terça-feira, 27 de outubro de 2026

DA ESTUPIDEZ – DIETRICH BONHOEFFER


 
Em "homenagem" às divergências ideológicas expostas na eleição do próximo presidente, resolvi mover para hoje, dia 26 de novembro, um texto originalmente publicado em 10 de novembro, não pelo resultado final, mas por uma frase dita por alguém do lado perdedor ainda durante a apuração (recuso-me a dar publicidade para um idiota): 

"Nós ganhamos ou ganhamos. Está dado o recado". Quem esse idiotinha pensa que é? Fico com a sensação de que a vocação da extrema-direita é o golpismo.

Assisti no Instagram a um vídeo interessantíssimo com a leitura de um texto do pastor luterano e teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer. Não sei se que acessa o blog conseguirá conectar-se com este link. Em todo caso, é este: 
https://www.instagram.com/reel/DeEbduPucQE/?xtok=MWFvaHoyeTJidWthYg==ão
 
Bonhoeffer era um ferrenho opositor do nazismo e chegou a participar de uma tentativa de assassinar Hitler. Por causa de sua resistência ao regime, acabou preso e enviado para um campo de concentração, onde foi executado apenas uma semana antes da libertação do campo pelas tropas soviéticas. Baita sacanagem, concordam?
 
O texto que foi transformado em vídeo é este. Tão lúcido e tão atual que não resisti a procurá-lo para publicá-lo no Blogson. Espero que gostem e, sobretudo, que reflitam sobre o que Bonhoeffer escreveu.
 
A estupidez é mais perigosa que a maldade. Contra o mal se pode protestar; o mal pode ser exposto, revelado; pode também ser evitado, se necessário, até pela força; o mal sempre carrega o germe da autodecomposição, deixando pelo menos um desconforto naquele que o pratica. Diversamente, não há como se defender da estupidez. Nada pode ser feito aqui com protestos ou com violência; razões não a convencem; simplesmente não se dá crédito a fatos que contradigam o próprio preconceito – em tais casos, o estúpido se torna ainda mais resistente – e se esses fatos são incontestáveis, podem com facilidade ser postos de lado como casos isolados e sem sentido.
 
O estúpido, ao contrário da pessoa má, sente-se completamente satisfeito consigo mesmo; sim, ele até se torna perigoso, enfurecendo-se facilmente quando é refutado. Portanto, a relação com o estúpido exige muito mais cautela do que com a pessoa má. Nunca se há de convencer o estúpido pela razão – é inútil e perigoso. Para saber lidar com a estupidez, é preciso antes procurar entender sua natureza. Não se trata essencialmente de um defeito intelectual, mas algo que atinge a humanidade do sujeito. Tanto é assim que existem pessoas de inteligência extraordinariamente ágil que são estúpidas e pessoas intelectualmente pesadas que podem ser tudo, menos estúpidas.
 
Para nossa surpresa, chegamos à seguinte conclusão: parece que a estupidez não é propriamente um defeito congênito, mas um processo em que as pessoas se tornam estúpidas sob certas circunstâncias, ou deixam-se fazer estúpidas de forma recíproca. Também observamos que a estupidez aparece mais em pessoas ou grupos propensos ou condenados a viver em comum do que em pessoas mais fechadas, reservadas e solitárias. Assim, parece que a estupidez é um problema mais sociológico do que psicológico. É uma forma especial de influência das circunstâncias históricas sobre o homem, isto é, uma consequência psicológica de certas circunstâncias externas. Em uma análise mais detalhada, verifica-se que toda forte expansão externa do poder, seja política ou religiosa, golpeia um grande número de pessoas com estupidez. Sim, parece que é uma lei psicológica e sociológica. O poder de alguém precisa da estupidez de outrem.
 
O processo não é que, de repente, algumas faculdades – como a intelectual – definhem ou fracassem, mas sim que a independência interna da pessoa vai sendo roubada pela impressão esmagadora do desenvolvimento do poder, até que - mais ou menos inconscientemente – essa pessoa renuncia a encontrar seu próprio comportamento em relação às situações que a vida lhe apresenta.
 
