quarta-feira, 9 de agosto de 2023

POSSUÍDO PELO MEDO - VERSÃO DO DIRETOR (REVISTA E AMPLIADA)

No último dia 07 de junho de 2018 comemorou-se (?) o aniversário de quatro anos da criação do Blogson Crusoe (já é um senhor!) e também de Jotabê, o blogueiro de comportamento infantilizado, que completou sessenta e oito aninhos de existência (pois é...). Nesses quatro anos, 1.295 posts foram divulgados, mais de sessenta mil visualizações aconteceram - mesmo que uns 30% delas tenham sido feitas pelo próprio autor. Muitos números, pouca significância.

Mas, para não deixar esta data memorável passar em branco (e preto), resolvi divulgar um texto comemorativo, cheio das cores vivas da paixão, da loucura e da perplexidade (esta é só uma frase de efeito). Por ser um texto mais longo foi dividido em três partes, bem ao estilo "Para gostar de ler" (duas páginas em fonte arial 12). Este post é a unificação das três partes, a "Versão do diretor", com o texto completo e algum comentário adicional.

O estilo escolhido abriga-se na seção "Literatices", pois é ficcional, apesar de traços auto e multi-biográficos (não daria para encarar esse tema a seco). A história se passa no consultório de um terapeuta da linha freudiana - com direito até a divã. Por quê?  Porque certas coisas, mesmo que inventadas, normalmente são ditas apenas no consultório do terapeuta ou ao padre, no confessionário (confissão auricular, entenderam?). Para não cair no charlatanismo, tentarei limitar ao máximo as intervenções do profissional de psicologia (ainda vou estudar essa merda!). Então, estamos combinados. E agora, Luzes, câmera, AÇÃO!


UMA SESSÃO

A porta do elevador se abre e dele sai um homem idoso com ar apreensivo e um pouco assustado. Dirige-se ao número 303, entra na saleta de recepção, anuncia-se para a secretária e espera ser chamado.

- Bom dia, doutor!
- Bom dia! Tenha a bondade de entrar.
- Obrigado.
- Como você disse já ter feito terapia, fique à vontade para acomodar-se no divã.
- Já estava até com saudade! (mesmo que quatro décadas tenham se passado).

(Silêncio)

- O senhor sabe o que me trouxe aqui?
- Não.
- Quando eu tinha vinte anos, fiz terapia por ter medo da Morte, da dor. Hoje, tenho medo da Vida, da perda.
- Interessante...

(Silêncio prolongado)

- Como eu já sei que o senhor não vai dizer nada, ou melhor, dirá alguma coisa quando eu menos esperar, vou dar uma recapitulada na minha vida, ou ainda, no efeito do Medo ao longo da minha vida. O senhor quer perguntar alguma coisa?
- Não.
- Posso substituir o “senhor” por “você”?
- Claro!
- Se eu ficar muito tempo em silêncio, pode acontecer de estar cochilando, pois tenho andado muito cansado e insone.
(murmúrio ininteligível)
- Mesmo que eu não o esteja vendo, estou enxergando um risinho de escárnio em sua boca! Mas, fique tranquilo, Com uma hora de cinquenta minutos cobrada a preço de joia, pretendo aproveitar bem o tempo.
- Fique à vontade.

(Silêncio muito prolongado)

