quinta-feira, 7 de julho de 2016

EU, LÚCIO DE SANTO GRAAL - RUBEM BRAGA

Tenho lido muitos livros, mas nenhum que mereça ser reverenciado nesta bagaça. Nenhum deles provocou admiração nem aquela expressão facial que surge quando se lê uma  frase ou período irretocavelmente genial, quando brota na mente aquela ideia de que -"queria saber escrever tão bem assim!" São boas biografias, boas reportagens em formato "livro", boas crônicas de jornal republicadas, mas só isso: "boas". 

Recentemente, por conta do post "Auto-Retrato", alguém sugeriu que eu mostrasse uma fotografia minha. Refuguei a sugestão, mas a ideia ficou voejando em meu cérebro. Como sou meio exibicionista, essa possibilidade até mostrou-se tentadora, mas desisti. Aí lembrei-me de uma crônica do meu ídolo Rubem Braga, onde ele aborda esse lance de anonimato. E é ele que volta (terceira vez) ao desencantado Blogson. Mesmo que ninguém se anime com esse estímulo, para mim é sempre uma delícia reler as crônicas do velho Braga, verdadeiras aulas de como escrever com lirismo e bom humor. Olhaí.


Já fiz muita coisa em jornal, mas o sonho secreto do coração jamais se cumpriu. É verdade que os sonhos mudam; lembro-me que, no tempo de rapazinho, a suprema autoridade era para mim Yves, do FonFon!, o Sr. Bastos Portela. Ele respondia a centenas de cartas com um ar displicente e irônico, rejeitando os poemas ou dizendo alguma coisa sobre as torturas ou delícias da alma que suas fãs Ihe expunham.
Sim, era supremo. Às vezes feroz, às vezes delicadíssimo, escrevia com navalha ou pluma e tinha, por cima de tudo, um ar de desencanto, ou fastio que raramente lhe permitia pequena frase lírica.
Mandei-lhe, certa vez, alguma coisa que escrevi, uma croniqueta de vinte linhas. Levou semanas para responder, e como o Fon-Fon! custava a chegar lá em Cachoeiro! Eu já estava triste quando um belo dia veio a resposta.
Yves não publicava minha literaturinha, mas me tratava com uma certa gentileza. Dizia, se bem me lembro, que aquilo devia ser coisa de estudante em férias, e acrescentava algo assim como "hum! você pode ser um humorista".
Não me zanguei com a recusa da croniqueta; com as semanas de espera eu já não fazia muita fé naquilo. (Os escritores adolescentes são horríveis pais, que vivem renegando os filhos semanas e as vezes dias depois de nascidos, passando seu amor de armas e bagagens para outro filho que acham um primor e que logo renegarão; com o tempo a gente fica menos ansioso e mais humilde e se as vezes contempla a filharada toda com aborrecimento pelo menos não a despreza mais por amor dos recém-nascidos, que já sabemos que não são grande coisa). Também não mandei mais colaboração; creio que fui passar as férias na praia e adeus literatura.
Há muito tempo que não leio o Fon-Fon!, pois me chateei quando a revista virou integralista; não sei se Yves continua funcionando. Sim, Yves era supremo; mas o meu grande sonho não era ser Yves.
Devo ter algum pudor em confessá-lo. Não é coisa, vamos dizer, muito viril. Que fazer? Rirá de mim o leitor severo; mas que se dane. Meu sonho é ter um "Consultório Sentimental”. Não com o meu nome, com um pseudônimo, um bom pseudônimo que intrigasse e encantasse as damas. “Mas quem será?", perguntariam elas, erguendo ao céu os belos olhos negros ou azuis. "Quem será, hein?" E ficariam minutos assim, talvez beliscando levemente o lábio inferior. E o Braga, moita.
Minhas respostas seriam infernais, oh, santo Deus, como eu brilharia. Haveria de mergulhar no coração das damas e de lá traria as pérolas lindíssimas que sempre julgo haver recônditas no fundo desses pequenos e confusos oceanos. De vez em quando eu seria irônico, mas também não demais; às vezes um pouco paradoxal, mas também sem abuso. No mais das vezes seria manso, ainda que pro­fundo; terno, embora ligeiramente superior. Às vezes poderia mesmo ser distinto e tão discreto que pediria perdão, mas me negaria a dar conselho em caso tão delicado. Outras vezes rasgaria apelos: “Ame, e creia no seu amor. Tenha a coragem de seus sentimentos; acredite na vida! Conte com meu apoio moral!”
Absolutamente, ab-so-lu-ta-men-te não cederia aos rogos de missivistas ansiosas por me falar pessoalmente, ou sequer pelo telefone. Não, nunca. Ao palerma do Braga elas não pilhariam; só poderiam lidar com o fantástico doutor de almas, profundo conhecedor do coração epistolar feminino, irônico porém tão humano, severo porém tão meigo.
É inútil, ó belas do Brasil; no dia em que eu me instalar atrás de meu soberbo pseudônimo podeis me mandar retratos até em maiô. Pessoalmente só merecereis o meu desprezo; porque “Juan" (ou “Vic", ou “Parsival", ou “Dr. Cândido"?) só tratará com as senhoras e senhoritas através de cartas.
Pessoalmente (que terá havido tom ele, com esse terrível conhecedor de mulheres? desengano ou soberbo fastio? mágoa ou tédio, Senhor?), pessoalmente as mulheres jamais o atingirão, ainda que venham lágrimas sobre a tinta azul em papel cor-de-rosa.
Sim, eu serei misterioso; magnífico e irredutível, quer me chame “Dr. Mefisto", quer me chame “Johnny", ou, o que talvez prefira, “Lúcio de Santo Graal". ''. E então as damas ficarão exasperadas, fascinadas...
E lá atrás de seu pseudônimo fabuloso ficará escondido, mergulhado na escuridão, ferido e medroso, o pobre coração do Braga.
Outubro, 1946

