terça-feira, 12 de agosto de 2014

CURTA ESSA

Depois de quinze posts celebrando a amizade, já estava na hora de celebrar a antipatia, a aversão, a impaciência e a irritação. Vamos lá:

A LÍNGUA PORTUGUESA É UMA SACANA
Acredito que a maioria dos militantes petistas nem tinha nascido quando ocorreu o “Golpe” ou “Revolução” de 1964. Mesmo assim, parece que ficam até arrepiados quando ouvem falar da época em que os militares governaram o país, pelas malfeitorias praticadas então (mas não conseguem se lembrar das inúmeras malfeitorias que o PT praticou depois de assumir o poder). Por isso, só pra sacanear, aí vai um jogo de palavras que me ocorreu:

Quer matar um petista de raiva? Basta lembrar aos mais xiitas que todo militante adora militar.

MUITA SEDE
Há tanto fisiologismo, tanto jogo de interesses no Congresso que, em vez de água gelada ou suco, os deputados e senadores deveriam matar a sede é com soro fisiológico.

NARRATIVA
Às vezes os trocadilhos "caem no meu colo", sem que eu precise forçar a barra. Estava lendo um texto quando me deparo com um erro de digitação: estava escrito "briografia". Aí, foi só completar:

Briografia é um subtipo de biografia (aí incluídas as não aprovadas pelos biografados), voltada exclusivamente para contar a vida de pessoas que tem dignidade, altivez, coragem, amor-próprio e vergonha na cara.

Resumindo: é a narrativa escrita da vida de uma pessoa que tem brios (será que o Luis Inácio se enquadraria nisso?).

THE RETURN OF THE LIVING DEAD
Recentemente eu vi uma manifestação do pessoal da Saúde (umas trinta pessoas) reivindicando isso e aquilo. OK, todo mundo pode fazer paralisações por melhores salários, etc. Mas aí me ocorreu o pensamento do dia: 

Por precaução, recomenda-se aos aposentados não fazer nenhum tipo de paralisação, pois pode faltar desfibrilador para reanimar aqueles mais paralisados.




segunda-feira, 11 de agosto de 2014

HISTÓRIAS DO DIGÃO - PARTE XV

O ÚLTIMO ENCONTRO

Creio que a última vez em que minha mulher e eu visitamos o Digão foi em julho de 2007. Eu aproveitava minhas idas a serviço em cidades próximas à sua propriedade, para visitá-lo. Graças a isso, fomos três vezes ao seu sítio.

Quando chegamos, notei que estava bem mais abatido e alquebrado que da última vez em que tínhamos estado com ele. Vestia uma camisa de lã e usava um boné do tipo “Chaves”, que tampava suas orelhas.

Quando cheguei perto dele para abraçá-lo, pegou meu rosto com as duas mãos, dizendo:

 Que alegria revê-los!

Informou que Dona Maria havia saído “para fazer hidroginástica” numa cidade próxima, que não demoraria. Sentamo-nos para conversar e, enquanto ficamos ali, não mais que uma hora, ele utilizou a máscara de oxigênio uma ou duas vezes. Quando anunciamos que já estávamos de saída, reclamou:

 Está cedo, a Maria já deve estar chegando!

Insistimos que já estava tarde, qualquer coisa do gênero e nos levantamos. Pediu-me então ajuda para poder levantar-se e, em seguida, utilizou novamente a máscara de oxigênio. Despedimo-nos afetuosamente dele, prometendo voltar em breve e saímos, deixando-o de pé na porta, sorridente.

O final do ano chegou, tirei férias em janeiro e programei mentalmente minha ida às cidades da sua região depois que passasse o período chuvoso, pois o acesso ao seu sítio era feito por uma estradinha de terra.

Um domingo à noite, lendo o jornal, vi um aviso de falecimento, comunicando que o enterro de Rodrigo ... seria naquele dia, a tal hora, em tal cemitério. Minha primeira reação foi de surpresa, por existir um sujeito com o mesmo nome do meu amigo. Em seguida, lendo o anúncio com mais atenção, pude ver a referência à “esposa, filhos, genros, noras e netos”. Aí é que eu me dei conta de que meu amigo tinha morrido.

