sábado, 4 de junho de 2016

COMENTANDO AS RECENTES - 15

Quando eu soube que o Rio de Janeiro iria sediar os Jogos Olímpicos de 2016 já fiquei cabreiro, com a pulga atrás da orelha. Pensei naquele mundaréu de obras que seriam necessárias (ótima oportunidade para grandes mutretas), mas fiquei mais ligado na abertura e no encerramento dos jogos. Tive o pressentimento meio preocupante de que iria rolar uma bateria de escola de samba, um bando de passistas seminuas e toda aquela breguice que alguns acham lindo mostrar para o mundo.

Não deu outra: o que ouvi no rádio me deixou envergonhado só de imaginar que o que foi noticiado será transmitido para o mundo todo. Alguém (infelizmente, não peguei o início da notícia) comentou que o stand de arco e flecha, construído em caráter provisório, será desmontado, para o local ser usado na largada da maratona, última prova das Olimpíadas, e que haverá "um evento de samba no local, com carnaval, escolas de samba, passistas, um evento de samba com o maior orgulho".  

Caralho! Já não bastam as notícias sobre corrupção, petrolão, impeachment, políticos de todos os matizes envolvidos, mergulhados, denunciados em todo tipo de tramoia, negociatas e achaques? Precisava mandar para o mundo as imagens deprimentes e de extremo mau gosto de um bando de mulheres escassamente vestidas e abundantemente siliconadas, justamente no transcorrer da prova mais clássica, mais icônica das olimpíadas? 

Eu já tenho prevenção com o senso de "orgulho", pois penso que é um sentimento de segunda linha. Agora, orgulho misturado com ufanismo sem sentido é dose para matar até uma equipe inteira de halterofilismo! O quem tem o cu a ver com as calças? Ou melhor, o que têm as passistas e o carnaval com "Jogos Olímpicos"?


Meu amigo Pintão era muito bom em cultura inútil. A diferença é que sua cultura inútil era um pouco mais "culta", pois frequentemente baseada em curiosidades literárias. Um dia mencionou a existência de um livro escrito por um "nobre" brasileiro, que tinha esse título: "Porque me ufano de meu país". E ironizava esse ufanismo ao contar que o livro tinha como subtítulo a frase (em inglês!) "It's my country". (essa citação estava parcialmente incorreta).

Achei graça da maluquice bilíngue, mas nunca me preocupei em verificar a veracidade dessa informação. Pelo menos, até ontem. Depois de ouvir no rádio a idiotice gigantesca que mencionei acima, lembrei-me da história contada por meu amigo e fui procurar na internet. Quem se interessar em conhecer esse livro, siga o link abaixo

http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/ufano.html

Há várias referências na web a essa "obra-prima". Por isso, peguei um comentário meio ao acaso, que diz o seguinte:

"Há cem anos, por ocasião do quarto centenário da chegada dos conquistadores portugueses a Pindorama, o conde de Afonso Celso publicou o 'Por Que me Ufano de Meu País'. O livro, dedicado aos filhos, visava a despertar neles e, por extensão, em toda a juventude brasileira, um ilimitado amor à pátria. O lema 'right or wrong, my country', em inglês mesmo, foi colocado na primeira página, logo abaixo do título. Êxito editorial, o livro e, mais especificamente, a palavra ufanismo passaram a denotar o patriotismo acrítico, ingênuo, incondicional".

Era aí que eu queria chegar: eu acho o sentimento ufanista uma babaquice, pois temos mais coisas a lamentar que a louvar. Não somos educados, não somos civilizados nem temos seriedade para cumprir integralmente um simples planejamento que viabilize a realização dos Jogos tal como foi proposto. Somos o país onde fazer qualquer coisa nas coxas é normal, "tranquilo e favorável". Mas não estamos com essa bola toda, ou melhor, nem sabemos direito como conduzir uma tocha (literalmente).

Pensando em toda a corrupção que vem sendo descoberta e divulgada, não dá para ter muito orgulho nem ufanar-se deste “país do futuro”. Melhor seria escrever um livro menos “oba oba”, mais realista, dando a ele este título:
“Por que me afanam neste país”?  



