domingo, 5 de agosto de 2018

ARQUIVO PERDIDO


O homem chega em casa, tira a roupa e os sapatos, cumprindo um  ritual adquirido toda vez que vai ao cemitério. Enquanto espera que a mulher tome banho para que possa fazer o mesmo, esparrama-se pensativo no sofá. Mais uma noticia de falecimento, mais um velório. Avós, pais, tios, primos, parentes distantes, cunhados, amigos, colegas, conhecidos, vizinhos e até mesmo desconhecidos. A quantos já terá ido? Cinquenta? Cem? Não faz ideia. Só sabe que têm ficado mais frequentes, prenunciando talvez que o seu próprio não esteja tão distante.

Mas o enterro de hoje trouxe pensamentos que não tinham lhe ocorrido ainda. O falecido, um senhor com mais de noventa anos, tinha o apelido de Zuzu. Aqui cabe um parêntese: como chamar alguém de "Senhor Zuzu"? Não combinava a circuspecção do tratamento "Senhor" com a sonoridade infantil do apelido.


"Zuzu" era primo de sua sogra. Aliás, primo por adoção, pois era sobrinho da madastra da sogra. Devido ao "parentesco" e aos laços afetivos que uniam os "primos", algumas vezes teve oportunidade de encontrar Zuzu na casa da sogra, ocasiões em que trocavam sorrisos à guisa de cumprimento, mas nunca teve o menor interesse de  conversar com o homem que acabara de ser enterrado.

A explicação para isso talvez fosse a diferença de idade entre eles e o comportamento tímido e discreto do mais velho. Talvez fosse a presunção e arrogância do mais novo de acreditar que não haveria nada de interessante em manter uma conversa com aquele senhor tímido, discreto e com apelido meio ridículo. Falariam de quê? De futebol? Detestava. Do clima? "É, está precisando chover", coisas assim. De política? Ora, faça-me o favor! Não, nunca esteve interessado em ouvir o que aquele senhor baixinho e gordinho poderia lhe contar.

Mas, um dia, no penúltimo velório a que compareceu, calhou de assentar-se ao lado do "primo" de sua sogra. Para não ficar aquele silêncio de velório entre eles - na verdade, velório é um dos lugares onde mais se conversa, onde os registros familiares são atualizados ("Fulano casou", "Sicrana já está com três netos"). Casamentos, separações, doenças graves, nascimentos, de tudo se fala e comenta - começou a puxar assunto com o Zuzu

Lembrou os casos de outro "parente" de sua sogra, já falecido, conhecido por "Vovô Catapreta". Apesar do velhinho carinhosamente receber o tratamento de avô, o "parentesco" era ainda mais surreal, pois "Vô Catapreta" era padrasto da madrasta da sogra!

Conversa vai, conversa vem, Zuzu contou uma historieta saborosa sobre o velho Catapreta:

- Catapreta, no fim da vida, morava com seu enteado. A esposa do enteado regulava muito os passos do "sogro", impedindo-o de beber cachaça, sua bebida preferida. Toda vez que eu ia visitá-lo, ele me perguntava se gostaria de tomar uma cachacinha com ele. Quando aceitava, ele ia até o quintal e tirava de um buraco do chão uma garrafa que ele mantinha enterrada para escapar da "revista" da "nora".
Achou graça nessa história, mas tiveram de interromper a conversa, pois haviam começado os preparativos para o sepultamento do amigo comum.

Lembrando-se do episódio, o homem lamentou nunca ter percebido o potencial estoque de casos familiares divertidos que talvez o finado Zuzu possuísse e quisesse compartilhar com quem fosse capaz de despir-se da própria arrogância e pudesse ouvir com atenção o que aquele senhor baixinho e gordinho teria a dizer.

A esposa saiu do banheiro, dando chance a ele de tomar um banho para tirar do corpo "a poeira do cemitério". Enquanto se ensaboava, ficou pensando nos arquivos de computador. Você pode abri-los e examinar seu conteúdo quantas vezes quiser. Um dia, porém, sabe-se lá por qual motivo, um desses arquivos é corrompido e você o perde, pois nunca mais poderá utilizá-lo nem recuperar os dados nele contidos. E só poderá lamentar não ter feito backup das informações perdidas. E concluiu que as pessoas são como esses arquivos. Um dia, sem aviso prévio, recebemos a notícia de seu falecimento. E só poderemos lamentar não ter tido mais contato e conversado mais com quem agora é apenas um arquivo perdido.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

PODE ME CHAMAR DE UALTERLAISSON

    Hoje acordei incomodado como se estivesse com dor de dente. Mas não era dor física, era um desconforto que me acompanha desde quando era...