro dia,
E hoje já não mais está.
Mais um pouco, e nunca mais estará.
 
Estranho é ver a pessoa ali, sedada,
Imóvel, respiração curta, inconsciente
O oxigênio chegando através da máscara,
Com os filhos, calados, ausentes, ao lado.
 
E eu, sem saber o que dizer, sem nada para dizer,
Tentando imaginar o que acontecerá
Quando o que tem que acontecer,
Enfim, acontecer.
 
Dispneia, anóxia, sufocação, enfisema
E eu ali, tentando assimilar, traduzir
Conceitos estranhos, difíceis de digerir.
Mais ainda de aceitar e entender.

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

¡ARRIBA, ARRIBA! ¡ÁNDALE!

 
Creio que uma sina comum aos blogueiros autorais é chegar a um ponto onde a criatividade parece ter se esgotado, ficado mais seca que o clima atual em BH. Quando isso acontece a tentação é matar ou abandonar o tamagotchi alimentado durante muitas madrugadas insones (esse “insones” ficou muito afetado!).
 
E é esse desejo que o macho das antigas, bebedor de cerveja barata, mas boa e titular imbroxável do blog “A Marreta do Azarão” sinalizou ao publicar a imagem da tela final dos antigos desenhos da Warner, que dizia “That’s all Folks!”
 
Nada contra, pois já fiz isso umas quatro vezes com o velho e alquebrado Blogson Crusoe. Entendo que sua (dele) criatividade, inspiração ou interesse talvez estejam em um Saara lascado, mas achei legal dar um ânimo, um alento para que ele continue a se divertir com as marretadas que dá.
 
E a dica é esta: ele publicou na Amazon um e-book muito legal, uma obra tecnicamente inédita. Qual seria então o viagra mental indicado, o desfibrilador cerebral, o oxigênio para as sinapses caidinhas?
 
 Agora que conhece o caminho das pedras, sugiro que ele mergulhe no Marreta e comece a separar material para novos e-books, assim como eu fiz com os textos do Blogson. Podem acreditar, ele – ou algum blogueiro em situação idêntica – provavelmente sentirá um enorme prazer ao ler textos antigos de que nem se lembrava mais. E não tem importância se eles forem superiores aos escritos atuais. E falo por mim.
 
Acho que hoje escrevo cada vez pior, principalmente por estar esquecendo regras gramaticais, palavras, assuntos, perdendo-me no raciocínio, empobrecendo cada vez mais os textos que publico. Mas desencanei, pois como disse o Chico Buarque, "a inspiração é uma dádiva da juventude".  Isso soa idiota para um velho que começou um blog só em 2014. Mas já observei essa queda de qualidade em vários autores. As letras e músicas do Chico são muito inferiores às que criou no início da carreira. Notei isso também ao revirar dezenas de páginas semanais publicadas pelo Millôr nas revistas Veja e Isto É. As mais recentes (Isto É) tinham muito menos graça e humor que as páginas da Veja. Por isso, não me grilo por não conseguir escrever como já escrevi. E olha que sou muito medíocre. Mas fico feliz de ter publicados três e-books, pois foi prazeroso escolher o que publicar.
 
E esta é a sugestão final: Marretão, você tem uma produção enorme (ah, como era grande!) que permitiria publicar e-books com o crème de la creme das poesias, contos e crônicas ou o que te desse na telha. A vantagem é poder publicar as putarias que fizeram seu blog ser censurado.
 
Então é isso. Já que recorreu aos antigos desenhos da Warner, só posso reproduzir a fala do personagem Ligeirinho:
- ¡Arriba, arriba! ¡Ándale!
 
Ou “Eia, Sus!”, porque “That’s all, Folks!” é o caralho!

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

AS ELEIÇÕES SE APROXIMAM!

 
As eleições municipais estão chegando, tempo adequado para refletir sobre quem escolheremos para cuidar de nossas cidades. Segundo o TSE, há 15.645 candidatos a prefeito, 15.680 candidatos a vice e 429.791 postulantes ao cargo de vereador dos mais de cinco mil e seiscentos municípios.
 
Esses números já provocam alguma perplexidade, pois como é possível que a quantidade de candidatos a vice prefeito seja maior que os registros para prefeito? É divertido pensar na impossível hipótese de um município sem prefeito eleito. Imagino alguém dizendo algo parecido com isto:
- Eu nasci para ser vice, não preciso de nada além disso.
 
