sábado, 21 de março de 2026

TIVE SIM - LUIZ MELODIA

Luiz Melodia foi um compositor que me cativou logo de início, quando ouvi a Gal Costa cantar “Pérola Negra” (“tente passar pelo que estou passando”), de sua autoria. Depois vieram “Juventude Transviada”, "Estácio, Holly Estácio" (“se alguém quer matar-me de amor que me mate no Estácio”) e outras que fogem do tema deste post, porque ele era um cantor fabuloso, com uma voz anasalada que punha no chinelo gente como o Cazuza ou Diogo Nogueira.
Infelizmente, faleceu vítima de câncer (doença filha da puta!) em 2017. Mas deixou uma interpretação ao vivo da música “Tive Sim” que é espetacular (desculpe, Diogo Nogueira, você pode ter pegado a deliciosa Paola Oliveira, mas como intérprete não chega aos pés nem de seu pai João Nogueira nem do Luiz Melodia). Para provar isso (embora não seja essa a intenção) vejam e escutem esta maravilha composta pelo genial Cartola. A propósito, o vídeo erra o autor, ao atribuir a música ao Zeca Pagodinho (faltou cultura inútil a quem deu esse vacilo!). Segura aí. 



sexta-feira, 20 de março de 2026

TÔ ERRADO?

 
Se eu soubesse que vc iria me tratar dessa forma após casar eu que não queria casar
Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa
Com amor, carinho, atenção e autoridade de Macho alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa
Como toda mulher casada deve ser.
 
Gostou deste diálogo? Quer saber as regras que uma “fêmea beta obediente e submissa precisa seguir?
 
- Não cumprimentar homens com beijo no rosto e abraços
- Lugar de mulher é em casa cuidando do marido e não na rua caçando assunto
- Rua é lugar de mulher solteira a procura de macho.
 
Eu adoro a vulgaridade do uso das palavras “macho” e “fêmea” para animalizar o contato humano. Mas se ainda não ficou satisfeito, aqui vão ponderações cheias de sensatez e equilíbrio:
 
Enquanto vc estiver casada comigo e vivendo na minha casa, na minha comanda, as coisas serão do meu jeito... Mulher casada comprometida e que o marido é o único provedor do lar tem regras a cumprir
- Se você quer ter liberdade, não fique casada
- são as minhas regras e do meu jeito.
 
Só para esclarecer: essas doces palavras foram obtidas a partir da quebra de sigilo do celular de um coronel da Polícia Militar de São Paulo, preso e acusado de ter assassinado a esposa com um tiro na cabeça depois de imobilizá-la com uma gravata.
 
Esse gentilhomem matou sua linda esposa por não aceitar que ela usasse roupas justas e cumprimentasse outros homens com beijinho no rosto, coisas assim, e deixou clara sua visão:
 
Eu contribuo com o dinheiro, sou o provedor. Você contribui com carinho, atenção, amor e sexo.
 
Quando a coitadinha disse que o bonitão da bala chita havia deixado de ser príncipe, cavalheiro, romântico, a besta-fera respondeu ser mais que príncipe:
 
“Sou Rei, Religioso, Honesto, Trabalhador, Inteligente, Saudável, Bonito, Gostoso, Carinhoso, Romântico, Provedor, Soberano”
 
Logo depois, em uma troca de mensagens, ela disse estar “praticamente solteira”, recebendo esta resposta:
 
- Jamais! Nunca será!
 
Acho que chega, né? Outro dia ouvi uma reflexão interessante: essa explosão de feminicídios que tem acontecido no país pode ter relação com a sensação de perda de poder que alguns homens sentem diante das mudanças sociais. Eu diria que esses homens padecem da "síndrome do pinto pequeno".

Hoje é inegável - e positivo - o fato das mulheres estarem ocupando espaços antes reservados quase exclusivamente aos bigodudos: policiais, delegadas, juízas, promotoras, CEOs, ministras e até presidente da República. E talvez seja justamente isso que alguns não conseguem aceitar: perder o controle que acreditavam ter sobre a vida de outra pessoa ou sentir-se inferiorizados pela competência feminina.
 
No caso de mulher presidente, faço este parêntese (não se deve perder a oportunidade de rever a matéria estudada para o vestibular há 57 aninhos): substantivos terminados em “e” não variam normalmente com o gênero. Por isso, dizer “presidenta” é feio pra burro. Pode? Pode, mas deveria evitar. Como ensinou o apóstolo Paulo, “tudo posso, mas nem tudo me convém”. Fica a dica.
 
