segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

HISTÓRIAS MARAVILHOSAS

Hoje acordei com uma música na cabeça que me fez lembrar de um filme assistido há muito tempo. Mas antes de falar desse filme e da impressão que me causou preciso contar um caso patético que talvez carregue dentro de si uma mensagem subliminar.
 
 
PRIMEIRO EPISÓDIO
Minha prima mais velha morreu com mais de oitenta anos, vítima do Mal de Parkinson. Quando ainda estava no início da doença foi surpreendida pela decisão do marido de separar-se dela, decisão ainda mais espantosa pelo motivo alegado: o "conje", também ele com mais de oitenta anos, disse que "queria aproveitar o resto de juventude". Talvez ela devesse ter-lhe perguntado a qual "resto de juventude" ele se referia. Mais bizarro impossível, concordam?
 
 
SEGUNDO EPISÓDIO 
Lá por volta de 1990, aluguei algumas fitas VHS que traziam a divertida série "Histórias Maravilhosas" ("Amazing Stories") criada pelo Spielberg, cada fita com uns três episódios de ficção. Um deles me marcou muito, em parte talvez pela trilha sonora. Creio que o título era "O Trem fantasma". É a história de uma família (pai, mãe, filho e avô) morando em uma propriedade no meio do nada mais poeirento. Talvez a casa fosse uma antiga estação de trem de uma linha desativada (mas não tenho certeza nenhuma disso). E o avô diz para o neto que muitos anos atrás tinha deixado de tomar um trem que descarrilou e matou todo mundo, algo assim. E que agora o trem viria buscá-lo para continuar a viagem. 
 
Não me lembro mais dos detalhes exatos, mas o pai do menino (e filho do velho) reclama dessa bobagem. Aí  começa a ser ouvido o som de um trem se aproximando, o chão começa a tremer e surge do nada um trem de passageiros, que para diante do olhar atônito dos pais da criança. Os passageiros estão vestidos à moda do início do século XX e o bilheteiro do trem sorri para o velho e o convida a embarcar. O velho embarca, o trem parte e desaparece novamente.
 
A música que embala esse episódio é "The Midnight Special" uma gravação da banda Creedence Clearwater Revival. Se alguém quiser ouvir essa música (muito boa, diga-se), siga o link no final deste texto.
 
 
TERCEIRO EPISÓDIO
Alguém poderá se perguntar por qual motivo juntei as duas histórias em um mesmo post. E o motivo é este: tenho pensado cada vez com mais clareza em aproveitar o resto de "juventude" que ainda tenho para tentar fazer coisas novas ou retomar hábitos abandonados com a criação do blog.
 
E a mensagem subliminar é esta mesma que devem estar imaginando: precisamos estar prontos para embarcar quando o nosso trem chegar. Há poucos anos eu descia as escadas pulando de dois em dois degraus, mas hoje preciso me apoiar para descer degrau por degrau, sempre com o mesmo pé, lentamente.
 
Isso significa alguma coisa? Claro! Tenho pensado cada vez com mais frequência em me “aposentar”, em parar de brincar de blogueiro, parar de espremer o cérebro em busca de inspiração para novas publicações, despir-me do uniforme do sub-herói Jotabê (o "defensor dos frascos e dos comprimidos" como disse alguém). Esse pensamento ficou ainda mas claro com o isolamento forçado a que fomos submetidos por ter sido contaminados pela Covid.

Quero retomar hábitos antigos (tocar violão, ouvir músicas, ler bastante, ver televisão, coçar saco, nadar) que foram deixados meio de lado por culpa do frisson provocado pelo blogOu fazer coisas novas (tentar publicar e-books seguindo o caminho das pedras indicado pelo Fabiano, meu mais recente amigo virtual), talvez criar um perfil no Instagram, etc.
 
Em outras palavras, quero tentar arrumar "a casa" enquanto espero o "trem" chegar. Ainda voltarei a este assunto em outro post, pois não sei como será o "modus operandi", nem quando nem como.
 
