domingo, 14 de dezembro de 2014

RESILIÊNCIA

Segundo a Professora Sandra Maia Farias Vasconcelos, para a Psicologia, resiliência “é a capacidade de um ser humano de sobreviver a um trauma, a resistência do individuo face às adversidades, não somente guiada por uma resistência física, mas pela visão positiva de reconstruir sua vida, a despeito de um entorno negativo, do estresse, das contrições sociais, que influenciam negativamente para seu retorno à vida”.

Embora eu ache bacana essa definição e não tenha nenhuma formação nessa área, creio que falta a ela um complemento que é mostrado a seguir.

Eu ganhei uma revista de bordo da TAP. Uma de suas reportagens fala da escritora Dulce Maria Cardoso, portuguesa nascida em Angola, que, em consequência da guerra civil, mudou-se para Portugal (onde estranhou tudo, inclusive o frio). Essa experiência a inspirou a escrever o livro "O Retorno", cujo protagonista é um jovem também nascido em Angola, etc. Segundo ela, não é um livro autobiográfico, mas "um romance sobre a perda".

Feita essa introdução, transcrevo um comentário da autora, que caiu como uma bomba em minha cabeça, pois externou muito do que eu sentia ou pressentia sobre a barra de enfrentar grandes perdas (de qualquer natureza) e seguir em frente (o grifo é meu). Vamos lá:

"(...) um sobrevivente precisa de uma dose muito grande de determinação, mas também precisa de outra de indiferença. As pessoas falam sempre é da história do vencedor... Mas é preciso ser muito indiferente para não sucumbir e continuar. Eu sou essa pessoa, sou uma sobrevivente".

Pra ser sincero, esse texto da revista da TAP me chamou a atenção por causa de uma senhora que conheço. Ela sofreu imensas perdas ao longo de sua vida e sobreviveu (bem) a todas, talvez por uma sabedoria intuitiva, o que também a fez melhorar com a passagem do tempo. Ela, sim, seguiu bastante bem a sugestão "carpe diem".

As perdas a que me referi são as seguintes:
-     Perda da mãe biológica e dos dois irmãos (menores que ela), aos quatro anos de idade.
-    Descoberta, aos 15 anos, que a senhora a quem ela amava e chamava de mãe era apenas sua madrasta.
-     Perda dos vínculos familiares com a mudança de Niterói para BH
-     Perda do pai
-     Perda da mãe (madrasta)
-     Perda do marido
-     Perda dos três irmãos, mais novos que ela e  nascidos do segundo casamento de seu pai.

Ou seja, embora algumas fossem previsíveis, é muita perda, decepção e sofrimento para uma só pessoa. Eu ficava admirado como ela tinha conseguido sobreviver a tudo isso sem cair na depressão (pelo contrário, sempre demonstrando uma enorme vontade e alegria de viver, coisa a que os filhos nunca conseguiram se equiparar). E eu pressentia que essa capacidade de superação estava intrinsecamente associada à pouca absorção da dor ou, na melhor hipótese, a um rápido processamento dessa mesma dor, como se houvesse uma blindagem contra o sofrimento prolongado. Aí, quando eu li a declaração da escritora, aquilo se encaixou na minha mente como duas peças de lego.

14/08/2014

SUMO SACERDOTE

Eu já acreditava no ditado que diz que "a fé remove montanhas". Depois que o "Templo de Salomão" foi inaugurado em São Paulo, eu passei a acreditar ainda mais.

Mais de seiscentos milhões de reais (!) foram gastos para construir o maior complexo religioso do Brasil! É muita grana. Não tenho dúvida que, a uma hora dessas, o Valdemiro e o R.R. Soares  estão se roendo de inveja, no maior complexo (maior não, porque o maior é o templo do edir).

Voltando à "fé que remove", como já disse, acredito piamente na força e na veracidade desse ditado. Basta imaginar a montanha de dinheiro que o macedinho já removeu para seus cofres. Senão, como bancar um gasto tão fantástico? Aliás, a "arca da aliança" dele deve ter também escrituras de compra e venda de imóveis, de fazendas (não o tecido, pô!), anéis, braceletes, todo tipo de joia.