COMENTANDO AS RECENTES - 14 (CHARLES)

Olha a notícia que saiu na Veja.com em 02/06/2016:

Revista alega ter flagrado beijo gay de Príncipe Charles
Americana 'Globe Magazine' publica foto em que homem de costas, identificado como o herdeiro do trono inglês, beija um rapagão. Rainha estaria horrorizada e disposta a sacar o filho da linha sucessória

Que merda, que decepção! Eu já disse que minha educação e fleuma "tipo britânicas" foram adquiridas na época em que eu e o Príncipe Charles fomos colegas, pois estudamos em colégios “tipo gêmeos”. A diferença é que ele frequentou um colégio de riquinhos da Inglaterra e eu fui matriculado no velho e bom Afonso Arinos, em BH.

Agora, sinto-me aliviado por termos estado bem distantes um do outro. Sei lá, se dividíssemos o mesmo vestiário, vai que ele resolvesse deixar de propósito o sabonete cair... Ia ser foda! Pensando melhor, não ia não!

Eu já lamentei sua burrice quando trocou a princesa Diana por um dragão, pois isso funcionaria bem em um desenho do Shrek. Só que lá, quem se apaixona pelo burro é a "dragoa" (me senti meio Dilma agora), não o contrário.

Depois, teve aquela história do desejo de ser um absorvente íntimo. Ficou esquisito! E agora, essa notícia! Onde iremos parar assim?

Mas tenho uma hipótese para esse comportamento desviado: vai ver, gostou da rosquinha sapecada pelo ronco do dragão e resolveu assar mais um pouco. Por ser um príncipe já meio gagá e não um padeiro traquejado, deve ter deixado passar do ponto e queimado. A rosca? Não, pô, o filme!


PÉ NA JACA

Sempre houve várias formas de expressar sentimentos: em conversas olho no olho, em estádios, através de cartas, livros, peças de teatro, melodias ou letras de música, dando porrada em alguém, fazendo orações (rezando), em rodas de botequim (talvez a melhor opção), na terapia, etc. Com a internet as possibilidades foram expandidas: Facebook, Twitter, Whatsapp, Instagram (entre outros que nem sei) e... blogs.

Os blogs autorais, objeto destas reflexões acacianas, podem ser – e frequentemente são – uma mescla de tudo o que se disse acima. É estranho observar que por conta de um discutível anonimato os donos desses blogs começam a expor suas ideias e suas entranhas – devagarinho no começo, pegando velocidade aos poucos e descendo depois uma ladeira a mil por hora, às vezes até meio desgovernados.

Bem, talvez eu esteja falando apenas de minha própria experiência. O fato é que manter um blog autoral é uma experiência única, catártica, uma verdadeira terapia blóguica. Imagino que os psicólogos podem ainda não ter-se dado conta do auxílio luxuoso de um blog na terapia de seus clientes.

Porque é no blog que o sujeito rasga sua fantasia (e cria outras!), é nele que o blogueiro encontra seu melhor espelho, é nos textos e imagens publicadas em que enfia o pé na jaca (os dois, a bem da verdade).

Talvez por isso, chega o momento em que o sujeito começa a pensar em parar de alimentar seu poltergeist. Ou por ter-se dado alta de sua terapia blóguica, por ter descoberto um fred kruger dentro de si ou por não ter mais nada a dizer de original, de pessoal. (“a menos que saia sem perguntar do teu coração, da tua cabeça, da tua boca das tuas entranhas, não o faças” Bukowski).

Parar ou não de escrever em um blog é uma opção pessoal – dolorida para uns – ou só por enfado, saco cheio. Como cantou uma vez o mestre Belchior:

Sons, palavras, são navalhas e eu não posso cantar como convém sem querer ferir ninguém
Mas não se preocupe meu amigo com os horrores que eu lhe digo 
Isso é somente uma canção, a vida realmente é diferente, quer dizer, ao vivo é muito pior 
Mas sei que nada é divino, nada, é maravilhoso, nada é sagrado, nada é misterioso

Só sei que um blog é danado de viciante (estou concluindo este texto às quatro da madruga, depois de ter perdido o sono). Mas que é divertido, isso é.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

SACO CHEIO

“O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, aumentou o tom crítico contra a Organização dos Estados Americanos (OEA) e disse impropérios ao secretário-geral da entidade, Luis Almagro.
‘Você pode colocá-la [a Carta Democrática] em um tubo bem fino e fazer um melhor uso dela, senhor Almagro. Enfie-a onde quiser’, declarou Maduro durante um evento político em Caracas, na terça-feira (31).
A ofensa foi feita depois de Almagro realizar uma reunião de emergência no comitê permanente da OEA para discutir o clima político na Venezuela e a possível aplicação da Carta Democrática, que permite suspender os países-membros da organização que violem garantias democráticas”. 

