segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

VOCÊ SABE O QUE É TABUÍSMO?

Vou repetir a pergunta do título: você sabe o que é tabuísmo? Eu não sabia e nem nunca tinha ouvido falar nisso (analfabetismo funcional é dose!) até ler um artigo recebido por whatsapp. Entrei na internet para saber mais um pouco e encontrei isto: (Blogson também é cultura!):

Tabuísmo:
Palavra, locução ou acepção tabus, consideradas chulas, grosseiras ou ofensivas demais na maioria dos contextos (São os chamados palavrões e afins, e referem-se geralmente ao metabolismo (cagar, mijar, merda), aos órgãos e funções sexuais (caralho, pica, boceta 'vulva', colhão, cona, foder, crica, pachoucho etc.), incluem ainda disfemismos pesados como puta, veado, cabrão, expressões tabuizadas (puta que pariu) etc.

Pois é, graças às últimas movimentações (intestinais) do presidente, o assunto do momento tem sido uma coisa meio... meio escatológica (o que não deixa de ser uma merda!). Por isso, graças à piadinha dos crevettes (sou chique!) que postei também no blog, recebi um texto muito legal cujo autor é Sérgio Rodrigues, publicado na Folha em 05/01/2022. Apesar do título nada atraente do artigo, vamos ver se com ele consigo encerrar esse assunto meio intoxicante, pois é como ensinam os italianos: mangiare molti gamberetti fa male (sou chique!). Olhaí.

Quando o cardápio inclui fezes
Há 50 anos, o médico mineiro Pedro Nava estreou tardiamente - logo ia completar 70 - como memorialista, lançando o primeiro livro de uma série que se tornaria um ponto alto do gênero no país: "Baú de ossos" (Companhia das Letras).
Mais do que pela data redonda, a obra-prima de Nava me vem à lembrança por incluir um escatológico caso de família que, datado do Segundo Reinado, joga luzes sobre o mar de merda - "merda viva", diria o memorialista - em que Bolsonaro mergulhou o Brasil.
A história tem como protagonista uma megera da família paterna do autor, uma dona Irifila, casada com o comendador Iriclérico Narbal Pamplona. Sim, a graça quase inverossímil do caso começa pelos nomes.
O casal oferecia um contraste marcante. Enquanto Iriclérico era amigo de comes e bebes, jogos de salão e boa conversa, Irifila era o cão. "Era contra os namoros, contra o riso, contra as festas, contra as cantigas, contra as danças, contra o álcool, contra o fumo, contra o jogo", conta Nava.
Um dia, Irifila se encheu das rodinhas de carteado, guloseimas, charutos e prosa que Iriclérico tinha o hábito de promover em casa uma vez por semana. Advertiu o marido de que não queria mais saber daquilo, mas o comendador, com patriarcal distração, não lhe deu ouvidos. E chegou a hora da vingança.
Iriclérico recebia naquele dia ninguém menos que o visconde de Ouro Preto. O mais ilustre e poderoso de seus amigos era também padrinho de um de seus filhos. Irifila caprichou no serviço.
Após se esmerar na enumeração das gostosuras que a dona da casa mandou servir em bandejas de prata recém-polidas, Nava passa então ao prato principal:
"E no meio da maior bandeja, a mais alta compoteira com o doce do dia - aparecendo todo escuro e lustroso, através das facetas do cristal grosso, de um pardo saboroso como o da banana mole, da pasta de caju, do colchão de passas com ameixas-pretas, do cascão de goiaba com rapadura."
Iriclérico estava numa felicidade contagiante. Aí vem o golpe de mestre de Nava, quer dizer, de Irifila. "O comendador resplandecente destampou a compoteira: estava cheia, até as bordas, de merda viva! Nunca ninguém, jamais, ousara coisa igual."
Tomado de um choro convulsivo, "tremendo da cabeça aos pés, lívido da dor esquisita que lhe atravessava o peito, o estômago, e banhado dum suor de agonia", Iriclérico nunca se recuperou da cacetada. Até morrer, em 1896, não recebeu mais ninguém em casa. A vitória de Irifila foi completa.
O poder sinistro da armadilha que a megera montara para o marido tem raízes fundas, imemoriais - as mesmas que tornam tabuísmos, ou seja, palavrões, uma série de termos banais com os quais nos referimos a funções fisiológicas igualmente banais. Mas não em público!
Não era para aquela montanha de cagalhões estar ali, na mesa do comendador, numa elegante vasilha de cristal. Ao ser destampada com despreocupação, a piscina de barro instaurava violentamente uma dimensão de loucura, de pesadelo. Era evidente que alguém capaz de conceber tal coisa não recuaria diante de nada - nem do mais hediondo dos crimes.
E o Brasil dos últimos três anos com isso? "Dia sim, dia não", entre golden showers e "caguei para a CPI", entre internações espetaculosas por problemas intestinais e o hábito de falar merda, o presidente tornou sua retórica e seus atos um festival de escatologia. O fedor é nauseabundo. Que 2022 seja o ano de dar descarga.
 