Continuemos. Voltando à prática absurda do feminicídio, o que esse caso mostra com clareza é algo anterior ao crime: a mentalidade de posse, a ideia de que a mulher não é parceira, mas propriedade. E é justamente aí que começa o problema.
 
Eu defendo uma solução simples, mesmo que impossível hoje no país: pena de morte para o filho da puta. Olho por olho, dente por dente, mano!
 
Tornozeleira e cadeia  são condenações muito suaves para esse tipo de crime. A menos que o fodão fosse jogado em uma cela superlotada e virasse a mocinha dos presos. Ou então ser emasculado, ter o pênis, o pinto, o pau, o caralho cortado, amputado, moído, para deixar de ser besta. Tô errado?

quarta-feira, 18 de março de 2026

JÁ COMEU CAVIAR?

 
Sou um ignorante, um caipira. Eu ignoro tantas coisas, tantos assuntos, que me atrevo a dizer que sou um sujeito com pós-doutorado em ignorância. Apesar disso, tenho a mania de dar palpite em tudo, com especial ênfase nos assuntos de que não entendo porra nenhuma. E é com essa visão sócio-antropológica que resolvi falar hoje de “demeritocracia”, um neologismo jotabélico que explico melhor no final deste post.
 
Antes, porém, vou tocar (suavemente) no conceito tão em voga hoje de “meritocracia”. Se para você, caro leitor, estimada leitora, a meritocracia é como o caviar do Zeca Pagodinho (“nunca vi, não comi, só ouço falar”) –, fica aqui uma definição resumida: “é a ideia de que as pessoas avançam com base no próprio mérito, no esforço, no talento, no desempenho… e não por privilégios de origem, dinheiro ou conexões”. (Obrigado, Google!)
 
Agora, voltemos rapidamente à demeritocracia. Para início de conversa (o que a gente não faz para engordar um texto esquálido, não é mesmo?), sabe o que é demérito?
 
Segundo o Google, “demérito é a falta de mérito, desmerecimento ou uma ação que gera perda de consideração, respeito ou valor. E esta é a chave para meu neologismo (registra aí, Aurélio!).
 
Ultimamente – e foi assim que me ocorreu a palavra – tenho ficado muito incomodado, puto mesmo com a demeritocracia que existe nesta nossa Terra de Santa Cruz. Em certos ambientes – especialmente lá pelas bandas da Corte – o negócio não é exceção: é regra. Se bobear, deve ter até protocolo. Cara, o que tem de gente desclassificada nas altas esferas de Brasília não está no gibi!
 
E esta é a conclusão final para este texto curto: enquanto a meritocracia privilegia o indivíduo, a demeritocracia não escolhe alvo, sai ferrando a sociedade inteira. O mais louco é que os "demeritocratas" (demeritocráticos) ainda encontram eleitores que aprovam sua conduta!
 
Gostaram do neologismo surgido na mente descompensada de Jotabezinho? Não? OK! Já mandei chamar o cabo corneteiro para tocar o toque de Foda-se. Fui.
 
 

terça-feira, 17 de março de 2026

NOVAS EMOÇÕES

 
Tenho andado tão feliz ultimamente
Como se nas nuvens estivesse
Na boca um sorriso permanente
No rosto, expressão de bobo alegre
Irrefletido, aturdido, sorridente
 
Como o de adolescente inconsequente
Sonhando com o dia de encontrá-la
E que esse dia não tarde a chegar
Pois tudo o que eu quero é abraçá-la
E abraçar e abraçar e abraçar
 
Um abraço tão suave, carinhoso
Como se não houvesse outro
Como se fosse o último
Um abraço que trará a cura
De um sonho tão sonhado
E que jamais pude alcançar,
 
Num tempo que foi bom mas que passou
Sem que eu nada pudesse fazer
Tempo de dor, de conflito e tristeza
Impossível de ser esquecido
Mas hoje eu tenho a certeza
Que há novo tempo a ser vivido
 
Agora, um ajuste fino
Um fechamento de ciclo
Mato de chuva molhado
Aroma fresco, doce, terroso
Sabor de abraço apertado
De quem está ao meu lado.

segunda-feira, 16 de março de 2026

E O BRASIL NÃO GANHOU!

 
E o Brasil não ganhou o Oscar! Que peninha… Ou melhor, ainda bem! Porque quem ganha Oscar de melhor filme, melhor ator ou coisas dessa área não é um país: são profissionais que se dedicaram a fazer um filme com qualidades e mérito suficientes para serem indicados a essa celebração hollywoodiana.
 
