quarta-feira, 21 de outubro de 2026

PAR OU IMPAR

 
Difícil é a vida de um idoso! Talvez mais estranha que difícil, talvez mais frágil que estranha. Hoje eu percebo me debater – talvez sem tanto drama assim – entre duas expectativas ou visões de futuro.
 
De um lado, há um homem fragmentado, uma espécie de frankenstein feito de partes com idades distintas. A mente e os olhos continuam tendo vinte ou trinta anos; o coração é o de um adolescente apaixonado, mas os joelhos são os de alguém que já viveu 102 anos. Esse homem faz planos e alimenta desejos que talvez nem devesse mais ter: cursar uma segunda faculdade, de Psicologia ou Filosofia; aprender a dançar forró; submeter-se a uma cirurgia corretiva das pálpebras (já agendada).
 
Do outro lado, um homem de 76 anos que pressente, que sabe não ter mais muito tempo de vida. Um homem que aceita e se resigna com a fragilidade que essa idade traz consigo, tantas são as notícias de falecimento que recebe, não só de artistas famosos como de parentes, amigos e conhecidos de sua mesma faixa etária.
 
E é com essa duplicidade que convivo diariamente: um idoso que ainda sonha e tem desejos que não conseguiu realizar quando era mais jovem e um senhor desencantado da vida, que se pergunta para que fazer cirurgias rejuvenescedoras ou aprender a dançar nesta fase da vida, já tão perto do momento binário em que o “um” vira “zero”, em que o disjuntor biológico desarma. Esta é a realidade da minha vida atual. Complicado, não?

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