Talvez eles estejam certos em sua pequena ambição. Porque sempre tenho a curiosidade de saber o que move alguém na direção de um cargo público. Dinheiro? "Claro que não”! Prestígio e poder? “Ora, senhor, meus sentimentos são muito mais nobres!” Ahan, eu acredito!
 
Apesar dos apelidos idiotas que alguns registram, está claro que todos os candidatos estão imbuídos do mais elevado espírito cívico, todos têm  reputação ilibada, não se importam de sacrificar o tempo dedicado aos familiares e amigos e abrem mão de sua vida pessoal em benefício do interesse da coletividade, certo? Me engana que eu gosto!
 
Como cada vez mais tenho preguiça de escrever abobrinhas para entreter os 2,3 fieis leitores desta bagaça, resolvi terceirizar essa tarefa para uma inteligência artificial, fazendo seguinte pedido:
 
“Por favor (até uma inteligência artificial merece ser tratada com cortesia britânica), escreva um texto ironizando os candidatos a vereador e prefeito, usando esse tipo de falso comportamento (as qualidades descritas acima), pois o que a maioria quer mesmo é remuneração elevada, conforto, prestígio e mordomias:”.
 
A partir de agora, a culpa toda é do ChatGPT:
 
O Sacrifício dos Nossos Valorosos Candidatos
Em tempos de eleição, é sempre inspirador testemunhar o fervor com que nossos bravos candidatos se lançam na arena política. Movidos por um espírito cívico inabalável e uma reputação imaculada, eles estão dispostos a sacrificar o que há de mais precioso em suas vidas: o tempo dedicado à família, o conforto do lar, e até mesmo as regalias de um cotidiano simples e pacato.
 
Estes nobres seres, que poderiam tranquilamente desfrutar de uma vida modesta, optam, em vez disso, por abraçar o desgastante trabalho de representar o povo. Abrem mão de suas vidas pessoais para se entregar, de corpo e alma, ao bem comum. Quem precisa de tranquilidade e conforto quando se pode dedicar horas intermináveis a discussões acaloradas no plenário, usufruindo de salários insignificantes e mordomias que nada mais são do que um pequeno consolo diante do fardo que carregam?
 
Eles renunciam às férias em família, às tardes preguiçosas de domingo e até aos jantares tranquilos, tudo em nome do dever. Afinal, o dever os chama! Quem pensaria em contas bancárias polpudas, ou em um gabinete repleto de assessores, quando a verdadeira recompensa está em servir ao povo?
 
Não devemos, jamais, subestimar a magnitude desse sacrifício. Porque, enquanto nós, meros mortais, nos contentamos com empregos comuns e salários modestos, eles, com corações generosos e almas desinteressadas, abrem mão de uma vida sossegada para enfrentar a dura realidade dos altos cargos públicos. Tudo em prol do bem-estar da coletividade.
 
Sim, caros cidadãos, não é fácil ser um candidato. É preciso ter uma fibra moral que poucos possuem e uma disposição para enfrentar as dificuldades diárias com um sorriso no rosto e uma conta de despesas pagas pelo erário. Então, na próxima vez que encontrarmos um desses valorosos indivíduos, que tal uma salva de palmas? Afinal, é o mínimo que podemos fazer para agradecer tamanho altruísmo.
 
 
Acho que essa inteligência artificial está ficando muito espertinha e abusada!

sábado, 31 de agosto de 2024

MAIS BARATO QUE BANANA EM FIM DE FEIRA

 
Este post serve para divulgar as três obras primas publicadas por este blogueiro na Amazon.com.br. E são primas só pelo parentesco, pois tirando a origem jotabélica, nada têm em comum.
 
Antes de continuar a fazer piadas idiotas preciso agradecer, louvar e reverenciar o multi-talentoso Fabiano Caldeira, dono do blog “Um brasileiro gay”, pois o primeiro estímulo para publicar e-books na Amazon foi dele. Idem para as dicas pacientemente transmitidas para que eu tivesse sucesso em transpor a pé uma verdadeira cordilheira do Himalaia. E consegui, mas a um preço impossível de pagar, pois sempre aparecia a broxante mensagem “Este item não está disponível para compra no momento”.
 
