A mensagem “Tem vida mais barata, mas não presta, não!” teria sido enviada por
um dono de cartório a um amigo. Mas caiu na rede, viralizou e até virou letra
de música. Eu não a conhecia – até uma mulher muito rica tê-la dito para mim
com um sorriso malicioso no rosto lindo.
Claro que era uma ironia, embora revelasse
uma maneira de pensar que não é exclusiva de quem a enunciou. Minha reação foi de
perplexidade, pois por trás da ironia, enxerguei um sarcasmo cruel, revelador
de uma visão elitista e deslumbrada da vida. Incomodado, pedi a uma IA uma
análise sociológica da frase. Eis o resultado:
“A
expressão popular ‘tem vida mais barata, mas não presta, não’ reflete um
cruzamento entre a cultura da ostentação, o hedonismo e a mercantilização do
status social na sociedade contemporânea. Do ponto de vista sociológico, a
frase sintetiza a ideia de que a dignidade, a felicidade e o bem-estar são
equiparados ao poder de consumo
.
Em
contraposição, a qualidade de vida deixa de ser medida pelo tempo livre, pela
paz de espírito ou pelas relações afetivas, e passa a ser validada por gastos
materiais — camarotes open bar, iates, carros importados e festas.
Ao
afirmar que a vida mais barata ‘não presta’, o discurso descarta as formas de
existência que escapam ao ciclo de acumulação e exibição de riquezas,
estigmatizando a simplicidade como sinônimo de fracasso ou tédio.
O
estilo de vida defendido nessa máxima aposta no prazer imediato e efêmero.
Frases como essa também são apropriadas ironicamente por elites ou grupos
privilegiados para naturalizar desigualdades, como quem diz que manter um
padrão excludente e caro é a única forma ‘civilizada’ de existir, ignorando que
a ‘vida barata’ é a realidade compulsória da maioria da população”.
E é aí que entra outra ironia: afinal, o que
é uma vida barata? Para Elon Musk, trilionário, talvez seja a de quem dispõe de
apenas alguns bilhões e nem aparece nas listas da Forbes. Para o
assalariado que chega ao fim do mês sem dinheiro, talvez seja a de quem depende
do Bolsa-Família.
Foi o que me ocorreu ao ouvir aquela frase,
dita com um sorriso por uma mulher linda. Porque, feitas as contas e comparada
com a sua, a minha vida talvez seja uma dessas vidas baratas que, segundo ela,
não prestam.
Se ela realmente enxerga a vida dessa
maneira, onde eu me encaixo nessa escala de valores?
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