Depois de me divertir (e entristecer) ao ler a notícia acima no site do IG, resolvi ressuscitar um texto que já havia descartado. É um texto ainda do tempo da Dilma, feio, tosco, mal escrito e está meio vencido, meio passado, mas a finesse, a elegância e nobreza de princípios do "Madruga" merecem esta postagem.


Quando chegou a época de eu tentar uma vaga na faculdade, a UFMG decidiu realizar o primeiro vestibular unificado. Assim, além de matemática, física e química, de repente me vi às voltas com português, biologia, história, geografia e inglês - o que foi ótimo. Foram oito dias de prova, realizadas integralmente no Mineirão. Curiosamente, a prova em que fiz mais pontos foi português (matemática em segundo lugar). O fato é que fiquei super bem classificado, pois fiquei em vigésimo-sétimo lugar entre os quase três mil candidatos que disputaram as quinhentas vagas do curso de engenharia. Não estou fazendo auto-elogio ao contar isso, pois a ideia é destacar a sensatez da "meritocracia" Porque, depois de passar cinco anos na mais absoluta irresponsabilidade, vagabundagem e falta de rumo, acabei me formando nos últimos lugares, classificação quatrocentos e poucos em quinhentos.

Traduzindo: os estudantes que conseguiram uma vaga para o curso gratuito de engenharia da UFMG tiveram as mesmas condições iniciais, mas foi o mérito individual e intransferível de cada um que permitiu que os melhores empregos, as melhores oportunidades e os melhores salários fossem reservados aos melhor classificados. Depois de formado, a mim restou uma insegurança profissional permanente e a sensação de que tinha feito as piores escolhas quando, depois de ter estudado pra caramba para conseguir uma vaga, resolvi ficar só na malandragem durante quase todo o curso.

Mas os adeptos da social democracia e de suas práticas equivocadas parecem entender que é heresia reconhecer e premiar os bons e os que se destacam pela excelência. Preferem o ensino que nivela por baixo os alunos, preferem a "escola plural" que não reprova(va) ninguém. Tenho a impressão que, se vacilar, talvez até façam uma abordagem ideológica da matemática.

Acho que misturei muita coisa neste início mas, como disse antes, não tenho formação em ciências políticas e afins nem paciência nem competência para análises acadêmicas empoladas. O que eu fico mesmo é com o saco cheio da embromação da esquerda (da direita também).

Falando em embromação, recentemente comecei a ficar implicado com o uso indiscriminado que a Esquerda faz da palavra “democracia”. Tenho a sensação de que quanto maior é o autoritarismo de um pais ou regime, mais os detentores do poder nesses lugares utilizam a expressão “democracia”, fazendo uma evidente prostituição de seu significado. Esse pessoal também gosta muito da expressão "Estado democrático e de direito", talvez para legitimar e disfarçar perante os trouxas sua aversão à verdadeira democracia e à liberdade plena de expressão.

Não estou interessado em ensinar nada a
 ninguém, até porque não tenho formação em ciências políticas e afins. Apenas quero registrar que sou a favor do neoliberalismo e do capitalismo (não selvagem) e francamente contrário à “social democracia”, especialmente naqueles países que assim se proclamam, mas na prática são autoritários, com tendência à ditadura, casos da Venezuela e Bolívia, por exemplo.

Outro dia, de curiosidade, entrei em um site da Venezuela e achei sua Constituição. Olhei também os sites de notícias e encontrei algumas “pérolas”. Joguei tudo em um quadro e sublinhei algumas partes. Comparando os dois textos, a vontade é dizer “Maduro, me engana que eu gosto!” Olhaí.

