sábado, 14 de dezembro de 2024

UM FILÓSOFO ME ENSINOU

Tempos atrás, ouvi um filósofo dizer em uma palestra que a felicidade é um instante de vida que você gostaria de prolongar, de eternizar, de fazer durar para sempre. E que a vida é boa quando você deseja que ela nunca acabe.
 
E chamou atenção para o fato de que somos frequentemente impelidos a desejar que algo termine, que o tempo passe mais rápido. Quem trabalha ou estuda anseia pelo fim da semana, chegada das férias, vivendo sempre no futuro. Assim, sem perceber, a pessoas torcem para a vida passar rápido.
 
E continuou a palestra ensinando, dizendo que a felicidade é o contrário disso. Que a felicidade está presente quando você torce para não acabar, quando você lamenta o final do dia, o final de alguma coisa que está fazendo. E finalizou dizendo que “a vida vale a pena quando você torce para ela não acabar”. Na época, fiquei encantado com essa ideia, mas depois me perguntei o que acontece com quem tem um sentimento oposto a isso. E quando se tem o desejo de que a vida passe rápido?
 
Hoje em dia, frequentemente, meu desejo é que minha vida passe rápido, tal a barra que às vezes encaro. Como agora, ao descobrir que devido ao “equacionamento da dívida bla bla bla” do fundo de previdência ao qual pertenço (um rombo de bilhões provocado nos governos Lula e Dilma), meu décimo terceiro salário deste ano foi reduzido a menos de um décimo do valor esperado, virou um décimo do terceiro salário (apesar da gravidade da situação, não se pode desperdiçar a piada). Esse golpe me destruiu emocionalmente, tornando pior o que já estava ruim, pois uma das coisas que mais me derruba é falta de dinheiro.
 
Minha vontade imediata foi dormir, dormir e nunca mais acordar, pois os sonhos ruins que vêm durante o sono são fichinha perto dos pesadelos reais do dia a dia. E o caos em que tenho vivido me fez tentar registrar em “versos” esses momentos que me têm esmagado. Infelizmente, não tenho a habilidade do Ryk@rdo para extrair deste tempo um daqueles belos poemas que escreve – mesmo que tivesse a beleza trágica da tristeza  e desalento.E o resultado ficou assim:
 
 
Um filósofo me ensinou um dia
Estar a felicidade num instante
Da vida que você gostaria, pediria
Que nunca termine, que dure bastante.
 
Que a vida é boa, ele dizia
Quando se torce para ela não acabar.
Mas, a gente às vezes torce, sem pensar
Para que tudo, até a vida, passe e se vá.
 
E continuou a ensinar
Que a felicidade é disso o oposto.
Que está no instante quando se deseja que
O tempo pare e que nunca se lhe perca o gosto
 
É quando você lamenta o final do dia.
E que a vida vale a pena quando
Tudo parece tão bom e precioso
Que o amanhã nem chegar precisaria.
 
Eu ouvia tudo aquilo mas refletia
E quando se torce para que o dia acabe?
Que ficar acordado hoje é um pesadelo
E que tudo o que se pode desejar
 
É poder dormir, dormir, nunca acordar
Pois um sonho ruim que o sono traz
É muitas vezes melhor, não angustia
Pois a dor do dia a dia não dá paz.

 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

ENGENHEIRAGENS

 
Como só saio de casa quase que apenas para ir ao médico, à farmácia, supermercado ou padaria, fico meio por fora do que está rolando em termos de restaurantes, bares e petisqueiras de BH. Justamente por isso, só hoje fiquei sabendo da existência de um restaurante chamado “Engenheiros”.
 
Essa descoberta só confirma minha tese de que engenheiro faz qualquer merda para sobreviver ou ganhar dinheiro. Gente que desistiu de procurar emprego ou que abandonou a profissão para tornar-se dono de padaria, programador, analista financeiro, músico (“Os engenheiros da HP”), motorista de uber (pois é...) e até um caso clássico, o do engenheiro que ao ser demitido depois de oito anos trabalhando na indústria mecânica abriu uma lanchonete em São Paulo com o nome “O Engenheiro que Virou Suco” (hoje ele é comerciante de automóveis).
 