Para confirmar, liguei na segunda feira para o sítio. Quem atendeu foi seu filho Fábio, que confirmou o falecimento. Disse que estava ali fazendo companhia à sua mãe, até que as coisas se ajeitassem.  Perguntei a causa da morte e ele me disse que tinha sido câncer no pulmão, fato que a família desconhecia até a internação de seu pai, uma semana antes de morrer.

Não me lembro porque deixei de ir à missa de sétimo dia. Talvez estas lembranças me redimam dessa descortesia com o amigo.

Julho/2008



domingo, 10 de agosto de 2014

HISTÓRIAS DO DIGÃO - PARTE XIV

A PRIMEIRA VISITA

Depois que eu saí da empresa onde trabalhávamos e ele se aposentou, fiquei mais de dez anos sem vê-lo e sem nenhum outro tipo de contato. Como gostava muito dele, um dia resolvi ligar, mas seu nome não constava mais na lista telefônica. Assim, liguei para o Xulipa, que me deu o telefone e informou que ele havia mudado para o sítio. Xulipa era o nome utilizado pelo Digão para designar o Diguinho, seu filho. De posse do novo número, liguei para ele, que teve a previsível reação de impaciência:

 Alô, quem está falando?

 QUER FALAR COM QUEM?

 Quero falar com o Hans, um velho filho da puta!

 Quem tá falando? É você mesmo? Ô menino, que alegria! Achei que você tinha morrido ou mudado para Três Marias, pois você sumiu!

Hans era um apelido que criei para ele a partir de um trocadilho infame, pois vivíamos ironizando sua idade, chamando-o de “Véio”. Um dia, quando o chamei de Hans, reagiu:

 Porque Hans? Pelo meu perfil ariano?

 Não, pô! Hans , de Hans-cião.

 Vá à puta que o pariu!

Depois desse telefonema, quando insistiu para que eu fosse visitá-lo, às vezes eu ligava para ele, às vezes era ele, mas de forma muito esporádica. A minha mulher, super carinhosa, mandava cartões de Natal, mesmo sem conhecê-lo pessoalmente.

Um dia ele ligou, dizendo que estava com saudades e que eu precisava visitá-lo, pois não saía mais de casa.

 Vem me visitar, pô! Eu não demoro muito mais não. Tirei uma radiografia onde apareceram umas manchas no pulmão, o médico olhou com cara muito feia, mas eu não quis nem saber o que é, pois na idade em que estou, não pretendo ser operado.

Depois de ser transferido para um novo setor, onde passei a fazer inspeções trimestrais em unidades da região metropolitana, resolvi visitá-lo, instado por minha mulher, que achava um absurdo o fato de eu não procurar um amigo tão querido e tão lembrado.

Chegando ao sítio, apropriadamente chamado de Sítio das Flores, fomos recebidos por ele e por sua esposa, Dona Maria, uma senhora elétrica, irrequieta e simpaticíssima.

Ao ser apresentada a ele, minha mulher fez um comentário surpreendente e muito feliz, em virtude das muitas histórias que já tinha ouvido a seu respeito:

 Hoje eu estou conhecendo um mito!

Depois das apresentações de praxe, a Dona Maria já foi logo sequestrando  minha mulher para mostrar a ela o sítio e deixando-me a conversar com o Digão.

Descobri que sua esposa ficava o dia inteiro mexendo no sítio, só voltando para almoçar ou ao anoitecer, ora plantando, ora podando, cuidando da criação, supervisionando a construção de um pequeno açude (“para criar peixe”), uma azáfama sem fim. De tal sorte que, quando alguém da família ligava procurando por ela, ele dizia em tom de piada:

 Está lá no pasto, está pastando.

Graças a essa faina incansável da Dona Maria, o sítio era um lugar lindo, encantador, com a frente toda gramada e cheia de flores. Além da casa original, pequena, o sítio tinha também um galpão de madeira, transformado inicialmente em sala de lazer e jogos, logo após a compra do imóvel.