quarta-feira, 6 de julho de 2016

A NOITE - ELIE WIESEL


Nunca esquecerei aquela noite,
a primeira noite no campo,
que transformou a minha vida em uma longa noite sete vezes selada.
Nunca me esquecerei da fumaça.
Nunca esquecerei os pequenos rostos das crianças cujos corpos eu vi transformados em fumaça sob um céu silencioso.
Nunca hei de esquecer aquelas chamas que consumiram a minha fé para sempre.
Nunca vou esquecer o silêncio noturno que me privou por toda a eternidade do desejo de viver.
Nunca esquecerei aqueles momentos que assassinaram meu Deus e minha alma e transformaram meus sonhos em cinzas.
Nunca me esquecerei dessas coisas, mesmo se fosse condenado a viver tanto quanto o próprio Deus.
Nunca.

Elie Wiesel (30/09/1928 - 02/07/2016)

terça-feira, 5 de julho de 2016

TRANSILVANIA

Eu sou o único de minha família a não ter facebook. Independente disso, vira e mexe vejo as coisas que as pessoas postam, pois eu e minha mulher usamos o mesmo computador. Não sei se é defeito dos amigos ou se isso é uma constante em toda a internet, mas o fato é que em boa parte dos casos o que encontro são textos escritos por Chico Xavier e psicografados por Camões, Aristóteles e outros escritores famosos falecidos antes dele (perdão, acho que inverti a ordem).

E quando não é plágio espírita, o que rola são pensamentos e reflexões diversas de baixíssima qualidade. Pode-se dizer que esses gênios da autoajuda são como espelhos em castelo de vampiro: não refletem nada que realmente interesse

segunda-feira, 4 de julho de 2016

AS FILHAS DE JULIETA (E FRANCISCO) - 04

Tia Aidê nasceu em 24/08/1933. Assim como Tia Dalva, trabalhou muitos anos em um cartório de registro de notas. A diferença entre elas é que Tia Dalva era "escriturária" (não sei se esse é o termo correto), escrevia à mão (não faço a menor ideia do porquê disso), enquanto Tia Aidê era datilógrafa. Muito foda, diga-se. Parecia uma metralhadora, de tão veloz. Um dia perguntei quantos toques ela dava por minuto e me contou ter feito um concurso para secretária da Assembleia Legislativa de Minas. Segundo ela, seu resultado foi 350(!) toques certos por minuto. Foi aprovada, mas não conseguiu a vaga, pois o concurso havia sido feito só para legitimar quem já estava lá dentro. Coisas do Brasil.