É importante ressaltar que a mudança para atividades dissociadas de sua formação profissional teve como causas as várias crises econômicas que o país enfrentou, com consequência imediata na quebra de empresas de engenharia e escassez de empregos. Mesmo assim, não deixa de ser curiosa e até engraçada essa mobilidade profissional. 

Por isso, voltando ao restaurante “Engenheiros”, fiquei pensando em algumas sugestões para tornar seu atendimento mais diferenciado e atraente. O pedido do cliente, por exemplo, poderia ser chamado de "projeto"; o garçom poderia ser o "Responsável Técnico". A comanda entregue por ele à cozinha seria chamada de "ART - Anotação de Responsabilidade Técnica". E o fechamento da conta seria obviamente chamado de "Baixa".

Agora, o prato que realmente definisse o lugar, opção ideal para homenagear os engenheiros e o CREA – Conselho Regional de Engenharia e Agronomia, sua entidade de classe, seria um crepe, delicadamente chamado de Creape. Só falta definir os ingredientes. Acho que ficaria bom.

 
Depois desse trocadilho nauseante, uma notícia verdadeira com sabor de piada. Olha esta manchete lida em um portal da internet (grifo meu):
 
Curso de Engenharia Ferroviária da UFSC tem um único inscrito para o vestibular.
 
Desconfio que será mais um a mudar de profissão depois de formado!

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

AS FRASES PROVOCATIVAS DE NELSON RODRIGUES - ÚLTIMA PARTE

A maioria das pessoas imagina que o mais importante no diálogo é a palavra. Engano: o importante é a pausa. É na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão.

Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos.

O casamento é o máximo da solidão com a mínima privacidade.

O canalha é sempre um cordial, um ameno, um amorável.

A morte de um velho amigo é uma catástrofe na memória. Todas as nossas relações com o passado ficam alteradas.

Aos 18 anos o homem não sabe nem como se diz bom-dia a uma mulher. Todo homem deveria nascer com 30 anos feitos.

Eu tenho a maior admiração pelo homem fiel. Eu acho que o homem e a mulher deviam ser fiéis. Toda vez que alguém trai alguém, há um choque no universo.

A pior forma de solidão é a companhia de um paulista.

Os idiotas vão acabar dominando o mundo

É possível que um de nós ame alguém. O difícil (não quero dizer impossível) é que esse alguém nos ame de volta.

A mulher pode trair o marido; o amante, jamais!

Nada frustra mais a mulher do que aquela liberdade que ela não pediu, que não quer e que não a realiza.

O homem começa a ser homem depois dos instintos e contra os instintos.

Sexta-feira é o dia em que a virtude prevarica.

Qualquer um de nós já amou errado, já odiou errado.

Só acredito nas pessoas que ainda se ruborizam.

Qualquer amor há de sofrer uma perseguição concreta e assassina. Somos impotentes do sentimento e não perdoamos o amor alheio. Por isso, não deixe ninguém saber que você ama.

O homem só é feliz pelo supérfluo. No comunismo, só se tem o essencial. Que coisa abominável e ridícula!

Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém.

A dúvida é autora das insônias mais cruéis.

O homem de bem é um cadáver mal-informado. Não sabe que morreu.

Se o Fluminense jogasse no céu, eu morreria para vê-lo jogar.

Eu vos digo que o melhor time é o Fluminense. E podem me dizer que os fatos provam o contrário, que eu vos respondo: pior para os fatos.

Sou tricolor, sempre fui tricolor. Eu diria que já era Fluminense em vidas passadas, muito antes da presente encarnação.

O Fluminense nasceu com a vocação da eternidade...tudo pode passar...só o TRICOLOR não passará jamais.

Nas situações de rotina, um "pó-de-arroz" pode ficar em casa abanando-se com a Revista do Rádio. Mas quando o Fluminense precisa de número, acontece o suave milagre: os tricolores vivos, doentes e mortos aparecem. Os vivos saem de suas casas, os doentes de suas camas e os mortos de suas tumbas.