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

O NATAL SE APROXIMA

Quando eu era criança, não havia ainda essa febre, essa paranoia coletiva de comprar zilhões de presentes. Imagino que essa loucura foi aumentando à medida que o significado cristão desse dia foi sendo obscurecido pelas campanhas publicitárias cada vez mais feéricas e eficientes. Penso que a coisa desandou de vez com o advento dos shopping centers.

Mas, voltando ao tempo em que ainda acreditava no Papai Noel (põe tempo nisso!), eu achava um pouco estranho ver que os poucos presentes que eu e meu irmão ganhávamos eram infinitamente diferentes e mais modestos do que aqueles que nossos primos ricos ganhavam. Essa estranheza, para o bem e para o mal, durou pouco, é claro. Aí, o que sobrou foi a dura realidade. 

Talvez por isso, não sei, acho esse negócio de comprar presentes um porre (ao contrário de minha mulher, que ama presentear todo mundo e faz até estoque para o caso de aparecer alguém não lembrado). Para mim, o Natal continua a ser principalmente uma data ideal para confraternizar com as pessoas que têm importância em nossas vidas. Mas a verdade é que o "espírito do Natal" mexe um pouco com as pessoas, sejam elas cristãs ou não.

Uma coisa é certa: quando chega dezembro, eu sempre penso que minha Amada e nossos filhos são como presentes de Natal, os melhores presentes que ganhei em toda a minha vida. E sempre agradeço a Deus por tê-los recebido (mesmo sem ter feito nada para os merecer). 

Não sei mais o que dizer (e talvez nem precise dizer mais nada), exceto repetir mais uma vez (e mais e mais e mais e mais) que eu amo a todos e a cada um deles profundamente, definitivamente.


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

TRADUZIR-SE – FERREIRA GULLAR

“A arte não existe para maltratar ninguém, ela existe porque a vida não basta”.

O Pasquim tinha vários colaboradores que moravam em outros países. Além dos artigos e crônicas do Paulo Francis, Ivan Lessa, e outros, o poeta Ferreira Gullar (autor da frase acima e destinatário de minha reverência de hoje) também podia ser lido no velho "Pasca". É daquela época meu primeiro e único contato com o reverenciado de hoje, pois nunca me interessei em ler nada de sua obra. Ignorância e falha minha, lógico.

A coisa mudou ligeiramente quando ele foi entrevistado pela revista Veja. Fiquei tão encantado com o que disse que logo me apressei em escanear as páginas da revista para enviar por e-mail aos meus filhos.

Mas, em vez de ficar conversando fiado sobre quem ignoro quase tudo, vou transcrever um poema espetacular que descobri e, também, alguns trechos da tal entrevista (excelente, diga-se) concedida ao jornalista Pedro Dias Leite.


TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


UMA VISÃO CRÍTICA DAS COISAS

Um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos, Ferreira Gullar, 84 anos, foi militante do Partido Comunista Brasileiro e, exilado pela ditadura militar, viveu na União Soviética, no Chile e na Argentina.
Desiludiu-se do socialismo em todas as suas formas e hoje acha o capitalismo “invencível”.
É autor de versos clássicos — “À vida falta uma parte / — seria o lado de fora — / para que se visse passar / ao mesmo tempo que passa / e no final fosse apenas / um tempo de que se acorda / não um sono sem resposta. / À vida falta uma porta”.
Gullar teve dois filhos afligidos pela esquizofrenia. Um deles morreu. O poeta narra o drama familiar e faz a defesa da internação em hospitais psiquiátricos dos doentes em fase aguda. Sobre seu ofício, diz: “Tem de haver espanto, não se faz poesia a frio”.

— O senhor já disse que “se bacharelou em subversão” em Moscou e escreveu um poema em que a moça era “quase tão bonita quanto a revolução cubana”. Como se deu sua desilusão com a utopia comunista?
— Não houve nenhum fato determinado. Nenhuma decepção específica. Foi uma questão de reflexão, de experiência de vida, de as coisas irem acontecendo, não só comigo, mas no contexto internacional. É fato que as coisas mudaram. O socialismo fracassou. Quando o Muro de Berlim caiu, minha visão já era bastante crítica.
A derrocada do socialismo não se deu ao cabo de alguma grande guerra. O fracasso do sistema foi interno. Voltei a Moscou há alguns anos. O túmulo do Lenin está ali na Praça Vermelha, mas pelo resto da cidade só se veem anúncios da Coca-Cola. Não tenho dúvida nenhuma de que o socialismo acabou, só alguns malucos insistem no contrário. Se o socialismo entrou em colapso quando ainda tinha a União Soviética como segunda força econômica e militar do mundo, não vai ser agora que esse sistema vai vencer.

