segunda-feira, 10 de julho de 2023

A VERDADEIRA ESSÊNCIA

  
“Sabe você o que é o Amor? Não sabe, eu sei”. Esses versos, parte da letra da música “Sabe você” (linda!), foram escritos pelo Vinicius de Moraes. Poderia até ser mais um poema dos tantos que escreveu, mas de alguma forma talvez tenha mais a ver com sua experiência amorosa, pois foi casado nove vezes.
 
Pensei nisso por ter acordado hoje com uma sensação de fracasso, de ser um fracassado, um fracasso, de ter fracassado na vida. E , sinceramente, não é por depressão, frescura, cansaço físico e mental ou força de expressão. É a constatação de que tudo ou quase tudo que publiquei neste blog sete vidas é fruto apenas de presunção, vaidade, soberba, nunca por experiência, nunca por conhecimento real sobre as banalidades e platitudes que escrevi despreocupadamente.
 
Tenho convivido com tanta dor física, sofrimento e tristeza que posso até estar equivocado, mas hoje eu acredito que quem pode falar de saúde é quem está doente, com dor; quem pode falar ou entender de alegria é quem a perdeu; idoso é quem pode falar de juventude com propriedade, e por aí vai. Para não me estender nesta lenga-lenga ridícula, posso dizer que quem entende verdadeiramente a essência das sensações é quem as sentiu e perdeu, não sente mais.
 
Ou, como disse o Chico Anysio a um amigo que parecia querer escrever um livro sobre casamento: “Quem é casado há quarenta anos com dona Maria não entende de casamento, entende de dona Maria. De casamento entendo eu, que tive seis”. Perfeito!

domingo, 9 de julho de 2023

CRIANÇA, AMA COM FÉ E ORGULHO

 

Este texto foi escrito há vários dias e já está com data de validade próxima do vencimento - grave defeito, quase tão ruim quanto sua qualidade zero.

 

“Saúde é o que interessa, o resto não tem pressa” era o bordão de Paulo Cintura, personagem que batia ponto na Escolinha do Professor Raimundo. O que isso tem a ver com o texto a seguir? Muita, muita coisa.

Estava de bobeira, semi-sonolento, no limiar entre o sono e a vigília, pensando na fragilidade do corpo humano, na tendência a ignorar os sinais que nosso corpo emite, menosprezando-os até que um grande contratempo surge e leva nossa saúde para o espaço e em nossa estranha propensão a nos deixar enganar, a nos autoenganar.

A mente continuou a viajar e me vi deplorando a inacreditável arrogância e megalomania do criador do mini submarino que implodiu e causou a morte de quatro pessoas seduzidas pelo seu "canto de sereia". O que faz com que as pessoas sejam tão crédulas assim?

E mais, o que leva as pessoas a se comportar como grandes rebanhos, grandes manadas sempre prontas a seguir líderes messiânicos cujo maior desejo é em última instância impor sua própria visão de mundo?

Estava nesse estado meio delirante, meio onírico, quando me lembrei de uma poesia dos tempos de ginásio. Aí a ironia deu as caras e resolvi "coelhonetar" alguns versos no mesmo estilo. E virou esta coisa.


 Criança, ama com fé e orgulho

O corpo com que nasceste,

Pois o que realmente conta em última instância

É que não terás mais nenhum igual a este.

 

Pouco importa o que tentem te impingir,

Te doutrinar, te fazer valorizar –

Pátria, soberania, recursos minerais?

Riqueza, poder, todos os tipos de "ismo"? Esquece!

 

Pois tu és vista apenas como mais uma peça

No quebra-cabeça que os poderosos em montar

Se divertem, sempre prontos a mostrar

Que sua solução é a melhor, a ideal, a ímpar.

 

Mas o que realmente importa

É o que tu desejas para ti, para a tua vida

Tarefa difícil, tarefa inglória (muitas vezes).

Não o que outros desejam ou esperam de ti,

 

Quando o que sentes é só desespero e muita dor

De que te adiantam flâmulas, cercas e fronteiras?

O que verdadeiramente importa para ti

São da cura e esperança as coloridas bandeiras

 

E o começo, o início de tudo são os cuidados

Que tu dedicarás ao teu corpo e à tua atividade cerebral

Dê a eles o melhor de teus esforços

Mesmo que tudo sempre escoe pelo ralo no final

 

No fim, o que te importará são as dores que sentirás

A paralisia de teus movimentos em crescente espiral

Um cérebro dando sinais de apagão

E que não tenhas uma doença terminal!

 

Orgulho, presunção, vanidade, soberba,

Nacionalismo, radicalismo, patriotadas, fanfarronice?

