Encontrei este texto no Facebook, de autor desconhecido. Por ser um romântico incurável – mesmo que agora solitário – resolvi publicá-lo no Blogson em pleno Carnaval. E o motivo é simples: conheci minha alma gêmea, a mulher da minha vida no Carnaval.
A ideia atravessa séculos. Na Grécia antiga, Platão imaginou que já fomos seres completos, divididos ao meio pelos deuses, condenados a buscar a parte perdida. Na Idade Média, as histórias de Camelot transformaram o amor em devoção absoluta, como o de Lancelot por Guinevere. Mais tarde, William Shakespeare eternizou os “amantes marcados pelas estrelas”, sugerindo que o próprio universo escreve — e às vezes sabota — as histórias de amor.
Hoje, trocamos cartas perfumadas por aplicativos. A promessa, porém, continua a mesma: encontrar “a pessoa certa”. Mas a ciência tem lançado um olhar mais cauteloso sobre essa crença.
O psicólogo social Viren Swami, da Anglia Ruskin University, afirma que a noção moderna de escolher um único parceiro para toda a vida se fortaleceu quando as transformações sociais deixaram os indivíduos mais isolados. Procurar uma “alma gêmea” tornou-se também uma forma de buscar pertencimento e segurança em um mundo fragmentado.
O problema, segundo pesquisadores, não está no romantismo, mas na expectativa de que o amor verdadeiro seja fácil. O professor Jason Carroll, da Brigham Young University, diferencia “alma gêmea” de “pessoa certa”. A primeira seria encontrada pronta, como destino. A segunda é construída ao longo do tempo, com ajustes, pedidos de desculpas e crescimento mútuo.
Estudos conduzidos por C. Raymond Knee indicam que pessoas que acreditam que relacionamentos “simplesmente deveriam funcionar” tendem a desistir com mais facilidade diante de conflitos. Já aquelas que enxergam o amor como processo mostram maior comprometimento. Em outras palavras, o que sustenta um casal não é a ausência de problemas, mas a disposição para enfrentá-los juntos.
Há ainda a questão da química. Nem toda conexão intensa é sinal de compatibilidade. A coach Vicki Pavitt alerta que aquilo que parece destino pode ser apenas familiaridade com padrões emocionais antigos. Relações instáveis, que alternam proximidade e distância, geram ansiedade — e a ansiedade pode ser confundida com paixão. O cérebro interpreta intensidade como profundidade, mesmo quando há sofrimento.
A biologia também sugere que a atração não é fixa. Fatores hormonais e contextuais influenciam quem percebemos como atraente ao longo da vida. Se a química muda, torna-se difícil sustentar a ideia de que existe apenas uma combinação possível.
E, curiosamente, até a matemática entra nessa discussão. O economista Greg Leo, da Universidade Vanderbilt, desenvolveu modelos que mostram que cada pessoa pode ter várias combinações altamente compatíveis — não apenas uma. O amor, nesse sentido, parece menos destino e mais probabilidade.
Mas talvez a resposta mais bonita venha do cotidiano. Pesquisas lideradas por Jacqui Gabb, da The Open University, indicam que relacionamentos duradouros se sustentam em pequenos gestos: uma xícara de chá levada à cama, o carro aquecido numa manhã fria, um sorriso cúmplice no meio da rotina. Não são os grandes fogos de artifício que mantêm o vínculo, mas as pequenas chamas constantes.
Talvez o verdadeiro equívoco esteja em imaginar que a alma gêmea nos completa como peça que faltava. A ciência sugere algo menos mágico — e, paradoxalmente, mais profundo. Não se trata de encontrar alguém perfeito, mas de escolher, repetidas vezes, a mesma pessoa imperfeita e construir algo singular.
No fim, o amor que parece “destinado” costuma ser aquele que foi cultivado. Não nasce pronto. Cresce. Talvez a alma gêmea não seja encontrada. Talvez seja feita.
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