segunda-feira, 9 de março de 2026

VÔ, ME CONTA SUA HISTÓRIA?

 
Sentados nos sofás da sala, um de frente para o outro, um homem idoso absorto na leitura de um dos livros de memória de Pedro Nava. Do outro lado, uma jovem teclando seu inseparável smartphone. De repente, ela para, olha para o homem e pergunta:
- Que livro é esse?
- Ahn? É um dos sete livros que o médico e memorialista Pedro Nava escreveu contando suas lembranças.
- Sete livros? Pô, esse tinha caso pra contar!
- Ele tinha uma memória poderosa, mas também utilizava cartas, retratos antigos e lembranças diversas que guardava.
- Legal!
- É sempre bom ouvir casos de épocas passadas. Os franceses chamam isso de “petite histoire”: a história de objetos e pessoas comuns, anônimas, mas nem por isso menos interessantes.
- Entendi! Vô, me conta sua história?
- Eu? Não tenho história para contar.
- Aposto que tem! Conta aí a história de uma paixão secreta do passado. Pode ser do presente também, se tiver.
- Revolver o passado nem sempre é bom.
- Besteira! Agora que vovó morreu, você pode contar o que quiser para mim. Eu juro que fica só entre nós. Conta aí, vai!
- Tá bom. Vou contar de uma paixão que se misturou com o relacionamento que eu e sua avó tivemos, como se fosse um bordado, um trançado de linhas que volta e meia se cruzavam e que eu tentava manter em segredo.
- Eba! Já tô curiosa!
- Eu a conheci muito antes de sua avó...
- Pera aí: como ela se chama?
- Você quer uma história ou uma biografia?
- Tá, desculpe. Não vou mais te interromper.
- Vamos chamá-la de Jô, está bem?
- OK.
- Foi em uma hora-dançante. Eu a chamei para dançar e ela aceitou. Eu dançava horrivelmente mal, era tímido, bobo e inexperiente. Deus, como eu era inexperiente! Talvez eu tenha tentado dançar de rosto colado, mas creio que ela travou e logo disse que iria parar. Não me lembro mais o que aconteceu depois disso, só sei que ela disse onde morava, o que talvez eu tenha interpretado como um convite.
- E você foi lá?
- Claro, eu queria arranjar uma namorada! Mas foi uma ducha fria, pois uma amiga dela não nos deixou a sós nem por um segundo. Agora imagine a situação: um jovem tímido, bobo e inexperiente, sem saber como agir. Não havia nada a fazer e eu tive de ir embora. Está gostando da história?
- Estou, mas esperando mais ação, romance, surpresa.
-Só depois que trouxer um café para mim. E traga água também, para molhar a garganta.
- Beleza.
 
A água e o café chegam e a menina ordena:
- Continua!
- Logo no início do namoro com sua avó, eu ainda tinha “passe livre” para ir a horas dançantes depois de sair de sua casa. E era isso que eu fazia. Em uma dessas vezes, quem eu encontro?
- Já sei, a Jô!
- Claro! Eu não sei o que acontece comigo, o que sempre aconteceu comigo, parece que eu fui enfeitiçado, magnetizado pela Jô. Aí a chamei para dançar. Ela concordou, sem demonstrar muito entusiasmo. Mas aí aconteceu um “milagre”: a música que passou a ser tocada era daquelas que se dança separado.
- Ahahah, nem imagino você dançando assim!
- Naquele tempo, as danças já surgiam com passos coreografados e eu estava “up to date”, como dizem. Eu sabia a coreografia da nova dança. Quando me viu dançando assim, ela chamou uma amiga para me ver.
- Eita!!!!
- Pois é, eu me senti o rei da cocada. Quando a música lenta recomeçou, ela se aconchegou, e se aninhou em meu peito, a gata se transformando em gatinha. Mas era tarde, pois eu já namorava sua avó.
- E ficou por isso mesmo?
- Bom, teve ainda uma festa junina que era o que havia de mais top na época. Também fui sozinho – e lá estava ela. Ficamos a noite toda juntos, aos abraços e beijos.
- Acho engraçado ver você contar esses casos, seus olhos brilham ao falar dessa mulher. Ela era bonita?
- Era... e ainda é.
- E aí, que rolou depois?
- Aconteceu um fato curioso. Como eu estava com a cabeça super confusa, comecei a fazer terapia perto da Praça Sete. Não sei como, mas meu irmão encontrou com ela e contou que eu não andava muito bem.  Acredita que ela apareceu na casa da minha avó? Eu estava saindo para a terapia e ela me ofereceu carona. Tinha acabado de ganhar um carro do pai e estava toda feliz.
- E aí? 
- Me deixou no centro e foi embora. Depois disso, foi de novo lá em casa, me pegou e acabamos parando em rodovia , debaixo de um viaduto. Estávamos nos beijando quando chegou a polícia rodoviária e nos mandou vazar dali.
- Sacanagem, nem uma mão no peitinho?
- Minha filha, você está falando com seu avô!
- E daí? Isso é tão normal!
- Pode ser hoje, mas naquele tempo não. Além disso, eu era muito, muito bobo e inexperiente.
- Nem imagino você assim!
- Deixa eu continuar mais um pouco, pois já estou cansado.
- Manda!
- Teve também o lance do vestibular. Como eu já tinha entrado na faculdade, consegui uma boquinha para trabalhar de fiscal no próximo vestibular. Estou lá tranquilão, quando quem vejo chegar?
- A Jô, claro. Tô achando que essa mulher tem super poderes ou GPS para te localizar!
- Pois é... Ela estava estonteantemente linda, toda de branco. Naquele momento o Mineirão era utilizado para as provas. Por isso perguntei qual era o setor onde ela ficaria. Peguei emprestado um binóculo do exército e comecei a procurá-la do outro lado do estádio, pois não podia sair do meu posto. E achei.
- Que mais, só isso?
- Eu preferia não entrar em mais detalhes, pois o caso fica meio constrangedor.
- Cê tá querendo escapulir, né? Mas vamos fazer assim: você para agora, mas continua amanhã, fechou?
- Combinado.
 