Torcer para o Fluminense é uma maneira de você olhar para o seu vizinho e dizer: "sou melhor que ele".

O brasileiro não está preparado para ser o maior do mundo em coisa nenhuma. Ser o maior do mundo em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade

Há sujeitos que nascem, envelhecem e morrem sem ter jamais ousado um raciocínio próprio.

Como são parecidos os radicais da esquerda e da direita. Dirá alguém que as intenções são dessemelhantes. Não. Mil vezes não. Um canalha é exatamente igual a outro canalha.

Toda coerência é, no mínimo, suspeita.

Criou-se uma situação realmente trágica: — ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina.

O amoroso é sincero até quando mente.

Até os canalhas envelhecem.

O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota.

Quem nunca desejou morrer com o ser amado, não conhece o amor, não sabe o que é amar.

Se os homens de bem tivessem a ousadia dos canalhas, o mundo estaria salvo.

Eu me nego a acreditar que um político, mesmo o mais doce político, tenha senso moral.

A vaia é o aplauso dos descontentes.

O brasileiro não tem motivos pessoais ou históricos para a autoestima.

 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

SORRY PERIFERIA

  
Não posso afirmar ser mais velho que todos os leitores que tropeçam neste blog desconjuntado, mas dos blogueiros identificáveis que passam por aqui eu sou. O Ricardo do Marreta do Azarão, por exemplo, é velho pra kawaka, mas pelo menos uns quinze anos mais novo que eu. Mais novos que eu também são a She do blog Escritora Sheila Mendonça, o Eduardo, d’As Crônicas do Edu, o poeta Ryk@rdo do Pensamentos e Devaneios Poéticos e a CatiahoAlc do Espelhando Amigos (mas jamais cometerei a indelicadeza de estimar a idade de cada um). O GRC do Ex Estranho foi aluno do Azarão e o Fabiano do blog Um Brasileiro Gay tem a aparência de meu filho mais velho. A Rô: Meu Diário, então nem se fala, pois tem cara de quem ainda usa fraldas.
 
Por isso, a frase “vocês são bem mais jovens que eu” expressa uma questão semântica complexa (como eu não sei português e o máximo que consigo é escrever em português suburbano, da periferia, tive de consultar o dicionário para saber o que é “semântica” e como usá-la neste texto, para que ele ficasse um pouco mais elegante).
 
E quando eu digo complexa é porque nem tudo é tão simples como aparenta ser. Imagine, por exemplo, um estauricossauro – um dino surgido no Triássico (até parece que eu entendo dessa merda!) dizendo a um tiranossauro (surgido no Jurássico): - “você é bem mais jovem que eu!” Isso para mim não representa nada, pois os dois são velhos pra caralhíssimo. E essa é a questão, pois é difícil generalizar o conceito “você é bem mais jovem que eu”, pois todos são. Se bobear, até o T. Rex também é.
 
A implicação disso é não saber se todos curtirão a relíquia que é o assunto deste post. Explicando melhor, recebi de minha mulher via whatsapp um vídeo supimpíssimo, tão bacana que pensei em encontrá-lo no youtube, só para postar no Blogson. Antes do vídeo, cabe uma pequena reflexão: ao usar a palavra “supimpíssimo”, superlativo de “supimpa”, eu já deixei uma pista sobre minha idade.
 
O tema de hoje é um filme publicitário de 1958 do achocolatado Toddy (quando eu estava ainda com mimosos oito aninhos). Fiquei tão encantado que não resisti à tentação de exibi-lo no Blogson – um blog sempre pronto a ensinar um pouco de história recente a essa juventude transviada.
 
E aqui voltamos ao choque de gerações (na verdade, a ignorância dos velhinhos sobre o que está rolando hoje no meio da meninada e, simetricamente, o desconhecimento dos mais jovens do que foi notícia em passado recente), pois o filme exibe vários atores e atrizes apregoando as qualidades do néctar dos deuses, a bebida preparada com toddy (uma colher de sopa para 300 ml de leite. Gelado, por favor).
 