Por ter permanecido solteira, foi a única tia com quem convivi diariamente até me casar. Talvez por isso, sempre diz que gosta demais de mim. Esse sentimento é recíproco, ainda mais agora, que é minha fonte de consulta para casos da época da minha infância. Mas, como ficava fora o dia todo, não tenho quase nenhuma lembrança sua dessa época, a não ser o fato de ser totalmente impaciente com a eventual zona que os outros sobrinhos aprontavam nas tardes de sábado e domingo, quando os filhos de Dona Leta e Seu Chico iam visitá-los. Nesses dias, ela bancava o sargentão e enquadrava a molecada mais saidinha. Pelo que já percebi, esse é um comportamento padrão das tias solteiras.



Na minha adolescência, uma coisa que eu gostava bastante é o fato de ela comprar várias coleções de literatura, todos os livros com capa dura, lombada com letras douradas (na maioria das vezes) e fantásticos autores. Graças a meu isolamento nessa época, li muita coisa boa, clássicos mundiais, mas deixei de ler outro tanto, ou por não ter tempo ou pela estranheza que alguns me causaram. Dickens, por exemplo, comecei a ler, mas a linguagem antiga me fez desistir. 

Como Tia Aidê trabalhava muito, fico sem saber se tinha tempo para ler ou se essas coleções tinham mais uma função decorativa e de status, O que sei é que, pensando em uma possível futura herança, recentemente perguntei a ela sobre esses livros e a resposta foi arrasadora: a maior parte foi jogada fora depois de ser parcialmente devorada por um tipo de cupim que infestou sua casa em Lagoa Santa. No barato, mais de cem livros viraram cocô de inseto. Foda!



Só há pouco tempo fiquei sabendo que a casa de minha avó foi comprada pelos três ou quatro tios solteiros que trabalhavam na época: Tio Cici, Tia Aidê, Tio Nem e Tia Dalva. Segundo Tia Aidê, todo mês, parte do dinheirinho suado dos irmãos era juntado para resgatar cada uma das promissórias relativas ao parcelamento do valor pago pelo imóvel. O bacana dessa história é que o registro da compra foi feito em nome de minha avó. Assim, quando a casa foi vendida, todos os irmãos receberam sua parte nessa herança. Na prática, um presente para os que não ajudaram a comprar, dado pelos que ralaram para pagar.


Um dia, depois de anos trabalhando no cartório, Tia Aidê arranjou um emprego em uma empresa de mineração, lugar onde sua vida melhorou em todos os sentidos. Virou secretária-executiva da diretoria, começou a estudar direito (que logo abandonou), comprou um carro (que logo vendeu), fez curso de estenografia (ou taquigrafia, sei lá), conseguiu comprar um apartamento em BH, o imóvel de Lagoa Santa e encontrou o amor de sua vida, um amor outonal (ou invernal, talvez).

Depois de anos trabalhando com um dos diretores da empresa, bingo! Aconteceu aquele momento mágico, quando se apaixonou por ele e, creio, foi correspondida. Não faço a menor ideia de quando isso aconteceu, nem como. Apenas sei que o "Dr. Fulano" (o nome está omitido, lógico), como ela falava, era ou tinha sido casado. Parece que isso foi uma coisa tranquila, pois ela relacionava-se com o(s) filho(s) do cara.

O engraçado da história é que ela "não entregava a rapadura", mas era visível que havia um romance "no ar". Eu já estava casado quando fiquei sabendo disso. Quem me contou foi minha mãe, que às vezes dizia com ironia (e satisfação) coisas como "a Aidê foi lá, com o 'véio' dela".