- Creio que o Medo, tal como se fosse uma entidade demoníaca, instalou-se em mim muito cedo, influenciando, pautando, balizando minha vida, minhas atitudes, comportamento pessoal, profissional e caminhada. A primeira lembrança mais nítida que tenho do efeito devastador do Medo em minha mente está relacionada à gravidez de minha mãe.
Eu tinha dez anos quando ela ficou grávida de meu irmão. Eu era uma criança presa, impedida de sair de casa para brincar com a molecada das redondezas. O primeiro terapeuta disse uma vez que eu era “filho de mãe castradora”, expressão que me causou algum desconforto. Por isso, por ser "inocente, puro e besta", eu nem sonhava o que seria “gravidez”. É ridículo isso (ainda mais nos dias atuais), mas era a pura verdade.
Quando não estava na escola (que chamava-se "grupo escolar" naquela época), ficava pela casa ou quintal "idiotizando" alguma coisa. Um dia, minha mãe sumiu. Perguntei onde estava e me disseram que "tinha saído". Quando saía por perto, para alguma compra, logo voltava. Se precisava ir “na cidade", normalmente me levava. Mas aquela ausência prolongada era novidade, pois eu não tinha ido com ela. Fui tomado por um desassossego, logo transformado em medo de ser abandonado e, por fim, de desespero quase histérico.
A única salvação para mim era fazer promessa, alguma promessa, qualquer promessa, para que ela voltasse. Não chorei, mas não conseguia pensar em mais nada. Aí ela chegou com meu pai, falou alguma coisa comigo e eu fui invadido pelo ódio mais cristalino, mais destilado, por ter-me feito sofrer tanto ao pensar que iria perdê-la.
Essas ausências aconteceram outras vezes, sempre gerando o medo mais mortal de ser abandonado. Ela saia com meu pai para fazer o controle pré-natal, provavelmente uma vez por mês, mas eu não sabia. Como "sexo" era assunto tabu em uma casa onde se ajoelhava às dezoito horas em frente ao rádio na "hora do Ângelus", só fiquei sabendo que minha mãe estava grávida já bem perto do dia do parto. Assim mesmo, graças à minha madrinha que passou a ir lá todos os dias para dar uma força na arrumação de casa e almoço. Lembro-me que fiquei surpreso com a notícia e assustado com o tamanho da barriga, nunca notado antes. Lembro-me também do aspecto meio repulsivo de seus pés inchados como uma bola, pois ela era bem magra.
- Bem, a sessão de hoje acabou.
- Já? Mas eu nem esquentei ainda!
- Na próxima, você continua...
- Hora de cinquenta minutos é foda!
- Até mais.
- Falou, doutor!


OUTRA SESSÃO

A porta do elevador se abre e dele sai um homem idoso de aparência cansada. Dirige-se ao número 303, entra na saleta de recepção, anuncia-se para a secretária que já o conhece e espera ser chamado.

- Como vai? Vamos entrar?
- Bom dia, doutor...

O homem acomoda-se no divã e fica em silêncio por alguns instantes. E começa a falar.

- Sabe, doutor, tenho uma amiga que também faz terapia. Estava contando para ela a história da gravidez de minha mãe. Na opinião dela, todas as pessoas deveriam fazer terapia. O que acha disso?
- Todos nós usamos como que uma couraça, uma armadura, para viver em sociedade. Mas nem todos têm armaduras tão pesadas que paralisem ou os impeçam de se movimentar. Ou seja, nem todas as pessoas precisam fazer algum tipo de terapia, entendeu?
- É, você deve ter razão.

(silêncio breve)

- Eu vim pensando em contar um ou dois casos que até hoje me envergonham. Na época, fiquei muito mal. Qual você prefere escutar primeiro, o mais delirante ou o mais abjeto?
- A escolha é sua.
- OK, vou contar o mais antigo primeiro. Eu estava na quarta série do grupo escolar e tinha dez ou onze anos. Era colega de dois irmãos, um menino e uma menina. O menino era do tipo valentão e frequentemente arrumava brigas na saída da aula. Eu era franzino e medroso, morria de medo de alguém querer brigar comigo. Talvez por isso e pelo fato de irmos na mesma direção, acabei ficando amigo desse menino.
Um dia, comentei com ele que na minha casa existia um anel de caveira igual ao usado pelo Fantasma. Conhece essa história em quadrinhos, doutor?
- Sim, o "Fantasma que anda", não é?
- Isso mesmo. Eu gostava muito dessas histórias. Pois bem, o menino ficou empolgado e pediu para vê-lo. Eu disse que não poderia, pois era de um de meus tios, mas ele insistiu. Eu repeti a negativa e ele ficou com raiva. Pegou meu braço e começou a torcer. Pedi para que me soltasse, mas ele continuou a torcer meu braço e disse que se eu não desse para ele o tal anel ele iria me bater no dia seguinte.
A irmã do valentão ficou com um sorriso cúmplice enquanto eu era ameaçado e agredido. Fiquei tão apavorado com a possibilidade de apanhar, de ser surrado (meus pais nunca me bateram), que não pestanejei: no dia seguinte, tal como em um filme de gangsters, entreguei a ele o anel da caveira (que não era meu!).
Depois disso, creio que passei a voltar sozinho para casa. Não me lembro se era eu que o evitava ou se era ele que me ignorava. O que me consolou foi o fato de ser um anel sem valor, abandonado e esquecido em uma gaveta. Se eu o tivesse dado de presente ou jogado fora, nada teria acontecido, mas o que me marcou não foi a covardia abjeta explicitada por meu comportamento nem a provável humilhação a que seria submetido ao ser espancado na rua. O que me fez ceder à chantagem do colega filho da puta foi o Medo, um medo incontrolável. Medo da dor, do sofrimento, medo do desconhecido, medo, medo, medo, medo!