Don't Know Why There's No Sun Up In The Sky Stormy Weather...




sábado, 17 de dezembro de 2022

NÃO CUSTA AVISAR

 
Cidadão Lula – permita-me tratá-lo assim, pois o senhor ainda não tomou posse do cargo para o qual foi eleito – preciso dizer que torço para que faça o melhor governo para o povo deste país. E torço amparado na esperança que tive quando lhe confiei meu voto. Meu voto não vale nada, é um voto desclassificado como um cachorro vira-lata, mas não o trate mal, pois foi dado com muito carinho e com a certeza de que qualquer coisa seria melhor que a tragédia criada, adubada e incentivada por seu antecessor.
 
Só o senhor poderá aumentar ou diminuir a distância qualitativa que o separa do atual mandatário. Por isso, quero manifestar minha preocupação com notícias que tenho lido nos jornais e deixar algumas sugestões. Este é o terceiro e provavelmente último mandato presidencial para o qual foi eleito. Por isso, tente não repetir os erros que porventura cometeu no primeiro e segundo mandatos. Se o senhor quiser ser lembrado como um grande presidente, reflita sobre estas sugestões:
 
A primeira é esta: o senhor foi eleito por uma coligação de doze partidos. Não deixe, portanto, que seu mandato seja um governo só do PT. Por exemplo, a senadora Simone Tebet, inicialmente sua concorrente na disputa eleitoral merece ser tratada com consideração e respeito. Seria injusto aceitar pressões do PT para tirar dela o cargo de ministra do Desenvolvimento Social;
 
Afaste-se das ditaduras e de governos autoritários, sejam eles de esquerda ou de direita. Mantenha relações comerciais se for necessário, mas não passe disso;
 
Lembre-se do Mensalão e do Petrolão para manter-se longe dos corruptos e combata as práticas delituosas normalmente imaginadas por eles;
 
Cuide da responsabilidade fiscal e do teto de gastos como quem deve cuidar da saúde de seus filhos e netos;
 
Adote uma política de “ficha limpa” para todas as pessoas que quiser indicar para os altos cargos da administração. Lembre-se da frase sobre a esposa de Cesar;
 
Não assuste as pessoas que não se identificam com a esquerda, mas que votaram para que fosse eleito. Tente ser o que os americanos classificam como “Fiscally Conservative, Socially Liberal”;
 
Não dê oportunidade a ninguém de pensar ou dizer “eu era feliz e não sabia”.
 
 
Nunca me arrependerei de ter votado no senhor para que o “coiso” não fosse reeleito. Talvez não consiga ver o término do seu mandato, talvez nem mesmo o senhor consiga, pois somos idosos, na faixa etária onde é comum ver nos noticiários a "partida" de mais um famoso, mas quero, se a Vida assim me permitir, guardar uma boa lembrança de seu terceiro mandato. E, principalmente, não quero passar os próximos quatro anos maldizendo ou criticando as burradas e lambanças que o senhor ou aqueles em quem confiou porventura venham a cometer. Boa sorte!

 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

A COVID NOS PEGOU

 
Sou idoso, obeso, hipertenso e hipotiroideu. Minha mulher difere de mim por ter diabetes no lugar de hipotireoidismo. Com tantas comorbidades ficamos cabreiríssimos com o surgimento da Covid. Tomamos quatro doses de vacina, usamos máscara (ela mais que eu), “banhamo-nos” com álcool 70º, tudo dentro dos conformes.
 
Mas uma mamoninha saiu da estrada já pavimentada, pegou uma variante e nos atropelou. Graças às “desacreditadas” vacinas, estamos bem, como se estivéssemos só com um puta resfriado. “Bem”, mas isolados. Os filhos começaram a se movimentar para comprar alimentos a serem entregues na nossa casa. O “ataque de carinho” começou com sucessivos telefonemas para saber noticias. E isso é que foi o mais legal. Passo a reproduzir um diálogo via zap com um deles:
 
- Se precisarem de algo que esteja no nosso alcance, é só falar.
 
Por não ser muito convencional, respondi:
 
- Mande um beijo para mim.
 