sábado, 8 de janeiro de 2022

URSO BIPOLAR

 
Meu coração se aperta de tristeza e angústia todas as vezes que leio ou ouço falar sobre espécies ameaçadas de extinção. Pode ser alguma identificação inconsciente, pois li há muito tempo (antes do Jurassic Park) que as pessoas idosas sentiriam uma afinidade maior com espécies extintas, justamente por estarem elas próprias mais perto da extinção. Pode ser, pode ser...
 
Para mim é inaceitável que os humanos sejam responsáveis diretos pela extinção de espécies animais e vegetais, em nome do progresso. Foda-se o progresso! Uma propaganda do WWF – World Wildlife Fund que me marcou muito dizia “Extinção é para sempre”. E é essa consciência que, voltando ao início, faz meu coração se apertar de dor e angústia.
 
Estou dizendo tudo isso por causa de uma piada. Verdade! Dia desses, assistindo a um episódio da divertidíssima série “The Big Bang Theory”, ouvi uma expressão que me fez rolar de rir. Durante uma rodada de um jogo bizarro criado por um dos personagens, uma carta é jogada na mesa, com a identificação “Urso bipolar”.

Na hora já fiquei pensando em  como usar esse jogo de palavras absolutamente genial. Talvez em alguma historinha ou diálogo envolvendo três ursos polares, onde um deles comentaria com o colega sobre a magreza do terceiro urso. E a sequência seria algo nessa linha:
- Ele está magro assim porque em metade do tempo ele é vegano.
-Vegano? Um urso polar carnívoro, vegano?
-Esquenta não, ele sempre foi meio bipolar.
 
Bolada essa piada horrível, saí à procura de imagens para montar a história, mas me dei mal. Vi a foto de um urso polar magérrimo, provavelmente pela crescente dificuldade para obter seu alimento e pela redução do gelo onde vive e caça, além de notícias sobre sua provável extinção em futuro não muito distante justamente pelo degelo acelerado de seu habitat. Essa imagem me impactou muito, talvez por sempre me sentir meio urso, um urso hibernando. E ligeiramente bipolar.
 
E me lembrei da frase do WWF. Aí não teve conserto, acabou a graça, acabou a piada. É assustador pensar que você pertence a uma espécie que é um tipo gigante de formiga cortadeira, um bando de gafanhotos anabolizados, uma super colônia de cupins hipertrofiados, que vai deixando a Terra arrasada, o solo, as águas e o ar cada vez mais poluídos e a fauna selvagem cada vez mais frágil, desprotegida e ameaçada de se transformar apenas em animais empalhados ou imagens de documentários antigos (como o lobo da tasmânia, por exemplo).

Quando a Terra atingir níveis insuportáveis de calor, de poluição do meio ambiente, de superpopulação, de escassez de água e de alimentos eu já estarei “dormindo profundamente”, alheio ao desespero, à violência crescente, ao pega pra capar generalizado, ao holocausto mundial de pessoas e animais, ao verdadeiro Apocalipse. Mas, talvez algum de meus descendentes ainda vagueie pela Terra desejando nunca ter nascido. E pensar em tudo isso me deixa muito triste, muito, muito triste.