Brasileiro – talvez outros povos também sejam assim – tem a mania de confundir o particular, o pessoal, com o coletivo, com o país. Se os filmes fossem produzidos como parte de uma campanha de divulgação do país, talvez se pudesse dizer que o Brasil ganhou ou perdeu o troféu.
 
Um caso pitoresco aconteceu com “O Beijo da Mulher Aranha”, filme brasileiro sim senhor, mas baseado em um romance do argentino Manuel Puig, roteirizado por um americano, dirigido pelo argentino Hector Babenco (naturalizado brasileiro) e tendo como atores principais o americano Willian Hurt – que ganhou o Oscar de melhor ator – e pelo porto-riquenho Raul Julia. E aí, como ou o que comemorar nessa salada multinacional?
 
Na mesma linha de raciocínio, um atleta que disputa os 100m de nado livre em uma Olimpíada, ali na sua raia, não está propriamente representando o seu país de origem. Pode até ter tido algum incentivo, pode ter sido patrocinado por uma empresa estatal, mas quem subirá ao pódio não é um país: é um atleta que ralou muito para conquistar aquela medalha. Talvez as equipes que disputam esportes coletivos, como futebol, vôlei e basquete, possam representar o país – mas só isso.
 
Os brasileiros e brasileiras deveriam se orgulhar – ou morrer de vergonha e tristeza – de o país ficar entre os melhores ou na rabeira nos “Oscars” da melhor educação, da melhor saúde, da melhor qualidade de vida, da menor desigualdade de renda. Esses, sim, medidos por indicadores internacionais como o PISA e o IDH, resultados de políticas públicas de qualidade e de longa duração. Se assim fosse, dava até vontade de ver um filminho abraçado com a amada.

 

domingo, 15 de março de 2026

NOBLESSE OBLIGE

 
Eu sempre ficava encantado ao ouvir minhas netas – então com cinco ou seis anos – espontaneamente dizendo “obrigada” por algo que tinham recebido ou ganhado. Tão pequenas e tão bem educadas! E ainda respeitavam a flexão de gênero que a boa educação recomenda: os homens dizem “Obrigado”; as mulheres dizem “Obrigada”. Detalhes pequenos mas indicadores de boa “educação de berço”.
 
Contei este caso apenas para dizer que li no blog “Alma Leve” um texto que fala sobre o ato de agradecer. E esse gesto simples me remeteu a uma entrevista que assisti na televisão há muito tempo.
 
O cantor e apresentador Ronnie Von disse que seu pai definia a elegância como “simplicidade”. E que lhe ensinou a sempre utilizar três expressões mágicas (o “mágicas” é por minha conta) para uma boa e civilizada convivência: “Obrigado”, “Por favor” e “Desculpe”.
 
O pai do “Príncipe” – como o cantor era chamado na época da Jovem Guarda – era diplomata e ensinava que diplomatas não deveriam discutir e precisavam ter um vocabulário polido. Resumindo, um gentleman – assim como eu e o Rei Charles (aquele do Ob).
 
Tentando escapar da grosseria da piada, fica a dica: “Obrigado” quando dito por homens e “Obrigada” quando dito por mulheres. Como diriam os franceses, “Noblesse oblige”.
 
E termino este texto dedicado à valorização da boa educação e cortesia nas relações interpessoais (acho que isto que ficou pedante!) agradecendo a paciência das leitoras e leitores deste blog mambembe. E por favor, não parem de acessá-lo. (estou me sentindo um lord!)

sábado, 14 de março de 2026

FRACOLINO

 
Creio que até os milhares de robozinhos que às vezes acessam este blog desconjuntado (o que será que eles procuram aqui? Qualidade do material publicado eu garanto que não é) sabem que Jotabê é um ogro mal-humorado e impaciente, além de velho pra kawaka.
 
E digo impaciente porque não tenho saco para assistir à maioria dos recentes filmes hollywoodianos, aparentemente feitos para atingir a juventude bronzeada que quer mostrar seu valor. Claro que também podem interessar aos jovens arredios, tímidos, branquelos, que vivem trancados no banheiro e com muito cabelo nas palmas das mãos (if you know what I mean).
 
Esses filmes não me atraem. Avatar, por exemplo. Quer filme mais idiota? Para mim (que não assisti), ele serviu apenas para colocar no meu dicionário pessoal a palavra “avatar”, que me soa como um convite insistente: “ah, vá, tá?”
 
Minha praia são filmes de humor inteligente ou nonsense, como os do Mel Brooks, ou então filmes noir realizados entre as décadas de 30 e 50.
 
Maaaas, voltando à palavra “avatar”, confesso – ligeiramente constrangido – que descobri o meu em um personagem de histórias em quadrinhos das antigas. Sem muito suspense: esse personagem aparece nas HQs do Bolinha e da Luluzinha.
 