Quando peguei pneumonia e fiquei internado no CTI, lá foi Tia Aidê com  "o 'véio' dela" me visitar. Mas não pude conhecê-lo, pois só ficaram do lado de fora, conversando com minha mulher. E o tratamento "Dr. Fulano" continuava a ser usado por minha tia nas conversas  com as irmãs e sobrinhos. Muito legal.

Mais ou menos na mesma época que minha mãe, o "Dr. Fulano" começou também a apresentar os sintomas de Alzheimer. Minha tia ia todos os dias à sua casa, para ficar com ele, caminhar com ele, cuidar dele, seu amor da "terceira idade". E foi assim até ele morrer. Mesmo que nunca tenha me falado explicitamente desse relacionamento, nunca conseguiu esconder o quanto ficou arrasada com essa perda.

Algum tempo depois, perguntou-me se eu queria ganhar uma cadeira que tinha comprado em um leilão da empresa onde trabalhara. Disse-me que era uma cadeira executiva, giratória, toda de madeira, bacanaça e que tinha sido usada pelo "Dr. Fulano".  Disse-me também que gostaria muito que eu ficasse com ela. Aceitei, claro, não sem pensar no simbolismo que ela carregava. 

Talvez ela tenha imaginado que um objeto tão especial, relacionado a uma pessoa tão amada, estaria em boas mãos sendo dada a mim. Talvez, quem sabe, a presença desse móvel em sua casa provocasse lembranças muito dolorosas que pretendeu evitar.

Hoje, Tia Aidê é minha "consultora" para os casos da minha infância e da família de minha mãe. Às vezes eu penso que mesmo não tendo se casado - ou talvez por isso mesmo - teve um relacionamento muito mais intenso e feliz que sua sua irmã mais nova viveu em seu casamento, objeto de um post que encerrará minhas lembranças das filhas de Julieta (e Francisco).

04/07/2016

domingo, 3 de julho de 2016

PONTO DE PARTIDA

Quem chega à porta do quarto, pouca coisa tem para olhar. Imediatamente à direita, logo após a ombreira da porta, algumas prateleiras feitas com tábuas sem acabamento vergam-se sob o peso de caixas de papelão cheias de papéis antigos e alguns livros. Encostada na parede à direita, no canto, encontra-se uma cama de solteiro, desarrumada.

Ao fundo, um banco de madeira suporta uma mala de couro cru, decorada com desenhos feitos a ferro quente, onde são guardadas as peças de vestuário, já que o quarto não tem armário embutido nem guarda-roupa.

À esquerda, debaixo da janela, vê-se uma velha escrivaninha e, sobre ela, roupas sujas misturam-se descuidadamente com jornais antigos, algumas frutas, uma sacola com pães e uma máquina de escrever. A máquina é uma Remington cor de ouro-velho e foi comprada anos atrás em um leilão. Uma cadeira com o assento estofado já gasto e desbotado – sempre usada como cabide de calças – completa a mobília do quarto.

Tudo ali é velho ou ordinário. O tampo de madeira da escrivaninha ostenta várias marcas circulares desbotadas, causadas por copos cheios de água que ali coloca antes de deitar-se. As bordas são escuras e queimadas pelos cigarros que acendeu e se esqueceu de pegar, no tempo em que ainda fumava.

O quarto onde passa a maior parte do tempo é alugado e fica nos fundos de uma casa velha, transformada em pensão. O acesso a ele é feito através de um corredor na lateral, o que lhe confere alguma independência e privacidade.

Na carteira de identidade consta o nome de Odorêncio, dado em homenagem a um tio-avô que nunca viu. Tem sessenta anos presumíveis. Os cabelos já escassos estão quase totalmente brancos. A barriga flácida e volumosa teima em derramar-se sobre o cinto.

Como vem acontecendo há tempos, sente-se infeliz e irritado com a vida que leva. Não tem amigos com quem conversar – “não tenho amigos, tenho apenas conhecidos”.