Oxe, que porra é essa? As lindas capas exibidas neste blog têm o mesmo efeito que aquelas “televisões de frango assado” para um cachorro viralata: só podem ser vistas. Puto com essa situação e sem entender como corrigir um problema fruto da minha burrice, apelei novamente ao Fabiano, para quem pedi, implorei e supliquei que usasse sua expertise. E ele, pacientemente, resolveu! Por isso, hoje e até o dia 04 de setembro os e-books jotabélicos podem ser baixados de grátis.
 
Mas já aviso que só aceitarei críticas e comentários desagradáveis após o dia quatro de setembro, pois como ensina o ditado rural, “a cavalo dado não se olham os dentes”. Depois do dia quatro esses e-books (“e” de excelente) serão comercializados ao preço escandaloso, escorchante, abusivo e super faturado de dois real (porque não tenho um centavo para dar de troco).
 
E como os links do blog estão dando merda, forneço neste post os links que permitirão baixá-los, junto a uma breve descrição-síntese de seu conteúdo (a publicidade é a arma do negócio).
 
 
O Eu Fragmentado
https://www.amazon.com.br/EU-FRAGMENTADO-VERSOS-CHEIOS-Portuguese-ebook/dp/B0BZD9C63S/
Sessenta poemas originalmente publicados no blog Blogson Crusoe. E por que algumas vezes escolhi registrar meus pensamentos no formato “poesia”? Creio que a explicação é simples: um texto em prosa é como um rio cujas águas vão deslizando pelos meandros e curvas suaves, tranquilamente, sem sobressaltos, serenamente. A poesia, ao contrário, lembra um rio turbulento, nervoso, com corredeiras, as águas agitadas despencando em cachoeiras e precipícios.
 
 
Meu Nome é Ricardo
https://www.amazon.com.br/MEU-NOME-RICARDO-DIVAGA%C3%87%C3%95ES-Portuguese-ebook/dp/B0C1FKD6RS/
Nesse e-book encontram-se contos, crônicas e divagações existenciais originalmente publicadas no blog Blogson Crusoe. A linguagem é predominantemente coloquial, ótima para esconder o vocabulário pobre e as agressões à gramática da "Última Flor do Lácio". Os contos, mesmo que eventualmente inspirados em fatos e pessoas que conheci, são puramente ficcionais. Nas crônicas eu tentei fazer uma releitura lírica de fatos e episódios corriqueiros do dia a dia. Já as divagações são viagens mentais sobre a Vida, sobre sua aparente ou real falta de sentido, sobre mim, enfim, sobre qualquer coisa que me dê na telha falar
 
 
Confraria das Hienas
https://www.amazon.com.br/CONFRARIA-DAS-HIENAS-Rid%C3%ADculo-Portuguese-ebook/dp/B0C6HGVRF4/
Esse livro reúne uma seleção de textos originalmente escritos com a intenção de tentar fazer as pessoas rir com minhas idiotices e falta de senso. O material selecionado foi dividido em três seções, a saber:
- Esse Menino É Um Spamto – Textos e crônicas “engraçadinhas”;
- Aforismos, Desaforismos E Textículos – Frases e pequenos textos de humor tão mínimo quanto o tamanho dos aforismos e “textículos” (estou tentando vender este neologismo);
- Diálogos De Spamtar – Diálogos curtos e provocadores. De azia e má digestão, bem entendido.
Que mais? Ah, sim, o título desse e-book homenageia aqueles animais que parecem estar sempre rindo, mesmo que nunca se saiba por que nem se descubra de quê.

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

RUPERT

Gostaria de ter um algoritmo que fosse só meu, de estimação, particular
Um algoritmo sério e atencioso como um mordomo inglês
Que servisse para me alertar, corrigir, defender, orientar.
A que daria o nome de Rupert, Giles ou um afetado nome galês.
 
E eu me divertiria a caçoar de suas observações,
Desqualificar suas orientações,
Desprezar seus conselhos,
E duvidar de seu discernimento
 
Ignorando seu direcionamento
Só para vê-lo refazer a rota como se fosse
Um aplicativo de navegação e trânsito
GPS instalado no automóvel e nunca obedecido.
 
