quarta-feira, 9 de julho de 2014
PROFUNDAMENTE - MANOEL BANDEIRA
Embora goste muito de poesia, devo confessar
minha imensa ignorância sobre o assunto. Por exemplo, quase nada sei (mas é
nada mesmo) sobre Manoel Bandeira. Apesar disso, a reverência hoje é para ele. E
poema escolhido é “Profundamente”.
Foi só quando comecei a ler “Baú de Ossos”, de Pedro Nava, é que tomei conhecimento dessa poesia, que serve como preâmbulo, como mote para esse incrível livro. Como o assunto “memória” mexe muito comigo, bastou ler para virar fã eterno dos dois escritores. E se o Manoel Bandeira tivesse escrito apenas esse poema, já teria direito de entrar em qualquer antologia que se fizesse. Olha só que beleza:
Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas
luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras
acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem
risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras
acesas?
— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.
Quando eu tinha seis
anos
Não pude ver o fim da
festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.09/07/2014
segunda-feira, 7 de julho de 2014
AFINAL, QUEM FOI BLOGSON CRUSOE?
Quem
foi Blogson Crusoe? Essa é fácil de responder: não foi. Por
enquanto, pelo menos, é um blog que eu criei para abrigar as coisas que escrevo
ou escrevi.
Bom, essa lenga lenga é por ter me espantado
ao descobrir que muitas pessoas jamais ouviram falar do personagem que inspirou
o nome deste blog. Porque Blogson Crusoe é um trocadilho com o nome Robinson
Crusoe (ou Crusoé, em português).
Não, não estou menosprezando ninguém nem me
vangloriando de ter lido muito. Como cantam os Titãs, devia mesmo era “ter feito o que eu queria fazer”, pois o
que eu queria quando criança era poder brincar na rua, ser igual à molecada das
redondezas.
Até os onze anos de idade, eu vivi em prisão
domiciliar, mais ou menos como o José Genoíno quando tentou dar o golpe do
coração doente. No meu caso, era uma prisão amorosa (mas, sempre prisão). Como
moravam 14 pessoas na casa de minha avó e só duas dessas eram crianças, eu era
mais vigiado e monitorado que beijo gay na novela das oito e tinha menos
liberdade que os mensaleiros que estavam presos na Papuda. Então, para sobreviver a isso,
eu lia.
Como é? Você brincava de queimada, pegador,
bentialtas, jogava bola na rua? O que posso dizer é que você está na minha
faixa etária – e que eu já invejei muitas crianças como você. E, por isso, eu
lia.
Ah, você também era preso, mas via televisão?
Via o “Xou da Xuxa”? Lamento pelo Xou, mas você, além de muito mais novo que
eu, pelo menos tinha televisão. Na casa de minha avó não havia televisão; se
tivesse, de nada adiantaria, porque até meus onze anos, não havia programação
dirigida às crianças. Cara, como eu lia!...
Eu lia tudo o que passasse na reta: quase
todos os fantásticos livros infantis do Monteiro Lobato, revistas em
quadrinhos, livros diversos comprados por meus tios e tias, livros de fábulas,
de história antiga, histórias em quadrinhos publicadas diariamente n’O Globo, livros
das coleções compradas por uma das minhas tias, clássicos da literatura
mundial, Almanaque do Biotônico Fontoura, o escambau. Até peça de teatro (Romeu e Julieta) eu li.
Então, quando eu percebo em certas pessoas alguma
perplexidade ou desconhecimento sobre alguma coisa, personagem ou livro que
menciono, fico meio surpreso, pois para mim o assunto é corriqueiro e conhecido
há muito tempo.
Mas ninguém precisa sentir "peninha" da criança presa que eu fui. A partir dos onze anos, eu comecei a sair de casa sozinho (mas o "mal" já estava feito, pois continuei a gostar de ler), pronto para sofrer bullying dos meninos mais escolados e vividos.
Hoje, quando piso na bola ou falo qualquer bobagem maior que as usuais, às vezes ouço um de meus filhos falar –"menino criado em casa de vó, já viu, né?". Mas não quero nem saber o que significa esse "já viu, né?". Bullying de filho eu não aceito!