— Por que o capitalismo venceu?
— O capitalismo do século XIX era realmente uma coisa abominável, com um nível de exploração inaceitável. As pessoas com espírito de solidariedade e com sentimento de justiça se revoltaram contra aquilo. O Manifesto Comunista, de Marx, em 1848, e o movimento que se seguiu tiveram um papel importante para mudar a sociedade.
A luta dos trabalhadores, o movimento sindical, a tomada de consciência dos direitos, tudo isso fez melhorar a relação capital-trabalho. O que está errado é achar, como Marx diz, que quem produza riqueza é o trabalhador e o capitalista só o explora. É bobagem. Sem a empresa, não existe riqueza. Um depende do outro. O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas. É um criador, um indivíduo que faz coisas novas.
A visão de que só um lado produz riqueza e o outro só explora é radical, sectária, primária. A partir dessa miopia, tudo o mais deu errado para o campo socialista. Mas é um equívoco concluir que a derrocada do socialismo seja a prova de que o capitalismo é inteiramente bom. O capitalismo é a expressão do egoísmo, da voracidade humana, da ganância. O ser humano é isso, com raras exceções.
O capitalismo é forte porque é instintivo. O socialismo foi um sonho maravilhoso, uma realidade inventada que tinha como objetivo criar uma sociedade melhor. O capitalismo não é uma teoria. Ele nasceu da necessidade real da sociedade e dos instintos do ser humano. Por isso ele é invencível.
A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível. Agora mesmo, enquanto falamos, há milhões de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro. É óbvio que um governo central com seis burocratas dirigindo um país não vai ter a capacidade de ditar rumos a esses milhões de pessoas. Não tem cabimento.

— O senhor se considera um direitista?
— Eu, de direita? Era só o que faltava. A questão é muito clara. Quando ser de esquerda dava cadeia, ninguém era. Agora que dá prêmio, todo mundo é. Pensar isso a meu respeito não é honesto. Porque o que estou dizendo é que o socialismo acabou, estabeleceu ditaduras, não criou democracia em lugar algum e matou gente em quantidade. Isso tudo é verdade. Não estou inventando.

— E Cuba?
— Não posso defender um regime sob o qual eu não gostaria de viver. Não posso admirar um país do qual eu não possa sair na hora que quiser. Não dá para defender um regime em que não se possa publicar um livro sem pedir permissão ao governo. Apesar disso, há uma porção de intelectuais brasileiros que defendem Cuba, mas, obviamente, não querem viver lá de jeito nenhum. É difícil para as pessoas reconhecer que estavam erradas, que passaram a vida toda pregando uma coisa que nunca deu certo.

— Como o senhor define sua visão política?
— Não acho que o capitalismo seja justo. O capitalismo é uma fatalidade, não tem saída. Ele produz desigualdade e exploração. A natureza é injusta. A justiça é uma invenção humana. Um nasce inteligente e o outro burro. Um nasce inteligente, o outro aleijado. Quem quer corrigir essa injustiça somos nós. A capacidade criativa do capitalismo é fundamental para a sociedade se desenvolver, para a solução da desigualdade, porque é só a produção da riqueza que resolve isso. A função do estado é impedir que o capitalismo leve a exploração ao nível que ele quer levar.
 (...)
— O senhor condena quem pegou em armas para lutar contra o regime militar?
— Quem aderiu à luta armada foram pessoas generosas, íntegras, tanto que algumas sacrificaram sua vida. Mas por um equívoco. Você tem de ter uma visão critica das coisas, não pode ficar eternamente se deixando levar por revolta, por ressentimentos. A melhor coisa para o inimigo é o outro perder a cabeça. Lutar contra quem está lúcido é mais difícil do que lutar contra um desvairado.

