Difícil é a vida de um idoso! Talvez mais
estranha que difícil, talvez mais frágil que estranha. Hoje eu percebo me
debater – talvez sem tanto drama assim –
entre duas expectativas ou visões de futuro.
De um lado, há um homem fragmentado, uma
espécie de frankenstein feito de partes com idades distintas. A mente e os
olhos continuam tendo vinte ou trinta anos; o coração é o de um adolescente
apaixonado, mas os joelhos são os de alguém que já viveu 102 anos. Esse homem
faz planos e alimenta desejos que talvez nem devesse mais ter: cursar uma
segunda faculdade, de Psicologia ou Filosofia; aprender a dançar forró;
submeter-se a uma cirurgia corretiva das pálpebras (já agendada).
Do outro lado, um homem de 76 anos que pressente,
que sabe não ter mais muito tempo de vida. Um homem que aceita e se resigna com
a fragilidade que essa idade traz consigo, tantas são as notícias de
falecimento que recebe, não só de artistas famosos como de parentes, amigos e
conhecidos de sua mesma faixa etária.
E é com essa duplicidade que convivo
diariamente: um idoso que ainda sonha e tem desejos que não conseguiu realizar
quando era mais jovem e um senhor desencantado da vida, que se pergunta para
que fazer cirurgias rejuvenescedoras ou aprender a dançar nesta fase da vida,
já tão perto do momento binário em que o “um” vira “zero”, em que o disjuntor
biológico desarma. Esta é a realidade da minha vida atual. Complicado, não?
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