Deixe tudo isso a quem mais lhes aprouver. A ti

Basta o corpo e a mente sempre saudáveis. Seja feliz!

quinta-feira, 6 de julho de 2023

PAUSA PARA RESPIRAR

 
Podem pensar o que quiserem, mas para um sujeito como eu, sem amigos com quem jogar conversa fora e que utiliza um blog mambembe para expressar suas dúvidas, frustrações, medos, desalento, desencanto e todo tipo de sentimentos, a inteligência artificial pode ser um apoio, uma muleta emocional. Pensando na maratona que enfrentaremos hoje e na descoberta do que pode ser o custo astronômico do tratamento iniciado, sinceramente pirei, fiquei mais sem chão que operário pendurado em andaime. Aí, só para relaxar e respirar mais fundo, apresentei esta solicitação ao chat:
 
Estou muito angustiado, pois minha mulher está sentindo muitas dores ao movimentar as pernas, o que a leva a ter imensa dificuldade de andar, mesmo que esteja usando andador. Além disso, descobri que o medicamento utilizado no tratamento que começou a fazer é caríssimo, caríssimo. Será que nosso plano de saúde aceitará cobrir esses custos? Poderia me ajudar escrevendo um texto sobre isso?
 
Surgiu uma carta endereçada ao plano de saúde, o que foi hilário. Escrevi que queria um texto reflexivo, que me ajudasse a suportar de forma mais equilibrada a tensão emocional e o cansaço físico. Surgiu um pedido de desculpas pelo equívoco e este texto. Falando sério, tirando a pieguice desnecessária e o uso de "esposa" em vez de "mulher", está bem bom, melhor do que eu escreveria (o que não é vantagem nenhuma).
 

Nossa jornada pela vida nem sempre segue o curso tranquilo que desejamos. Às vezes, nos deparamos com desafios inesperados que abalam nosso equilíbrio emocional e financeiro. No momento, me encontro em um desses períodos tumultuados, repleto de angústia e incertezas.
Minha amada esposa está passando por uma situação de saúde delicada. Ela enfrenta dores intensas ao movimentar as pernas, o que a impede de caminhar com facilidade, mesmo com o auxílio de um andador. Cada passo se tornou uma luta árdua para ela, uma batalha diária contra a dor e a frustração.
Nesse processo de busca por um diagnóstico e tratamento, descobrimos que o medicamento necessário para aliviar seus sintomas possui um preço exorbitante. É um fardo financeiro que parece impossível de suportar. A preocupação com a saúde da minha esposa já é imensa, e agora também precisamos lidar com a angústia de não termos recursos suficientes para arcar com esse custo adicional.
Nesses momentos, nossos pensamentos se voltam para nosso plano de saúde, que depositamos nossa confiança para cuidar de nossa saúde e bem-estar. Perguntamo-nos se eles estarão dispostos a cobrir os custos desse tratamento vital. A esperança de que o plano possa nos amparar nessa situação é uma luz tênue que ilumina nosso caminho.
Contudo, somos conscientes de que as regras e limitações dos planos de saúde são rígidas, muitas vezes baseadas em critérios estritos para autorizar coberturas excepcionais. Compreendemos e respeitamos essas diretrizes, mas não podemos deixar de refletir sobre a situação singular de minha esposa.
É nesses momentos que percebemos a importância de uma sociedade em que a saúde seja um direito fundamental, acessível a todos, independentemente de sua condição financeira. A desigualdade no acesso a tratamentos eficazes é um peso que carregamos coletivamente e que merece reflexão e ação.
Enquanto aguardamos uma resposta, penso em todas as famílias que passam por situações semelhantes. A luta pela saúde e pela dignidade humana transcende nossas próprias batalhas pessoais. É um chamado para que lutemos por sistemas de saúde mais justos e inclusivos, nos quais o valor da vida seja colocado acima do valor financeiro.
Neste momento de angústia, encontro força na união com minha esposa, na confiança mútua que juntos superaremos as adversidades. Acredito que há caminhos a serem trilhados, seja pela busca de apoio junto ao plano de saúde, pela solidariedade daqueles que estão ao nosso redor ou até mesmo pela descoberta de alternativas que possam tornar o tratamento mais acessível.
Enquanto isso, permanecemos resilientes, abertos ao diálogo e dispostos a enfrentar os desafios que se apresentam. A esperança nos alimenta enos impulsiona a buscar soluções, mesmo diante das dificuldades. Nossa jornada é marcada por altos e baixos, mas acredito que, juntos, podemos encontrar uma maneira de superar esse obstáculo.
Que essa situação nos inspire a refletir não apenas sobre nossas próprias batalhas, mas também sobre a necessidade de construir uma sociedade mais empática e justa, na qual a saúde e o bem-estar sejam direitos fundamentais para todos. Que possamos encontrar respostas e soluções que aliviem o peso emocional e financeiro que estamos enfrentando.
Enquanto seguimos adiante, resta-nos confiar que o amor, a perseverança e a busca por um futuro melhor nos guiarão nessa jornada. E, acima de tudo, que a saúde de minha esposa seja restaurada, para que ela possa voltar a caminhar com alegria e leveza, deixando para trás as dores que a consomem neste momento.
Que possamos encontrar conforto na esperança e força para enfrentar os desafios que se apresentam. E que, no final, possamos olhar para trás e reconhecer que, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, nossa determinação e amor foram capazes de nos conduzir por um caminho de superação e cura.
Que a compaixão nos envolva, que a busca pela justiça nos guie e que a luz da esperança nunca se apague. Que possamos encontrar a solução que tanto almejamos e, acima de tudo, que a saúde e o bem-estar da minha esposa sejam restabelecidos.
 