(respiração ofegante)

- Doutor...
- Sim?
- Eu não estou legal, não sei explicar, mas lembrar dessa história me deixou muito estranho. Acho que vou embora agora.
- Calma, respire pausadamente, o tempo ainda não acabou e...
- Foda-se o tempo! Eu não estou bem, estou agoniado, entendeu?.
- Espere um pouco...
- Tchau!

As "horas de cinquenta minutos" semanais foram acontecendo tal como se espera de uma terapia de longa duração. Medos da infância foram resgatados e narrados, superstições paralisantes, paranoias e medos juvenis foram buscados e revolvidos, até surgir a palavra "controle".

- Você acha que todos os medos que eu senti ao longo da minha vida decorrem de um desejo de controlar o que não pode ser controlado?
- É você que tem de validar esse pensamento. Ou não.
- Isso significa que o medo da perda, de todas as perdas possíveis que me aterrorizam e me enlouqueceram está, na verdade, explicado pelo desejo de controlar tudo?
- O que você acha?
- Se isso for verdade, a origem poderia estar no sofrimento indescritível por que passei quando minha mãe saía para fazer o pré-natal de meu irmão. Como não tinha controle sobre suas ausências e era muito dependente dela, eu temia que ela nunca mais voltasse.  E isso foi projetado no futuro igualzinho à luz do Batman durante a noite.Faz sentido!
-Bem, o tempo acabou, mas parece que você avançou um passo. Reflita mais sobre isso.
- Ok, doutor.


ALGUMA SESSÃO

A porta do elevador se abre e dele sai um homem idoso com ar angustiado. Dirige-se ao número 303, entra na saleta de recepção, anuncia-se para a secretária (que já o conhece) e espera ser chamado.

- Como vai? Vamos entrar?
- Bom dia, doutor...

O homem acomoda-se no divã e começa a falar.

- Sabe, doutor, primeiro tenho que pedir desculpas por todas as saídas estabanadas. Apesar de idiota, parece que fugir do confronto - mesmo que seja comigo mesmo - é minha sina. Quando estava vindo para cá, lembrando desses comportamentos tão despropositados, fiquei pensando que devo ter desarmado uma trava presa há muito tempo. Por exemplo, o ódio e a vergonha reprimidos na infância pelo medo de um menino filho da puta, um verdadeiro bad baby, foram despertados e explodiram sem controle. Que acha disso?
- Na psicanálise, a eliminação do sintoma é consequência da modificação na estrutura psíquica que deu origem ao sintoma. Ou seja, uma transformação na dinâmica psíquica na qual o paciente se submergiu, e que o faz sentir-se e viver angustiado consigo mesmo e com os outros (no sintoma).
- Não entendi porra nenhuma!
- Ao verbalizar uma vivência que causou sofrimento intenso no passado, você conseguiu reviver os sentimentos contraditórios que recalcou. E isso foi libertador. Para ser eficaz, a terapia pressupõe a criação de um vínculo entre terapeuta e analisando. Na relação entre o terapeuta e o paciente forma-se uma relação pessoal de onde se pode interpretar o inconsciente do analisando. Na análise leva-se o paciente a tomar suas próprias decisões, a estar mais consciente de suas escolhas. É um compromisso de longa duração. Por isso, meu papel não é julgar, mas ouvir e analisar.
- Eu sei, doutor, já não sou calouro nessa matéria. Podemos prosseguir?
- Claro!
- Depois de começar aqui a revolver o passado, percebi que não quero mais fazer isso. Até porque já contei os casos da infância e juventude para o outro psicanalista. Poderia contá-los outra vez, mas, sinceramente, são  café pequeno perto do tornado, do tsunami que está atingindo minha mente.
- Ao final desta sessão vou te dar uma receita de medicamentos contra depressão.
- Eu não quero tomar nenhuma bomba! Além do mais, não estou deprimido. O que estou é angustiado, totalmente sitiado pelo Medo, um medo que nunca senti, que surge de todos os lados, em todos os momentos, entendeu?