Nunca ouviu falar dessas revistinhas? Jovem é foda: não sabe merda nenhuma, mas acredita sinceramente que sabe tudo. Tenho certeza de que os robozinhos que às vezes avoejam por este blog suculento e saboroso (acho que estou com fome!) conhecem essas deliciosas e inocentes HQs.
 
E o personagem é um velho meio calvo, de barbas brancas e bastante caduco, que aparece de vez em quando, mas sempre em momentos hilários. É o avô sem noção do Carequinha, amigo do Bolinha.
 
Olha o Vovô Fracolino aí. Acho que parecemos um pouco. Pelo menos na piração e na completa falta de senso. Talvez, em vez de meu "avatar", melhor seria dizer que ele é meu "avôtar", mais coerente com minha idade matusalêmica.



sexta-feira, 13 de março de 2026

SUJEITO A DEVOLUÇÃO

 
Tenho medo de você
Talvez nem saiba dizer por quê
Medo de te magoar
Medo de decepcionar
Ou medo de te perder
Medo de não atender
Ou de não corresponder
Ao retrato que pintou de mim
 
Não tenho cores a exibir
Sou branco e preto no olhar
Mesmo tentando enganar
Quem desejou me adquirir.
Sou produto gasto, vencido
De segunda mão, já mexido 
Sem nota fiscal, sem recibo
Sujeito a devolução

quarta-feira, 11 de março de 2026

VAZEZINHO!

 
Dizem que há muito, muito tempo (técnica para tornar imprecisa a data), viveu uma princesa bela como Branca de Neve – a quem a escumalha maledicente dizia sentir uma atração secreta e doentia por sete homenzinhos verticalmente prejudicados (anões, entendeu?). Mas beleza era o único ponto a unir essa personagem de história da carochinha com a outra, de crônica da carochinha (crônica sim, porque este narrador é preguiçoso e não gosta de escrever muito. E nem me perguntem o significado de “carochinha”!).
 
Pois bem, a princesa que não era Branca de Neve era, na verdade, uma louraça, uma loura estonteante acostumada a bronzear suas formas suculentas nas areias de Nova Guarapari.
 
Um dia (outra indeterminação temporal), fazendo sua caminhada diária, quase pisa em um sapo repulsivamente horroroso, que nem sabe como surgiu ali (as fábulas são assim mesmo).
 
- EEECA!!!! Que coisa nojenta!
 
Para sua surpresa, o sapo respondeu:
 
- Tendes razão, adorável e linda princesa. Sou hoje um sapo feio e gordo, mas, se me beijares, quebrareis o encanto que jogaram em mim e voltarei a ser o príncipe encantado e encantador com que sonhastes por toda a vida. (Mesmo sendo sapo, era muito educado  um anfíbio de família, mais precisamente da família Bufonidae.).
 
A princesa, que não era burra – apesar de loura –, tinha direito ao contraditório e contra-argumentou:
 
- Mesmo que eu sonhe com um príncipe encantado desde a minha juventude, não quero beijar um sapo nojento!
 
Mas o sapo era persistente, sedutor, e continuou a tentar convencer a princesa a beijá-lo. Disse até que escreveria crônicas e poemas para e sobre ela. Tanto fez que a princesa, fazendo a maior cara de nojo, beijou o sapo.
 
E o inesperado que era esperado aconteceu. Surgiu à sua frente um velho obeso, de barba branca e cabelos idem (os poucos que ainda não tinham caído), que sorriu doce e maliciosamente para ela.
 
Não acreditando no que via (tentativa de negação da realidade que a assustava), a deusa linda e loura exclamou:
 
- Eu estava esperando um príncipe lindo, charmoso e gostoso, mas você é um velho decrépito! E ainda fala como se tivesse saído do século passado!
 
- Tendes razão, oh apetitosa e linda princesa! Tenho hoje duzentos anos, pois virei sapo ainda no tempo da Primeira República. Mas continuo sendo capaz de amá-la.
 
A princesa nem pestanejou:
 
- Amá-la? Boa ideia! Pegue essa mala velha e suma da minha frente. Vê lá se quero me relacionar com um velho obeso e feio como você! Fui seduzida por suas palavras, mas já decidi (ela era muito assertiva quando precisava):
 
- Não quero te beijar nunca mais! Sei lá, vai que depois fico com a boca cheia de sapinho! Por isso, vaza! Ou melhor... vazezinho!

 

segunda-feira, 9 de março de 2026

VÔ, ME CONTA SUA HISTÓRIA?