Recebi um emoji com uma carinha mandando beijinho e retruquei:
 
- Ao ver minha resposta você deve ter pensado: "meu pai é mesmo um idiota!". Mas a única coisa que me ocorreu foi a vontade de te abraçar. Beijão. Te amo!
 
- Que nada. são quase 46 anos de convivência para saber que você não é um idiota. Só muito carinhoso. Também te amo muito! Falando em 46 anos, olha que interessante: eu conheci a F. em 1997, quando você estava com 47 anos. É um empate técnico, mas é interessante notar que ela "entrou para a família" quando você tinha "maomeno" a nossa idade hoje. Mas vamos ao que interessa: como vocês estão? Como estão se sentindo? Precisam de alguma coisa?
 
- Ao acordar pus o termômetro e o oxímetro que o B. trouxe,temperatura 36,4 e oxigenação 96, 97. Ele disse que tem de ficar acima de noventa. Sua mãe também está sem febre e a oxigenação também está legal. Beijão. A propósito, fiquei emocionado com o julgamento que fez de mim. Beijão.
 
Aí chegou uma encomenda com umas “três mil” coxinhas e esfirras.  Mandei um zap na hora:
 
- G. de Deus! Você e a F. são loucos! Mandaram coisas demais (deliciosas, diga-se). Só de coxinhas devem ter umas três mil! Como você é ateu não adiantará eu dizer "Deus lhes abençoe" e como benção de pai sem noção só atrapalha, o que posso dizer é Muuuuuuuuuuuuuuuuuuuiiiiito obrigado! São gestos como esse que me fazem pensar que eu sou mesmo um sujeito de muita sorte por ter os filhos que tenho (e que não fiz nada para merecer). Beijão. Te amo!
 
- Só dá para responder com uma frase: “And in the end, the love you take is equal to the love you make”.
 
- Tá querendo me fazer chorar, né?
 
A resposta veio na forma de uma imagem com esta frase: “Nope, not me”
 
Preciso me curar rápido dessa Covid para abraçar e beijar muito esses meninos!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

DISSONÂNCIA COGNITIVA COLETIVA

Recebi de um amigo um vídeo onde um médico psiquiatra aborda a “dissonância cognitiva coletiva” que parece ter atingido boa parte da população brasileira nos últimos tempos. Não gostaria de falar de política ou tocar nesse assunto, mas, entre outras coisas, ele menciona que o comportamento exibido pelos bolsonaristas mais radicais (e põe radicais nisso!) tem indicado um problema de natureza psicológica ou psiquiátrica que extrapola seu aspecto político, por contestar a realidade mais básica.  E foi essa visão que me atraiu, pois sou um psicólogo frustrado.

O médico exemplifica a dissonância cognitiva ao citar o caso de um paciente em surto que acreditava piamente ter um chip implantado em seu corpo (que rouba informações, etecetera e tal). Menciona também o caso de um parente próximo que tirou todo o dinheiro da poupança, pois “o Lula vai confiscar a poupança de todo mundo”, tal como o Collor fez um dia. E uma das manifestações coletivas mais manjadas aconteceu quando membros da seita Heaven's Gate cometeram suicídio coletivo por acreditar ser essa a forma de embarcar em uma nave alienígena.
 
O vídeo não traz nenhuma receita pronta (exceto talvez a sugestão de tratamento psicológico ou psiquiátrico). Em vez disso, comenta sobre a inutilidade de apresentar fatos concretos e tentar argumentar com esse pessoal, pois suas crenças são tão arraigadas que só aceitam e assimilam o que as ratifica e confirma, mesmo que sejam fake news, meias verdades, etc.
 
As informações veiculadas pela mídia tradicional não são consideradas e têm menos credibilidade que as “notícias” recebidas através de seus grupos de whatsapp ou outras redes sociais. Na hora, pensei na posição geocentrista da igreja da época de Galileo Galilei. Um padre blasfemo poderia ficar tentado a dizer algo parecido com isso: “É o caralho que a Terra gira em torno do Sol!”
 