(silêncio ofegante)

- Eu tenho acordado e dormido com medo, medo de tudo. De acontecer alguma coisa a um de meus filhos (e eu não suportaria!), medo que sofram algum acidente quando viajam, medo de ficar dependendo financeiramente deles, medo de andar à noite e ser assaltado, medo de perder amigos, bens, status, saúde, a fé, medo de  morrer de câncer, medo do amanhã, medo do próximo instante, medo de tudo, de tudo, de tudo. É um sentimento que não me abandona mais, parece que me vestiu como uma camisa de força. Eu não aguento mais isso!

(silêncio breve)

- Eu imagino que você vai dizer que esse medo está relacionado ao meu desejo irrealizável de controlar tudo, que esse desejo é um eco da impossibilidade de controlar as ausências da minha mãe durante sua gravidez. Vocês têm sempre uma explicação plausível para o que eu e outros sentimos. Mas eu tenho pressa, não aguento mais sofrer pelo amanhã, pelo que pode ou não acontecer amanhã ou depois. Sim, talvez eu queira controlar tudo, justamente para não sofrer. E eu nunca conseguirei isso!
Se o futuro fosse uma entidade, uma divindade mitológica, eu diria a ele: Futuro, não aguento mais temer suas ações! Chega,acabe com isso,  abata-me logo! Livre-me do Medo para sempre, não me faça esperar!
- Nós conversamos sobre isso na sessão anterior, lembra-se? Mas parece que isso não calou bem em você. Aqui está o número do meu celular. Ligue-me a qualquer hora do dia, não faça nada que coloque em risco sua integridade física. Pense que esta é uma fase que será superada.
- Ah, doutor! E você acha realmente que eu vou te ligar? Que vou te mandar uma mensagem pelo whatsapp? Que vou dizer: “Meu caro doutor, vou suicidar agora. Fui!”. kkkkk, não é assim que se faz? Eu disse que não aguento mais! Tenho dor na nuca, acordo sobressaltado, perco o sono. E sempre tem uma mão invisível a me sufocar. Mas eu vou controlar a minha vida! Medo filho da puta! VOU ACABAR COM VOCÊ, DESGRAÇADO!
- Você quer um pouco de água?
- Quero nada, só quero ir embora! Não vou ficar mais aqui!

O homem sai estabanadamente. O psicanalista fica pensativo, o cenho carregado. Lá fora se ouve o guinchar de pneus freando bruscamente e o barulho de uma batida. Alguém acabava de ser atropelado.


OBSERVAÇÃO FINAL:
Eu realmente não me senti bem ao pensar em postar no blog descrições sinceras dos diversos medos que me atingiram. Por isso, diminuí a quantidade de textos que imaginava divulgar no Blogson, mas o resultado ficou meio capenga. Por isso, resolvi criar uma ligação entre o segundo e o terceiro, para dar uma abordagem mais atemporal. Continuou meio capenga, mas melhorou um pouco (na minha opinião, obviamente).


Como disse João Nogueira no samba "Além do espelho":
Toda imagem no espelho refletida
Tem mil faces que o tempo ali prendeu
Todos têm qualquer coisa repetida
Um pedaço de quem nos concebeu

(Publicação original: 17/06/2018)

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

LOUCURA, LOUCURA!

Conheço uma pessoa que trabalhou como assistente social durante algum tempo em um manicômio, de onde guardou as lembranças e os casos mais bizarros. Uma vez comentou que tinha ficado “especialista em pinto”, pois havia uma ala onde todos andavam nus. Por isso, já tinha visto "uns trezentos". De acordo com uma engraçadíssima expressão citada pelo cantor Tavito em um programa do Jô Soares, eram literalmente os “homens-pêndulo”.