O fato de o estúpido ser muitas vezes teimoso não significa que ele seja independente. Conversando com ele, você quase pode sentir que seu discurso nem sequer tem a ver com ele mesmo, com aquilo que o constitui. Trata-se de frases de efeito, slogans e chavões que se apoderaram dele. Ele está enfeitiçado, cego, abusado e maltratado em sua própria natureza. Tornando-se assim um instrumento sem vontade própria, o estúpido será capaz de todo o mal e, ao mesmo tempo, incapaz de reconhecer-se mau ou de reconhecer maldade em seus atos. Aqui está o perigo de um abuso diabólico. Como resultado, as pessoas serão destruídas para sempre.
 
Disso decorre que somente um ato de liberação – e não um ato de instrução – poderá superar a estupidez. Na grande maioria dos casos, para superar a estupidez, a pessoa terá de aceitar que uma genuína libertação interior só se tornará possível após a libertação externa; até então, sem essa condição, teremos que desistir de todas as tentativas de convencer os estúpidos. A propósito, nesse estado de coisas, fica bem claro que em tais circunstâncias é vão tentar saber o que "o povo" realmente pensa, mesmo porque, ao mesmo tempo - nessas dadas circunstâncias – qualquer resposta seria supérflua para o pensador e realizador responsável.
 
A Palavra da Bíblia que diz que o temor de Deus é o começo da sabedoria (Salmos 111: 1); diz que a liberação interior dos humanos, para uma vida responsável diante de Deus, é a única verdadeira superação da estupidez.
 
De resto, esses pensamentos sobre a estupidez são reconfortantes, pois não permitem tratar a maioria das pessoas como estúpidas a todo custo. Realmente, isso dependerá da tendência dos Poderes Instituídos, vale dizer, se querem tornar seu povo estúpido ou se buscam a independência interior e sabedoria de seus governados.

7 comentários:

  1. Um texto muito atual e que dá mesmo que pensar. Impressiona perceber como o poder e a influência dos grupos podem levar as pessoas a deixar de questionar e a aceitar ideias sem refletir. Mais do que falta de inteligência, parece falar-nos da perda de pensamento próprio e da capacidade de reconhecer a realidade. Uma reflexão que continua a fazer muito sentido nos dias de hoje. Obrigada por partilhares! E bom fim de semana.

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  2. Um texto muito bom. Não sei quantos estúpidos temos em nossa sociedade, mas entendo o que ele diz. A impressão que temos é que quanto mais estúpido for o povo, melhor fica para os governantes. Aqui no Brasil não sei quantos estúpidos temos, mas eles estão por aí. É quando você se expressa claramente sobre algo e vem o ser humano comentar coisas completamente diferentes, colocando palavras na sua boca, dando a impressão de que é um analfabeto funcional, porque ele leu, mas não compreendeu, mas se acha cheio das convicções e fica fazendo longos discursos em cima de coisas que você simplesmente não pontuou, mas ele entendeu assim.

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    1. É bem por aí. A propósito, experimentou tentar assistir ao vídeo do instagram?

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  3. Estou sempre tentando identificar primeiro as minhas próprias estupidezes (tá certo o plural????). Já me senti estúpido em alguns momentos da vida. Em nossa atual política, o que não falta é estupidez de tudo o que é lado. Os estúpidos de esquerda conseguiram vencer os estúpidos da direita nestas eleições. eu fui um dos estúpidos que votou no estúpido Flávio e não no estúpido Lua. Pensei que a estupidez deste governo Lula que gasta como se dinheiro desse em árvore sem se preocupar com o amanhã (já analistas dizendo que ano que vem teremos recessão se nada for feito), pudesse ser derrotado por uma visão mais lógica da economia que o estúpido flávio apresentava. Mas não, os estúpidos da esquerda provaram que são em maior número.

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    1. Sim, o plural de estupidez é estupidezes. Quanto ao resto, é melhor nem falar. Quando eu ainda votava, eu sempre escolhi o candidato que entendia ser melhor para o POVO, independente da cor de sua camisa. Eu ganhava bem e acreditava não ser atingido pelas burradas dos próximos governantes. Comecei a mudar ao ver os desatinos cometidos por quem tinha merecido meu voto. Hoje eu quero é pensar no futuro do planeta, não nas patifarias cometidas neste país de estúpidos.

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