domingo, 7 de dezembro de 2014

MURALHA DE FOGO

Algum tempo atrás, encontrei um panfletinho na caixa de correio e fiquei muito preocupado com a inocência de quem o mandou produzir. Não se discute a boa vontade em ajudar nem a preocupação pelo próximo, claramente presentes na advertência colocada no final do panfleto:

“PREVENIR É MELHOR QUE REMEDIAR”.

Preocupou-me o fato de que mesmo querendo fazer o bem graciosamente, sempre é bom não descuidar do custo financeiro que isso representa para o benfeitor: impressão a cores, papel de boa qualidade e gasto com entrega porta a porta (salvo se for feita por voluntários, que sempre os há quando o motivo é nobre).

Mas só um jegue poderia pensar outra coisa, em algum interesse obscuro. O perigo está justamente nos riscos presentes na proposta apresentada, mais especificamente em seus procedimentos, descritos de forma sucinta, mas bastante clara.

Embora essa proposta seja quase irrecusável, há perigos em sua execução. Passo a transcrever o folheto com os comentários que julgo necessários. (Os textos em itálico correspondem aos originais do impresso ou foram encontrados na internet).

TRABALHO FORTE DE PROTEÇÃO ESPIRITUAL
MURALHA DE FOGO
A CERCA ELÉTRICA DO CÉU QUE PROTEGE A SUA CASA:

Não tenho formação na área de eletricidade, mas sei que algumas concessionárias de energia elétrica fazem o seguinte alerta:

• “Nunca faça queimadas nas proximidades da rede elétrica. Mesmo que o fogo não chegue perto dos cabos elétricos, postes ou torres, o calor pode provocar curto-circuitos”.
Ou
• “Queimadas perto das linhas são proibidas. O fogo ou mesmo o excesso de calor danificam os cabos e as estruturas, causam curtos-circuitos e interrompem o fornecimento de energia”.

Nesse caso, a minha ignorância me leva a pensar que, provavelmente, a “muralha de fogo” poderá danificar a “cerca elétrica do Céu”. Agora, o que pega mesmo são os “ingredientes” da “muralha” detalhados no folheto:

A MURALHA DE FOGO É FEITA POR TRÊS ELEMENTOS EXTREMAMENTE FORTES
1° - ÁGUA SAGRADA: Água benta; água espiritualizada.
2° - TERRA SANTA: A terra do Monte Maanaim
3° - ENXOFRE: Que queima os piores demônios, espíritos do inferno, exus e bichos terríveis da macumba.

Eu confesso que não entendi. Se a muralha é de fogo, a água só irá atrapalhar. Também não entendo nada de química, mas parece que falta alguma coisa aí. O enxofre pega fogo, mas, antes, precisa ser aquecido (imagino que seja igual a carvão de churrasqueira). E água não é inflamável. A menos que seja daquela que passarinho não bebe (vai ver, ela é “espiritualizada” por ser espírito de vinho...) E a terra? Seria usada para fazer um fogo controlado? (se a chama aumentar muito joga-se terra em cima, por exemplo).

Como se vê, são muitas as minhas dúvidas, grande a minha preocupação. Aliás, cerca elétrica com água, mesmo que seja benta, pode causar choques graves. O que me consola são os benefícios prometidos, pois “exus e bichos terríveis da macumba” são realmente uma coisa aterradora. Para combater isso, só mesmo seguindo o conselho do impresso:

Trabalho Forte - Início de Trezena Poderosa.
É tempo de blindar, proteger, colocar uma Muralha de Fogo para proteger a sua casa, sua vida, sua empresa e sua família.

E se alguém quiser conhecer as “qualidades” do inspirador do folheto, seguem dois links que, curiosamente, trazem informações conflitantes, tal como no impresso que mandou fazer.







sábado, 6 de dezembro de 2014

SUPEREGO

Um dos meus filhos disse recentemente que minha geração “é mais largada". Segundo suas palavras “o que estranha não é uma pessoa mais velha fora do padrão sério/sisudo, mesmo porque a sua geração é mais largada. O que eu não entendo é uma pessoa querer se comportar como se pertencesse a uma geração que não a sua. E isso vale até para o que já se convencionou chamar de ‘adultescentes’.".