O galpão era uma construção simples (originalmente erguido em caráter provisório), mas confortável pois, além do salão, tinha dois quartos e um banheiro. Por ter sido o local naturalmente escolhido para abrigar os cinco mil livros que tinha, organizados em estantes de aço como em uma biblioteca, acabou se transformando na moradia real do Digão, que ali passava o dia todo, lendo ou assistindo televisão. Por problemas de ronco (provavelmente dos dois), cada um ocupava um dos quartos.

No galpão propriamente dito, além das estantes repletas de livros e publicações, ficava uma mesa ou escrivaninha, local predileto de leitura, um jogo de sofás, televisão, geladeira, vários objetos de decoração e um cilindro grande de oxigênio, dotado de máscara, usado cada vez com mais frequência pelo Digão, em virtude de seu enfisema ou coisa parecida. Quando nos despedimos, reiterou a alegria causada por nossa visita, insistindo para que voltássemos outra vez.


sábado, 9 de agosto de 2014

HISTÓRIAS DO DIGÃO - PARTE XIII

A HOMENAGEM

Creio que essa foi a última história maluca em que o Digão se envolveu. E sou testemunha de sua veracidade, pois estive com as provas na mão, na penúltima vez que nos encontramos, em seu sítio.

Como já foi dito, ele trabalhou na construção da Ponte Rio Niterói, em seu início. Segundo ele, depois que todos os problemas técnicos decorrentes da magnitude da obra já tinham sido solucionados e com a obra já iniciada, o general-presidente da época destituiu o primeiro consórcio, onde ele trabalhava, para entregar a um novo grupo de empresas (as mesmas que, vira e mexe, aparecem citadas em alguma reportagem sobre obras faraônicas ou com suspeita de super-faturamento).

Em 2005, o Clube de Engenharia do Rio de Janeiro realizou uma solenidade comemorativa dos 30 anos da inauguração da ponte, momento em que foram homenageados os engenheiros que trabalharam em sua construção.

O Digão recebeu uma carta ou algo parecido, convidando-o para a cerimônia. Por já estar com a saúde frágil, pediu a um amigo, ex-colega de consórcio, que o representasse. Depois de algum tempo, recebe a visita do amigo, que lhe entrega a placa comemorativa, onde constavam os seguintes dizeres:

“AO ENGENHEIRO RODRIGO ... UMA HOMENAGEM PÓSTUMA”...

Diante disso, enviou uma carta ao presidente do Clube de Engenharia, dizendo que estava comovido e muito honrado com a homenagem, Entretanto, “apesar das evidências em contrário”, continuava ainda respirando.

Recebeu de volta uma carta com milhões de pedidos de desculpas pelo equívoco e com a explicação do engano: normalmente nessas situações, quando alguém é representado por outra pessoa, é sinal de que o homenageado já faleceu. E junto com a carta, outra placa.

Quando me contou isso por telefone, eu ri demais e comentei que sua esposa, Dona Maria, uma senhora simpaticíssima, poderia dizer após sua morte:

 “Meu marido era tão querido que foi homenageado DUAS vezes"!

Ficamos fazendo troça disso, e me lembro de uma de suas expressões prediletas:

 É o fim da picada!

Quando fui visitá-lo, mostrou-me as duas placas e rimos de novo, comentando que sua homenagem tinha saído mais em conta, pois foram duas homenagens pelo preço de uma.


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

HISTÓRIAS DO DIGÃO - PARTE XII

CIRURGIA DE CORAÇÃO

Com um estilo de vida sedentário e tendo fumado por uns cinquenta anos pelo menos, começou a ter uns piripaques de vez em quando. O amigo e cardiologista de confiança pediu uma cineangiocoronariografia.

Levou o resultado do exame para o escritório e, rindo meio sem graça, comentou ao nos mostrar, que era sua certidão de óbitoAo olhar os resultados, que indicavam “obstrução de 87% na artéria x”, 100% de obstrução na artéria y”, 92% de obstrução na artéria z”, começamos a rir irresponsavelmente, dizendo coisas como – “O 'Véio' tá morto!– “Esqueceram de te enterrar!”. E ele meio enfurecido:

 Vocês são uns cretinos!