 
Sentados nos sofás da sala, um de frente para o outro, um homem idoso absorto na leitura de um dos livros de memória de Pedro Nava. Do outro lado, uma jovem teclando seu inseparável smartphone. De repente, ela para, olha para o homem e pergunta:
- Que livro é esse?
- Ahn? É um dos sete livros que o médico e memorialista Pedro Nava escreveu contando suas lembranças.
- Sete livros? Pô, esse tinha caso pra contar!
- Ele tinha uma memória poderosa, mas também utilizava cartas, retratos antigos e lembranças diversas que guardava.
- Legal!
- É sempre bom ouvir casos de épocas passadas. Os franceses chamam isso de “petite histoire”: a história de objetos e pessoas comuns, anônimas, mas nem por isso menos interessantes.
- Entendi! Vô, me conta sua história?
- Eu? Não tenho história para contar.
- Aposto que tem! Conta aí a história de uma paixão secreta do passado. Pode ser do presente também, se tiver.
- Revolver o passado nem sempre é bom.
- Besteira! Agora que vovó morreu, você pode contar o que quiser para mim. Eu juro que fica só entre nós. Conta aí, vai!
- Tá bom. Vou contar de uma paixão que se misturou com o relacionamento que eu e sua avó tivemos, como se fosse um bordado, um trançado de linhas que volta e meia se cruzavam e que eu tentava manter em segredo.
- Eba! Já tô curiosa!
- Eu a conheci muito antes de sua avó...
- Pera aí: como ela se chama?
- Você quer uma história ou uma biografia?
- Tá, desculpe. Não vou mais te interromper.
- Vamos chamá-la de Jô, está bem?
- OK.
- Foi em uma hora-dançante. Eu a chamei para dançar e ela aceitou. Eu dançava horrivelmente mal, era tímido, bobo e inexperiente. Deus, como eu era inexperiente! Talvez eu tenha tentado dançar de rosto colado, mas creio que ela travou e logo disse que iria parar. Não me lembro mais o que aconteceu depois disso, só sei que ela disse onde morava, o que talvez eu tenha interpretado como um convite.
- E você foi lá?
- Claro, eu queria arranjar uma namorada! Mas foi uma ducha fria, pois uma amiga dela não nos deixou a sós nem por um segundo. Agora imagine a situação: um jovem tímido, bobo e inexperiente, sem saber como agir. Não havia nada a fazer e eu tive de ir embora. Está gostando da história?
- Estou, mas esperando mais ação, romance, surpresa.
-Só depois que trouxer um café para mim. E traga água também, para molhar a garganta.
- Beleza.
 
A água e o café chegam e a menina ordena:
- Continua!
- Logo no início do namoro com sua avó, eu ainda tinha “passe livre” para ir a horas dançantes depois de sair de sua casa. E era isso que eu fazia. Em uma dessas vezes, quem eu encontro?
- Já sei, a Jô!
- Claro! Eu não sei o que acontece comigo, o que sempre aconteceu comigo, parece que eu fui enfeitiçado, magnetizado pela Jô. Aí a chamei para dançar. Ela concordou, sem demonstrar muito entusiasmo. Mas aí aconteceu um “milagre”: a música que passou a ser tocada era daquelas que se dança separado.
- Ahahah, nem imagino você dançando assim!
- Naquele tempo, as danças já surgiam com passos coreografados e eu estava “up to date”, como dizem. Eu sabia a coreografia da nova dança. Quando me viu dançando assim, ela chamou uma amiga para me ver.
- Eita!!!!
- Pois é, eu me senti o rei da cocada. Quando a música lenta recomeçou, ela se aconchegou, e se aninhou em meu peito, a gata se transformando em gatinha. Mas era tarde, pois eu já namorava sua avó.
- E ficou por isso mesmo?
- Bom, teve ainda uma festa junina que era o que havia de mais top na época. Também fui sozinho – e lá estava ela. Ficamos a noite toda juntos, aos abraços e beijos.
- Acho engraçado ver você contar esses casos, seus olhos brilham ao falar dessa mulher. Ela era bonita?
- Era... e ainda é.
- E aí, que rolou depois?
- Aconteceu um fato curioso. Como eu estava com a cabeça super confusa, comecei a fazer terapia perto da Praça Sete. Não sei como, mas meu irmão encontrou com ela e contou que eu não andava muito bem.  Acredita que ela apareceu na casa da minha avó? Eu estava saindo para a terapia e ela me ofereceu carona. Tinha acabado de ganhar um carro do pai e estava toda feliz.
- E aí? 
- Me deixou no centro e foi embora. Depois disso, foi de novo lá em casa, me pegou e acabamos parando em rodovia , debaixo de um viaduto. Estávamos nos beijando quando chegou a polícia rodoviária e nos mandou vazar dali.
- Sacanagem, nem uma mão no peitinho?
- Minha filha, você está falando com seu avô!
- E daí? Isso é tão normal!
- Pode ser hoje, mas naquele tempo não. Além disso, eu era muito, muito bobo e inexperiente.
- Nem imagino você assim!
- Deixa eu continuar mais um pouco, pois já estou cansado.
- Manda!
- Teve também o lance do vestibular. Como eu já tinha entrado na faculdade, consegui uma boquinha para trabalhar de fiscal no próximo vestibular. Estou lá tranquilão, quando quem vejo chegar?
- A Jô, claro. Tô achando que essa mulher tem super poderes ou GPS para te localizar!
- Pois é... Ela estava estonteantemente linda, toda de branco. Naquele momento o Mineirão era utilizado para as provas. Por isso perguntei qual era o setor onde ela ficaria. Peguei emprestado um binóculo do exército e comecei a procurá-la do outro lado do estádio, pois não podia sair do meu posto. E achei.
- Que mais, só isso?
- Eu preferia não entrar em mais detalhes, pois o caso fica meio constrangedor.
- Cê tá querendo escapulir, né? Mas vamos fazer assim: você para agora, mas continua amanhã, fechou?
- Combinado.
 