Achei graça, mas protestei veementemente, pois até hoje padeço de falta de traquejo social, pois ou fico travado (como ficava antes de começar a namorar minha mulher) ou fico muito "relaxado" tal como aprendi a ficar, convivendo com meus cunhados. Além disso, não pertenço a essa turma. Não quero parecer mais novo do que sou. Sou idoso, preferencial, mas não da "melhor" idade, porque isso é hipocrisia (melhor porra nenhuma!). Eu pertenço à turma da "gravidade", aquela onde tudo cai, está caindo ou já caiu (por enquanto, estou me referindo apenas à pele, dentes, cabelo e audição, pô!). Quanto ao resto, só o tempo dirá, mas imagino que o futuro seja meio tenebroso (a força "gravitacional" tende a ficar mais "intensa"...).

Mas, parece que a coisa funciona desse jeito: depois que a pessoa envelhece, o superego fica meio relaxado, como me disse outro filho. Então, os idosos, por conta do superego “frouxo”, talvez se sintam meio soltinhos, assim “como o arrozinho da mamãe” (adoro essa expressão). Não sei, talvez um psicólogo possa validar essa impressão. Ou não.

Tem mais, pode ser - como disse meu filho - que algum velhinho ou velhinha (principalmente) queira parecer mais novo do que efetivamente é (no Facebook, um conhecido registrou ter nascido em 1950. Nada mudou com isso, pois continuou o mesmo merda que sempre foi. A diferença é que  "rejuvenesceu" uns quatro anos, pelo menos).

O que quero dizer é que dentro de mim (nada sei dos demais) ainda vive uma parte do menino, uma parte do adolescente, uma parte do jovem adulto. E esse Frankenstein mental às vezes pede atitudes de acordo com a idade que estiver mandando na hora. Mas aí, eu tenho que segurar ao máximo para não parecer retardado ou senil. Essa é a prisão dos idosos tidos como saudáveis, uma prisão feita de normas de conduta e convenções sociais.

Mas há prisões piores. Recentemente eu registrei a imensa pena que sinto quando vejo pessoas severamente limitadas fisicamente desde que nasceram. Eu sempre vejo essas pessoas como prisioneiras de si mesmas, pois dentro de um corpo cheio de limitações há alguém que talvez pense igual a mim, que pode ter sonhos como todo mundo tem, mas está ali, presa, imobilizada. Triste demais. Esse tipo de aprisionamento dentro de si mesmo nem de longe se assemelha à prisão social da velhice. Comparadas, uma é solitária perpétua enquanto a outra é cadeia para mensaleiros.

06/12/2014

MÚSICA, MAESTRO!

Eu gosto muito de música, mas sou leigo no assunto. Hoje, ouvindo rádio, começou a tocar uma música instrumental. Fiquei na minha, tentando ouvir, até que meu filho mudou de estação, porque estava muito chata.

Aí fiquei pensando que música instrumental só é composta e gravada por grandes instrumentistas. O problema é que eles parecem confundir virtuosismo na execução com beleza melódica.

É claro que não estou me referindo à música clássica “erúdita”. Isso é para quem entende. Eu até gosto de algumas dessas obras, mas não é o meu boteco (eu poderia ter dito que não é a minha praia, mas alguém já disse que a praia de mineiro é boteco. Então...).

Depois disso, uma ideia surgiu na minha cabeça: algumas músicas são apenas instrumentais porque ninguém se animou a por letra em coisa tão chata. E aí surgiu o diálogo abaixo:


-   E aí, brother?

-   Beleza?

-   Quer ouvir a música que acabei de compor?

-   Manda!

(uma música é tocada no violão, com solo e tudo)

-   Que tal?

-   Hum...

-   Viu que acordes incríveis, que fraseado fantástico?

-   Hummm...

-   Fala a verdade, ficou linda, não?

-   NÃO!!!

-   Como “NÃO!!!”?

-   Ué, Você disse para falar a verdade!

-   Cê tá de gozação. Eu te observei, você estava de olhos fechados, com um baita sorriso!

