Há muito tempo que eu não
deixo minha mente dar aquela viajada, pois ela tem andado muito ocupada revirando as
lembranças de família para abastecer a seção mais procurada dessa mercearia de
bairro pobre que é o Blogson. Por isso, resolvi dar uma folga (para a
mente, lógico), para a coitada fazer aquela faxina "pessoal" e depois enfiar o pé na jaca, ou
melhor, na estrada. O resultado, bem... Só os 1,8 leitores (estão acontecendo
deserções!) poderão avaliar. Por isso, bora lá mochilar.
Acredito que o significado
de "alpinista" é uma coisa tranquila para a maioria das
pessoas. Alpinista,
alpinismo tem
a ver com a escalação de picos, escarpas e montanhas que alguns malucos gostam
de encarar, daquelas
que até lagartixas usariam cinto de segurança para se mover.
Malucos mesmo, pois de
acordo com uma estatística que encontrei na internet, "até o final de 2006,
8.030 pessoas tentaram alcançar o topo do monte Everest, sendo que destas 212
não retornaram e 56% delas morreram depois de atingir o cume".
Isso sem contar a quantidade de dedos, orelhas e narizes perdidos e amputados
em decorrência de congelamento.
Imagino que o mesmo
entendimento não aconteça com os termos "vulcanismo",
"vulcanólogo" ou "vulcanologista". Vulcanismo,
simplificadamente, é o que ocorre com os vulcões em atividade, aqueles mal
educados que vivem jogando lava, pedras e gases para fora. Vulcanólogos ou
vulcanologistas são os loucos que estudam essa coisa. Procurei
também dados estatísticos sobre mortes causadas por vulcões, mas não encontrei
nada que interessasse. Só descobri que um vulcanólogo chamado Geoff Mackley
passou os últimos 15 anos tentando aproximar-se o máximo possível de vulcões em
atividade. O aloprado conseguiu ficar apenas a 27 metros de um desses. Louco de
pedra, portanto. E pedra derretida!
Um dos leitores desta bagaça
pode estar se perguntando por que eu estaria interessado nesse assunto. Para
dizer a verdade, não estou nem um pouco interessado. O que acontece é que
surgiu na minha cabeça uma metáfora relacionada a vulcão. Melhor dizendo, um vulcão
ativo como metáfora.
Depois de ler alguns textos
e ver algumas imagens na internet, fiquei pensando quão estranha é a atração
que sentem algumas pessoas por temas, assuntos, palavras ou imagens cruas,
transgressoras, desafiadoras, marginais. É como se essa gente gostasse de fazer
rapel dentro do cone de um vulcão ativo. E aí me ocorreram dois
neologismos para identificar quem se aventura por prazer pelas "entranhas
dos vulcões", só para chegar o mais perto possível da "lava
incandescente" que são esses temas de altíssima temperatura e
potencial capacidade de queimar quem deles se aproxima.
Bem, para simplificar, estou
tentando desde o início deste texto criar uma metáfora para as pessoas que se
sentem atraídas pelo bizarro, obsceno, vulgar, de gosto duvidoso ou
transgressor. Fui claro?
A exemplo dos alpinistas,
aqueles que gostam de brincar de lagartixa, de se arriscar a morrer (no sentido
literal) só pelo prazer de ter tentado e concluído essas escaladas, fiquei
pensando nos "vulcanistas",
neologismo que imaginei para identificar o pessoal que sente atração e prazer
em mergulhar no "abismo de mil graus"
dos temas e imagens provocadoras. Alguns se arriscam
tanto a se deixar queimar que eu até os chamaria de "vulcanólatras",
viciados mesmo.
O Lou Reed fez uma música
cujo título e letra falam muito disso: take a walk on the wild side –
dê um passeio pelo lado barra-pesada. Tenho a impressão que fez um contraponto
intencional com uma música bem mais antiga, que dizia "life can be so
sweet on the sunny side of the street" – a vida pode ser doce (boa) no
lado ensolarado da rua.
Não sei o que leva as
pessoas a achar graça, a sentir-se atraídas pelo lado mais cru da vida, da
sociedade, a preferir o porão abafado ao terraço ensolarado. Não
sei, nem me interessa saber, simplesmente porque não me identifico com esse
estilo e gosto.
Além do mais, o que teria eu
com isso, com essa atração alheia pela antítese de um comportamento mais comedido,
mais elegante, menos explícito, menos escrachado, menos escarrado, é a pergunta
que se poderia fazer. E a resposta óbvia seria "nada",
claro. Mas que é estranho, é.
Alguém disse gostar do
estilo leve que adoto para escrever minhas bobagens. Fiquei super feliz com
essa avaliação, pois é justamente isso que persigo. Já disse que o Rubem Braga e o Luís Fernando Veríssimo são meus ídolos, mestres em quem tento me espelhar
(mesmo que os resultados obtidos estejam a anos-luz de distância desse
pessoal). Como sou um caipirão sem cultura, pouco me importa se são ou não os
melhores de seu ofício. Para mim, são paradigmas. Por isso, quando tento
escrever alguma coisa com leveza ou humor meio non sense é nesse pessoal que
estou de olho.
É também por isso que
prefiro o lirismo e a leveza da prosa do velho Braga ao texto frequentemente pornográfico de um Bukowski, por exemplo. Questão de gosto,
claro. Talvez esse gosto tenha sido moldado ainda na infância, graças à
educação repressora que recebi. O que sei é que poderia adotar como minha uma frase
que ouvi alguém sensatamente dizer há muito tempo: "eu não converso sobre
sexo, eu faço".
Por isso, apenas por hipótese, se alguém sugerisse que eu escrevesse alguma coisa no estilo "wild side" eu continuaria na minha, mesmo tentado a lhe convencer que o sutil, o insinuado e o apenas vislumbrado podem ser mais interessantes ou excitantes que o abertamente escancarado. Por ser velho, talvez por ser caipira ou careta, eu prefira mais o "sunny side of the
street".
Então, é onde eu queria chegar (custou!): enquanto alguns se sentem atraídos pelo "interior do vulcão", eu prefiro chegar "só até a borda". Questão de gosto, é claro. E por falar em "gosto",
este post ficou com gosto de fundo de gaiola, um lixo total (acho melhor voltar para as memórias...).
https://www.youtube.com/watch?v=_Sr5F4r2Urs
https://www.youtube.com/watch?v=cAfP5BMKgjc