 

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

TÁ NO SAL(MO)!

 
Aparentemente a ironia que coloquei no título do post anterior não seduziu ninguém ou, ao contrário, pode até ter afugentado os leitores eventuais desta bagaça. Paciência. Mas recebi pelo whatsapp uma piada tão bem bolada que não pude resistir à tentação de postá-la no facebook, talvez a rede social mais careta (mesmo sem conhecer as demais), pois a maioria de seus usuários é formada por gente idosa, velha em idade e preconceito. Recebi dois comentários que vale a pena transcrever:
- Eu não sou evangélico, mas não concordo em fazer piada com trechos da Bíblia.
- E reeleito p/ sofrimento dos petistas !!!
 
Bom, para trazer um pouco de humor de qualidade para o Blogson, resolvi publicar aqui também essa piada - mas sem spoiler! Quem quiser, que procure na internet. Olhaí.



terça-feira, 4 de janeiro de 2022

OBRIGADO, PRESIDENTE!

Eu sou um sujeito agradecido, um cara que não economiza agradecimentos, que sempre agradece as pequenas e grandes gentilezas de que é “vítima”. Pela minha idade provecta, sou quase um Grateful Dead (mesmo que ninguém entenda a piada). Mas, para mim, gentileza não é uma atitude que exija reciprocidade, não é troca. Assim, quando alguém me faz um favor, oferta um mimo qualquer ou faz uma gentileza que não pedi, sinto-me totalmente à vontade para não retribuir nada. Pois, se não pedi ajuda, não tenho por que retribuir. Mas agradeço, agradeço profundamente, efusivamente.
 
Hoje, por exemplo, refletindo sobre determinados comportamentos de alguém, senti imensa vontade de agradecer a essa pessoa. E estou me referindo a nosso presidente. Minha vontade seria poder ir a Brasília e dizer bem alto “Obrigado, presidente!”
 
Quem acessa este blog com um pouco de frequência sabe das severas críticas dirigidas ao mandatário de plantão, dos dezénhos que ironizaram seu comportamento, etc. Mas o momento agora é de gratidão, de agradecer, pois o ano de 2022 está apenas engatinhando e meu coração está cheio de paz e esperança.
 
Por isso, mais uma vez, obrigado, senhor presidente. Preciso agradecer-lhe pela contribuição permanente dada aos desenhistas de humor, aos chargistas que suam diariamente a camisa para produzir desenhos que comentam a situação atual do país. Provavelmente esses profissionais estariam sem trabalhar se o senhor não exibisse seu inacreditável comportamento e não dissesse suas impagáveis frases.
 
Preciso agradecer também ter aumentado a visibilidade do Brasil na imprensa internacional. Pouco importa se as referências à sua administração ou vida pessoal surjam apenas para criticar ou ridicularizar, pois alguém já disse esta frase lúcida e cheia de sensatez: “falem bem ou mal, mas falem de mim”.
 
E, claro, agradecer a Vossa Excelência por produzir e fornecer vastíssimo material de pesquisa (aí incluído o cartão de vacinação, sob sigilo por cem anos) para historiadores, estatísticos, sociólogos, psicólogos e outros profissionais do presente e do futuro que analisarão os "anos Bolsonaro" e o impacto de suas atitudes e decisões desmioladas no futuro do país.
 
Concluindo, não poderia deixar de agradecer sua ajuda e influência na minha decisão de nunca mais votar em Vossa Excelência. Imagino que existam no Brasil muitas pessoas, milhões de pessoas na verdade, com motivos semelhantes aos meus para agradecer-lhe, mas ninguém tem mais motivos para isso que seu rival nas próximas eleições, o ex-presidiário Lula. Eu, se fosse ele, ajoelharia no milho e agradeceria todos os dias por Vossa Excelência existir.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

AFORISMOS DE SCHOPENHAUER

Como já devem ter percebido todos os malucos que acessam este blog, eu sempre gosto de “conversar” com os leitores, mesmo que seja na forma de monólogos ou falando com o espelho. Este post não foge disso. Outra característica é minha atração por frases curtas e inteligentes de outros autores, frases tipo tuites que eu gosto de postar nesta bagaça. Vários foram os autores já publicados, sendo o mais brilhante deles o velho e bom Jotabê, um nome mais conhecido no SPC e na Serasa que na literatura (já começou a foder!).
 
