Estou pensando em raspar minha barba, ficar
novamente “desbarbado”. Não porque esteja achando ruim ou muito branca (sou
velho, tá lembrado?). Na verdade, estou me achando bem melhor até mais atraente,
pois a barba disfarçou meu “queixinho esquisito”, na definição de um conhecido.
O problema real é crer ter sido ela a causa do assédio que sofri recentemente.
Não tendo jamais a beleza de um George
Clooney ou Reynaldo Gianecchini e estando mais próximo da aparência de um Didi Mocó, não tenho costume
de ver olhares sedutores a mim dirigidos. Mas aconteceu. E isso me assustou,
por partir de alguém que nunca imaginaria ser ainda capaz de saliências desse tipo.
Deixando o mistério de lado, o caso é o seguinte:
fui ontem a um médico angiologista e estava tranquilamente sentado esperando
ser atendido. A porta do consultório se abriu e de lá saíram duas mulheres, uma
senhora andando com visível dificuldade para andar, amparada por quem imaginei
ser sua filha.
A velha (spoiler!) acomodou-se na cadeira de
rodas e eu gentilmente sorri para ela. Preciso dizer que sou um homem simpático,
gentil, educado e atencioso – principalmente com mulheres. Talvez por ser feio
de nascença tenha a veleidade de tentar seduzi-las com meu comportamento de
hetero afeminado. E descobri que mulher gosta disso!
Pois bem, enquanto a filha acertava qualquer
coisa com a recepcionista e o médico não me chamava, comecei a conversar com
ela. Perguntei se estava tudo bem e, não sei por que ela ou a filha falou alguma
coisa sobre idade. E o gentil aqui comentou:
- Eu
jamais perguntaria a idade de uma mulher!
-
Quantos anos o senhor acha que eu tenho?
O sedutor assumiu seu posto:
- Creio
que a senhora deve ter uns sessenta e cinco anos.
Isso a faria mais nova que a filha, mas a
sina do sedutor é seduzir. E ela respondeu:
- Sessenta
e cinco? Eu tenho 88 anos – mas não gosto de revelar minha idade, pois olha
como tenho a pele lisa.
-Uau! A
senhora está de parabéns! Está com aparência de 65!
Percebi um sorrisinho de satisfação, mas diria
que usei de “liberdade poética” ao afirmar isso.
-
Quantos anos o senhor tem?
- 75
anos.
Aí o olhar da senhora (para não ser grosseiro e dizer "velha") mudou, ficou tipo "farol baixo". E a conversa foi ficando estranha...
- O Senhor
é casado?
-
Infelizmente, fiquei viúvo agora em dezembro.
- O
senhor tem telefone?
- Heim?
Tenho, quero dizer, tinha, pois pedi para desligar. Agora que moro sozinho...
- Minha
filha me levou para morar com ela.
Aí o médico me chamou, mas ainda tive tempo
de elogiar sua “aparência de 65 anos”. Creio que aquilo deixou a velha meio
desestabilizada, pois estendeu a mão para mim, segurando-a um pouco mais longamente que um cumprimento pede. A filha precisou insistir para que fossem para o hall dos
elevadores.
Ao sair do consultório, a secretária com um
sorrisinho maroto no rosto, comentou:
- Acho
que ela ficou te caçando, pois precisou que a filha dissesse a ela para irem
embora. E ela reclamou:
- Eu só
quero me despedir dele!
Sei lá, pelo sim, pelo não, acho que vou
raspar minha barba, pois assédio de octogenária é muito para minha cabeça!
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