Depois que se separou, praticamente perdeu o contato com os filhos, que não o procuram nunca, exceto para pedir algum dinheiro. Dos parentes próximos – poucos – também não dá notícia.

Como está aposentado, quando não está lendo, escreve coisas que depois joga no lixo, numa rotina tediosa e um pouco angustiante.

Cumprindo uma espécie de ritual diário, Odorêncio aproxima-se da escrivaninha, tira um pé de meia preta de cima da máquina e, com zelo e interesse, usa-o como espanador para limpar os farelos de pão espalhados no tampo da mesa. Concluída a limpeza, senta-se na cadeira, retira de uma das gavetas um pacote de aparas de papel de jornal, cortadas em tamanho “ofício”. Pega uma das folhas e coloca-a cuidadosamente na máquina. Junta as duas extremidades para ver se estão bem alinhadas e se dá por satisfeito.

Existirmos: a que será que se destina?” Quando criança, eu era um menino cheio de inseguranças variadas. Adolescendo, comecei a não ter certeza de nada, verdadeiro espelho do Raul Seixas ("prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo").
À medida que fui envelhecendo, foi aumentando mais e mais minha perplexidade sobre essa coisa incompreensível chamada Vida, de tal forma que hoje eu me sinto totalmente solidário com quem pronunciou essa pérola: "‘só sei que nada sei”.

–  “Início mais lixo que esse, impossível”, pensou, enquanto retirava e amassava a folha. Pegou nova folha, repetiu o ritual e começou:

Qual é o sentido da vida? Deve haver um sentido para a vida! Não é possível que os seres vivos tenham surgido por conta de um capricho de moléculas de carbono delinquentes e desocupadas! Não consigo entender que uma pessoa, um animal ou mesmo uma bactéria sejam apenas sistemas fechados, programados para reproduzir-se e movido por impulsos eletroquímicos. Para que? É tão imbecil pensar assim! Por outro lado...

Sentiu-se ridículo escrevendo sobre coisas que sabia não ter condições de explicar ou entender. Invejou as grandes mentes da humanidade (– “eu temo o poder e admiro o conhecimento, mas a única coisa que eu respeito de verdade é a inteligência”, gostava de dizer para os antigos colegas de trabalho).

Arranca a folha, amassa-a e joga no chão. Pega outra folha, coloca na máquina e recomeça:

Sinto-me como se fosse o resultado de um projeto ambicioso que não deu certo, seja por defeito de concepção, seja por erro de dimensionamento, talvez pela má qualidade dos materiais empregados ou por falhas no processo produtivo ou, até mesmo, por vícios de utilização.

Divertiu-se com a ideia e prosseguiu:

Não sei por que algumas pessoas dão-se bem na vida, constituem família, divertem-se e enriquecem, enquanto outras caminham justamente na direção oposta. Não se trata aqui de reinventar a psicologia ou outra ciência do comportamento, apenas de constatar uma realidade estranha e desigual. Qual é o sentido disso, qual a lógica obscura disso tudo? Afinal, qual é o sentido da vida? Não sei o sentido da vida e talvez trocasse a minha própria pela resposta a essa pergunta.

Por alguns instantes ficou imóvel, sem saber como continuar. Irritou-se pela falta de imaginação, pela incapacidade de verbalizar os pensamentos confusos que giravam em sua mente. Ia tirar de novo o papel da máquina, quando lhe ocorreu uma ideia que pareceu interessante:

–  Vou escrever sobre minha vida. Talvez, ao resgatar todas as lembranças, isso me ajude a compreender o sentido da vida. Se não da Vida, metafisicamente falando, pelo menos da minha.

Acreditando que finalmente tinha imaginado algo que o faria preencher as longas horas ociosas, deixou-se ficar pensativo. Não tinha ilusões sobre a qualidade literária do que iria produzir, mas intimamente, tinha a convicção de que todo romance, toda obra de ficção tem sempre alguma coisa de autobiográfico.