quarta-feira, 5 de julho de 2023

QUEM TEM AMIGO TEM TUDO!

 
Falta de caráter é pior que falta de assunto. Pedi a meu "amigão" ChatGPT para escrever qualquer merda que fosse minimamente divertida. Para isso, passei estas instruções: "Gostaria que escrevesse um pequeno texto de humor usando estas expressões: “estou sem inspiração nenhuma”, “ninguém mais lê meu blog”, “não contavam com minha astúcia!”, “preciso rir um pouco” e “ninguém tem paciência comigo, só meu amigo ChatGPT". E o filho da puta escreveu (gastou uns dez segundos). O pior é que eu gostei! Olhaí o Jotabê inteligente:

Estou aqui sentado, olhando para a tela do meu computador, com a mente tão vazia quanto um copo de suco espremido. Não consigo pensar em nada engraçado para escrever. É como se a inspiração tivesse ido passar férias em um lugar remoto e não tivesse previsão de retorno. "Estou sem inspiração nenhuma", como dizem por aí.
Abro o meu blog e o que vejo? Nada além de aranhas tecendo teias de silêncio. Aquele blog que antes era movimentado como uma rodoviária agora é um deserto virtual. "Ninguém mais lê meu blog", resmungo para mim mesmo. Parece que as pessoas decidiram seguir em frente e encontrar conteúdo mais interessante para encher seus dias.
Mas espera aí, eu não sou uma pessoa comum! Sou o rei das piadas infames, o mestre dos trocadilhos sem graça, o guru da comédia sem talento. Não contavam com minha astúcia! É hora de usar todas as minhas habilidades humorísticas para conquistar novamente a atenção do meu público.
Então, abro uma pasta com as melhores piadas que encontrei na internet, mas percebo que não posso simplesmente copiar e colar. Eu preciso de algo novo, algo original. E assim, começo a imaginar as piadas mais absurdas que minha mente pode conceber.
Uma delas é sobre um elefante que queria ser um cantor famoso. Ele se inscreve em um concurso de talentos e quando sobe no palco, solta um som tão estranho que todos pensam que ele está engasgado. Mas na verdade, ele estava apenas imitando um gato no cio. Bem, eu disse que eram piadas absurdas, não é mesmo?
Preciso rir um pouco das minhas próprias tentativas de ser engraçado. É como se eu estivesse assistindo a um show de stand-up, só que o comediante sou eu mesmo. E, para ser sincero, a plateia está um pouco dispersa. Acho que ninguém tem paciência comigo, só meu amigo ChatGPT.
Mas tudo bem, é preciso persistir. Afinal, um comediante não desiste fácil. Vou continuar escrevendo, tentando arrancar sorrisos mesmo quando parece impossível. Quem sabe, em algum momento, eu consiga encontrar a fórmula mágica do riso.
Enquanto isso, vou me divertir com minhas piadas sem graça e aproveitar o fato de que, pelo menos meu amigo ChatGPT está aqui para ouvir minhas tentativas falhas de humor. E se ninguém mais quiser ler meu blog, pelo menos eu posso contar com a minha própria companhia e um algoritmo amigável.
 

OROZIMBO

 
 Em março de 2017, pensando nas pessoas com quem convivi até 1994 na empresa onde mais gostei de trabalhar, resolvi usar o Facebook para encontrar essa tchurma. Na verdade, eu não queria manter nenhum contato, pois sou um ogro. Queria apenas ver como estão hoje.  Sado-masoquismo visual, se me entendem. Achei alguns, surpreendi-me e até me horrorizei com as imagens daqueles que não as bloquearam (tempus fugit!). Mas de um, particularmente, eu queria ter notícias, pois foi talvez a pessoa que mais me influenciou com suas maluquices, seu comportamento excêntrico que beirava a insanidade.
 