Mas a neta nunca ficou sabendo o resto daquela história banal do avô, pois pela manhã, estranhando a demora dele para o café, foram até o quarto onde dormia. Encontraram-no morto, com os olhos abertos e um sorriso congelado em sua boca.
 

14 comentários:

  1. Olá, querido, tudo bem? Como você tá? Enfim, meu ano tá começando na blogosfera rsrs andei bem sumida, mas aos poucos vou voltando. Que texto mais gostoso de ler, amei muito.
    Ótima semana, beijo, beijo.

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    1. Este comentário, vindo de você, é um super elogio!

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  2. Esse final me pegou de surpresa...qual a metáfora?

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    1. E um raciocínio tipo os sketches do Monty Pithon: o quadro vai caminhando quando, do nada, entra a polícia e prende todo mundo. É por aí. Eu estava com saco cheio de escrever, o texto daria mais que as duas páginas que normalmente adoto. Aí pensei: "Que faço agora?" Matei o cara. Eu já tida adotado a mesma solução em um conto tão mexido que nem lembro mais o nome definitivo: a história de um velho solitário que tenta entender o sentido da vida e começa a datilografar suas memórias até quase chegar no momento em que estava vivendo. Puto por não ter descoberto o sentido da vida, sofre um infarto e morre. Na cena seguinte aparecem duas faxineiras limpado o quarto que ela alugava. Pegam a papelada e jogam fora. Eu gosto de finais trágicos ou não alegres. Se quiser ler o conto, creio que o link é este (eu explicava a gênese da história, onde começou a ser escrita, o motivo do título, etc. Depois resolvi transformar em dois ou três posts, aquela velha zona jotabélica, sacou?

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    2. Esqueci o link. https://blogsoncrusoe.blogspot.com/2018/02/norton-antivirus-versao-do-diretor.html

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    3. ...pera, esse conto eu já li em algum dos seus milhares de ebooks!! É muito foda!!

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  3. Jotabê,
    Tenho certeza que Neta
    em questão, vai lembrar
    pra sempre que foi Ela que
    deu aval para o Avô fazer
    o intervalo.
    A vida é assim, sem espaço
    para o DEPOIS.
    Abraço
    CatiahôAlc.

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  4. Com a maturidade e experiência que o senhor tem, não poderia ser diferente: que texto impecável e que clareza admirável! É realmente inspirador ler algo com tamanha qualidade e precisão. Parabéns!

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    1. Bondade sua, Rô! Você também escreve super bem e publica textos muito agradáveis de ler. Só evite me chamar de senhor (não que eu não seja!), pois somos blogueiros que gostam de escrever, ok, paraquedista?

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  5. - Fiquei até o fim porque fiquei muito mais curioso que a própria neta.

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    1. Sei lá, você pode imaginar a continuação que quiser. Eu mesmo não sabia como continuar, aí resolvi matar o velho. Que morreu rindo e feliz, provavelmente lembrando o amor da juventude. Meu lance é texto curto, mais fácil de escrever.

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