Alguns rostos me pareceram familiares, mas apenas um se destacou: o da esfuziante Norma Bengell. La Bengell foi sucessivamente corista de teatro de revistas (corista era sinônimo de gostosíssima), atriz elogiada de cinema e teatro, cantora (muito boa), diretora, produtora, o escambau. Mas naquele filme era apenas uma jovem então com 23 anos e a quatro de protagonizar o primeiro nu frontal em um filme brasileiro (Os Cafajestes). Não preciso dizer o que essa informação provocou em minha mente adolescente, não é?
 
Você consegue imaginar um filme assim com outra marca de achocolatado? Como diria Ibrahim Sued, o mais influente e paparicado colunista social daquela época, Sorry, periferia. E ademã, que eu vou em frente. De leve.
 
Então é isso (falei tanto que quase me esquecia de publicar o link. Sorry, periferia!). Olhaí.



terça-feira, 10 de dezembro de 2024

AS FRASES PROVOCATIVAS DE NELSON RODRIGUES - TERCEIRA PARTE

 Falta ao virtuoso a feérica, a irisada, a multicolorida variedade do vigarista.

A solidão começou para o verdadeiro católico. Tomem nota: — ainda seremos o maior povo ex-católico do mundo.

O casamento já é indissolúvel na véspera.

A educação sexual só devia ser dada por um veterinário.

Antigamente, o defunto tinha domicílio. Ninguém o vestia às pressas, ninguém o despachava às escondidas. Permanecia em casa, dentro de um ambiente em que até os móveis eram cordiais e solidários. Armava-se a câmara-ardente numa doce sala de jantar ou numa cálida sala de visitas, debaixo dos retratos dos outros mortos. Escancaravam-se todas as portas, todas as janelas; e esta casa iluminada podia sugerir, à distância, a ideia de um aniversário, de um casamento ou de um velório mesmo.

Sou contra a pílula, e ainda mais contra a ciência que a inventou; a saúde pública que a permite; e o amor que a toma.

Os padres exigem o fim do celibato. Portanto, odeiam a castidade. Imaginem um movimento de meretrizes a favor da castidade. Pois tal movimento não me espantaria mais do que o motim dos padres contra a própria.

Os padres querem casar. Mas quem trai um celibato de 2 mil anos há de trair um casamento em quinze dias.

No Brasil, só se é intelectual, artista, cineasta, arquiteto, ciclista ou mata-mosquito com a aquiescência, com o aval das esquerdas.

Não há ninguém mais bobo do que um esquerdista sincero. Ele não sabe nada. Apenas aceita o que meia dúzia de imbecis lhe dão para dizer.

As feministas querem reduzir a mulher a um macho mal-acabado.

Considero o filho único um monstro de circo de cavalinhos, um mártir, mártir do pai, mártir da mãe e mártir dessas circunstâncias. As famílias numerosas são muito mais normais, mais inteligentes e mais felizes.

Na velha Rússia, dizia um possesso dostoievskiano: — Se Deus não existe tudo é permitido. Hoje, a coisa não se coloca em termos sobrenaturais. Não mais. Tudo agora é permitido se houver uma ideologia.

Quando os amigos deixam de jantar com os amigos (por causa da ideologia), é porque o país está maduro para a carnificina.

Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos.

Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: — ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina.

Qualquer indivíduo é mais importante que toda a Via Láctea.

Ainda ontem dizia o Otto Lara Resende: — O cinema é uma maneira fácil de ser intelectual sem ler e sem pensar. Mas não só o cinema dá uma carteirinha de intelectual profundo. Também o socialismo. Sim, o socialismo é outra maneira facílima de ser intelectual sem ligar duas ideias.

Com o tempo e o uso, todas as palavras se degradam. Por exemplo: — liberdade. Outrora nobilíssima, passou por todas as objeções. Os regimes mais canalhas nascem e prosperam em nome da liberdade.

O mundo é a casa errada do homem. Um simples resfriado que a gente tem, um golpe de ar, provam que o mundo é um péssimo anfitrião. O mundo não quer nada com o homem, daí as chuvas, o calor, as enchentes e toda sorte de problemas que o homem encontra para a sua acomodação, que, aliás, nunca se verificou. O homem deveria ter nascido no Paraíso.