Segundo ela, havia “pêndulos” de todas as cores, calibres, tamanhos e formas. “Tinha até uns bicudos, que lembravam a ponta de um lápis”. Outra coisa que chamou sua atenção foi a pele do saco de alguns, pois, graças ao mais absoluto alheamento da realidade, sentavam-se em qualquer lugar, inclusive no piso cimentado quente. Essa total alienação acabava provocando uma aparência gretada, fosca e cascuda na bolsa escrotal, lembrando, segundo ela, “pele de elefante”.

Mas o caso mais bizarro aconteceu quando alguns loucos começaram a pedir a extração de todos os dentes, talvez usando a desculpa de estarem doendo ou coisa parecida. Alertado pelo dentista (ou enfermeiro), um dos psiquiatras resolveu esclarecer esse comportamento anormal em um mundo já tomado pela total anormalidade. Chamou um por um e pediu explicações para aquela novidade.

E a solução do mistério foi essa: Cigarros. Todos os que pediram a extração total dos dentes fumavam - mas não tinham dinheiro para sustentar o vício. A solução era filar de quem tinha. E um senhor idoso que se enquadrava no perfil de “abonado” nem era tão louco assim. Ou melhor, era louco mas não era bobo. Por isso, trocava um cigarro por um boquete. Como diria meu amigo virtual Marreta: “Pãããããããta que o pariu!!!

Achou graça? Mas a história melhora ainda mais, pois, como o sacana podia escolher (afinal, a oferta era maior que a procura), selecionava só os banguelas, pois o “chupisco” era mais gostoso. Depois disso, imagino que o espertão deve ter tomado um esporro do psiquiatra e que a extração total de dentes passou a ser feita só com indicação expressa de um dentista.

É mole? Não, naquela época não era mole.

(Publicação original: 22/11/2017)

sábado, 5 de agosto de 2023

EU, EU MESMO E A DEPRESSÃO - MARCOS TADEU

Normalmente nunca leio nada dos jornaizinhos de bairro que jogam aqui em casa. Dou uma olhada rápida e descarto, pois basicamente só trazem anúncios de pizzas, sanduiches, etc.

Ontem, achei na caixa de correio um desses jornalecos. Dei uma olhada rápida e fui atraído pelo título de um texto na folha interna (tinha duas): “Eu, eu mesmo e a depressão”. Comecei a ler e fui me identificando com o autor e seu sofrimento. Seu nome é Marcos Tadeu e é, entre outras coisas, editor do Jornal da Inconfidência FM. Só no final saí desse caminho, pois há uma leve insinuação de desejo de suicídio, o que definitivamente não passa pela minha cabeça. Mesmo assim, resolvi transcrever o texto no blog, pois não é uma narrativa de psicólogo, mas o depoimento de quem aparenta sofrer de depressão pesada. Para isso, escaneei com OCR, corrigi os erros que normalmente ocorrem nesse procedimento e aí está.