CONSTITUCIÓN DE LA REPÚBLICA BOLIVARIANA DE VENEZUELA


CONSTITUCIÓN
TÍTULO I
PRINCIPIOS FUNDAMENTALES

Artículo 2. Venezuela se constituye en un Estado democrático y social de Derecho y de Justicia, que propugna como valores superiores de su ordenamiento jurídico y de su actuación, la vida, la libertad, la justicia, la igualdad, la solidaridad, la democracia, la responsabilidad social y en general, la preeminencia de los derechos humanos, la ética y el pluralismo político.

Artículo 3. El Estado tiene como fines esenciales la defensa y el desarrollo de la persona y el respeto a su dignidad, el ejercicio democrático de la voluntad popular, la construcción de una sociedad justa y amante de la paz, la promoción de la prosperidad y bienestar del pueblo y la garantía del cumplimiento de los principios, derechos y deberes reconocidos y consagrados en esta Constitución.
CARTA CAPITAL (10/03/2015)
Após sanções dos EUA, Maduro pede "poderes especiais"
Presidente venezuelano afirma que entrará com pedido para governar por decreto, a fim de "defender a integridade" do país. Segundo ele, americanos querem derrubar seu governo em Caracas


PORTAL G1 JORNAL NACIONAL (21/10/2015)
Na Venezuela, onde líderes da oposição estão na cadeia, o presidente Nicolás Maduro usou um tom de ameaça contra candidatos oposicionistas que pretendem disputar as eleições de dezembro.
Mergulhada no desabastecimento, numa inflação de três dígitos e na recessão, a Venezuela ganhou um pacote de medidas.
O presidente Nicolás Maduro anunciou controle de preços e castigo maior aos especuladores. Também prorrogou o estado de exceção em quatro municípios que são reduto da oposição.
Maduro alertou os adversários: "O pior que pode acontecer a vocês é ganhar as eleições parlamentares de dezembro, porque aí começaria a nova batalha".
Com seus principais líderes presos ou impedidos de se candidatar, a oposição reage.


No Brasil ou em outro país da América Latina a ânsia de regulação, controle e nivelamento chega ao auge quando o governo maquia índices, fixa preços e despreza o mérito. O triste da história é ver que há pessoas (eleitores) que aprovam essas distorções. Pode ser idiotice de ignorante (eu sou), mas não há possibilidade de se conseguir igualdade entre dessemelhantes. Basta lembrar que as pessoas não tem apenas um nível intelectual e de inteligência. Falando no popular, se há gente burra e gente inteligente, como querer que tenham as mesmas perspectivas de enriquecimento?


Acho que esse texto ficou muito raivoso, truncado e sem graça. Por isso, o título escolhido saiu também sem nenhuma graça e originalidade: Saco Cheio.

VULCANISTAS

Há muito tempo que eu não deixo minha mente dar aquela viajada, pois ela tem andado muito ocupada revirando as lembranças de família para abastecer a seção mais procurada dessa mercearia de bairro pobre que é o Blogson. Por isso, resolvi dar uma folga (para a mente, lógico), para a coitada fazer aquela faxina "pessoal" e depois enfiar o pé na jaca, ou melhor, na estrada. O resultado, bem... Só os 1,8 leitores (estão acontecendo deserções!) poderão avaliar. Por isso, bora lá mochilar.


Acredito que o significado de "alpinista" é uma coisa tranquila para a maioria das pessoas. Alpinista, alpinismo tem a ver com a escalação de picos, escarpas e montanhas que alguns malucos gostam de encarar, daquelas que até lagartixas usariam cinto de segurança para se mover.

Malucos mesmo, pois de acordo com uma estatística que encontrei na internet, "até o final de 2006, 8.030 pessoas tentaram alcançar o topo do monte Everest, sendo que destas 212 não retornaram e 56% delas morreram depois de atingir o cume". Isso sem contar a quantidade de dedos, orelhas e narizes perdidos e amputados em decorrência de congelamento.

Imagino que o mesmo entendimento não aconteça com os termos "vulcanismo", "vulcanólogo" ou "vulcanologista". Vulcanismo, simplificadamente, é o que ocorre com os vulcões em atividade, aqueles mal educados que vivem jogando lava, pedras e gases para fora. Vulcanólogos ou vulcanologistas são os loucos que estudam essa coisa. Procurei também dados estatísticos sobre mortes causadas por vulcões, mas não encontrei nada que interessasse. Só descobri que um vulcanólogo chamado Geoff Mackley passou os últimos 15 anos tentando aproximar-se o máximo possível de vulcões em atividade. O aloprado conseguiu ficar apenas a 27 metros de um desses. Louco de pedra, portanto. E pedra derretida!