Entre o psicanalista e o doente, o mais perigoso é o psicanalista.

É preciso ir ao fundo do ser humano. Ele tem uma face linda e outra hedionda. O ser humano só se salvará se, ao passar a mão no rosto, reconhecer a própria hediondez.

Sou um pobre nato e, repito, um pobre vocacional. Ainda hoje o luxo, a ostentação, a joia, me confundem e me ofendem.

Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o chamem de reacionário.

Em muitos casos, a raiva contra o subdesenvolvimento é profissional. Uns morrem de fome, outros vivem dela, com generosa abundância.

O povo é um débil mental. Digo isso sem nenhuma crueldade. Foi sempre assim e assim será, eternamente.

O mundo só se tornou viável porque antigamente as nossas leis, a nossa moral, a nossa conduta eram regidas pelos melhores. Agora a gente tem a impressão de que são os canalhas que estão fazendo a nossa vida, os nossos costumes, as nossas ideias. Ou são os canalhas, ou são os imbecis, e eu não sei dizer o que é pior. Porque você sabe que são milhões de imbecis para dez sujeitos formidáveis.

Os que choram pouco ou não choram nunca, acabarão apodrecendo em vida.

Subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos.

Sou reacionário sim. Reajo contra tudo que não presta.

Meu amor é anormal porque é sem vergonha, sem limite e sem covardia.

O amor não morre - vivo eu dizendo. Morre o sentimento que é apenas uma imitação do amor, muitas vezes uma maravilhosa imitação do amor.

A burrice é diferente da ignorância. A ignorância é o desconhecimento dos fatos e das possibilidades. A burrice é uma força da natureza.

Não há inimigo insignificante. Todo inimigo é uma potência. O amigo trai na primeira esquina. Ao passo que o inimigo não trai nunca. O inimigo é fiel. O inimigo é o que vai cuspir na cova da gente. Não há admiração mais deliciosa do que a do inimigo.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

O PRAZER DA BOA LEITURA

 
Sabe o que faz (ou fazia, antes da explosão das redes sociais) surgir o hábito de ler em uma criança, um jovem ou um adulto alfabetizado? O prazer que se tira da leitura, de qualquer leitura, até mesmo da Teoria da Relatividade. Quando nossos filhos estavam na faixa de, sei lá, sete a quinze anos, o colégio onde estudavam recomendava (e pedia trabalhos sobre isso) a leitura de livros infanto-juvenis bastante meia-boca, em minha opinião. Capas e páginas ricas em ilustrações coloridas, mas histórias totalmente sem graça. Um dia recomendaram a leitura do livro “O menino no espelho”, de Fernando Sabino. Segundo os filhos que o leram, foi o melhor livro sugerido pela escola. Até eu li.
 
Então, esta é a regra: história boa e texto bem escrito cativam e, com sorte, transformam a pessoa em mais um leitor neste país de analfabetos funcionais. Escrevi estas abobrinhas para falar de um artigo que acabei de ler na internet. O que me atraiu foi o título chamativo mencionando meu ídolo maior Rubem Braga. E nada mais direi. Quem quiser que leia o excelente e agradável texto escrito e publicado por Conceição de Freitas no portal Metrópoles, transcrito a seguir.

 
Fofoca antiga: Rubem Braga e Marcel Proust dormiram na mesma cama
O endereço-fetiche é célebre: 44 Rue Hamelin, Paris

