domingo, 22 de fevereiro de 2026

UMA HQ INFANTIL

 
Este texto introdutório poderia ser dispensável, mas obedece ao meu desejo de sempre registrar a memória das pequenas coisas. 

Morávamos na casa de minha avó materna, junto com oito tios e tias, além de minha avó e meu avô. Éramos duas crianças e doze adultos. Naquela época, ainda não havia televisão em Belo Horizonte. Depois da "janta", ficávamos perambulando por ali, importunando um pouco, enquanto os adultos conversavam, até que nossa mãe nos mandava dormir. Como não tínhamos alternativa, obedecíamos.
 
Eu, meu irmão e nossos pais dormíamos no mesmo quarto, em um barracão (edícula) nos fundos da casa. A cama de casal ficava entre a minha e a de meu irmão. Para nos manter deitados – ou por qualquer outro motivo (saco cheio dos cunhados, por exemplo) – nosso pai nos contava histórias. Falava de sua infância em São José dos Oratórios e dos “doidos mansos” que perambulavam por lá. Entre eles, havia uma mulher meio desaforada, talvez já um pouco idosa, conhecida como “Sá-Maria-me-Atende”, que às vezes ia à casa de minha avó pedir esmola ou comida, se não me engano.
 
Por fim, contou sobre uma carrocinha ou charretinha que tivera, puxada por um bode branco ao qual dera o nome de Cabritito. Para nós, meninos criados na cidade grande e sem quase nenhuma liberdade para brincar, aquelas histórias eram magníficas, melhores que qualquer conto das Mil e Uma Noites ou algo parecido. Assim, contrariando seu provável desejo de que adormecêssemos logo, sempre pedíamos mais. Até que as lembranças se esgotaram: ele já nos havia contado tudo o que podia.
 
Foi então que teve início a fase ficcional. Passou a inventar histórias no estilo bangue-bangue ou de filmes de caratê, lembrando os filmes mudos de Carlitos, sempre com algumas pancadas, chutes na bunda e bandidos sendo arremessados longe depois de girarem sobre as próprias cabeças, seguros – pela agora heroína Sá-Maria-me-Atende – apenas por uma perna ou um braço.
 
A partir daí, o delírio tomou conta das histórias (e ele nem bebia!). Logo, o Cabritito casou-se com Sá-Maria-me-Atende. E o mais curioso é que ela se tornava, ali, a primeira super-heroína brasileira! Uma super-heroína desconhecida, caipira, meio louca, casada com um bode e que, além de força física descomunal, voava! E somente eu e meu irmão sabíamos de sua existência.
 
Pois é, a primeira super-heroína brasileira voava graças a um artifício bastante peculiar – batata-doce. Na iminência de capturar algum criminoso em fuga (que inevitavelmente seria lançado longe após orbitar ao seu redor, preso por um braço ou perna), a heroína comia batata-doce e logo começava a soltar flatos, puns, funfas ou peidos – conforme pedirem a pudicícia e a finesse do leitor. Primeiro, um “po, po, po” contido; depois, ganhava impulso (“Pruuum!”) e, “Fium!”, saía voando a jato. Era quase impossível dormir depois de tantas emoções!
 
Contei essas histórias às minhas netas, que morreram de rir. Então prometi fazer uma historinha em quadrinhos sobre isso. Sem inspiração para criar o roteiro e sem o talento para desenho do blogueiro Fabiano Caldeira, recorri ao ChatGPT para cumprir a missão.
 
E a danada da IA respondeu assim:
Que delícia de memória! Dá para transformar isso numa HQ maravilhosa, misturando nostalgia, humor escatológico infantil e um toque poético de ‘super-heroína rural secreta’. Vou sugerir duas páginas, seis quadros cada, já com descrição visual, falas e ritmo de humor.
 
As descrições e falas sugeridas ficaram bem interessantes. Por isso, corrigi apenas algumas coisas, descartei outras e pedi que a IA gerasse as imagens. Aí o bicho pegou: não houve meio de o ChatGPT produzir imagens sem erros. Isso consumia o limite ou  “verba” de geração, obrigando-me a esperar até doze horas para tentar novamente, após receber a seguinte mensagem:
 
“You've hit the free plan limit for image generation requests. You can create more images when the limit resets in 9 hours and 59 minutes.”
 
A brincadeira para agradar minhas netas começou a ficar estressante, pois algumas imagens simplesmente nunca saíam como eu reiteradas vezes solicitava. Surgiam coisas absurdas: a heroína com três braços, um bandido com corpo de bode e o bode com cabeça de bandido etc. Essa cena foi gerada nove vezes, sempre com resultados estapafúrdios, até que desisti de utilizá-la.
 
Para chegar a um resultado minimamente aceitável que pudesse mostrar às netinhas, abri mão de oito ou mais quadros, que acrescentariam mais de uma página à história e que poderiam ter deixado a HQ com um aspecto mais completo.
 
Além disso, precisei retalhar e remontar toda a narrativa com os quadros remanescentes, alguns inexplicavelmente em padrão diferente dos demais. Foi uma luta!
 