— Como se justifica sua defesa da internação no tratamento da esquizofrenia?
— As pessoas usam a palavra manicômio para desmoralizar os hospitais psiquiátricos. Internei meu filho em hospitais que têm piscina, salão de jogos, biblioteca. Mesmo os públicos não têm mais a camisa de força ou sala com grades. Tive dois filhos esquizofrênicos. Um morreu, o outro está vivo, mas não tem mais o problema no mesmo grau. Controlou com remédio, e a idade também ajuda. A esquizofrenia surge na adolescência e se junta à impetuosidade. Com o tempo, a pessoa vai amadurecendo. Doença é doença, não é a gente. Se estou gripado, a gripe não sou eu. A esquizofrenia é uma doença, mas eu não sou a esquizofrenia. Posso evoluir, me tornar uma pessoa mais madura, debaixo de toda aquela confusão. O esquizofrênico com 5 anos não é o mesmo de quando tinha 17.

— Qual o pior momento na sua convivência com filhos esquizofrênicos?
— Quando a pessoa entra em surto, ela pode se jogar pela janela. Meu filho, o Paulo, se jogou. Hoje ele anda mancando porque sofreu uma lesão na coluna. Ele conversava comigo, via televisão, brincava, lia meus poemas. Em surto, não tinha controle. Queria estrangular a empregada. Nessas horas, a única maneira é internar e medicar. Nesse estado, sem nenhum socorro, o esquizofrênico pode fazer qualquer coisa.
(...)
Quando ouço alguém dizer que as famílias internam os filhos porque querem se ver livres deles, só posso pensar que essa pessoa gosta dos meus filhos mais do que eu. Nunca viu meu filho, mas ama meu filho mais do que eu. Absurdo. Você não sabe o que é uma família ter um filho esquizofrênico. Além do problema do tratamento, existe o desespero de não saber o que fazer.
 (...)
— Como é seu método para fazer poesia?
— Já fiquei doze anos sem publicar um livro. Meu último saiu há onze anos. Poesia não nasce pela vontade da gente, ela nasce do espanto, alguma coisa da vida que eu vejo e que não sabia. Só escrevo assim. Estou na praia, lembro do meu filho que morreu. Ele via aquele mar, aquela paisagem. Hoje estou vendo por ele. Aí começo um poema… Os mortos veem o mundo pelos olhos dos vivos. Não dá para escrever um poema sobre qualquer coisa.
O mundo aparentemente está explicado, mas não está. Viver em um mundo sem explicação alguma ia deixar todo mundo louco. Mas nenhuma explicação explica tudo, nem poderia. Então de vez em quando o não explicado se revela, e é isso que faz nascer a poesia. Só aquilo que não se sabe pode ser poesia.

10/12/2014

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A INFLAÇÃO DESCONTROLADA É MESMO UM PERIGO

Essa ideia me ocorreu agora e sai como post bônus.

Esse negócio de inflação é mesmo uma coisa seriíssima. Vejam esse exemplo: segundo a Bíblia, Judas Iscariotes vendeu Jesus por trinta moedas de prata, o que, venhamos e convenhamos, é uma merreca. E olha que o vendido era Jesus!

Semana passada, para comprar um deputado furreca qualquer, a Dirma pagou 748.000 reais. Ninguém aguenta uma inflação assim! 

MEDICINA LEGAL

MEDICINA PREVENTIVA
Depois dos quarenta anos, consultar periodicamente um urologista é prova de bom senso. Alguns machões, entretanto, ficam tão apavorados com os procedimentos, que evitam ao máximo essa consulta (alguns se dão mal).
Mas, não tem jeito: quando se decidem a ir ao médico ou a isso são obrigados, já sabe, chegam apavorados, com cara de não-me-toques e saem constrangidos, cheios de dedos.


RADICALZHEIMER
Há algum tempo eu li que os radicais livres são responsáveis pelo envelhecimento e morte das células de nosso organismo.
Hoje, ao acordar, olhando-me no espelho, me vi despenteado, os olhos empapuçados, todo amarrotado. Aí pensei que meu corpo deve estar lotado de radicais livres. Considero isso uma puta sacanagem!
Logo eu, que sempre fui contra qualquer tipo de radicalismo!


GERIATRIA
É engano pensar que os idosos vivem entregues às suas lembranças. Jovens é que sentem nostalgia! A partir dos 50, 60 anos, a pessoa começa a esquecer das coisas – recados, horários, compras, se fechou o zíper, o lugar onde estacionou e por aí vai.
Como pode um sujeito mais velho viver no passado? Ele não se lembra de merda nenhuma!
(Jotabê fez fez curso de geriatria por correspondência em Cuba, mas não passou no Revalida)

09/12/2014



segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

SÓ ESSO DÁ AO SEU CARRO O MÁXIMO

Nos primeiros anos da televisão no Brasil e, mais especificamente em Belo Horizonte, poucas eram as casas que tinham o aparelho. Nessa época surgiu a expressão “tele-vizinho”, para designar as pessoas que iam assistir aos programas de TV nas casas dos vizinhos mais abastados.