Achei super interessante o vídeo, ainda mais por dizer que esse tipo de desligamento ou negação da realidade já está mais para um problema psiquiátrico. Pensei em transcrever o vídeo para publicar no blog, mas fiquei com preguiça (são nove minutos!). Por isso, busquei na internet a expressão “dissonância cognitiva coletiva” e encontrei duas charges que comprovam o ditado de que “uma imagem vale mais que mil palavras”. Neste caso particular, duas imagens. Os autores são os excelentes Daniel Paz e Quinho. Olhaí.



quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

PEGANDO UM BRONZE - PARTE III

 
Continuando:
 
Eu estava de cabeça raspada, era super magro mas ainda tinha uma barriga de tanquinho (herança dos tempos da natação) e usava uma sunga super minúscula. Saí da água e sentei-me na areia. Coincidência ou não, logo um sujeito fortão, um maçaranduba uns vinte anos mais velho que eu sentou perto. E puxou conversa. “Água boa, sol quente, vai pular carnaval?” Fiquei meio cabreiro, imaginando que ele poderia estar com algum tipo de pensamento inadequado. "Comigo não, mané, aqui não rôla nada, ou melhor, não rola”. Mas logo percebi que só estava interessado em fazer negócio, estava só prospectando clientes potenciais.
 
Contou-me que era o chefe da segurança do clube local e perguntou se eu iria pular carnaval, pois o Rei Momo já estava prestes a começar seu reinado de quatro dias (naquela época). Disse a ele que não, que estava duro, mas perguntei se me deixaria entrar na festa sem pagar. Falou que tentaria, que era para aparecer lá na porta e mandar chamá-lo. Beleza!
 
Na primeira noite, à falta de roupa melhor, vesti só uma calça jeans (não tinha bermuda) e peguei um colar riponga emprestado das meninas, feito todo de continhas multicoloridas. Imaginou a figura? Magro, careca, sem camisa e com um colar idiota balançando no peito. A quem eu iria interessar?
 
Cheguei à porta do clube, cheio de gente querendo entrar, comprar ingresso, etc. e pedi para chamar o fodão. Chegou e já foi avisando: “se você conseguir uns dez caras para comprar ingresso na minha mão eu te deixo entrar.” O cara precisava era de cambistas e embolsaria todo o dinheiro conseguido assim!
 
E lá foi o mané chegando perto de todo mundo e oferecendo essa pechincha. Não me lembro de ter “batido a meta” da contravenção, mas insisti para que me deixasse entrar. Meio a contragosto, concordou.
 
Ao entrar no salão o pau já estava quebrando, mas era diferente de BH. Na minha cidade as moças desacompanhadas e os casais ficavam “giramarchando” em volta do salão, enquanto os homens solteiros ficavam à espreita, prontos para atacar a primeira que olhasse em sua direção (foi assim que comecei a namorar minha Amada). Mas lá, não. Lá as gostosas ficavam brincando em cima das mesas, deixando o salão para casais e homens desacompanhados. Tentei convencer algumas  a descer da mesa, mas fui totalmente ignorado.
 
Ainda deu para ver a chegada de um cantor “famoso”. “Famoso” e seboso, conhecido depois como Fábio Stella graças a seu único sucesso conhecido (“Stella-a-a! em que estrela você se escondeu?”).
 
Lá pelo meio da noite, sem grana para tomar uma mísera coca cola, sozinho, desacompanhado e sem conseguir pegar ninguém, a solução foi voltar para a Vemaguete. Nas noites de domingo e segunda-feira aconteceu a mesma coisa. Só o que mudou foi ter devolvido a porra daquele colar idiota. Na terça feira gorda não quis nem saber se índio queria apito ou não, pois já estava de saco cheio de tanto programa de índio.
 