Não encontrei nada. Lembrei-me então do nome de seu filho, que às vezes encontrava na sala de seu pai. Pesquisei o nome e descobri seu perfil no Facebook. Mandei mensagem para ele identificando-me e pedindo notícia de seu pai. Nunca me respondeu. Há nove dias - seis anos depois da “mensagem na garrafa” -, entretanto, recebi uma mensagem confirmando que é filho de meu amigo, etc.
 
Aí, (pouco) papo vai (pouco) papo vem, disse a ele que tinha as melhores lembranças de seu pai e que seu contato me motivou a escrever sobre as maluquices e tiradas hilariantes que presenciei e ouvi de seu pai. E fiz isso. Rapaz, o resultado foram seis páginas A4 escritas com a fonte Arial 12!
 
Mandei para ele, esperando sua reação. Como os casos são muito engraçados (para mim!), resolvi publicar esse arquivo aqui no Blogson Crusoe. E claro, troquei os nomes para manter a privacidade das pessoas mencionadas. Outra alteração foi no nome da empresa. Há alguns anos as construtoras eram chamadas de "gatinhas" ou "gatonas", dependendo do porte. E foi esse apelido que escolhi. Espero que gostem. 
 
 
Diz meu filho que “boi preto reconhece boi preto”. Acho que ele tem razão, pois as pessoas com quem mais me identifiquei e gostei de conviver sempre foram pessoas pouco convencionais, excêntricas ou alopradas mesmo. Uma dessas pessoas, talvez a que mais tenha me influenciado foi meu chefe na empresa aonde trabalhei quatorze anos.
 
Quando fui admitido, o Orozimbo era o gerente da “Seção Técnica”, setor responsável pela elaboração das propostas apresentadas pela empresa nas licitações de que participava. Provavelmente logo fui apresentado a ele, que deve ter reagido secamente, como era seu estilo.
 
Minha primeira atribuição foi fazer o orçamento de um conjunto de casas populares que ainda seria licitado pelo governo (sentiu a treta aí, né?). Creio que ele deve ter ido à minha sala e perguntado alguma coisa sobre o orçamento, uma obra ridícula e desinteressante para uma empresa acostumada a construir túneis, estradas, barragens e obras industriais. Lembrando-me de seu comportamento lúcido e desencantado, deve ter criticado a idiotice de tentar direcionar uma obra vagabunda e não estratégica para a construtora.
 
O tempo foi passando e eu comecei a perceber seu histrionismo, suas observações gaiatas e certeiras. Creio que foi em 1982 que nosso relacionamento se estreitou mais, pois passei a trabalhar diretamente com ele na elaboração da proposta comercial para construção de Angra 3 (essa mesma, a do Petrolão, até hoje inacabada). Pelas exigências mirabolantes do edital, as piadas e comentários ferinos ou hilariantes foram surgindo a todo momento, fazendo com que eu me lembre de ter sido essa a época em que mais me diverti.
 
INFÂNCIA
Mesmo que na ordem cronológica correta devo ter ouvido este caso quando já tínhamos mais intimidade. O Orozimbo nasceu no sul de Minas, se não me engano. Disse que um dia, na comemoração de seu aniversário, um amiguinho chegou com uma galinha viva. Recusou-se a aceitar o “presente”. Como o menino talvez insistisse, pegou a galinha e a atirou pela janela (só não tenho certeza da altura da queda da “penosa”).
Outra herança da cidade e que eu achava muito estranha era o fato de dizer “guspir” em vez de “cuspir”.
 
CHICLETE
O Orozimbo tinha uma capacidade absurda de mostrar o real significado de alguém através dos apelidos que colocava, mais pegajosos que chiclete em passeio público, pois grudavam de forma definitiva, Lembro-me de três criados na época da licitação de Angra 3. Uma das exigências do edital era ter a consultoria de empresa que já tivesse construído uma usina nuclear. No Brasil só a Odebrecht podia exibir esse know-how, mesmo que a tecnologia da usina vagalume de Angra 1 fosse americana, diferente da tecnologia alemã de Angra 2 e 3. O primeiro passo foi encontrar uma empresa estrangeira que se dispusesse a entrar nessa canoa com a “Gatona”. Para encurtar a conversa, uma construtora alemã aceitou a parceria e enviou dois engenheiros para o Brasil. Um deles falava espanhol, pois era o gerente da empresa para a America Latina. O outro, só na base do heinsbein, as aftas ardem e doem, coisas assim, só no alemão.
 