-   É que eu estava me lembrando de uma receita espetacular que vi no blog Mixidão.

-   Mixi o que?

-   Esquece!

-   Sacanagem, eu tava até pensando em te chamar para por letra nela!...

-   “Nisso”? NEM FODENDO!


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

OBSCURANTISMO

Para mim, um dos sentimentos mais desprezíveis que o homem pode ter é a intolerância, o estado de querer que o outro seja tal como imaginamos que deve ser e, não, como efetivamente é. Criei para isso duas expressões, que uso com relativa frequência.

A primeira é “ndrome da divindade adquirida” (por querer aquele que a possui que o mundo seja à sua imagem e semelhança). A segunda é mais vulgar e fácil de entender: “A intolerância é uma merda”.

Imagino que para árabes do tipo do Osama ou seguidores do "Isis", os ocidentais e todos aqueles que não seguem o seu credo são degenerados. Essa intolerância, independente de sua motivação, provavelmente está presente na forma de pensar de outros fundamentalistas. Se você perguntar algo semelhante a isso para um evangélico, provavelmente ele dirá que sim ou algo parecido. Afinal, todo obscurantista condena o que conflita com suas crenças, dogmas e tabus. Usando o Giordano Bruno como exemplo, acredito que os juízes que o condenaram eram piores que seu prisioneiro. Mas essa é a minha visão.

Tive um amigo de imensa cultura, católico convertido (irmão leigo dominicano!!) que me ensinou não ser possível julgar ações de outra época a não ser conhecendo-se os costumes dessa mesma época. Que é injusto que julguemos a Inquisição com nossos olhos do século XXI. Por isso, até entendo que o pobre monge tenha sido julgado como foi. Apenas lamento que o véu do pré-conceito (pai do preconceito) tenha servido para secar a tinta da sentença.

Por outro lado, como sou um ignorante, se fosse julgá-lo, provavelmente, eu o condenaria também. Agora, se eu fosse o Giordano, tentaria me retratar para salvar a pele, ficaria mais para Galileu (eppur se muove) e evitaria virar pururuca.

Então, voltando ao Brunão, lamento que ele tenha sido vítima de intolerância, causada justamente pelo conhecimento de então (ou pela falta dele).

04/12/2024

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

WOOD & STOCK - ANGELI

Quem nunca tentou criar um cartoon ou uma tirinha de humor, nem sonha como é difícil. Além do domínio pelo menos razoável de desenho, você ainda precisa criar uma piada que funcione graficamente. Não é para qualquer um. Os gêmeos Chico e Paulo Caruso têm um traço muito bonito e limpo, um desenho de fazer qualquer um babar. Mas, para mim, o melhor cartunista que existe atualmente no Brasil é o Angeli. Seu humor é excelente e seu traço, apesar de mais tosco que os Caruso, é genial.
 
Se você comparar seu desenho com o do famosíssimo Robert Crumb, poderá dizer que o Crumb é o Angeli dos Estados Unidos e não o contrário. Porque o Angeli é umas dez vezes mais engraçado. Criador de uma galeria de personagens divertidíssimos e bem sacados, foi dono da revista de humor e quadrinhos “Chiclete com Banana” e é o merecidamente reverenciado de hoje.
 
Os personagens escolhidos para dar uma pala de sua obra são Wood e Stock, dois hippies velhos e barrigudos, ainda perdidos nas décadas de 60 e 70. Super engraçados. Olhaí.
 


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

JOAQUIM BARBOSA É MAIS UM JOTABÊ

Recentemente eu comparei o excelente e excelentíssimo ex-ministro Joaquim Barbosa com o Lula. Lembrando-me disso me dei conta que é melhor comparar o ministro com Jotabê. Afinal, até as iniciais dos dois nomes são as mesmas!

Mas, quem é Jotabê afinal? Aparentemente, uma entidade (sem fins lucrativos) que adquiriu vida própria, autônoma. Se lhe perguntarem de onde vem seu nome, talvez diga que são as iniciais de Just in Beer. A seguir, alguns traços de seu caráter (ou de sua falta).