Bom, esta dispensável introdução serve para apresentar frases e pensamentos de Arthur Schopenhauer, um filósofo alemão que viveu no século XIX. Tudo começou com um “amigo de facebook” me enviando um vídeo em que alguém com sotaque português lia aforismos escritos pelo alemão. Como o velho Blogson é um pet sempre faminto, um tamagotchi que precisa ser alimentado, achei que seria uma boa copiar essas frases e tentar encontrar outras na internet.
 
Mas confesso ter ficado um pouco decepcionado com o Arturzinho, pois li algumas frases bem machistas - ainda que escritas no século XIX (exemplo: “A mulher é um animal de cabelos longos e ideias curtas”). Por não conhecer absolutamente nada do restante de sua obra, pareceu-me também que ele se tinha em altíssima conta e que era meio depressivo e misantropo ("O único homem que não consegue viver sem mulheres é um ginecologista".  Ou “Quando nasce um homem como eu, só se pode desejar uma coisa: que consiga ser sempre ele mesmo e viver para seus dons intelectuais”).

As frases que me causaram essa impressão negativa foram excluídas deste post, só deixando as que chamaram mais minha atenção. Mas confesso que (minha opinião de matuto ignorante) outros autores já publicados bolaram aforismos muito mais inteligentes, criativos e bem humorados (H. L. Mencken e Mark Twain, por exemplo). Outra coisa que quero deixar bem clara: as frases deste post são obviamente traduções do original em alemão. Por isso, fico pouco à vontade ao ler palavras como "ginecologista". Teria sido ela realmente escrita no século XIX? Ou seria uma "liberdade poética" do tradutor? Em todo caso, olha o Schope aí. Prosit! 


A alegria conserva a saúde e a juventude do coração.

A arte é uma flor nascida no caminho da nossa vida, e que se desenvolve para suavizá-la.

A compaixão pelos animais está  intimamente ligada à bondade de caráter, e pode ser seguramente afirmado que quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem.

A fé é como o amor, não pode ser obtida pela força.

A fé e o saber não se dão bem dentro da mesma cabeça: são como o lobo e o cordeiro dentro de uma jaula; e o saber é justamente o lobo, que ameaça devorar seu vizinho. O saber é feito de uma matéria mais dura do que a fé, de modo que, quando colidem, a última se quebra.

A glória deve ser conquistada; a honra, por sua vez, basta que não seja perdida.

A honra cavalheiresca é filha da arrogância e da tolice.

A honra é, objetivamente, a opinião dos outros acerca do nosso valor, e, subjetivamente, o nosso medo dessa opinião.

A ignorância só degrada o homem quando se encontra em companhia da riqueza.

A inteligência é invisível para quem não tem nenhuma.

A intolerância é intrínseca apenas ao monoteísmo: um deus único é, por natureza, um deus ciumento, que não tolera nenhum outro além dele mesmo.

A língua é para o espírito de uma nação, o que o estilo é para o espírito de um indivíduo.

A modéstia é a humildade de um hipócrita que pede perdão por seus méritos aos que não têm nenhum.

A mulher é um efeito deslumbrante da natureza.

A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende.

A nossa felicidade depende mais do que temos nas nossas cabeças, do que nos nossos bolsos.

A riqueza influencia-nos como a água do mar. Quanto mais bebemos, mais sede temos. O mesmo vale para a glória.

A serenidade e a vitalidade da nossa juventude baseiam-se em parte no fato de que nós, ao subirmos a montanha, não vemos a morte, pois ela encontra-se do outro lado da encosta.

A solidão é o destino de todos os espíritos eminentes.

A vida interior é reprimida e não pode ser conscientizada, porque conhecer nossa natureza mais profunda (nossa crueldade, medo, inveja, desejo sexual, agressividade, egoísmo) seria um peso maior do que poderíamos aguentar.

