quarta-feira, 11 de março de 2026

VAZEZINHO!

 
Dizem que há muito, muito tempo (técnica para tornar imprecisa a data), viveu uma princesa bela como Branca de Neve – a quem a escumalha maledicente dizia sentir uma atração secreta e doentia por sete homenzinhos verticalmente prejudicados (anões, entendeu?). Mas beleza era o único ponto a unir essa personagem de história da carochinha com a outra, de crônica da carochinha (crônica sim, porque este narrador é preguiçoso e não gosta de escrever muito. E nem me perguntem o significado de “carochinha”!).
 
Pois bem, a princesa que não era Branca de Neve era, na verdade, uma louraça, uma loura estonteante acostumada a bronzear suas formas suculentas nas areias de Nova Guarapari.
 
Um dia (outra indeterminação temporal), fazendo sua caminhada diária, quase pisa em um sapo repulsivamente horroroso, que nem sabe como surgiu ali (as fábulas são assim mesmo).
 
- EEECA!!!! Que coisa nojenta!
 
Para sua surpresa, o sapo respondeu:
 
- Tendes razão, adorável e linda princesa. Sou hoje um sapo feio e gordo, mas, se me beijares, quebrareis o encanto que jogaram em mim e voltarei a ser o príncipe encantado e encantador com que sonhastes por toda a vida. (Mesmo sendo sapo, era muito educado  um anfíbio de família, mais precisamente da família Bufonidae.).
 
A princesa, que não era burra – apesar de loura –, tinha direito ao contraditório e contra-argumentou:
 
- Mesmo que eu sonhe com um príncipe encantado desde a minha juventude, não quero beijar um sapo nojento!
 
Mas o sapo era persistente, sedutor, e continuou a tentar convencer a princesa a beijá-lo. Disse até que escreveria crônicas e poemas para e sobre ela. Tanto fez que a princesa, fazendo a maior cara de nojo, beijou o sapo.
 
E o inesperado que era esperado aconteceu. Surgiu à sua frente um velho obeso, de barba branca e cabelos idem (os poucos que ainda não tinham caído), que sorriu doce e maliciosamente para ela.
 
Não acreditando no que via (tentativa de negação da realidade que a assustava), a deusa linda e loura exclamou:
 
- Eu estava esperando um príncipe lindo, charmoso e gostoso, mas você é um velho decrépito! E ainda fala como se tivesse saído do século passado!
 
- Tendes razão, oh apetitosa e linda princesa! Tenho hoje duzentos anos, pois virei sapo ainda no tempo da Primeira República. Mas continuo sendo capaz de amá-la.
 
A princesa nem pestanejou:
 
- Amá-la? Boa ideia! Pegue essa mala velha e suma da minha frente. Vê lá se quero me relacionar com um velho obeso e feio como você! Fui seduzida por suas palavras, mas já decidi (ela era muito assertiva quando precisava):
 
- Não quero te beijar nunca mais! Sei lá, vai que depois fico com a boca cheia de sapinho! Por isso, vaza! Ou melhor... vazezinho!

 

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