Vamos começar pelo básico: Carlos Drummond de Andrade (1902–1987) foi um dos maiores poetas, cronistas e escritores do Brasil, sendo figura central da segunda geração do Modernismo brasileiro.
Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus – ou foi talvez o Diabo – deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.
OH MINHA SENHORA
MINHA SENHORA
Oh minha senhora ó
minha senhora oh não se
incomode senhora
minha
não faça isso eu lhe
peço eu lhe suplico por Deus
nosso redentor minha
senhora não dê
importância a um simples mortal
vagabundo como eu que
nem mereço a glória
de quanto mais de... não não não
minha senhora não
me desabotoe a
braguilha não precisa também se
despir o que é isso é
verdadeiramente fora
de normas
e eu não estou
absolutamente preparado
para semelhante
emoção ou comoção sei lá minha
senhora nem sei mais
o
que digo eu disse
alguma coisa? sinto-me sem
palavras sem fôlego
sem
saliva para molhar a
língua e ensaiar um discurso
coerente na linha do
desejo sinto-me
desamparado do Divino Espírito Santo
minha senhora eu
eu eu ó minha senh...
esses seios são seus ou é uma
aparição e esses
pelos essas nád...
tanta nudez me deixa naufragado
me mata me pulveriza
louvado bendito seja
Deus é o fim do mundo
desabando no meu fim
eu eu
NÃO QUERO SER O
ÚLTIMO A COMER-TE
Não quero ser o
último a comer-te.
Se em tempo não
ousei, agora é tarde.
Nem sopra a flama
antiga nem beber-te
aplacaria sede que
não arde
em minha boca seca de
querer-te,
de desejar-te tanto e
sem alarde,
fome que não sofria
padecer-te
assim pasto de
tantos, e eu covarde
a esperar que
limpasse toda a gala
que por teu corpo e
alma ainda resvala,
e chegasses, intata,
renascida,
para travar comigo a
luta extrema
que fizesse de toda a
nossa vida
um chamejante,
universal poema
A MOÇA MOSTRAVA A
COXA
A moça mostrava a
coxa
a moça mostrava a
nádega,
só não me mostrava
aquilo
— concha, berilo,
esmeralda —
que se entreabre,
quatrifólio,
e encerra o gozo mais
lauto,
aquela zona
hiperbórea,
misto de mel e de
asfalto,
porta hermética nos
gonzos
de zonzos sentidos
presos,
ara sem sangue de
ofícios,
a moça não me
mostrava.
E torturando-me,
e virgem no
desvairado recato
que sucedia de chofre
à visão dos seios
claros,
sua pulcra rosa preta
como que se
enovelava,
crespa, intata,
inacessível,
abre-que-fecha-que-foge,
e a fêmea, rindo,
negava
o que eu tanto lhe
pedia,
o que devia ser dado
e mais que dado,
comido.
Ai, que a moça me
matava
tornando-me assim a
vida
esperança consumida.
no que, sombrio,
faiscava.
Roçava-lhe a perna.
Os dedos
descobriam-lhe
segredos
lentos, curvos,
animais,
porém o máximo
arcano,
o todo esquivo,
noturno,
a tríplice chave de
urna,
essa a louca
sonegava,
não me daria nem
nada.
Antes nunca me
acenasse.
Viver não tinha
propósito,
andar perdera o
sentido,
o tempo não desatava
nem vinha a morte
render-me
ao luzir da
estrela-d'alva,
que nessa hora já
primeira,
violento, subia o
enjoo
de fera presa no Zoo.
Como lhe sabia a
pele,
em seu côncavo e
convexo,
em seu poro, em seu dourado
pelo de ventre mas
sexo
era segredo de
Estado.
Como a carne lhe
sabia
a campo frio,
orvalhado,
onde uma cobra
desperta
vai traçando seu
desenho
num frêmito, lado a
lado!
mas que perfume teria
a gruta invisa? Que
visgo,
que estreitura, que doçume,
que linha prítina,
pura,
me chamava, me
fugia??
Tudo a bela me
ofertava,
e que eu beijasse ou
mordesse,
fizesse sangue:
fazia.
Mas seu púbis
recusava.
Na noite acesa, no
dia,
sua coxa se cerrava.
Na praia, na
ventania,
quanto mais eu insistia,
sua coxa se apertava.
Na mais erma
hospedaria
fechada por dentro a
aldrava,
sua coxa se selava,
se encerrava, se
salvava,
e quem disse que eu
podia
fazer dela minha
escrava?
De tanto esperar,
porfia
sem vislumbre de
vitória,
já seu corpo se
delia,
já se empana sua
glória,
já sou diverso
daquele
que por dentro se
rasgava,
e não sei agora ao
certo
se minha sede mais
brava
era nela que pousava.
Outras fontes, outras
fomes,
outros flancos: vasto
mundo,
e o esquecimento no
fundo.
Talvez que a moça
hoje em dia...
Talvez. O certo é que
nunca.
E se tanto se furtara
com tais fugas e
arabescos
e tão surda teimosia,
por que hoje se
abriria?
Por que viria
ofertar-me
quando a noite já vai
fria,
sua nívea rosa preta
nunca por mim visitada,
inacessível naveta?
Ou nem teria
naveta...
"A última coisa que desaparece no homem é o erótico".
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