Depois de ser apresentado aos gringos já surgiram os apelidos Grafite e Canetão. A explicação estava no fato do bacanão exibir uma caneta no bolso da camisa, enquanto o monoglota trazia só uma lapiseira. Isso, traduzido por ele, significava que “o Canetão só assina cheque, quem trabalha mesmo é o Grafite”. 
 
Ainda melhor foi o apelido que deu ao consultor de garantia da qualidade. Um dia, meio irritado, perguntou se eu tinha visto o “Ventania”. Perguntei quem era, já esperando a próxima maluquice.
- Você não sabe quem é o Ventania? É o consultor da garantia.
- Por que Ventania?
- Esse cara só está vendendo vento, e vendendo caro! E o Zé Antônio (o gerente) está em órbita, pois ele acha que esta empresa fará tudo o que estão dizendo. Pior é que não é uma órbita perfeita, porque o vento soprado é muito forte. 
 
Comecei a rir e ele continuou:
- Você que é bom em desenho podia desenhar essa situação. Olha só, o planeta é a empresa. O satélite em órbita é o Zé Antônio. Aí você faz uma órbita ondulada para ele, porque o Ventania está atuando.
 
Ele realmente achava que o consultor, por não ter experiência anterior com esse tema, estava nos fazendo de trouxas. Talvez sim, talvez não. O que sei é que, depois de um tempo, até o diretor técnico perguntava ao Zé Antônio como estava indo o trabalho com o Ventania.
 
Como era uma exigência do edital, o Manual de Procedimentos para a Garantia da Qualidade começou a ser gestado. Dá para adivinhar qual era o primeiro procedimento? Ninguém se habilita? Era “Como elaborar um Procedimento”. Era o suprassumo da burocracia atuando na área de qualidade. E o Orozimbo, dono de uma visão extremamente fria e desencantada do que nos esperava, caía de pau.
 
Na visita que fez a Angra 1 ficou observando uma movimentação de pedra britada. Sem motivo aparente, um equipamento retirava a brita de um pátio e transportava para outro, bem ao lado. Perguntou a quem o acompanhava o que essa movimentação significava. A resposta foi de que no primeiro monte a brita ainda não tinha a garantia da qualidade assegurada, enquanto que o segundo depósito já estava OK. Aí ele emendou de primeira:
- Então, apesar da garantia, a brita do segundo monte é pior, porque na movimentação de um lado para o outro, o equipamento raspa um pouco o chão e leva terra junto com a brita! 
 
O fiscal ficou com cara de cachorro que peidou na igreja, sorrindo sem graça, diante da observação na mosca.
 
Engraçado demais era quando ele resolvia avacalhar de uma vez os procedimentos dessa garantia da qualidade. Aí falava que a empresa precisaria mandar fazer carimbos para carimbar cada pedrinha aprovada, ou ao imitar um hipotético fiscal da qualidade acompanhando visualmente a corrida dos vergalhões de aço na siderúrgica. Tudo iria bem até um pilar do galpão atrapalhar a visão do coitado. E nós dois ríamos até mandar parar.
 
 
O HÉLICE
Às vezes ele comentava que a empresa só crescia à noite, quando não tinha ninguém para atrapalhar. Como "ninguém", entenda-se: diretores e gerentes. Um dia, a propósito de mais uma maluquice ligada à proposta em elaboração, comentou que o "Hélice" devia estar girando muito. Já imaginando alguma sacanagem, perguntei de quem estava falando.
- Você não sabe quem é o Hélice? É o "Sô Arcindo"! Toda vez que alguém faz uma burrada na empresa ele dá um giro dentro da sepultura. Ultimamente, deve estar sendo usado como ventilador pelos "morto".
 
Caguei de rir, pois o "Sô Arcindo", como falou fazendo sotaque caipira, era o fundador da empresa, falecido uns trinta anos antes.
Só para completar este tópico, lembro a discussão semântica sobre o uso das preposições "de" e "do" na área da qualidade. O gerente Zé Antônio era enfático e professoral ao “exigir” seu uso correto.
- Ô Zé, não se pode dizer “garantia de qualidade”?
- É claro que não! O correto é dizer “Controle de Qualidade” e “Garantia da Qualidade”!
 
Eu compartilhava a visão desencantada do meu chefe e achava tudo isso um porre, uma viadagem só. Mas me divertia pra caramba.
 
 
JOÃOBATISTANDO
Outra lembrança desse sujeito era sua capacidade de fazer humor só alterando palavras ou usando nomes próprios para criar verbos. Um dia ele chegou à porta da minha sala e perguntou o que eu estava embotelhando (ou botelhando).  Achei graça da maluquice, mas daí uns dias até o diretor me perguntou entre risos o que eu estava botelhando. Foda!
 