Mas a neta nunca ficou sabendo o resto daquela história banal do avô, pois pela manhã, estranhando a demora dele para o café, foram até o quarto onde dormia. Encontraram-no morto, com os olhos abertos e um sorriso congelado em sua boca.
 

domingo, 8 de março de 2026

E OS OUTROS 364?

 


QUE DIA!

 
Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Parabéns! Mas os outros 364 também deveriam ser dias internacionais da mulher. Só assim, quem sabe, acabaria essa explosão de feminicídios que a mídia divulga.
 
Hoje também completam-se três meses do falecimento do meu inesquecível Amor. Talvez por isso, tive insônia. Acordei muito cedo (3h30), fiz café e deitei de novo. Dei uma cochiladinha e ela apareceu em um sonho fugaz, sorrindo pra mim com aquele rosto lindo que tinha. Queria que o sonho tivesse continuado! Chorei muito, tanta saudade eu senti ao acordar.
 
O Kid Abelha tem uma música linda (Os Outros) com alguns versos que definem bem que sinto por ela, o que sempre sentirei por ela. Vejam se não é isso (fiz pequenas modificações de gênero e situação):
 
Não consigo aceitar a gente separado
Procuro evitar comparações
A minha vida continua
Mas é certo que eu seria sempre seu
 
Que saudade! Desculpem por compartilhar este momento com vocês, mas estou profundamente triste agora.



sexta-feira, 6 de março de 2026

SEM TRADUÇÃO

Minha cama está vazia
Minha casa está vazia
Minha vida está vazia
Têm sido assim os meus dias
 
Pode ser que isso mude
E que alguém talvez me ajude
Fazendo algum sortilégio
Que possa matar o meu tédio
Ou me dê esperança
 
Algo que se espera tanto
Impossível de alcançar
Imagem fugidia do passado
Que pretendo reencontrar
 
Isso sim um privilégio
Um desejo, uma lembrança
Que dê sentido à vida
Que cure uma ferida
Que não quer cicatrizar
 
Não quero apagar o que fiz
Remover a cicatriz
Lembrança de um tempo
Em que fui feliz e infeliz
 
Mas era isso que eu queria
Sabendo que não podia ter
O passado e o presente
Os dois num mesmo dia
 
Agora que estou sozinho
Posso buscar o passado
Trazê-lo para novos dias
Sem culpa e sem pecado
 
Curiosa, estranha ironia:
Um passado se fez presente
O presente se fez passado
Só deixando a nostalgia
 
Mais que isso não direi
Pois dois presentes vivi
E precisei escolher
com qual dos dois eu ficaria
 
Escolha difícil, sofrida
triste escolha de Sofia
Mandar pro passado um presente
Que me alegrava e aquecia
 
E se ninguém me entender
Nada mais posso fazer
Não pretendo traduzir
Aquilo que eu quis dizer
 

quinta-feira, 5 de março de 2026

QUE DUPLA!

 
Segundo o dicionário, “sicário” é um assassino contratado para matar alguém. Deve haver algum erro aí, pois “Sicário” parece ser apenas o capacho do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master – um sujeito mais enrolado que bobina de motor elétrico.
 