Um dos leitores desta bagaça pode estar se perguntando por que eu estaria interessado nesse assunto. Para dizer a verdade, não estou nem um pouco interessado. O que acontece é que surgiu na minha cabeça uma metáfora relacionada a vulcão. Melhor dizendo, um vulcão ativo como metáfora.

Depois de ler alguns textos e ver algumas imagens na internet, fiquei pensando quão estranha é a atração que sentem algumas pessoas por temas, assuntos, palavras ou imagens cruas, transgressoras, desafiadoras, marginais. É como se essa gente gostasse de fazer rapel dentro do cone de um vulcão ativo. E aí me ocorreram dois neologismos para identificar quem se aventura por prazer pelas "entranhas dos vulcões", só para chegar o mais perto possível da "lava incandescente" que são esses temas de altíssima temperatura e potencial capacidade de queimar quem deles se aproxima.

Bem, para simplificar, estou tentando desde o início deste texto criar uma metáfora para as pessoas que se sentem atraídas pelo bizarro, obsceno, vulgar, de gosto duvidoso ou transgressor. Fui claro?

A exemplo dos alpinistas, aqueles que gostam de brincar de lagartixa, de se arriscar a morrer (no sentido literal) só pelo prazer de ter tentado e concluído essas escaladas, fiquei pensando nos "vulcanistas", neologismo que imaginei para identificar o pessoal que sente atração e prazer em mergulhar no "abismo de mil graus" dos temas e imagens provocadoras. Alguns se arriscam tanto a se deixar queimar que eu até os chamaria de "vulcanólatras", viciados mesmo.

O Lou Reed fez uma música cujo título e letra falam muito disso: take a walk on the wild side – dê um passeio pelo lado barra-pesada. Tenho a impressão que fez um contraponto intencional com uma música bem mais antiga, que dizia "life can be so sweet on the sunny side of the street" – a vida pode ser doce (boa) no lado ensolarado da rua.

Não sei o que leva as pessoas a achar graça, a sentir-se atraídas pelo lado mais cru da vida, da sociedade, a preferir o porão abafado ao terraço ensolarado. Não sei, nem me interessa saber, simplesmente porque não me identifico com esse estilo e gosto.

Além do mais, o que teria eu com isso, com essa atração alheia pela antítese de um comportamento mais comedido, mais elegante, menos explícito, menos escrachado, menos escarrado, é a pergunta que se poderia fazer. E a resposta óbvia seria "nada", claro. Mas que é estranho, é.

Alguém disse gostar do estilo leve que adoto para escrever minhas bobagens. Fiquei super feliz com essa avaliação, pois é justamente isso que persigo. Já disse que o Rubem Braga e o Luís Fernando Veríssimo são meus ídolos, mestres em quem tento me espelhar (mesmo que os resultados obtidos estejam a anos-luz de distância desse pessoal). Como sou um caipirão sem cultura, pouco me importa se são ou não os melhores de seu ofício. Para mim, são paradigmas. Por isso, quando tento escrever alguma coisa com leveza ou humor meio non sense é nesse pessoal que estou de olho.

É também por isso que prefiro o lirismo e a leveza da prosa do velho Braga ao texto frequentemente pornográfico de um Bukowski, por exemplo. Questão de gosto, claro. Talvez esse gosto tenha sido moldado ainda na infância, graças à educação repressora que recebi. O que sei é que poderia adotar como minha uma frase que ouvi alguém sensatamente dizer há muito tempo: "eu não converso sobre sexo, eu faço". 

Por isso, apenas por hipótese, se alguém sugerisse que eu escrevesse alguma coisa no estilo "wild side" eu continuaria na minha, mesmo tentado a lhe convencer que o  sutil, o insinuado e o apenas vislumbrado podem ser mais interessantes ou excitantes que o abertamente escancarado. Por ser velho, talvez por ser caipira ou careta, eu prefira mais o "sunny side of the street". 