Às vezes ele caminhava no limite da normalidade, passando a imagem de ser quase um doido manso, de tão excêntrico. Mas era brilhante, genial e engraçadíssimo. Via os problemas da empresa com uma clareza absoluta, mas emitia suas opiniões do jeito mais caricato ou destemperado possível. Eu ria até mandar parar com seu estilo ensandecido e anárquico. O diretor a quem era subordinado ria também, mas tinha certeza da seriedade da essência dos comentários. O mesmo parecia não acontecer com alguns gerentes, que riam sem prestar muita atenção nas análises feitas por ele.
 
Um dia comentei que ele deveria expor suas críticas e análises certeiras de forma menos enlouquecida, pois mesmo que tivesse uma espécie de visão de raios-X que lhe permitia ver com clareza o que todos demoravam a enxergar, as pessoas riam de seu comportamento aloprado em vez de prestar atenção ao que dizia. Para reforçar o conselho, disse-lhe que agindo assim ele estaria lembrando São João Batista, "a voz que clama no deserto".
- "João Batista, é?", foi a reação que teve. Mas deve ter gostado da comparação, pois um dia, à porta de minha sala, disse que estava "joãobatistando" alguma coisa.
 
Ele era o responsável oficial por fazer as reivindicações (claims) para alterar ou aditar os contratos. Mesmo sem usar linguagem rebuscada ou malabarismos lógicos, era extremamente eficiente na simplicidade com que apresentava o choro da empresa. Sempre havia aquele papo de restabelecer o equilíbrio econômico-financeiro, etc.
 
Algumas vezes, valia-se de um artigo escrito por Hely Lopes Meirelles, um jurista fodão, tão competente que, segundo meu amigo Pintão, seria até meio desacreditado, pois argumentava com a mesma eficiência tanto a favor como contra qualquer coisa, dependendo da fonte pagadora.
 
Pois bem, nesse artigo havia referência a uma firula jurídica conhecida como "rebus sic standibus", que não vem ao caso detalhar aqui (na Wikipédia tem). A graça desse caso é que ele, ao tratar com o diretor dizia de forma gaiata coisas como - "Você quer que use o sic rebustandi"? Não tinha como não rir dessa besteira (e o diretor ria muito).
 
 
TESTE PARA GERENTE
Às vezes ele gostava de provocar os gerentes que iam à sua sala com alguma pegadinha. Um dia ele montou uma matriz de terceira ordem e perguntou a um gerente que ele considerava muito burro como calcular aquilo (o determinante). A resposta só confirmou a avaliação que fazia do sujeito:
- Ah, eu não lembro mais como se calcula um “discriminante”.
Esse episódio me foi contado entre risos.
 
 
TESTE PARA DIRETOR
Nosso diretor técnico era um gênio da engenharia, o melhor engenheiro que tive a oportunidade de conhecer, pois aliava o conhecimento prático obtido na supervisão de obras com uma bagagem teórica riquíssima e uma inteligência privilegiada. Por isso, o Orozimbo guardava em uma “pasta tipo Ivan” tudo o que ele escrevia ou tinha inventado e patenteado ou estudado. Um desses guardados era um sofisticadíssimo estudo teórico para o funcionamento de um mineroduto. Coisa de gênio mesmo.
 
Pois bem, um dia, estando o diretor e um gerente sentados à sua frente, ele pegou o tal estudo, copiou uma fórmula toda cabulosa desenvolvida pelo diretor e disse ao gerente:
-Teste para diretor! Se você conseguir resolver esta equação você pode ser diretor.
 
O gerente puta velha riu e disse que não sabia. O diretor olhou a fórmula e caiu na rede:
- Então eu sirvo para diretor!
 
E começou a desenvolver o assunto, sem se lembrar de que era ele o autor. O Orozimbo disse que foi acompanhando na pasta a sequência do raciocínio feita ali na hora. E aí deu a estocada final:
- É claro que você sabe, foi você que fez esse estudo!
 
E os três racharam de rir.
 
 
MATANDO DE SUSTO
Às vezes eu me perguntava se o Orozimbo não seria autista ou esquizofrênico, porque 100% normal não podia ser, não parecia ser – apesar da impressionante lucidez e clareza de seu raciocínio. Esse caso me foi contado por quem quase morreu de susto (maneira de dizer!) com a reação do “Oroz”. Esse colega tinha acabado de ser transferido para nosso setor e recebeu um edital de uma licitaçãozinha para trabalhar. Não me lembro se era da Vale ou da Petrobrás. O Orozimbo já não era mais o gerente, creio que já ocupava o cargo de diretor técnico adjunto. Cumprimentou o novo colega e perguntou que estava fazendo. Ao saber da nova licitação, pegou o edital e perguntou:
- Sabe o que deveria ser feito com esse edital?