Os dois indicadores usados para datilografar começam a bater nas teclas:


- Nasci em uma família...



As lembranças, as conversas, as impressões e as mágoas foram pouco a pouco preenchendo aquelas folhas, empilhadas cuidadosamente em uma caixa de camisa social que tinha guardado. Nada escapou de ser registrado, mesmo os casos mais fúteis, mesmo as conversas mais tolas. Ainda no início, olhando a papelada que se avolumava, pensou em voz alta, não sem uma ponta de ironia:

–  Minha história e minha vida estão nesta caixa!

Entretanto, à medida que o texto e as lembranças se aproximavam do momento em que se encontrava, Odorêncio ia ficando mais e mais inquieto e irritado. Já tinha até comprado outra resma de papel, já tinha trocado a fita da máquina. E o que seria uma forma de passar o tempo havia se transformado aos poucos em obsessão. E aquela agitação só aumentava. Afinal, mesmo depois de passar em revista toda a sua vida, Odorêncio continuava no mesmo ponto onde tinha começado. Exasperado, exclamou quase gritado:

–  Qual é a porra do sentido da minha vida?


Nesse instante, começou a sentir um mal estar, um pouco de enjoo. – "Será que é aquela carne de porco que eu comi? Talvez fosse bom tomar um bicarbonato...", pensou. Sentou-se na cama e passou a mão na testa. Percebeu que estava suando frio. Sem entender o que estava acontecendo, tentou se levantar. Uma dor intensa que começava no peito e que se irradiava para o braço esquerdo – como se uma mão invisível estivesse esmagando seu coração – o impediu. Meio tonto e com dificuldade para respirar, pensou em chamar alguém, em pedir ajuda.

                                                                * * *

Duas mulheres de aparência cansada e lenço amarrado na cabeça limpam o quarto. Enquanto a mais nova varre o cômodo e recolhe o lixo espalhado, a outra tira o lençol da cama e faz uma trouxa com a roupa suja.

–  O velho era bem porco. Olha essa mesa como tá suja!

–  Ah, homem é assim mesmo, tudo igual. Ainda mais se mora sozinho...

–  Os filhos estiveram aqui mais cedo e pegaram uns documentos, livros, dinheiro...

–  Disseram que é pra dar as roupas e os sapatos pra algum asilo.

–  A mala também?

–  Sei não.

–  Ó, tem uma papelada danada dentro desta caixa. Tá tudo escrito. Que é que vai fazer com isso?

–  Eles falaram que é papel à toa, sem importância, que pode jogar tudo fora.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

HIER ENCORE - CHARLES AZNAVOUR

As músicas italianas e as músicas francesas fizeram muito sucesso por aqui na década de 1960. Tocavam no rádio, fizeram surgir covers (o Jerry Adriani foi um que começou cantando só música italiana), etc. 

Minha mulher ama essas melodias. A que ela mais gosta é "Hier Encore", composta e gravada em 1964 ("tinha eu quatorze anos de idade...") pelo francês de origem armênia Charles Aznavour (conhecido nas rodas de samba por Shahnour Varinag Aznavourian).

A letra melancólica e depressiva talvez fosse super indicada para a seção "Que fossa, heim,..." do blog "A Marreta do Azarão". Essa música fez tanto sucesso que acabou ganhando uma versão em inglês gravada pelo próprio Aznavour, com o título "Yesterday when I was young".

Alguém poderia se perguntar por que um cara (ainda) beatlemaníaco se interessaria em postar a letra e o link de uma música tão antiga, da época de sua adolescência. Ainda por cima, francesa e nada parecida com um rock. A resposta é simples: no enterro de um conhecido nosso, alguém fez um comentário sobre imortalidade e a percepção da finitude da vida, alguma coisa assim. Até já falei sobre isso em outros posts.

