domingo, 18 de outubro de 2026

VOCÊ CONHECIA ESTA HISTÓRIA?

 
Vamos começar pelo básico: Carlos Drummond de Andrade (1902–1987) foi um dos maiores poetas, cronistas e escritores do Brasil, sendo figura central da segunda geração do Modernismo brasileiro.
 
Era também profundamente tímido e, por fora, aparentava ser um homem muito sério. A timidez e a introversão eram marcas registradas da sua personalidade; ele próprio se definia como um "urso polar" e usava o seu jeito reservado para se proteger dos holofotes e do assédio da imprensa. Estamos indo bem, por enquanto.
 
A esposa de Carlos Drummond de Andrade, Dolores Dutra de Morais, faleceu no dia 2 de julho de 1994, na cidade do Rio de Janeiro. Ela sobreviveu ao marido por quase sete anos, já que o poeta faleceu em agosto de 1987, pouco tempo depois da trágica perda da única filha do casal, Maria Julieta. Dolores e Drummond foram casados por 62 anos, tendo oficializado a união em 30 de maio de 1925.
 
OK. Estas informações foram copiadas da internet, mesmo que eu não me lembre de onde as encontrei.
 
Agora o caldo entorna um pouco. Carlos Drummond de Andrade teve uma relação extraconjugal de longa data com Lygia Fernandes, bibliotecária do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Tempo de relação: Eles se conheceram em 1951 e mantiveram um relacionamento secreto por cerca de 36 anos. Muito bom!
 
Drummond tinha 49 anos quando conheceu Lygia Fernandes, que era 25 anos mais jovem que ele. Ela começou a trabalhar com o poeta no Ministério da Educação e Cultura, e os dois engataram um romance que se estendeu até os últimos dias de vida do escritor.
 
Segundo relatos e crônicas biográficas, Drummond faleceu em 17 de agosto de 1987, segurando a mão da amante. Para ela, em 1951, ele escreveu e publicou o poema “Campo das Flores”, que traz esta estrofe inicial:
 
Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus – ou foi talvez o Diabo – deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.
 
Sinceramente acho comovente ele ter vivido esse amor clandestino por tanto tempo, sinal de que viveu feliz e apaixonado até os 85 anos. Mas há uma particularidade nessa love story da terceira idade que talvez muita gente desconheça: movido por esse relacionamento, o poeta itabirano escreveu 40 poemas eróticos, só reunidos no livro “O Amor Natural” após sua morte.
 
O motivo dessa decisão pode ter sido o medo de julgamentos e escândalo: O poeta temia que os versos fossem mal interpretados pelo público ou que manchasse sua imagem pública consolidada. Pouco importa.
 
O que importa para mim é que a maioria não me agradou. E nem se trata de moralismo. Erotismo por erotismo, o poema satírico “O Elixir do Pajé” do Bernardo Guimarães é bem mais interessante.
 
Mas transcrevo três dos que me agradaram mais, uma seleção mais bem comportada, digamos assim. Lêaí:
 
OH MINHA SENHORA MINHA SENHORA
Oh minha senhora ó minha senhora oh não se
incomode senhora minha
não faça isso eu lhe peço eu lhe suplico por Deus
nosso redentor minha
senhora não dê importância a um simples mortal
vagabundo como eu que
nem mereço a glória de quanto mais de... não não não
minha senhora não
me desabotoe a braguilha não precisa também se
despir o que é isso é
verdadeiramente fora de normas
e eu não estou absolutamente preparado
para semelhante emoção ou comoção sei lá minha
senhora nem sei mais o
que digo eu disse alguma coisa? sinto-me sem
palavras sem fôlego sem
saliva para molhar a língua e ensaiar um discurso
coerente na linha do
desejo sinto-me desamparado do Divino Espírito Santo
minha senhora eu
eu eu ó minha senh... esses seios são seus ou é uma
aparição e esses
pelos essas nád... tanta nudez me deixa naufragado
me mata me pulveriza
louvado bendito seja Deus é o fim do mundo
desabando no meu fim eu eu
 