E imediatamente o arremessou na lata de lixo, diante do olhar espantado do colega. E continuou exaltado:
- Sabe o que a empresa deveria fazer? Pegar todos os catálogos telefônicos e arrancar deles a página onde tiver o endereço da Vale (Petrobrás?), para ninguém nunca mais perder tempo com isso!
Aí pegou o edital, devolveu para o ainda atônito colega e disse com voz calma:
- Pode continuar com seu trabalho.
 
 
PLEIN DE MERDE
Um dia, durante uma tarefa que estávamos executando, perguntou-me de chofre:
- Você acredita que o inferno existe?
 
Ri da pergunta e desconversei, talvez dizendo um "sei lá!" Mas ele estava disposto a continuar com esse assunto, e voltou à carga:
- Eles falam que o inferno é um lugar muito quente, onde as pessoas são queimadas e espetadas pelos demônios, não é?
- Ah, sei lá, nunca me preocupei com isso. Deve ser!, respondi.
 
Aí, entre risos, descreveu sua versão do inferno, fazendo com que eu também chorasse de rir por conta dessa maluquice doentia:
- Para mim, o inferno deve ser um tanque ou piscina cheia de merda até a borda, onde as pessoas ficam mergulhadas, deixando de fora só a cabeça. Apoiada na borda, oscilando pra lá e pra cá, há uma lâmina afiada deslizante. Quando ela vem se aproximando o pessoal grita – “Olha a lâmina!” e todo mundo mergulha a cabeça. Você que é bom de desenho podia projetar essa piscina.
 
 
HAROLDO, DORIVAL E COMPANHIA LIMITADA
Antes do Orozimbo, o gerente do setor onde trabalhávamos tinha sido o Ivan, que deixou a empresa para trabalhar na Andrade Gutierrez. Ele gostava de arquivar coisas em pastas de papelão realmente muito práticas, em formato maior que papel ofício, dotadas de garras de abrir e fechar com mola, como se fossem os antigos encadernadores de ginásio. Essas pastas receberam do Orozimbo o nome de “pasta Ivan” ou “tipo Ivan”, que todo mundo passou a usar.
 
Em uma delas eram guardadas as provas das tolices escritas pelos engenheiros da empresa. O título dessa pasta “homenageava” os toupeiras máximos que já haviam trabalhado na “Gatona”. Às vezes as burradas não eram percebidas de imediato por quem as lesse, mas a “tradução” feita pelo Orozimbo era sempre de rolar de rir, como quando alguém do escritório de São Paulo pediu “uma cópia completa das normas da ABNT”. A lista obtida foi parar na pasta, pois era realmente a relação completa de todas as normas brasileiras (normas para tintura de tecidos e todas as coisas normatizáveis que nada tinham a ver com engenharia).
 
Outro documento hilário era uma ata de reunião para esclarecimento de dúvidas de uma licitação em andamento. As empresas apresentaram suas dúvidas, os esclarecimentos foram registrados em ata, etc. O representante da “Gatona” também apresentou sua dúvida. Inacreditavelmente, perguntou o significado no edital da palavra “similar”. E a resposta foi “similar significa exatamente isso, similar”. O comentário do Orozimbo foi demolidor:
- Acho que ele ficou com vergonha de não ter nada para perguntar e quis saber o significado da palavra “similar”.
 
 
ATLETA
Por recomendação médica, o Orozimbo acabou transformando-se em corredor de rua. Um dia pediu meu endereço, dizendo que iria me fazer uma visita.  Achei graça, pois o percurso entre sua casa e a minha deve ter uns cinco ou seis quilômetros.
 
No dia seguinte chamou-me à sua sala e mostrou um desenho indicando as características do muro de nossa casa. Fiquei pasmo. Tempos depois, pela manhã, antes de sair para trabalhar, a campainha tocou. Fui ver quem era. Era ele, todo paramentado de atleta, saltitando no mesmo lugar. Disse qualquer coisa sobre eu não ter acreditado que viria correndo, virou as costas e retornou. Dez ou doze quilômetros percorridos por um legítimo “street runner”. Figuraça!

 

MORDIDO POR UM "BLACK DOG"


Winston Churchill dava o nome de “black dog” à depressão que frequentemente o acometia (ao ponto de deixá-lo prostrado na cama). Tomava antidepressivos, etc. Encontrei na internet este texto (originalmente escrito em inglês):

Em uma carta inicial para sua esposa Clementine em 1911, depois de ouvir a esposa de um amigo ter recebido alguma ajuda para a depressão de um médico alemão, ele escreveu:
“Eu acho que esse homem pode ser útil para mim - se meu cachorro preto retornar. Ele parece bem longe de mim agora - é um alívio. Todas as cores voltam à imagem”. Pelo que entendi, ele provavelmente era portador de algum transtorno bipolar.