Quem adora uma fofoca literária, crônico-literárias por assim dizer, deve saber que o mais reverenciado cronista brasileiro dormiu no mesmo quarto que um dos mais endeusados romancistas franceses. Rubem Braga e Marcel Proust dividiram o mesmo teto, a mesma alcova e o mesmo colchão, embora a uma distância de 25 anos um do outro.
O endereço-fetiche é célebre: 44 Rue Hamelin, Paris. Com crises de asma desde a infância, Proust chegou à vida adulta com uma bronquite severa. Muito debilitado, à base de morfina, revisou os últimos dois volume de Em Busca do Tempo Perdido até morrer de doença e exaustão em 18 de novembro de 1922, aos 51 anos, no quarto andar do predinho de quartos alugados.
Vinte e cinco anos depois, em 1947, o antigo casarão receberia um casal de inquilinos vindos de um país exótico: Rubem Braga e Zora Seljan. Ocuparam um cômodo do 4º andar sem saber da vida pregressa do lugar. Os vizinhos logo se encarregaram de contar que Proust havia morado na mesma rua, mas em outro número.
Mesmo assim, era coincidência boa demais para não ser aproveitada até o osso pelo cronista capixaba. Em As velhinhas da rue Hamelin, Braga descreve, com sua prosa primorosa, a paisagem humana de Paris. Detalha o jeito e a roupa dos franceses e das francesas de muita idade que andavam pela rue Hamelin. Uma delas, por exemplo, “usa um vestido que se fecha no pescoço em uma espécie de gola alta, onde há rendas e talvez elástico, talvez barbatana, uma gola que mantém a cabeça ereta através dos séculos, capaz de ver de cima, sem se curvar, as pequenezas do mundo presente”.
(Aff que coisa mais bem escrita).
Segue o relato: “Há dois velhos extraordinariamente magros, extraordinariamente brancos, vestidos de negro, com chapéus negros, que andam juntos, mas não se falam nunca, como se há quarenta anos atrás tivessem esgotado de maneira irremediável o último assunto”.
Já estava muito bom desse tamanho: Rubem Braga tinha morado no mesma rua onde Proust havia passado seus últimos anos. Depois da crônica publicada, vem o melhor: o cronista descobre que tinha morado não apenas na mesma rua, mas no mesmo prédio e no mesmo andar, o 4º, onde o genial dândi francês tinha vivido até a morte.
Soube de tudo isso graças à biografia que Léon Pierre-Quint fez do amigo Proust. Lá estava a descrição do quarto, um cômodo muito frio, longe da calefação central, e de móveis sombrios. Não havia dúvida, era o mesmo lugar. Até das manchas na banheira, Braga se lembrava. E até apostava que o francês não chegou a tomar um mísero banho de chuveiro, posto que esse conforto ali não havia.
Aí então escreve a célebre crônica, 44, rue Hamelin (Diário Carioca, 18/04/1948) anunciando ao Brasil que tinha dormido na mesma cama que o moço das madeleines. E caçoava, deliciosamente, de si mesmo:
“A pior coisa que se pode dizer a meu respeito (entretanto desmentirei) é que não li Proust. Posso perfeitamente em qualquer salão discorrer sobre Swan, descrever Combray ou Balbec, falar de Albertina ou da senhora duquesa de Guermantes – mas ler mesmo, no duro, aqueles volumes todos, é duvidoso que eu tenha feito.”
E declara ao Brasil com falsa e sarcástica solenidade: “Não existe ninguém hoje mais autorizado neste país a falar sobre Proust” do que ele próprio, Rubem Braga, embora tenha confessado que não havia lido nada ou quase nada do idolatrado francês.
Porém muito mais importante do que ter dormido na cama de Proust foi ter dormido em outra cama naquela temporada parisiense (mas isso o cronista não escreve, quem conta é seu biógrafo, Marco Antonio de Carvalho). Naquela Paris que tinha acabado de se livrar da ocupação nazista, Rubem Braga viveu uma paixão fulminante, e correspondida, com uma jovem e absurdamente bela mulher casada, Tonia Carrero. Um amor proustiano-braguense cheio de nunca mais quero te ver, mas não sei viver sem você. Puro Proust, puro Braga.
 

domingo, 8 de dezembro de 2024

AS FRASES PROVOCATIVAS DE NELSON RODRIGUES - SEGUNDA PARTE

 

Sou a maior velhice da América Latina. Já me confessei uma múmia, com todos os achaques das múmias.

Toda oração é linda. Duas mãos postas são sempre tocantes, ainda que rezem pelo vampiro de Dusseldorf.

O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota

Na vida, o importante é fracassar.

A Europa é uma burrice aparelhada de museus.