A cirurgia de ponte safena foi realizada e fomos visitá-lo no hospital, Tempos depois, comentou que “tinha morrido” duas ou três vezes durante a cirurgia, pois seu coração tivera que ser reanimado depois de algumas paradas cardíacas. Contou também que escondeu um cigarro aceso na mão enquanto era levado para o bloco cirúrgico, um local rico em oxigênio, bom para o combate às bactérias, mas também propício à combustão. Ao levar o cigarro à boca, foi flagrado por uma enfermeira:

 Olha esse filho da puta fumando aqui!!!!!!

Convalescente, comentou com o cardiologista que estava muito ansioso e perguntou se não podia fumar um pouco. O médico, sabedor de seu vício antigo, comentou que não deveria mais fumar. Entretanto, diante das argumentações, concordou que ele fumasse “um ou dois cigarros por dia”. Imediatamente, o consumo passou de dois para quatro e assim, sucessivamente, até ser flagrado pelo amigo, na rua, com um maço no bolso da camisa:

 O que é isso, Rodrigo? Você está fumando assim?

 Não! Este maço é só para reforçar minha força de vontade.

 Hã, sei...

Só parou mesmo de fumar anos depois, depois de se aposentar e depois de sofrer dois infartos. Mas, aí, já era tarde.   


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

HISTÓRIAS DO DIGÃO - PARTE XI

NO TRÂNSITO

Devido à falta de um olho, dirigir para ele era um pouco mais complicado. Assim, às vezes, cometia alguma barbeiragem.  Ao assustar alguém que queria atravessar, ouviu o comentário:

 Cuidado aí, vovô!

Tendo um gênio mais impaciente e, mesmo sem razão, emendou:

 Vovô, não, pois eu comi foi sua mãe, não sua avó, seu filho da puta!


Quando os filhos ainda eram crianças, entrando com o carro na Getúlio Vargas, encontrou pela frente uma senhora que andava no meio das duas pistas. Tentou passar por um lado, mas a mulher encostou justamente para a mesma pista; tentou ultrapassar pela outra pista, mas a mulher, de novo, encostou para o mesmo lado. E foram assim oscilando, até que, já exasperado, conseguiu emparelhar com ela:

 Vá aprender a dirigir, sua vaca!! – e seguiu triunfante, até a próxima esquina, quando o sinal fechou e a mulher parou atrás dele. Pelo retrovisor, viu a senhora descer do carro e caminhar em sua direção. Chegando ao seu lado, curvou-se um pouco, para fulminar:

 Meu senhor, eu não sou uma vaca. Em compensação, o senhor também não é um cavalheiro! – E retornou com toda a dignidade. O filho que estava com ele e era ainda pequeno, explodiu: Reage, pai, reage, pai!!!”:

 Como é que eu podia reagir? Eu estava desse tamanhinho – Contou, juntando o polegar ao indicador.


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

HISTÓRIAS DO DIGÃO - PARTE X

BATATEIRO

Embora fosse um leitor voraz e muito culto, o Digão era muito “batateiro”, como ele mesmo dizia. Um dia comentou que era um “previlégio” alguma coisa e repetiu. Caímos de pau nele:

Olha o animal! O cara é analfabeto!

Rindo, ele confessou que nunca soube que a palavra era “pri” e não "pre”.


Em uma consulta médica de rotina, o médico perguntou como estava a vida sexual. E o Digão:

 O meu líbido está joia.

E o médico:  Porque a sua libido...

E o Digão, de novo:  Porque o meu líbido...

Contando-nos da nova “batata”, brincou:

 O som das proparoxítonas é mais erúdito...
  

TODAS AS CARTAS DE AMOR SÃO RIDÍCULAS - ÁLVARO DE CAMPOS

  Tenho publicado alguns (ou vários) poemas, onde celebro o amor que estou sentindo por uma menina que me revirou pelo avesso e explodiu min...