Se você, cara leitora, estimado leitor, espera uma lição de moral extraída de uma fábula praiana, só posso dizer que esse episódio deprimente foi tudo, menos uma fábula. E que moral mesmo só existe em fábulas. Na vida real sempre é possível encontrar alguma imoralidade, amoralidade ou as duas juntas. E fim.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

PEGANDO UM BRONZE - PARTE II

 
Bom, continuando com a história,  conseguimos encontrar o hotel. Depois de uma caminhada de um quilômetro, talvez menos, chegamos ao prédio onde a família estava hospedada. Não sei se meu irmão e nosso amigo conseguiram manter contatos imediatos de terceiro grau com as namoradas. Só sei que resolvemos dormir por ali. Onde? Na praia, lógico!
 
Descendo do platô onde fica o prédio para a beira mar, há uma prainha muito, muito pequena, com uma inclinação mais acentuada, condição que entendemos ser favorável para não ser atingidos pela água se a maré subisse mais. Feita a escolha, decidida a questão, eu e meu irmão desenrolamos os sacos de dormir, enfiamo-nos neles e foda-se o resto. Para ser sincero, a verdade não foi bem essa. Nosso amigo trazia apenas a mochila de roupas, que acabou servindo de travesseiro. Fizemos o mesmo com nossas tralhas e tentamos dormir.
 
Pensem bem: três matutos mineiros tentando dormir em uma praia desconhecida, com medo do mar subir e de animais que porventura resolvessem aparecer por ali (cobras, caranguejos). Dormimos, dormimos mal, dormimos um sono inquieto, desconfortável. Quando o dia clareou eu já estava decidido a voltar para casa, pois programa de índio assim era demais para minha cabeça.
 
E fomos encontrar as meninas, que estavam tomando café com os pais. A mudança de ânimo aconteceu ali. O café do lugar era farto e conseguimos ser convidados pela família para nos juntar a eles. Comi o que podia comer, repeti o que podia repetir e a Vida ganhou luz, calor. Trocamos de roupa no apartamento da família e fomos para a praia. Já nem me lembrava mais de uma hora antes ter abominado aquela viagem e o desconforto sentido até então.
 
À noite, continuávamos com o problema de onde dormir.  No prédio não podia e na praia, nem fodendo. A solução deve ter sido dada pelo sogrão. Nós poderíamos dormir dentro de sua Vemaguete! Abria-se a tampa do porta-malas, rebatia-se o encosto do banco traseiro et voilá! Duas pessoas “otimamente” acomodadas dentro de seus sacos de dormir (mesmo que os pés ficassem para fora do carro). Mas éramos três! A solução possível foi o namorado da filha mais velha ajeitar-se, contorcer-se no banco da frente. E o pior é que ele era alto como nós (mais de 1,80m).
 
Essa situação durou apenas uns dois dias. Meu irmão resolveu alugar uma bicicleta, derrapou na areia, caiu, cortou o braço, deu alguns pontos e recebeu a recomendação de tomar antibiótico de oito em oito horas. Como tomar esse medicamento com hora marcada dormindo dentro de um carro no estacionamento?
 
É nessas horas que você vê que a Providência Divina existe e que Deus protege os insensatos. A solução foi colocar meu irmão acidentado dentro do apartamento, com a sogrinha trocando o curativo e controlando os horários do remédio. E a traseira do carro ficou extremamente confortável para duas pessoas, mesmo que só eu tivesse o saco de dormir. A partir daí foi só alegria e praia todo dia. Não me lembro mais como nem onde almoçávamos, um problema menor para mim, que era magro como um espeto.
 
E se alguém perguntar se tentei pegar a irmã mais nova, direi que não, por dois motivos: era ainda muito nova, talvez com uns quinze anos e aparentava não sentir atração por rapazes, ainda mais quando feios, magros e carecas, pois me esqueci de dizer que estava com a cabeça raspada por ter sido aprovado no vestibular de engenharia. Pegaria a irmã, mais feinha, mas com um tchans muito atraente. Só que era a namorada de meu irmão, pô!
 