A virtude não se ensina, como tampouco o gênio.

Aquele que quer ser tudo não pode ser nada.

Arquitetura é música congelada.

As causas não determinam o caráter da pessoa, mas apenas a manifestação desse caráter, ou seja, as ações.

As pessoas comuns pensam apenas como passar o tempo. Uma pessoa inteligente tenta usar o tempo.

As religiões são como vaga-lumes: para brilhar precisam das trevas.

Casar-se significa duplicar as suas obrigações e reduzir à metade os seus direitos.

Certamente a vida não existe para ser aproveitada, mas para ser suportada e despachada... De fato, é um conforto na velhice ter o trabalho da vida por trás de si.

Como somos obrigados a viver, devemos sofrer o menos possível.

Consigo suportar a ideia de que poucas horas depois que eu morrer os vermes comerão meu corpo, mas estremeço ao imaginar professores criticando minha filosofia.

É fácil pregar a moralidade, difícil é justificá-la.

Em geral, chamamos de destino as asneiras que cometemos.

Em geral, nove décimos da nossa felicidade baseiam-se exclusivamente na saúde. Com ela, tudo se transforma em fonte de prazer.

Erra muito menos quem, com olhar sombrio, considera esse mundo uma espécie de inferno e, portanto, só se preocupa em conseguir um recanto à prova de fogo.

Estou cansado, no final da estrada. Mesmo assim, vejo com alegria o que fiz, sem me intimidar com a opinião dos outros.

Gosto da minha solidão, mas você se surpreenderia com o tamanho dela.

Ler quer dizer pensar com uma cabeça alheia, em lugar da própria.

Melhor deixar que os homens sejam como são do que acreditar no que não são.

Na verdade, só existe prazer no uso e no sentimento das próprias forças, e a maior dor é a reconhecida falta de forças onde elas seriam necessárias.

Não devemos mostrar a nossa cólera ou o nosso ódio senão por meio de atos. Os animais de sangue frio são os únicos que têm veneno.

Não diga a um amigo nada que você esconderia de um inimigo.

Não nos deixar cair em tentação, é o mesmo que dizer: não nos deixar ver quem realmente somos.

Nas pessoas de capacidade limitada, a modéstia não passa de mera honestidade, mas em quem possui grande talento é hipocrisia.

Nem todos os loucos ou burros são fanáticos, mas todos os fanáticos são loucos ou burros.

Nenhum homem jamais se sentiu perfeitamente feliz no presente; se acontecesse, isso o entorpeceria.

O bom humor é a única qualidade divina do homem.

O conhecimento é limitado, só a estupidez é ilimitada.

O destino embaralha as cartas e nós jogamos.

O homem é‚ propriamente falando, um animal que agride.

O maior erro que um homem pode cometer é sacrificar a sua saúde a qualquer outra vantagem.

O que a história conta não passa do longo sonho, do pesadelo espesso e confuso da humanidade.

O que é a modéstia senão uma humildade hipócrita pela qual um homem pede perdão por ter as qualidades e os méritos que os outros não têm!

O que temos dentro de nós é o essencial para a felicidade humana.

O que torna as pessoas sociáveis é a sua incapacidade de suportar a solidão e, nela, a si mesmos.

Quando a alegria se apresenta, devemos abrir-lhe todas as portas, pois ela jamais é inoportuna.

Quando partimos num navio, as coisas na praia vão diminuindo e ficando mais difíceis de distinguir; o mesmo ocorre com todos os fatos e atividades de nosso passado. 

Quanto mais realização pessoal houver, menor será a angústia da morte.

Quanto menos inteligente um homem é, menos misteriosa a existência lhe parece.

Se for certo que um deus fez este mundo, não queria eu ser esse deus: as dores do mundo dilacerariam meu coração.

Se você for educado e simpático, as pessoas ficam dóceis e obedientes. Assim, a polidez faz com a natureza humana o mesmo que o calor faz com a cera.

Sentimos a dor, mas não a sua ausência.