Assim, quando ele me dissesse: “Faça isto”, eu faria aquilo,
“Faça assim”, eu faria assado.
Porque se a vida não tem nenhum sentido,
Qual a vantagem de não transgredir regras ou respeitar convenções?
 
E se o Rupert - ou Giles - viesse a parar de funcionar
De tanto tentar me corrigir e orientar,
Que ele mandasse a última mensagem dizendo
“I tried and I tried and I tried, I couldn’t get no satisfaction".
 

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

O CACHORRO E AS CINZAS

 
No último domingo, uma amiga me contou duas histórias tão pitorescas e divertidas que senti a necessidade de registrá-las.
 

O SORRISO TRISTE DO CACHORRO 
Um grupo de amigos resolveu passar o fim de semana na fazenda de um deles. Viajaram já anoitecendo. Depois de desfazer as malas e escolher os quartos, resolveram tomar umas cervejas, assar uma carne e jogar conversa fora.

Algumas cervejas depois, uma das presentes apontou para o vira-lata que rondava por ali e disse ao marido:
— Aquele cachorro está sorrindo para mim!
— Para com isso! Já está bêbada? — ele respondeu.
 
Mas ela insistiu, olhando fixamente para o cão, afirmando que ele estava realmente sorrindo. Os demais riram da situação e começaram a oferecer pedaços de carne para o cãozinho. Estranhamente, ele permaneceu quieto, sem se aproximar dos petiscos. Foi então que alguém comentou que o cachorro realmente parecia estar sorrindo.
 
O dono da fazenda chamou o vira-lata, que se aproximou exibindo o olhar mais triste que um cão poderia ter. Notando algo estranho na boca do animal, o dono segurou o cachorro e retirou um pequeno pedaço de couro de boi, em formato ligeiramente triangular, que ele provavelmente tentara mastigar e engolir, sem conseguir. As pontas do triângulo haviam se encaixado nas bochechas do vira-lata, esticando-as e criando um "sorriso" que lembrava o da Hebe Camargo quando ela dizia “Gracinha!” com a boca semicerrada.
 
Enquanto eu ria dessa bizarrice, minha amiga concluiu a história dizendo que livre do pedaço de couro que tentou engolir, o cachorro disparou em direção à lagoa, provavelmente para matar uma sede que já durava mais de um dia.



AS CINZAS DO FALECIDO
Esse caso é muito ridículo, acontecido na mesma fazenda da crônica anterior. O fato é que o proprietário da fazenda, já velho, adoentado e sentindo que o fim se aproximava, deixou clara sua vontade de ser cremado. Além disso, determinou que suas cinzas fossem levadas à fazenda onde passou a morar depois de se aposentar como professor universitário. Deixou também a relação dos lugares onde elas seriam jogadas: varanda onde gostava de ficar modorrando na rede, pomar, lagoa onde gostava de pescar e curral.
 
E assim foi feito. Ou quase isso. A viúva, acompanhada dos filhos, parentes e alguns amigos, decidiu iniciar a distribuição das cinzas pelo curral. Emocionada e amparada em uma bengala, resolveu exaltar a memória do morto, sem prestar atenção em uma vaca que estava por perto.
 
Alguém até comentou que a vaca estava olhando muito para o grupo, mas um empregado tranquilizou, dizendo:
- A Mimosa é mansinha!
 
Podia até ser, mas quando o animal começou a raspar a pata da frente como se quisesse chifrar todo mundo, a situação saiu do controle. O pessoal começou a correr como se fugisse de um touro bravo, enquanto o empregado repetia sem ninguém para ouvi-lo:
- Mas a Mimosa é mansinha, gente!
 
A viúva, que até então liderava a cerimônia com dignidade, ao tentar se salvar, tropeçou na própria bengala e lançou o vaso com as cinzas do falecido pelos ares. E o que deveria ser uma cerimônia solene, cheia de reverência e lágrimas contidas, rapidamente se transformou em um pandemônio de comédia pastelão, com direito a tropeços, gritos e cinzas misturadas à terra do curral.
 
No fim, a viúva, já recuperada do susto, riu junto com todos, e em meio às gargalhadas, alguém ainda exclamou:
- Culpa da Mimosa!


 


O TEMPO - MÁRIO QUINTANA

  A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são seis horas! Quando se vê, já é sexta-feira! Quando se vê...