"O único sentimento que resta nesse estado despido de amor é a insignificância". Acho que esse trecho do best-seller "Demônio do Meio Dia - Uma anatomia da Depressão" explica tudo sobre a doença. Eu lhe devo explicações, caro leitor (a), ou até mesmo uma espécie de manual de instruções que facilite ou tome compreensível para você o que tenho passado. Pois, realmente, ninguém é obrigado a conviver com deprimidos. Nem mesmo o deprimido aguenta conviver consigo próprio. E, ademais, desde muito cedo fui exposto a um ambiente propício ao desenvolvimento dessa moléstia moderna, como gostam de chamá-Ia, a fim de glamourizar a depressão.
Pois é. A sensação é de vazio, inutilidade, insignificância. De que nada mais tem graça. Os outros, principalmente; se tomam ainda mais incomodativos, na direta proporção em que se demonstram felizes. É insuportável. É uma dor intermitente que se equipara a uma faca pontuda te espetando ao longo do dia, até o momento em que você estoura. A raiva é uma constante, daí que os poucos amigos que emprestam os ouvidos ou os olhos se transformam em válvula de escape – e, eventualmente, sacos de pancada - para desabafos como esse.
A incapacidade de conviver se torna maior, uma vez que, se você já não se sente amado, se sente uma merda por dentro e não vê graça mais no outro, não há porque sofrer ao lado dele em rodinhas de conversa superficial sobre consumismo e futilidades. Você se toma mais egoísta. Um vampiro sedento por atenção e carinho. Só o que passa a importar é o seu bem, quer dizer, mal-estar. Até chegar a hora em que todos torcem o nariz para você, pois não há ninguém que queira mais escutar do que ser escutado.
A rejeição se toma real, eu posso tocá-la, e. Você se sente como um estranho até a sua família. Passa a contabilizar os gestos mais fúteis, e a paranoia segue a passos largos. A cabeça cansa e pede arrego na forma de cama, escuridão e música que remeta ao passado. Quanto menos movimento, barulho e questionamentos, melhor. O meu hino? “Two Shots of Happy, One Shot of Sad”, Frank Sinatra, na voz de Bono.
A gente vê as pessoas sofrerem porque não conseguem ajudar. Vê as pessoas se irritarem. Xingarem. Mandarem ao inferno. Irem embora. Darem conselhos como se estivéssemos no quarto ano primário - "Valorize as coisas que tem, você podia estar passando fome!". Não. A doença não degenera o nosso caráter e isso tudo só faz com que o fardo da culpa nos cause mais sofrimento. Ao mesmo tempo, percebemos o quão inconvenientes nos tornamos, e quanto esforço esse e aquele indivíduo fazem para simplesmente nos suportar. E aí pensamos também em quão covardes somos por não conseguir pôr um fim em tudo e interromper todo o sofrimento.

Marcos Tadeu editor do Jornal da Inconfidência FM

(publicação original: 27/11/2016)

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

QUEM ME VÊ ASSIM SORRINDO

(Voltando à temática da "Mens Salada Paprocki")

Antes de criar um perfil no Facebook eu já tinha percebido que essa rede é boa para melhorar o foco e aumentar a nitidez da imagem que projetamos para os outros, bastando para isso observar o que cada um compartilha. Com meu perfil criado, isso se confirmou ainda mais.  Graças às postagens que vejo, percebo o humor, as preocupações, os interesses, a visão política, a intensidade da fé e a religião de cada um. Mas o que mais chama minha atenção é o rancor armazenado que percebo em posts inocentes e com frases bem-humoradas que algumas pessoas compartilham. 

Há uma música do Toninho Horta que talvez pouca gente conheça (apesar de já tê-la citado no Blogson umas mil vezes), que traz estes versos:
Quem olha pra mim e me vê feliz, não sabe o que é duvidar”.

Bacana, não? Mas imagino que a maioria (1,2) das pessoas que acessam o blog talvez conheça e se lembre de outra música (gravada pela Fafá de Belém) que dá um toque semelhante, só que mais suave:
“Quem me vê assim cantando não sabe nada de mim. Dentro de mim mora um anjo”.

Por que estou dizendo isso? Porque eu também me sinto assim às vezes, sorridente por fora e um ogro rancoroso, amargo e mal humorado por dentro. E aí juntei tudo isso, aproveitei a estrutura da música gravada pela Fafá e saiu esta coisa:

Quem me vê assim sorrindo        
Não sabe nada de mim    
Dentro de mim mora um ogro     
Que traz os dentes cerrados        
Que tem as unhas quebradas     
Que tem a cara amassada           
Que passa horas a fio       
Tentando sentir menos dor

(Publicação original: 22/09/2016)

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

ROMPENDO A BARREIRA DO SONHO

 
O total de visualizações do blog da sobremesa desejada ultrapassou hoje a barreira do som, ou melhor, do sonho. Não entendeu o significado da “sobremesa desejada”? Eu explico – mesmo que nunca se deva explicar uma piada.
 
Hoje o lema do velho Blogson Crusoe é “A voz que clama pelo dessert”, uma brincadeira jotabélica com a frase bíblica "a voz que clama no deserto", proferida por São João Batista, ele próprio um autêntico "Jotabê" - ou J.B. E dessert em francês significa “sobremesa”. Usando uma expressão cheia de ironia dita por uma de nossas vizinhas, “Sou chique, Bem”.
 