 -    Embora seja um intelectual de nome razoavelmente conhecido (que o digam o SERASA e o SPC), Jotabê é muito modesto. Uma modéstia, que traz de berço (era obrigado a dividi-lo com mais cinco irmãos e um cabrito de três pernas).

 - O ex-ministro fala quatro línguas. Jotabê chega perto, pois fala português coloquial, língua do pê e linguagem de baixo calão enriquecida com gírias ultrapassadas.

 -  Outro ponto de contato é a notória cultura de ambos. Jotabê sempre gostou de ler os cadernos “B” dos jornais, para adquirir mais conhecimento. Dá também muita atenção às orelhas dos livros. Diz-se dos músicos que não estudaram teoria musical que tocam “de ouvido”. Pois bem, Jotabê, esse fenômeno das letras, fala de orelhada!

 -   Finalizando, pode-se afirmar que se Joaquim Barbosa está do lado do Bem, Jotabê está mesmo é a favor do Bem Bom.


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A ERA DOS EXCESSOS


Um dos meus filhos me enviou um link com uma matéria legal que tem o título “Hotel California e a era dos excessos” (escrita pelo excelente André Barcinski), da qual transcrevo alguns trechos:

“(...) Com o fim do sonho hippie de paz e amor, a escalada da Guerra do Vietnã e a evidente derrota da geração do LSD, Geffen sacou que o pop estava pronto para uma turma musical mais introspectiva, que não cantasse mais sobre os sonhos de liberdade, mas sobre a tristeza de não tê-los atingido.

(...) O fim dos anos 60 e início dos 70 foi uma época turbulenta: Brian Jones, Janis Joplin, Jim Morrison e Jimi Hendrix morreram num espaço de dois anos; Charles Manson e sua gangue circulavam pelas festinhas de embalo nas montanhas de Hollywood, e David Crosby cheirava metade do PIB da Colômbia (Dennis Hopper até se inspirou nele para criar seu personagem em “Easy Rider”).

(...) Foi uma época de hedonismo incomparável. Tudo que se dizia que rolou de sexo, drogas e loucura nos anos 60, na verdade, ocorreu nos 70. A descrição das turnês de CSN&Y, com 90 pessoas na equipe e tapetes persas para decorar o palco, é reveladora.
E a melhor frase sobre a música da época talvez seja a de Phil Spector, que sempre criticou o estilo confessional da turma: ‘Essas pessoas não escrevem canções, escrevem ideias’”.

A transcrição acima serve para “contextualizar” minha lembrança (memória, brother!) sobre a tal "era dos excessos". 

Não sei dizer quanto à maioria dos jovens de então, mas havia (pelo menos) uma minoria mais ligada à contracultura, à cultura alternativa, que via com condescendência e até com aprovação o uso de drogas. Era um pessoal que lia (ou dizia que lia) livros tipo "A erva do diabo", de Carlos Castañeda, "As portas da percepção", de Aldous Huxley, "Sidarta" e "O Lobo da Estepe", de Herman Hesse, coisas assim. Gente que aparentava ser descolada, enturmada. Alguns usavam roupas que pareciam ter sido importadas direto de um brechó de Woodstock.

Eu era feio e inseguro. Pior, eu era feio, inseguro, imaturo e... pobre. Natural, portanto, que eu não me sentisse um mauricinho, um playboy. Então, essa (contra)cultura me seduziu e fez com que eu desejasse fazer parte dessa tribo (provavelmente, foi por conta de ideias desse tipo que surgiu a expressão "programa de índio") e a querer experimentar algum tipo de droga.

Bom, devo dizer que não tive sucesso. Talvez o motivo fosse a certeza dos usuários de que eu não tinha grana para comprar o bagulho. Mas ainda penso que o real motivo é esse: eu era tão bundão que ninguém quis "me aplicar", como se dizia na época. Então, continuei feio, pobre, inseguro e imaturo, mas com um verniz "cult". Bela bosta, não?





TODAS AS CARTAS DE AMOR SÃO RIDÍCULAS - ÁLVARO DE CAMPOS

  Tenho publicado alguns (ou vários) poemas, onde celebro o amor que estou sentindo por uma menina que me revirou pelo avesso e explodiu min...