No fim das contas, o resultado – embora menor do que poderia ter sido – ficou “bonzinho”. Apenas para as netinhas, obviamente. E sempre lembrando que tudo foi feito pelo ChatGPT, tendo eu apenas intervindo (muitas vezes sem sucesso) para melhorar ou corrigir o que essa IA tresloucada e geniosa produziu. Se eu fosse o talentoso Fabiano Caldeira, certamente teria saído uma historinha melhor e com traços mais homogêneos, o que não aconteceu. Enfim…
 
A seguir, a HQ frankenstein (espero que pelo menos as netinhas gostem):







11 comentários:

  1. Vamos por partes. Três, na verdade.
    1- Desenhar é prazeroso e dá muito trabalho. Eu gostaria de poder me dedicar mais aos meus desenhos, mas sempre que começo, meu companheiro dependente emocional ou minha mãe demente me consomem tanto, psiquicamente, que desanimo. Infelizmente não nasci em uma família que me possibiitasse crescer. Caí em um meio de gente degradante, louca e egoista. Quando achei que teria alguém para me aliviar um pouco disso, a vida me botou justamente o contrário. Depois querem que eu acredite que Deus é bom.
    Não tenho raiva. Entendo que existem coisas mentais ou de personalidade nessas pessoas. Infelizmente as coisas são o que são. Minha vida foi desperdiçada. E não há o que fazer. Uma pena.

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  2. 2- Achei a história (o acabamento dela, o estilo, a arte) tão boa que vou falar para um amigo. Ele tem um livro infantil. Saber desse poder de imagem que a IA tem é maravilhoso. Achei um epetáculo a arte dessa HQ, dentro de todo o contexto que explicou para nós.

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    1. São tantos comentários a comentar que espero não me perder. Fabiano 1: você é MUITO novo para dizer "Minha vida foi desperdiçada". Pode estar sendo, mas é leviano dizer que foi. Talvez o grande, o real problema possam ser as amarras familiares e sua localização fora do lugar onde tudo acontece (São Paulo Capital). Talvez você devesse gastar um tempo tentando fazer contatos com quem pode te contratar (agências de publicidade, editoras, estúdios de HQ, etc.)

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    2. Fabiano 2: Eu também me surpreendi com o acabamento proposto pela IA, com fundo pautado como se fosse um caderno escolar. Depois, ao pedir novos desenhos ou desmembramento dos originals, ficou impossível controlar o que saía. E o acabamento mudou. Isso pode ser visto na imagem do bode dando cabeçada na bunda do bandido. Outra coisa foi o entendimento do pedido. Achando que precisava de um desenho para apresentar a história, pedi à IA para fazer um. A cretina fez o bode caracterizado como super-herói. Talvez, na versão paga , fosse possível ter melhor arte-final.

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    3. Não sei como é a versão paga.
      Talvez, ao anexar uma das imagens, ela entenda o que fazer.
      Mas essas cosias, infelizmente, acontecem.
      Não é tão prático assim, lidar com IA.

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    4. "Talvez você devesse gastar um tempo tentando fazer contatos com quem pode te contratar (agências de publicidade, editoras, estúdios de HQ, etc.)"
      Eu tenho algo assim na minha "bagagem". Mas ninguém aqui está pronto para essa conversa. Não vira nada, meu caro. Não se iluda. Eu, que tenho meu talento, não me iludo mais. Tá tudo certo. Hoje eu sei minha realidde e conheço meus limites.

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  3. 3- Antigamente era assim. Hoje, há os celulares, tablets, existem as TVS com aplicativos que passam milhões de atrações entre desenhos, animes, séries, filmes, documentários, mas hoje dizem que não há entretenimento. Antigamente, entretinha-se com qualquer coisa. Tudo era valorizado. Tanto é que você se lembra até hoje.

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  4. Jotabê,
    Adorei a publicação toda.
    Mas fico pensando: como suas
    netas reagiram? ou reagirão?
    A arte é sempre contagiante.
    Abraço.
    CatiahôAlc.

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    1. AS duas mais velhas mandaram mensagens dizendo que acharam engraçada a história. Talvez eu devesse tê-la impresso mas teria um trabalho enorme para ajustar as imagens a um tamanho pré definido. Eu imprimi na forma de revistinha a HQ "Fiat Lux!" e dei para meu filho. Elas rolam de rir com a revistinha, mesmo não entendendo todas as ironias que imaginei.

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  5. A sensacional história deixou o GPT sem rumo...kkkkkkk
    Eu achei que ficou legal, a imaginação das crianças não tem limites e quanto mais estranho, melhor fica para elas.

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    1. Elas gostaram, mas queria que ficasse maior - apesar de não ser o autor dos diálogos nem dos desenhos. Aquele desenho dos três braços foi refeito nove vezes, até resolver incluir o bode na trama (ele era apenas um espectador). Por coincidência, tinha acabado de reler uma HQ do Pato Donald em que ele se curva ao receber uma cabeçada na barriga dada por um cabrito branco. Era filé, bastaria trocar o pato pelo bandido e ficaria perfeito. Mas a merda da IA se recusou a fazer por ferir direitos autorais. Apesar disso, fez outro desenho sem lógica e ainda deixa o chapeu de marinheiro do Donald. Coisa de louco!

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FRACOLINO

  Creio que até os milhares de robozinhos que às vezes acessam este blog desconjuntado (o que será que eles procuram aqui? Qualidade do mate...