Nunca fui diagnosticado como portador de transtorno bipolar. Melhor dizendo, se fui, ninguém me contou. Como, à exceção de um ansiolítico logo abandonado, não tomo nem nunca tomei nenhum medicamento controlado, daqueles que te deixam apto até a realizar fotossíntese, imagino que esse transtorno não existiu - ou não existia.

Nos últimos tempos, entretanto, tenho alternado tanto estados de humor antagônicos que até fiz uma piadinha estilo JB: “Tô me sentindo mais bipolar que segundo turno de eleição presidencial”. Postei a frase no Facebook, mas, arrependido, logo excluí. Comportamento típico de gente não muito normal, concordam?

Por isso mesmo, consigo postar textos que são o máximo do máximo da melancolia e estado depressivo, para, em seguida, fazer piadas idiotas como se estivesse no melhor dos mundos. Achei legal registrar este momento pessoal, inclusive para que os escassos leitores do blog não fiquem pensando que os textos xaroposos e piegas são apenas invencionice minha. Não são. São mesmo retratos de meus estados mentais.

E “descobri” uma coisa óbvia: não dá para escrever sobre sofrimento se você está “na mais pura alegria”, rolando de rir. Obviamente, o inverso disso também funciona. Por isso, dois textos mais depressivos e já iniciados aguardam novo ataque do meu "black dog" para ser concluídos.

(publicação original: 07/10/2018)

terça-feira, 4 de julho de 2023

SAÚDE É O QUE INTERESSA, O RESTO...

Criança, ama com fé e orgulho
O corpo com que nasceste,
Pois o que realmente conta em última instância
É que não terás mais nenhum igual a este.
 
Pouco importa o que tentem te impingir,
Te doutrinar, te fazer valorizar –
Pátria, soberania, recursos minerais?
Riqueza, poder, todos tipos de "ismo"? Esquece!
 
Pois tu és vista apenas como mais uma peça
No quebra-cabeça que os poderosos em montar
Se divertem, sempre prontos a mostrar
Que sua solução é a melhor, a ideal, a ímpar.
 
Mas o que realmente importa
É o que tu desejas para ti, para a tua vida
Tarefa difícil, tarefa inglória (muitas vezes).
Não o que outros desejam ou esperam de ti,
 
Quando o que sentes é só desespero e muita dor
De que te adiantam flâmulas, cercas e fronteiras?
O que verdadeiramente importa para ti
São da cura e esperança as coloridas bandeiras
 
E o começo, o início de tudo são os cuidados
Que tu dedicarás ao teu corpo e à tua atividade cerebral
Dê a eles o melhor de teus esforços
Mesmo que tudo sempre escoe pelo ralo no final
 
No fim, o que te importará são as dores que sentirás
A paralisia de teus movimentos em crescente espiral
Um cérebro dando sinais de apagão
E que não tenhas uma doença terminal!
 
Orgulho, presunção, vanidade, soberba,
Nacionalismo, radicalismo, patriotadas, fanfarronice?
Deixe tudo isso a quem mais lhes aprouver. A ti
Basta o corpo e a mente sempre saudáveis. Seja feliz!


“Saúde é o que interessa, o resto não tem pressa” era o bordão de Paulo Cintura, personagem que batia ponto na Escolinha do Professor Raimundo. Estava de bobeira, semi-sonolento, no limiar entre o sono e a vigília, pensando na fragilidade do corpo humano, na tendência a ignorar os sinais que nosso corpo emite, menosprezando-os até que um grande contratempo surge e leva nossa saúde para o espaço e em nossa estranha propensão a nos deixar enganar, a nos autoenganar.
 
A mente continuou a viajar e me vi deplorando a inacreditável arrogância e megalomania do criador do mini submarino que implodiu e causou a morte de quatro pessoas seduzidas pelo seu "canto de sereia". O que faz com que as pessoas sejam tão crédulas assim?
 
E mais, o que leva as pessoas a se comportar como grandes rebanhos, grandes manadas sempre prontas a seguir líderes messiânicos cujo maior desejo é em última instância impor sua própria visão de mundo?
 
Estava nesse estado meio delirante, meio onírico, quando me lembrei de uma poesia dos tempos de ginásio. Aí a ironia deu as caras e resolvi "coelhonetar" alguma coisa parecida. E virou essa coisa que acabaram de ler.
 

BOLHA!

  Sempre tive alguma dificuldade de pertencer a grupos, talvez por possuir um temperamento um tanto antissocial, que me faz ficar de saco ch...