Bom, perdoem-me novamente, mas acho que vou deixar o resto para amanhã. See ya!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

PEGANDO UM BRONZE

 
Hoje eu quero falar um pouco sobre falta de vergonha na cara. Mas que ninguém espere que eu vá falar de políticos, pois não estou interessado no estudo do pleonasmo. Meu negócio é comigo mesmo, com o passado, a memória. E se alguém ficar espantado ou até um pouco escandalizado peço desculpas, pois isso aconteceu mesmo (acho que senti alguma inquietação no ar. Por isso, sem mais delongas e decurtas vamos aos fatos).
 
No inimaginável ano de 1970 meu irmão namorava uma menina que eu também conhecia. Nunca confirmei essa história, mas ouvi dizer que embora ela namorasse meu brother, estava mais interessada em mim. Porra, por que ficou escondendo jogo? Eu jamais trairia meu irmão, mas sempre fui a favor do ditado “rei morto, rei posto”. Mas não é sobre essa figura geométrica euclidiana sentimental e platônica que quero falar. Por isso, continuemos.
 
Os pais dessa menina resolveram passar uns dias em Guarapari, em um hotel ou apart-hotel em que tinham feito reserva ou a que tinham direito de se hospedar, não me lembro mais.   Arrumaram malas e cuias em uma Vemaguete, puseram as três filhas dentro e se mandaram.  
 
Além da namorada de meu irmão, a irmã mais velha também tinha seu boy friend, um cara gente boa pra caramba (eu conhecia a família toda). Por isso, com a viagem já definida, os namorados também resolveram pegar uma praia (pois já estavam pegando as meninas). Aqui um pequeno parêntese: meu irmão sempre me chamou para também fazer o que achava bom. E esse carinho de irmão mais velho eu jamais esquecerei (mesmo que hoje não converse mais com ele). Por isso, perguntou se eu também não quereria pegar um bronze na praia dos mineiros.
 
O “lógico!” talvez não tenha sido instantâneo, pois não tinha grana, não tinha onde ficar e continuava com dor de corno pelo término do namoro com o Amor da minha vida. Mas resolvi encarar. Conhecia uma menina deliciosa (que me pergunto por que nunca tentei uma aproximação, mas acho que a resposta estava na minha indigência, magreza e feiura), que me emprestou dois sacos de dormir (os sleeping bags da música do Gil). Depois disso, partiu Guarapari!
 
A viagem foi feita de trem até Vitória, aonde chegamos com a bunda quadrada por volta das 16 horas (e depois de umas dezoito horas de viagem, sem sacanagem). Durante as próximas duas horas ficamos coçando saco na cidade até pegar um ônibus cheio que nos deixou em Guarapari. Como estávamos varados de fome por não ter almoçado, resolvemos comer alguma coisa primeiro, antes de procurar as meninas (pelo menos naquele momento, creio que nenhum dos dois estava pensando em comer as namoradas. Piada ruim e machista!).
 
Paramos em um botequim copo sujo cuja porta, segundo a lenda, havia dez anos que não fechava (mas creio que não era charme, era ferrugem mesmo). Eu era um caipira que nunca tinha comido um PF; por isso, avisei aos dois companheiros de sofrimento que comeria tudo o que viesse no prato. E comi.
 
Os pratos que chegaram tinham uma forma montanhosa, de tal forma que ao atacar o arroz um pouco de feijão caia na mesa. Se o foco era o ovo ou o bife de carne de segunda, era a vez do arroz cair. Comi macarronada (que odeio até hoje), e cebola crua, que passei a amar. Para quem já estava meio puto e de saco cheio, aquela comilança foi um providencial antidepressivo natural.
 
Depois disso, sabendo o endereço onde estavam hospedadas as meninas, saímos à procura do hotel. Esse hotel ficava separado da praia por uma espécie de falésia, pois era construído sobre um platô uns trinta metros acima do nível do mar.
 
Mas agora, vocês me desculpem, pois a vontade de continuar escrevendo passou. Mas volto amanhã, no mesmo bat canal. Hasta mañana!
 

TODAS AS CARTAS DE AMOR SÃO RIDÍCULAS - ÁLVARO DE CAMPOS

  Tenho publicado alguns (ou vários) poemas, onde celebro o amor que estou sentindo por uma menina que me revirou pelo avesso e explodiu min...