segunda-feira, 12 de outubro de 2026

ESCALA DE VALORES

 
A mensagem “Tem vida mais barata, mas não presta, não!” teria sido enviada por um dono de cartório a um amigo. Mas caiu na rede, viralizou e até virou letra de música. Eu não a conhecia – até uma mulher muito rica tê-la dito para mim com um sorriso malicioso no rosto lindo.
 
Claro que era uma ironia, embora revelasse uma maneira de pensar que não é exclusiva de quem a enunciou. Minha reação foi de perplexidade, pois por trás da ironia, enxerguei um sarcasmo cruel, revelador de uma visão elitista e deslumbrada da vida. Incomodado, pedi a uma IA uma análise sociológica da frase. Eis o resultado:
 
“A expressão popular ‘tem vida mais barata, mas não presta, não’ reflete um cruzamento entre a cultura da ostentação, o hedonismo e a mercantilização do status social na sociedade contemporânea. Do ponto de vista sociológico, a frase sintetiza a ideia de que a dignidade, a felicidade e o bem-estar são equiparados ao poder de consumo
.
Em contraposição, a qualidade de vida deixa de ser medida pelo tempo livre, pela paz de espírito ou pelas relações afetivas, e passa a ser validada por gastos materiais — camarotes open bar, iates, carros importados e festas.
 
Ao afirmar que a vida mais barata ‘não presta’, o discurso descarta as formas de existência que escapam ao ciclo de acumulação e exibição de riquezas, estigmatizando a simplicidade como sinônimo de fracasso ou tédio.
 
O estilo de vida defendido nessa máxima aposta no prazer imediato e efêmero. Frases como essa também são apropriadas ironicamente por elites ou grupos privilegiados para naturalizar desigualdades, como quem diz que manter um padrão excludente e caro é a única forma ‘civilizada’ de existir, ignorando que a ‘vida barata’ é a realidade compulsória da maioria da população”.
 
E é aí que entra outra ironia: afinal, o que é uma vida barata? Para Elon Musk, trilionário, talvez seja a de quem dispõe de apenas alguns bilhões e nem aparece nas listas da Forbes. Para o assalariado que chega ao fim do mês sem dinheiro, talvez seja a de quem depende do Bolsa-Família.
 
Foi o que me ocorreu ao ouvir aquela frase, dita com um sorriso por uma mulher linda. Porque, feitas as contas e comparada com a sua, a minha vida talvez seja uma dessas vidas baratas que, segundo ela, não prestam.

Se ela realmente enxerga a vida dessa maneira, onde eu me encaixo nessa escala de valores?

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