Hoje, por acaso, encontrei um arquivo contendo a tradução das versões francesa e inglesa dessa música. Pela sintonia com meu estágio atual, pensei que seria legal lembrar o amigo falecido (que tinha a mesma idade que eu) e homenagear esse francês com sua música cheia de dramaticidade e desalento. Não tenho hoje a melancolia contida na letra, mas às vezes brinco com pessoas mais jovens que eu (99% do total) ao dizer que também já tive vinte anos. E parece que foi ontem!

(A tradução foi extraída da internet e, para mim, traz várias distorções de imagens e do sentido que o autor deu ao original. Paciência. Depois da letra estão os links da gravação original e da versão em inglês. Vê aí)

Hier encore, j'avais vingt ans
Ontem ainda , eu tinha vinte anos
Je caressais le temps et jouais de la vie
Acariciava o tempo e brincava de viver
Comme on joue de l'amour
Como se brinca de namorar
Et je vivais la nuit
E vivia a noite
Sans compter sur mes jours qui fuyaient dans le temps
Sem considerar meus dias que escorriam no tempo
J'ai fait tant de projets qui sont restés en l'air
Fiz tantos projetos que ficaram no ar
J'ai fondé tant d'espoirs qui se sont envolés
Alimentei tantas esperanças que se foram,
Que je reste perdu ne sachant où aller
Que permaneço perdido sem saber aonde ir
Les yeux cherchant le ciel mais le coeur mis en terre
Os olhos procurando o Céu, mas o coração posto na Terra
Hier encore j'avais vingt ans
Ontem ainda eu tinha vinte anos
Je gaspillais le temps en croyant l'arrêter
Desperdiçava o tempo acreditando que o faria parar
et pour le retenir, même le devancer
E para retê-lo, e até ultrapassá-lo,
Je n'ai fait que courir et me suis essouflé
Só fiz correr e me esfalfar
Ignorant le passé, conjuguant au futur
Ignorando o passado que conduz ao futuro
Je précédais de moi toute conversation
Eu precedia de mim qualquer conversação
et donnais mon avis que je voulais le bon
E opinava que eu queria o melhor
Pour critiquer le monde avec désinvolture
Por criticar o mundo com desenvoltura
Hier encore j'avais vingt ans
Ontem ainda eu tinha vinte anos
Mais j'ai perdu mon temps à faire des folies
Mas perdi meu tempo a cometer loucuras
Qui ne me laissent au fond rien de vraiment précis
O que não me deixa, no fundo, nada realmente concreto
Que quelques rides au front et la peur de l'ennui
Além de algumas rugas na fronte e o medo do tédio
Car mes amours sont mortes avant que d'exister
Porque meus amores morreram antes de existir

Mes amis sont partis et ne reviendront pas
Meus amigos partiram e não mais retornarão
Par ma faute j'ai fait le vide autour de moi
Por minha culpa eu criei o vazio em torno de mim
Et j'ai gaché ma vie et mes jeunes années
E gastei minha vida e meus anos de juventude
Du meilleur et du pire en jettant le meilleur
Do melhor e do pior, descartando o melhor
J'ai figé mes sourires et j'ai glacé mes peurs
Imobilizei meus sorrisos e congelei meus choros
Ou sont-ils à present, à present mes vingts ans?
Onde estão agora, meus vinte anos?







ALTO RETARDO

Eu acho uma breguice genuína tirar retrato 3x4 meio de perfil, em diagonal em relação à câmera. Apesar disso, pouco antes de me formar na faculdade, tirei um assim. Recebi da comissão de formatura a orientação de procurarmos determinado estúdio fotográfico para que fosse tirado o retrato que seria exposto no quadro de formandos de engenharia daquele ano.

Esse era um costume chique pra caramba, pois as principais faculdades faziam esses quadros de formatura e os painéis eram colocados nas vitrines de lojas conceituadas da Afonso Pena, a principal avenida de Belo Horizonte. Quando essas fotos eram expostas, os transeuntes paravam para olhar a cara do povo. Os pais dos formandos, emocionados, admiravam seus pimpolhos. As meninas examinavam os exemplares masculinos e os marmanjos tentavam encontrar alguma tchutchuca no painel.