Bom, deixando o excesso de frescura de lado, a situação pós-rompimento da barreira do sonho é esta:

DO BOM E DO MIÓ


Em Minas Gerais existe um grupo econômico que é um exemplo de gestão empresarial eficiente, pois possui umas duzentas lojas ou mais, algumas espalhadas pelos grandes municípios do estado, mas a maioria delas concentrada em BH. São tantas que já mereceram até um meme da internet, que mostra uma de suas unidades no planeta Marte. Mas parece ter escorregado no marketing ao criar uma linha de produtos exclusivos a que deu o nome de “Mió”.
 
"Mió"? Que vocação caipira é essa? Os mineiros são ironizados por sua mania de cortar vogais no final das palavras, tipo “mesm” quando querem dizer “mesmo”. Essa forma de falar já mereceu até uma música composta pelo também mineiro Affonsinho, ex-guitarrista (fera!) do Hanói Hanói, cujo título é Sas sies sions”, que tem o verso “Sas sies sions pas nasavas?”, que significa “Sabe se esse ônibus passa na Savassi?” Pois é...
 
E agora vem essa mega empresa e lança uma linha “Mió”. Ainda bem que seus empregados não oferecem esses produtos aos clientes! Um funcionário solícito e com vocação para gerente poderia resolver fazer a divulgação dessa linha (e alavancar sua carreira na empresa), dizendo:
- O senhor quer levar esta marca ou prefere um produto Mió?
 
Se ouvisse esse convite eu ficaria tentado a responder:
- Fala direito, sô! Nós não é do interior, nós é da Capitar!

Se você achou esta piada uma merda mas quiser ouvir a música "Sas sies sions", clicaqui:



terça-feira, 1 de agosto de 2023

A VIDA NÃO CABE

A porta do consultório se abre e de dentro surge um homem de meia idade, expressão afável e olhar penetrante, inquiridor.
- Bom dia, doutor!
- Queira entrar, por favor.
- Obrigado. O que temos para hoje? Mais algum teste?
- Bem, seu processo terapêutico começa efetivamente hoje.
- E a semana passada? Achei que já era a terapia!
- O Teste de Rorschach que você fez foi uma avaliação preliminar para definir o processo terapêutico que adotaremos no início.
- Ah! Igual aquele aparelhinho que mede o grau dos olhos antes da consulta com o oftalmologista!
- Mais ou menos isso..
- Bem, o que eu faço agora?
- Você pode deitar-se naquele divã.
- Divã, heim? E eu que achava que isso era invenção de humorista!
- Na psicanálise individual, que é o seu caso, o divã é utilizado para deixar a pessoa mais relaxada. Vou sentar-me nesta cadeira que está ligeiramente atrás do divã, para deixá-lo mais à vontade. A baixa luminosidade da sala também auxiliará no relaxamento.
- Ok.
-
- Hum, hum - pigarreia o homem deitado no divã.
-
- O senhor não vai dizer nada?
- (risinho irônico) Não sou eu que estou com problemas. E pode me chamar de "você".
- O que eu faço então?
- O que você quiser. Eventualmente, eu comentarei alguma coisa, mas ainda não é o momento. Tenho um paciente que ficou três meses calado, nem uma só palavra em doze sessões.
- Mas isso é prejuízo! Pagar caro para ficar calado?
- Depende do bloqueio de cada um...
- Se é assim, se o senhor..., quer dizer, você não me perguntará nada, eu vou começar a falar.
- Ótimo.
- Tenho tido pesadelos e sonhos estranhos que me fazem acordar sobressaltado angustiado e triste. São sonhos quase sempre ambientados em dois lugares: na empresa onde eu mais amei trabalhar e naquela onde eu mais odiei. Da primeira - em situação pré-concordatária, saí por medo de ficar desempregado. Acabei ficando desempregado, aos 44 anos de idade. Na segunda - onde entrei mediante concurso, odiei cada dia dos onze anos ali trabalhados, até me aposentar por tempo de serviço. Um lugar onde eu tive novo contato com meu velho conhecido bullying, sem ainda saber da existência de uma palavra que o definisse. Quando eu era criança, eu... eu............... Porra, esqueci o que eu ia dizer!
- A isso chamamos ato falho.
- Ato fálico?
- Ato falho. Por um processo inconsciente, você bloqueou a lembrança que iria narrar. Conscientemente você queria dizer, mas seu inconsciente disse "não".
- Que merda... Ah, lembrei! Quando estava no ensino fundamental, comentei com um colega metido a valentão, que tinha um anel de caveira do Fantasma em minha casa. Ele então pegou meu braço, torceu e disse que se eu não o levasse no dia seguinte para ele, ele me bateria. Até hoje tenho vergonha disso, mas levei o tal anel e dei para ele. O pior é que nem era meu, mas de um tio!