Mas ninguém precisa sentir "peninha" da criança presa que eu fui. A partir dos onze anos, eu comecei a sair de casa sozinho (mas o "mal" já estava feito, pois continuei a gostar de ler), pronto para sofrer bullying dos meninos mais escolados e vividos.
Hoje, quando piso na bola ou falo qualquer bobagem maior que as usuais, às vezes ouço um de meus filhos falar –"menino criado em casa de vó, já viu, né?". Mas não quero nem saber o que significa esse "já viu, né?". Bullying de filho eu não aceito!
Mas, afinal, quem é Robinson Crusoé? A
seguir, a transcrição de um resumo encontrado na internet (com informações que
eu desconhecia):
“A Vida e as Estranhas
Aventuras de Robinson Crusoé” é um romance célebre de Daniel Defoe (1660-1731),
publicado em 1719.
Defoe inspirou-se na
história verídica de um marinheiro escocês, Alexander Selkirk, abandonado, a
seu pedido, numa ilha do arquipélago Juan Fernández, onde viveu só de 1704 a
1709.
Robinson Crusoe herda
desta história o mito da solidão, na medida em que, depois de um naufrágio de
que é o único sobrevivente, vive sozinho durante vinte e oito anos, antes de
encontrar a personagem Sexta-Feira.
O impacto internacional de Robinson Crusoe foi fortíssimo. Pouco tempo depois da sua publicação, surgiram numerosas imitações, denominadas geralmente robinsonnades, que compreendiam peças de teatro, melodramas, vaudevilles, operetas, romances, etc. Ao mesmo tempo, a obra afirmava-se como um dos elementos fundadores da tradição do romance moderno (de feição realista e centrado no indivíduo), enquanto a figura do protagonista alcançava a estatura de um mito ou símbolo da condição humana. No nosso tempo, a história de Crusoe foi objeto de várias adaptações cinematográficas.
Agora, você já sabe: além de ser o personagem
central de um clássico da literatura mundial, Robinson Crusoe é também a
inspiração para o nome deste blog e para seu mote (“O blog da solidão ampliada”).
ADENDO:
Eu usei uma palavra ("escolado") que parece estar em desuso. Hoje, usa-se "descolado". Embora as origens e significado das duas palavras sejam distintas, não deixa de ser divertido pensar no seguinte jogo de palavras:
Antigamente, "escolado" era um sujeito safo (alguém ainda usa esta gíria?), sabido, que tinha experiência em alguma coisa, tinha "escola", portanto.
Hoje, "descolado" é o cara esperto, sociável, moderno, que sabe das coisas (mesmo que ninguém saiba precisar o que significam essas "coisas"). Então, embora "descolado" seja o oposto de "colado", amarrado, preso, para mim acaba também associado à ideia de "sem escola", ou melhor, sem regras rígidas.
Antes, admirado era o escolado, quem tinha "escola". Hoje, o rei da cocada é o descolado. Vale a pena pensar nisso ou é só mais uma maluquice minha?
ADENDO:
Eu usei uma palavra ("escolado") que parece estar em desuso. Hoje, usa-se "descolado". Embora as origens e significado das duas palavras sejam distintas, não deixa de ser divertido pensar no seguinte jogo de palavras:
Antigamente, "escolado" era um sujeito safo (alguém ainda usa esta gíria?), sabido, que tinha experiência em alguma coisa, tinha "escola", portanto.
Hoje, "descolado" é o cara esperto, sociável, moderno, que sabe das coisas (mesmo que ninguém saiba precisar o que significam essas "coisas"). Então, embora "descolado" seja o oposto de "colado", amarrado, preso, para mim acaba também associado à ideia de "sem escola", ou melhor, sem regras rígidas.
Antes, admirado era o escolado, quem tinha "escola". Hoje, o rei da cocada é o descolado. Vale a pena pensar nisso ou é só mais uma maluquice minha?
sexta-feira, 4 de julho de 2014
VOCÊ É UM TASMANÍACO?
Já faz algum tempo que eu gosto de comparar o
comportamento dos animais selvagens com o dos seres humanos, pois sempre
encontro alguma semelhança e um motivo a mais para refletir. O último a chamar
minha atenção é o diabo da tasmânia,
depois ler uma reportagem sobre ele em um número antigo da Veja.