Bom, éramos muito pobres, morávamos na casa de minha avó materna (nós e mais oito tios e tias solteiros); minha mãe, para ganhar algum dinheiro, ia à casa da Tia Ci, sua irmã mais velha, para costurar para ela.

Tia Ci era rica, casada com o Tio Tristano, nascido na Itália e filho de Dona Clara, uma italiana com cara de brava, que era dona de um hotel fuleiro (hotel mesmo) no centro da cidade. A casa onde moravam ficava no bairro Santo Antônio, de frente para o Minas Tênis e tinha dois andares. No primeiro, morava minha tia com o marido e os dois filhos. No segundo, moravam sua sogra e a filha solteirona, Derna.

Sempre que minha mãe ia para lá, eu ia também. Como ela ficava até à noite, eu acabava assistindo o Repórter Esso, equivalente ao Jornal Nacional. O que um menino podia ver de interessante em um telejornal, que era basicamente apenas narrado e, até onde eu me lembro, sem imagens? Só mesmo a propaganda da Esso, feita com desenhos animados.
O desenho mais frequente tinha uma musiquinha imbatível, que colava como chiclete em passeio público. A letra era assim:

“Só Esso dá ao seu carro o máximo, só Esso dá ao seu carro o máximo, só Esso dá ao seu carro o máximo, veja o que Esso faz. Só Esso Extra”.

No Youtube é possível encontrar alguns deles.  Mas lembro-me especialmente de um, que mostrava uma orquestra com seu maestro e tudo mais. A música (descobri no Google) era uma paródia de um trecho do prelúdio da ópera Carmen, de Bizet. Pois bem, aparecia um tenor cantando:

“Só Esso dá, ao seu carro o máximo, só Esso dá, ao seu carro o máximo/ Só, Esso dá ao seu carro o máximo, veja o que Esso faaaz!”.

Aí, o maestro batia a batuta no suporte das partituras e dizia: “Non, no é esta música!” Um dos músicos tocava então o tema original numa flautinha e o maestro: “É isso!!!” E o tema com a letra original era cantado. Eu adorava essa propaganda e tenho as músicas na memória até hoje. Mas minha ligação com a publicidade e propaganda começou bem antes.

Penso que a minha primeira lembrança ligada à publicidade e propaganda está relacionada ao Carnaval. Nessa época, minha mãe levava a mim e ao meu irmão para a Afonso Pena, para que víssemos aquela muvuca: muitas pessoas fantasiadas (acreditem!) andando para lá e para cá, lança-perfumes (Rodouro) vendidos nas inúmeras barracas espalhadas pela avenida e ruas transversais, etc.

Havia também um sistema de som espalhado pela avenida, que tocava o tempo inteiro músicas de carnaval e... jingles. Lembro-me de um que tocava a toda hora, até a saturação. A letra, “riquíssima”, era assim (ou quase isso):

“Vai tudo bem, tudo bem, muito bem, muito bem, muito bem, tudo bem, bem, bem, com Pílulas de Lussen/ Pílulas de Lussen, Pílulas de Lussen”.
(Imagino que a música devia terminar com o clássico Pam, parararã, pam, pam!)

Lembro-me também de outro jingle, das lâminas de barbear Gilette, que estava ligado a futebol. Realmente, não sei dizer se foi feito especificamente para alguma copa do mundo (1958 ou 1962) ou se era utilizado aos domingos. Creio que a letra era assim (lembro-me também da música):

“Vitória / com Gilette Azul / Sucesso/ Com Gilette Monotech / Alegria! / Faça a barba todo dia com Gilette Azul!”

A bem da verdade, o pessoal ligado à publicidade sempre criou jingles extremamente viscosos, grudentos, que ficaram em minha memória até hoje:
O “cha-cha-chá” das Casas da Banha, com um desenho animado ótimo, onde dois porquinhos dançavam um “cha-cha-chá” com letra das Casas da Banha (“... é lá que eu quero comprar”). Outro jingle memorável era dos Cobertores Paraíba (“já é hora de dormir...”).