Talento é quando um atirador atinge o alvo que os outros não conseguem. Gênio é quando um atirador atinge o alvo que os outros não veem.

Toda nação troça das outras e todas têm razão.

Todas as pessoas tomam os limites de seu próprio campo de visão pelos limites do mundo.

Todo pobre-diabo que não tem nada no mundo do que possa se orgulhar escolhe a nação a que pertence como último recurso para sentir orgulho; desse modo, ele se restabelece, sente-se grato e pronto para defender com unhas e dentes todos os erros e absurdos próprios dessa nação.

Um insulto supera qualquer argumento.

Uma maneira de agradar é deixar que cada um fale de si.

Vista pelos jovens, a vida é um futuro infinitamente longo; vista pelos velhos, um passado muito breve.

A tarde é a velhice do dia. Cada dia é uma pequena vida, e cada por do sol é uma pequena morte.

Renunciamos a muito de nós mesmos para sermos como os outros.

Raramente pensamos no que temos, mas sempre no que nos falta.

Quanto mais elevado é o espírito mais ele sofre.

Os primeiros quarenta anos de vida dão-nos o texto; os trinta seguintes o comentário.

O médico vê o homem em toda a sua fraqueza; o jurista o vê em toda a sua maldade; o teólogo, em toda a sua imbecilidade.

Ninguém é realmente digno de inveja, e tantos são dignos de lástima!


 


domingo, 2 de janeiro de 2022

DOIS POEMAS DE JOHN McCRAE

 
Um dos programas que eu e minha mulher mais gostamos de assistir na TV paga é o “Show de Graham Norton”, transmitido no Brasil pelo canal Film & Arts. Para quem não conhece, é um programa inglês de entrevistas tipo “Jô Onze e Meia”. A diferença é que quatro a cinco celebridades aparecem simultaneamente, interagindo entre si e com o apresentador à medida que o programa se desenrola.
 
Todos que ali estão têm algum livro, show, peça teatral ou filme recém-lançado ou prestes a sair. Outro diferencial é que a equipe do programa desentranha episódios, fotos e cenas antigas de filmes dos convidados, todos comentados com o humor afiadíssimo do apresentador.
 
Gostamos tanto desse programa que não nos importamos de ver duas ou três vezes o mesmo episódio, pois há situações absurdamente hilárias e inesperadas. Essa inexplicável repetição geralmente acontece com os programas da fase pré-pandemia. Por isso, programas de Natal são exibidos em junho, programas de novembro são exibidos em dezembro, etc.
 
E é aí que eu queria chegar. Comecei a notar que em alguns episódios o apresentador e convidados estavam usando um tipo de broche ou bottom lembrando uma flor ou coisa parecida: uma maçã ou circulo vermelho, um núcleo preto e uma ou duas folhas verdes. Aquilo nos intrigou e minha mulher, excelente pesquisadora na internet, descobriu em um blog de que se tratava. Aspas a seguir, para um post publicado há oito anos:
 
Você deve ter notado que desde o final de outubro a maioria dos ingleses usa uma papoula vermelha na lapela, mas o que significa e por que a usam?


 
Bem, essa é uma flor de papoula vermelha (English Poppy), usada na lapela como uma homenagem aos veteranos do exército. Eles têm feito isso desde a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
 
Uma papoula vermelha foi escolhida como uma homenagem porque era a flor que crescia nos campos franceses onde ocorreu a Primeira Guerra Mundial e muitos dos soldados ingleses morreram.
 
Na verdade, a tradição vem de um poema de John McCrae, intitulado "Nos campos de Flandres". Reza a história que as tropas avançaram pelos campos recentemente semeados com papoulas e que, à medida que os soldados caminhavam, faziam com que as papoulas desabrochassem, cobrindo os campos franceses de vermelho. E de alguma forma simulava o sangue de soldados que morreram na guerra.
 
