domingo, 1 de fevereiro de 2026

GASTANDO O LATIM – MILLÔR FERNANDES

 
O Millôr era muito foda!
 
Bem, fiquei calado mais ou menos duzentos anos, na esperança de que algum latinista, algum erudito, aparecesse para corrigir Inácio de Alvarenga. Como todo mundo sabe, está na História, está nos “Autos” da Inconfidência, reuniram se, em casa de Tomás Gonzaga, além do próprio, o dr. Cláudio Manuel da Costa, Inácio de Alvarenga e o padre Corrêa de Toledo (1).
 
Nessa reunião, o grupo discutiu a já muito discutida questão da Bandeira da Nova República. Cláudio Manuel da Costa, que já tinha feito uma proposta de bandeira, insistiu nela: a figura de um gênio quebrando seus grilhões com a inscrição: “Libertas Aequo Spiritus” (2). Alvarenga lembrou então que essa proposta já tinha sido feita numa reunião em casa de Francisco de Paula, mas que nem mudando a legenda para Aut Libertas Aut Nihil o pessoal tinha topado. Naquela mesma reunião o alferes Tiradentes tinha feito outra proposta: uma bandeira com um triângulo representando a Santíssima Trindade. Ele próprio, Alvarenga, sugerira que se juntasse ao triângulo o verso de Virgílio: Libertas Quae Sera Tamen e a proposta tinha sido aprovada. Nesta reunião aconteceu o mesmo — todos acharam a ideia muito bonita. E a bandeira da insurreição ficou sendo, definitivamente, essa.
 
Pois desculpem, amigos, a ideia não é boa e o latim é péssimo. Eu, que sempre achei a frase Liberdade Ainda que Tardia uma proposta completamente furada (3), resolvi, um dia, com minha total descrença na História e nos Historiadores, ir diretamente à fonte da frase: Virgílio. E, como não podia deixar de acontecer, a frase estava errada. Inácio de Alvarenga citou de memória, ninguém foi à fonte (nem na hora, nem até hoje, duzentos anos depois) e o erro se perpetuou.
 
A frase de Virgílio é Libertas: quae sera. Essa frase, sim, dá em português Liberdade, ainda que tardia. Como está na Bandeira (Libertas quae sera tamen) é um saudável bestialógico: Liberdade ainda que tardia todavia.
 
Bem, mas como não sou latinista (4), é melhor reproduzir o próprio original (5) pro pessoal aí não começar com discussões inúteis (6). Como sabem os que já leram as “Éclogas” (7) de Publius Vergilius Maro, mais conhecido como Virgílio, logo no início da primeira écloga, dois personagens se encontram, Melibaeus e Tityrus, este indo a Roma comprar sua liberdade. O diálogo:
 
Melibaeus — Et quae fuit tibi tanta causa vivendi Romam? (E qual foi, para ti, a causa tão premente de vir a Roma?)
Tityrus — Libertas: quae sera, tamen respexit inertem; postquam candidior barbacadebat tondenti; etc. (Liberdade: embora tardia, todavia (tamen) ainda me alcança em minha inatividade, quando a barba já me cai embranquecida.)
 
Como veem os leitores, o tamen nada tem com a primeira parte da frase, escolhida por Alvarenga. O que me permite repetir, mais uma vez: “A História é uma istória!” (8)
 
Notas:
1) Este repórter também estava presente mas, devido à sua extraordinária discrição, a História não reparou nele.
2) “Deus do céu, que horror!” murmurou este repórter, do seu carro.
3) Qualquer grupo revolucionário quando propõe liberdade é pra já, pô, e não ainda que tardia. Você pode aceitar uma liberdade ainda que tardia, como o personagem de Virgílio, mas jamais propô-la como bandeira de luta. Liberdade ainda que tardia já será, assim, uma antecipação de Minas está onde sempre esteve?
4) Aliás, não sou nada.
5) Cito da excelente Interlinear Translation, de Hart & Osborn, David McKay Company, Inc. Nova York.
6) Existem outras?
7) Ao todo 37 pessoas, no Brasil inteiro, sendo que 19 em São Luís do Maranhão.
8) Relutei muito tempo em aceitar a palavra estória como conto, diferenciada de História, narrativa de fatos importantes da vida da humanidade. Essa palavra foi criada pelo Diário Carioca, no tempo em que este era dirigido pelo jornalista Pompeu de Sousa, agora em Brasília. Acho, aliás não tenho certeza, que foi o próprio Pompeu de Sousa quem inventou a palavra. Todavia não vejo por que, se a palavra é totalmente inventada, não se escreve istória, como se pronuncia. Se, porém, a palavra pretende, ainda, alguma etimologia, esta vem, naturalmente, de História, e, portanto, também nesse caso, dá istória.
 
                              Veja, 17 de janeiro de 1979

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