Hoje, a reportagem de polícia está mais árida do que uma paisagem lunar. O repórter mente pouco, mente cada vez menos.

Daqui a duzentos anos, os historiadores vão chamar este final de século de a mais cínica das épocas. O cinismo escorre por toda parte, como a água das paredes infiltradas.

Sexo é para operário.

Subdesenvolvimento não se improvisa. É obra de séculos.

As grandes convivências estão a um milímetro do tédio.

Todo tímido é candidato a um crime sexual.

Todas as vaias são boas, inclusive as más.

O presidente que deixa o poder passa a ser, automaticamente, um chato.

Não gosto de minha voz. Eu a tenho sob protesto. Há, entre mim e minha voz, uma incompatibilidade irreversível.

Sou um suburbano. Acho que a vida é mais profunda depois da praça Saenz Peña. O único lugar onde ainda há o suicídio por amor, onde ainda se morre e se mata por amor, é na Zona Norte.

O adulto não existe. O homem é um menino perene.

Não vou para o inferno, mas não tenho asas.

O óbvio também é filho de Deus.

Na mulher interessante, a beleza é secundária, irrelevante e, mesmo, indesejável. A beleza interessa nos primeiros quinze dias; e morre, em seguida, num insuportável tédio visual. Era preciso que alguém fosse, de mulher em mulher, anunciando: - Ser bonita não interessa. Seja interessante!

O ser humano é cego para os próprios defeitos. Jamais um vilão do cinema mudo proclamou-se vilão. Nem o idiota se diz idiota. Os defeitos existem dentro de nós, ativos e militantes, mas inconfessos. Nunca vi um sujeito vir à boca de cena e anunciar, de testa erguida: - Senhoras e senhores, eu sou um canalha.

Tarado é toda pessoa normal pega em flagrante.

Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos.

Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível.

Dinheiro compra tudo. Até amor verdadeiro.

Só não estamos de quatro, urrando no bosque, porque o sentimento de culpa nos salva.

No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte.

A morte de um velho amigo é uma catástrofe na memória. Todas nossas relações com o passado ficam alteradas.

Deus só frequenta as igrejas vazias.

Copacabana vive, por semana, sete domingos.

Não ama seu marido? Pois ame alguém, e já. Não perca tempo, minha senhora!

A fome é mansa e casta. Quem não come não ama, nem odeia.

Todo ginecologista devia ser casto. O ginecologista devia andar de batina, sandálias e coroinha na cabeça. Como um são Francisco de Assis, com a luva de borracha e um passarinho em cada ombro.

A verdadeira grã-fina tem a aridez de três desertos.

No passado, a notícia e o fato eram simultâneos. O atropelado acabava de estrebuchar na página do jornal.

Não reparem que eu misture os tratamentos de tu e você. Não acredito em brasileiro sem erro de concordância.

Nossa ficção é cega para o cio nacional. Por exemplo: não há, na obra do Guimarães Rosa, uma só curra.

Os magros só deviam amar vestidos, e nunca no claro.

O cardiologista não tem, como o analista, dez anos para curar o doente. Ou melhor: - dez anos para não curar. Não há no enfarte a paciência das neuroses

Não há ninguém mais vago, mais irrelevante, mais contínuo do que o ex-ministro.

Nunca a mulher foi menos amada do que em nossos dias.

O Natal já foi festa, já foi um profundo gesto de amor. Hoje, o Natal é um orçamento.

Enquanto um sábio negro não puder ser nosso embaixador em Paris, nós seremos o pré-Brasil.

Se eu tivesse que dar um conselho, diria aos mais jovens: - não façam literatice. O brasileiro é fascinado pelo chocalho da palavra.

Qualquer menino parece, hoje, um experimentado e perverso anão de 47 anos.

Desconfio muito dos veementes. Via de regra, o sujeito que esbraveja está a um milímetro do erro e da obtusidade.

TODAS AS CARTAS DE AMOR SÃO RIDÍCULAS - ÁLVARO DE CAMPOS

  Tenho publicado alguns (ou vários) poemas, onde celebro o amor que estou sentindo por uma menina que me revirou pelo avesso e explodiu min...