Ao ler esse texto, interessei-me pelo poema e em saber quem seria o autor. E descobri mais isto:
 
O Tenente-Coronel John McCrae foi um poeta, médico, escritor, artista e soldado canadense durante a Primeira Guerra Mundial. Em abril de 1915, McCrae estava estacionado nas trincheiras perto de Ypres, Bélgica, em uma área conhecida como Flandres, durante a sangrenta Segunda Batalha de Ypres. No meio da trágica guerra, o amigo de McCrae, o tenente Alexis Helmer, de 22 anos, foi morto por fogo de artilharia e enterrado em uma cova improvisada.
 
No dia seguinte, McCrae, após ver o campo de túmulos improvisados florescendo com papoulas selvagens, escreveu seu famoso poema “In Flanders Fields”, que seria o penúltimo poema que ele escreveria.
 
Claro que eu não perderia a oportunidade de publicar esse poema no Blogson (mesmo que mal traduzido). E, já sabendo que era o penúltimo, logicamente, também não deixaria de publicar o último poema escrito pelo médico, soldado e poeta, morto em 1918 em consequência de uma pneumonia. A seguir, os textos originais dos poemas e sua tradução “revisada” por mim. Espero que gostem.
 
IN FLANDERS FIELDS
In Flanders fields the poppies blow
Between the crosses, row on row,
That mark our place; and in the sky
The larks, still bravely singing, fly
Scarce heard amid the guns below.
 
We are the Dead. Short days ago
We lived, felt dawn, saw sunset glow,
Loved and were loved, and now we lie,
In Flanders fields.
 
Take up our quarrel with the foe:
To you from failing hands we throw
The torch; be yours to hold it high.
If ye break faith with us who die
We shall not sleep, though poppies grow
In Flanders fields
 
NOS CAMPOS DE FLANDRES
Nos campos de Flandres, as papoulas explodem
Entre as cruzes, fileira após fileira,
Isso marca o nosso lugar; e no céu
As cotovias, ainda cantando bravamente, voam
Quase não ouvidas entre as armas abaixo.
 
Nós somos os Mortos. Poucos dias atrás
Nós vivemos, sentimos o amanhecer, vimos o brilho do pôr do sol,
Amamos e fomos amados, e agora jazemos
Nos campos de Flandres.
 
Assumam nossa briga com o inimigo:
Para vocês de mãos falhas nós jogamos
A tocha; seja vossa para mantê-la ao alto
Se vocês quebrarem a fé com nós que morremos
Nós não dormiremos, embora as papoulas cresçam
Nos campos de Flandres
 
 
THE ANXIOUS DEAD
O guns, fall silent till the dead men hear
Above their heads the legions pressing on:
(These fought their fight in time of bitter fear,
And died not knowing how the day had gone.)
 
O flashing muzzles, pause, and let them see
The coming dawn that streaks the sky afar;
Then let your mighty chorus witness be
To them, and Caesar, that we still make war.
 
Tell them, O guns, that we have heard their call,
That we have sworn, and will not turn aside,
That we will onward till we win or fall,
That we will keep the faith for which they died.
 
Bid them be patient, and some day, anon,
They shall feel earth enwrapt in silence deep;
Shall greet, in wonderment, the quiet dawn,
And in content may turn them to their sleep.
 
OS MORTOS ANSIOSOS
Ó armas, fiquem em silêncio até que os homens mortos ouçam
Acima de suas cabeças, as legiões avançam:
(Esses lutaram em tempo de medo amargo,
E morreram sem saber como o dia tinha passado.)
 
Ó focinhos piscantes, façam uma pausa e os deixem ver
O amanhecer que se aproxima e que raia o céu ao longe;
Então deixem seu poderoso coro testemunhar
Para eles, e César, que ainda fazemos guerra.
 
Digam-lhes, ó armas, que ouvimos seu chamado,
Que juramos, e não nos desviaremos,
Que seguiremos em frente até vencer ou cair,
Que manteremos a fé pela qual eles morreram.
 
Peçam-lhes que sejam pacientes e, algum dia, em breve,
Eles sentirão a terra envolvida em profundo silêncio;
Devem saudar, com admiração, o amanhecer tranquilo,
E isso pode fazê-los adormecer.

O TEMPO - MÁRIO QUINTANA

  A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são seis horas! Quando se vê, já é sexta-feira! Quando se vê...