Segundo a revista, esse animalzinho corre o
risco de se extinguir nos próximos trinta anos, e o motivo disso é uma espécie
de câncer transmitido através de mordidas ou contato físico com um animal
infectado. E isso é facilitado por conta de uma característica muito especial:
esse animal é extremamente agressivo e vive às turras com outros de sua
espécie. Aliás, essa agressividade serviu de inspiração para o personagem “Taz”, surgido em desenhos mais antigos
do Pernalonga.
Pois bem, bastou eu ler a reportagem para
fazer associação de seu comportamento belicoso e agressivo com comportamentos
semelhantes que observei muitas vezes ao longo da vida. Tudo isso porque
tenho constatado que em muitas famílias, em muitos relacionamentos, existe uma
inexplicável agressividade entre pessoas que se amam. Fico perplexo (e triste)
de ver como essa agressividade pode contaminar o dia-a-dia de uma família, de
um casal, de um grupo de amigos.
Não é preciso agressão física para machucar
ou magoar alguém. As “mordidas” são apenas palavras – ásperas, contundentes ou
depreciativas. Podem ser recriminações, às vezes ditas em tom elevado de voz,
ou podem ser palavras que diminuem, menosprezam ou desqualificam a quem estão
sendo dirigidas. E a pergunta que surge é: POR QUÊ?
Se você convive diária ou frequentemente com
outras pessoas, por que ceder ao impulso de sempre se exaltar, xingar ou – pior
– menosprezar e desqualificar a quem você ama? E uma das piores agressões é
ridicularizar características físicas. Chamar alguém de barrigudo, narigudo e
coisas do gênero pode machucar quem as escuta. E isso não é piada, é puro bullying. Se a pessoa tem baixa
autoestima, aí é ainda pior. Agressões verbais constantes, ironias e desprezo
ou zombaria dirigidas às pessoas que amamos, de quem gostamos, são um tiro no nosso
próprio pé.
Recentemente descobri uma palavra que poderia
explicar pelo menos em parte esse comportamento agressivo. E o nome é DISTIMIA.
Segundo o site do Dr. Dráuzio Varela,
“Distimia é um tipo de depressão
crônica, de moderada intensidade. Diferentemente da depressão que se instala de
repente, a distimia não tem essa marca brusca de ruptura. O mau humor é
constante. Os portadores do transtorno são pessoas de difícil relacionamento,
com baixa autoestima e elevado senso de autocrítica. Estão sempre irritados,
reclamando de tudo e só enxergam o lado negativo das coisas. Na maior parte das
vezes, tudo fica por conta de sua personalidade e temperamento complicado.”
Como não sou psicólogo nem antropólogo, devo
evitar a seara alheia. Mas fica a perplexidade de ver como uma família, como um
casal pode, aos poucos, perder a amizade, a cumplicidade e a alegria de estar
juntos, por causa de um comportamento que tem na base uma agressividade sem
propósito, quase uma mania, por ser viciosa e recorrente.
É isso, aí está o link com o diabo da tasmânia: essa agressividade
contra as pessoas que amamos pode acabar extinguindo o amor e o respeito
mútuos. E sua repetição viciada pode tornar-se uma mania, ou melhor, uma “tasmania”.
Por isso, se eu pudesse, eu perguntaria (com
um pouco de ironia e um pouco de preocupação) a alguém que venha a ler este
texto:
VOCÊ É
UM TASMANÍACO?
Se a resposta for “sim” ou “talvez”, para o
próprio bem de quem assim respondeu, eu iria sugerir que mudasse, que buscasse
ajuda especializada, que fizesse qualquer coisa, menos permanecer como está,
porque o tempo faz acumular a decepção, o rancor e a desesperança, tal como os
sedimentos trazidos pelas chuvas e que se depositam no fundo de uma lagoa. E
esses sedimentos se acumulam, ficam mais espessos, até ficar impossíveis de
remover. Ou, se quiserem, imaginem-se tentando colar um vidro quebrado: pode
até colar, mas a superfície nunca mais terá o brilho e a uniformidade de antes.