Confesso que me espantou a notícia de que esse “Sicário” tentou se matar na Superintendência Regional da Polícia Federal em Minas Gerais, poucas horas depois de ser preso.
 
Sou obrigado a recorrer a uma interjeição bem mineira: Uai, tão rápido assim? Por quê? Tem tanta coisa assim a esconder?
 
Para ser sincero, não sei e nem quero saber. Mas me ocorreu que, se ele conseguisse se enforcar na prisão, talvez surgisse uma manchete curiosa:
 
“Vorcaro e Enforcaro: que dupla!”
 
Brasil, meu Brasil brasileiro…
 

SÁBIAS PALAVRAS!

 


quarta-feira, 4 de março de 2026

AR CONDICIONADO

 




ENCICLOPÉDIA DO ROCK

 
Descobri um perfil no facebook inteiramente dedicado ao velho e bom rock and roll. O dono publica os “line-ups” de várias bandas, tanto as mega conhecidas como as que lembram o caviar do Zeca Pagodinho – “nunca vi, não ouvi, só ouço falar”. Algumas formações são originais, outras já mostram uma das às vezes muitas trocas de integrantes. Várias delas já nem existem mais, com os músicos em carreiras solo ou migrando para outras bandas.

Há um caso bizarro de picaretagem musical: a banda Herman's Hermits da minha juventude hoje tem duas versões, cada uma liderada por dois dos antigos integrantes. E nenhum se chama Herman (aliás, nunca existiu um Herman na banda original). 

Por trazerem as fotos e a data de nascimento de cada um dos músicos, é divertido perceber um traço comum entre a elite e a periferia do rock, que é a aparência ou a idade atual dos músicos, muitos inclusive já falecidos.
 
Sinceramente, fico chocado ou, no mínimo, assustado. Ver essas imagens me fez pensar que não é o rock que está morrendo, são os roqueiros, pois o que tem de gente velha se apresentando ainda, não está escrito. E o bizarro é ver esse povo com cara de “vô”, mas com cabeleiras (aqueles que ainda não ficaram calvos) que matariam de inveja um sansão da vida – não fosse a cor de neve suja que exibem.
 
Um dia o Cazuza cantou “meus heróis morreram de overdose”. Não discuto essa avaliação, pois alguns músicos podem ter abusado um pouquinho, embora haja aqueles que morreram por doença, suicídio ou acidente. Mas o Facebook tem-me feito pensar muito em rock, esse estilo de música que influenciou a moda, a diversão e o comportamento desde que surgiu no início da década de 1950. Talvez por isso alguns digam que o rock morreu ou está agonizante, mas também não discuto essa afirmação.
 
Isso pode até ser verdade no país do agro em que se transformou o Brasil – sim, porque nunca vi tanta fissura por cantores e música sertaneja, aquele estilo em que homens e mulheres usam chapéu de caubói americano, e se comportam como se fazendeiros fossem.
 
E aí, sem precisar olhar para o espelho, eu percebo que apresento a mesma cara de uva passa ou “maracujá de gaveta” que vejo nas imagens dessas bandas. Que merda!
 
Para divertir ou horrorizar quem acessa este blog sem rumo e sem assunto, alguns exemplos das bandas mais “bandaladas” (esta piada foi horrível!):



Ficou alguma dúvida?










terça-feira, 3 de março de 2026

FUI ASSEDIADO!

 
Estou pensando em raspar minha barba, ficar novamente “desbarbado”. Não porque esteja achando ruim ou muito branca (sou velho, tá lembrado?). Na verdade, estou me achando bem melhor até mais atraente, pois a barba disfarçou meu “queixinho esquisito”, na definição de um conhecido. O problema real é crer ter sido ela a causa do assédio que sofri recentemente.
 
Não tendo jamais a beleza de um George Clooney ou Reynaldo Gianecchini e estando mais próximo da aparência de um Didi Mocó, não tenho costume de ver olhares sedutores a mim dirigidos. Mas aconteceu. E isso me assustou, por partir de alguém que nunca imaginaria ser ainda capaz de saliências desse tipo.
 
Deixando o mistério de lado, o caso é o seguinte: fui ontem a um médico angiologista e estava tranquilamente sentado esperando ser atendido. A porta do consultório se abriu e de lá saíram duas mulheres, uma senhora andando com visível dificuldade para andar, amparada por quem imaginei ser sua filha.
 