(Segue-se um longo silêncio).

- O senhor continua mudo, não é? Que tratamento é esse em que só eu falo?
- O papel do terapeuta é servir de espelho para que o paciente se veja tal como realmente é. Só assim os traumas, as tensões poderão ser identificadas e tratadas, lembrando que essa é uma tarefa do paciente. Ao terapeuta compete iluminar o caminho.

(Novamente o silêncio se instala).

- São sempre os mesmos sonhos (agora, falando rapidamente, as palavras saindo em jorros, como água de uma torneira em que o encanamento estava cheio de ar). Às vezes estou em algum lugar cheio de gente e me dou conta de estar nu e fico constrangido algumas pessoas me olham com surpresa outras com ar de censura ou de indiferença e eu nem sei como sair dali em outras volto ou vou a algum lugar onde estão antigos colegas trabalhando tento arranjar alguma coisa para fazer tento ser necessário mas ninguém liga e o ambiente é melancólico e decadente com mesas e cadeiras velhas e aí eu acordo muito triste e me lembro de que estou aposentado e que não há motivo para sofrer assim acordado às vezes sinto-me um velho palhaço que não consegue mais fazer alguém rir sou como um bufão decadente a quem ninguém mais dá atenção um bobo de uma corte que não existe mais talvez por isso nunca consegui ver Charles Chaplin em seus dois últimos trabalhos como ator talvez por não suportar ver o desencanto de uma pessoa a quem a vida já abandonou talvez por não querer mais ver o sofrimento alheio mesmo que apenas encenado como quando fui assistir a uma peça teatral um monólogo cômico em que o ator representava um sujeito doentiamente ciumento que tinha terminado o namoro com sua amada justamente por asfixiá-la (de modo figurado) com suas dúvidas e o medo de ser traído a plateia lotada (a peça fazia parte de uma campanha de popularização do teatro) derretia-se de tanto rir e eu não conseguia esboçar nem mesmo um sorriso tal a pena que sentia do personagem de seu ciúme tóxico de seu sofrimento patético e sem solução a partir da adolescência talvez por medo de que alguém pudesse rir de mim eu sempre tentei ser o primeiro a fazer isso ou tentei direcionar o motivo do riso como se pedisse –“ria do meu personagem não de mim” talvez por isso eu seja superficial e tente me desligar do mundo das pessoas pois não consigo conviver com a dor nem sei como me comportar diante do sofrimento de outra pessoa... Pô, deu até para espumar a boca!
(risinho discreto do terapeuta)
- Alguns dias atrás, comecei a sentir uma inquietação estranha, como se estivesse em um lugar onde não poderia ou deveria estar. Junto com ela surgiram uma tristeza e uma angústia difusas, não identificáveis. Não sabia como sair desse estado e aí surgiu um pensamento estranho, aflitivo, definitivo: parece que a Vida não cabe dentro de mim. Que você acha, doutor? Talvez a Vida nunca tenha cabido dentro de mim...
- Talvez. Saberemos mais sobre isso. Continuamos na próxima semana, pois o tempo acabou.
- Obrigado, doutor, até a semana que vem.

(Publicação original: 29/01/2016)




BOLHA!

  Sempre tive alguma dificuldade de pertencer a grupos, talvez por possuir um temperamento um tanto antissocial, que me faz ficar de saco ch...