Então, é onde eu queria chegar (custou!): enquanto alguns se sentem atraídos pelo "interior do vulcão", eu prefiro chegar "só até a borda". Questão de gosto, é claro. E por falar em "gosto", este post ficou com gosto de fundo de gaiola, um lixo total (acho melhor voltar para as memórias...).


https://www.youtube.com/watch?v=_Sr5F4r2Urs

https://www.youtube.com/watch?v=cAfP5BMKgjc

terça-feira, 31 de maio de 2016

EU SÓ QUERIA ENTENDER...

Pelo menos no Brasil, os presidentes presidem, os gerentes gerenciam, os supervisores supervisionam e os chefes chefiam. Além disso, os desenhistas desenham, os escritores escrevem, os atores atuam e os cantores cantam.

Os médicos medicam, os advogados advogam, os pintores pintam e os arquitetos arquitetam. Os  auditores auditam,  os policiais policiam, os inspetores inspecionam e os assaltantes assaltam.

Os trabalhadores trabalham, os teóricos teorizam, os ideólogos ideologizam e os idealistas idealizam. Cada um no seu mister, cada um exercendo sua profissão ou vocação.

Por que então neste país, em vez de simplesmente "politizar ou politicar", boa parte dos políticos teima em só politicanalhar? Eu só queria entender...

sábado, 28 de maio de 2016

AS FILHAS DE JULIETA (E FRANCISCO) - 02 B

Minha mãe morreu com quase 89 anos, vítima de Alzheimer. Talvez tivesse uma propensão genética para sofrer de algum tipo de demência, pois sua mãe morreu com 74 anos, do que na época chamou-se de "arteriosclerose" (ou aterosclerose), quase como um bebê.

Creio que o "start" da doença de Dona Lia aconteceu depois de ter sofrido derrame nos dois olhos, fruto provável de um pico de pressão intraocular em quem nunca sofreu de hipertensão. Aplicações de laser foram feitas para corrigir ou amenizar esse problema, mas nunca mais ela conseguiu enxergar direito. A partir daí, só conseguia ver alguma coisa com a lateral do olho (essa explicação é minha!), pois quando eu chegava perto dela, percebia que estava olhando na direção de uma de minhas orelhas (fáceis de localizar!), em vez de me fitar olho no olho.

Com essa deficiência, ficou impedida de sair sozinha para fazer algum compra pelas redondezas, o que talvez tenha mudado o padrão de circulação sanguínea (minha suposição!). Para mim, essa explicação faz sentido se comparada ao comportamento de minha avó, que disse uma vez já ter trabalhado muito e que "agora queria descansar", o que fazia ao ler os jornais e sei lá mais o que, sentada ou reclinada na cama. Seis anos depois estava morta. A imagem que faço disso é o ato de andar de bicicleta: parou de pedalar, caiu.

Parêntese irresistível: com a Dilma aconteceu justamente o contrário, pois caiu de tanto pedalar (duh!). Fim do parêntese.

Apesar da limitação que a impedia de sair à rua, continuou a cuidar da casa: limpava, cozinhava, lavava roupa e ... pregava botões! Lembrando-me do Djavan, "mais fácil aprender japonês em Braille".

Essa inatividade parcial foi enormemente aumentada quando minha tia Aidê aposentou e mudou-se para a casa que possui ao lado da de minha mãe. Por pena, solidariedade ou falta do que fazer, começou a ajudar Dona Lia nos afazeres domésticos. Olha a bicicleta aí de novo!

O que sei é que a demência instala-se devagar e, no início, provoca surpresa e espanto em quem convive com o doente. Foi o que aconteceu com minha avó, foi o que aconteceu com minha mãe. Como sempre fui um filho displicente e ausente, ia vê-la no máximo uma vez por mês. Minha irmã morava com ela e meu irmão ia toda semana visitá-la. Então, para eles a barra foi muito mais pesada, principalmente para minha irmã.

Quando ainda estava conversando razoavelmente bem, mostrava algum vaso de flor que sempre enfeitava a sala simples e saía esse diálogo:
- "Você viu que bonita aquela flor ali?"
- "Vi, mãe. Muito bonita mesmo!"
- "Sabe onde eu peguei? Na porteira da fazenda do Orlando!"
Orlando era seu primo e já tinha morrido uns duzentos anos antes. E a cada vez que o diálogo se repetia, havia outra flor qualquer, mas a porteira era sempre a mesma.