Este texto era para
ser mais leve e bem humorado, mas acabou ficando meio azedo. Paciência. Até
porque minha preocupação é real, apesar do trocadilhinho. Por isso, eu pergunto
novamente a um improvável leitor: você é
um tasmaníaco? Se for, cuide-se, mas, principalmente, cuide daqueles a quem
ama.
04/07/2014
quinta-feira, 3 de julho de 2014
BALANÇA DE DOIS PRATOS
Ultimamente minha atenção voltou-se para uma
coisa que tem enchido o meu saco. Não é prevenção ou rabugice de velho, juro
(tá bom, pode ser sim). A questão é que isso que me incomoda está parecendo uma
balança de dois pratos, só que está faltando um deles. Não, não é uma queixa
endereçada ao INMETRO. Meu lance é outro.
Alguém tem noção de quantas ONGs (incluídas as filiais e representações em estados diferentes) ligadas aos direitos humanos existem no Brasil? No site http://dhnet.org.br/abc/org/ tem uma relação estado por estado. Tentei contar e creio que existem em torno de 400!!! (aposentado é foda – para passar o tempo vive inventando merda. Perdão, eu quis dizer moda).
Em Minas, têm 24. Em São Paulo, 80; e por aí vai. Rola de tudo: comissões de OABs regionais, muitas unidades ligadas à Igreja Católica, movimentos negros, comunidade gay, etc. Se não me engano, há 18 enfoques diferentes.
Alguns nomes são super sonoros ou bem bolados. Em São Paulo, por exemplo, existe o “Fala Preta!” e também o “Fala Negão da Zona Leste” (isso sim é que é especialização). Defensor dos direitos da comunidade gay do Maranhão, existe o “Grupo Gayvota”. Esse nome é super legal, mas me causou uma dúvida em relação à pronúncia: fala-se “gáyvota” ou “gueivota”? Se for correta a segunda opção, fica parecendo uma declaração afirmativa: “Gay vota!” (acho que perdi o foco).
Ou seja, é tanta ONG para defender os direitos humanos que se os X-Men vivessem aqui, imagino que alguém já quereria criar uma unidade para defender os direitos sobre-humanos!
Pois bem, falando sério, a questão, o motivo
de minha irritação é esse: porque não tem nem uma ONG, umazinha que seja para
defender os Deveres Humanos? Para
ficar só em um exemplo, tem sempre algum idiota falando em “direitos humanos” e
defendendo a manutenção da maioridade penal tal como está, enquanto menores
assassinos continuam barbarizando a sociedade.
Não sou contra os direitos humanos, pelo
contrário. Direito é bom, é desejável, é necessário (estão aí os advogados dos
mensaleiros, do goleiro Bruno e de outros inocentes e injustiçados, que não me
deixam mentir – sozinho). O problema é a esculhambação generalizada. Falta o
prato do Dever naquela balança citada antes. Além do mais, em qualquer
dicionário de língua portuguesa “Dever”
sempre vem antes de “Direito”. É
isso.
quarta-feira, 2 de julho de 2014
MAIS PALAVREADO – LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
Quando li o conto a seguir, eu tive a sensação que o autor – que eu não conhecia – usava droga, tão delirante é o texto. Depois de descobrir que o Luis Fernando Veríssimo é
gaúcho, eu tive certeza. Porque chimarrão é uma coisa horrível, uma verdadeira droga.
Brincadeiras à parte, esse texto me transformou em fã total do
Veríssimo. Não conheço outro autor que faça textos de humor com tanto nonsense
como meu homenageado da semana. A palavra para ele é “Gênio”. Olhaí:
Contam que
Pantufo, Rei da Cizânia, Imperador das Angulares (a Pequena e a Grande), do
Alto e Baixo Fender e de todas as Rixas, tinha uma coleção de aves que piavam.
Era a maior coleção de aves que piavam do mundo conhecido. E provavelmente do
desconhecido também, se bem que deste se sabia pouco. Um dia chegaram a Nova
Velha, capital da Cizânia (a Velha Velha fora destruída por um paroxismo), dois
viajantes, Metatarso de Castro e Palpos de Aranha. Os dois se dirigiram ao
palácio real e pediram uma audiência com o rei.