 
NÃO QUERO SER O ÚLTIMO A COMER-TE
Não quero ser o último a comer-te.
Se em tempo não ousei, agora é tarde.
Nem sopra a flama antiga nem beber-te
aplacaria sede que não arde
 
em minha boca seca de querer-te,
de desejar-te tanto e sem alarde,
fome que não sofria padecer-te
assim pasto de tantos, e eu covarde
 
a esperar que limpasse toda a gala
que por teu corpo e alma ainda resvala,
e chegasses, intata, renascida,
 
para travar comigo a luta extrema
que fizesse de toda a nossa vida
um chamejante, universal poema
 
 
A MOÇA MOSTRAVA A COXA
A moça mostrava a coxa
a moça mostrava a nádega,
só não me mostrava aquilo
— concha, berilo, esmeralda —
que se entreabre, quatrifólio,
e encerra o gozo mais lauto,
aquela zona hiperbórea,
misto de mel e de asfalto,
porta hermética nos gonzos
de zonzos sentidos presos,
ara sem sangue de ofícios,
a moça não me mostrava.
E torturando-me,
e virgem no desvairado recato
que sucedia de chofre
à visão dos seios claros,
sua pulcra rosa preta
como que se enovelava,
crespa, intata, inacessível,
abre-que-fecha-que-foge,
e a fêmea, rindo, negava
o que eu tanto lhe pedia,
o que devia ser dado
e mais que dado, comido.
Ai, que a moça me matava
tornando-me assim a vida
esperança consumida.
no que, sombrio, faiscava.
Roçava-lhe a perna. Os dedos
descobriam-lhe segredos
lentos, curvos, animais,
porém o máximo arcano,
o todo esquivo, noturno,
a tríplice chave de urna,
essa a louca sonegava,
não me daria nem nada.
Antes nunca me acenasse.
Viver não tinha propósito,
andar perdera o sentido,
o tempo não desatava
nem vinha a morte render-me
ao luzir da estrela-d'alva,
que nessa hora já primeira,
violento, subia o enjoo
de fera presa no Zoo.
Como lhe sabia a pele,
em seu côncavo e convexo,
em seu poro, em seu dourado
pelo de ventre mas sexo
era segredo de Estado.
Como a carne lhe sabia
a campo frio, orvalhado,
onde uma cobra desperta
vai traçando seu desenho
num frêmito, lado a lado!
mas que perfume teria
a gruta invisa? Que visgo,
que estreitura, que doçume,
que linha prítina, pura,
me chamava, me fugia??
Tudo a bela me ofertava,
e que eu beijasse ou mordesse,
fizesse sangue: fazia.
Mas seu púbis recusava.
Na noite acesa, no dia,
sua coxa se cerrava.
Na praia, na ventania,
quanto mais eu insistia,
sua coxa se apertava.
Na mais erma hospedaria
fechada por dentro a aldrava,
sua coxa se selava,
se encerrava, se salvava,
e quem disse que eu podia
fazer dela minha escrava?
De tanto esperar, porfia
sem vislumbre de vitória,
já seu corpo se delia,
já se empana sua glória,
já sou diverso daquele
que por dentro se rasgava,
e não sei agora ao certo
se minha sede mais brava
era nela que pousava.
Outras fontes, outras fomes,
outros flancos: vasto mundo,
e o esquecimento no fundo.
Talvez que a moça hoje em dia...
Talvez. O certo é que nunca.
E se tanto se furtara
com tais fugas e arabescos
e tão surda teimosia,
por que hoje se abriria?
Por que viria ofertar-me
quando a noite já vai fria,
sua nívea rosa preta
nunca por mim visitada,
inacessível naveta?
Ou nem teria naveta...
 
 
E se alguém quiser conhecer os demais, é possível baixar o livro na internet no formato pdf. Só não me lembro onde consegui. Mas deixo esta frase do Drummond, para fechar este post:

"A última coisa que desaparece no homem é o erótico".

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