Às vezes me perguntava se eu já tinha visto a "Dindinha" (sua avó, morta antes de eu nascer). 
-"Não, mãe. Creio que ela saiu ou foi comprar pão". Eu aproveitava para fazer graça para minha irmã: -"Espero não vê-la tão cedo!"

Pode parecer insensibilidade de minha parte, mas eu já era escolado desde a demência de minha avó (já contei esse caso aqui no Blogson). Ao concordar com qualquer sandice que dizia - em vez de tentar corrigi-la - eu estava apenas evitando constrangê-la (e pensar que eu saquei isso quando tinha apenas uns dezesseis anos...). Um dia, entretanto, senti uma pena imensa, quando me disse colocando a mão em minha perna:
- "Sabe, Zé, eu fiquei tão triste outro dia! Eu tentei lembrar meu nome e não consegui!"
- "Preocupa não, Dona Lia, eu também tenho andado muito esquecido, às vezes até esqueço se já almocei ou não!" E fazia algum comentário idiota sobre velhice, tipo -"É, Dona Lia, a senhora está perdida! Seus filhos estão velhos demais!"
Ela ria e respondia que não, que eu estava muito bonito (preciso lembrar que as mães não tem desconfiômetro e que a minha, além de não enxergar direito, já estava caducando).

E a doença foi evoluindo e a confusão mental ficando cada vez maior. Um dia, depois de abraçá-la, ela comentou que "os meninos estavam na escola e não demorariam a chegar". Mas os "meninos" éramos nós! Em outra visita, estando já de saída, dei nela um beijo e um abraço estilo Jotabê (dava nela uma chacoalhada, sempre a tratando por "Dona Lia". Parece que ela achava aquilo o máximo, pois se fingia de zangada, mas ria feliz). Em seguida, fui despedindo-me das demais pessoas que ali estavam - irmã, sobrinho, tia Aidê e cunhado.  Só que minha mulher continuou a conversar com minha irmã. Quando ela finalmente despediu-se de todos, voltei a abraçar minha mãe e a reação foi típica do Alzheimer: - "Ô, meu filho, você chegou?"

Nem todo mundo consegue entender ou aceitar essa falta irreversível de lógica. Meu irmão, teoricamente tão escolado como eu pelo convívio na adolescência com nossa avó, teve um dia a reação mais estúpida que eu jamais poderia esperar dele. Creio que exasperado pelas constantes referências à "presença" de minha avó (falecida em 1972) e da "Dindinha" (morta antes de 1950), colocou minha mãe dentro do carro, veio até Belo Horizonte (minha mãe morava em Lagoa Santa, município da região metropolitana), levou-a ao cemitério do Bonfim e, mostrando o túmulo (onde hoje ela também está) e disse-lhe: 
-"Sua mãe está enterrada aqui!" Preciso fazer algum comentário?

Em uma das últimas vezes que visitei Dona Lia, talvez a penúltima, antes que eu a visse, Tia Aidê comentou que minha mãe apresentava novo comportamento: ficava sentada na beira da cama, virada para a parede, em silêncio e de cabeça baixa. Quando cheguei à porta do quarto, lá estava ela quietinha, olhando para o nada, passando a impressão de que estava muito triste ou deprimida. Chamei por ela, fui logo brincando como antes, mas sua reação foi de apatia e, talvez, indiferença, como se não estivesse me reconhecendo direito.

Ao contrário de sua mãe, que morreu apresentando reações de um bebê, Dona Lia ainda falava e andava na última vez em que estive com ela. Quando cheguei, minha tia avisou que estava deitada. Ao entrar no quarto pude ver que estava acordada e de olhos abertos. Sentei-me a seu lado, falei seu nome (-"E aí, Dona Lia?") e tentei lhe dar a "chacoalhada Jotabê", que tanto a fizera rir satisfeita em outros tempos. A reação que teve foi a que eu menos esperava. Com raiva, exclamou: -"Pára! Você quer me quebrar?"

E eu fiquei ali, constrangido e sem saber o que dizer, mas com a certeza de que não mais conseguiria fazê-la rir ou sorrir ao me ver chegar.

28/05/2016

NO DIVÃ DO FREUDPT

  O ChatGPT é uma IA extremamente dócil, característica que me levou a fazer todo tipo de consultas e solicitações – correção de textos, aná...