Entre os formandos de engenharia isso era particularmente difícil, não só pela predominância masculina como pelo fato de as poucas engenheiras (na época, pelo menos) serem em sua maioria coleguinhas de São Jorge (dragões mesmo).

Pois bem, lá fui eu. O fotógrafo entregou-me um paletó de smoking provavelmente feito para anão com obesidade extra-mórbida, pois a manga terminava quase no meu cotovelo e a largura daria para colocar dois de mim dentro da “fatiota” (eu era magrelão. Talvez hoje até ficasse certinho. Na barriga, pelo menos...).

Foi aí que o Mal se manifestou. Para que o paletó ficasse com aparência de ter sido feito sob medida para mim, o sujeito juntou nas costas todo o excesso de pano e pediu-me que segurasse com uma das mãos. Em seguida, posicionou-me em uma diagonal imaginária (talvez para disfarçar o braço nas costas), fez as recomendações de praxe de não me mexer, etc. e mandou bala. O resultado até que não ficou tão ruim: fiquei com cara de quem estava enxergando um brilhante futuro (ou pensando por que tinha vagabundado tanto durante o curso). Além disso, talvez devido aos retoques, a foto ficou meio enfumaçada, meio etérea, combinando bem com meu bigode a la Woodstock.


Em outra ocasião, precisando de retrato para nova carteira de identidade, dirigi-me ao Foto Zatz. Como sempre, encomendei seis cópias. Sentei-me na cadeira para tirar a foto. O fotógrafo veio, ajustou meus ombros e deu uma entortadinha na minha cabeça para a direita. Caminhou para a câmera e eu corrigi a posição da cabeça. Volta ele e me entorta novamente. Corrijo de novo. Aí ele vem para reposicionar meu rosto e pede para que eu fique assim, sem me mexer (deve ter achado que eu sofria de Parkinson ou coisa parecida). Foi aí que eu tive a grande sacada, o insight:

- Por acaso você nivela (verticaliza) a foto com base na posição das orelhas?
- Isso!
- Então, por favor, tome meus olhos por referência, porque minhas orelhas são desniveladas.
- Rapaz, é mesmo!

Eu tinha acabado de descobrir por que em alguns retratos anteriores eu apareço com a cabeça ligeiramente inclinada. É óbvio que essa descoberta não se aplica indistintamente a todo mundo. Com o Sloth, dos Goonies, por exemplo, não dá para usar os olhos para nivelar o retrato. Fora outros mais...


Para finalizar essas lembranças, só mais um caso: por conta da hiperinflação ocorrida no Brasil, a correção dos salários pegou um ritmo super acelerado. Depois de algum tempo, o espaço próprio da carteira profissional reservado a esse fim já tinha acabado. As páginas destinadas para registro de alguma observação começaram a ser também usadas. Como tinha passado em um concurso, resolvi tirar outra carteira. E lá fui eu ao Foto Zatz. Em lugar de foto colorida, pedi para tirar em preto e branco, por dois motivos: a maior parte da minha galeria está nesse padrão. O outro motivo é que a foto em preto e branco permite retoque para corrigir alguma imperfeição ou defeito durante o processo de revelação, ao contrário da colorida. Quando peguei as seis cópias, verifiquei que o retoque fora feito de forma tão “entusiasmada” que as bolsas das pálpebras inferiores - cada vez mais acentuadas com o passar do tempo - tinham simplesmente desaparecido. Mas lá fui eu providenciar o novo documento. Ao pegar os retratos que lhe entreguei e depois de olhar para mim, a senhora que me atendia comentou:

- Esses aqui não valem, eu preciso de retratos recentes.

Achei graça da recusa e mostrei que tinha acabado de tirá-los. A resposta foi divertidíssima e fulminante:

- Nossa! Retocaram tanto a foto que quase apagaram essa pinta que o senhor tem no rosto!



COLOU!

  Hoje nosso filho mais novo comemora seu aniversário, mas quem ganhou presente fui eu. Porque ele é um dos melhores presentes que ganhei em...