- De que se trata?
– quis saber o custódio real.
- Sabemos que Sua
Excrescência tem a maior coleção de aves que piam do mundo – disse Metatarso.
- É verdade –
disse o custódio, olhando os forasteiros de balaio. – Todas as aves que piam do
mundo estão na coleção do nosso rei.
- Todas não –
plicou Palpos.
- Como não? –
Replicou o custódio.
- Sabemos de aves
raras que piam como nenhuma outra que não estão na coleção de Sua Indecência.
- E onde estão
essas aves? – Triplicou o custódio.
- Só diremos para
Sua Demência em pessoa.
Os dois foram
levados à presença de Pantufo, que reclinava sobre um almoxarife, abanado por
dezessete lupanares enquanto uma lêndea seminua coçava o seu estrôncio. A sala
do trono era toda decorada de alvíssaras e rocamboles silvestres.
- Sim? – disse o
Rei da Cizânia, mastigando uma véspera e cuspindo os cedilhas na mão de um
limiar.
- Trazemos
notícias de aves que piam como nenhuma outra – disse Metatarso, fazendo um
salaminho.
- Aves de que
Vossa Mumificiência jamais ouviu falar – completou Palpos, com um arrabal até o
chão.
- Impossível –
disse o rei, com suco de véspera correndo pela pauta e o jargão real. – Eu
tenho todas as aves que piam do mundo.
- Vossa Ardência
conhece a xerox emplumada?
- Xerox emplumada?
- É uma ave que
nós descobrimos.
- E ela pia? –
trucou o rei.
- Copia – retrucou
Metatarso.
- Como é que eu
não conheço essa ave? – disse o rei, olhando com sódio para Teflon, o caçador
real. – Onde vocês a encontraram?
- Num lugar que só
nós conhecemos, Vossa Carência. Na margem oposta de
um dos sete mares
do vosso reino.
- Qual dos mares?
O Mita, o More, o Racas, o Selhesa, o Fim ou o Condes Ferraz?
- Um desses – disse Palpos.
- Um desses – disse Palpos.
- Mmmm. Já vi tudo
– disse Pantufo, coçando as bigornas. – Vocês querem alguma coisa em troca da
informação. O quê? Digam que será seu.
- Bem, Vossa
Displicência – disse Palpos -, somos viajantes solitários. Muita falta nos faz
a companhia feminina, principalmente em noites de torresmo e barracas…
- Ah, quereis
catimbas – disse o rei. – Pois escolham as que quiserem do meu catimbeiro.
- Preferimos
escolher entre as suas filhas, Vossa Insuficiência.
O rei esbravejou
chamando os viajantes de tudo, desde arrebóis até filhos de uma turbina, mas
acabou concordando. Mandou chamar as filhas para que os viajantes escolhessem.
Metatarso ficou com Ampola e Palpos com Lentilha, as mais encarnadas de todas.
- Agora digam onde
estão essas aves que piam como nenhuma outra.
- Bem – disse
Metatarso -, vossas filhas tem hábitos caros, Vossa Decadência.
Como conseguiremos
mantê-las felizes, comprar picuinhas, aleivosias…
- Está bem – interrompeu o rei. – Vocês terão uma renda vitalícia de um milhão de dolos por mês. Terei de aumentar os impostos, mas o povo compreenderá.
- Está bem – interrompeu o rei. – Vocês terão uma renda vitalícia de um milhão de dolos por mês. Terei de aumentar os impostos, mas o povo compreenderá.
Agora, vamos às
aves!
No dia seguinte,
partiu a armada real, dez bulhufas escanhoadas e uma bulhufa-apitânia, entre
gritos dos seus comanches:
- Arrebitar o
vetusto!
- Suspender o
bilboquê de açafrão e o lume da alcatra!
- Pinicar a
espátula e dobrar o macambúzio!
Durante a viagem,
Pantufo não parava de pedir mais informações sobre as aves que encontrariam.
- Há a “voiyeur de
nuit” – disse Metatarso.
- E ela pia? –
torquiu o rei.