E por aí vai. Dá pra perceber que, desde sempre, eu fui tocado pela música, não é mesmo? Há jingles memoráveis, feitos por artistas do primeiro time da MPB, como Gilberto Gil (“índigo blue índigo blusão – Santista”) e Zé Rodrix (no Youtube tem).

Mudando de pau para cavaco, eu sempre curti muito as campanhas publicitárias, algumas absolutamente geniais. No canal Multishow existia um programa onde eram passados filmes publicitários premiados. Só filmes sensacionais, alguns hilariantes, outros puxando pela emoção, mas sempre fantásticos.

Porque, embora não seja publicitário, morro de inveja (saudável) de quem é. Como, por exemplo, do dono do blog "Mixidão", que é um publicitário de mão cheia e mega criativo. Quando fiz vestibular, nem sabia se havia curso de Comunicação e Publicidade. Minha ignorância restringia as possibilidades a quatro ou cinco cursos – engenharia, medicina, etc. Mas eu sempre fui atraído pela criatividade inerente à publicidade. Ou melhor, sempre me deixei fascinar pela criatividade em qualquer área, porque criatividade para mim é sinônimo de inteligência e mente livre, aberta (já deu pra sentir que eu não me daria bem nessa profissão, concordam?).

Aliás (voltando ao passado), uma vez, quando tinha de 12 a 14 anos, uma professora pediu que fizéssemos um cartaz publicitário. Eu gostava de desenhar, mas era uma lástima nessa área, ainda que meu pai dissesse que eu desenhava muito bem (como disse o Millor, “em terra de olho quem tem um cego... errei!”). 

Pois bem, peguei uma cartolina, desenhei uma lâmina de barbear com braços e pernas, com um aparelho de barbear em uma das mãos e um sorriso no “rosto”. Do texto não me lembro mais, mas a marca da lâmina de barbear era “Tirapel”. Dá pra imaginar um trocadilho mais indecente? O pior de tudo é que pintei (mal) toda a cartolina com guache azul. Não lembro que nota tirei, mas sei o resultado final do trabalho: uma super bosta!

Mas voltemos ao presente. Sendo engenheiro por formação, eu penso que a nata da Engenharia é ocupada pelos calculistas (normalmente os alunos mais brilhantes na época da escola). Na Medicina a elite seria formada pelos neurocirurgiões, aqueles que buscam o máximo de resultado no menor espaço possível.
Na literatura, para mim, os campeões são os poetas, que obtêm o máximo de sensibilidade e emoção com a máxima concisão (basta lembrar os craques em soneto, a forma mais engessada de poesia).

Pois bem, os publicitários seriam uma mistura de neurocirurgiões com poetas, pois têm que ser concisos, precisos e capazes de encantar e seduzir.

Alguém aí ficou envaidecido? Menos, menos... Esse é o lado bom, mas há também outro lado, que encontra uma espécie de eco na Idade Média: a Publicidade pode ser vista como uma espécie de pedra filosofal, que tenta transformar em ouro qualquer porcaria em que toca.

Outra analogia também pode ser feita, ao se comparar o publicitário com o vendedor de carros usados: você nunca saberá se ele está falando a verdade ou apenas tentando te empurrar um abacaxi.

Mas a coisa mais legal que acredito existir na Publicidade é que seus profissionais têm (ou deveriam ter) liberdade para pensar qualquer besteira, antes de chegar à melhor solução. Ou seja, o velho e bom “brain storming” (ou “tormenta de parpite”, como li recentemente).

O Millor Fernandes disse uma vez que “livre pensar é só pensar”. Eu acredito que se alguém se reprime para só pensar, dizer, fazer ou criar coisas inteligentes, provavelmente nunca será muito feliz, pois criar pressupõe liberdade de pensar de uma forma que ninguém ainda tinha pensado. E sacadas geniais são como pepitas de ouro, não aparecem a toda hora, você tem que mover montanhas de terra para encontrar alguma, como em Serra Pelada.

Acho que é por isso tudo que a Publicidade continua me divertindo e surpreendendo.

08/12/2014

TODAS AS CARTAS DE AMOR SÃO RIDÍCULAS - ÁLVARO DE CAMPOS

  Tenho publicado alguns (ou vários) poemas, onde celebro o amor que estou sentindo por uma menina que me revirou pelo avesso e explodiu min...