quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

NIHIL OBSTAT

Acabei agora de ler um livro que me deram e preciso dizer: que leitura penosa! Nem citarei a inspiração do autor; limito-me a registrar meu desconforto por trombar, várias vezes durante a leitura, com todo tipo de agressão à língua portuguesa: troca de “há” por “a” e vice-versa (equívoco que meu professor ChatGPT classificou como “erro gramatical de ortografia”), problemas de concordância nominal (segundo meu professor, uma mulher dizendo “muito obrigado” comete erro de concordância de gênero, pois “obrigado/obrigada” é particípio usado como adjetivo e concorda com quem agradece – não com quem recebe o agradecimento).
 
Mas a coisa não para por aí: fui atropelado por inacreditáveis erros de grafia, como “bordéu” em vez de “bordel” (erro ortográfico por transcrição fonética, segundo a IA), além de falhas de concordância verbal e pronominal (“assim o credes, assim te enganas”), grafia equivocada da expressão latina vade retro, substituída por “vá de retro”, etc., etc.
 
Para encurtar a conversa, faltou ao autor a humildade e o bom senso de chamar alguém para fazer o copidesque do texto ou – ao menos – passar um corretor ortográfico nos originais.
 
Mas os problemas não se resumem às agressões à norma culta da “última flor do Lácio”: houve também abuso de clichês, pieguice excessiva, enredos simplórios e uso de palavras “eruditas” fora de contexto. Na prática, poderia dizer que não fui eu que terminei a leitura; foi a leitura do livro que quase terminou comigo.
 
Dizendo essas coisas, até parece que escrevo bem, o que não é verdade. Escrevo de forma espontânea e coloquial qualquer besteira que surge em minha mente. Depois, entretanto, começo a burilar o texto: passo o corretor, releio várias vezes, mudo a ordem dos parágrafos e das frases e até peço ajuda ao ChatGPT para tentar descobrir alguma “batata” gramatical. Mas quase sempre refugo as alterações que essa IA mala sem alça me propõe. E o motivo é simples: se eu aceitar a versão da IA, o texto deixa de ser meu – e eu, afinal, ainda tenho algumas moléculas de vergonha na cara.
 
Para mim, mesmo buscando manter a espontaneidade e o tom coloquial (excelentes para esconder minha ignorância), é um desrespeito ao leitor publicar um texto descuidado, com problemas de concordância e gramática. Se o texto pede uma palavra fora do meu “círculo de amizades”, vou ao dicionário, consulto a mãe dos muito burros sobre como usar as bonitezas e só então publico. E, às vezes, ainda erro!
 
Resumindo: tudo o que já escrevi e publiquei no blog pode ser tosco, grosseiro e vulgar, mas é uma tosqueira com selo de qualidade do corretor gramatical do velho e bom Word – uma versão moderna e linguística do imprimatur ou do nihil obstat de antanho.

 

 

 

4 comentários:

  1. Segundo pedagogos progressistas "não elitistas", o importante é se comunicar, não importa como. A "norma culta" seria uma imposição elitista de uma burguesia intelectual. Salve, Freire!

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    1. Não é para mim! Eu sou e sempre fui elitista, inclusive nas amizades. Não precisa ser rico, mas precisa ser inteligente e um pouco culto. "É nóis" é uma expressão que eu só utilizo a título de piada. Uso gírias e palavrões em abundância, mas concordância é fundamental.

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  2. Que bom que terminou o livro! Eu tenho um para terminar também, nos próximos dias. O colega fez uma revisão pela IA, mas acho que ele foi um pouco descuidado.
    Sabe o que eu percebo? Eu era tão enfático ao olhar a escrita dos amigos e não percebi como a minha é horrível no sentido das falhas.
    Usando a IA, peço para ela me apontar onde devo melhorar, então ela elenca um mundo de coisas e me explica sobre cada uma delas.
    É uma senhora aula que nem sei se obteria por um profissional da área, vez que há alguns livros de editoras que nem parece que foram revisados.
    Hoje cobro menos os amigos, porque penso que não tenho motivos para fazer isso. Talvez, se não fossem essas IAs, eu continuaria escrevendo errado sem me dar conta.
    E, mesmo com as IAs, eu penso que continuarei transmitindo erros.
    Mas fica o consolo da dedicação.
    Não estou querendo dizer nada. Só estou compartilhando esse fato sobre mim.
    Eu me envergonho, hoje, dos apontamentos que fiz nos livros dos outros.
    Para o blog e redes sociais, eu não uso IA.
    Só estou utilizando para correção e aprimoramentto dos ebooks.

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    1. Se for postagem eu reviso várias vezes. Comentários, ainda mais com este teclado delinquente, geralmente vai direto. Mas é educativo!

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