- Espia –
retorquiu Metatarso.
- Há a piorra azul
– disse Palpos.
- E ela pia?
- Rodopia.
- E a clínica do
banhado.
- Ela pia?
- Terapia.
- Não podemos
esquecer o marrecão larápio.
- Ele pia?
- Surrupia.
- E as cócegas
selvagens…
- Elas piam?
- Arrepiam.
A armada real
levou dois anos para atravessar seis mares, com Metatarso e Palpos seu milhão
de dolos por mês e entregando-se, todas as noites, a longas lengas e
intermináveis charnecas com Ampola e Lentilha. Finalmente chegaram à margem
oposta do Mar Condes Ferraz e desceram à terra. Mas não encontraram aves que
piavam como nenhuma outra.
- Onde estão as
aves? – Quis saber Pantufo.
- Já sei o que
houve, Vossa Dissidência – disse Palpos. – Esta não é a margem oposta.
- Claro – disse
Metatarso. – A margem oposta fica do outro lado.
E lá se foi, de
novo, a armada real.
- Arrematar as
polpas de antanho!
- Acinturar a
sirigaita maior!
Contam que a
armada real está navegando até hoje, pois a margem oposta sempre muda,
misteriosamente, de lado. Apesar dos gritos do Rei Pantufo:
- Bando de conúbios!
- Bando de conúbios!
- Caramanchões de
uma pipa!
- Arras
cuneiformes!
E a todas estas o povo pagando impostos.
E a todas estas o povo pagando impostos.
02/07/2014
terça-feira, 1 de julho de 2014
ONONO
Alguém não identificado colocou alguns comentários
no blog. Não identificado e também ininteligível, porque incompleto. Mas, tudo bem. O que atiçou minha curiosidade foi a palavra “unknown”, utilizada pelo Google para
assinalar isso. Aí fiquei pensando em um termo parecido para tratar
amistosamente os desconhecidos leitores do blog, porque “unknown” é muito impessoal!
Primeiro, pensei em “Anão” (Entendeu a jogada? Unknown – Anão... Dãã!). Mas, para evitar
criticas dos pateticamente corretos, achei melhor não usar esse substantivo,
antigamente utilizado para designar alguém “prejudicado
verticalmente” (isso sim é que é expressão ridícula).
Aí me lembrei daquelas cédulas que na época de eleições os políticos utilizam para sujar as ruas. Quando há mais de um cargo em disputa, vem claramente indicado o nome do candidato que pagou a impressão. Os demais aparecem apenas como Nono, Ononom, Onon Onono, etc.
Então, os OVNI, os ilustres desconhecidos, seriam
identificados neste blog como “Onon”.
A ideia até que era bem boa, mas, para alguns maliciosos (que sempre os há), esse designativo lembraria Onan.
Embora esse último seja o nome de um personagem bíblico, logo percebi que não
pegaria (epa!) bem. Afinal, este é um blog que se dá ao respeito, não é um blog
destinado a discutir ou incentivar a prática sexual a um, a dois ou suruba!
Deixando bem explícito, este é um blog que busca
a elevação do espírito através da discussão franca de ideias. Espírito de porco
e ideias de jerico.
Por isso, escolhi “Nono", ou melhor, Nonô (se for brasileiro).
Se, porventura, existir algum leitor estrangeiro, depois de entender e maldizer as piadas ruins, ele poderá ficar tentado a dizer – “Oh, no, no”!!!
E será assim identificado: Onono.
Assinar:
Postagens (Atom)
ANDRÉ MAUROIS - FRASES
Depois de ler uma bela frase atribuída a André Maurois, quis saber um pouco mais sobre ele e se teria escrito outros aforismos, com a inte...
-
No meio da pandemia, assistindo televisão com minha mulher, ouvi um ator inglês dizer as palavras mágicas “Soneto 116 de Shakespeare”. Creio...
-
A reverência hoje é para Millôr Fernandes, que faz parte da Santíssima Trindade do Humor no Brasil. Os outros dois podem ser qualque...
-
Se eu conversasse com Deus Iria lhe perguntar: Por que é que sofremos tanto Quando viemos pra cá? Que dívida é essa Que a gente tem que mo...