A velha (spoiler!) acomodou-se na cadeira de rodas e eu gentilmente sorri para ela. Preciso dizer que sou um homem simpático, gentil, educado e atencioso – principalmente com mulheres. Talvez por ser feio de nascença tenha a veleidade de tentar seduzi-las com meu comportamento de hetero afeminado. E descobri que mulher gosta disso!
 
Pois bem, enquanto a filha acertava qualquer coisa com a recepcionista e o médico não me chamava, comecei a conversar com ela. Perguntei se estava tudo bem e, não sei por que ela ou a filha falou alguma coisa sobre idade. E o gentil aqui comentou:
 
- Eu jamais perguntaria a idade de uma mulher!
- Quantos anos o senhor acha que eu tenho?
 
O sedutor assumiu seu posto:
 
- Creio que a senhora deve ter uns sessenta e cinco anos.
 
Isso a faria mais nova que a filha, mas a sina do sedutor é seduzir. E ela respondeu:
 
- Sessenta e cinco? Eu tenho 88 anos – mas não gosto de revelar minha idade, pois olha como tenho a pele lisa.
-Uau! A senhora está de parabéns! Está com aparência de 65!
 
Percebi um sorrisinho de satisfação, mas diria que usei de “liberdade poética” ao afirmar isso.
 
- Quantos anos o senhor tem?
- 75 anos.
 
Aí o olhar da senhora (para não ser grosseiro e dizer "velha") mudou, ficou tipo "farol baixo". E a conversa foi ficando estranha...
 
- O Senhor é casado?
- Infelizmente, fiquei viúvo agora em dezembro.
- O senhor tem telefone?
- Heim? Tenho, quero dizer, tinha, pois pedi para desligar. Agora que moro sozinho...
- Minha filha me levou para morar com ela.
 
Aí o médico me chamou, mas ainda tive tempo de elogiar sua “aparência de 65 anos”. Creio que aquilo deixou a velha meio desestabilizada, pois estendeu a mão para mim, segurando-a um pouco mais longamente que um cumprimento pede. A filha precisou insistir para que fossem para o hall dos elevadores.
 
Ao sair do consultório, a secretária com um sorrisinho maroto no rosto, comentou:
 
- Acho que ela queria te caçar, pois precisou que a filha dissesse a ela para irem embora. E ela reclamou:
- Eu só quero me despedir dele!
 
Sei lá, pelo sim, pelo não, acho que vou raspar minha barba, pois assédio de octogenária é muito para minha cabeça!

domingo, 1 de março de 2026

INSÔNIA

 O homem acorda, olha o relógio e reclama:
- Merda, são três horas ainda!
 
O sono inquieto e curto provocado pelas lembranças de um antigo amor. Vira de lado, cobre, descobre, ajeita o travesseiro e nada de o sono voltar. Levanta-se, liga o computador e começa a digitar.
 
Eu estava pensando que tive a sorte de ter tido dois amores definitivos e definidores na minha vida. Creio que deve ser isso, pois aquela paixão que faz o coração palpitar na iminência do próximo encontro passa com o tempo, mas o amor parece ficar. E não me pergunte como consegui isso, pois eu nunca, nunca mesmo consegui deixar completamente de pensar em você.
 
Estava quieto no meu canto e de repente te via nos lugares mais improváveis: no jardim de infância onde nossos filhos estudavam (você estava absurdamente linda de blusa laranja sem manga e calça preta); grávida na missa de sétimo dia da irmã de sua colega; atravessando o viaduto em sentido contrário ao meu; descendo a escada rolante das Lojas Americanas, coincidências que sempre assopravam as cinzas sobre brasas que nunca se extinguiram.
 
Essas situações sempre me fizeram desejar estar com você, mas não necessariamente para transar, mais para namorar, beijar na boca, coisas assim. Sentimentos estranhos, difíceis de administrar.
 
Outro dia me veio à cabeça um verso do Márcio Borges (irmão do Lô), na canção Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor: “quem sabe isso quer dizer amor, estrada de fazer o sonho acontecer”. Fiquei pensando se nossa história não é exatamente isso – uma estrada que permaneceu ali, silenciosa, à espera de que descubramos se ainda vale a pena ser percorrida.
 
Não sei. Talvez eu esteja apenas compartilhando um pensamento que me visitou. Mas achei que você deveria saber. A vida no campo do “Se”.
 
Relê o texto, passa o corretor de ortografia, lê mais uma vez e se dá por satisfeito. Salva o arquivo, pensando se o enviará para ela, mas agora só quer dormir. E dorme.

TIVE SIM - LUIZ MELODIA

Luiz Melodia foi um compositor que me cativou logo de início, quando ouvi a Gal Costa cantar “Pérola Negra” (“tente passar pelo que estou pa...